Opção Lacaniana online nova série

Ano 1 • Número 3 • Novembro 2010 • ISSN 2177-2673

EFEITO DO RETORNO À PSICOSE ORDINÁRIA1
Jacques-Alain Miller

Primeiramente, Brousse pela

gostaria

de

parabenizar seminário

Marie-Hélène anglófono em

organização

desse

Paris. Estou verdadeiramente surpreso e muito contente de ver aqui quase cem pessoas de diferentes países. Eu

desejava que esse seminário anglófono fosse retomado. Houve há anos uma série Isso me em Paris, mas e depois pedi a o havíamos

interrompido.

preocupava

Marie-Hélène

Brousse para relançá-lo. É uma ocasião, importante para mim, de constatar que a audiência do Campo freudiano nos países número anglófonos, e em longe de de ter dez diminuído, anos para aumentou cá. O em

importância

Campo

freudiano não é, a meu ver, suficientemente representado no mundo anglófono – o que temos a intenção de mudar. O Campo freudiano deseja se promover com vigor no mundo anglo-saxão – na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Austrália e em muitos outros países onde o inglês é usado para transmitir o ensino de Lacan e nossa pesquisa. Como título desse seminário, escolhi: “Psicose

ordinária”. Embora não seja uma categoria de Lacan, me parece que é uma categoria lacaniana – uma categoria

clínica lacaniana. É uma criação que concebo como extraída do que chamamos “o último ensino de Lacan”, ele próprio um efeito do retorno ao desenvolvimento pragmático do seu

ensino ao longo dos 30 anos do Seminário. Tenho a intenção de lhes dar, nessa exposição informal sobre o conceito de psicose prático ordinária, que faço um desse eco um pouco há mais amplo anos do uso meus

termo

muitos

com

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Efeito do retorno à psicose ordinária

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colegas,

que

contribuíram

bastante

para

lhe

dar

um

contorno mais preciso.

América dividida

Freud

se

fez

a

famosa

pergunta:

“o

que

quer

uma

mulher?”. Ele a colocou como homem, talvez também como mulher. Apesar dos trinta anos de ensino de Lacan, não temos a resposta, embora tenhamos tentando bastante. então uma questão discriminadora. Outra querem os pergunta perturbou-me Tenho a durante resposta! anos: Uma “O que Não é

americanos?”

resposta

parcial. Eles querem Slavoj Zizek. Eles querem o Lacan de Slavoj Zizek. Eles o preferem ao Lacan do Campo freudiano, pelo menos no momento. A questão é de fato a seguinte: eles querem conceitos muito definidos? Ou querem espaço para discutir? Um espaço de disputa? Este é o caso em relação aos conceitos da psicanálise. Otto Kernberg, por exemplo, dizia que ficava muito inseguro pelo fato de não conseguir apreender a definição exata dos conceitos lacanianos. “Eles mudam o tempo todo”, dizia ele. Vocês podem imaginar o caro Otto – que lia

francês – buscando e querendo encontrar a definição do Nome-do-Pai, do significante... que não se resume a uma, mas a uma pluralidade de definições. Ele se deparava com definições contraditórias, ficando assim sempre perdido em Lacan. É muito difícil dar sentido a essas mudanças

constantes nas significações dos conceitos de Lacan. Talvez seja porque Otto é de descendência alemã. Sabemos que os prussianos querem definições muito rígidas, mas na verdade, isso também faz parte do espírito americano. Lembro-me de Kernberg, quando terminei uma conferencia em Nova Iorque em 1985 – a única que dei na IPA – me dizendo, numa das perguntas que me fazia: “Mas cinquenta por cento da vida

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psíquica são afetos”. Como ele podia mensurar cinquenta por cento da vida psíquica? Isso diz bem de Otto Kernberg! Ele queria definições nítidas. Também é o que, em parte, os americanos querem: um saber bem definido, utilizável, com nomes. Por outro lado, tenho a impressão de que os

americanos reclamam espaço para transmitir suas opiniões, para poder dizer: “Você pensa assim, eu penso assado. Tenho minha própria concepção, uma outra ideia”, sem, no entanto, deixar de valorizar o prestígio e o saber. É uma maneira muito democrática de questionar o saber do Outro. Tenho espírito a impressão de que se a alma me americana permitir ou o

americano

está,

posso

dizer,

dividido entre um desejo de extrema precisão e os números por um lado e, por outro, o desejo de ser capaz de

expressar seu próprio pensamento e seguir suas próprias ideias.

A psicose ordinária definida a posteriori

A psicose ordinária se situa mais na segunda vertente. Esta é a razão pela qual a escolhi para relançar esse seminário: a psicose ordinária não tem definição rígida. Todo mundo é bem-vindo para dar sua opinião e sua definição da psicose ordinária. Não inventei uma um conceito com a

psicose

ordinária.

Inventei

palavra,

inventei

uma

expressão, inventei um significante, dando a ele um esboço de definição que pudesse atrair diferentes sentidos,

diferentes ecos de sentido em torno desse significante. Não ofereci um saber-fazer sobre a utilização desse

significante. Fiz a aposta de que esse significante podia provocar um eco no clínico, no profissional. Queria que ele ganhasse amplitude para ver até onde essa expressão podia ir. Inspirei-me no que Lacan fez com o passe. Vocês sabem que ele chamava o verdadeiro final de análise de “passe”.

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Vocês sabem que cada significante é fundamentalmente definido. Diria que foi para driblar a rigidez de uma clínica binária: neurose ou psicose. a urgência e a utilidade de inventar este sintagma – psicose ordinária. o que surgiria. Se você diz que pode reconhecer o final de análise quando o sujeito faz isso ou aquilo. A clínica binária e o terceiro excluído Posso agora refletir sobre o motivo que me levou a sentir. Creio que isso atraiu o sentido em potência. Lacan deu apenas um esboço de definição do passe e propôs que ele fosse experimentado para ver. atualmente. Se vocês precisam de uma nota. devem dizer as coisas de certa maneira e num certo estilo. Devo lhes confessar que a universidade é uma cidade de fantasmas com pessoas que imitam o que se supõe que elas são. Muitas pessoas vieram depois me dizer: “conheço um caso de psicose ordinária!” Se tentamos agora lhe dar uma definição. na época. Então as pessoas se adaptam a isso e vivem num mundo de sombras. uma velha teoria – por sua posição em relação a outro Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 4 . na teoria de Roman Jakobson – que é. trata-se de uma definição a posteriori. porque não queria que as pessoas o imitassem. no momento assim definido. como no artigo de Jean-Louis Gault2. a necessidade. todo mundo fará isso imediatamente. como as pessoas poderiam contribuir. Eu queria fazer algo desse tipo com a psicose ordinária. É o caso na universidade. numa “Cidade de fantasmas”. ou diz isso ou aquilo.Mas ele apenas esboçou uma definição do passe.

que tínhamos basicamente uma clínica binária: neurose ou psicose. Quando não há. durante anos. Essa categoria tende a ser abandonada. do furo psicótico? Ano após ano. E isso continuava assim durante anos. A perversão é um termo questionável que foi posto por terra pelo movimento gay. Assim. durante anos. Um “ou isso ou aquilo” absoluto. uma identificação narcísica “suficientemente boa” ao corpo próprio – “suficientemente boa” é um termo winnicotiano do qual gosto muito – porque há frequentemente na histeria alguns sinais de uma certa ausência do corpo. podem se perguntar se esse vazio não é também histérico. Resultado: durante anos. a falar de seu paciente X. eles respondiam: “Não. A ideia de Jakobson é uma definição binária do significante. ao encontrarem sujeitos que testemunham um vazio que experimentam em si mesmos. Não era claramente uma maneira satisfatória de considerar as coisas. podiam vê-los voltar. binário. Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 5 .significante ou a uma falta de significante. Vocês veem assim pessoas que tentam. portanto. até agora não conclui”. Tínhamos também a perversão. mas ela não pesava da mesma maneira na balança. analistas. mas efetivamente a uma psicose. nossa clínica tinha um caráter víamos basicamente clínicos. Quando vocês recebiam esses analistas em supervisão. Era nitidamente uma dificuldade nos casos de histeria. aqueles que estão em análise são sujeitos que apresentam traços perversos. e se lhes perguntassem: “Você concluiu se ele é neurótico ou psicótico?”. psicoterapeutas se perguntarem se seu paciente era neurótico ou psicótico. basicamente porque os verdadeiros perversos não se analisam de fato e. de uma certa desordem do corpo. decidir de que lado situar seu paciente. Acentuei. Ou então. na histeria. ano após ano. vocês podem se perguntar se essa desordem vai a ponto de não mais concernir à histeria. É o sujeito barrado que remete ao nada na neurose? Ou se trata do vazio psicótico.

Era uma maneira de dizer. essa fronteira Uma tornou-se. Se vocês não reconhecem a estrutura muita precisa da neurose do paciente. por exemplo. na Com o passar e do na tempo. dizer psicose ordinária existe objetivamente na clínica? Não é seguro. espessura crescente como a que vocês constatam em volta da cintura! N P Havia então algo que não andava bem. não se tratava de uma psicose. prática. podem apostar ou devem tentar apostar que se trata de uma psicose dissimulada. ou se era psicose. religando-o simultaneamente ao lado direito do binarismo. supervisão espessa. de uma psicose velada. A Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 6 .apesar da diferenciação supostamente absoluta entre a neurose e a psicose fundamentada na foraclusão do Nome-doPai. A psicose ordinária era uma maneira de introduzir o terceiro excluído pela construção binária. da Vocês coisa-em-si. A neurose é uma estrutura muito precisa. Não categoria categoria é seguro que a psicose devem Podem se ordinária perguntar que seja se a é uma uma objetiva. que se vocês têm. e eu te batizo psicótico se ele não existe” – certos casos davam a impressão de se situarem entre as duas. Quando é neurose. verdadeiro credo lacaniano – “eu te batizo neurótico se há o Nome-do-Pai. porque se era uma neurose. não se tratava de uma neurose. vocês devem saber! A contribuição desse conceito era dizer que a neurose não é um fundo de tela (wallpaper). razões para duvidar da neurose do sujeito. durante anos. podem apostar que é mais um psicótico ordinário.

Deriva a estrutura da psicose daquela da neurose. que trata sua neurose vivendo-a. na famosa peça teatral francesa do início do século. É possível dizer que a neurose é a normalidade. Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 7 . O complexo de Édipo é o elo entre normalidade e neurose. A construção lacaniana da psicose nos Escritos 1. É menos interessante! É mais interessante cuidar de sua neurose pela análise. Trata-se de uma categoria mais epistêmica do que objetiva. sua possibilidade de conhecer alguma coisa do paciente. assim. traduzido por Lacan como metáfora paterna. Há uma conexão entre neurose e normalidade: o complexo de Édipo. O mundo imaginário instável De qualquer forma. é o fundamento tanto da realidade quanto da neurose. são levados a dizer que é uma psicose dissimulada. mas há pessoas que nem sempre pensam nela e continuam a viver assim. Isso concerne à nossa maneira de conhecê-la. “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”3. ou ainda que não trata sua neurose pela análise. Em Lacan – e também em Freud – o complexo de Édipo.psicose ordinária interessa o saber de vocês. Lacan inicia com a neurose seu texto clássico sobre a psicose nos Escritos. Ele pensa a psicose na perspectiva da neurose. mas que deduzo de pequenos indícios variados. Eu me sinto como o doutor Knock. que decidiu que todo mundo estava doente sem saber disso. Uma psicose difícil de reconhecer como tal. como uma variação da estrutura fundamental da neurose ou da normalidade. Uma pessoa supostamente normal é um neurótico que não sofre de sua neurose ou que não sofre muito de sua neurose. uma psicose velada. Vocês dizem “psicose ordinária” quando não reconhecem sinal evidente de neurose e.

Lacan descreve o mundo primário ou. é também o mundo da mãe. um mundo sem consistência. do nascimento supostamente comum – seja um futuro neurótico. É supostamente um mundo cuja força pulsional é a do Desejo da Mãe. O estádio do espelho é a primeira estrutura do mundo primário do sujeito. o desejo desordenado da mãe em relação ao filho-sujeito. É um mundo de loucura. 2. Trata-se do Lacan clássico. melhor. diz: “Ele me bateu”. Transitivismo quer dizer que você não sabe se foi você ou o outro que fez. isso equivale a dizer que a loucura é o mundo primário. portanto. um futuro perverso. Efetivamente. É duvidoso. a maneira como ele o constrói. Mas em seu texto clássico sobre a psicose. o início da vida psíquica é o que ele chama de imaginário. De certa maneira. o sujeito está imerso na linguagem. Todo mundo começa supostamente com o imaginário. um futuro psicótico – daquele que habita. poderíamos dizer. Há uma confusão: “fui eu ou foi ele?”. Quando a criança bate na outra. É um mundo instável.Qual é a base comum entre neurose e psicose do ponto de vista de Lacan? Qual é o início da vida psíquica? No Lacan clássico. O mundo estruturado pelo estádio do espelho é um mundo de transitivismo. A ordem simbólica Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 8 . É a partir daí que ele estrutura a psicose. o que significa que é um mundo muito instável. Digo “constrói” porque é preciso começar fazendo a abstração da linguagem que está presente desde o início. o estádio do espelho. porque isso remete à incidência da linguagem. É um bom exemplo para compreender que se trata de um mundo de areias movediças. assim como em quase todos os textos dos Escritos – com exceção dos últimos – ele constrói a dimensão fundamental do sujeito como pertencendo à dimensão imaginária. desde o início. Trata-se. em seu primeiro Seminário. Para ele. um mundo de sombras. um futuro normal. Essa é a maneira como.

como sabem. do outro. termo freudiano para essa subtração de gozo. de subtração. em todos os textos de Lacan. isso significa que a ordem chega ao mundo imaginário com o simbólico. Quando se introduz o elemento ordenador do Nome-do-Pai. a ideia segundo a qual o gozo é evacuado pelo simbólico. e a falta desse falo castrado que ele escreve Φ 0. o falo completo (Φ) e. Vocês seriam tentados a dizer “a ordem imaginária”. Vocês encontram. com três setas – no nível do gozo. que significa “castração”. essa força ordenadora do simbólico. que é de fato um “a mais”. no Nome-do-Pai – utilizo a maiúscula P para representar a palavra francesa Père – que é um elemento a mais. Lacan constrói a psicose como uma falta do Nome-do-Pai. Lacan utiliza essa expressão de diferentes maneiras. O gozo imaginário. mas a ideia é sempre a mesma. a estrutura. mas é inexato. É possível falar de extração. o menos-phi (-φ). Há dois buracos correlatos no esquema I – devemos escrevê-los assim. A partir desse momento.A ordem simbólica vem no segundo tempo dessa construção. do gozo e das pulsões. que tornava possível o mundo imaginário. obtém-se uma subtração no nível da libido. temos de um lado. É no nível simbólico que vocês devem insistir na palavra “ordem”. que impõe a hierarquia. Na verdade. a metáfora paterna – como a potência que impõe a ordem. que estabilizava o mundo imaginário instável. A estrutura lacaniana introduz o simbólico – a linguagem. um gozo a menos. é extraído. Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 9 . a constância. “a ordem real”. É um mais (+) que tem como consequência um menos (-). Nos termos do falo. subtraído. Lacan condensa essa potência. P0.

Em um momento preciso.O gozo imaginário. De qualquer forma. ele não tem uma metáfora paterna. que é “a mais”. então. ele não consegue. nos é revelado o fato de que ele não está articulado ao Nome-do-Pai. na verdade. Um delírio é também capaz de ordenar um mundo. Perguntem se o que ordena nosso mundo não é em grande parte delirante.. o que desencadeia sua psicose extraordinária. o Nome-do-Pai não é. continua a existir. progressivamente. É alguma coisa para alguns Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 10 . o que desencadeia sua psicose extraordinária – observa-se uma espécie de mundo ordenado que vai se reorganizando. Um delírio é um conto simbólico. Não vou explicar novamente essa construção da psicose em Lacan. em parte. Após um primeiro tempo de desordem total do seu mundo – um mundo que era anteriormente estabilizado. ele tinha de fato conseguido atingir uma posição bastante elevada como juiz. ao ser solicitado a responder do ponto de vista do Nome-do-Pai. Lacan diz então que. a essas histórias de um Deus-todo-Poderoso. Isso que dizer que o menos-phi não é operante. não tem uma existência bem limitada. Eu não diria isso – não ousaria – mas as pessoas do Século XVIII ousavam dizer que na verdade era. mas bem mais uma metáfora delirante. de mãe. arranjar para si um mundo onde é possível viver. etc. Mas o que ele introduz simultaneamente. um delírio é simbólico. O Campo freudiano é um delírio. de pai. seu mundo tinha até então sua maneira de se ordenar. Se vocês relacionam isso ao saber científico. ao ler o Caso Schreber. um delírio. é a ideia da metáfora delirante. na verdade é menos-phi zero. operante. são levados a dizer que é em parte um delírio. Schreber consegue. mas.

está capturado por seu próprio delírio. Era um delírio divino. Seguindo a ideia da ordem simbólica delirante. a hipótese segundo a qual um delírio pode ordenar o mundo não é completamente forçada. Lacan chega a dizer que toda a ordem simbólica é um delírio. você não participa do delírio dele. em seu último ensino. o nome próprio de um elemento particular chamado Nome-do-Pai. Seu trabalho como clínico não é compreender o que ele diz. Quando vocês leem sobre Maomé – Deus proíbe que eu diga qualquer coisa contra Maomé – que ele partiu sozinho. Trata-se de uma convicção profundamente enraizada em Lacan. que trazia uma mensagem divina e a escrevia. Schreber tinha um delírio privado. Assim. Quando se pergunta: “o sujeito tem o Nome-do-Pai ou há foraclusão do Nome-do-Pai?”. montando um empreendimento delirante apenas para si mesmo. Na verdade. Ele não conseguiu fazer do seu delírio um delírio para todos na Prússia do final do século XIX. pela sua maneira de dar sentido. Isso introduz uma mudança de estatuto no Nome-do-Pai. incluindo sua própria construção da ordem simbólica. Então. Do nome próprio ao predicado Devo falar que. A vida não tem nenhum sentido. de dar novamente sempre o mesmo sentido às coisas. mas na verdade ele não tem existência precisa.milhares de pessoas que no mundo falam do Campo freudiano. Atribuir sentido já é delirante. Nos textos clássicos de Lacan. insólita de dar sentido às coisas. Seu trabalho é apreender sua maneira particular. esse discurso ordenou um milhão de pessoas no mundo. de dar sentido à repetição em sua vida. quando você compreende o que paciente diz. o Nome-doPai é usado logicamente como nome próprio. utiliza-se o Nome-do-Pai como nome próprio. Precisou privatizar. Na prática. é possível dizer que o Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 11 . é possível ter uma ordem simbólica delirante.

um CMB. O Nome-do-Pai se substitui ao Desejo da Mãe. um compensatory make-believe (um fazer-crer compensatório) do Nome-do-Pai. Freud não conhecia a psicose ordinária – é claro que ele conhecia muitas coisas bem mais importantes –. em medicina. Esse elemento é o princípio que ordena seu mundo. Sua psicose apenas se desencadeou quando ele tinha cinquenta e um anos. Talvez antes dos cinquenta e um anos. Vão fazer crer – make-believe – que estamos realizando um estudo altamente científico! E que se deveria dizer que se Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 12 .Nome-do-Pai não é mais um nome próprio. a propriedade. por exemplo. O que teria acontecido se Schreber tivesse vindo à análise antes do desencadeamento de sua psicose? Ainda não havia a psicanálise naquela época. É também muito útil pensar no fato de que Schreber levou uma vida aparentemente normal por cinquenta anos. Isso não é o Nome-do-Pai. durante o que se chama. impõe sua ordem ao Desejo da Mãe. uma espécie de make-believe do Nome-do-Pai. de climatério da vida do homem. vocês já teriam podido observar particularidades na construção de seu mundo. Isso significa dizer que ele é um substituto substituído. mas tem a sua qualidade. NP (X) Tal elemento funciona como um Nome-do-Pai para um sujeito. mas talvez o que chamamos de psicose ordinária seja uma psicose que não se manifesta até seu desencadeamento. E o que chamamos de predicado do Nome-do-Pai é um elemento. que os teria levado a dizer que ele era um psicótico ordinário. A questão incide então sobre o Nome-do-Pai como predicado. Esta é. Esta ideia nos ajuda a compreender como seu mundo podia funcionar. mas imaginem que ele tivesse sido tratado por Freud. mas um predicado definido na lógica simbólica. uma das maneiras de apreender o conceito. sobre as quais vocês debateram.

e quando não há nítidos fenômenos de psicose extraordinária. recortados neurose. é mais difícil que isso. esse termo é traduzido na página 466 como “a disturbance”. uma questão Frequentemente é uma questão de mais ou menos. mas “disturbance”: “a disturbance that occured at the inmost juncture of the subject´s sense of life”6. Isso os orienta para o que Lacan chamou de “uma desordem provocada na junção mais íntima do sentimento de vida no sujeito”5. tentam dizer então que é uma psicose. Uma nem a é constância. neurose vocês não pelo estável. repetição constante e regular do mesmo.4 O que se tenta pinçar falando da psicose ordinária? Ou seja.. que está na página 565 dos Escritos. quando não tem a assinatura da neurose. “Sense of life” se traduz Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 13 . Ele não usa “trouble”. de intensidade. uma boa tradução de “désordre”. na qual insisto há anos em meus cursos e nas discussões com meus colegas. é isto na que buscamos mais na psicose do ordinária. Vocês devem pesquisar todos os pequenos indícios. quando ela não parece ser uma neurose. embora ela não seja manifesta. desordem junção íntima sentimento de vida no sujeito. Na excelente edição anglófona de Bruce Fink. que seria um termo do DSM. uma Quando constatam clínico da esta que questão percebida bem elementos bem definidos. “Uma desordem [.] na junção mais íntima do sentimento de vida no sujeito”. repetição formação também nem da a estabilidade. é mais difícil que esse tipo de piada. Trata-se da frase. mas ao contrário dissimulada. quando a psicose não é evidente. É uma clínica muito delicada..tem a intenção de observar e de fazer uma lista completa de todas as formas possíveis de CMB na psicose! De fato. Pois essa bem. – – uma é há a estável. algo nem a neurose.

com já suas que próprias os ideias. de Os psiquiatras Eles tentaram falam de delinear “sentimento vida”. Os indícios devem ser situados nos três registros. na maneira como experimentam seu corpo e no Mas modo qual de é se relacionarem desordem. “Sentimento de vida” ou “como você vive a sua própria vida” é um termo muito sincrético. de assumir sua função social. como se diz em inglês? Encontramos o sinal mais claro na relação negativa do sujeito com sua identificação social. Uma externalidade social A respeito da externalidade social. Quando Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 14 . essa também neuróticos a experimentam? Um sujeito histérico experimenta essa desordem na relação com seu corpo. Quando vocês devem admitir que o sujeito é incapaz de conquistar seu lugar ao sol. com uma profissão. a relação com a realidade na psicose ordinária. cinestesia. Que desordem é essa que atinge “a junção mais íntima do sentimento de vida no sujeito”? Ela é muito difícil de formular. a questão é a seguinte: qual é a identificação do sujeito com uma função social. com seu lugar ao sol. 1.como “sentimento de vida”. de sentimento geral do sujeito. ou seja. de “ser-nomundo”. A desordem se situa na maneira como vocês experimentam o mundo que os cerca. uma externalidade corporal e uma externalidade subjetiva. um sujeito obsessivo a experimenta em relação às suas ideias. É muito difícil esse analisá-lo. Uma tripla externalidade Tentarei organizar essa desordem no sentimento da vida em relação a uma tripla externalidade: uma externalidade social.

Se não fizerem isso – este é o perigo do conceito de psicose ordinária – é o que se chama um “asilo da ignorância”. em 28 e 29 de junho de 2008] quando. Na perspectiva de vocês. Quando o sujeito não se ajusta. mas uma vez que se diz que é uma psicose ordinária. um colega – psicanalista e psiquiatra – disse: ”É uma paranoia sensitiva. pode ser relacionada às categorias nosográficas clássicas. Não tentem digam classificá-la que maneira psicose psiquiátrica. no sentido de Kretschmer”. É um percurso frequente nos esquizofrênicos. simplesmente ordinária. uma desconexão. etc. Ele se torna então um refúgio para não saber. É um convite a ir mais longe. num caso de uma psicose ordinária. não no sentido da revolta histérica ou da maneira autônoma do obsessivo. Ao falarmos de psicose ordinária. Eu disse: esquizofrenia. por exemplo. Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 15 . desligandose da família. Quando observam o que chamo de desligamento. Tive a impressão que meu colega tinha razão. Uma vez que disseram de é que uma uma é uma psicose ordinária. Esta pode ser a realidade do sujeito. uma impotência na relação com essa função. Tratava-se de uma psicose ordinária porque ela não era manifesta. na Maison de la Mutualité. embora possa parecer uma psicose ordinária.observam um desespero misterioso. E se é uma psicose. de qual psicose falamos? Pudemos. trata-se de uma psicose ordinária. que nesse caso era uma paranoia sensitiva de Kretschmer. Vocês veem então às vezes sujeitos indo de uma desconexão social à outra – desligando-se do mundo dos negócios. isso significa que é uma psicose. constatar isso no último colóquio das Seções clínicas francófonas [o ciclo UFORCA. devem ir mais longe e reencontrar a clínica psiquiátrica e psicanalítica clássica. porque isso não é evidente. mas quando existe uma espécie de fosso que constitui misteriosamente uma barreira invisível. Conversations sur des situations subjectives de déprise sociale.

seu trabalho significava bem mais do que um trabalho ou uma maneira de viver. trabalho. 2. estender isso aos psicólogos e psicoterapeutas. muito frequentemente. de ser atribuído a uma função. no têm seu uma investem muito posição intensa social. em nossa época. Mas vocês também devem ficar atentos diante das identificações Digamos. quando na sociais esses sua positivas sujeitos na psicose ordinária. o corpo como Outro para o sujeito – partindo do Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 16 . Uma externalidade corporal A segunda externalidade diz respeito ao Outro corporal. O governo francês quer no caso presente. Atualmente. o Nome-do-Pai é aceder a uma posição social. Lacan diz que. estarem justamente Os valor são empregadas. Ter esse trabalho era seu Nome-do-Pai. As pessoas estão prontas a se para estapear ter o por empregos simbólico mal de remunerados. Vocês podem ver então – e isso ocorre constantemente – psicóticos ordinários cuja perda do trabalho desencadeia sua psicose. governos suficientemente inteligentes para compreender isso claramente e para lhes oferecer empregos irrisoriamente remunerados. criar uma Falamos nova sobre isso de esses dias. de uma administração. porque.É o que tenho a dizer sobre a identificação social negativa. Eis o que tenho a dizer em relação à externalidade social com a vertente positiva e negativa de identificação social. o Nome-do-Pai é o fato de ser nomeado. ter um trabalho tem hoje um valor simbólico extremo. de um clube pode ser o único princípio do mundo de um psicótico ordinário. Por exemplo. de ser nomeado para. Eles que querem profissão psicoterapeutas seria mais mal remunerada do que a fisioterapia. Constata-se efetivamente que ser membro de uma organização. com sua quando posição identificação bastante social.

Na psicose ordinária. uma brecha.o Outro social – e o Outro corporal. Após a realidade social . para o sujeito. são banalizados atualmente. ela é limitada pelo menos-phi. A moda é claramente inspirada na psicose ordinária. falarei do Outro subjetivo. A histeria é restringida pelos limites da neurose. No corpo do macho há também pelo menos uma parte do corpo que só existe na cabeça. Uma externalidade subjetiva Não discutirei a vida sexual. como diz Lacan. Isso é bem conhecido. As tatuagens também. mas você tem um corpo”. há a experiência de estranheza do corpo. Os piercings de joias incrustadas estão hoje em dia na moda. o corpo só existe efetivamente na sua cabeça. vocês devem ter algo a mais. A dificuldade reside no fato de que todos esses meios artificiais que pareciam anormais. Certos usos das tatuagens são um critério da psicose ordinária quando vocês sentem que.princípio: “Você não é um corpo. Uma tatuagem pode ser um Nome-do-Pai na relação que um sujeito tem com seu corpo. Esse elemento suplementar faz função de Nome-doPai. O sinal mais frequente disso é observado na Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 17 . ele tem necessidade de um grampo para se sustentar com seu corpo. 3. A desordem mais íntima é essa brecha na qual o corpo se desfaz e onde o sujeito é levado a inventar para si laços artificiais para apropriar-se de seu corpo. enquanto vocês sentem o infinito na falha presente na relação do psicótico ordinário com seu corpo. a histeria é sempre submetida à restrição. o pênis. Como comparar isso à histeria? Não podemos falar senão em termos de tonalidade – isso não tem o mesmo tom – e em termos de excesso – isso excede as possibilidades da histeria. Apesar da revolta e do desespero. Para dizê-lo num termo de mecânica. é uma maneira de prender seu corpo a si mesmo. para “prender” (serrer) seu corpo a ele mesmo. Na histeria.

Nesse caso. mas no caso de Jean-Louis Gault.experiência do vazio. mas deixo isso de lado para uma próxima vez. mas com a linguagem. Podemos encontrar isso em diversos casos de neurose. produzido de por uma cada enunciado desses outros. vocês podem ver nesse sujeito um eco especial da fala do Outro. ultrapassa metáfora. sujeito Digo vai na que é uma de identificação direção realizar o dejeto sobre a sua pessoa. porque A identificação a não é O simbólica. do vago no psicótico ordinário. Finalmente. Gostaria também de desenvolver aqui a relação com as ideias. de vacuidade. mas na psicose ordinária se busca um índice do vazio e do vago de natureza não dialética. negligenciando a si mesmo ao ponto real. Eu introduziria também uma referência à exposição de Jean-Louis Gault8 sobre o parceiro de seu analisando. mais pois o extremo. real. Vocês devem também procurar a fixidez da identificação com o objeto mas a como dejeto. sujeito pode se transformar num rebotalho. podemos ver de entrada que há a sensação de não ser sadio. mas bem mais a própria linguagem. Posso me referir aqui à exposição de Pierre-Gilles Guégen7 sobre Genet. há uma fixidez especial desse índice. Eu poderia me referir ao caso de Julia Richards que vocês ouvirão na sexta-feira: “Uma dialética capitalista no caso de uma psicose ordinária”9. Nessa maneira de se apresentar. Na neurose também encontramos isso. vemos uma espécie de estigma fato. Ele diz isso de Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 18 . É um caso no qual o sujeito se apresenta com a demanda de “recuperar os dez por cento que [lhe] faltam sempre para poder ser novamente são”. pode defender-se disso através de um maneirismo extremo. Ele disse que o verdadeiro parceiro de vida desse sujeito não era na verdade uma pessoa. Podemos ter então dois extremos. com De uma trata-se relação fundamental não pessoa. Vocês se lembram que Pierre-Gilles Guégen falou da identificação não dialética de Genet ao dejeto.

Os dez por cento de delírio. Julia Richards acrescenta: “seu ponto mais sólido de identificação. Jetsam! As consequências teóricas da psicose ordinária Tenho a impressão de que as consequências teóricas da psicose ordinária vão em direções opostas. nas conferências clínicas. Mr. Flotsam and Dr. Não é engraçado. esse sujeito sabe que precisa de dez por cento a mais! Suponho que ele é americano! Ele nos dá uma precisão com números. tudo se desagrega. embora imaginário. Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 19 . Quando ele diz adiante que “o centro não se sustenta. essa paranoia. Nessa primeira frase pela qual ele se apresenta. que ele atribui a um número. pois o demanda com uma precisão kernberguiana – Kernberg sabe que os afetos representam cinquenta por cento! Pois bem. as pessoas riem muito de coisas que não são engraçadas. É também uma pequena chave que nos permite entender que seu parceiro é Deus. as identificações são construídas com um bricabraque. Não importa que ele tenha dito que sua vida está sob um “sudário funesto“ – o que também pode ser dito por um neurótico romântico – mas. Perguntei como traduzir “bric-à-brac” em inglês antes da exposição. podemos ver seu delírio. todos os seus labirintos de frases parecem condensar a mesma ausência em seu centro. Esse sujeito também diz isto: “Por que haveria um Deus benévolo? Sou sortudo.início. Não conhecia esta tradução: “flotsam and jetsam”. Gostei muito. clinicamente. Eu não deveria me queixar tanto” – conectado à referencia a Deus. é científico”. isso pende mais para a psicose.. “Faltam-me dez por cento!”. Há alguma coisa desviada. “Faltam-me dez por cento de castração” [risos]. Tudo isso assinala a psicose ordinária. e isso explica esse sudário funesto. é construído com cada fragmento de identificação paterna à sua disposição”..

Ao dizerem isso. não é uma neurose. um supereu claramente traçado. Deve haver – para utilizar os termos freudianos da segunda tópica – uma diferenciação nítida entre Eu e Isso. com “Todo mundo delira à sua maneira”. a neurose é uma estrutura particular. “Todo mundo é louco. É uma perspectiva consoante com “Todo mundo é louco”. Essa generalização da psicose significa que não existe na verdade o Nome-do-Pai. Lacan segue essa direção.Uma direção nos conduz a uma afinação do conceito de neurose. Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 20 . ou seja. Como disse. mas em outra – essa é a consequência oposta – somos conduzidos a uma generalização do conceito de psicose. mas fantasístico significa justamente delirante. é delirante – fantasístico. sua maneira de fazer sentido. Sempre é um elemento específico entre outros que. seu mundo. Lacan o escreve em 1978. devem encontrar algumas provas da existência do menos-phi. com a impotência e a impossibilidade. da relação com a castração. Essa é a razão pela qual vocês tentam abandoná-la justamente para perceber o delírio próprio de seu paciente. mas num certo nível. podemos dizer. sempre é um predicado. para um determinado sujeito. Você não pode funcionar como psicanalista se não está consciente de que aquilo que sabe. Ser psicanalista é saber que seu próprio mundo. sua própria fantasia. a clínica é assim. trata-se de outra coisa. Numa direção então somos levados a apurar o conceito de neurose. funciona como um Nome-doPai. Se não existe tudo isso e ainda outros sinais. O Nome-do-Pai é um predicado. Comentei essa frase nas últimas aulas do meu curso desse ano. não um Nome-do-Pai. delirante”. Ele não existe. Vocês precisam de certos critérios para dizer “é uma neurose”: uma relação com o Nome-do-Pai. não é um fundo de tela (wallpaper). sua maneira de fazer sentido é delirante. Esse não é o único ponto de vista. entre os significantes e as pulsões. vocês apagam a diferença entre neurose e psicose.

Jacques-Alain Miller – De fato. conduzindo a uma ampliação ou a um obscurecimento da distinção entre neurose e psicose.Acompanhei com grande interesse o que você disse. podemos dizer.. pois a psicose ordinária deve ser situada no lado 21 das psicoses.. eu o fiz assim: disse Neurose/Psicose com espessamento da fronteira. No entanto. N P E depois fiz isto.Bom.. bastante cuidado de resituar o conceito de psicose ordinária na clínica psiquiátrica e binária. Retorno às psicoses.. Desculpe-me Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária . pouco importa o espessamento dessa fronteira... . Perguntas do público Roger Litten . Começando com a clínica binária inicial – a distinção entre neurose e psicose – e com a emergência. da noção de psicose ordinária. de certa maneira. Em seguida. Roger Litten – Então. Há quase uma contradição entre os dois eixos diferentes que você seguiu. com atenção no que digo. você tomou por outro lado. percebi ter sido seguido durante uma hora e meia. particularmente o que pontuou: sua advertência contra o “fazer-sentido”. há alguma coisa que não faz sentido para mim.

Então. O Nome-do-Pai tem seu lugar ao sol e o sol é uma representação do Nome-do-Pai. clínica contra Tem-se binária a emergência distinção quase e o obscurecimento dessa distinção. É uma diferença nítida. o Nome-do-Pai está em seu lugar. De fato. Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 22 . Você disse isso de uma maneira divertida: a neurose não é mais a tela de fundo (wallpaper). O Nome-do-Pai está ali (na coluna à esquerda) enquanto aqui (na coluna do meio). Já na psicose ordinária (coluna à direita) há alguma coisa que se ajusta mais ou menos. existe na coluna à esquerda alguma coisa. Neurose Psicose Psicose ordinária É possível dizer então que é uma terceira estrutura. a neurose quase dá lugar a uma modificação possibilidade simultaneamente específica de a do da da Nome-do-Pai psicose. na psicose. Jacques-Alain Miller – Na neurose. há um furo nesse lugar. A psicose é o fundo de tela (wallpaper). ela não existe. enquanto que na do centro.obscurecer o que você esclareceu. Na realidade é a mesma estrutura (da coluna central). a tendência quase oposta é aceitar a modificação do conceito de neurose. Supõe-se que na psicose. há sempre algo que torna possível para o sujeito se virar ou continuar a sobreviver. Eu me pergunto se há algo que eu não entendi. quando ela é detectada e construída à maneira lacaniana clássica. ele não está. um aparelho suplementar. na medida em que ela se tornaria uma estrutura muito específica. quando não se trata de uma catatonia completa. não há o Nome-do-Pai mas há alguma coisa. Na psicose ordinária. No fim das contas.

como existem espiões adormecidos. Há psicoses adormecidas. frequentemente grandes poderosos organizações psicóticos. você não a o classifique psicose. e um esquizofrênico que não pode sair do seu quarto. a o analista estranho indicava direção oposta. Em certo momento. diferença requintado e forte que constrói de fato um mundo para ele e para os outros. cai. o make-believe do Nome-do-Pai é melhor do que o seu. A referência do desencadeamento serve quando se trata desse tipo de psicose compensado com um CMB. Há diferença entre as psicoses que podem ser desencadeadas e as que não podem. consegui ter uma clínica binária. uma clínica ternária e uma clínica unitária. imenso. paranoia sensitiva como mencionei anteriormente. conectados são cuja são totalmente socialmente. gênero pois percebe alguns. as três em uma. sua paranoia. enquanto Há os esquizofrênicos paranoicos Algumas dirigidas das por socialmente desconectados. ao receber um paranoico em seu consultório. percebeu Somente algo após três que anos de análise. O mundo do sujeito é arruinado. A psicose Observem é a um vasto continente. o make-believe. ele é mais sólido. Quando se trata de uma paranoia. é simplesmente um make-believe que funciona.De certa maneira. Portanto. a cada dia. entre um um bom continente paranoico. percebeu que o sujeito construía. Mas como há psicótico do ordinário. o verdadeiro Nome-do-Pai não vale mais que isto. Espera-se que. Então. Como a Santíssima Trindade! Nem todas as psicoses assumem a forma de uma psicose desencadeada. o desencadeamento é então Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 23 . Nomeamos tudo isso de psicose. Existem psicóticos que poderão viver toda a sua vida de psicótico tão calmamente quanto na psicose ordinária. é cortado. que não são nítidos desde o começo. o campo das psicoses é imenso. identificação é supersocial. explodida. o “fazer-crer”. que jamais acordarão.

É uma clínica dos pequenos indícios de foraclusão.manifesto. Isso significa que é possível conectar todos os pequenos detalhes. Trata-se então de ordenar o caso. Schreber apresentava isso claramente. Mas uma intensificação da identificação com o trabalho pode indicar outra direção. após ser ter atingido o ápice. Depois. consegue se restabelecer numa espécie de atividade compensatória. vimos que uma identificação social ao trabalho é normal. É o uso disso. Ele se torna escritor. Mas a psicose ordinária deve ser redutível a uma forma clássica de psicose ou a uma forma original de psicose. Após o desencadeamento. Se vocês não reconhecem uma neurose e se não há sinais evidentes de psicose. mas defesas contra o quê? Qual é o estatuto disso contra o que nos defendemos? Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 24 . que parecem distantes uns dos outros. Um participante vindo de Israel – Essa concepção nos conduz ao conceito do sujeito como defesa. Por exemplo. se diz que não parecem ser nem uma psicose nem uma neurose. seu mundo se esmigalha. o sujeito pode se reorganizar tão bem quanto antes. ou seja. a uma desordem central. A psicose ordinária evidencia a existência de “uma desordem na junção mais íntima do sentimento de vida no sujeito”. Todas as estruturas são defesas. segundo os relatórios médicos. na breve lista de pequenos sinais que apresentei. mas. com um déficit – da ordem de um “não suficientemente bom” – que desconecta progressivamente o sujeito da realidade social. Tinha uma identificação compensatória. É uma clínica da tonalidade. das dificuldades práticas. procurem os pequenos sinais. Nos casos ditos borderline. Depois. consegue retomar suas conversas com sua mulher e escrever seu livro. A categoria da psicose ordinária se origina da prática. consegue ser um bom paciente. Não cremos nisso.

Eles perguntavam: “Qual é seu autor preferido?”. geralmente o fazem partir de um elemento fora-dosentido. É claro que os delírios são construídos em torno desse real que não tem sentido. ou contra o que nos torna loucamente sensatos. os sonhos têm sentido. descobri que o conceito de psicose ordinária é uma ideia brilhante. Desse modo. Apenas em nossos sonhos ressurge o que não tem sentido. Há nisso um pano-de-fundo teórico. Tal ideia teve duas consequências sociais. contra o que não podemos tornar sensato. Foi você quem escolheu fazer dela um Nomedo-Pai dessa exposição! A ideia geral é que nos defendemos contra o real. Na base.Jacques-Alain Miller – Mencionei a palavra “defesa” apenas uma vez. Vocês podem mesmo nomeá-lo uma defesa. muito inventiva. Como segunda consequência. Neles se toca talvez mais de perto a verdade. havia a teoria de Andrei Snezknevsky que comportava a ideia de psicose de progressão lenta. Mesmo na apresentação de pacientes de uma hora. os psiquiatras buscavam encontrar indícios menores. Por um lado. partindo da minha experiência clínica. Vyacheslav Tsapkin – Pessoalmente. podemos ver essas setas que Lacan desenhou no esquema I. Na verdade. O discurso do paciente é tecido em torno do real. e se a resposta fosse: “Bem. mas os pesadelos que nos fazem acordar. o psiquiatra não tinha a menor dúvida sobre o diagnóstico. clínica psiquiátrica na qual trabalhei durante anos Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 25 . e esse fora-do-sentido aparece e produz furos no discurso do paciente. gosto muito de Kafka”. mas gostaria justamente de informá-lo da existência de certos precedentes pouco agradáveis a esse respeito. transpassando o discurso do paciente. ainda hoje – isso é específico da Escola de Psiquiatria de Moscou. Isso decorre do lugar comum do qual os psiquiatras teriam seriamente abusado na União Soviética. os dissidentes eram considerados psicóticos por razões óbvias. durante esses anos soviéticos.

o período que antecede ao desencadeamento é de psicose não desencadeada. a Escola de Psiquiatria de Moscou. psicose temos extraída lacaniana Lacan. isso desapareceu completamente! Era uma realidade delirante. Mas os fatos clínicos estão aí.Por anos. apesar de serem neuróticos. paranoia – como variantes da psicose Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 26 . Eu era a favor do balizamento da psicose adormecida que podia se desencadear. quanto às psicoses extraordinárias Creio que com a uma do verdadeira trabalho de podemos apenas ratear em relação a elas. mania. discordei da ideia de uma psicose não desencadeada. grandes doses de neurolépticos. pelo apego de Freud ao Pai e ao complexo de Édipo. Quando se tem uma psicose que se desencadeia. Jacques-Alain Miller . clínica concepção da psicose da ordinária. porque o diagnóstico preferido da Escola de Snezhnevsky. Não gostava dessa ideia de psicose não desencadeada por temer o abuso da noção de psicose adormecida. Podemos ver atualmente as velhas fórmulas que havíamos adotado – esquizofrenia. que nos deu uma clareza sobre a psicose. era a esquizofrenia com aparência de neurose. A União soviética era em si um delírio! E de fato. o que foi destacado em 1992. O passo a mais é compreender que certas psicoses não conduzem a um desencadeamento: psicoses que apresentam uma desordem no ponto de junção mais íntimo dos sujeitos que evoluem sem barulho. mas com um furo. ministrando-lhes.– eles tratam os pacientes neuróticos como psicóticos. a neurose estava no centro da clínica. sem explosão. um desvio ou uma desconexão que se perpetua. Era clinicamente necessário. ou uma psicopatia com aparência de esquizofrenia. Eu me lembro bem do psiquiatra soviético que deu seu diagnóstico ao leitor de Kafka. Foi o sonho de Lênin durante setenta anos! Thomas Svolos – Na clínica freudiana.

mas se tratava de uma psicose ordinária porque apresentava muitos traços de neurose. podem duvidar de sua psicose. a psicose ordinária banal. A utilidade do conceito se situa na maneira com que amplia nossa capacidade de conceituar a psicose e leva a refletir sobre as vias de estabilização de um modo que não existia anteriormente na literatura. à qual Marie-Hélène Brousse10 fez alusão. e meu prazer era deixar isso em suspenso porque provocou grande interesse. Tomando uma categoria como esquizofrenia.O Homem dos lobos. Ele ajudou Freud a esclarecer as neuroses. ou devemos tomá-los como uma psicose ordinária? Em outras palavras. Em relação a Freud. psiquiatra. por um ano. numerosas observações interessantes da parte dos meus colegas. De qualquer forma. ou seja. silenciosa ou latente. A literatura dos anos 60 ou dos anos 70 sobre a psicose parece uma literatura muito diferente daquela dos dez últimos anos. o ponto de basta Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 27 . Digo isso a partir do trabalho clínico. Alguns diziam que ele era neurótico. mas a psicose ordinária elucidou algo mais básico sobre as psicoses.ou como tipos de psicose. Jacques-Alain Miller – Concordo. Ele era psicótico. Penso que o projeto de pesquisa desembocou numa noção mais geral das psicoses. Há muito tempo atrás. outros que era psicótico. com meus colegas o caso do Homem dos lobos. penso que se pode ter uma noção restrita e específica da psicose ordinária. ele não era de evidentemente suas obras. comentei. Ao lerem Freud. muito estável e bem delimitada – mas a noção de psicose ordinária abre para uma teoria mais geral das psicoses. devemos compreender os momentos entre os episódios como sinais de uma esquizofrenia adormecida. a partir da qual é possível articular a estrutura específica da esquizofrenia ou da paranoia. teve um Estudou caso de Schreber psicose através Mas ordinária . mas quando seguem o desenvolvimento de Ruth Mack Brunswick é difícil duvidar disso.

e o desencadeamento estrutural da Jacques-Alain Miller – Creio ter respondido à questão dizendo que quando se vai. mas no livro de Mack Brunswick11. Havia uma questão sobre a diferença entre os episódios de descompensação. Publicamos um livro sobre diversos casos clínicos. pela primeira vez. Manya Steinkoler – Você evocou a sexualidade. mas não falou dela. Vocês poderiam fazer uma lista de certas experiências estranhas na vida sexual. etc. quando se trata de um processo contínuo. Falou do Outro corporal. de uma situação CMB à abertura como um buraco. do Outro social. Nessa segunda-feira. vocês têm o que pode ser chamado em termos desenvolvimentistas de “psicose evolutiva”. Diz-se “desencadeada” quando isso se produz de uma vez. Penny Georgiou – Minha questão se relaciona à eventualidade de poder esclarecer ou não alguma coisa sobre o desencadeamento. Não há vida sexual típica. Qual é a sexualidade de uma psicose não desencadeada? Jacques-Alain Miller – A sexualidade não é típica. Não falamos então de desencadeamento. do fenômeno. a um buraco. houve uma discussão a respeito dessas psicoses sobre as quais nos perguntamos se eram ou não desencadeadas. Vemos psicoses com um corte e psicoses com um declínio. que são a erupção psicose. vocês têm um desencadeamento. e isso continua sem parar. têm um Há “descompensações múltiplas” quando vocês pattern repetitivo que é compensado ininterruptamente. em que temos diferentes abordagens das maneiras de viver sua sexualidade. de uma psicose evolutiva.não está no livro de Freud. Nos homens há. Por outro lado. às Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 28 . intitulado “L´amour dans les psychoses”12.

Não há nada específico. 8 Gault. uma sexualidade que permite se reapropriar do seu corpo. cit. cit.-L. 10-15. (1998[1957-1958]). supostamente. 11 Brunswick. J. 7 Guéguen. “Supplément à ‘Extrait de l´histoire d’une névrose infantile’ de Freud”. X . pp. 537-590. para haver o desencadeamento dessa psicose é preciso haver um elemento que vem em terceiro lugar sob a modalidade de Um-Pai.Pergunta sobre o desencadeamento como encontro com Um-Pai. não corrigido. 5 Idem. um empuxo-à-mulher através do ato sexual. (janeiro 2009). e a generalização desse encontro na psicose ordinária como sendo algo que vem interromper o CMB.-H. Busquem simplesmente uma desordem no ponto de junção mais íntimo do ato sexual. Às vezes há ao contrário.-A. cit. o corpo se fragmenta. 10 Brousse. 40-51. In Escritos. Op. 1 Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 29 . cit. “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”. mas alguma coisa que ocupa o lugar ternário no laço com o sujeito. Norton & Company. pois geralmente a encontramos. Op. (janeiro 2009). In L´Homme aux Loups par ses psychanalystes et par lui-même. Texto transcrito inicialmente em inglês por Adrian Price.-G.. 2 Gault. Tradução: Elisa Monteiro Miller. Paris: Gallimard. 565. Ibidem. Op. Translated by Bruce Fink: W. (94/95). 9 Richards. pp. 66-71. “Effet retour sur la psychose ordinaire”. Ecrits: The First Complete Edition in English. traduzido para o francês por Marie Brémond e estabelecido por Yves Vanderveken.W.. 268-313. pp.M. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. J. J. pp.66-71. pp. 466.. 4 Idem. Às vezes.vezes.. p. In Quarto – Retour sur la psychose ordinaire. pp. M. pp. 29-33. Ibidem. 3 Lacan. (janeiro 2009). R. Op. Então. pp. Revisto pelo autor.-L. J. supomos que não há necessariamente Um-Pai. (2007[1957-1958]). Bruxelles: Ecóle de la Cause freudiènne. P. (1981[1928]). J. 6 Idem. Ibidem. p. Jacques-Alain Miller – Quando falamos de CMB trata-se de uma compensação da foraclusão do Nome-do-Pai. (janeiro 2009).. Quando supomos que há uma foraclusão do Nome-do-Pai. 104-107.(janeiro 2009).

al].-A. [et. (2004). J. Opção Lacaniana Online Efeito do retorno à psicose ordinária 30 .12 Miller. L´amour dans les psychoses. Paris: Seuil.