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Reconcilier activité de penser et activité de connaître

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CUIDADO METODOLÓGICO: signo crucial da qualidade
Pedro Demo*

Resumo: O texto realça a relevância da metodologia científica, tanto no processo de produção, quanto no processo de formação do conhecimento. No que concerne à produção do conhecimento, sua importância aponta para a qualidade científica, que facilmente pode ser mostrada nos grandes clássicos: todos se preocuparam com a questão da cientificidade. No que concerne à formação, saber construir conhecimento como qualidade formal e política redunda em aprimoramento visível da autonomia, um dos horizontes mais importantes do conhecimento da história humana. Assim, para construir conhecimento com qualidade, é crucial preocuparse com a sua cientificidade, no sentido da capacidade de questionar, mas principalmente de se auto-questionar. Palavras-chave: metodologia científica, conhecimento como autonomia, construção de conhecimento, qualidade formal e política, saber pensar.

Grandes autoras/autores sempre tiveram cuidado metodológico acurado. Lévi-Strauss (1967, 1976) escreveu dois volumes sobre suas preocupações metodológicas, para discutir as razões que tinha para considerar suas pesquisas etnográficas como ciência. Durkheim (1901) escreveu sobre as “regras do método sociológico”, preocupado em fazer da sociologia proposta científica. Weber (1972) desenvolveu a “sociologia compreensiva”, para fundamentar que caberia à Sociologia
* Professor do Departamento de Sociologia da UnB. Artigo recebido em 24 mai. 2003; aprovado em 30 ago. 2003.

Sociedade e Estado, Brasília, v.n. 17, p. 349-373, jul./dez. 2002 Sociedade e Estado, Brasília, v. 17, 2, n. p. 2, 333-348-126,

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Pedro Demo

método próprio de investigação, no qual coincidiria a condição de sujeito com a condição de objeto. Foram notáveis as preocupações de Marx em torno da meta de fazer de sua empreitada plataforma reconhecidamente científica, construindo a idéia de “materialismo dialético”, ao lado do materialismo histórico. Em seu “testamento metodológico” na Contribuição para a Crítica da Economia Política (1973), empregou esforço específico para mostrar como procedia para montar sua teoria da história e da gênese do capitalismo, aproximandose fortemente de paradigmas que hoje talvez anotássemos como positivistas, em particular pela insistência na dialética “objetivista” (Demo, 1995, p. 104-121). Engels (1971), no afã de fundamentar o “socialismo científico” contra o “socialismo utópico”, argumentava que a base da cientificidade estaria na análise objetiva da infraestrutura econômica, fundamento da superestrutura das idéias, políticas, morais e utopias (Gorender, 1999). É também muito conhecido o esforço quase obsessivo de Freud de dotar a psicanálise de bases científicas adequadas, apelando sempre para procedimentos experimentáveis, a ponto de supor que em toda neurose devesse ocorrer alguma seqüela física no cérebro (Fachini, 2001; McNamee & Gergen, 1998; Neuburger, 1999). O exemplo mais convincente, entretanto, é a Escola de Frankfurt, para a qual a preocupação metodológica talvez tenha sido seu signo maior, em particular com a disputa sobre o positivismo (Adorno, 1972. Wellmer, 1969). A teoria crítica notabilizou-se não só por ser teoria alternativa, mas sobretudo por ser olhar metodológico alternativo, contestando radicalmente a visão positivista e empirista que reduz a realidade ao que os métodos lógicoexperimentais captam (Freitag, 1986). Santos (2002, p. 25), em obra recente, sublinha de modo sucinto e certeiro esta mensagem: “A afirmação fundamental do pensamento crítico consiste na asserção de que a realidade não se reduz ao que existe”. Neste texto busco traçar argumentação em favor da importância do cuidado metodológico na formação científica e acadêmica em geral, reforçada hoje por olhares epistemológicos atuais, muitos dos quais se querem “pós-modernos”, recaindo em modismos fáceis, mas contendo, mesmo assim, pistas muito interessantes de reconstrução dos ambientes que se querem científicos. De certa maneira, sugere-se
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sempre ligado ao compromisso de fazer da ciência e sobretudo de seus métodos perspectiva emancipatória. 349-373. 17. 1973) ou Sociedade e Estado. de fazer ciência (Harding. 2002 . 1995. Brasília. jul. antes de tudo. 1998). No espaço de um artigo não se pode dar conta de tamanha pretensão. leituras apressadas. ressalto a autoridade do argumento. preferindo. como foi Feyerabend (1977. continuam não menos ideológicas. 1979). o positivismo teria se saído bastante mal. estruturalistas e qualitativos. 2. Prigogine. a habilidade de fundamentar com coerência e consistência a textos epistemologicamente despreocupados. Em termos práticos. v. as disputas acadêmicas eram marcadamente “ideológicas”. n. tomadas parciais de autores e teorias. sobretudo tomando em conta sua tessitura polêmica. 2001) e de certa maneira penetrou nas ciências naturais após a proposta de Prigogine sobre o resgate da “dialética da natureza” (Prigogine & Stengers. Nesta polêmica. em desfavor do argumento de autoridade. 1997. e toda forma de superficialidade na produção científica. Definindo “Cuidado Metodológico” Tempos atrás. libertadora (Phillips. ostensivamente. dialéticos e positivistas. 1996. Esta noção já apontara em metodólogos de tendência anarquista. Reconhece-se. dicotomias banais. pois. Já não nos preocupa tanto se alguém é “positivista”. que é possível produzir ciência através de inúmeros métodos e teorias. ou seja./dez. na acuidade epistemológica. porque estes. 1996.Cuidado Metodológico: signo crucial da qualidade 351 que a qualidade acadêmica de qualquer proposta está. Demo. não podem substituir ou subverter o cuidado com os fins. Hoje. tipicamente colonialista. 1997). na preocupação com a possibilidade do conhecimento e da captação da realidade. dividindo marxistas e anti-marxistas. desde que apresente produção científica própria de qualidade aceitável. sendo tipicamente instrumentais. De Landa. p. A “ditadura do método” é hoje patrimônio difundido nas ciências sociais (Morin. evidências empíricas. em parte porque representa o estilo “eurocêntrico”. mas o enfoque é outro. Não faremos mais que introduzir a questão do cuidado metodológico e que defino como a preocupação sistemática em torno da cientificidade do que se produz. O cuidado metodológico evita certezas.

Brasília. 2002 . não de alinhamentos convergentes (Habermas. Collins (1998). nos quais os consensos são produto da divergência democrática e bem fundada. 2. A ciência medra melhor em ambientes questionadores. porquanto conhecer é principalmente questionar. n. 349-373. Muitos aceitam sem mais que a tese marxista da “determinação do econômico em última instância” é excessivamente linear. talvez como conseqüência relativa da tese da “mudança de paradigma” preconizada por Kuhn (1975): preferimos departamentos universitários mais pluralistas. nas quais era possível confrontarse com visões consideradas errôneas. reconhecidamente eficazes em século e meio de história (Mészáros. exigindo sua desconstrução. chegou à conclusão de que a China não conservou a dianteira que tinha à época do surgimento da ciência na Europa porque estava envolvida. mas acredita-se que todo paradigma. O cuidado metodológico tomou. 1996) e parceiro da censura. cujo poder explicativo estaria possivelmente mais na simplificação excessiva. que colocou solenemente a Sociedade e Estado. entretanto. ao imaginar “ciência sem leis”. que jamais poderia ser encerrada em teorias e métodos únicos.1 Parece claro que o métier científico supõe liberdade de expressão. notar que esta liberdade de expressão é muitas vezes negada para os outros. Interessante. 1983. Enquanto isso. proliferavam na Europa cidadesEstado. afirmar. constatar. 1989).352 Pedro Demo de Giere (1999). também o petrifica e “oficializa”. como aquela que via a Terra como centro do Universo. porque isto corresponde melhor com a complexidade não linear da realidade. outra direção. pluralistas. não verificar. ainda. Assim como foi pensado a partir de Descartes. do que na acuidade interpretativa (Habermas. 1993). tipicamente contestatórias. Quem sabe pensar nem sempre aprecia que outros saibam pensar. pois. Conhecimento sempre foi na história humana também objeto proibido (Rescher. 2002). ao mesmo tempo que contribui para a institucionalização do conhecimento científico. Não deprecia esta posição o mérito da teoria e do método marxista. estudando ambientes científicos prévios à modernidade eurocêntrica. 1987. Shattuck. v. como até hoje. jul. Wright. p. 17. Ocorreu. alguma evolução./dez. em regimes centralizados que dificultam a fermentação do espírito crítico. se é que esta existe. revelando que o conhecimento científico está sempre mais próximo do poder do que da verdade.

o que teria ficado para trás era aquela eternidade esotérica. A realidade é aquela que o método imagina captar./dez. senso comum. sabedorias. Brasília. 1997. ou devassar a realidade em seus arcanos mais profundos e definitivos. filosofia. 1997a). A ciência moderna derrubou todas as autoridades vigentes e fez-se “a” autoridade. entre outras coisas. surgiram atualmente as discussões multiculturais. já que. 2000). Havia nesta idéia algo pertinente: retirar a ciência da sacristia. comandada por referências transcendentais como teologia. 17. v. Alguns teóricos preconizaram método próprio para as ciências sociais.Cuidado Metodológico: signo crucial da qualidade 353 “questão de método”. Imaginava-se que. 1996. do que à autoridade do argumento. jul. o eurocentrismo é incapaz de praticar a “standpoint epistemology” (epistemologia culturalmente plantada. fazendo-se de mero meio fim de tudo. 2. entrando em seu lugar outra eternidade da ciência como tábua de salvação natural. pretensão típica do modernismo assumida pelas ciências naturais. religião. do outro mundo. O cuidado metodológico encerrava-se na visão de que fazer ciência seria basicamente questão de método e que este seria lógicoexperimental. em particular no liberalismo capitalista (Jameson. como Weber e a teoria crítica. Este projeto não se completou. ao final do percurso (método é caminho). substituindo uma transcendência por outra. Desta “boa intenção” metodológica. já que interpretamos de dentro para fora inevitavelmente. tendo como um dos frutos mais interessantes “reconhecer para libertar”. A unicidade da ciência ao estilo positivista detém reducionismo violento. pareceria unificar definitivamente a ciência. prometendo. 2002 . 1989. n. Como afirma Harding (1998). p. 349-373. ainda que este intento. todas mais presas ao argumento de autoridade. não se efetive propriamente. entretanto. imbuída de universais eternamente válidos. ou multicultural): não consegue interpretar o outro a partir do outro. tornando o método não caminho para a construção aberta do conhecimento. poderíamos encontrar a verdade. a emancipação da humanidade. como quer Santos (2003). como não cansa de asseverar Habermas (1982. e segundo muitos outros autores é impraticável na visão eurocêntrica de mundo. Sachs. mas beco sem saída. Esta reservou a dialética apenas para Sociedade e Estado. naturalmente.

pois. Nossas máquinas ainda não sabem pensar semanticamente falando. mas a preocupação pluralista em torno da busca da realidade. 349-373. que possuem sua sabedoria no trato das emoções humanas. hoje bem mais perceptível por conta do ciberespaço. considerada apenas aproximativa. apresenta-se como construção humana interpretativa e não pode ser fechada em sistema peremptório e linear (Hofstadter. viria da lógica dialética. O que poderia unificar a ciência não são propostas unitárias. nenhum método e nenhuma teoria podem ser considerados mais que simples instrumentos. 1999. Brasília. Prigogine. Penrose. Varela. não como razão de ser (Demo. 2003. v. jul. 2002 . n. mas como instrumento. à medida que Sociedade e Estado. sempre incompletos. 2001). se houver unidade da ciência. embora possam desempenhar-se bem ao nível sintático. Descobriu-se que saber pensar precisa de método claramente. como são os procedimentos de computação (Dreyfus. o que tem levado. p. 1994). 1999). lançando polêmica furiosa em torno da demarcação científica. Por supina ironia. à medida que se superou a noção de inteligência como apenas lógica. prêmio Nobel. para atingir graus maiores de liberdade de expressão (Satinover. para aludir a este tipo de perspectiva (Dalai Lama & Goleman. reconhecendo-se a complexidade não linear ambivalente da realidade (Demo. ao contrário da história anterior. também deixou seu traço profundo nesta discussão. A discussão acalorada em torno da “inteligência artificial” também contribuiu para este tipo de abertura. seqüencial. porque mostrou que a própria matemática. Por isso. algorítmica. 1997. não da lógica analítica. O teorema da incompletude de Gödel foi passo extraordinário nesta direção. mas que. 2001). a partir de certo nível de elaboração. reversível. cientistas ocidentais a procurar contato com culturas alternativas. sendo talvez necessário perscrutar os mistérios da física quântica. 2002). 2000). 17. aceita-se que todo ser humano pode saber pensar. sem ter formação científica específica. foi reconduzida ao debate por um químico e matemático. desfazendo a pretensão anterior marxista da “dialética da natureza”. 2./dez. O que estou chamando aqui de outra direção não é propriamente a idéia de que métodos mais usados nas ciências sociais seriam agora “o” paradigma global. por exemplo. de captação.354 Pedro Demo fenômenos histórico-sociais. Varela & Hayward. O fenômeno da “virtualidade”. como as orientais.

a história chegaria talvez irreconhecível. não se esgota no que existe (Kaku. a visão da complexidade ou do caos estruturado parece estar se impondo (Demo. assim. 2. não se compondo inteiramente com expectativas lógicas (Haack. para tentar fundamentar que esta complexidade poderia ser tratada pelo mesmo método unitário. 2002. evoluiu para o reconhecimento de que em face da realidade complexa não linear ambivalente. Entretanto. Nossas tecnologias são lineares e assim as queremos. Gribbin. 2002 .Cuidado Metodológico: signo crucial da qualidade 355 garante como presente algo que não é físico: o mundo virtual não é físico. Para a “res extensa” de Descartes. 349-373. que contasse para a número dois. Persiste a pretensão de unificar pela via das ciências naturais. jul. desde matemática e física. a face histórica e criativa. emergente. passando pelas ciências sociais. 2000. nas “estruturas dissipativas” (Prigogine. certamente. Se reuníssemos./dez. v. 20 pessoas em torno de mesa redonda e contássemos para a número um uma história. 1998). o que une é a mesma busca. reconhecendo-se que a realidade é dinâmica sobretudo não linear e ambivalente. 2001). Holland. como queria a teoria crítica. n. Entretanto. p. e vamos aos poucos admitindo que a realidade. Morin. até a número 20. ou na perspectiva fortuita. casual. Moles. mas jamais o mesmo encontro. culturais e mesmo espirituais. 1996). Mas todos já nos acomodamos com esta idéia. Esta mesma expectativa existe com respeito ao computador: não estamos propriamente interessados que ele “interprete” nossos textos. Ao contar uma história. e aparece na noção de que o caos seria “estruturado” – em toda desordem existe alguma ordem e vice-versa. mas é real. 2002. mas apenas que processe e armazene. 1995. O lado linear existe. Esta outra direção. passamos a fazer Sociedade e Estado. 1998). Prigogine. para serem confiáveis: ninguém viajaria em avião não linear. Neste contexto. Um dos esforços recentes nesta linha é a “consiliência” de Wilson (1998): repassa praticamente todos os ramos do conhecimento. da realidade comparece em processos desalinhados. persistem também as esperanças da “everything theory” (teoria de tudo). 2002). Gribbin. 17. capaz de ser arranjada em fórmula matemática única (Barrow. seria heresia. resgatando o sonho moderno de que a realidade seria complexa apenas na superfície. o método analítico descobriria a realidade absolutamente simples. ao fundo. 1996. Brasília. porquanto não sabemos apenas “reproduzir” a história. 1994. a título de exemplo.

Nem todo positivismo esposa a banalidade da evidência empírica. n. 2. porque a interpretação é naturalmente auto-referente. Segundo Maturana (2001. Brasília. Norretranders (1998) sugere que “o mais é diferente”. a reconstruímos na condição de sujeito comunicativo. porque se desfez a expectativa clássica da “evidência empírica”. pois não é figura “autopoiética”. reversível). tipicamente não linear. ainda comum em processos empiristas e positivistas de pesquisa. para além de qualquer alinhamento causal. “força geológica”. não de sua generalização indutiva. para designar que todo ser vivo funciona de dentro para fora. não apenas maior. porque o cérebro não acessa diretamente a realidade. v. Sociedade e Estado. Acabamos fazendo alguma distinção relativa na prática humana. aparece como predominante sobre o espaço sintático. mas pela via da interpretação subjetiva. Maturana e Varela (1994) conceberam a categoria da “autopoiese”. Sendo o computador apenas sintático (algorítmico. Esta não se impõe de fora. ou seja. jul. em ambiente novo ou hostil. 1995. 2002 . 349-373. não entende a semântica. seqüencial. O desafio epistemológico tornou-se. para aludir a dois horizontes entrelaçados e bem diferentes da dinâmica cerebral. 2000a).356 Pedro Demo parte dela como intérprete. O que entra no cérebro. As/os biólogas/biólogos incrementaram sobremaneira esta discussão metodológica. não tem como distinguir definitivamente entre realidade e alucinação. mais contundente./dez. como diz Klein (2002). Demo. o sujeito cognitivo. sempre inviável prática e logicamente (Demo. O cérebro é tipicamente entidade complexa não linear. 17. a rigor. como foi o caso notório de Popper (1959) e sua proposta da falsificabilidade: esta precisa apenas de um caso empírico negativo. p. como é o caso do ser humano que acabou tornando-se. produzindo saltos tipicamente não lineares: pareceria que o depois é bem diferente do antes. na qual sempre aparecem padronizações consideradas normais. assim. como sujeito que reconstrói a realidade. a começar por ser base física que gera fenômenos não físicos. falando-se hoje abertamente de epistemologia biológica. não se acomoda passivamente. mas consegue elaborar resposta reconstruída e por vezes mesmo impor-se ao contexto. Como falam Edelman & Tononi (1999) a “matéria se torna imaginação” pela via da emergência. entra por dentro e é por isso que o ser vivo. 2002). A dimensão semântica.

é capaz de perscrutar naturalmente as entrelinhas. porque. 17. reduz a realidade a invariantes metodicamente manipuláveis. e que aparecem em processos mais profundos de aprendizagem. desfez-se a noção de que. etc. é de impor uma ordem à desordem por iniciativa do sujeito interpretativo. mas a regularidade da dinâmica. Perante o desconhecido. Sociedade e Estado. as insinuações. e chamamos a isto de teoria. lógico. como procedimento metodológico fundamental. quando brincam todos os dias com outras. os silêncios. Segundo biólogas/biólogos. recorrente. por esta via. e a terceira. Por exemplo. as ausências. Não conseguimos produzir idéia caótica de caos. no fundo. p. 349-373. entendemos melhor o que se apresenta como linear. 2. De fato. os meneios. recorrente. embora. Talvez a face mais visível desta aprendizagem não linear compareça na comunicação humana: tipicamente ambivalente (entender-se e desentender-se são sempre possíveis). analisando a realidade da superfície para suas profundezas. bem como imaginava Lévi-Strauss. por isso. de estilo emergente e não linear. Formalizar é o procedimento crucial (Demo. o cérebro humano procede de modo ambivalente. estudo sistemático.Cuidado Metodológico: signo crucial da qualidade 357 De todos os modos. sendo idéia. 2002 . não entendamos a dinâmica. é máquina padronizadora. De outro. Brasília. sobretudo se as duas anteriores não se mostrarem aptas. De um lado. composta de linhas de força nas quais não falta a dimensão do poder. sem terem noção de lógica. gramática. a segunda reação é a de ressaltar o que haveria de repetido. ressaltando neles suas invariantes (Demo. familiar. jul. o cérebro possui mistérios pouco perceptíveis ainda. porém. v. quando sugeria que a atividade do espírito é a de impor formas a conteúdos. crianças aprendem rapidamente língua estrangeira. lá embaixo encontraríamos algo simples e que teria explicação simples. o ser humano tem como primeira reação procurar o que haveria de conhecido. n. sobretudo mamíferos: aprendem sem estudar e tornam-se autônomos (ou morrem). Ocorre o mesmo com animais. 1995). postulando confluência não problemática entre epistemologia e ontologia. A matemática aparece. Parece ser esta a via própria do conhecimento científico: fincado na lógica e no experimento testável. tem contornos ordenados./dez. 2001a). etc.

entretanto. p. não apenas logicamente (não se pode afirmar que “tudo é relativo”). porque a sociedade possui nítida vigência histórica precisamente em sua relatividade. o cuidado metodológico precisa ser redobrado. procurando-se avaliar o que se capta e o que se deturpa no processo de reconstrução da realidade. n. toma todo sentido outra direção: sendo tão complexo captar a realidade complexa. Não havendo confluência não problemática entre epistemologia e ontologia. Canguilhem. 1973. com afinco inaudito. A lógica é naturalmente circular (Lyotard. Appel. De fato. porque sendo forma reversível. a figura de Bachelard tornou-se emblemática por ter mostrado. 2002 . o quanto é fundamental preocupar-se com o processo de construção do conhecimento. 1995) refez mais recentemente este caminho. Brasília. 2003). por admitir apenas processos relativos (incompletos e transitórios) não é “relativista”. 1989). a possibilidade do conhecimento não se desfaz.358 Pedro Demo Certas correntes do pós-modernismo retiram desta ambivalência não linear conclusões relativistas que introduzem na metodologia a zorra irrefreável (Sokal & Abricmont. O relativismo é incoerente. v. mas sobretudo socialmente. Esta parte do pós-modernismo é trivial e no fundo irresponsável metodologicamente. os universais do conhecimento eurocêntrico são sobretudo “eurocêntricos”. Se esta direção não faz sentido. própria de todo ato interpretativo (Gadamer. 349-373. jul. mas sobretudo com base no auto-questionamento. dentro do que se tem chamado de circularidade hermenêutica. não só com base no questionamento impiedoso como fez o modernismo. A história. já que as validades não podem excluir as facticidades (Habermas. 1997. 17. ou sua “multiculturalidade” (Santos./dez. não adere a conteúdos e por isso não faz história. 2000a). 1997. 1977). pois vale concretamente. Para definir conceitos é inevitável lançar mão de conceitos ainda não definidos. reclamando do excesso no corte Sociedade e Estado. como vale nossa vida finita. Demo. 2. Qualidade metodológica Na história da metodologia científica. 1997a). 2000. com base principalmente no “corte epistemológico” (1971. 1999. 2001). mas precisa ser vista. Santos (1989.

349-373. quando o CNPq resolveu instaurar o Programa de Bolsas para Iniciação Científica (PIBIC). sobretudo no plano positivista. tanto no sentido pessoal (como cada qual se ajeita frente ao desafio epistemológico). jul. assumindo duplo valor: pesquisa é ferramenta essencial para fabricar conhecimento com mão própria. Tapscott. n. 1998). ou seja. certamente não faz ciência. da qualidade metodológica. porque o mistifica. mas é igualmente estratégia pedagógica imprescindível para a formação propriamente dita da/do Sociedade e Estado. em duplo sentido: ou não faz ciência. ou não faz ciência. não apenas escutar aulas. fazendo-o pesquisar e elaborar. 2002 . 17. Com isto. por conta de sua tessitura autopoiética (Maturana. o mero ensino de fora para dentro. porque torna-se capaz de superar o “instrucionismo”. já não vale mais nada). v. porque o ser humano não pode. p. 1999). porque não sabe tratar o método. cabe reconhecer que Bachelard consagrou a noção de que a qualidade do conhecimento depende. Entre nós ocorreu evolução recente das mais interessantes. antes de tudo. Por “qualidade metodológica” 2 podemos entender o cuidado investido na reflexão e na prática do conhecimento. Estando a coerência da crítica na autocrítica – sobretudo para superar a contradição performativa – é fundamental construir postura ao mesmo tempo crítica e autocrítica. A aprendizagem correta é a reconstrutiva política. que põe a/o aluna/aluno no centro das atenções. ser instruído. Assim mesmo. Edelman & Tononi. Quem não pára para pensar e repensar sobre como faz ciência. para repor a importância do que se tem visto sempre como rejeito científico. quanto para não enredar-se nas banalidades do pós-modernismo (por ser tudo tão relativo. Foram na verdade sobretudo biólogas/biólogos que se voltaram contra o instrucionismo. 2. treinado./dez.Cuidado Metodológico: signo crucial da qualidade 359 epistemológico e sugerindo um segundo corte. tanto para evitar os becos sem saída do modernismo (na sombra da autoridade do argumento. Brasília. inclusive o senso comum. quanto no sentido intersubjetivo (como a “comunidade científica” discute e questiona o conhecimento científico). tomar nota e fazer prova. 2001. pesquisa passou a ser vista como “ambiente da aprendizagem”. 2000. quer dizer. Hoje estamos seguros de que este aluno que pesquisa é quem verdadeiramente aproveita os cursos (Calazans. em si. recriar o argumento de autoridade). saberes alternativos.

No plano da qualidade formal está em jogo a habilidade metodológica mais que tudo. A influência que a/o professora/professor exerce deve poder libertar. pode acolher outras evoluções dinâmicas. Por certo. v. 349-373. n. que sabe usar a “vantagem comparativa” mais decisiva hoje. tenderia a ser “castradora”. O fato de que a universidade de Sociedade e Estado. 2002a). mas é ainda alicerce substancial da cidadania bem plantada. 1994). Resultado mais fundamental disso pode ser que comece a diferenciar níveis distintos de qualidade do conhecimento disponível. quando colocava com grande força a politicidade da educação (Demo. jul. porque subserviente ao mercado. contendo sempre o lado de cima para baixo./dez. Observando de perto. O processo de pesquisa é apto a desenvolver o espírito crítico e a autonomia. também de baixo para cima e de dentro para fora. Para tanto. p. toda influência. saindo da posição de quem apenas adquire. recebe pela via da reprodução. 1999). desde que a/o professora/professor aposte na autonomia da/do aluna/aluno. aprende a preocupar-se com metodologia científica. no eco de Paulo Freire. Reclamava aquela influência não linear. teorias mais e menos consistentes. 2002 . impulsionando especialmente o saber pensar (Demo. Brasília.360 Pedro Demo aluna/aluno. não apequenar. atividades como pesquisa e elaboração própria parecem ser decisivas. que é conhecimento crítico e criativo (Diamond. 17. porém. Dizia ele enfaticamente: a/o boa/bom professora/professor é quem influencia a/o aluna/aluno de tal modo que este não se deixe influenciar. Mas. complexa. No plano da qualidade política trata-se de saber usar conhecimento para as mudanças que a sociedade requer. Normalmente. 1996. táticas mais e menos sustentáveis de produção e tratamento de dados. elaborações mais e menos originais dentro das polêmicas vigentes. mas detém mensagem das mais potentes: talvez a maneira mais efetiva que temos de poder mudar a história. sendo igualmente dinâmica não linear. é a capacidade de reconstruir conhecimento com qualidade formal e política. em especial para que seja história própria individual e coletiva. 2. este contexto está marcado profundamente pelo cuidado metodológico. capaz de ser sustentáculo da emancipação. À medida que a/o aluna/aluno é levado a “fazer” conhecimento. dialética. Vantagem comparativa é termo dúbio. saber pensar não implica apenas a reconstrução do conhecimento.

este reducionismo é natural. em parte. Explicar é inapelavelmente também simplificar. já que é marcado pela formalização metodológica. Conhecimento repassado. Embora este tipo de aprendizagem não seja exaustivo. Assim. armazenado. assim como é mister ver nas teorias um modelo simplificado. Aceitando-se que a realidade seja complexa não linear. úteis para facilitar o manejo categorial. verificar. 2002 . afirmar. um resultado teórico e metodológico. mas possivelmente estranhas à dinâmica complexa não linear. não a podemos acomodar por inteiro em nenhuma teoria e nenhum método a capta satisfatoriamente.3 é imprescindível que seja bem feito. transmitido já é apenas informação. 17. 2001). 349-373. Formalizar é sempre também alinhar. seja unidade de contrários. Alinhando realidades não lineares. também para que possa aceder a financiamentos consideráveis. estabelecendo ambiente de dinâmica constante. mas sempre provisoriamente (Demo. Como potencialidade disruptiva só existe na dinâmica e é por isso que pesquisa passou a ser chave da aprendizagem adequada. reconstrói o conhecimento. pode ser reproduzido. Ao ordenar a realidade. v. porque a força a caber em estruturações metódicas. 2000)./dez. Referência importante da qualidade metodológica é a polêmica em torno do reducionismo do conhecimento. as reduzimos a expectativas de ordenamento que podem ser muito mais nossas do que da realidade. Ocorre que a importância do conhecimento está em sua potencialidade disruptiva: sua qualidade mais profunda não é constatar. Aí. reconhecemos que o intento de formalização metodológica exerce sobre a realidade alguma violência analítica. a artificializamos também. não retira o argumento (Aronowitz. Brasília. Se apenas complicássemos. Bachelard falava de “demissão teórica”. porque dele não depende apenas o desenvolvimento do conhecimento científico. n. referindo-se ao empirismo e positivismo que Sociedade e Estado.Cuidado Metodológico: signo crucial da qualidade 361 ponta esteja cada vez mais atrelada às forças do mercado. transportado. 2. como anotara bem Foucault com sua idéia da “ordem do discurso” – pode haver aí mais ordem que realidade (2000). p. mas questionar. mas sobretudo a formação autônoma dos alunos. Isto já se aceitava quando víamos em dados um construto. No fundo. jul. Sua dinâmica primeira é desconstrutiva. Na volta. inevitável. teríamos emaranhado ainda mais confuso e ambíguo.

não pode ser critério peremptório. 17. 1995. Somente o que é bem feito pode ser bem discutido. 349-373. n. 2000a). Hoje. já que. considerado pelo positivismo como invasão indevida. a partir de Foucault e. A validade puramente lógica é fantasiosa. 1998. é possível arriscar dizer que a face política lhe é intrínseca. jul. no fundo. É interessante que esta discussão amadureceu por conta de um autor considerado. no conceito de “dialética da natureza”. para um discurso científico valer. Ao contrário. v. É melhor. 2002 . 2. Porque tudo é discutível em ciência. é mister tanto mais argumentar bem. Esta idéia já está contida. tendo em vista que as bases são sempre facilmente falíveis. ao mesmo tempo. 2002a). sistemático. Antigamente víamos nisso fator externo. não apenas a ilação lógica. imaginando que comunicação Sociedade e Estado. quando já deturpamos mais do que captamos a realidade. Nem de longe resolve tudo. não basta que seja lógico. Demo. Brasília. a demarcação científica passou a considerar como seu critério principal a “discutibilidade” formal e política do discurso científico (Demo. O reducionismo torna-se problema a partir de certo ponto. Precisa ser aceito pela intersubjetividade em jogo. como queria Prigogine. As condições ideais do discurso supõem a liberdade não tolhida de expressão. explicitamente. Habermas. para ser amplamente discutível. p. Como este ponto não pode ser definido adequadamente./dez. intruso. consistente. não quer dizer que qualquer coisa valha. mas apenas relações de coerência. fazê-la bem. porque lógica não estabelece validade histórica. embora não se possa deixar de anotar o quanto continua polêmica. promotor e detrator dela. depois. pois.362 Pedro Demo não se apercebiam de que em suas “evidências” a única coisa mais evidente era o pano de fundo teórico implícito. algo que pareceria facilmente aceitável. com a pesquisa pós-colonialista (Harding. A discutibilidade política aponta para consensos obtidos pela via da negociação aberta. Entretanto. precisa estar bem feito do ponto de vista formal: coerente. após a discussão em torno da politicidade do conhecimento. A discutibilidade formal significa que o discurso científico. mas parece ser o mais congruente com aquele conhecimento que se diz científico porque prefere a autoridade do argumento. Fazemos implicitamente teoria também quando a negamos ou camuflamos. Por coerência. Habermas nega a comunicação estratégica.

Perelman. na mesma casa. Não Sociedade e Estado. mas é a maior e a melhor que temos. 1996. E isto recolocaria outro tema fundamental de hoje: a ética do conhecimento (Demo. definitivo. hoje desvirtuada nas mãos de “políticos” que fazem dela apenas argumento de autoridade (Perelman & Olbrechts-Tyteca. tanto mais formidável porque se constitui em gesto de dentro para fora. coloca-se a necessidade da pesquisa qualitativa. A autoridade do argumento nunca é final. 349-373. a autoridade do argumento é a “violência” que o conhecimento científico possui. mas democráticos. porque não são. 2001). Validade a priori sempre esconde seu dono. Brasília. 2002 . p. A pretensa dedução inevitável do silogismo medieval – argumentar de tal modo que o adversário tenha que capitular – poderia ser superada pela construção de consensos sempre periclitantes. 17. formalmente cuidadosa e politicamente democrática pode ser o móvel mais frutífero de reconstrução de conhecimento científico. parece que a demarcação científica terá que aceitar também critérios políticos. termina. Esta ambivalência reforça tanto mais o critério da discutibilidade: não havendo critério objetivo. como já queria a velha “retórica”. 1996a) se insurgiu contra esta pretensão./dez. sem vencer. Olhando ainda mais a fundo. Não se pode encobrir que o critério da discutibilidade é ambíguo. porque o discurso humano não se dá em situações ideais. Toulmin. jul. Neste horizonte tão complexo. a salvaguarda só pode ser relativa e aparece como vigilância eterna contra deturpações excessivas. n. toda comunicação é também pervadida de influências recíprocas. como toda comunicação humana: nenhuma discussão. 2000). Sfez (1994) chega a falar de “mofo kantiano” para denotar esta impossível assepsia social. A discussão aberta. em si. externos. peremptório. mas em sociedade. v. 1997. de modo algum. Poder não foi introduzido no conhecimento por via artificial. porque seria impraticável argumento final. 2. Trata-se de convencer. porque sempre ambos moraram juntos. na qual. Assim.Cuidado Metodológico: signo crucial da qualidade 363 somente ocorre quando totalmente desimpedida do ponto de vista político. 2001) e que aqui não vamos desenvolver. Sobretudo Bourdieu (1996. sendo campo dialético de força. como proposta de formalização jeitosa para que seja menos deturpante da realidade imprecisa (Salomon.

ao mesmo tempo. participação. é objeto de interpretação – este círculo hermenêutico é inescapável. porque não colhe apenas os lados mais formais. Há aí clara dissonância entre epistemologia e ontologia. De novo. mas pode ser relativamente contornada pela via da formalização flexível. que se mesclem procedimentos hermenêuticos com outros mais formais. O que mudou é o controle. desta diverge profundamente por incluir a qualidade política. 2. p. entre eles a formalização ao mesmo tempo severa e flexível. “Discutível” não significa aqui somente “frágil”. 2002 . o olhar qualitativo não pode desprezar o cuidado metodológico. como se método se fizesse pelo caminho. precisamente porque busca reduzir ao mínimo possível o reducionismo implícito na formalização metodológica. mas quer ir além dela. Não o vemos como carapuça formal. Esta pretensão exauriu-se. mas inclui naturalmente os consensos possíveis com base na autoridade do argumento.364 Pedro Demo substitui a quantitativa. ainda. Embora possa ter parentesco com a falsificabilidade de Popper. 2001b)./dez. Mais que em qualquer outro paradigma. Continua. ou fosse algo secundário e supletivo. 17. obviamente. etc. Por exemplo. ou comparecesse como incômodo indesejável. mas sobretudo critério de demarcação científica. objetiva e neutra. A pesquisa qualitativa é muito mais difícil e complexa. não cabendo qualquer dicotomia (Demo. v. pois. Vemos Sociedade e Estado. corre tanto maior risco de devassidão metodológica. 349-373. para que se possa tornar a discussão mais acessível (Turato. desde que se tenham cuidados metodológicos adequados. O conhecimento científico é científico porque feito sob estratégia metódica controlada. É de bom aviso. já que o reteste se torna impossível (Demo. n. Ao contrário do que por vezes se coloca. 2001a). comunicação humana. ao apostar na interpretação de fenômenos intensos como subjetividade. de pé que ciência é questão de método. é possível. jul. para perscrutar as entranhas intensas da realidade extensa. discutível. a discutibilidade parece ser o contexto mais promissor de demarcação científica. felicidade. a pesquisa qualitativa se põe o desafio de captar com a maior precisão possível o impreciso. Brasília. Entretanto. Toda interpretação.. quantitativa e qualitativa. porque toda realidade social é. 2003). como anota Thompson (1995. 2001) dar sustentáculo científico à interpretação.

Sob a ótica do saber pensar. porque pode contribuir para a predominância da autoridade do argumento sobre o argumento de Sociedade e Estado. a qualidade metodológica pode significar a preocupação em torno da cidadania fundada na autoridade do argumento e que mais facilmente levaria à noção democrática de mudar a sociedade de tal forma que prevaleça o bem comum. Mais facilmente. p. Para concluir O cuidado metodológico desborda a prática clássica dos rigores formais. intensa e livremente comunicado. qualidade metodológica é essencial. 17. atingindo na assim dita sociedade intensiva de conhecimento as raias da paranóia. porque coincide com a condição histórica de sucata. Mas não é o caso abandonar o cuidado lógico.Cuidado Metodológico: signo crucial da qualidade 365 como trabalho intersubjetivo. Hoje isto não basta. jul. O positivismo via nesta apenas a “ditadura do método”. reproduza conhecimento. Brasília. o cuidado metodológico constitui-se em procedimento formativo dos mais indispensáveis. v. 2./dez. dentro de parâmetros naturalmente discutíveis. Formalizar o objeto é ainda preocupação fundamental para a reconstrução do conhecimento. é impossível separar a qualidade metodológica do conhecimento da qualidade humana de quem o faz. Bem considerada. por mais que este olhar continue fundamental. mas com toda a autonomia possível. Este reconhecimento é motivo a mais para rejeitar que na universidade apenas se transmita. a relação intersubjetiva precisa ser democrática. no qual os pesquisadores se controlam mutuamente. 349-373. É preciso fazer conhecimento próprio. sem xenofobia. 2002 . Para tanto. Entretanto. o conhecimento científico faz coro com o liberalismo e sua elite econômica e política. porque sob sua pretensa neutralidade e universalidade escondem-se prepotências predatórias incalculáveis. porque método é meio. A própria história colonialista do conhecimento científico eurocêntrico recomenda não acreditar tanto em método. n. quando passa a servir quase exclusivamente à competitividade globalizada. para que possa prevalecer a autoridade do argumento. Não sendo possível estabelecer nada de peremptório.

tendo em vista que o métier científico se torna. Pesquisa. apanhando aí legado pertinente do pós-modernismo em sua crítica ao colonialismo do conhecimento eurocêntrico. Cuidado metodológico não se encerra na lide científica. aligeirado. como igualmente sua face formativa. religião. 17. Ao mesmo tempo. Assim como é possível a/o engenheira/engenheiro que saiba muita matemática. A prática da pesquisa em alunos (projeto de iniciação científica do PIBIC. 2002 . banalizado. a rigor. não facilitado. contribui para atitude não apenas crítica. mas constitui profundamente o processo formativo de alunas/alunos e professoras/professores. é vista hoje como ambiente próprio da aprendizagem reconstrutiva política. Brasília. v. Dar conta de realidade complexa não linear reclama habilidade metodológica à flor da pele. A arte de saber pensar é em grande parte a arte da cidadania. todas as instituições humanas estão enraizadas na necessidade de prover base firme e estável para as interações sociais. Cursos que não acentuam o cuidado metodológico facilmente se perdem em ativismos ou em coletas justapostas de teorias e métodos. Preferir a autoridade do argumento ao argumento de autoridade pede não só competência metódica./dez. cada dia mais. 349-373. assim considerado. perdendo-se aí por completo a potencialidade disruptiva do conhecimento crítico e criativo. sem a devida reflexão e reconstrução própria. p. costumes sociais. Como sistemas biológicos. n. Os dois casos têm em comum o procedimento reprodutivo. mas. educativa e emancipatória. mas igualmente qualidade política. Possivelmente conhecimento é a moeda principal desta sociedade intensiva de conhecimento. jul. Não pode ser encurtado. mas principalmente autocrítica. Precisa de dedicação metodológica cada vez mais exigente. por isso. Notas 1 “As instituições humanas são inerentemente conservadoras. não sabe pensar. em especial) tem demonstrado não só a importância de ser fazer ciência. mas muito mais pretensioso e complexo. Lei.366 Pedro Demo autoridade. é possível a/o socióloga/sociólogo que viva de indigestão teórica. as sociedades humanas buscam fazer o melhor possível para evitar mutações e guardar as formas básicas intactas (…) Sociedade e Estado. 2.

sem o recurso a formalizações explícitas. one improves the capacity of questioning the world and mainly oneself. the importance of scientific methodology is related to scientifity that can be easily observed in the classics: all of them were worried with issues of scientificity. 2002 . Key-words: scientific methodology. 17.Cuidado Metodológico: signo crucial da qualidade 367 Mas há uma instituição humana que não é conservadora. Sociedade e Estado. referindo-se aos processos evolucionários naturais. knowledge construcion. de órgãos e processos muito complexos de aprendizagem. 2001a). p. p. n. Concerning this process. Para evitar polêmicas desnecessárias. como fomos dotados. 3 Edelman & Tononi falam de aprendizagem selecionista. Qualidade metodológica significa o apreço sistemático pela argumentação mais bem fundamentada possível. Esta instituição é a ciência. bem comunicado e denso. buscando o futuro. Abstract : This article focus on the importance of scientific methodology in the process of production and formation of knowledge. ao mesmo tempo coerente e aberto. como ocorrem em instituições educacionais. tentando achar o que poderia existir depois da próxima colina” (Bova. no fundo comuns a todos os seres vivos. enquanto é qualitativo o texto fundado na autoridade do argumento. formal and political quality. Concerning the process of knowledge formation. 2 O conceito de “qualidade” não é evidente. one may conclude that knowing how to develop knowledge with formal and political quality results in a visibility growing autonomy. v. nos quais ocorrem percursos de aprendizagem profunda. a pesquisa científica está inerentemente voltada para a frente. it is crucial to consider scientificity in order to develop knowledge with quality. Por sua própria natureza./dez. Para dar exemplo direto: não é qualitativo o texto baseado em argumento de autoridade. knowledge as autonomy. to know how to think. tentando preservar o passado. tomo qualidade como termo aproximado de cuidado metodológico. Enquanto todas as outras instituições são essencialmente voltadas para trás. In doing so. a pesquisa científica está sempre mudando a sociedade ao descobrir novas coisas. inventar novas idéias. sinalizando dimensões da intensidade e profundidade em textos com pretensão científica (Demo. porque este pode ser intenso e profundo. 1998. Aprendemos na vida sempre. 2. Brasília. 244). Therefore. which represents one of the most important horizons of knowledge in human history. pela evolução. jul. 349-373.

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