Ensaio Crítico

Dom Quixote, Inquisição e pensamento heterodoxo Espanha – Séc. XVI-XVII
Heitor Manente Dutra (Vespertino)

1. Proposta
A grande obra de Miguel de Cervantes, composta por dois volumes, narra aventuras vividas pelo fidalgo Alonso Quijano, que, em seus delírios, intitulava-se Dom Quixote de La Mancha, e seu fiel escudeiro, Sancho Pança. Além de fruto de diversas análises literárias desde seu surgimento, esta obra também permite um olhar historiográfico acerca da sociedade espanhola da época do autor: decadente, como o mesmo a propõe. Entre as várias possibilidades discutidas ao longo do curso, focar-meei em observar tal sociedade no prisma religioso, através de alguns trechos da obra, e de trabalhos de historiadores como Stuart Schwartz e Charles Boxer, que mostrarão o fervor Católico daquele tempo, perseguidor de quaisquer idéias opostas a ele; embora ainda compreenda certo pensamento heterodoxo presente nestas sociedades em questão, onde, não só houve convívio entre cristãos, judeus e muçulmanos, como diversos críticos apontam tal coexistência como ferramenta formadora da posterior cultura ibérica.

2. Cervantes e seu tempo
Pouco se sabe sobre a vida deste ilustre escritor, e por isso não entrarei em detalhes sobre sua criação e formação, e me focarei, pois, apenas em inseri-lo no contexto espanhol de seu tempo, tendo em conta a maior importância dessas informações na elaboração de meu ensaio. Com o fim do vasto império de Carlos V, o domínio da península Ibérica, Países Baixos e suas colônias americanas ficaram a cargo de seu filho, Felipe II. Este manteve ainda o reino espanhol como grande potência européia, embora caminhasse rumo à sua

Este fervor inquisitório e suas repercussões na sociedade serão ainda discutidos ao longo deste ensaio. além de satirizar seu passado dos tempos da cavalaria. que ironizava tal sociedade. analfabeto e prático como todo camponês. e para deter movimentos muçulmanos no território. Usou de diversas artimanhas para que seus livros escapassem do tribunal de Santo Ofício. seja declarando o livro como crítica à loucura de seu “herói”. e de suas possíveis pontes traçadas com a realidade religiosa daquele Império espanhol. e mesmo descendentes distantes destes.” (Cervantes.. Dom Quixote e a religião Tomarei base aqui nas relações entre Dom Quixote e Sancho Pança. fidalgo de humildes posses e culto de literatura. Em um reino decadente como tal. embora fora de sua sanidade mental. o reino se tornava. Assim. contra a expansão do protestantismo. seja negando sua autoria. havia ainda hostilidades vistas tanto culturalmente quanto politicamente na Espanha. lavrador. Miguel de Cervantes escreveu sua obra. especialmente a partir da derrota da “Invencível Armada” para os ingleses. “Seja por Deus (. que passaram a ser chamados “cristãos-novos”. que formou então um imenso clero no território ibérico. 1955: 178) Estas palavras do fiel escudeiro em um dos diálogos presentes na obra demonstram o caráter de julgamento daquela sociedade. mesmo com as políticas de expulsão e conversão forçada a judeus e muçulmanos. Tratemos agora da obra literária em si. este. Os jovens encontraram refúgio na religião Católica. cada vez mais. Com o Concílio de Trento e o advento da Contrareforma para reafirmar os dogmas católicos. a partir da coroação de Felipe III e seus sucessores. repleto de desordem e corrupção.) que eu cristão-velho sou. e para ser conde isto me basta. que foi seguida de conflitos com os já citados Países Baixos. Os convertidos.. eram . Nobres perdiam suas fortunas e apoiavam sua honra no grandioso passado da Espanha. 3.crise. onde. de valentes cavaleiros fiéis ao Rei e à Igreja e seus feitos heróicos. a queima de livros (da qual a obra de Cervantes por pouco escapou) e perseguição aos “hereges” foi intensa. aquele.

e. mas após observações. É interessante colocar também a situação de Portugal nesse aspecto.) Como máquina de perseguição. podiam-se classificar as perseguições portuguesas como ainda piores que as espanholas: “Infelizmente para os cristãos-novos. Esta discriminação foi parte de um conceito de “pureza de sangue” estabelecido no território. posição na justiça ou na fazenda. na época de Cervantes. a partir de certo momento. Sancho Pança. no livro de Charles Boxer. é possível enxergar um caráter puramente social em tais conceitos. não pelos nobres ou pelo clero. tolerâncias quanto aos cristão-novos. ao explorar tais questões. fosse religiosa. se encontrada. (. em seus limites. por mais remota que fosse. ele mostra que. buscando uma melhor aceitação e perspectiva tanto de vida quanto de futuro para sua família na sociedade espanhola. de 1530 em diante não mais puderam contar com a proteção da Coroa. ou mesmo a universidades. visto que. embora no início do século XVI os cristãos-novos tivessem proteção da Coroa portuguesa. mourisca ou negra. o mesmo perderia o direito a qualquer título. logo perderam seus direitos e foram submetidos também aos tribunais da Inquisição. O próprio . Stuart Schwartz. aponta a “limpeza de sangue” como um preconceito biológico e étnico. Desta forma. 2003: 280) Entretanto. na literatura de Cervantes. e impedido de ingressar em qualquer ordem. acusando os conversos de não cumprirem sinceramente o Catolicismo. além do constante medo de poderem ser investigados e julgados pela Inquisição. E assim o tribunal inquisitório se tornava mais rigoroso em suas análises. militar. para qual era avaliada toda a genealogia de uma pessoa em busca de descendência judaica. por lei. os cristãos-novos muitas vezes forjavam origens cristãs em sua genealogia. é um deles: humilde e ignorante como era. passa grande parte da narrativa reafirmando sua origem católica.constantemente discriminados e. O pretexto usado era religioso. e.. havia ainda na península Ibérica.. que então se colocou ao lado dos perseguidores deles. impedidos de ocupar diversos cargos. mas no cotidiano do povo. fazendo até cristãos-velhos temerem ser “confundidos”. toda a península Ibérica era de domínio espanhol. a Inquisição portuguesa foi considerada mais eficiente e cruel do que a célebre Inquisição espanhola” (Boxer. no medo de não conseguir os títulos e terras a que tanto aspira. O Império Marítimo Português. Os portugueses caminhavam então para o mesmo rumo do reino espanhol.

na visão de alguns críticos. 1955: 302-303).. ninguém to poderá lançar em rosto. A idéia partia do pressuposto que.” (Schwartz.. por exemplo. em ambos os casos.) Entre tais crenças e opiniões pouco ortodoxas estava a manifestação de simpatia para com os seguidores de outra lei. porque. quanto o escudeiro se põe a mentir para salvar a pele de um mouro. nascidos de baixa estirpe. “Muitos interrogados e acusados eram conversos. esta que se mostrou a real causa das descriminações. E ainda se mostra desprovido das imposições comuns da nobreza em relação às classes sociais espanholas. e a virtude por si só vale o que não vale o sangue. A própria Inquisição reconhecia este pensamento. expondo. em um diálogo seu com Sacho: “e não tenhas desprezo em dizer que és filho de lavradores. e pede para não o confundirem nem com judeus. quando compreende um pensamento corrente na convivência entre as três religiões. ufana-te mais em seres humilde virtuoso. no qual cada um alcançaria a salvação através da boa prática de sua própria crença. enquadrar-se entre os cristãos-velhos tolerantes. subiram à suma dignidade pontifícia e imperatória. porque o sangue se herda e a virtude adquire-se. Enxergamos isso. tendo perseguido também alguns cristãos-velhos que toleraram e/ou apoiavam a diversidade religiosa sem conflitos. mesmo não admitida. se te ufanares de praticar atos virtuosos.Schwartz elucida muito bem isto em seu livro Cada um na sua lei. Inumeráveis são os que. afinal. 2009: 89) O personagem Dom Quixote poderia. e podia dar-te tantos exemplos que te fatigaria. vendo que te não corres por isso. . certa tolerância em relação a estes. se existem. opiniões que.. alguns se mostraram saudosos da antiga fé e um tanto hostis com o novo credo.) De fato. que. Sancho. não há motivo para ter inveja aos príncipes e senhores. E mesmo Sancho – que se mantém ao longo do livro afirmando o cristão-velho que é. certamente também são do consentimento Divino. (. de certa forma. outras religiões. mas não foram apenas os convertidos a mostrar duvidas quanto a certos aspectos da doutrina e pratica cristã e aos excessos ou injustiças da própria Inquisição: os cristãos-velhos também. mas nem todos. Repara. (. como fica visível perto do fim do segundo volume da obra.. principalmente na questão cultural e étnica da “pureza de sangue”.”(Cervantes. eram do próprio Cervantes. nem com mouros – mantinha. que pecador soberbo.

Logos. Miguel de. enfim. São Paulo: Ed. Conclusão Dentro das aventuras descritas por Cervantes. Na escolha de análise feita aqui. Conversos e Mouriscos. assim como sua influência no convívio social do Império espanhol. Trad. estiveram presentes. Edição 7. isto não altera a condição de exclusão étnica e religiosa nesta sociedade. buscar inúmeras formas de enxergar o decadente Império espanhol dos tempos coloniais. as imposições políticas. por este autor. São Paulo: Cia das Letras. 75-111. Charles. somando tal obra aos conjuntos de estudos historiográficos sobre o tema. Dom Quixote escapa da Inquisição. 2009. mas permite relativizar as reais opiniões e crenças então vigentes. 2009. O Império Marítimo Português. 1955. tendo em vista os pequenos feixes de tolerância e respeito que ali também havia. 2003. tanto do livro como na visão de alguns historiadores. de forma sucinta. . Cada um na sua lei. constantemente revisados e revistos por estudiosos. São Paulo: Revista História Viva. O engenhoso fidalgo Don Quixote de La Mancha.4. podemos abordá-la sob muitos prismas e assim compreender melhor o tempo e o mundo vivido. Dos Viscondes de Castilho e de Azevedo. Thérèse. não podemos generalizar a mentalidade ibérica neste aspecto. e até maior compreensão do desenvolvimento da cultura ibérica. dando-nos uma visão mais completa e abrangente das relações entre as “três leis”. Set. Stuart. pp. e por isso os dois volumes de Dom Quixote são. Bibliografia CERVANTES. BOXER. e criticado. I e II SCHWARTZ. 262-285 JERPHAGNON. São Paulo: Cia das Letras. pp. ainda hoje. E. e as discriminações populares aos povos judaicos e muçulmanos que ali viveram. Dessa forma. Vol. podemos. mesmo com as leis clericais de perseguição. as formas de atuação da Igreja Católica e seu tribunal inquisitorial. Obviamente. Pureza de sangue e raças infectas.