Sumário

Introdução .......................................................................................................................................2 1. Anorexia na Psicologia..............................................................................................3 2. Anorexia..................................................................................................................10 2.1. Causas..............................................................................................................12 2.2. Tipos.................................................................................................................13 2.3. Transtornos Associados...................................................................................13 2.4. Características da Cultura, da Idade e do Sexo...............................................15 2.5. Epidemiologia...................................................................................................15 2.6. Curso.................................................................................................................16 2.7. Critérios Diagnósticos da Anorexia Nervosa....................................................16 2.8. Tratamento........................................................................................................17 Conclusão....................................................................................................................17 Referências Bibliográficas...........................................................................................18

A Anorexia é então. da auto-percepção da forma e/ou do tamanho do corpo e. pode haver fracasso em fazer os ganhos de peso esperados. mas sim. embora possa haver ganhado na altura. Normalmente a pessoa anorética mantém um peso corporal abaixo de um nível normal mínimo para sua idade e altura. Na realidade. um transtorno alimentar caracterizado por limitação da ingestão de alimentos. devido à obsessão de magreza e o medo mórbido de ganhar peso. ou seja. trata-se de uma perturbação significativa na percepção do esquema corporal. O termo Anorexia pode não ser de todo correto. . tendo em vista que não há uma verdadeira perda do apetite. uma recusa em se alimentar. assim sendo. Quando a Anorexia se desenvolve em numa pessoa durante a infância ou início da adolescência.2 ANOREXIA NERVOSA INTRODUÇÃO As características essenciais da Anorexia Nervosa são a recusa do paciente a manter um peso corporal na faixa normal mínima associado a um temor intenso de ganhar peso. a recusa alimentar é apenas uma conseqüência dessa distorção doentia do esquema corporal.

encontramos o caminho pelo qual Freud articulou a anorexia com a melancolia. ou seja. mas sim alçá-lo ao plano da fantasia para abordá-lo em sua relação com o desejo. Comer nada é uma maneira encontrada pelo sujeito para introduzir uma falta no Outro. colocamos a problemática em termos da constituição subjetiva na neurose. pautaremos nossa discussão em alguns comentários de Jacques Lacan sobre a anorexia. Desde suas correspondências com Fliess. não pretendemos interpretar esse sintoma ou conferir-lhe um sentido unívoco. 1958/1998: 634) que o Outro oferece incessantemente. a anorexia é articulada com a melancolia. não seria ela uma separação mal sucedida ou em impasse? Com o intuito de abordarmos a articulação da anorexia com a alteridade e com o desejo. afirma que "a neurose nutricional paralela à melancolia é a anorexia. como a melancolia. Ao limitarmos nossa investigação à estrutura neurótica. Relacionando a perda de apetite e a perda de libido com uma perda objetal. nem a uma categoria clínica isolada. o estabelecimento de uma defasagem entre o que se obtém e o que se deseja possui algo de estrutural. Perda do apetite — em termos sexuais. 1892-1899/1950: 247). vale dizer.3 1. Ela se apresenta como um sintoma que coloca em ato a falta através desse nada. Nesse momento de sua obra. já que. os estados que antecedem o surto na psicose ou nas psicoses declaradas. Freud a toma numa dimensão sintomática. Essa forma de o sujeito colocar-se diante do Outro. para interpor um "não" a "papinha sufocante" (Lacan. ANOREXIA NA PSICOLOGIA Sabe-se que a anorexia surge nas mais variadas modalidades clínicas. por seu "não" constante diante do alimento que lhe é ofertado e. O processo anorético revela uma dificuldade em relação à perda. Freud fará esse paralelo. podendo levar à morte. A famosa anorexia nervosa é uma melancolia em que a sexualidade não se desenvolveu. Para isso. com um aumento da erotização na zona oral que perturba as atividades aí situadas. à realização de um luto. nem torná-lo genérico ou homogêneo no conjunto de casos de neurose. o nada e a fantasia de desaparecimento. Ambas resultam de uma dificuldade do sujeito em lidar com a perda do objeto. sendo constitutivo do sujeito. pela recusa renitente diante da demanda do Outro. muitas vezes a anorexia é vista como separação. Podemos realmente falar de uma separação? Visto ser a anorexia um sintoma que definha o corpo. essa perda de libido pode ser entendida como uma deserotização da atividade oral. Entendemos a anorexia como "um comer nada" (Lacan. porém. pretende-se passar do plano dos fenômenos ao da estrutura neurótica. . 1956-57/1995: 188) e não como um "não comer". nos termos dos processos de alienação e separação. sobretudo. vale dizer. refere-se ao sintoma anorético e não a anorética em particular. Quando menciona a anorexia. Assim. aqui. perda de libido" (Freud. Em nenhum outro momento. passando a relacionar a anorexia com a histeria e. Por sua forma radical de apresentação. conseqüentemente. que envolvem o sujeito e o Outro. o autismo.

sonho. ou seja. num momento precoce. reduz a falta à falta de alimento. uma forma de assegurar que algo falta ao Outro. "confunde seus cuidados com o dom de seu amor" (Lacan. como concebê-lo? Não se nasce sujeito do desejo. a recusa surge como desejo. através da recusa o sujeito coloca em ato a presença do nada. Vista por esse prisma. pelo contrário. a recusa do objeto oral. O que há de peculiar no processo de constituição do sujeito. lapso e chiste. ao ser convocado no lugar daquele que não tem. a estrutura da linguagem. trata-se da recusa de um objeto. passam a recusar. ou melhor. recusa-se que um objeto possa saturar o que é da ordem do desejo. senão toda alimentação — esse seria o caso extremo da anorexia —. porque assim ele próprio encontrará o rumo do desejo. na relação entre significantes. que a falta é estrutural. O sujeito. pode-se afirmar que na anorexia o Outro primordial. fora dele. um movimento de subjetivação. uma manobra de separação do sujeito em relação ao Outro. É na dinâmica da linguagem. 1960/1998: 849). como via de sustentação do desejo. mas traz em si o germe da sua causa que o cinde" (Lacan. quando o cristaliza. É importante ressaltar que a recusa na anorexia não se confunde com a da castração. Por esse efeito. daquele marcado pela falta. não podendo ser suprimida por nenhum objeto. . ele não é causa dele mesmo. Sublinhemos que a recusa aparece associada a um nada. portanto. como aquele que coordena o sentido. traduzindo com suas predileções e aversões. que a falta não pode ser reduzida à falta de alimento. ou seja. quando a criança se mostra inapetente. a anorexia seria. o Outro responde com o alimento. quando ele vem a produzir esse sintoma. encontra como solução. O sujeito advém a partir de uma estrutura que se coloca desde antes de seu nascimento. 1958/1998: 634). "O registro do significante institui-se pelo fato de um significante representar um sujeito para outro significante. que Lacan localiza a causa do sujeito. de todas as formações do inconsciente. O desejo é indestrutível e nenhuma satisfação obtida através de um objeto da realidade pode preencher a falta do sujeito. massacrado pelos cuidados do Outro. Aí onde o Outro parece sufocar toda falta. e mais. fazendo da anorexia sua resposta? A partir do ensino lacaniano. Recusar o alimento é. Como se constitui o sujeito? Se ele não pode ser definido como consciência de si. Em suas palavras. Isso se aplica às anorexias leves e passageiras nos primeiros anos da infância. 1960/1998: 849). "o efeito de linguagem é a causa introduzida no sujeito. com o gostar de uma coisa ao invés de outra. responde com o alimento. 1956-57/1995: 186) ou corporal. é nos meandros da relação entre o sujeito e o Outro que se encontra o sintoma da anorexia. ou seja. O sujeito surge a partir do movimento de alienação e separação da cadeia de significantes. ou seja.4 As crianças. E é também o que explica a divisão originária do sujeito" (Lacan. O sujeito propõe que o Outro busque um objeto de desejo além dele. algum tipo de alimento. por não entender o que o choro do bebê significa. Essa é a estrutura. É assim que Lacan afirma que "mesmo o desejo da criança nunca está ligado à pura e simples satisfação natural" (Lacan. Diante da angústia por não saber o que o sujeito lhe está demandando. então.

são compreendidas a partir da relação entre o que Lacan chamou de campo do vivo (ainda não há sujeito) e o campo do Outro. para que não fique inteiramente preso aos significantes do Outro. articulada à idéia de cadeia. do sentido. Sustentando a constituição da psicanálise como campo do inconsciente — o que já se encontrava definido no axioma segundo o qual o inconsciente é estruturado como uma linguagem (Lacan. vemos que o sujeito só pode ser conhecido no lugar do Outro. Nesse sentido. O sentido vem sempre como retorno da interpretação dada pelo Outro. e é esse sentido que irá guiá-lo para uma ação específica em relação ao desamparo do bebê. é preciso que a falta opere. Sendo assim. O sujeito surge ao preço de uma perda de parte desse vivo. Nas palavras de Lacan: "portanto. utilizando. a alienação e a separação. já que não cabe ao sujeito determinar um sentido ao significante. Ali é o Outro que significa o choro do bebê. uma perda está necessariamente envolvida como contrapartida do acesso ao sentido. na alienação do sujeito ao campo do Outro. O sujeito se faz representar por um significante. traduz sua posição nos movimentos de alienação e separação. objeto peculiar. uma vez que um significante sozinho não representa nada. para isso. Isso porque o Outro precede o sujeito. cortado em sua estrutura. Significante e sentido situam-se do lado do Outro. 1960/1998: 855). devido à própria estrutura da linguagem. . no campo da linguagem. que há um núcleo não significativo. duas operações que funcionam de modo conjugado: a alienação e a separação. Lacan (1960/1998) acrescenta uma nova articulação: à alienação do sujeito nos significantes do Outro. como resposta do sujeito. 1955-56/1988) —. fala-se dele antes mesmo de seu nascimento e a fala depende desse campo. pois. o qual terá que representá-lo para um outro significante. posto que traduza a falta que afeta tanto o sujeito quanto o Outro. Que o Outro seja para o sujeito o lugar de sua causa significante só faz explicar aqui a razão por que nenhum sujeito pode ser causa de si mesmo" (Lacan. Essa falta é o pivô da separação: para que o sujeito se separe da cadeia significante. Esse postulado já se encontra presente na obra de Freud (1895/1950) com a experiência de satisfação. Trabalhemos com a hipótese segundo a qual o sintoma da anorexia. No que concerne à alienação. onde irá aparecer o sujeito. não é o fato de essa operação se iniciar no Outro que a faz qualificar de alienação. mostrando assim que o campo do Outro não é todo significante. A representação está. já que se constitui através do significante que aí se encontra. associa a separação. Há uma diferença entre o campo do ser vivo e o do sujeito. aqui definido como lugar da linguagem. As duas operações que definem o sujeito. o objeto a.5 O sujeito surge cindido. o sujeito se presentifica no campo do Outro. É importante destacar que a alienação não é entendida como dependência em relação ao Outro e nem está relacionada com o fato de essa operação se iniciar no campo do Outro. Lacan (1964/1986) formula a constituição do sujeito.

saídas que não são independentes do modo com que se efetua a alienação. o sentido do Outro. ou à impossibilidade de vida simbólica. à morte. Por um lado. . visto que ela está contida na própria cadeia de significantes. Nessa situação. cabendo a ele se interrogar sobre o que ela diz. faltando sempre algo em seus encontros com o Outro. sobre ser homem e ser mulher do ponto de vista do inconsciente. Trata-se. mas não se pode dizer que ocorra sempre da mesma maneira para todos que são afetados pela linguagem. surgindo à possibilidade de separação. O que produz essa falta no campo do sujeito é o fato de ele estar determinado pela linguagem. que possui o sentido de "ou". pela bolsa. 1997: 62). "o ser está fadado à perda. em última instância. mesmo aquele que se recusa à fala não preserva seu ser" (Bastos. um vazio se faz presente. com o caráter parcial da pulsão. onde há linguagem. Esse processo se impõe a todo falante. O desejo do Outro é a presença de alguma coisa que falta na fala. 2003: 145). posição que levaria. por parte do sujeito. com a impossibilidade de representar a totalidade da tendência sexual. indica um movimento de separação. uma questão: que sentido é esse que eu recebo? O que o Outro quer dizer com isso que ele diz de mim? Por esse sentido ser formulado por significantes. o caminho pelo qual o falante tem que passar. fica sem a vida e sem a bolsa. "A alienação é o destino" (Soller. de querer saber o que é. portanto de uma escolha de muita pouca escolha. assim como também não tem uma aplicação de "tanto faz isso quanto aquilo". uma perda em qualquer escolha que se faça. o sujeito que consentiu na alienação aciona estratégias de separação de acordo com o que pode localizar no Outro como falta. O vel da alienação mostra que. Nas suas relações com o Outro. com os significantes que o Outro profere. A anorexia ilustra bem que há diferentes saídas para a separação. visto que é impossível estar fora da linguagem. A falta está relacionada com a sexualidade. Por outro lado. há a possibilidade de surgir. portanto. Daí resulta a ausência de uma definição ou inscrição sobre o sexo. pois linguagem implica perda de ser. Esse questionamento da fala do Outro só pode ser realizado quando o sujeito se depara com uma falta no Outro. visto que optar pelo ser. ou seja. tem que ceder a bolsa. Há. Esse movimento. originário do latim. O vel implicado na operação de alienação envolve uma perda nos dois campos. em última instância. Sendo assim.6 Lacan explicita essa relação entre o sujeito e o Outro com a utilização do termo vel. para além do que o Outro diz sobre ele. ao ser dado um sentido para o sujeito. como o apresentado na alternativa "como isso ou como aquilo". se ele opta pela vida. e. uma escolha forçada. uma falta pode aparecer. A equivocação se faz possível entre o que o Outro diz e o que está por trás disso. no exemplo lacaniano. vazio responsável por uma busca constante à medida que se torna causa do desejo. se o sujeito escolhe a bolsa. O ponto fundamental que destacamos no processo de alienação é o fato de que. ou. O exemplo com que Lacan demonstra a função desses "ou" na alienação é a escolha que o sujeito tem que fazer entre a bolsa ou a vida. para o primeiro. A mãe encarna o primeiro Outro e dá um sentido ao sujeito. é recusar os significantes. Mas o "ou" em jogo na alienação não possui um sentido excludente. para não ficar retido nas malhas significantes. sem a possibilidade de satisfação plena.

Além disso. ela retrata a posição daquele que quer saber até que ponto o Outro o quer. conclui-se aqui em se/parere. 1960/1998: 857). 1964/1986: 203). Há sempre um resto irrepresentável que cai da cadeia de significante. Esta posição é uma tentativa de tatear o desejo do Outro. por parte do sujeito. Mas o que Lacan indica como sendo esse elemento comum — presente tanto no campo do sujeito como no campo do Outro — é a falta. sua causa. É um desejo. com efeito — sabemos disso por mil fatos. o sujeito se coloca. Esta falta se encena com a perda do sujeito. apontando para uma perda tanto no campo do ser quanto no campo do Outro. 1964/1986: 147). Podemos afirmar que a anorexia aparece como uma resposta do sujeito à opacidade do desejo parental sob a forma de uma fantasia de desaparecimento. uma das fantasias passíveis de serem formuladas a partir do enigma do desejo do Outro — o oferecimento ao Outro. diante do enigma do desejo do Outro: "o primeiro objeto que ele propõe a esse desejo parental cujo objeto é desconhecido é sua própria perda. uma falta que se apresenta através da articulação da cadeia significante. a falta que vigora na separação é aquela que o torna desejante. Diante desse não saber sobre o desejo do Outro. . 1964/1986: 203). o fato de ele não poder ser inteiramente representado no Outro. resíduo que definirá o seu ser sexual. As duas faltas que se recobrem na separação são: do lado do sujeito. digamos matematicamente. que faz com que o sujeito questione o lugar que ele ocupa frente ao Outro. O significante induz uma perda de ser. deixando um resto. enquanto na alienação trata-se de reunir o sujeito ao campo do Outro. A anorexia presentifica esse momento em que o sujeito convoca o desejo do Outro. com o que resta dessa operação e não diz respeito ao significante. O ponto que Lacan destaca a partir desse movimento de separação. vale dizer. gerar a si mesmo" (Lacan. A interseção entre dois conjuntos é a operação que destaca o que pertence a ambos. de seu desaparecimento. e que se faz central para a abordagem da anorexia. mais especificamente de seu desaparecimento. separar. Pode ele me perder?" (Lacan. através de seu desaparecimento. Lacan assinala que é no processo de separação que se fecha a causação do sujeito. Nesse momento. Ele nos diz "separare. onde se reconhece a sua fenda. Lacan afirma que "a fantasia de sua própria morte. então. Lacan (1964/1986) chega a afirmar que "a função do desejo é resíduo último do efeito do significante no sujeito" (Lacan. e ele o põe. Trata-se do objeto a. de seu desaparecimento. A separação é trabalhada a partir de sua estreita relação com a causa do desejo. o objeto a. o conjunto vazio contido em todo conjunto. Esta é. se faz representar. ainda que fosse pela anorexia mental" (Lacan. então. mostrando que aí se produz uma falta. Do lado do Outro. qual o limite desse querer.7 Como vemos. no processo de separação ressalta-se a interseção entre esses dois campos. com seu desaparecimento enquanto objeto que causa o desejo do Outro. que não é o objeto do desejo e sim aquele que move o desejo. é o primeiro objeto que o sujeito tem a pôr em jogo nessa dialética. é o oferecimento do sujeito. Vemos aqui uma aproximação entre falta e vazio no processo de alienação e separação.

Miller (2000). ou à impossibilidade. recorremos a J. as formas primárias da anorexia. ela tem a intenção de cavar uma falta no Outro com seu desaparecimento. e a citação acima só confirma a presença desse movimento no sintoma da anorexia. É a estrutura de qualquer desejo. relacionado à castração do Outro. ao contrário do que se pensa. Quando se diz que é necessário um querer. seja nas transformações que o corpo sofre na adolescência. Ele envolve um desejo do sujeito. Seguindo nesse caminho que apresenta a anorexia como uma tentativa de separação. mais ainda. 1964/1986: 207). assim. a separação do desmame. do lado da separação. Tal relação entre a anorexia e a separação também se faz presente em Rabinovich (1993). da recusa do seio. Nesse sentido. do que ela faz sentir como sentido. a rejeição do Outro é o que nela está em primeiro plano" (Miller.8 Assim. Comendo o nada. do que ela intima. um desejo do sujeito para que se estabeleça esse movimento de separação. . de saber sobre o Outro. que relaciona a anorexia com essa posição de vampiro que o Outro pode ocupar na fantasia do sujeito. que a anorexia aparece. como poderíamos sequer conceber os fatos sumamente primitivos. sumamente primordiais em seu aparecimento. ela se desmama. a uma lei que o coloca como faltoso. Assim. para a criança. não é desmamada. recordemos que a criança. O corte. é nesse ponto de falta que se constitui o desejo do sujeito" (Lacan. 1962-63/2005: 356)? A separação está ligada à admissão de que o Outro também está submetido à lei significante e. "é no que seu desejo está para além ou para aquém no que ela (mãe) diz. Se já não houvesse nisso algo tão ativo que podemos enunciá-lo no sentido de um desejo de desmame. O fantasma de seu desaparecimento seria uma forçagem radical do desejo no Outro. a anoréxica se identifica. é no que seu desejo é desconhecido. o seio materno é o desejo do Outro em ato. encarna em sua fantasia o objeto perdido pelo Outro. que utiliza os movimentos de alienação e separação ordenando a anorexia "do lado do sujeito barrado. se produz entre o seio e a mãe. sob a forma do vampiro. Uma das maneiras de observarmos esse afastamento do Outro é a evitação. O processo de separação está. 2000: 177). por exemplo. o sujeito se refugia na fantasia de sua própria morte face à dificuldade. o isolamento que a anorética demonstra em relação ao contato social. sobretudo com a chegada da adolescência e com o encontro do sujeito com o sexo — "o que é ser mulher?" ou "como ser uma mulher frente ao Outro?". A. cujas correlações no nível do grande Outro nossa experiência nos ensina imediatamente a procurar (Lacan. ela se separa do seio. como desejante. Assim. seja em seu encontro com o sexo. o "sujeito se propõe como o objeto que poderia faltar ao desejo parental" (Wachsberger. Como nos diz Lacan (1964/1986). 1998: 13). a rejeição da mãe nutridora e. mais amplamente. Ressaltamos a semelhança entre o questionamento diante do qual o sujeito oferece seu desaparecimento ao Outro — "o que o Outro quer de mim?" — e a pergunta que surge. É justamente quando o sujeito se depara com o desejo do Outro em sua vida.

é ela quem está à sua mercê. visto que ela tenta negar sua determinação pelo Outro na alienação originária. médico. aponta a dissociar precisamente a dimensão do desejo daquela da demanda. Apesar de. onde o nada aparece como uma tentativa de separação do Outro. ela busca essa separação pelo caminho da negação do Outro. a falta não pode ser reduzida a objeto algum. 2001: 29). Na anorexia. tais como a relação entre o sujeito e o Outro. 1993: 104). Isso é afirmado a partir da clínica. e da posição de objeto do dito desejo via anorexia (Rabinovich. o analista às voltas com a anorexia terá que lidar com algumas questões aqui destacadas. não podemos deixar de apontar que há uma diferença entre capricho e desejo. ou seja. frente ao Outro. Na singularidade de cada caso. os percalços nesta última indicam o quanto o sujeito se viu aprisionado pelos significantes do Outro cuja demanda é de que aceite o alimento. situar-se no horizonte do descarnado. de fato. a anorexia é um sintoma que traz em si uma tentativa de separação do Outro. quando se verifica que a anorética recusa a demanda do Outro. há tal pregnância da posição de vampiro no desejo do Outro que a criança só pode se safar do desejo de alimentar. o movimento presente no sintoma da anorexia pode ser considerado uma pseudo-separação. ou. esse corpo esquelético. e não uma separação do Outro. 2001: 29). o corpo se consome para abrir uma falta no Outro. entre o "não" como possibilidade de expressão subjetiva e a radicalidade do nada. que corresponde a uma pseudo-separação. Foi com os estudos de Massimo Recalcati (2001). "Na anorexia. Ao mesmo tempo. essa . que conseguimos avançar em nossas pesquisas sobre a anorexia. Posto que alienação e separação são processos conjugados. aparentemente. tampouco ao alimento. juntamente com os citados aqui. cada vez mais magro e fraco. o sujeito se torna mestre da onipotência. Ao presentificar o nada através de uma recusa generalizada. o comer nada da anorexia. nem totalmente malograda. um valor de troca nas relações com o Outro. tomemos como exemplo certas anorexias prematuras. em suma. cabe apenas a ele fazer-se viver ou não. o capricho. ou seja. a alienação e a tentativa de separação. É inegável que.9 Às vezes. o nada. é ela (a anorética) quem depende por seu desejo. É uma separação que aponta o desvincular-se da alienação" (Recalcati. É o que demonstra sua recusa radical a qualquer objeto que a satisfaça. atitude que a coloca em um lugar (ilusório) de onipotência frente a todos: família. por sua própria estrutura de funcionamento. põe à prova o desejo do Outro para sustentar sua onipotência. à mercê das manifestações de seu capricho. O "não!" anorético. entre um movimento que visa o distanciamento do Outro e uma outra manobra que requer sua presença como refém do sujeito. psicólogo. Recalcati chega a classificar essa pseudo-separação como um movimento de "separação contra alienação" (Recalcati. a separação do Outro se configura como um modo para negar a dependência estrutural (simbólica) do sujeito ao Outro. Nem bem-sucedida. à mercê da onipotência de si mesma" (Lacan. 1956-57/1995: 190). do desejo de dar. traz consigo uma marca fálica. Segundo o autor. se preferirem. "A partir daí.

De modo geral. Isso é devido a níveis anormalmente baixos de secreção de estrógenos que. A perda de peso nas pessoas com Anorexia é obtida. medições obsessivas de partes do corpo e uso persistente de um espelho para a verificação das áreas percebidas como "gordas". Alguns deles acham que têm um excesso de peso global. Ao determinar um peso normal mínimo. A vivência e a importância do peso e da forma corporal. a maioria dos pacientes termina com uma dieta muito restrita. a preocupação com o ganho ponderal freqüentemente aumenta à medida que o peso real diminui. nádegas e coxas. É justamente pelo viés do desejo que a falta pode ser afirmada e que o trabalho analítico pode apostar na separação. independentemente dos resultados contrários da balança. 2. embora alguns pacientes possam começar "o regime" excluindo de sua dieta aquilo que percebem como sendo alimentos altamente calóricos. através da redução do consumo alimentar total. estarem "muito gordas”. por vezes limitada a apenas alguns poucos tipos de alimentos. por sua vez. incluindo pesagens excessivas. mas. Nos casos mais graves o paciente adota métodos adicionais de perda de peso. como dissemos. ANOREXIA A pessoa que pesa menos que 85% do peso considerado normal para a idade e altura costumam ser um dado valioso para se pensar em anorexia. Outros percebem que estão magros. O CID-10 (Classificação Internacional de Doenças) recomenda que a pessoa tenha um Índice de Massa Corporal (IMC) igual ou inferior a 17. mas ainda assim se preocupam com o fato de certas partes de seu corpo. uso indevido de laxantes e diuréticos e prática de exercícios intensos ou excessivos. Essas medidas ou índices são apenas diretrizes sugeridas para o clínico. As mulheres que já menstruam costumam apresentar supressão das menstruações (amenorréia) quando acometidas de Anorexia. deve-se a uma . sobretudo a constituição corporal e a história ponderal do paciente. A perda de peso é vista como uma conquista notável e como um sinal de extraordinária disciplina pessoal. o médico deve considerar não apenas essas diretrizes. são distorcidas nesses pacientes. Na Anorexia os pacientes podem empregar uma ampla variedade de técnicas para estimar seu peso.10 tentativa de separação aspira ao desejo. principalmente. os quais incluem auto-indução de vômito. particularmente abdômen. A auto-estima dos pacientes com Anorexia depende obsessivamente de sua forma e peso corporais. O IMC é calculado dividindo-se o peso em quilogramas pela altura em metros. Embora alguns pacientes com este transtorno possam reconhecer que estão magros. Na verdade. As pessoas com este transtorno têm muito medo de ganhar peso ou ficar gordos e este medo geralmente não é aliviado pela perda de peso. pois não é razoável especificar um padrão único para um peso normal mínimo aplicável a todos os pacientes de determinada idade e altura. 5 kg/m2 sugestivos de anorexia. eles tipicamente negam as sérias implicações de seu estado de desnutrição. ao passo que o ganho de peso é percebido como um inaceitável fracasso do autocontrole.

11 redução da secreção de hormônio folículo-estimulante ([FSH) e hormônio luteinizante (LH) pela pituitária. .

um estilo de raciocínio de tudo ou nada leva a conclusão de que um grama de peso ganho significa uma transição de normal para gordo. Essas pessoas freqüentemente não possuem insight para o problema ou apresentam uma considerável negação quanto a este. após a ocorrência de uma acentuada perda de peso ou fracasso em fazer os ganhos de peso esperados. mas. 2. banheiros. . cozinheiros ou simplesmente colecionar receitas e artigos sobre comida. geralmente é em razão do sofrimento subjetivo acerca das seqüelas físicas e psicológicas da inanição. Eles costumam esconder comidas pelos armários. sabidamente ligados à regulação normal do comportamento alimentar e manutenção do peso. Um estranho comportamento em relação à comida pode ser exibido por alguns desses pacientes. o aparecimento de menstruações (menarca) pode ser retardada pela doença. tais como a dopamina. Em jovens pré-púberes. Causas Não se conhecem as causas fundamentais da Anorexia. para determinar o grau de perda de peso e outros aspectos da doença. em uma minoria de pacientes pode precedê-la.1. Normalmente o paciente é levado para tratamento por membros da família. além dos aspectos genéticos. A amenorréia em geral é uma conseqüência da perda de peso. Há autores que evidenciam como causa a interação sociocultural mal adaptada. mecanismos psicológicos menos específicos e especial vulnerabilidade de personalidade. podem procurar empregos como garçonetes. intensifica o medo de ceder ao impulso de comer e aumentam as proibições contra ela. Por isso. Quando o paciente busca auxílio por conta própria. Aspectos biológicos incluem as alterações hormonais que ocorrem durante a puberdade e as disfunções de neurotransmissores cerebrais. Padrões de pensamento pré-mórbidos assumem um novo significado. dentro de roupas ou podem preparar pratos extremamente elaborados para amigos ou familiares. Estudos demonstram uma taxa de concordância muito maior em gêmeos monozigóticos em comparação com gêmeos dizigóticos (56% contra 5%). com freqüência se torna necessário obter informações a partir dos pais ou outras fontes externas.12 Essa ocorrência indica séria disfunção fisiológica na Anorexia. a noradrenalina e dos peptídeos opióides. Assim. fatores biológicos. a serotonina. Raramente um paciente com Anorexia se queixa da perda de peso em si. Parentes de primeiro grau de pacientes com anorexia exibem um risco de aproximadamente 8 vezes maior de apresentar a doença do que a população geral. A preocupação crescente com alimentos corre juntamente com a diminuição no consumo. Vários trabalhos apontam para uma predisposição genética no desenvolvimento da anorexia. Ou ainda.

2. envolvimentos da criança em tensões familiares. Tipo Compulsão Periódica/Purgativo: É quando o paciente se envolve regularmente em compulsões de comer seguida de purgações durante o episódio atual de anorexia. com freqüência são proeminentes. mães que competem com as filhas. por exemplo. a abusarem de álcool ou outras drogas. os pacientes com Anorexia. são menos graves e têm melhor prognóstico que aqueles com o Tipo Compulsão Periódica/Purgativo. Tipos Os seguintes subtipos podem ser usados para a especificação da presença ou ausência de compulsões periódicas ou purgações regulares durante o episódio atual de Anorexia. Muitos dos aspectos depressivos podem ser secundários às seqüelas fisiológicas e clínicas da desnutrição. pais ausentes. minimização de conflitos. a exibirem maior instabilidade do humor e a serem sexualmente ativos. Aparentemente. tanto relacionadas quanto não relacionadas com comida. diuréticos. estes fatores hoje são vistos mais como mantenedores do comportamento do que como casuais. 2. esses pacientes não se desenvolveram compulsões periódicas ou purgações. jejuns ou exercícios excessivos. insônia e interesse diminuído por sexo. Transtornos Associados Quando seriamente abaixo do peso. Comparados os dois grupos. A maioria dos pacientes com Anorexia preocupa-se excessivamente com alimentos. irritabilidade. portanto.3. Esses últimos estão mais propensos a ter outros problemas de controle dos impulsos. A maioria dos pacientes com Anorexia que comem compulsivamente também faz purgações mediante vômitos auto-induzidos ou uso indevido de laxantes. retraimento social. Tipo Restritivo: Neste tipo a perda de peso é conseguida principalmente através de dietas. Esses pacientes podem ter quadro clínico e sintomático que satisfaz os critérios para Transtorno Depressivo Maior. mas fazem purgações regularmente mesmo após o consumo de pequenas quantidades de alimentos. Alguns pacientes incluídos neste subtipo não comem de forma compulsiva. Porém. Durante o episódio atual. Características: Obsessivo-Compulsivas. Os sintomas de perturbação do humor devem. Tipo Restritivo. . como dissemos acima. a maior parte dos pacientes com o Tipo Compulsão Periódica/Purgativo dedica-se a esses comportamentos pelo menos 1 vez por semana.13 Os modelos de sistemas familiares procuram identificar determinados padrões de funcionamento familiar alterado. muitos pacientes com Anorexia manifestam sintomas depressivos. tais como humor deprimido. etc. 2. ser reavaliados após uma recuperação completa ou parcial do peso.

. podem causar diversos distúrbios. no sentido de que o padrão de secreção de hormônio luteinizante (LH) em 24 horas assemelha-se àquele normalmente visto em pacientes pré-púberes ou na puberdade. hipotermia e pele seca. Quando os pacientes com Anorexia apresentam obsessões e compulsões não relacionadas a alimentos. uma forte necessidade de controlar o próprio ambiente. Os exames de imagem cerebral (tomografia) com freqüência podem mostrar um aumento na razão ventricular-cerebral. A indução de vômitos e o abuso de laxantes. enquanto os homens têm baixos níveis de testosterona. como por exemplo. a hipercolesterolemia é comum e os testes de função hepática podem estar alterados. Níveis alterados de várias substâncias fundamentais ao equilíbrio interno podem acontecer. Existe uma regressão do eixo hipotalãmico-pituitário-gonadal em ambos os sexos. por exemplo. conseqüente aos distúrbios hidroeletrolíticos. hipofosfatemia e hiperamilasemia.14 Observações de comportamentos associados com outras formas de restrição alimentar sugerem que as obsessões e compulsões relacionadas a alimentos podem ser causadas ou exacerbadas pela desnutrição. baixos níveis de estrógeno sérico estão presentes. dor abdominal. Os níveis de hormônio tiroideano (tiroxina sérica ou T4) podem estar diminuídos. sentimento de inutilidade. O eletroencefalograma pode mostrar anormalidades difusas. Em mulheres. e o abuso de laxantes pode causar acidose metabólica. Embora alguns pacientes com Anorexia não apresentem anormalidades laboratoriais. outras arritmias. O exame físico desses pacientes pode mostrar amenorréia (supressão de menstruações). Também pode haver queda significativa na pressão arterial (hipotensão). hipozinquemia. intolerância ao frio e letargia. O eletrocardiograma das pessoas com Anorexia pode estar também alterado. elevado o bicarbonato sérico. A indução de vômitos pode provocar alcalose metabólica. A maioria dos pacientes com Anorexia apresenta pulso lento (bradicardia). queixa de intestino preso (constipação). hipomagnesemia. diuréticos. assim como pode haver aumento da cortisona plasmática (hiperadrenocorticismo) e a resposta anormal a uma variedade de provocações neuroendócrinas são comuns. refletindo uma encefalopatia metabólica. algumas vezes. São observada diminuição do ritmo cardíaco (bradicardia sinusal) e. pensamento inflexível. forma corporal ou peso pode haver um diagnóstico conjunto e concomitante de Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Outras características ocasionalmente associadas com a Anorexia incluem preocupações acerca de comer em público. a característica de semi-inanição deste transtorno pode afetar sistemas orgânicos importantes e produzir uma variedade de distúrbios. hipocloremia e hipocalemia. A desidratação pode ser refletida por um elevado nível de uréia sangüínea. espontaneidade social limitada e iniciativa e expressão emocionais demasiadamente refreadas. Alguns pacientes ficam com os pelos do tronco mais fino desenvolvem (lanugo).

Os pacientes que emigraram de culturas nas qual o transtorno é raro para culturas nas qual o transtorno é mais prevalente podem desenvolver Anorexia Nervosa. especialmente no tocante às mulheres. Austrália. A Anorexia raramente inicia antes da puberdade. da Idade e do Sexo A Anorexia parece ter uma prevalência bem maior em sociedades industrializadas. Japão e África do Sul. mas existem indícios de que a gravidade das perturbações mentais associadas pode ser maior nos pacientes prépúberes que desenvolvem a doença. como desconforto epigástrico ou antipatia por certos alimentos. Mais de 90% dos casos de Anorexia ocorrem em mulheres. em algumas culturas. em 40% por ocasião de uma situação competitiva. Sua evolução é variável. podendo a motivação expressada para a restrição alimentar ter um conteúdo diferente. a percepção distorcida do corpo pode não ser proeminente. Por exemplo.4. . Algumas profissões ligam esbelteza com realizações. A anorexia surge em 45% dos casos após dieta de emagrecimento. O índice de mortalidade em função direta da doença é estimado entre 6% e 10%. O transtorno é provavelmente mais comum nos Estados Unidos. até evoluções crônicas com inúmeras internações e recaídas sucessivas. 2. podendo ir de um episódio único com recuperação ponderal e psicológica completa. Fatores culturais também podem influenciar as manifestações do transtorno. notadamente a depressão. à medida que assimilam os ideais de elegância ligados à magreza. tais como dificuldades de adaptação conjugal. A doença acomete mais freqüentemente classes sociais mais elevadas. nas quais existe abundância de alimentos e onde.15 A anorexia pode levar à morte em conseqüência das alterações orgânicas e metabólicas secundárias à desnutrição e desequilíbrio eletrolítico. A grande maioria dos pacientes mantém alterações psicológicas ao longo de toda a vida. papel materno mal elaborado. mas poucos trabalhos examinaram a prevalência em outras culturas. cerca de 90% dos casos são em mulheres. Entretanto. Epidemiologia A taxa de prevalência de pacientes com anorexia é de 1% e. e populações especiais (notavelmente bailarinas e modelos) demonstraram ter um risco incomumente alto para o desenvolvimento de transtornos alimentares. o que é mais raro. ela pode estar associada com um melhor prognóstico. ser atraente está ligado à magreza. 2. Características da Cultura.5. Isso exige uma constante avaliação clínica e laboratorial. Canadá. A incidência de Anorexia tem aumentado nas últimas décadas. também há dados que sugerem que quando a doença se inicia durante os primeiros anos da adolescência (entre 13 e 18 anos de idade). adaptação profissional ruim e desenvolvimento de outros quadros psiquiátricos. destes.

suicídio ou desequilíbrio eletrolítico. B) Medo intenso de ganhar peso ou se tornar gordo mesmo com o peso abaixo do normal. O aparecimento da doença freqüentemente está associado com um acontecimento vital estressante. principalmente depressão. Alguns pacientes se recuperam completamente após um episódio isolado. Curso A idade média para o início da Anorexia é de 17 anos. Critérios Diagnósticos da Anorexia Nervosa A) Recusa a manter o peso corporal em um nível igual ou acima do mínimo normal adequado à idade e à altura (por ex. O curso e evolução da Anorexia são altamente variáveis. como sair de casa para cursar a universidade. a mortalidade em longo prazo por é em torno de 10%. Um risco maior de Transtornos do Humor. casamento. (Considera-se que uma mulher tem amenorréia se seus períodos ocorrem apenas após a administração de hormônio.16 2. . etc. influência indevida do peso ou da forma do corpo sobre à auto-avaliação.6. A hospitalização pode ser necessária para a restauração do peso e para a correção de desequilíbrios hidroeletrolíticos. perda de peso levando à manutenção do peso corporal abaixo de 85% do esperado ou fracasso em ter o ganho de peso esperado durante o período de crescimento. por inanição. também foi constatado entre os parentes biológicos em primeiro grau de pacientes com Anorexia. C) Perturbação no modo de vivenciar o peso ou a forma do corpo. O início do transtorno raramente ocorre em mulheres com mais de 40 anos.7. com maior freqüência. 2. Dos pacientes baixados em hospitais universitários.. isto é. por ex. D) Nas mulheres pós-menarca. alguns exibem um padrão flutuante de ganho de peso seguido de recaída e outros vivenciam um curso crônico e deteriorante ao longo de muitos anos. estrógeno). amenorréia. Existe um risco aumentado de Anorexia entre os parentes biológicos em primeiro grau de pacientes com o transtorno. ausência de pelo menos três ciclos menstruais consecutivos. com alguns dados sugerindo picos aos 14 e aos 18 anos. ou negação do baixo peso corporal atual. levando a um peso corporal menor que 85% do esperado).. A morte ocorre. rompimento conjugal.

Dependendo das condições clínicas da paciente. Há tempos. CONCLUSÃO A anorexia nervosa em adolescentes vem crescendo de maneira assustadora e. Se o tratamento é em regime de hospitalização procede-se à correção hidroeletrolítica. a negação da doença é muitas vezes parte integrante do quadro. No caso da internação. Tratamento Uma das primeiras dificuldades é a que diz respeito à aderir o paciente ao tratamento. recomenda-se que seja feita com neurolépticos e. proceder à internação da paciente para restabelecimento de sua saúde em ambiente hospitalar. preferentemente. a atividade de "modelo-manequim" tem habitado os sonhos de meninas e mães. é necessário. também. . notadamente com tricíclicos que tenham como efeito colateral também o estímulo do apetite e o ganho do peso. normalmente. Psicologicamente deve-se abordar o caso cognitivamente e/ou comportamentalmente. das crenças e dos esquemas falhos de pensamento. os quais elas percebem como inimigos e interessados apenas em realimentá-las. como é o caso da maprotilina. que é recompensada com elogios e diminuição de situações aversivas como restrição de sua mobilidade. o médico deve encorajar hábitos alimentares normais e ganhos de peso sem que isto se torne o único foco do tratamento. Portanto. seja essa uma das manifestações que fazem ver mais claramente os reflexos da cultura na sanidade emocional das pessoas. se faz à custa de antidepressivos. Havendo necessidade de sedação (quase sempre há). a taxa de recidiva imediata é superior a 25%. estilistas determinam tiranicamente as medidas antropológicas femininas. sob o risco de condenarem as mulheres de compleição normal a se sentirem deficientes e deformadas. como é o caso da levomepromazina. A psicofarmacoterapia é indispensável e. em fazê-las perder a vontade de controlar seus pesos. sobre falsas expectativas e de que a cura não será fácil. encorajando a adoção de atitudes mais sadias por parte da paciente. Portanto o acompanhamento destas pacientes deve-se fazer por anos. pois. não necessariamente nessa ordem. Mesmo após a melhora é bom ter em mente que as recaídas são freqüentes. amitriptilina ou clomipramina. As pacientes com anorexia em geral desconfiam dos médicos. A família deve ser orientada sobre a gravidade do problema. Há tempos. dieta hipercalórica mesmo contra a vontade da paciente. de acordo com escalas duvidosas de valores sensuais. correção de possíveis alterações metabólicas e início do tratamento psiquiátrico. muitas vezes em função de uma caquexia. como imos.8. A psicoterapia individual é indicada visando à modificação do comportamento. com aqueles que também aumentam o apetite.17 2. talvez.

I 1996. Livro 4 : A relação de objeto. a lucidez e a vida. muitas delas igualmente desejosas dessa anomalia existencial. (1960). de seu comportamento dócil e meigo (substituído pelas artes marciais). 1998. (1950 [1895]). Livro 3 :As psicoses. (1958). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. vol. (Org. O Seminário. esse falso ideal de beleza ganhou a mídia. Em Escritos (pp. escolas e a sociedade em geral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 591652). as ruas. 843-864). Ela veio das passarelas. assim. a mulher moderna tem se feito e se produzido para outras mulheres. Em Escritos (pp.a milenar marca registrada do interesse masculino. ainda que à custa de perderem os cabelos. (2003). juntamente com a feminilidade de suas roupas (antes. lares. A mulher moderna vem perdendo. 1995. O Seminário. vol. 137-149). algumas mulheres arriscam comentar. Em arroubo maior de insatisfação consigo mesma.). Freud. mal nutridas e esqueléticas. Extratos dos documentos dirigidos a Fliess. das passarelas. Quem sabe. a televisão. 1998. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro: Imago. Posição do inconsciente. o cinema. claramente definida. os dentes. S.18 E. A direção do tratamento e os princípios de seu poder. que gostariam de pegar essa "tal anorexia". seria objeto de inveja e admiração por parte de outras mulheres. Rio de Janeiro: Contracapa. sexualmente bem definidas). A. também sua curva . (1955-56). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Bastos. 1988. Lacan. apesar de tudo. com disfarçada pilhéria. Mas. qualquer mulher de bom senso deve ter sempre em mente que esse ideal corporal não nasceu de uma opinião máscula. I 1996. Arremedando pessoas esquálidas. dessa forma. Projeto para uma psicologia científica. J. (1956-57). a saúde. Rio de Janeiro: Imago. Entre o ser e o sujeito: a alienação. T. (1950 [1892-1899]). Em Pinheiro. Psicanálise e formas de subjetivação contemporâneas (pp. . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.