Título da Obra

B A L A D A ROMANCE Título original: A SONG OF SIX PENOE Tradução de Maria Franco e Cabral do Nascimento Capa de João da Câmara Leme Colecção Contemporânea © A. J. Cronin, 1964 Direitos reservados exclusivamente para Portugal A. J. Cronin, escritor e médico inglês, nasceu em 19 de Julho de 1896. Frequentou a Universidade de Glasgow e combateu na primeira guerra mundial como tenente-médico. Fixou a sua residência em Londres e exerceu a medicina até 1930. O seu primeiro romance data de 1931 e, dado o êxito que alcançou, A. J. Cronin devotou-se inteiramente à literatura. Já traduzido nos principais idiomas, o autor de Balada da Infância, que a Portugália se orgulha de apresentar agora na sua colecção Contemporânea, é, sem dúvida, um dos escritores ingleses de maior prestígio na moderna literatura. Escritor de profundas e autênticas raízes religiosas, servindo-se quase sempre da sua própria experiência como médico rural para criar o universo romanesco onde movimenta as suas personagens, A. J. Cronin tem sido muitas vezes considerado como o moderno herdeiro de Dickens. A.J.CRONIN( ) PORTUGÁLIA EDITORA D A I N F Â N C I A

I
_ Todos os dias. às seis horas, enchia a casa uma atmosfera de expectativa, que tornava mais bela a tarde longa. vaga. sonhadora... Quando eu fui para a sala, a minha mãe, na cozinha, ao fazer os preparativos para a ceia, principiava uma canção. Era qualquer coisa acerca da filha de um moleiro que adoecera e morrera. Entoava essas canções de forma tão animada e com uma jovialidade tão natural que elas tomavam um acento de pura alegria. Empolei-rei-me no genuflexório para chegar à janela; embora devesse entrar para a escola na semana seguinte, ainda precisava daquele recurso. O caminho para a estação estava deserto a essa hora: apenas à porta da forja se via um cão a dormir, deitado à sombra do plátano. Para lá do embarcadoiro e dos seus canteiros de cravos e calceolárias amarelas, abria-se a larga extensão vazia da costa, e, mais além, no estuário do Clyde, descia um vapor de rodas, de chaminé branca. Por fim apareceu um vulto, não o esperado mas igualmente meu conhecido: o da minha amiga Maggie, ou, como a denominavam os rapazes «maus», a Doida Maggie, pequena de treze anos, alta e desajeitada, que trazia vasilhas de leite da herdade de Snoddie e estava a esgueirar-se entre os varões da cancela fechada da passagem de nível. Era, de facto, o caminho mais curto, mas rigorosamente proibido, e eu observei-a com ar de censura enquanto ela entrava na rua, iniciando a sua tarefa nocturna da distribuição do leite. Ao passar pela nossa casa, uma das quatro vivendas bonitas do quarteirão, viu-me à janela e, com um chocalhar de latas, agitou o braço e saudou-me. Comecei a acenar, retribuindo, mas nesse momento ouviuse um apito. Desviando os olhos de Maggie, descobri um fumozinho, atrás do qual serpenteava lentamente, na curva da linha férrea, uma espécie de cobra acastanhada. Com dificuldade, como se fatigada, veio arquejando até ao pequenino cais. No ano de 1900 só os comboios mais ronceiros da Companhia Britânica do Norte paravam na aldeia de Ardencaple. Como muitas vezes acontecia, meu pai foi o único passageiro que se apeou. Saltou rapidamente, com o passo de quem aprecia regressar a penates: figura ágil que dava, mesmo ao longe, uma impressão de elegância inconfundível. Trazia o seu fato castanho, sapatos também castanhos, chapéu de feltro da mesma cor, de aba

revirada, e sobretudo curto de tom mais claro. Quando se aproximava, o cão ergueu a cabeça e, alheio aos inconvenientes de uma aldeia, levantou poeira com a cauda. Notei então, com ansiedade crescente, que o Pai sobraçava um embrulho. Não raramente, quando visitava a sua clientela de Winton, trazia-nos — a mim e à mãe — qualquer surpresa para a ceia, e que nunca deixava de nos entusiasmar: cachos de uvas, postas de salmão, alguma bebida exótica, tudo coisas que indicavam não ser ele próprio inimigo de boas especialidades, as quais, é claro, fugiam à modesta norma da nossa vida diária. E, quando as exibia, olhava-nos, com uma sobrancelha alçada, gozando secretamente o nosso espanto. A porta abriu-se e a Mãe, tirando o avental, correu ao encontro dele e abraçou-o, acto com que eu não concordava muito mas que era infalível. O Pai despiu o sobretudo, pendurou-o num cabide (tinha muito cuidado com a sua roupa), e depois entrou na cozinha, ergueu-me com modo despreocupado e tornou a sentar-me. A Mãe trouxe para a mesa a terrina. Era sopa à escocesa, que o Pai muito apreciava mas da qual, quando não me obrigavam a ingerir tudo, eu só comia as ervilhas, dispon-do-as primeiro em círculo na borda do prato. A seguir, havia carne cozida. Contra o costume da terra (e isto constituía apenas uma das faltas de conformação com os usos da comunidade em que vivíamos), tomávamos à noite a nossa refeição principal, pois o Pai, nas suas andanças de todo o dia, raras vezes tinha oportunidade de levar à boca mais do que uma sanduíche. Entretanto, com ar muito diferente do habitual, e até um tanto constrangido, principiou a desembrulhar vagarosamente o pacote. — Ora bem, Grace — disse ele. — Está tudo resolvido. A Mãe começara a servir a sopa. Muito pálida, parou. — Pode lá ser, Conor! O Pai olhou-a com um sorriso afectuoso, ainda que cómico, e afagou as pontas do bigodinho louro. * Tive o encontro final com Hagemann esta tarde. Assinámos o nosso contrato. Ele embarca esta noite para a Holanda. * Oh, Con, não estás a falar a sério! * Vê. Tens diante dos teus olhos a primeira amostra. Colocou sobre a mesa um frasco redondo, sentou-se pacificamente, tirou o prato de sopa das mãos trémulas da mãe e pegou na colher. Pensei que ela — coisa absurda— ia chorar. Como não se aguentasse nas pernas, deixou-se cair na cadeira. Perturbado, com a vaga impressão de que sucedera algo de terrível para a paz do nosso lar, eu não desviava a vista daquele frasco. Continha um pó amarelado

e no vidro estava colado um rótulo com uma bandeira encarnada, azul e branca. Com grande esforço, a Mãe passou-me a sopa. — Mas, Conor — argumentou — tens prosperado tanto com os Murchisons! * Diz antes que os tenho feito prosperar. * Evidentemente. Contudo, são tão boas pessoas... * Não tenho nada contra os Murchisons, querida Grace, mas já estou farto de gastar a sola das botas para lhes vender farinha. Consagrei-lhes cinco anos da minha vida. Aliás, foram simpáticos comigo.O velho Murchison aconselhou-me a aceitar a representação. * Vivemos agora tão bem... em tanta segurança e conforto... O Pai ergueu a sobrancelha, mas nessa ocasião não era para apresentar belos cachos de uvas. Aquele frasco misterioso devia ser explosivo. * Nunca se consegue nada permanecendo confortável e seguro. Trata de ser boazinha e come, que eu depois te contarei os pormenores. -Inclinou-se e deu-lhe uma palmadinha na mão. * Estou muito transtornada — disse a Mãe, que se levantou e trouxe a carne para a mesa. Sem reparar que eu não tocara na sopa, tirou-me o prato. O Pai, com o seu ar invariável de distinção, trinchou a carne com toda a calma e elegância. Era um bonito homem, esbelto, de cabelo ruivo, tez corada, olhos castanhos claros e dentes brancos que brilhavam por baixo do bigode retorcido. Eu admirava-o deveras e muitas vezes ficava deslumbrado com os seus triunfos imprevistos e audaciosos, em que jamais mostrava sinais de medo ou fadiga. Mas não o amava, na verdadeira acepção do termo. Pertencia por inteiro à minha mãe; merecia esse epíteto deplorável de «menino da sua mamã», por ser brando, tímido, atrasado por uma série de doenças que começaram com a papeira e acabaram na difteria (ainda podia sentir o gosto da glicerina fenicada com que o doutor Duthie costumava pincelar-me a garganta), e forçado por imperiosas circunstâncias sentimentais da nossa existência a ligar-me mais à Mãe e à casa. Mas quem não teria sido assim com semelhante mãe? Por esse tempo não contava ela mais de vinte e quatro anos, com o rosto pequeno e meigo, feições regulares, cabelo macio, castanho, olhos de um azul pro fundo e todos os movimentos de uma graça natural, que pareciam explicar o seu nome próprio. Acima de tudo, porém, era aquele olhar dulcíssimo que mais me cativava.

Além disso ele adianta-me metade do dinheiro. o Pai quase nunca saía à noite. Obrigado. como para todos nós. Faria isso se não confiasse em mim? Um débil clarão de esperança surgiu nos olhos da Mãe. em parte. porque eu conheço todos os padeiros de Oeste. — Não sabes quantas vezes tenho visto a levedura azedar. E trabalharei por minha conta. — Passa-me a mostarda. O nosso convívio à noite tinha. mas o que principalmente desejava. — Estás bem seguro do senhor Hagemann? O Pai acenou com a cabeça. Deves concordar que eu não podia perder esta oportunidade. fora o Pai quem me ensinara as primeiras letras e me instruíra. junto da sua lareira. 0 Pai. — Quando o Pai queria impressionar separava bem as sílabas. Finda a ceia. não se levantou para retirar a loiça da mesa. digamo-lo. Posso importar de Roterdão nas condições mais favoráveis. 0 velho método da levedura tem os seus dias con-ta-dos. abanou a cabeça. para me dar um empurrãozinho. certos artigos menos conhecidos do seu volume dilecto. borbulhando para fora das masseiras. Grace. para depois se deitar. Embora tivesse poucos conhecimentos nunca desejara. como ele dizia. um campo hostil. nada o estimulava a sair. em especial durante a minha doença. inventava e contava séries intermináveis de aliciantes aventuras. A Mãe ia ficando persuadida. Exceptuando o curto passeio que ocasionalmente dava. Estamos em vésperas de alterações revolucionárias na indústria da panificação. um amigo na aldeia. Serei o primeiro neste terreno. é bastante bom. Depois de um longo dia passado entre os amigos. a Enciclopédia Pears. O novo processo tornará o pão melhor e mais barato. nas quais um protagonista infantil. ela escutava meu pai. — Mas o nosso pão. era fazerme passar o tempo. substituindo-se à anterior expressão de ansiedade.. . E uma fornada inteira de pão fica completamente estragada.Nesse momento.. Ardencaple era para ele. de queixo apoiado na mão. Com espantosa fertilidade de imaginação. Pensa nesta oportunidade. de boca cheia. Nem o Pai seguiu o seu costume de me dedicar meia hora (período com frequência prolongado pelas minhas importunações) antes de eu ir para a cama. com as minhas relações. lendo em voz alta (para benefício mútuo). aspecto pedagógico. — dizia ele. se fazes favor. parecia perfeitamente satisfeito por se encontrar. Além disso. — Deves concordar. mastigando com gosto. que fora o único a fazer honras à carne. — É um homem às direitas. Conor.

se bem que o relógio da prateleira do fogão me assegurasse ainda não ser o momento de me deitar. . Sim. cujo significado eu não compreendia. embora não valha a pena enumerar. cresce. e assim faz levedar aquilo que é o esteio da vida. Encontrando o seu olhar. em semelhante ocasião). destinavam-se à minha mãe. que era verificar se não se encontrava alguma cobra escondida debaixo da cama. podem ser imaginados pelo meu primeiro gesto. porém dotado de incrível intrepidez. os meus pais continuaram absortos na conversa e eu percebi que passara a hora de ele me regalar com as histórias de canibais. De vez em quando intercalava observações relacionadas com acessórios e atavios dos componentes femininos das tribos. demorada por todos os pretextos que eu inventava para deter a Mãe. entre tribos primitivas e selvagens antropófagos. uma forma de vida. mandou-me ir para a cama num tom que não admitia réplica. por muito tempo. Para ser mais rigoroso: Real Fermento Holandês de Hagemann. Laurence. Dir-se-ia que o Pai é que descobrira o fermento e. e complicada por toda a espécie de rituais por mim criados para me defender e que. muito contente— numa solução mineral salina. * Fermento? — repeti. A Mãe parecia da mesma forma achar aquilo excessivo (pelo menos para mim. a vinda do frasco de fermento distraiu-me de todas estas cerimónias e abreviou tudo da maneira mais desagradável. pequenino e débil. deixou-me quase sem fala. Recolher ao leito era em geral uma operação lenta.precisamente da minha idade. que se fartava de rir. e esses apartes. boquiaberto. durante um silêncio. torna o amido em açúcar. o açúcar em álcool e gás carbónico. Assim mesmo. oferece a única possibilidade de introduzir um processo completamente novo que reorganizará a indústria da panificação escocesa. moderna técnica bastante superior à do antigo sistema da massa levedada. no tom de pessoa injustamente esquecida: * 0 que tem aquele frasco ? * É fermento. Levantou-se e. evidentemente estudada com antecedência. perguntei de súbito. Uma substância fungiforme composta de inúmeras células vivas. praticava acções de bravura extraordinária em ilhas desertas ou nas selvas tropicais. contudo. A sua exposição. Nessa noite. bem se pode dizer. um organismo que germina. Preparado — continuou o Pai. contudo. julguei que de facto fora ele. Naquela noite.

em tom grave e decidido". e diferida somente pela minha susceptibilidade aos bacilos mais vulgares. sair do frasco. mulher desalinhada. a conversa de meus pais entrava-me em fragmentos pela porta entreaberta do quarto exíguo. lastimando a sorte dessa vergôntea abandonada. Vestida com uma saia velha de mescia que minha mãe lhe dera e com as meias passajadas no joelho. — Vais muito bem com a Maggie. «ele». E será em breve. Eu não conseguia adormecer. De vez em quando chegavam-me aos ouvidos frases impressionantes como «partir desta maldita aldeia». como um verdadeiro estudante. vi o fermento crescer. conforme uma das histórias que meu pai contara. e à minha também. continuou a «fermentar» no meu espírito. Um dia se reconciliarão contigo. que não me mandasse para a escola. pouco antes de pegar no sono. elevar-se numa nuvem avermelhada e pairar sobre a nossa residência. misterioso invasor da nossa casa. a tal estranha substância. sua escrava. ouvi o Pai declarar. humilde e cabisbaixo e as madeixas emaranhadas caindo-lhe sobre os olhos. deixando como de costume a porta entreaberta. Põe aos ombros.. Quando estava de olhos fechados. que não podem continuar a tratar-nos assim. . Gracie. Quando a Mãe me dava os últimos retoques. aqui tens a tua sacola nova. de lágrimas nos olhos. como Terence. Olha. embora vazia. com o seu aspecto habitual. no entanto. pode ir para Rockcliff. Começava a sentir-me com mais coragem quando uma pancada à porta das traseiras me fez sobressaltar. Mas. reanimou-me um pouco. cujo marido há muito fugira à sua língua viperina e que. que tinham aquela expressão triste e suplicante dos novilhos das Highlands.Mesmo depois de estar deitado e de a Mãe me ter dado boa noite. agora que chegara o dia. «retomares a tua música». roguei. finalmente. — Demonstraremos à tua família. crescer.. fazia dela. Maggie estava no limiar. pelo meu pai. tomando a forma do génio da garrafa.» E. II Durante semanas eu desejara ir para a escola. Era filha da lavadeira da aldeia. Seria o começo de um sonho ou singular visão do futuro? Apesar de falarem em voz baixa. aventura habilmente urdida para mim. abotoando-me as calças novas de sarja azul escura e ajeitando-me a camisola. Riu-se e beijou-me. A sacola. o meu estado de espírito avizinhava-se do pânico. nos termos mais ternos.

contudo. tal como minha mãe. quase em ruínas. Sabendose pouco inteligente e com um ar acabrunhado que revelava excesso de trabalho e mau tratamento em casa. numa fogueira de detritos lançados à costa. passando. mas. durante o período da minha convalescença. à tarde. Só pela novidade é que essa refeição me seduziu. Para minha eterna humilhação. comentava Maggie. isso constituía um . as quais. dirigindo-me um olhar de comiseração — o menino nasceu ao contrário. era arreliada impiedosamente pelos berros de Doida Maggie dos garotos da terra. uma espécie de aia para mim. Maggie reanimou-me conduzi ndo-me um pouco mais além. Os pés é que vieram primeiro. estivera em risco de não poder chegar à aldeia. em que chovia a cântaros e a maré subira tanto que o meu pai. pois tinha um braço forte e boa pontaria com um calhau redondo apanhado na praia e sempre disponível na algibeira. parece haver sido lá o lugar onde nasci. * E isso era mau ? — Inquiri. e que tinha o nome mal aplicado de Roseiral. de caminho. Apesar das inúmeras obrigações que lhe eram impostas (depois das horas da escola raras vezes a víamos sem uma trouxa de roupa ou a sua armadura de vasilhas de leite. tinha de escaldar e arear na quinta. pedindome que não o dissesse a minha mãe (a qual ficaria horrorizada ao saber que o seu querido filho estragava o estômago com semelhante «porcaria») apanhámos mexilhões. um superalimentado. levando-me a passeio. * Fez um gesto afirmativo. que gostava de Maggie e a beneficiava. ao ir aflito em procura do doutor Duthie. terminada a distribuição. devia ser verdade. com uma caniçada verde apodrecida. Como tão momentoso evento pudera acontecer num edifício assim decrépito era coisa que eu não compreendia. quanto a Maggie. até Erskine Rocks. porque. depois de passarmos o Roseiral. a quem minguava a comida. Depois desta revelação vexatória. petrificado. nos longos dias das férias de Verão. sendo eu. Confiava nela plenamente. * E para mais. * Ao contrário? Como? * Não foi de cabeça. Maggie lançava-se numa espantosa mas irresistível narração (sem dúvida escutada à mãe dela) de como eu viera ao mundo numa noite escura e medonha. que todavia se acautelavam dela. como era.Maggie tinha poucos sinais exteriores de graça. antes do trabalho final de dar de comer às galinhas). A nossa romagem favorita era ao comprido da praia. onde. que Maggie assou na casca. ao longo do estuário. apesar disso havia sido. por uma casita isolada. Mas a mim servia tanto de amiga como de mentora.

sementes de funcho. açúcar. Quero dizer que. que devorou como se fossem ostras. ainda me custa a crer. impressionado com a ideia do que esses inocentes bivalves deviam sofrer sob os dentes aguçados da rapariga. Também sabia cantar.. café. tão pobre e desprezada. Maggie assumia os ares e responsabilidade de proprietária enquanto eu fazia de freguês. depois de tirar as botas amolgadas e as meias pretas (com buracos. pontas de folhas de bardana e algas.. manteiga. .sustento abençoado. ela patinhou nas águas sujas do braço de mar.. Dolly e A Madressilva e a Abellia. mas afinada. e construir barquinhos de papel que púnhamos a navegar no regato de Gielston. presunto e. tão boas pessoas. * Olha que estão vivas. é claro. farinha. E agora vamos brincar à «loja». Eu sentia a sua amizade e. um nabo cru. É questão de as comer depressa. Para sobremesa. Laurie. e descobriu amêijoas pequeninas. contando o seu fornecimento de coisas boas. erguendo subitamente a vista durante o nosso jogo. com a expressão admirada de quem é atraído por qualquer singularidade incompreensível. pastilhas de hortelã-pimenta. com o sentimento orgulhoso de posse. Maggie inventava todo o género de jogos e possuía todas as habilidades da gente do campo. descobri-lhe os olhos cravados em mim. entoava canções em voga. Sabia fazer assobios de raminhos de salgueiro. e em voz rouca. Maggie!—protestei.. esquecia-se dos dias em que matava a fome com amêijoas. * Não sentem nada.enterrando os dedos dos pés na areia lamacenta. mesmo cruas e ainda palpitantes. Percebi então de que se tratava. Depois de dispormos na praia os nossos diversos símbolos. assegurou-me tranquilamente. cada qual representando uma mercadoria diferente.. Mas o jogo de que ela gostava mais era sem dúvida o da «loja». monologou deste modo: — Quando olho para si. de uma forma que os meus dedos não conseguiam executar. o menino não parece muito diferente de nós. como Adeus. Isto dava a Maggie. tecer complicadas tranças de palha. apesar de passajadas). isso. uma sensação de desafogo e até de abastança. apanhado num dos campos de Snoddie. E também os seus paizinhos. num tom meio intrigado meio lastimoso. Juntos éramos felizes. Disso nunca se cansava. bocadinhos de conchas. ou mesmo frutos de roseira brava e bagas de espinheiro. Olhando para a sua «loja». como chá. quem havia de dizer que fossem.. quando ela por fim.

viam-se ehapéus pelo ar. Na forja ferravam um cavalo. pior ainda.Maggie. . teria certamente dado às de Vila-diogo. contra as quais costumava apoiar o nariz para observar a rica exposição de guloseímas. em voz baixa. geleias e bolos. sentime dominado pelo nervosismo. sem mais fingimentos. As montras da mercearia. mas eu mal reparei. não tardou que alcançássemos a escola. nem mais nem menos! Mas. passaram-me então despercebidas. Era um prédio pequeno e antigo. à frente. tudo no meio de um barulho ensurdecedor. com a chibata. Eu era ai de mim! — católico apostólico romano! Um rapaz amarrado de pés e mãos ao carro triunfal do Papa. Contudo. reservada exclusivamente aos protestantes. eu e os meus pais éramos os únicos adeptos dessa religião vilipendiada e. as raparigas saltavam à corda e guinchavam. tornada mais angustiante pela recitação de Maggie. onde eu. lutavam. eu por mim não sofria nada. Fosse qual fosse a atitude do público para com meu pai (a qual ele mais gostava de exacerbar do que de apaziguar). E quando. Embora seguíssemos devagar. de tijolos vermelhos. gritavam. — Esteve para ser padre. abanando a cabeça. miserável acólito do Mulher de Escarlata. a Maggie me agarrou firmemente na mão e nos pusemos a caminho.Pendi a cabeça. com um pátio. se não fosse Maggie. precisa de ser confessado. após as últimas recomendações da minha mãe. é um terror. ferindo lume nas pedras. uns proscritos. Além disto. dos tremendos castigos aplicados pelo mestre-escola. Éramos. isso contribuía para me aumentar a depressão moral. nessa manhã de segunda-feira em que enfrentava a perspectiva da escola primária. os únicos que jamais se tinham estabelecido na aldeia de Ardencaple. portanto. Estávamos tão deslocados naquela estreita comunidade como o estaria uma família de zulos. salvo a costumada curiosidade compassiva que despertam todas as extravagâncias. hortelã-pimenta. nos seus despropósitos bem intencionados. de terra batida e pedras. Os rapazes corriam. — É coxo — acrescentou ela. já uma vez pusera a nu um dos opróbrios que afligiram os meus primeiros anos e que. Nesse recinto travava-se uma batalha movimentada. virtual osculador do dedo grande do pé de São Pedro. botas ferradas erguiam-se e contundiam. Foi uma via dolorosa. senhor Rankin. no meio de uma bela nuvem de fumo dos cascos queimados. queimador de velas e de incenso.

a rabona lustrosa e a gravata (no colarinho de gutapercha. afastando a turba com os cotovelos afiados estendidos combativamente. sobre peitilho postiço). de sineta na mão. Cada um que responda na altura em que ouvir o seu nome. Orçava pelos cinquenta anos. e espero que todos se portem o melhor possível. não me causou impressão alarmante. a ele que me entregaram. com a sua perna direita deformada e tristemente mais curta do que a outra. dono da mercearia. até que um som metálico sufocou o tumulto e o mestre--escola apareceu. Senti-me melhor depois de reconhecer na nossa mestra (rapariga de aspecto afectuoso. Trajava sempre de preto. Desviando-se da corrente tumultuosa.de repente. nos degraus da porta. — Lady Meikle fará hoje a sua visita habitualdo dia da abertura da escola. A irmã mais nova. mas. . usava óculos de aros de aço e barbicha pontiaguda. em vez de me incutir coragem. recebi uma ardósia e me sentei num dos bancos da frente. Apesar das explosões inesperadas de cólera e do bater com os nós dos dedos na secretária. o padre gorado que se transforma em mestre-escola. — Alegro-me por os ver de volta depois das férias. onde.Mas desse e outros perigos Maggie me defendeu. de olhos castanhos meigos. Não foi. Era sem dúvida Rankin. contudo. era na realidade um homenzinho inferiorizado. — começou Miss Grant. Polly. dando fé da minha presença. Num momento vi-me rodeado de uma multidão que pretendia de mim mais do que a bênção apostólica. Na sua mocidade estudara para sacerdote. falhara na carreira e tornara-se por fim um exemplo melancólico daquele supremo malogro escocês. Maggie confiou-me finalmente à professora adjunta da primeira classe. Agora vou fazer a chamada. o maior dos rapazes «maus» soltou um berro: — Olhem quem ali vem! O Papazinho! Esta súbita elevação ao trono do Vaticano. estremeci de comoção imaginando que o seu sorriso me era dedicado. Com espanto meu. nunca deixava de me oferecer um rebuçado quando eu ia ao estabelecimento fazer qualquer compra por mandado da minha mãe. brando. com outros vinte alunos alguns mais novos que eu. e saúdo os nossos estudantes. e sorriso animador) uma das filhas do senhor Archibald Grant. suportada por um taco de doze polegadas fixo a uma estranha botinha por um estribo de ferro e coberto na parte terminal por uma tira de borracha. em virtude do referido aleijão e tendência para gaguejar. produziu efeito contrário. insípido.

juntamente com o tufo de plumas no chapéu. não fosse (e francamente o confessava) indicada para semelhantes funções. e depois de todos responderem. enquanto uma terceira se esforçava com as letras maiúsculas do alfabeto. Outra copiava do quadro somas nas suas ardósias. só usamos a mais bela barba de baleia natural» colocado em todas estações de caminho de ferro. era uma mulher digna. introduziu na sala uma senhora baixinha.. de busto tão saliente e agressivo que. Lady Meikle era viúva de um fabricante de espartilhos de Winton. Em breve uma secção zumbia na recitação da tabuada. Olhei-a receoso. o senhor Rankin apareceu e. enquanto a esposa não perderia tempo em assumir os deveres e afirmar as prerrogativas de uma senhora dessa categoria. experimentava o poder do meu conhecimento superior e a elegância do meu fato novo. mergulhara. tesa.. como meu pai a chamava. Tinha uma noção . com as suas maneiras terra-à-terra e lapsos do dialecto escocês. foi aceite. Aí teria vagar de satisfazer a sua mania de cultivar orquídeas e plantas tropicais. mas tão a medo como se duvidasse da minha identidade. se bem que. Tudo isto me pareceu tão manifesta brincadeira de crianças que as minhas apreensões anteriores começaram a dissipar-se e a ser substituídas por uma segura consciência do meu próprio valor.Quando ela disse «Laurence Carrol». com a gravura do caminhante no frontispício. nos mistérios da Enciclopédia Pears. ascendera à dignidade de cavaleiro. a anunciar que por cinco anos não usara outro sabonete? Rodeado de tais demonstrações da ignorância pueril. Queria provar os meus talentos. Contudo Lady Barba de Baleia. Enquanto nos levantávamos. brilhar. após uma temporada como presidente do município de Levenford. lhe dava notável semelhança com uma pomba de papo de vento. com muita deferência. escudado no inocente mas intrigante anúncio: «Senhoras. A aula era de diferentes graus. imitei os outros com um «Presente». como eu. generosa para o povo de Ardencaple (concorrera para a construção do edifício novo da Junta de Freguesia) e caritativa para com todo o resto da comarca. o qual. de pé. empertigada. daqueles pequenos mais velhos. Miss Grant fechou o livro das inscrições e preparou-nos para o trabalho. Mal havia principiado o ruído característico dos lápis a raspar nas lousas quando a porta se abriu e soou esta ordem: — Meninos. No entanto. para onde se retirou. Que infantis! Não sabiam distinguir um B de um D! E qual. obtivera riqueza considerável e. distinção que o animara a adquirir uma grande propriedade no termo de Ardencaple.

num gesto teatral. segurando-o por instantes defronte de nós. são novos e despreocupados. sem nos perder de vista. escondendo-a em parte atrás da sã (posição que cedo verifiquei ser a habitual) e emitia submissos murmúrios de concordância. peço que dêem atenção ao que vou dizer. em escocês. Solo virgem. pois. com a sua enorme estufa adjacente. eu tinha boas razões para estar familiarizado com toda a sua propriedade. — Meninos. Miss Grant apressou-se a obedecer. disse de maneira que nos causou um calafrio. enquanto a dama. e. visto que mandara fazer. Mantinha. arremessou-o ao chão. a colecção de orquídeas que ele iniciara antes da sua morte.característica do humor negro e uma forte ostentação de sentimentos. entre rododendros gigantescos. recuava a perna deformada. em Ard- . impotente. — Nenhum tem mãos! Mas eu quero que apanhem o lápis. Terminado o discurso. o Lar do Paralítico. no qual se poderia discernir uma nota de astúcia. Miss Grant. — Suponham que não possuem mãos. Solo virgem. premiu os lábios e contemplou-nos com um sorriso grave mas ao mesmo tempo meio irónico. mesmo sem haver trocado uma palavra com tão ilustre personagem. cheio de vasos horríveis. a nos afeiçoarmos e a observar sempre uma atitude elevada no nosso comportamento moral. Mas eu hei-de experimentar-lhes a inteligência natural para ver se têm espírito prático ou queda para o que pretendem. se assim não fosse. Fosse o que fosse que lhe sugeriu esta experiência extravagante (talvez houvesse visitado uma das suas muitas obras de caridade. conversava com o professor. amarelo. curvado para a frente. sentem-se. Devem saber o interesse que tomo por esta terra. Continuou neste teor por algum tempo. e a alameda de uma milha de extensão que serpeava através do parque. Depois a visitante dirigiu-nos a palavra. até à residência majestosa. abrindo muito as vogais: — Meninos. Por mais estranho que pareça. Ficámos ofegantes. e tornara famosa. — Adiantou-se. este. exortando-nos a trabalhar com afinco. Abra uma janela. mas espero e rogo que não tenham feito nenhuma maldade nem enveredado pelo mau caminho. O lápis. um jazigo monumental. Um lápis. isso nos custaria muito. matas e cursos de água. — Esta sala está sufocante. para o chorado marido. eis o que são. foi-lhe logo apresentado e ela. por isso mesmo. no presente e no futuro. — Até agora não sabem nada.

talvez para sempre. me pus de pé. quase fatal. Lady Meikle. Triunfante. na presença dos professores e. Eu. Esten dendo a língua. sem me dar tempo a isso. e tornei a falhar. mas. consciente dos meus conhecimentos superiores. no soalho empoeirado e desigual. junto do quadro. dos outros colegas! E isto acontecera no meu primeiro dia de escola! Um rapazinho muito inteligente. acima de tudo. De novo tentei. Enquanto Miss Grant me escovava. — Muito bem! — exclamou Lady Barba de Baleia. que me impedira o crescimento. Sabes o que é o esteio da nossa vida? * Sim. dando palmas entusiásticas. A perseguição continuou. suguei o objecto para fora da sua prisão e. Não desnatado. Fui atrás dele.. O lápis encontrara agora uma fenda entre duas tábuas do soalho.sem pensar na minha temeridade. cravei-lhe os dentes. de cara rente ao chão. rastejando. tive uma inspiração. E nunca torças o nariz àquilo que é o esteio da nossa vida. e declarou: — És um rapazinho muito inteligente. conservava a mão benevolente sobre o meu crânio. recordando-me de que meu pai empregara a mesma expressão a propósito do frasco que . Com o queixo obriguei-o a uma posição favorável e vi-o rolar devagarinho até a uma greta mais funda. * Estou. De repente. Todos os olhares se mantinham fixos em mim. Corei até às orelhas. em tom protector: * Deves comer papas de aveia. impando de orgulho. o resultado foi silêncio. prostrando-me diante do lápis amarelo. donde já havia tombado pó de giz. Em seguida colocou a mão na minha cabeça.. A classe toda soltou um murmúrio prolongado de aplauso quando. avancei um passo incerto sob o olhar da assistência e. como um índio que segue uma pista. agarrei-o com os dentes. Escapou-se-me dos fracos incisivos e rolou para a frente. sujo de giz e de nariz esfolado. com ar de frenólogo. começara a irritar-me. à minha mãe. e com muito leite. antes de ele voltar a rolar. Dispunha-me a falar-lhe da doença. ela continuou. sim. * Estás pequeno para a idade. exibindo o lápis atravessado na boca.fillan). * Quantos anos tens ? * Seis. Ser elogiado assim por tão grande dama. Uma bela façanha para contar. Toda a aula parecia estupefacta. Levantei-me. Mas o lápis era redondo e macio. repara bem. porém. senhora. um silêncio mortal. sim.

afastou a mão. desfavorecido para sempre. Maggie. alta. * Fazemos um lindo par. Não passas de um idiota. como se também houvesse tido uma manhã má na sua própria aula. que o tornavam popular. Evidentemente que a oportunidade estava ali. inteligente e cheio de clarividência. as relações que travara por todo o Oeste da Escócia durante os cinco anos de viajante da firma Murchison. piscava os olhos para soltar as lágrimas. Depois. O seu conhecimento da indústria de panificação. vi o rosto da minha protectora alterar-se. tudo isto concorria para lhe firmar o êxito. confiante: — É o Real Fermento Holandês de Hagemann! Na aula elevou-se um sussurro tímido. Humilhado. era o homem mais indicado para a aproveitar. E murmurei com voz lastimosa: * Não vale a pena. III Apesar das dúvidas de minha mãe quanto ao fermento e da humilhação pública que ele me havia causado. satírica e desalentada. Não presto para nada. sou apenas um idiota. numa digressão da família a Swinton. não! Observou-me detidamente. A mão que me afagava a cabeça contraiu-se num apertão forte. a arrogância com que despia o casaco e punha um avental para demonstrar a excelência do novo processo. vi os sinais de aplauso substituídos por uma expressão carrancuda. olhei-a com vivacidade e respondi em voz clara. senhora. a sua personalidade simpática e trato lhano. e meu pai. e. respondeu Maggie. rapazinho? * Não. tornado de novo num proscrito. No regresso a casa. o negócio do Real Holandês iniciou-se de modo auspicioso. * Atreves-te a troçar comigo. Inteiramente descoroçoado. que cresceu e rebentou numa gargalhada estrondosa. o seu novo escritório no . por muito tempo. quando o Pai. enquanto eu me sentia gelar cá por dentro. repudiando-me. sentei-me e fiquei toda a manhã de cabeça pendida. A solidez do triunfo provou-se cinco meses depois. com tanta força que me impeliu para a frente e me obrigou a retomar o meu lugar. — Vai-te! Enganei-me a teu respeito. procurando a mão da minha verdadeira protectora. com orgulho. acima de tudo.trouxera. depois de nos mostrar.

amarelados. pararam no corredor. observando ao mesmo tempo: — Oh. sólido. que não me interessou muito. limitava-se a sorrir e a dar qualquer . com guarnições de pelúcia. ao famoso restaurante O Cardo. da Chaminade. um xelim e já estavam de boné na cabeça. Laurie! Estou muito enferrujada. vindo de Winton. numa carroça puxada por dois cavalos. repentinamente revelasse esse talento insuspeitado e perfeito e me encantasse com um caudal cintilante de música? Os dois carregadores. juntaram os seus aplausos aos meus. Sempre fora um mãos rotas. Laurie. minha mãe jamais aflorara esse assunto na minha presença. que a um simples toque emitia acordes vibrantes e profundos.prédio Caledónia. Dizer que fiquei boquiaberto e fascinado não é exagero. para conciliar as ideias. Como era possível que. equipado com um guiador. à exibição de Aladino. Além de um sobretudo novo de Inverno. A Mãe. ostentando o nome mágico de Bluthner. não só pelos sons deliciosos que me chegavam aos ouvidos como pelo facto de que antes nunca lhe escutara uma única nota de piano. sentou-se no banco giratório que viera com o piano e. novinho em folha. — Oh. correu as mãos pelo teclado com uma agilidade que me. Por lealdade para com meu pai. cada qual. e nesse Natal mostrou-se ainda mais generoso. e. espantou. Ela riu-se alegremente. recebi um trenó magnífico. abanando a cabeça. enlevados com os acordes. Tão vívida tenho na memória esta cena que até me recordo do que ela tocou. incapaz até aí de se permitir essa despesa. após tantos anos de silêncio. nos levou de tarde ao Teatro Real. como o que havia na nossa escola e que soavam como banjos velhos. Nesta observação havia mais um enigma a acrescentar aos outros ainda por decifrar e que complicavam e perturbavam os meus primeiros anos: quando pedia à Mãe que mos explicasse. que a encheu de imensa alegria: um piano vertical. Foi a Danse des Écharpes. não. Não era nenhum desses móveis pequenos. uma dádiva inesperada (visto que o Pai não transpirara nada do seu intento). em seguida. como tenho os dedos entorpecidos! Deteve-se um instante. que tinham recebido. mas um instrumento de um negro luzídio. com dois candelabros doirados e teclas de marfim reluzente. meu Deus. algo que ela desejava desde o seu casamento. ainda deslumbrada. num dia daquele Dezembro. E minha mãe teve. Quando a Mãe acabou. Mas depressa voltarei a desembaraçar-me. enquanto eu me postava junto dela. e então principiou a tocar.

parecia excelente. Na escola. O falso conceito da nossa inferioridade. embora condescendente. sob um luar brilhante. não se importava na realidade com o piano. criando visões em que. Não raramente. o esplêndido Bluthner era uma consolação e um requinte. embora nunca o . a fim de estudar uma passagem difícil. como professor. navegava a um vento de feição. incitava-me a uma precoce melancolia. particularmente na nossa situação de apartheid. Todas as tardes. para o que talvez contribuía o nome. isto bem podia (porque eu começava a conhecer o Pai) ter de certa maneira demorado aquela aquisição. eu entrava em silêncio na sala e instalava-me junto da janela.resposta evasiva. e por isso se fornecera de vários cilindros fonográficos. a Sonata ao Luar de Beethoven. Rapsódia Húngara de Liszt. tive a grata surpresa de ser aluno do senhor Rankin. tão divulgada na terra. 0 Pai não era dado à música e. sentava-se ao piano e «praticava». eu transitara de classe e.. As suas preferências iam para uma boa banda de instrumentos de sopro. talvez obrasse em meu favor. sistema Edison-Bell. ou quem sabe se. quando regressava da escola. e sempre que o tempo estava chuvoso. e. Em breve soube os nomes das músicas de que mais gostava: Polonaise em mi bemol de Chopin. seguindo alegremente a sua rota solitária mas segura. Com admiração minha. além disso. e a minha grande favorita. da qual. depois de concluir o trabalho doméstico e de verificar que estava tudo limpo e arrumado. a escutar. acima de todas as outras. começou a interessar-se pelo seu novo pupilo. O Pai enriquecia. embora lastimando a falta de Miss Grant. Entretanto. Mas para a minha mãe. nada podia desviar-me desta nova alegria. com todas as velas desfraldadas. Esta.. pois era um pouco míope. tão injustamente condenado por Maggie (os seus ímpetos eram devidos mais a nervosismo do que a mau temperamento) podia ter falhado no púlpito mas. antes de recomeçar. ressuscitado. das famosas marchas de Sousa. Foi um Inverno feliz que nenhum facto subsequente pôde destruir. inclinando-se para a frente de vez em quando. O nosso barquinho. Este. ele possuía a habilidade de apresentar as coisas de uma forma agradável. eu corria à cozinha a fim de pôr a cafeteira ao lume e fazer torradas para o chá. me via pleiteando causas perdidas em terras longínquas e obtendo recompensas de alma satisfeita numa campa isolada de herói. Momento Musical de Schubert. 0 sistema que usava valia mais que a média do ensino ministrado pelos mestres-escolas de aldeia e. afastava para o lado uma madeixa de cabelo castanho e sedoso que lhe pendia sobre a testa.

devido ao seu desrespeito sardónico de irlandês pelo aforismo escocês «Não dispas o sobretudo antes de Maio findar». além do seu significado de profundezas subterrâneas. * Diz-me então o que te apetece. as Caves?. levando nas suas asas a notícia da nossa prosperidade crescente. Num instante chegámos aos dias floridos de Abril. Conquanto eu não percebesse as implicações da misteriosa palavra «Caves». . como quem torce um ferro em brasa? Em qualquer caso. se ao menos me houvesses avisado de que vinhas. ei-lo chegando à nossa casa numa bicicleta nova e cintilante. A Mãe. arrogante. até que o Pai. de Dublim.. pensei. Quão depressa passaram aqueles meses! Quase nem dei pela aproximação da Primavera. . despiu-o quando o plátano da forja começava a reverdecer. Agora. Um olímpico. ter-te-ia preparado um bom almoço. maravilhado.. Vestia calças de flanela cinzenta bem vincadas. — Diz-me o que te posso arranjar agora. casaco azul do colégio e chapéu de palha posto à banda. directamente vindo do Parnaso. Contudo. * Meu filho. em alta percentagem. — Percebi que o tratamento de tia agradara à minha mãe. possuidor. eu já almocei. porém. hospitaleira por natureza. que tinha aquilo a que chamava «tendência para bronquite». e há muito tempo ansiosa de visitas.tornasse evidente. onde o pai possuía um estabelecimento com o nome curioso de Caves de Lomond. que eu nunca vira. A sua casa.Olhou para o relógio. alto. a grande distinção de Terry. Soprava aragem de Oeste. cuja fita também ostentava as cores escolares. * Na realidade. do encanto inato dos Carrolls. o seu propósito fosse converter-me. apanhou uma constipação tremenda em Março.. ficava em Lochbridge.. rapaz de dezasseis anos. tia Grace. Não teria sido esta a causa da visita sub-reptícia de meu primo Terence. apenas a vinte milhas de distância. das quais negligentemente tirou as molas de ciclista. que desde muito novo fora dotado de uma pituitária sensível aos mais ligeiros eflúvios da abastança? Terence era invulgarmente bem parecido. invejável a meus olhos. que marcava vinte minutos para as três. Ele. petiscarei qualquer coisa. porque estávamos nas férias da Páscoa. embora confusa por ser apanhada desprevenida. obtive mais benefícios do que merecia daquele homenzinho desprezado e repudiado. era ele ser aluno interno do famoso Colégio Rockcliff. ficou encantada ao ver Terence.

pela terceira vez. E Terence deu um leve arroto para justificar as suas palavras.conhecia Maggie? Não. resmunguei. — Não digas nada á tua mãe. numa das suas missões servis. Mas ouviste o que eu disse acerca de Rockcliff? Meneou indolentemente a cabeça. o seu notável triunfo no período findo. como eu gostaria de estar contigo no Rockcliff! Terence fitou-me e. Seria impossível não o admirar. elegantemente a contas com seis ovos cozidos e várias fatias de pão barradas de manteiga. Terence deteve-se diante da montra da mercearia. que é aquilo que ali vai? Voltei-me. Terry.. ainda de braço no ar. se é que tem em casa. com o propósito de me desanimar. acenando-me de modo amigável para mostrar que me tinha visto. tia Grace? — Sugeriu Terence. numa fraca imitação das maneiras de meu primo. embora a Mãe parecesse um tanto maçada quando. Foi até por sugestão da Mãe que. onde. Quinze minutos depois estava sentado à mesa. e assim fizemos. exibindo um palito. desgrenhada. não aguentarias a severidade daquele ensino. Quantos queres? * Poderá ser meia dúzia. Senti um calafrio. com uma trouxa de roupa à cabeça. Ao fundo da rua. começou distraidamente a esgaravatar os dentes. E prosseguimos o nosso caminho. — Não faço ideia de quem seja. * Claro que tenho.* Não desgostaria de ovos cozidos.. Era Maggie. depois. Terence me levou a dar um breve passeio enquanto meu pai não voltava. mas um daqueles ovos já não estava lá muito bom. — Lastimo. primo Terry. um pouco a medo. com grande à-vontade e um acento em que havia laivos da melhor pronúncia de Dublim. Rockcliff matar-te-ia logo. Terence repetiu: — A maneira como os deixei para trás no último arranque bem podia tê-los feito desistir. e assim cometi o primeiro dos dois grandes actos de apostasia da minha infância. Dar a entender a Terence que. que foi tão amável. numa prateleira de vidro. Já no caminho para a aldeia. deixando Maggie como que petrificada. a conquista do primeiro lugar numa corrida de cem jardas efectuada no colégio. se exibia uma . isso era inadmissível. agarrei-lhe na mão e exclamei enlevado: — Oh. Virei-lhe as costas. enquanto nos ia relatando. — Meu pobre pequeno. mal vestida. Santo Deus.

A sua atitude. encostando-se a um castanheiro. Aí se instalou confortavelmente. de costas voltadas para nós. . ruborizou-e fechou o livro. É claro que nem pensei em entregar semelhante recado ao meu primo. perturbada na sua leitura. Media pelo menos nove polegadas de diâmetro. e eles tomam nota. Até se esqueceu de me oferecer o rebuçado habitual. propôs ele com todo o desembaraço. — É pena — disse Terence.das tortas de maçã do fabrico especial de Grant. o qual. — Devemos fazer qualquer coisa para adoçar a boca. que a mim se afigurava muito maior do que na montra. é óptima. quando saí com a torta. Encontrando o olhar do meu primo. ainda corada. inspeccionando a torta. endireitou-se e virou-se nós. com um estalo violento. — Não tens por acaso um canivete? — Não. Terry. no interior do estabelecimento. — Quem é aquele rapaz que está contigo ? — perguntou. sim. Para além. — Vista de perto não é tão grande como julguei — Observou. — Pois temos. — Aposto que você tem aqui conta aberta. Obedeci com entusiasmo. Polly parecia transtornada. Terence desatou a rir. Terry. — Suponhamos então que vais buscar a torta e que põem na conta. — O meu primo Terence — respondi com orgulho. comentou. sugeriu que fôssemos até a um recanto sombrio do prado conhecido na região por Baldio.Para minha surpresa. * Ah. Venho cá muitas vezes buscar mercadoria para a minha mãe. — Então diz-lhe da minha parte que é um grande descarado. pensativo. — Partiremos depois ao meio. e abriu o saco de papel. eu. pois dos ovos. Não me dão licença para usar. * São sempre redondas. Apoiando-se em atitude atlética na vidraça. estava Polly Grant debruçada sobre um livro e com os cotovelos apoiados ao balcão. volveu Terence. com medo de que me corte. pareceu divertir bastante o primo . por cima da torta de maçã para a inconsciente. Parece bem boa. destilava deliciosa calda e era coberta de açúcar. donde se evolou o aroma apetitoso do bolo saído há pouco do forno. que nos oferecia uma notável vista daquela parte arredondada do corpo que geralmente se usa para o descansar sentado. * Muito redondinha.

pareceu ponderar no assunto. Tirar à sorte. * Questões de família. Ele ponderou. em especial a razão por que não conheço os nossos parentes. Há muitas coisas que não compreendo.. e comê-la quem ganhar. se perderes? * Se tu és. Terry. Terence puxou do bolso uma cigarreira de aço. a vocês? . * Mas não me aflijo. que pena! Não me ouviste dizer que. Escolhe tu. Sem mudar a sua posição de reclinado no tronco. disse eu. perdias? Bem. Terry. se fosse cunhos. perdes. declarou por fim. eu também sou. Olhou-me de revés. para a outra vez pode ser que tenhas mais sorte. e em seguida esboçou um gesto de negação. * Agarrei-me a este intróito. embora os meus olhos pestanejassem. arrisquei timidamente. * Era boa. Descobriu a moeda. Terry? * Regular. — É cunhos. com todos os sinais da maior satisfação. ganho. de cenho carregado.— Não se pode dividir isto sem ficarmos todos besuntados. Não veria quanto me sentia ansioso por ter notícias dos membros desconhecidos da nossa família? —Então nenhum dos parentes da tua mãe os visitou. eu reservei para mim o papel de gozar com a vista. — Terry. Cunhos. não me senti muito infeliz por ter perdido.. — Só há uma solução. Seguiu-se uma pausa. dou-te essa vantagem. e fi-lo até à última migalha. De certa maneira.És suficientemente «desportivista» para não ficar aborrecido. * Óptimo! * Extraiu do bolso uma moeda. se for cunhos. como se fosse anuir. * Fala-me disso. é tão bom ter-te cá! Por que não vens mais vezes? E por que não posso ir visitar-te? Deitou uma baforada de fumo pelo nariz. Mas suculenta de mais para o teu estômago. Terry. tirou daí um cigarro de ponta dourada e acendeu-o perante o meu olhar reverente. — Se for caras. durante a qual Terence. meio hesitante. Observando Terence a comer a torta vagarosamente. enquanto a perspectiva daquele saboroso recheio me fazia crescer água na boca. * És muito novo para te afligires com este género de assuntos.

não existirias. Esta declaração imprevista deixou-me atordoado. o qual. As relações são tensas. — Pois bem. ou melhor. nunca teria conhecido a tua mãe. levantou-se e dirigiu-lhe a palavra.— Não. Nesse momento tratava-se apenas de Grace Wallace. Chegava ali regularmente. era diferente. * A Mãe! — exclamei. bradou Terry espectacularmente. disse por fim Terence. Mas. se me permites que o diga. munido do Winton News. Não te apresses. Notando quanto eu estava atento. Terence continuou: — Todas as tardes. enquanto eu esperava atento. para receber o irmão.. Seguiu-se nova pausa. contudo. tomando fôlego. vindo do Colégio de Drinton. Esta. o que está na Universidade. Uma tarde. em tom sentencioso. onde residia naquela época. de dezassete anos encantadores. Embora estivesse morto por lhe falar. se não fosse a Companhia Caledoniana dos Caminhos de Ferro. estudante que regressava no comboio de Caley. receava melindrá-la.Carregou o cenho. . Mas como é natural que mais dia menos dia te venham a dizer. Olhei para ele. chamado Stephen. porque o comboio de Caley vinha sempre atrasado. — Interrompeu-sè e prosseguiu: — Ora o teu futuro pai sempre fora sensível. às raparigas bonitas. não há prejuízo nenhum em saberes já. Tal contingência pareceu-me tão incrível que ainda mais alarmado fiquei. Terry. encontrou qualquer coisa.. * Ainda não era. Terry recomeçou com ar indiferente e um grande à-vontade. E nesse instante. quando regressava do seu trabalho em Winton. * Em geral Conor entrava na sala de espera. e o mal estava feito. para cúmulo. De facto. Falava num tom quase de acusação. nessa tarde. E então começou: — Em primeiro lugar. E apenas uma vez em todo este tempo. Se não fosse isso. numa expressão de censura. Laurie. o tio Con tinha de mudar de comboio em Levenford e tomar o transporte local para Lochbridge. encontrou alguém que valia a pena contemplar. Laurie. É um pouco delicado. Só um dos irmãos da minha mãe. confesso. o mais novo. e divertindo-se com isso. puxando fumaças do cigarro. cheio de medo. porém. não estarias hoje aí sentado. — Que mal ? — murmurei a custo. Deitou-se para trás. olharam um para o outro. — Os pais dela eram presbiterianos ferrenhos e Grace a menina querida do seu progenitor. com a sua pasta de músicas. que me impressionavam.

pois suspeitava vagamente da situação melindrosa de meus pais. — Ainda bem. Grace sabia que os parentes nunca mais lhe falariam e Conor sabia que seria banido pelos seus por não casar na igreja. disse: — Com que então tenho dois tios? * Três. determinado a mostrar-me o seu estilo. Não deu resultado. de Winton. Considerava-me menos feliz do que esperara e. Meu pai. Contudo senti-me repentinamente deprimido e mais ainda pelo facto de Terence tratar com aquela ligeireza um assunto que me afectava tanto. e tanto que Terry. Terry. — Pôs-se de pé e ajudou-me a fazer o mesmo. para mais católico. sem uma palavra. embora deste pouco se saiba. Partiu veloz. sem falar do tio Leo. Talvez que a torta de maçã e os ovos cozidos o incomodassem. cantava como um anjo no coro da igreja e nunca dera um passo em falso. de Lochbridge. Houve súplicas e lágrimas. de um padre. — Terry abanou a cabeça. — Pelo menos tiveram-te como filho legítimo. se é que já ouviste mencionar este nome. No fim. ou talvez que a narração que nos fizera das suas proezas nos . e irmão de um taberneiro e. e o reverendo Simon. Terry — exclamei. Por um momento observou-me como se tentasse ler-me no rosto. de maneira que paramos na mercearia. ajudava a mãe nas lides da casa. no qual só havia palidez.rematou. Talvez o que me contara não constituísse novidade para mim. que é o teu tio Bernard. prometi. Eu não estava com disposição para corridas. pois escutara a sua narrativa com certo receio. -Vamos a correr. condoído. para me animar. estimada por todos. ainda. de Port Cregan. se viu obrigado a perder a compostura a fim de alargar as passadas. — É altura de regressar. Durante semanas tentaram tudo o que é possível a um mortal para os separar. e embora Conor nem uma nota de cinco libras possuísse. Preciso de uma caixa de fósforos. mas sen-frffie extremamente combativo para com esse primo tão cheio de talentos. Rapariga adorável. olhando por cima do ombro.tinha costela escocesa que remontava a William Wallace. — Mas não digas que te falei nisto. com ar entorpecido. Corri o mais que pude. Quando descobriram que ela se enamorara de um irlandês adventício. Terence soltou uma gargalhada. — Agora já sabes. mas não se importaram e casaram. foram ambos ao Registo Civil. * Não direi. do nosso lado. não queiras saber o barulho que fizeram. aliviado.

Mas o Pai. que Terry parecia já esperar e que talvez houvesse sido o objectivo da sua visita.. eu não comi uma só migalha do bolo. Depois de tomarmos fôlego. * Mas é uma coisa boa. aumentando durante o jantar de galinha. — O quê ? Na nossa conta!Ficou estupefacta. — Por isso te faltou apetite para jantar! * Não. Aquilo era do seu feitio livre. à espera. ele entrou na loja e gastou muito tempo a escolher fósforos. — Sim? — retorquiu ela. Por fim. que o atendia. acendendo a lâmpada de carboneto da bicicleta. Terry comeu-o todo. — És rápido. afigurou-se-me que Terry fazia rir a rapariga. Quando ele desapareceu da vista. Ele disse: se sair caras ganho eu. não tomei isto a sério. entrei eu na cozinha. mas que eu mal provei. O Terry disse que era quando tirámos à sorte para ver quem comia a torta de maça. que se achava nos seus dias de melhor disposição. — Mãe.. Polly. Terence olhou-me pela primeira vez com certo respeito. Enquanto eu ficava do lado de fora. que estivera a ouvira conversa.desportos de Rockcliff fosse alindada par nma habilidade inata para o exagero. Combinámos como devia ser. Nunca pensei. sem entusiasmo. O certo é que mão me venceu. despreocupado. — E donde veio essa torta famosa? — A Mãe observava-me agora com atenção. Observando através da montra. A minha tristeza persistiu todo o percurso até casa. . mas ao menos sou «desportivista». * Torta de maçã ? — A Mãe voltou-se com as mãos cobertas de espuma de sabão. e deixar abandonado um pobre fedelha como eu? Senti um nó na garganta. O Pai. pode ser que eu não valha muito. se for cunhos tu perdes. pai. disse aproximando-me. que estava deliciosa e a Mãe preparara. — Comprei-a e mandei pôr na nossa conta. interveio: * Como foi que Terry tirou à sorte? * Fez tudo correctamente. Poderia Terence realmente amar alguém. deu mostras de profunda amizade pelo sobrinho e presenteou-o com uma libra. quando alcançámos a mercearia de Gcant eu estava precisamente a seu lado. É claro. mãe. — Não sei de que me servirá que sejas isso. meu primo montou na máquina e partiu para Lochbridge. não parecia desagradada com a sua reaparição nem com o seu gosto exigente quanto a fósforos.

— Bem se vê que é um Carrol. A Mãe. arrastando-se do estuário. era-lhe tão afeiçoada que. com um peso na consciência. sustinha a respiração perante o amadorismo de meu pai no segurar das rédeas. franjadas de ouro e escarlate. Agora vai já para a cama. Escondi a cara no travesseiro e deixei correr as lágrimas. o isolamento em que nos víamos obrigados a viver. — Não acho graça nenhuma —> declarou friamente a Mãe.como praticante. estou persuadido. — Ai. quase sufocado. acabrunhava-me deveras. Os nevoeiros matinais. no que persistia teimosamente. só essa fosse a fé do marido. dia que me arrastava a considerações mais práticas quando eu acordava e sentia o cheiro característico de ovos e toucinho frito. iria com ele mesmo a um templo hindu. IV Nesse ano o Outono veio mais cedo. começada tão alegremente. como minha mãe. contudo. deixavam cristais de orvalho nas ervas aveludadas dos campos de Snoddie. a despeito de certas reservas suas. vamos lá. estranhos reinos desconhecidos onde eu. acabara por me trazer amargura. a nove milhas de distância. o maroto! — dizia. Despi-me com lentidão e tristeza. o Pai alugava o potro e o veículo do fazendeiro Snoddie e ia até S. situada em Drinton. devia ser classificado de tíbio. pouco ortodoxas. acima de tudo. Patrício. o mistério que envolvia meus pais e que Terry me desvendara. a uma caixa de fósforos? E. era o que se pode chamar católico declarado. É claro que me levavam consigo. por tradição e crença. acompanhava-o de boa vontade. apesar da sua educação evangélica. O ar suave dava uma sensação de mudança e de qualquer coisa intangível que me fazia sonhar com lugares distantes. As folhas da minha árvore preferida. Se o sol brilhava ao sétimo dia e o tempo prometia manter-se bom. Aquela tarde.O Pai teve um ataque de riso tão forte e prolongado que lhe provocou tosse. Laurence. e por causa de um primo que me ligava tanta importância como. — Amanhã de manhã falar-te-ei a sério acerca disso. a igreja católica mais próxima. achava que podia ter estado em épocas remotas. uma . Mas eis-nos num domingo. haviam começado a desprender-se. O Pai. e eu. Sentia-me deprimido. Eu não repudiara abertamente a Maggie. porém. minha amiga e protectora. a querida Maggie. tecendo um tapete principesco à porta da forja.

— Eles é que nos desfazem. devesses fazer umas sanduíches para mim e para o pequeno. cinzento. — Escaravelhos negros! — Tal foi a exclamação proferida a meu lado. Então a Mãe. Mas havia domingos em que o Pai pressentia que Deus não desejava que elé expusesse a família aos azares da estrada. dirigiam-se para o templo. fato de golfe. amplo. meias altas. segurando o cavalo assustadiço — é uma invenção extraordinária. geralmente um Argèle encarnado. que ele tomava em roupão. após o almoço. capa inteira de borracha com um buraco para enfiar a cabeça e presa ao pescoço com fecho de metal. muito calmo. na verdade. subindo a rua da Estação e atravessámos a aldeia. Hoje em dia. só por milagre nos não atropelava. virava o pescoço e olhava para ele com indignação e espanto. como o pai insistia em apoiá-los. onde os sinos da igreja paroquial começavam a tanger. quase todos vestidos de preto e munidos com as suas Bíblias. E. quando o Pai inspeccionava o céu pardacento e farejava o ar que prometia chuva. agarrando as abas largas do chapéu. passando rápido por nós numa nuvem de poeira. Lendo-lhe no rosto. quando um liberalismo esclarecido procura promover a unidade das igrejas. o que não convencia nenhum de nós e ainda menos o cavalo. mostrar o seu público desdém pelas convenções do rito escocês. com um mover rápido dos cascos quando meu pai dobrava rente uma esquina. minha filha. vindo de Lochbridge. Era a sua maneira de desafiar os preconceitos da aldeia que circulavam em nosso desfavor. como católico intruso. Saímos. exclamava formalizada: — Oh. meu Deus. Tenho a certeza de que o Pai escolhera de propósito esse momento para. Em geral tratava-a por «minha filha» quando queria a satisfação de qualquer serviço. Foi ao andar superior e voltou com o seu traje habitual das nossas expedições.replicava o Pai. Não desfaças nesses carros que eu ainda hei-de ter um. em especial os . que máquinas horríveis! — Não. o Pai virou-se para a Mãe e disse: — Talvez. os «indígenas». murmurava a Mãe ao meu ouvido. Este. é difícil conceber a má vontade que noutros tempos se levantava contra os católicos. Em resposta a este apelo. botas fortes. numa onda vagarosa e solene. percebia que esse domingo seria para mim de grande excitação. o qual.temeridade mal disfarçada com fingída perícia. Às vezes aparecia nas estradas algum raro automóvel. Gracie.

a serração de Macintyre. ar distante e um sorriso desdenhoso nos lábios. somente aliviada um pouco pelos olhares invejosos e disfarçados dos outros rapazes para quem o domingo era uma penitência. todavia. entre rododendros através do parque. Eu tremia só a este pensamento. um dia de tédio excruciante em que o simples levantar da voz constituía uma profanação. no Oeste da Escócia. Eu próprio tremera ao soletrar a notícia de um sermão que seria pregado na igreja paroquial da aldeia. Encontrávamo-nos agora nos terrenos arborizados. O Pai. Bebedora do Cálix da Abominação. passámos pela entrada da propriedade de Meikle. a uns duzentos passos abaixo da estrada real. a que se referiam em termos tais como: «Meretriz Romana. muito diferente do meu. Comecei a respirar mais à vontade quando atingimos o último marco da aldeia. com este tema: «Roma. o rir representava um crime. rigorosamente defesos. trotando a seu lado e temendo algum desaire. preenchida com duas horas de sermão. A alameda subia serpeando. aparentemente até ao infinito. segundo o Apocalipse. 18-19. que se intensificou quando o pai. cada qual sobrepujada de uma águia de bronze e ladeada de dois cubelos iguais de pedra. de Lady Barba de Baleia. eram sempre designados por «desprezíveis Irlandeses» e execrados por todos.» Mas o temperamento do Pai. muitos dos quais não tinham ainda conseguido elevar-se acima do nível da classe operária. Prostituta Sentada sobre as Sete Colinas do Pecado». como de costume. tanto por causa da sua nacionalidade como da sua religião. a provação era torturante. portão nobre com altas colunas. divertia-o provocar os olhares indignados e os lábios franzidos e o não ligar importância à reprovação geral que a nossa aparição suscitava. de cabeça erguida. no estilo grandioso do país. era combativo. seguiu o seu caminho sob as faias (cujos frutos nos estalavam debaixo das botas) e conduziu-me a uma . lançou um olhar cauteloso derredor e. Para mim. Esses descendentes de indesejáveis refugiados famélicos. e a passagem do comboio ronceiro (conhecido como «rebentadomingos» por desafiar a santidade do dia) significava um exemplo publicamente proclamado do mal que estava levando o mundo à perdição. se introduziu por uma abertura da sebe. cortou a aldeia a passo elástico. A vista desta quinta magnífica e privilegiada já me causara um tremor preliminar.irlandeses. Aí. que ele de vez em quando comprimia simulando assobiar. fazendo-me sinal para que o seguisse. o Assento da Besta. quase garboso. imperturbável sempre. e chegámos ao campo raso. Naquele dia.

como se a escarnecer das minhas aflições. O Pai. circundou uma plantação de pinheirinhos novos e penetrou numa mata mais cerrada. enquanto ele abanava a cabeça. Mas não era assim. Pescava com minhocas. aquela mulherzinha que troçara de mim o meu primeiro dia de escola e a quem. ou. De tempos a tempos a voz de gaio. dir-se-ia que não estávamos com sorte. eu designava apenas. para me experimentar. quando vivíamos perto das margens do Loch Lomond. Depois. logo abaixo das quedas de água. a primeira coisa que o Pai fez foi tirar de sob a capa um saco de lona e armar as várias secções da cana de pesca. estritamente reservado. Nesse dia. o que e causava calafrios. Chegado à margem do rio.. — Contudo. cheia de árvores grandes e pequenas. Sentámo-nos numa pequena clareira. Deixemos a linha na água e vamos almoçar. Terminado o nosso piquenique. Em pequeno. pelo pronome de ela. em especial de tomate. enquanto eu observava atento e me era permitido pegar uma vez por utra na cana. que murmuravam ao som de água corrente. do ai. pelo menos. exclamou.encosta coberta de fetos. debaixo de um vidoeiro. e agora. Era o pensamento que me estragava a alegria. Era o rio Gielston. contar que ele usava plumas ou. maçado. e ele seguia o mesmo sistema que utilizara na juventude. começou por atirá-la à parte espumante do cimo do poço. que surgisse a dona da propriedade. fazia-me estremecer. Tinha o olhar levemente amortecido. Ajustado o molinete e enfiada a linha. e com ódio. fingia de vez em quando alarmar-se. com mãos por baixo da cabeça e o chapéu desabado sobre olhos. no íntimo. que Maggie procurara na quinta e que eu ia apanhando. pescara entusiasmado em todos os arroios que alimentam o lago. aqui. — Nem sequer mordem o isco. manifestando-se de súbito. Como em todas as nossas excursões eu tinha um medo horrível de que o couteiro os apanhasse. pior ainda. porém. O rumor das árvores incutianos uma sensação assustadora de isolamento. comunicava-me também aquele mesmo dor. o Pai estendeu-se. Gostaria de enaltecer as qualidades piscatórias.. mas sem se dar por vencido. mostrar as verdadeiras. de uma lata de cacau que trazia no bolso. fervilhantes e escorregadias. notável pela abundância das suas trutas. O rio esparrinhava e cintilava através das ervas altas e dos caniços. vez de propósito. As sanduíches da mãe eram sempre boas. O objectivo do Pai era apanhar peixe. que pronunciava a . deve haver trutas. que espalhava suave claridade de verde prateado. «Caluda! Aí vem ela!».

Com o peixe oculto sob a capa embaraçosa mas necessária. e o pai. como de chafurdar na água. A água refervia e eu experimentava uma angústia imensa. e de ter admirado o troféu em todos os aspectos. para onde fora levado ao dorso de um camelo. O Pai. Já não era o fedelho. Estava este de pé. As framboesas cresciam silvestres por toda a parte da mata. Sem fazer caso dos meus protestos. — Vamo-nos embora. — Não. Abaixou-se. lentamente. evitar o longo desvio pela mata. Também ele respirava com dificuldade. lançou-o na vertente pedregosa. despertou em mim o espírito de aventura. o Pai resolveu que já chegava por aquele dia. tenso no esforço que fazia de segurar com ambas as mãos a cana incrivelmente curvada em arco. * Que beleza! — exclamei. como me considerava o Terry. — Pesa pelo menos cinco libras. besuntando as mãos e a cara com o suco avermelhado. doirado pela turfa em que embatera. passou uma corda rija através das guelras da truta. De súbito. * Uma linda truta! * replicou o Pai. Laurie. Por fim. ele decidira. saltando no ar e tornando a cair com um chape retumbante. na margem do rio. por aí não. Não havia necessidade de ir muito longe. numa floresta virgem. coração não pena — observou risonho. encantado com o seu êxito. tínhamolas ali à mão em grande quantidade. mas transformarame. o que me foi confirmado quando lhe vi estas palavras: — Vai apanhar framboesas. ergueu o peixe até à altura do cinto e ali o amarrou fortemente. levou-me a correr para o lado do Pai. achava-se na melhor disposição. matando a fome e extinguindo a sede ardente no oásis. — Olhos não vêem. uma série de ruídos. esgotado e vencido. . no herói das histórias de meu pai. pondo a capa. Logo que me encontrei entre o enredado da vegetação. senti-me numa ilha deserta. com medo de que a vítima nos escapasse. A luta demorou minutos intermináveis. enquanto um peixe enorme se debatia furioso à superfície líquida. com um puxão rápido mas delicado. Colhendo framboesas maduras. como percebi.. tanto mais que o sol agora vencera as nuvens. que muitas vezes troçava do tamanho da nossa pescaria. Mas o que ele estava era morto por mostrar o peixe à Mãe. o ambicionado peixe cedeu. de repente.sesta. escondido e seguro. Depois de nos acalmarmos. torcendo-se e mergulhando..

apontando para o estandarte com o leão que flutuava sobre a residência. e sem desfazer as. E assim. nos fitava com indignada surpresa. se interessa pela floricultura. por um pouco. impingindo o bilhete à desconfiada senhora. se quisesse ter a bondade. Calou-se.. quando nos aproximávamos dos arbustos que ladeavam a rua..e.. Houve um silêncio. pelos campos. que teimava em não o aceitar. Quis ser audacioso. — Tarde de domingo — murmurou... — Naturalmente deitou-se a dormir depois do jantar.Ao conversarmos há dias.. aconteceu mencionarlhe a sua famosa colecção de orquídeas. Tirou o chapéu e cumprimentou. Então. e examinou o bilhete. exibiu um dos seus cartões comerciais. Limitei-me. misturando a suspeita com o manifesto desagrado. por seu lado.como sabe. — Que faz na minha propriedade? Fale.e ele pediu. * Com todo o gosto. declarou o Pai. um pouco ao acaso. que trazia suspensas ao pescoço por um fio de ouro. dobras da capa. Os olhos de Lady Barba de Baleia... Se me permite explicar. o qual. Eu.. que tirara do bolso interior do casaco. — Minha senhora... Ela está lá.insistiu mesmo que lhe arranjasse uma autorização. Mynheer Hagemann. tratava de disfarçar a sua perturbação. Içaram a bandeira. todos os holandeses são jardineiros. O Pai. fitaram-me demoradamente e eu compreendi que fora reconhecido. * Decerto — replicou. É holandês. — Dê-me licença que me apresente — acrescentou. após o sobressalto involuntário e uma perda momentânea da cor das faces.tranquilizando--me. Tencionava vir a Winton no próximo mês. desmaiava. neste bilhete. está aqui o nome dele. — A verdade é que o meu sócio. quase esbarrávamos com um vulto baixo e rechonchudo.declarou que íamos tomar o caminho mais curto. — Não há vivalma por aqui. Compreendi que dava tratos à imaginação para nos livrar do percalço. passando de meu pai para mim. delicado e insinuante. — Fez uma pausa e tossiu docilmente. emergindo de trás de um grupo de rododendros.. debaixo da sombrinha guarnecida de rendas. de Roterdão.. Era ela. Por fim ela pôs as lunetas.. vestido de cassa leve. pois. . minha senhora. a segui-lo. — Mas olhe! — bradei. mas as pernas recusaram-se-me a obedecer. Mal havia pronunciado estas palavras quando. — Espero que não considere isto como um abuso. depois de atravessar o passeio principal subjacente à casa. com extraordinária perícia manual.

meu caro senhor. Infelizmente era ilusão. protestou o Pai. minha senhora — redarguiu o Pai. túlipas. com uma armação de ferro pintado de branco e anexa à ala mais afastada da casa. * Sim. — Meditou um instante. — Intimamente ligado àquilo que é o esteio da nossa vida. de que eu nem podia adivinhar o nome. A dama levou-nos pela alameda. Fiquei esperançado quando vi nos lábios de Lady Meike a sombra de um sorriso. Mas também orquídeas.. de tons singulares.. iúcas espinhosas. nesse caso? * Com que então o seu sócio interessa-se por orquídeas. nenúfares do tamanho de bandejas.* Real Fermento Holandês de Hagemann.. e. no meio de tudo isto. o Pai pareceu desanimado. * Venha daí — disse ela em tom categórico. Erguiam-se palmeiras até ao teoto alto. * Contudo. e. Entrámos nesse palácio de cristal através de uma dupla porta de vidro. e ficou mudo. quase satisfeito. Mas. depois pelo terraço fronteiro à residência imponente. a minha inquietação ficou meio . minha senhora. que a dona fechou atrás de nós. que estendiam a copa enorme muito acima da minha cabeça. mesmo a seus pés. — Não queremos incomodá-la num domingo. Mostrarlhe-ei a minha colecção e pode depois descrevê-la ao seu caprichoso Mynheer. realmente o melhor. não havia outra alternativa. flutuando num tanque. até que chegámos à estufa. era só uma autorização. de mistura com fetos arbóreos. minha senhora. com a modéstia e a segurança de quem conduzira a sua causa a bom termo. de estilo vitoriano.. Quero ver como ambos reagirão perante as minhas orquídeas. onde formavam já um charco razoável. No entanto. estavam as orquídeas. mesmo assim. achámo-nos imediatamente nos trópicos. não tinha consciência das misteriosas gotas de água que lhe escorriam para o chão. estranhas trepadeiras enroscadas. Eu sentia-me desolado. saudados por um bafejo de ar húmido. tufos de plantas luxuriantes. bananeiras com cachos de frutos em miniatura. * Decerto. * É o melhor dia.. * No meu estado normal sentir-me-ia arrebatado por essa grandiosa materialização de tantos dos meus sonhos. Ali de pé.. — Pensei que os holandeses só cultivavam túlipas. — De novo os seus olhos me procuraram. grande construção de vidro. * Pela primeira vez. Campos cheios delas. Teria ela visto? E que iria fazer. cintilando como aves exóticas.

enquanto disfarçadamente limpava a testa encharcada. minha senhora — respondeu apressadamente o Pai. muito solícita. muito calor.. — Não me sinto mal assim.. não se adaptava de bom grado a esse clima equatorial. o calor mortal produzia uma miragem em que o panorama que fôramos induzidos a apreciar assumia o aspecto de um mar verde e túrgido com frias ondas tentadoras. intensificado pela sua ascensão.esquecida. pela primeira vez desde que entrámos. apresentava os seus espécimes a meu Pai. divagando de uma forma que não era de todo desagradável. a peixe. compreendi que estava aflito por causa do seu fato pesado de lã. que. um compromisso importante. Insisto em que tire essa capa tão pesada.. * Então depare nesta cataleia tão rara. em suma. belíssima.. temos de nos retirar. com as costas da mão. a terrível mulherzinha fez-nos completar o lento e sufocante circuito da estufa.. E enquanto a nossa temperatura subia e aumentavam as emanações ardentes.. aquela cataleia tinha um odor muito especial. se se inclinar sobre os tubos. — Linda. Havia ali calor. embora ainda não tivesse a cor dos tomates que a Mãe pusera nas sanduíches. A nossa truta. Por toda a parte se viam tubos donde se elevava vapor. adquirira no entanto o tom do ruibarbo cozido. Ainda não viu senão metade dos meus tesouros.. cujo aroma me passara despercebido. — Estamos muito gratos. já é tarde. Até gosto do ar quente. forçando-nos ainda a trepar a escada de ferro pintada de branco que se elevava em caracol até ao tecto onde. Cheirava. pelo menos. o nosso algoz de saias — está positivamente a transpirar.. Eu olhava pasmado. * Não... não vale a pena — respondeu o Pai em voz sufocada. * Talvez esteja aqui um pouco abafado. — Que disparate! Nem pense nisso. e pareceu-me que o Pai era obrigado a parar. habituada às águas frígidas do oceano. a qual.. examinar e escutar sempre que se aproximava mais dos tubos. — O Pai já nem sabia o que estava a dizer. Ao contrário das outras orquídeas... Eu já começava a transpirar.. Por que não tira a sua capa? * Muito obrigado. Escorriam-Ihe grossas gotas de suor pelo rosto. Pode ver de mais perto. nas quais o Pai.. mas. quando o Pai se inclinou. Novo terror me dominou. * Meu caro senhor — disse. de . Olhando directamente para ele.. seguindo lentamente a nossa guia.

Consultando-a sobre os meios mais apropriados para a reconciliação. na loja de Luckie Grant. com palavras que ainda tenho nos ouvidos: — Oh. Estava com uma inflamação de garganta e tinha em volta do pescoço uma meia de lá presa com alfinete de ama. e levei esses presentes a casa de Maggie. Por fim. não se diz nada à tua mãe. Encontrei-a sentada junto de um fogo mortiço.boa vontade mergulharia. estremeci. eu julgara capaz de vencer tudo e se via agora na mais embaraçosa e aflitiva das situações! De súbito. O Pai desceu em profundo silêncio toda a alameda. deu-me uma palmada nas costas. — Apesar de tudo. metade dessa quantia em rebuçados e a outra metade em bonecos de decalcar. — A velhota levou a melhor! Palavra que fiquei a gostar dela! Com estas poucas palavras se recompôs. Vol-tando-se para mim. sugeriu-me que despendesse o meu dinheiro semanal na compra de qualquer coisa que fosse mais do agrado da minha atraiçoada amiga. pode ficar com o peixe. sim. primeiro a mim e depois a meu pai. que cheirava a água de lavagens. Maggie admoestou-me em tom brando. e tão grande que não pude conter e chorei de remorso. com um olhar de cumplicidade. acto de reparação pelo qual mais tarde abençoei minha mãe. um pouco antes de chegarmos a casa. escura e lajeada. até aí. está cada vez mais chorão! Tem o saquinho das lágrimas sempre pronto. Por conseguinte gastei. ria a bom rir. o enorme vexame de um homem que. V Fiz as pazes com Maggie. 0 Pai era sempre assim. Mas. Pensei que nunca mais acabaria. na cozinha pequena. — E. Laurie. às gargalhadas. enquanto parávamos exaustos no abençoado ar livre. dirigiu. — Não se esqueça de transmitir os meus cumprimentos ao seu amigo holandês — disse quase com benevolência. Talvez por causa disso. ela abriu a porta envidraçada e. pôs um. Nem me atrevia a olhar para ele. por esta vez. situada no outro lado da linha férrea. dedo nos lábios e piscou-me o olho esquerdo. Como devia ser terrível a sua humilhação. tinha a habilidade de transformar a derrota em vitória. O Pai estava a rir. A minha fé nele havia-se restaurado. um sorriso de certo modo amável. recebeu-me com gentileza. Por esta fraqueza. .

mas por fim duas circunstâncias a induziram a mudar de ideias: o piano novo. não só porque importunava de contínuo a filhamas também porque. reluzente. nessas dias em que ela lavava a cozinha e as prateleiras dos armários. escutando com um ouvido a conversa de meus pais. do tamanho e forma de uma moeda de meio xelim. Maggie. fiquei ciente. que lhe exigia maior cuidado na conservação das mãos. A Mãe era de coração sensível. era um S. A minha pobre amiga nunoa tinha momentos disponíveis. pois fazia perguntas insidiosas. Cristóvão de prata. chamando-me embora «querido» e outras expressões que eu sabia serem falsas. agora com catorze anos e que deixava a escola no fim do mês. Tinha pena de Maggie. Toda a tarde eu e Maggie ficámos sentados à mesa da cozinha. creio-o firmemente. Tinha o que os Escoceses chamam orgulho na casa. tais como: se os meus pais viviam em boa harmonia. Desde que vivíamos com mais desafogo. e Maggie. dei-lhe uma medalhinha que afirmei ser capaz de lhe curar a doença de garganta. passava sobre jornais espalhados no chão. Entretanto. sentia prazer no trabalho e gozava a satisfação de possuir um lar ordenado. Para festejar a nossa amizade restabelecida. quanto pagara o Pai pelo chapéu novo da Mãe. repetidamente me declarou que íamos de novo ser amigos. que estavam a preparar boas coisas para Maggie e para a melhoria da sua situação. Por isso ela punha objecções à sugestão do Pai. gostou bastante e. eu tirava os sapatos e.A mãe de Maggie saíra. quando nos separámos. Fez uma proposta ao Pai. o Pai insistia com a Mãe para que tivesse uma pessoa que a ajudasse na lida caseira. pretendia tirar nabos da púcara em relação às coisas da minha casa. quando fazia em casa os meus exercícios escolares. A Mãe. que apreciava objectos desse género. se vires a Maggie diz-lhe que desejo falar com a mãe dela. que imediatamente a aceitou e da qual me tornei instrumento quando a Mãe me ordenou: — Laurie. . Apesar disto. não a tornei a ver muitas vezes nesse Inverno. e eu lembro-me bem de como. embora deva confessar que raramente se oferecia para a auxiliar nesses serviços. e por que motivo comíamos peixe à sexta-feira. a quem se afeiçoara. mas não me atrevi a invocar a qualidade religiosa da oferta e aleguei ser apenas um amuleto. entregues à decalcomania e a chupar rebuçados. Nunca gostara de a ver esfregar ou varrer. em peúgas. limpo. o que me deu grande alívio.

encontrámos Rankin. respirando uma atmosfera de bons sentimentos. senhora Carroll? A Mãe. A atitude do Pai em público era na verdade indesculpável. apresentava um ar diferente. Depois. tinham outro objectivo. ia ser nossa criada. encaminhou-se para a aldeia. — Tem um momento disponível. Na referida tarde. mantinha comigo animada conversa acerca de todos os assuntos e dava assim ao povo da aldeia uma forte impressão dos nossos instintos sociais. à tarde. confidenciava às outras pequenas da sua classe que. e. mostrava-se amável para todos. A Mãe. conversou com Polly Grant. Não assisti à entrevista. Penso que fora desconsiderado. solteirão. conforme era costume todas as semanas. .No dia seguinte. quando à hora do almoço Maggie se deteve à nossa porta a fim de prevenir que a sua progenitora viria no sábado à noite. Mas não ficou por aqui. perdoava tudo. recebeu um cumprimento da senhora Duthie. à partida. dispunha de tantos momentos quantos fossem precisos. ter o seu quartinho. um vestido novo e um bom ordenado. e. Quando regressávamos a casa. gastou meia hora agradável na loja de Miss Todd. As coisas iam correndo bem. a vi na escola. e os insultos não os esquecia facilmente. e queria sempre aplanar a susceptibilidade do marido. que nunca deixava de perguntar pelo meu primo Terence. levando-me pela mão. superior. mulher do médico. a Mãe. procurava granjear amizades. escolhendo um vestido escuro e também um par de meias e sapatos para Maggie. Rankin. E quando. interrompendo-se apenas para me dirigir um sorriso. naturalmente. mas a expressão da rapariga. O outro dia foi sábado. livre da tirania das eternas vasilhas de leite. enquanto. Respirou fundo. De tarde. enquanto correspondia prontamente às saudações dos seus poucos conhecidos.sem dúvida. embora ostensivamente para fazer compras. ao sair da mercearia. de qualquer forma desconhecida para mim. Essas saídas ao sábado. a Mae envergou o seu fato cor de peitode-rola. nos seus primeiros tempos. em Rosebank. o prejudicara na oratória sagrada. com aqueles modos francos e amigáveis que invariavelmente assumia em tais circunstâncias e que em nada se pareciam com os que o marido afectava. desfazer preconceitos e acabar com situações hostis. era de orgulho e felicidade. minha mãe aproveitou a ocasião para a sondar. e durante o nosso passeio. que atravessou a rua com dificuldade para nos vir falar. era sempre tímido perante as mulheres. importante. pelo contrário. o que percebi ser o prelúdio de um longo discurso tão cheio de gaguez como aquela que.

— Vieram ter contigo porque precisam de ti. A sua constipação não desaparecera inteiramente e ele resolvera medicar-se a si mesmo. Conor. Mas a Mãe já sabia que ele ia objectar e estava resolvida a levar a sua avante. — Como vês. ele olhou-a com fixidez. Eu. — Oh. para se desforrar da gente da terra. Significa que estão. No trajecto para casa. para coroar tudo. 0 Pai prosperava. Compreendendo que Lady Meikle estava «por trás daquilo». — Tocarei. por causa das redacções semanais. numa disposição muito longe de ser favorável. guardou silêncio completo. Corava até à raiz dos cabelos e. compreendi quanto se sentia contente por essa prova de estima há tanto tempo esperada. não soube que responder. e. — Não. a Mãe.. e eu lembreime. por momentos. Palpitou-me que repeliria esse precioso convite. a Mãe ia tocar no concerto. Que feliz eu era e que belo futuro se me deparava ao longe! . Esse olhar jocoso do Pai foi como um selo aposto aos novos moldes da nossa existência. em benefício do Asilo das Crianças.— Tem um filho brilhante. Algumas das suas redacções são notáveis. Leio-as a toda a classe. Mas não é disso que pretendo agora falar-lhe. Contudo. O Pai estava na cozinha a preparar uma infusão de ervas. — Sabe tocar tão bem! — Aceito o convite — proferiu ela vagarosamente. discutiu e. diga que sim! — exclamei. a aceitar-nos. sentiu-se inclinado (como velho conquistador) a atribuir o convite à influência que tinha sobre a dama em resultado daquele memorável encontro. Contradisse todos os argumentos.. — A Mãe abanou a cabeça com ar decidido. Parecia abatido. nós lembrámo-nos de que talvez a senhora acedesse a tocar um solo de piano. o povo da aldeia começava a gostar de nós. Lady Meikle está a organizar um concerto de caridade. filho — disse-me com ar de cumplicidade — ela não nos esqueceu. Trata-se do seguinte.. enfim. por fim. Estávamos a progredir na sociedade. — Naturalmente mandaste-os à fava. Quando a Mãe revelou a grande novidade. minha senhora. — É uma coisa agradável. mãe. pelo seu próprio mutismo. que deverá efectuar-se no dia cinco do próximo mês. o Pai não só concordou como se mostrou ufano com a ideia.. em geral tão faladora. eu fora elogiado pelo meu professor. Olhei para minha mãe. nós ficaríamos muito honrados e gratos se nos desse a sua colaboração.

Segui-a até meio caminho da porta. levantou-se imediatamente. descobri a presença do Pai. Ao apanhá-lo. um pequeno disco de prata que veio rolando até aos meus pés: o amuleto que eu oferecera a Maggie. — Falava com moderação. porém. A mãe de Maggie. um tanto alarmado. em que espetou as agulhas. Não admitia a ideia de que ela se escapasse para uma existência mais feliz e mais confortável. Minha mãe tremia sob um novo chorrilho de ofensas. segurando ainda o Herald — o que. perguntando a mim mesmo. Laurie. lhe amplificava o ar de calma estudada. contorcido pela raiva e pela aversão. Fui à porta e voltei daí a instantes. Ergui a vista da Enciclopédia Pears. a válvula de descarga das suas invejas. Mas a Mãe. Todos aqui gostamos muito da sua filha. . envolvendo o seu trabalho de malha. estou pronta a. no meio das quais. — Nem com todo o dinheiro comprará a minha Maggie. vi um rosto de possessa. Tudo quanto fizemos ou nos propusemos fazer foi com a melhor das intenções. Todavia.. retiniu a sineta da porta. Espreitando através do escuro. já que tão claramente manifesta desagrado e desconfiança. cada qual ocupado à sua maneira. empenhei-me em não dizer mal de ninguém. limitou-se a dizer: — Deve ser a mãe da Maggie. e mandaa entrar.. Quando pela primeira vez considerei esta fase da minha infância. era uma criatura tão corroída pelo infortúnio que se sustentava só de ódios: Maggie sempre fora a sua escrava. E agora faça favor de se ir embora. continuando a fazer malha tranquilamente. quando estávamos sentados junto do lume. Era um som raro.. A Mãe pareceu surpreendida. — Ela diz que não entra. que se aproximara silenciosamente. o testemunho vivo do seu mau tratamento. de certo modo. Estaria embriagada? Não. não temos remédio senão conformarmo-nos com os seus desejos. — A senhora não terá a minha Maggie! A Mãe pareceu desconcertada. Vai abrir. — Se é questão de um pouco mais de dinheiro.. Mas. após as palavras «a senhora e as suas medalhinhas papistas». — Boa mulher.Nessa noite. Não tentarei reproduzir os insultos estúpidos e maldosos que lançou sobre a Mãe. — Vossemecê já disse bastante. Já eu suspeitava de que nem tudo corria bem. sem rancor. entretanto não esperava a violência nem a malignidade do ataque. quem viria tomar de assalto a nossa pequena fortaleza. eu vi que ela atirava qualquer coisa para o chão.

através da janela. por falta de propensão para isso. Por causa da Mãe. sem razão. Nós mesmos. e até acendeu um cigarro: não era fumador. desceu comigo a rua. E agora. descobri dois homens que desciam devagar a rua. soprando baforadas com a inexperiência de um principiante. sem pressa. no entanto. que limpei depois de a bafejar com o hálito. não para ouvir a nossa digna resignação. a notícia da situação de Maggie havia já atingido a cerca do recreio. A Mãe foi logo ao seu encontro. pegando-me na mão. e eu pude observar que atormentavam a rapariga. esperou por mim e. mas foi tão sinistra a impressão recebida daquela coisa alongada e do passo cadenciado dos homens que a seguravam que de repente experimentei um medo terrível. continuamos amigos. e conheci o carregador Jim e o sinaleiro que trabalhava na passagem de nível. Lá fora era quase noite. tapada com um cobertor. A pouco e pouco tomei consciência de que o Pai já vinha há muito tempo da estação. à janela. de ostentações contundentes e desdenhosas e afinal vi-o reduzir o incidente a uma discussão vulgar. Não tinha ânimo de se treinar para o concerto. após haver feito a ceia. ficámos silenciosos o resto da noite. e não tirara o chapéu . conseguiu resistir e ripostava como lhe era possível. Depois das lições.tanto a ela como a si mesmo. Antes de ela voltar a si do espanto. Como eu o admirei naquela ocasião! Sabia-o capaz de grandes rompantes. Cheguei-me à vidraça. Laurie. Eu achava-me no meu posto. que se encontrava no vestíbulo. desejoso de a serenar. mas em certos e raros momentos de contensão recorria ao tabaco. Esperava invectivas e preparava-se para isso. ou talvez porque se orgulhava da brancura dos dentes e não quisesse maculá-la. contudo. do último dia do mês. semicerrava um olho para evitar que o fumo o molestasse e arregalava o outro para minha mãe. Passavam agora defronte da nossa residência. transportando não sei quê. e por fim ouvi o estalo familiar da porta. porém. tão mergulhado. com a Mãe. atrás um do outro. Maggie. em pensamentos que o apito do comboio me pareceu soar de outro mundo. Corri ao Pai. na escola. Mas a Mãe estava ainda transtornada. E qualquer dia hei-de trabalhar para a sua mãe. No dia seguinte. embora desanimada. De súbito. sentou-se ao piano enquanto esperava pelo regresso do marido.Ficou calada. o Pai fechou a porta com toda a serenidade. A princípio não compreendi. — Apesar de tudo. o Pai estava evidentemente irritado. de cabeça pendida. a caminho de casa. Na noite. Parecia uma tábua comprida.

não nos poupou também. evidentemente. e sobretudo. — Sim. — Ir embora? — O Pai parou de comer. — Temos de nos ir embora. pelas derradeiras palavras tão esperançosas da rapariga. e Maggie. Sair desta malfadada Ardencaple. Se não houvéssemos interferido entre uma mãe ciosa e a sua filha única . soltando um grito lancinante. No entanto. esforços desesperados para se libertar. imprevisto foi o período que se seguiu! Mesmo agora. o salto desprendido de uma bota de Maggie. Foi sempre o teu desejo. ele dizia à mulher: — Devia ter enfiado o pé nas agulhas. Ninguém. 0 Pai. Fazendo-lhe falsas promessas e dando-lhe esperanças ilusórias. poderia censurar minha mãe pela morte da Maggie. E eu sabia muito bem. uniu as mãos. tornou-se uma mártir de cujo sacrifício nós é que teríamos a culpa. entalado no carril. quase sufocado da comoção — se a visses. tapou a cara com as mãos. o rosto apresentava-se lívido. E que necessidade tínhamos nós de uma criada? A Mãe. sem dúvida. Conor. exaltada na imaginação popular pelo horror da tragédia. VI Quão triste e confuso. apesar da evidência. No inquérito. . quando a levantámos! A Mãe. Mudo de horror. se Maggie tivesse querido suicidar-se. e. Grace — acrescentou. A minha desgraçada amiga ficara ali presa e fizera. não avaliei imediatamente a minha mágoa: percebi apenas que Maggie se libertara para sempre das suas vasilhas de leite. se ao menos tivéssemos deixado a pobre pequena em paz. ainda não consigo rever aquilo tudo sem sentir imensa dor. que não havia nela nenhuma intenção de se matar. o delegado do procurador declarou que. a certeza do acidente foi rejeitada pela gente da aldeia em favor da pior alternativa. numa voz que mal reconheci. ao evocá-lo. não meteria ali cuidadosamente o pé para depois tentar tirá-lo. Naquela mesma noite o Pai voltou à passagem de nível munido de uma lanterna da própria estação e descobriu. ela ainda estaria viva e feliz. suplicante. O tema foi glosado com variações.nem o sobretudo. que não saía de casa há vários dias e que nessa altura nem lhe apetecia jantar. relatando amargamente o último falatório. O comboio vinha devagar.

sim. Desisto. nada me faria sair daqui. — Sim. — Verás — disse ele. * Vais. para nossa defesa e para mostrar que não ligamos importância ao que se diz. —Não irei a concerto nenhum! — exclamou a Mãe. para meu espanto (pois nunca vira semelhante coisa lá em casa e sabia que meu pai tinha em tal grau a virtude da temperança que raras vezes ia além de uma cerveja.. . e devia ter-te custado um dinheirão. sinto-me tão nervosa! * Isso passa. E também o Laurence. depois de a examinar com olhar crítico.— O quê! — O Pai ergueu as sobrancelhas. * Não. quase contra vontade. Exactamente da cor dos teus olhos. Na tarde do concerto o Pai veio para casa noutro comboio mais cedo. como se falasse consigo mesmo. exibiu uma garrafa que ostentava o seguinte rótulo. na roda dos seus clientes). cujo conteúdo só me foi revelado quando. Conhaque Três Estrelas de Martell... . * Não serei capaz.. arrepiada só a essa ideia. verás. mas linda. * É muito bonito. Então. decotado e de longa saia pregueada. portanto de ir. Temos. * É teu dever. Entretanto. acrescentou ele. Mas. volveu o Pai. Estarei contigo. Vinha muito pálida. Cuidadosamente. fiquei consternado diante do olhar calmo e resoluto do Pai. acentuando bem as palavras. a Mãe saiu do seu quarto e desceu lentamente a escada. Agora. disse a Mãe com voz sumida. Além disso. tal como minha mãe. Ora nós não somos culpados do acidente que provocou a morte da Maggie. Gosto desta terra.Oh. de forma assustadora. como se doseasse um remédio. olhando-a com severidade. — Não te esqueças de que te comprometeste a tocar no concerto. não tenho coragem. Grace. declarou o Pai em tom categórico. Conor. — Falava devagar. que a tua não comparência será considerada um reconhecimento de culpa. com um vestido novo de seda azul. oh. Debaixo do braço trazia uma caixa comprida de papelão. Deves compreender. * Não podes desistir.. principalmente.. às seis e meia. — Partir! Fugir como um coelho! Quem pensas que sou? Ardencaple não tem nada de mau em si mesma. estar ali sozinha perante toda essa gente! * Não estarás EÓ. com o mesmo ar peremptório. * Óptimo. Já eu estremecia à perspectiva que de longe me estendia os braços gelados.

Para aí avançou o Pai. o que a fez sufocar. A escuridão dentro do cupé proporcionou-nos alívio temporário. insistiu meu pai.Isto dar-te-á coragem. meu querido. de Levenford. ouviu-se o barulho de cavalos e o rodar de uma carruagem aproximando-se da nossa porta. Ao menos apresentávamos uma frente combativa. — A voz da Mãe tinha uma entoação estranha. — Toma. quando o clarão vermelho da forja iluminou o interior do veículo. — Não. Contudo. sem se importarem comigo nem com a possibilidade de serem vistos da rua. implacável.. Sentei-me no extremo do banco. Mal acabávamos de ocupar os nossos lugares quando o espectáculo teve início. o que me causou espanto. a dos artistas. dando-lhe um ar aguerrido. esvaziou-o de um trago. de cabeça erguida. ela agarrou no copo e. fez um discurso breve.. e por fim entregou à mãe a bebida assim preparada. Con. bem disposta. os da frente tinham sido reservados para as pessoas de família dos executantes. Sinto-me cheia de coragem. perfeitamente visível aos outros. — Eu não te dizia? — Sim. quanto ao bigode. chegando azafamada ao palco. Tremendo àquele som. acrescentou um pouco de soda do sifão. a despeito dessa atitude estratégica. sempre acabou por dar conta da multidão (composta na maior parte de rapazes). porque me disse ao ouvido:—São estranhos. não. Enquanto a Mãe hesitava. — No entanto. ele não se dignava ver ninguém. vi a Mãe estender o braço e agarrar na mão do Pai. e sei que vou tocar o melhor que puder. gostava que me beijasses. muito impertigado por causa do colarinho de goma e do meu fato de ver a Deus. — Agora não tenho medo. beijaram-se e em seguida a Mãe soltou um longo suspiro de consolação. pela porta lateral.. em que indicou os fins . O átrio estava cheio. enquanto eu a observava. e de tal modo que. De súbito. Lady Meikle. frisara-o e virara-lhé as pontas para cima. Vai haver sarilho. Foi um alívio vê-la desaparecer. Estaria ela também louca? Para minha vergonha e horror. para ò que desse e viesse. O Pai envergava também o melhor traje.deitou determinada porção num copo. O Pai riu-se baixinho. nossa entrada foi a tempo. enquanto eu e o Pai virávamos para a entrada principal.. e já havia gente nos lugares do fundo da sala. de olhos arregalados. Conor.

conforme a desordem progredia. La Mer. fala. Fala-me ainda. concluiu. fiquei gelado. a minha agitação aumentava tanto que. alguém fez rebentar um saco de papel. O número seguinte fê-lo um violinista que. Chegou. Na verdade. o qual. de Debussy. uma vez mais. até mandaram o moço fazer gargarejos. Infelizmente. enfim. que sem dúvida se desfaria em lágrimas. Tremia e suava por causa da querida Mãe. Que bocadinho tenro para ser atirado às feras! Acolhera-a uma . 0 estrondo foi em parte sufocado pelo acompanhador contratado para essa noite. a sua vez. restituir o fato ao algibebe e. Depois disto apareceu o primeiro cantor. Thora. à laia de abertura. provavelmente. Tudo há-de correr bem. Que as acolham bem a todas. Por esta altura já o Pai se remexia na cadeira. pois eu sabia que escolhera para tocar uma peça clássica difícil. a ir para casa e enforcar a Thora. — Estas boas pessoas. Acolhido com gritos de mofa das bancadas mais distantes. rapaz alto. Os receios do Pai comunicaram-se-me e. Fala comigo. atrapalhado com as interrupções frequentes e os gritos de «não pises mais o rabo do gato». enquanto o pedido de Lady Meikle era recebido com frieza por um sector do público. A estas palavras. envolto num fato alugado. Nada menos indicado para aquele público e nada melhor. sem excepção. Cessou o meu espasmo. quando ela se retirou. colaboram gratuitamente no recital. a favor de uma obra de beneficência. Não teve êxito. todo eu tremia já. Ela sem dúvida me lobrigou. tomar um banho.do concerto e pediu à assistência que fosse benévola com os artistas. A «frieza» que temia para a Mãe não era nada em comparação com o que ela poderia sofrer dessa turba ululante. por fim. Thora. grande de mais para o seu corpo. fala. atacou no piano a Terra de Esperança e Glória. outro soltava aplausos exagerados. para concitar chalaças. finalmente. verás. e tão incrivelmente nova e bonita que ainda tive mais medo. e. proferidas com ênfase. conhecidos pelas suas arruaças. Ela parecia pequena no amplo estrado. começou nervosamente a cantar a Thora. o Pai Ian-çoume um olhar de satisfação e murmurou: — Aquilo foi connosco. magro. composta (verificava-se agora) de aprendizes do estaleiro de Levenford. se esforçava por executar Traumerei.

tempestade de assobios e. De súbito. uma voz bradou qualquer coisa que fez meu pai indignar-se. Alguém invisível nos bastidores devia ter-lhe feito sinal para que ficasse. E o caso é que a não deixavam descansar. Sem fazer caso dos assobios e matracas. Verdes se Tornam os Campos. as mãos escaldavam-me de bater palmas em homenagem a essa mãe extraordinária. enquanto eu me encolhia na cadeira. sem se importar com o estralejar dos aplausos. cuja inesperada diplomacia e perícia nos salvaram a todos nós. A Mãe não chegara a meio e já os tinha a cantar: Gaiteiro Finlater. batendo o compasso. até ao Céu. ou antes. cantarolando. que ela já abancara ao piano e que. Quando a Mãe se ergueu do banco do piano. gaiteiro Finlater. precisamente aquela de que o Pai mais gostava. Lindas Margens do Lago Lomond. Sem hesitação. vi. por fim. sem uma pausa. antes mesmo que alguém gritasse «Toque outra!». a Mãe iniciou intrepidamente uma nova música cheia de vida. Por um momento não me atrevi a olhar para a Mãe. sobressaltando-me com os acordes de uma das marchas de Sousa. meio voltada. estava sentado muito direito. as suas mãos desceram resolutas sobre o teclado. contudo. para terminar com a predilecta do público. com bater de botas pesadas e gritos repetidos de «bis. arrastados por essa onda melódica do espírito e do sentimento nacional. bis». dirigia uma saudação amigável ao público das últimas filas. mesmo esses foram dominados. com uma expressão duríssima. não a deixaram ir-se embora. que eu considerara nossos inimigos. Sobre o Mar. não. Eu impava de orgulho. a famosa peça favorita dos gaiteiros da Infantaria de Highland. intitulada Washington Post. Galo do Norte. 0 efeito foi tremendo. E queriam mais. . mesmo os mais refractários lá da última fila. sorria agora para os seus carrascos. movendo a cabeça. Toca-me o Galo do Norte! Enquanto o derradeiro verso ainda vibrava na sala. Santo Deus! Que lhe acontecera? Nem parecia a minha mãe. à espera de que o primeiro gemido débil de La Mer a aniquilasse. Se o primeiro número agradara ao contingente de Levenford. quando me forcei a erguer as pálpebras. este último conquistou-o por completo. improvisação — visto que executava muitos trechos de ouvido — de Velhas árias escocesas: Ó Montículos e Encostas!. mais aplausos irromperam. Estaria eu a sonhar? Aparentemente. a Mãe atacou o que se pode chamar uma miscelânea. pois quando acabou.

de Moore. a Mãe de braço dado com o Pai. Feriu os primeiros acordes de Longe da Terra. torcendo o bigode e com um sorriso de êxtase. não me considerei posto de parte. Queres saber uma coisa? Todo o tempo que estive a tocar senti instintivamente que o fazia para ela. tinha a vista cravada na Mãe como se não acreditasse nos seus olhos. Fomos a pé para casa. mas Lady Meikle obrigou-me. — Foi uma grande miscelânea sentimental. calma e confiante. radiante. tributo não à sua antiga pátria mas à nova.. Mãe! — exclamei. pulando de contente. — murmurou-lhe ao ouvido — eu já sabia que eras capaz disso. Foi um delírio de risadas de nós três. sob um luar esplêndido. após a derradeira vénia. .Que iria ela tocar agora? A resposta veio rápida. — Ah — comentou o Pai. Não esperámos muito tempo pela Mãe. para si. demonstrando em cada gesto que. Mal pude respirar quando a sua voz subiu clara e suave. ela saiu enfim do palco. — Oh. —Eu não queria demorar-me tanto. e pareceu-me que. de súbito. — Lembra-te da pobre Maggie. que lhe cobria a cabeça. * Então quem? A Mãe olhou-me um pouco a medo. — Adoraram.. Eu. — Não podia ter sido melhor — declarou o Pai. Mas o que te induziu a tocar aquilo logo de entrada? Foi ela que te deu a ideia.. Em breve a vimos descer apressadamente os degraus da entrada principal. dando um estalido festivo com a língua —bem sabia que a Barba de Baleia estaria do nosso lado. sentada ao seu piano. Enfim. O Pai deu-lhe tal abraço que a ergueu do chão. Que alegria. conversando. o sarau estava terminado. e que triunfo para os Carrolls! — Não devemos rir. disse a Mãe. agarrou-me pelo ombro e descemos ambos a coxia até ao átrio. a Mãe nos procurava com o olhar. no silêncio profundo e atento de toda a sala. — Gracie. ele levantou-se de sopetão e.. Con. abafada no seu casaco e xaile branco franjado. como se estivesse em casa. E cantou também. porém. reclinado na cadeira. O Pai. conversando sempre um com o outro. mas achei que seria a única coisa. que felicidade. parece que gostaram. nessa altura. Gracie. * Não. Mãe! — disse eu. — Foi mesmo admirável! A Mãe sufocou um suspiro. — Deve ter sido o teu conhaque. Quando.

até nos seus silêncios. misturado com uma espécie de languidez feliz. fomos à missa a Drinton. que a Mãe fazia divinalmente. os lançara um para o outro vindos de mundos diferentes e que os conservava sempre numa íntima união. atracção que de início. quando li memórias de outras infâncias. confortável. igualmente alta e brilhante. O esplendor que a envolvera na véspera ainda a nimbava. por motivos de que eu confusamente suspeitava) voltávamos em passo lento. pela incompatibilidade conjugal e ódio recíproco. À chegada a casa tivemos um almoço especial de pato assado. seguida de Drakie. minha mãe e meu pai foram excepcionalmente venturosos. no seu casamento. em direcção oposta a Rosebank (que a Mãe sempre evitara. gato da quinta de Snodgrass. E sempre entr eeles. que frequentemente a acompanhava nessas excursões. havia uma compreensão mútua que tornava o meu ter um sítio seguro. com a mão livre. vencendo todos os obstáculos. A atmosfera estava tão calma que o soluço da maré chegava como o eco vago e distante de um búzio. Eu e o . Anos depois. talvez como acção de graças. A Mãe ia à frente. seguido de pudim de cerejas cristalizadas e natas batidas. Eu já começara a perceber a forte atracção física que existia entre os meus pais. Este sentimento era palpável no ar. também se erguia no horizonte. para se juntar à galáxia lá em cima. isso nunca demorava mais de umas breves horas e acabava em reconciliação espontânea. Ao cair da tarde. de certo modo associei aquela disposição às atenções que ele lhe dispensava. provocada pelo temperamento irascível do Pai. através de um nevoeiro leve que se acumulava no estuário deserto. tive então plena consciência de que.pois a Mãe. pelos olhares sonhadores que dirigia ao marido. a Mãe sugeriu um passeio ao longo da praia. quando. Embora houvesse uma ou outra tem-pestadezinha. pegou na minha. depois de o Pai ter dormido a sesta. Que lua alta e brilhante! E a nossa estrela. a boa estrela dos Carrolls. enfiou-a no bolso do seu casaco e ali a manteve durante todo o trajecto. tantas vezes estragadas pelas constantes discussões familiares. em meio de um mundo muitas vezes hostil. VII O dia seguinte era domingo e. tendo ido a Geddes Point.

lançando à água calhaus já macios e roliços pelo fluxo e refluxo das marés. com as luzes acesas. que se manifestava intermitentemente. esperei. endireitando-se. Essa tosse do Pai. entretido com as manobras do gato para apanhar e lamber os borrifos que saltavam para as lajes do chão. — E. ainda não acabara a mungidura. E enquanto o leite tépido esguichava e espumava no balde. Olhei surpreendido. embora relanceasse de vez em quando a vista pelo Pai. só uma pontada no lado. Apertou os lábios de modo mais resoluto que submisso e. encargo vesperal que me competia agora. ao chegarmos a casa. apesar dos protestos ocasionais da Mãe. forçou a tosse. Vi a sua expressão alterar-se. eu tornei logo a sair. — Conor. como um atributo peculiar da sua natureza. como quem faz uma descoberta: — O Pai está a sangrar do nariz! A Mãe voltou-se. essa tosse acabara por ser aceite pela família. já não havia languidez nos seus olhos e o silêncio dele persistiu até chegarmos a casa. então eu bradei com ar importante. e até explicava. não ia de nenhum modo preparado para encontrar o cabriole do doutor Duthie parado à porta da nossa casa. Nunca pensei que se relacionasse com aquela manchazita carmesim a que o Pai pareceu ligar tão pouca importância. — Tirou o lenço dos lábios e contemplou quase estupidamente uma pequena mancha vermelha. por causa dos nossos gritos de júbilo. levou um lenço à cara. embora com indulgência. o Pai encolheu-se com um ataque de tosse. A Mãe não respondeu. para ir buscar o leite. para o provar. A Mãe aproximou-se. e em seguida. * Mas tossiste — insistiu ela. preocupada. como um fenómeno natural. — Precisas de te sentar e descansar. E vi também que era afinal a boca o que o Pai tapava com o lenço. com Darkie.Pai íamos um pouco atrás. Subitamente. com certo orgulho. Ao seguir devagar pela estrada. as quais. e que ele desleixava. quando estávamos nesse exercício. No estábulo. ampliadas pelo nevoeiro. mitigando-a com remédios caseiros da sua invenção. em especial no tempo húmido. considerando-a «um pouco de bronquite». . pareciam fitar-me com dois olhos enormes. enquanto a Mãe nos admoestava. Deve ter sido do esforço que fiz. — Como vês. — Apenas uma gota. * Não sinto nada. com o meu jarro de leite. já acabou. a tua tosse! * Não é nada. E tanto que. enquanto prosseguíamos o nosso caminho.

lustrosas. teimava em proceder como um indivíduo difícil de tragar. Dar-lhe-ei o óleo de fígado de bacalhau.Este doutor Duthie era uma figura formidável. vultos que sobressaíam no vestíbulo iluminado. muitas vezes recebia na cara uma chuva de perdigotos. mas eu percebia que ele tinha certa inclinação para ela. como se tentasse despertá-la. de aspecto rebarbativo. Se tinha alguma fraqueza. dominado. Fazia os seus diagnósticos em voz estentórea e tão violentamente que eu. Homem já de setenta anos. sublinhando as palavras com uma série de sacudidelas. um coração de ouro. em geral. pois sabia onde devia parar. polainas castanhas. O médico era grosseiro e até brutal com os enfermos. além da garrafa de whisky tomada diariamente e que lhe servia de elixir vitae (pois parecia robustecer a cada gole que ingeria) essa seria a das mulheres bonitas. escapando-me. assim submetido. onde criava porcos de uma raça especial. É claro que não me atrevi a entrar em casa enquanto esse papão se encontrava lá. Cosendo-me com a sombra da parede. — O principal é tirá-lo daqui. e o doutor Duthie inclinava-se para ele. Mas este não. Atacava as jornaleiras das herdades que visitava. com uma espécie de corneta no ouvido. corado. Passou-se muito tempo antes que a porta se abrisse e surgissem no limiar o doutor Duthie e minha mãe. Já havia sofrido muito nas suas mãos. mas no fundo carinhosas. por fim. O espectáculo. largo como um saco. no caso de ser o atendido. como um touro de Highland. quase vencido. casaco do mesmo tecido. e com frequência o ouviam declarar que os preferia aos seus doentes. espreitei cauteloso para a sala iluminada. as quais riam forçadamente e fingiam protestar. com o joelho. e deles saía. e também malte. Desprezando a opinião pública. — Apertou o braço da Mãe. Mas oiça. afigurava-se-me intolerável e. — Mande buscar o remédio ao consultório. As suas maneiras para com a minha mãe eram menos eróticas. Nunca eu vira o meu orgulhoso progenitor em tão desvantajosa situação. Não lhe disse em Rosebank que o afastasse da praia? Não faz bem a ninguém viver na . O Pai achava-se no sofá. sentei-me de costas para a parede e segurei o jarro de leite entre os joelhos. Todos os modelos dã ficção romântica que têm um exterior assim rude albergam. e entrava nos quartos dos doentes. de encontro aos muros. empurrando-as. Possuía uma quinta afastada. e não só para mim. Encolhi-me ainda mais à voz tonitruante do médico. sem dúvida reprováveis. nu até à cintura. usava sempre calções de belbutina.

estava de todo ocupado a ver o doutor Duthie sair do prédio e entrar no seu cabriole. sei que lhes dava alguma atenção. E para um homem com aqueles pulmões. coisa sempre perturbante para uma criança. ao chegar da escola. toda aperaltada e com o ar de quem regressava de uma viagem. a Mãe. muito calada. onde já transitara duas vezes de classe. — Ardfillan é uma linda vila. enérgico como sempre. me chamou de parte e anunciou: — Laurence. a nova morada era bastante superior à . lançando ao balde do lixo a garrafa de óleo de fígado de bacalhau e o malte. E. para mim uma grande surpresa quando. Não interpretei devidamente esta declaração solene. Tudo parecia tei voltado a uma calma normalidade. A Mãe decerto me leu na cara estes pensamentos. porque me cingiu com os braços. não tardou que. 0 Pai. de maneira típica. Estou certa de que vais gostar. os nevoeiros do rio são um veneno. sorrindo confiante. Gostava de Rankin. E embora eu reparasse nos conciliábulos e discussões que começaram e continuaram entre meus pais. Durante dois dias o Pai ficou em casa. No sábado anterior apanhara duas trutas mosqueadas no regato de Geilston. no mês que vem deixamos esta casa e vamos para Ardfillan. Nem quando lhe apareci a Mae me falou do assunto. E a nossa casa nova fica no alto da colina e não longe das charnecas. impaciente e de má vontade. preparar o nosso chá. pois. meu filho! Mudamos para melhor. depois de me aliviar do jarro de leite. certa tarde de Abril.humidade da lama e do lodo. como a Mãe garantira. foi. e de tal modo que tive a certeza de que isto fora obra sua e que estava satisfeita com o resultado. Esta mudança inesperada. supus que isso se relacionasse com o negócio do fermento. apressou-se a tranquilizar-me: — É um lugar tão bonito. E íamos deixar tudo isso quando a vida ali nos corria tão bem. e depois voltou ao seu trabalho. e arranjara amigos entre os colegas. meu filho. desconcertou-me todavia em absoluto. se descartasse do seu frasco de remédio. Foi. notando o meu olhar consternado. Logo Ardencaple me pareceu atraente como nunca. Sentia-me agora deveras à vontade na escola. VIII A mudança fez-se com facilidade surpreendente e. Mostrava-se pouco comunicativa e.

e por outros. salas bem proporcionadas. essas vivendas de luxo tinham andares espaçosos e independentes. pintado de fresco. jardins agradáveis no lado da frente e a intimidade de um extenso relvado. de complicados pórticos de entrada dupla e janelas de vãos largos. na Clay Street. ele gozava uma prometedora expectativa de restabelecimento. Casas grandes. encontrámos ampla acomodação. pelo outro lado. constituindo ao mesmo tempo uma cidade preferida pelos homens de negócios mais ricos de Winton. Estendendo-se pela colina. e dois dos mais categorizados colégios da Escócia. Havia bons estabelecimentos. com bonita estação. contudo. o de Beechfield para rapazes e o de Santa Ana para raparigas. salpicavam a encosta. ainda mantinha muito da primitiva elegância. de estilo pretensioso. mas sem chegar à extensa charneca que. Em Ardfillan não havia justificação para deixar de ir à missa dominical. Ardfillan era um lugar elegante. rodeadas por vastos jardins fechados. sempre que me via observá-la. em suma. cercado de muros. com os quartos de paredes forradas de papel. quando ela se detinha nos arranjos da casa: uma fadiga subtil que dissipava com um sorriso. mas no prédio número sete. num estilo meio georgiano meio vitoriano. algo de novo na expressão da Mãe. selecto. passeio e coreto de música. Cedo descobri também que tinham os habitantes uma forma peculiar de pronúncia. que já se haviam reformado. Reagindo à mudança de cenário e à pureza do ar (respirado a plenos haustos em exercícios matinais e vesperais diante da janela aberta). na parte de trás. a mim. Naturalmente que nós não podíamos aspirar a semelhante grandeza. uma livraria de empréstimos ao domicílio. a que o Pai resistiu e que. embora de ar levemente decrépito. Perturbava-me. Tínhamos na parte baixa da vila a igreja de Santa Maria e a escola paroquial. com excelentes residências e. A rua do Prince Albert desfrutava de boa situação lá no alto. em especial o Pai. e aí enfrentámos um porvir que parecia favorável. acima de um imenso estuário tão amplo como o mar largo.casita que deixáramos. atingia o vale de Fruin e as margens do lago Lomond. um sotaque para marcar e distinguir esta sociedade e que se tornava quase obrigatória para se ser admitido no seu seio. Construídas de pedra finamente trabalhada. tirando o maior partido da vista de Gareloch e dos canais de Bute. ela deslumbrou-me com os seus esplendores. Existia. que utilizavam o comboio rápido. Além . Tal como a vila. me intimidou de começo. também opulentos. certo «tom» de que a Mãe gostou logo de entrada. de tectos altos. ou seja.

com a sua escola e presbitério. Entretinham-se com jogos que eu não entendia. tinha-se de fazer longa caminhada pela rua que desce a colina até à parte baixa mais pobre da vila e que era o bairro operário de Ardfillan. a primeira pessoa que nos visitou e que nos conquistou logo com a sua alegria franca e simpatia natural foi o moço pároco Macdonald. positivamente andrajosos. estabelecimento que continuava exclusiva e supremamente patrício. entre os alunos. parecia disposta a fazer algo de mim. a Beeçhfield. funcional. Angus Mac Donald era o género de homem que. apesar da bondade que ali me dispensavam. A Mãe. marcas a giz na parede. sob a sua persuasão diplomática. devo confessar. Da mesma forma. prevalecia essa triste nota de pobreza. para meu grande deleite. natural de Invernesshire. na semana seguinte. depois do chá. numa ruela. Aí. Em pouco tempo se me comunicou um sentimento de . era deprimente o efeito da escola de Santa Maria. o mais assanhado protestante seria capaz de estimar. muitos deles filhos dos desprezados irlandeses que vinham trabalhar nos campos de batatas de Clayside. pelo menos por então.disso. tudo construído de tijolos vermelhos. não estava encantado com a minha nova escola. mal acreditou nos seus olhos quando. Soror Margaret Mary. a quem nunca vira na intimidade. mas que indicava claramente poucos recursos. próprios de gente desprotegida. foram realizados com o fim de tornar o casamento de meus pais mais de acordo com a ortodoxia eclesiástica. a Academia de Levenford ou o Colégio dos Jesuítas de Winton. Devo confessar. Além disto. de um modo geral. coitaditos. com um prédio de habitação no lado oposto. Para chegar à Clay Street. ele se pôs de pé e. Em devido tempo. que tive saudades do velho amigo Rankin e que. A verdade é que os católicos de Ardfillan que possuíam meios mandavam os filhos a outras escolas. que não cheguei a perceber bem. é claro. Assim. bolas feitas de papel e pano. sem de qualquer maneira deplorar a minha falta de conhecimentos religiosos. que era imensa. e alguns. ainda um pouco fugida dos padres. encontrava-se a igreja de Santa Maria. E destarte. embora satisfeito pela minha entrada na terceira classe em que a professora. ele sugeriu que. embora nunca. latas. fez a demonstração de uma dança movimentada de Highland. repito. mandaram-me para a de Santa Maria. amarradas com bocados de cordel. o qual estudara no excelente Colégio Blaires. como meu pai notou. eu frequentasse a escola paroquial. Eram na sua maioria garotos da vizinhança. de Aberdeen. ser-vindo-se de pedras. certos ajustamentos técnicos.

em que não tinha nada em que me entretivesse. eu aprendia a linguagem dos santos. tinha cabelo branco e um ar que me descoroçoou. descreveu uma parábola fatal e foi atingir a janela de uma casa da vizinhança. 0 estilhaçar dos vidros horrorizou-me. ainda recomendou:— Vê se te portas com juízo. vagueava por ali nas horas de recreio. . Deixa-me. dando pontapés em bolas imaginárias. alcançavam a bola. filho. para os melhores colégios ingleses. De esguelha. Participa-lhe que pagarás o prejuízo. Quanto sentia que já não suportava mais. e corriam. — É para teu bem. voltava pensativamente para casa. vim ter com a Mãe. observava os jogos com o desejo veemente de neles participar. toquei a campainha da casa de Miss Greville. A falta de camaradagem era a minha cruz mais pesada. ela fez o possível por me consolar. era ir através da colina até aos verdejantes campos de jogos do Colégio Beechfield. a Mãe não consentia amizades com rapazes que. alguns tão pequenos como eu. uma espécie de chaga espiritual derivada da minha religião. Quando tentei transmitir algo disto à Mãe. Quando eu já me afastava. O meu único recurso. Um sábado. que tinha outras preocupações mais sérias. uma delas escapou-se-me de viés. procurei distrair-me atirando pedras a alvos fictícios. Ali estava tudo por que eu suspirava. e não será para sempre. como o Pai dizia. — O nome da senhora é Miss Greville. nem fundilhos tinham para as calças. — Tens de ir lá imediatamente pedir desculpa. visto que. verifiquei o buraco feito na vidraça. aborrecido e solitário. duas balizas brancas demarcando o espaço verde em que os jogadores. nessa altura. dar-te uma escovadela. Fosse qual fosse a excelência da moral dos meus colegas. de touca e farda. E deste modo. Muito agitado. Tens de te conformar com tudo isso por enquanto. defronte do número sete da minha rua. como era de esperar de rapazes que iriam para Fettes. Uso esta expressão. desde o escarlate ao azul vivo. e a passavam. Veio abrir uma criada velha. como alguns. e até. De repente. e eu. Loretto.inferioridade social. e a detinham e disputavam. com as várias cores da escola. fugindo a correr. Oculto atrás da sebe de espinheiros. antes. ainda que só servisse para me aumentar o descontentamento.declaroume. com tanta violência que me magoava nas pedras da calçada e fazia com que a Mãe lastimasse o estado em que eu trazia as botas. Glenamond. com a sensação de não ser peixe nem carne.

com o sotaque de Ardfillan.. Trate-me por Miss Greville. pelo menos até haver maior intimidade entre nós. Eu olhei-a também. uma mulher educada.. em especial um par de floretes. * Desculpe. ... e blusa branca.. uma professora. erecta. mais arredondadas ainda pelo cabelo de tom claro levantado de cada banda com chumaços e pelo colarinho de goma. sólida. Greville. Miss. começando a entusiasmar-me. de peito cheio. minha senhora. * Pedras! Que feio costume. Ouvira minha mãe dizer que ela ensinara outrora na escola de meninas de Santa Ana. uma das quais era eu. * Assim parece. Outros objectos pouco vulgares me feriram a vista.. ambos de tamanho reduzido e pintados de azul. demonstrando certo interesse. * Quer ver? * Com pedras. dos seus quarenta e cinco anos. mas um tanto afectado. suponho que é Carroll.. O vestido era simples. Que estava a tirar? * Pedras. * Mas pedras! Porquê? * Se deseja saber.. * Menino Carroll. santo Deus! Não me importaria que partisse a vidraça com uma bola. sobre a qual se suspendia a cadeia fina das lunetas. redondas. um ar que a excluía das mais sórdidas realidades da vida. impressionou-me a descoberta que fiz de dois remos cruzados na parede. Para mim. — Fez uma pausa.. naquele momento. Falava em voz alta. tesíssimo. saia roçagante. foi digno da sua parte vir cá voluntariamente. cinzenta. estava a atirar. Sou capaz de atingir qualquer coisa do outro lado da rua. de pé junto da janela fatídica. Miss Greville. depois de lhe haver explicado o fim da minha visita. Não tenho nenhuma. disse ela. — Nunca atirou uma bola? -— Não. — respondi. não. nítida. Aceitei em silêncio o louvor imerecido. Quebrei o vidro da sua janela. é porque tenho muito boa pontaria. Parecia o que realmente era.. Não se me dirija como a uma empregada de loja. preso com botão. — Em todo o caso.— Espere aqui. afigurar-se-ia uma figura aterradora se não fosse certo ar alheado. Miss. Tinha as faces pálidas. se virava já para me contemplar. * Como aconteceu isto? * Eu. Enquanto aguardava no vestíbulo. e também o que devia ter sido. Era alta. * É capaz? — repetiu. mesmo severo. mas a criada voltou e levou-me para a sala onde Miss Greville.

não era o estudante das regatas. No vão da janela havia flores e também numa grande jarra azul sobre o piano. quase condoída. Mas a bola. armário de embutidos com loiça dourada. mas na maioria de uma cor de mel desbotada. Pertenceu ao meu irmão. — Enquanto me punha de pé. ou então as nossas relações. não obstante ficar aborrecida por eu me ter esquecido de falar no pagamento da vidraça nova. sentindo-me inspirado. sem semelhança com o nosso. e agora não queria retirar-me. com um desenho ao centro. O meu olhar poisara na prateleira do fogão. Eu não desejara ir ali. que provavelmente não lhe interessa. * Não. * O dos remos? — perguntei. cadeiras com assento de tapeçaria. do qual diplomaticamente suprimi a passagem final. de qualquer maneira. — E tocou a campainha para que a criada me conduzisse até à porta da rua. alguns dos quais eu nunca tinha visto. * Oh. Fiz um esforço para prolongar a conversa. A Mãe. Enquanto ela estava ausente. em Spion Kop. era baixo e comprido. deume uma bola. com uma junção cosida. Nessa noite mostrei-a ao Pai.Fitou-me. — Pode ficar com esta. não foi? Olhou-me com inexprimível repugnância. — Foi morto. há dois anos. cessarão de vez. Dura. Móveis estranhos. — Sorriu distraidamente e. sentei-me na ponta de um banco e mirei em redor. forrada de cabedal. Miss Greville reapareceu. vi com pena que se tratava de um sinal de despedida. quando foi examinada. * É uma bola de críquete-explicou ele. embora não fosse um sorriso desagradável. não escuros e brilhantes como a nossa melhor mobília de mogno. * O seu irmão não quer a bola? * Já não quer nada — redarguiu. inútil para as minhas brincadeiras habituais. cor-derosa muito pálido. Miss Greville! — exclamei num ímpeto de mágoa. — Tem a sua história. pareceu pouco aproveitável. até agora breves e casuais. . que. e em seguida mandou-me sentar e saiu. não saltava e era. onde se exibia um número considerável de tacinhas de prata. manifestou tanto interesse como prazer quando lhe fiz o relato da minha visita. Aquela sala enorme também me impressionou. — Ele deu a sua vida pelo rei e pela pátria. — Não seja tolo sentimental. e uma alcatifa de tom cinzento desmaiado. Desde a nossa chegada que ela denotava certa curiosidade pela vizinhança.

mais ainda. bem disposto — que nalgumas das suas acções ela prova ser um tanto estrambótica. por meio da vidraça estilhaçada. a Mãe deu ênfase às palavras. tinha um círculo restrito de amigos. e. — Sou levado a crer — murmurou. apaixonada pela música. que a Mãe exprimiu a Miss Greville. Não duvido. disse-nos ela à ceia. interveio a Mãe. IX Os agradecimentos. foi convidada para tomar chá e regressou corada de prazer e cheia de grandes novidades. aparentemente. que vivia só e. Conhecedora de botânica. Acho-a uma senhora perfeitamente normal. E assim. aliás discretos. Possuía uma grande propriedade perto de Cheltenham. pensativa. Mas o pai deu cabo de quase tudo. Primeiro no Colégio de Cheltenham e depois no de Santa Ana. começou o nosso conhecimento com Miss Greville. E foi tão boa para com Laurie! A primeira vez que nos encontrarmos. A nossa vizinha. Tratavase de uma artista. Miss Greville está cheia de histórias. e ela tornou-se professora.—Por que seria? — perguntou a Mãe. hei-de cumprimentá-la e agradecer-lhe. Miss Amélia Greville. mostrou-se disposta a travar relações connosco. uma verdadeira senhora. aliás. Tivera . não podiam ser mais bonitas. Veio visitar-nos e deixou o seu bilhete. Os pais já haviam morrido. tudo naquela residência denunciava gosto requintado. Agora. era uma pessoa encantadora. A sua família foi outrora importante. obtiveram dias depois uma resposta agradável. Passados dez dias. —Que disparate! — protestou a Mãe. porém. O sorriso do Pai acentuou-se. tocava violoncelo e esperava organizar uns duetos com a Mãe. A sua mobília e as pratas. provenientes do solar da família perto de Cheltenham. segundo Miss Greville disse ao Laurence. deixou o ensino . Muitas vezes fizera alpinismo na Suíça. a Mãe retribuiu a visita. — Isso é má língua. * Tem uma história.* E já bastante estragada. Pelo que contou o agente de vendas. mostrara-lhe um belíssimo álbum de flores silvestres imprensadas. O Pai esboçou o seu sorriso irónico.

Não concordei com o Pai. observei pensativo: — Deve ser bom uma pessoa ter tido um irmão num colégio como Eton. O Pai riu-se. e não deixava de recordar-nos que esse feliz resultado se devia em especial aos seus próprios esforços. * Sim — acrescentou. Santa Maria é apenas uma coisa provisória. curvado.. mantinha sempre uma gravidade profissional. velhote magro. Apreciava a viagem no luxuoso comboio entre Winton e Ardfillan. — Em todo o caso.dois irmãos. especialmente quando estás fora o dia inteiro. com generosidade. quando regressava da minha triste escola. de rondar o jardim fronteiro com a vã esperança de atrair a atenção da nossa vizinha. Em breve vai haver para ti uma boa alteração. aos sacramentos e ao episcopado. a falta que me faz uma amiga. com faces chupadas e barbicha grisalha. Sem dúvida que a mudança de ares lhe estava a fazer bem. Apesar da sua aproximação silenciosa. E tu sabes. mesmo sem isso. ruborizando-se — foi muito amável comigo. Con. daquela modalidade anglicana que dá grande importância ao ritual. encontrando os olhos do Pai fitos nela com mais do que a sua irónica indulgência habitual. ambos educados em Eton: o sobrevivente estava agora numa herdade em Quénia. quase pé ante pé. Parecia inteiramente restabelecido do estranho percalço que tivera na praia de Ardencaple. Miss Greville causara-me excelente impressão. Lembrando-me dos fascinantes remos azuis. Elevava-se na sociedade. e da sua pessoa elegante e bem cuidada. Quando saímos de Ardencaple. Eu adquirira o hábito. Tratava-se do doutor Ewen. * Âlegro-me que hajas arranjado uma — volveu o Pai. e por esse motivo não mostrava relutância. Gozava fama de inteligente.a Mãe calou-se. Mas. gostaria dela. .pelos católicos. Judas. uma inequívoca promessa de prosperidade irradiava das suas palavras e modos. mesmo que ela própria nunca lá fosse. Frequentava a igreja de S. — Não te apoquentes. não tomes isso muito a peito. rapaz. como se achasse graça à minha observação ou à minha maneira de a fazer. de passinhos lentos. — De súbito.. Pelo contrário. sempre aparada a primor. Andava" por essa altura na melhor das disposições. o doutor Duthie deu-lhe uma carta de recomendação para um colega de Ardfillan. para o qual tirara assinatura de primeira classe.

Dormia entre cobertores. que sentado na poltrona lia o Evening Times. e nos últimos tempos suspendeu-as por completo. — Falaste. Acabei. quando via a Mãe (que acreditava firmemente em tónicos e mos administrava com regularidade) dar-me uma colher cheia do meu Alimento Químico de Parrish. minha filha? . o Pai nunca gostara de médicos. decorrer bem. Desenvolvera um complicado sistema de exercícios respiratórios e uma dieta rica em lacticínios. já não será altura de ires ao doutor Ewen? O Pai. E daí por diante. que o Pai tinha por essa classe. ele seguia confiante um regime salutar da sua lavra. que fazia meia ao canto do fogão. «Tem cara de desenterrado». que provavelmente o tinham então abalado. abanando e zombando da nossa credulidade. disse num tom casual. quando eu estava ocupado com os meus trabalhos escolares. muito embora sempre fosse temperado nas bebidas. usava roupa interior de lá. Por outro lado. enquanto se sujeitava às regras de higiene preconizadas pelo doutor Duthie (cujas palavras categóricas. divertida e céptica. com a janela aberta. portanto. a Mãe. uma das feições dominantes da nossa casa era a desconfiança. Tudo parecia. com intuitiva e completa fidelidade. discutira com o doutor Ewen. acompanhada de cerveja preta. que o Pai. Desta forma. ainda conservavam certa força). «Açúcar queimado e água». como ela disse. disse ele à Mãe.À primeira vista desagradou ao Pai. mais provavelmente. A Mãe suspeitava de que houvera qualquer desentendimento. embora aconselhado a deixar-se examinar periodicamente. ou. baixou devagar o jornal e olhou para a mulher. que não me iludiu: — Conor. Cria na natureza e nas defesas naturais do organismo. mesmo as suas expressões mais obscuras. e sapatos de sola de borracha. todavia. Como o percebi? Talvez pela sua solicitude extrema para com ele. pareceu não ouvir. reduziu ao mínimo as suas visitas ao consultório. Depois. dizia ele. Uma noite. por aqueles momentos de abstracção quando ela interrompia o seu trabalho. por perceber que a Mãe não estava muito satisfeita com a interpretação que o marido dava ao seu estado. tanto para o Pai como para nós. como se uma inquietação repentina lhe tirasse toda a alegria e no rosto lhe passasse uma nuvem quase imperceptível mas suficientemente reveladora a quem era capaz de compreender tudo. por cima da página.

— O Pai falara com veemência. * Há alguma razão aparente para que eu vá consultar o doutor Ewen? * Não. há alguma razão aparente para que eu vá consultar o doutor ewen? não. mas não é prático. que indubitavelmente ele ouvira. dá aos clientes ricos as doenças que eles querem. Poderá ter prática. sabes que tens de ser examinado de vez em quando. não tenho fé nenhuma nesse homem. resolvi. não tenho fé nenhuma nesse . mas não serve para mim. sensatamente. com intuitiva e completa fidelidade. — confirmou o pai. resolvi. no entanto. que fazia meia ao canto do fogão. para ser mais claro. quando eu estava ocupado com os meus trabalhos escolares. Imagina. — Mas como não suporto aquele homem e me sinto pior depois de ter estado com ele do que me sentia antes de ir ao consultório. Para ser mais claro. a mãe. em tom sentencioso. e há muito tempo que não vais ao médico. No entanto. baixou devagar o jornal e olhou para a mulher. uma noite. * Como podes dizer tais coisas? Porque o acho assim. sabes que tens de ser examinado de vez em quando.confirmou o Pai. * É verdade. * Sim. minha filha? A mãe repetiu a pergunta. que não me iludiu: — conor. — mas como não suporto aquele homem e me sinto pior depois de ter estado com ele do que me sentia antes de ir ao consultório. e o pai fitou-a atento. sensatamente. Conor. por cima da página. que indubitavelmente ele ouvira. pareceu não ouvir. uma viagem por mar! Pode ser esplêndido para as senhoras velhas que ele trata. e há muito tempo que não vais ao médico. O doutor Ewen é considerado por todos e tem grande clientela e muita prática. E o Pai fitou-a atento. que sentado na poltrona lia o evening times. — Talvez não acredites. inquietação repentina lhe tirasse toda a alegria e no rosto lhe passasse uma nuvem quase imperceptível mas suficientemente reveladora a quem era capaz de compreender tudo. mesmo as suas expressões mais obscuras. depois.A Mãe repetiu a pergunta. * Não sei porquê. em tom sentencioso. mas queria que eu interrompesse o meu trabalho durante três meses e fizesse uma viagem à Madeira. — falaste. já não será altura de ires ao doutor ewen? 0 pai. disse num tom casual. é verdade. conor. dispensar os seus exames. dispensar os seus exames.

Não conheces em winton nenhum médico que te possa examinar? Seguiu-se um silêncio.mas para quê? Para verificar as tuas melhoras. contudo. de olhos fitos no meu livro. — talvez não acredites. parecia fatigado. que sempre tive esta tendência. assim como um livro. pelo menos. só nessa altura ouvi a mãe dizer em voz baixa: . — 0 pai falara com veemência. há outros médicos. dá aos clientes ricos as doenças que eles querem. já te disse. como se houvesse dito de mais. quando o pai regressou a casa. Sem fazer caso da responsabilidade que o pai habilmente lançava sobre ela. — se tens muito empenho. há um perto do meu escritório. ao acabar a refeição. quando tinha um dia de mais trabalho. ele comeu com apetite. durante o jantar. porém. em. a mãe poisou a malha no regaço e inclinou-se para ele. vez disso. mas queria que eu interrompesse o meu trabalho durante três meses e fizesse uma viagem à madeira. por uma resposta indignada ou. que foi melhor que o costume. irei qualquer dia consultá-lo. levei a minha cadeira para junto da janela. o pai cedeu. — por que não vais amanhã. poderá ter prática. a mãe foi recebê-lo à porta.. conor ? O pai. a mãe deu um suspiro de alívio que. 0 doutor ewen é considerado por todos e tem grande clientela e muita prática. no fim de contas. O pai olhou-a entre carrancudo e embaraçado. mas muitas vezes. ainda que num tom de rabugice. imagina. mas não serve para mim.. apesar de sufocado. sim. já que tanto insistes. mas não é prático. calou-se. como podes dizer tais coisas? porque o acho assim. com a carne estufada de que o pai gostava tanto. ainda tens tosse. é o médico da companhia de seguros caledónia.persuasivamente. nâo vi nada de especial na cara do pai senão uma expressão de cansaço. dúzias de vezes. mas a mãe antecipou-se: reconheço que ewen exagera — volveu ela. — no entanto. e tentou voltar a ler o jornal. no fim da tarde seguinte. uma viagem por mar! pode ser esplêndido para as senhoras velhas que ele trata. Ao entrarem juntos. não sei porquê. como de costume. sempre a fazer meia e sem dar a entender o abalo que recebera. fez de conta que não a ouvia. que retomara a leitura do jornal. para te com prazer. e penso que deves procurar um que te agrade. por uma recusa altiva e eloquente. não houve nenhuma referência à conversa da véspera.homem. esperei.. ainda foi audível..

convém agora tratares-te a valer. 0 negócio progride.— O pai não queria dizer. que não dispensa a minha presença. gracie. Con.. Con. quando o fez..Atingido ? com quê ? . mas não já. . . mas trata-se de um negócio recente. . empreguei todo o meu dinheiro no fermento.Oh. .Não te alarmes.Assim é preciso. que são tão importantes..Não. . Muita gente tem isto.Conor! tens de ir imediatamente. no fim de contas não é coisa rara. Ouvi a mãe soltar um suspiro profundo. .. a voz era calma. D.. .. con. parece que tinhas razão. — Um focozinho tuberculoso.Oh. irei para um sanatório. e cura-se. já tive mesmo de contrair um empréstimo no banco. um dos pulmões está levemente atingido. é grave? .. l. .É impossível. .. I. tens de ir para um sanatório ou fazer uma viagem por mar. o doutor macmillan é pessoa competente. não sei o que queres dizer com isso de U.. como aconselhou o doutor Ewen. bem.. depois estendeu o braço por cima da mesa e apertou a mão do pai. tu e a tua saúde estão em primeiro lugar.. e todos os meus planos alcançam agora a fase decisiva.Fui lá.Que interessa o dinheiro numa ocasião destas? .. quase ponderada. . O caso relaciona-se com a u. . Ao menos já sabemos o que é. d.Sim. e eu não posso ausentar-me nestes meses próximos...Não é o dinheiro.— então? o pai não respondeu logo.. Gracie. mas não pôde evitá-lo.Com.

e tenho a certeza de que conseguirei formar um consórcio dentro de três meses. posso trabalhar menos horas e. tudo isto. tomava cuidado consigo. entretanto. Conforme prometera. Gracie. canseiras e esperanças. A mãe já não cantava enquanto se ocupava dos trabalhos domésticos. nem por um momento duvidei de meu pai. eu estava do lado dele. U. e uma noite trouxe para casa um estranho objecto que. é tão pouco tempo! Depois ficarei apto a dispor de seis até nove meses. Conservava as boas cores. quando se me depara uma oportunidade que considero única. o olhar era vivo e não mostrava falta de apetite. o pai conseguira sempre afastar a impressão de derrota com uma atitude final de indiferença descuidada e divertida. por ti. I. com uma lâmpada de álcool por baixo. de vez em quando pedia à mãe que lhe fizesse maçagens no peito com azeite. no dito recipiente colocava-se água e urna mistura especial de ervas. e um tubo de borracha. Mesmo nos seus poucos malogros. evitando as intempéries e descansando nos fins de semana. dentro em breve partiria para a Suíça (fora este o país escolhido definitivamente por sugestão de miss Greville) e curar-seia depressa. confidencialmente. Se ainda tossia. expectorava às escondidas no frasquinho que trazia com esse propósito. nos explicou ser um inalador. serei cuidadoso comigo. procurando alívio nas palavras consoladoras da nossa vizinha. neste meio tempo persistiu nos seus remédios caseiros. para repousar. entretanto os dias passavam e tudo decorria de acordo com o plano traçado. relancei a vista pela mãe. e por mim. no meio destas preocupações dirigiu-se a miss Greville. D. farei tudo o que dizes. uma das maiores companhias do país. nos quais o vira sair de dificuldades sem se afligir. . mas não vou inutilizar tantos esforços. Ocupados com os seus problemas haviam-se esquecido de mim. munido de um bocal na extremidade. começavam as lágrimas a aflorar-lhe aos olhos. consistia este num recipiente de metal. Contudo.— Sê razoável. estão positivamente interessadas pelo meu fermento. pensei em tudo isto quando vinha no comboio. custava-me a compreender o seu ar de tensão constante. ou mesmo dois. a minha confiança na sua habilidade. e o resto. confirmada por tantos exemplos. acendia-se a lâmpada e o pai respirava o vapor assim obtido. descansar um dia inteiro. seria uma loucura. de vez em quando. percebi que fora vencida e que o pai levaria a sua avante. proferidas tranquila e confiantemente. as suas duas frases «deixa isso comigo» e «sei o que estou a fazer». O pai não tinha aspecto de doente. permanecia intacta e inabalável. significa união das destilarias. pelo pequeno. naquela ocasião e em todo o período que se seguiu. haviam-se tornado para mim as pedras de toque de um resultado triunfal. discernimento e calma habitual. limitada.

com a cabeça fora da borda da cama. como depois revelou. mas. como se nunca mais devesse parar. desenvolvida no sistema nervoso pelas toxinas da doença: convicção ilusória da cura definitiva. o optimismo superabundante do seu temperamento irlandês contribuía para que acreditasse na infalibilidade do seu jogo. No fim do mês de março. eu estava às escuras. tossia. que se fosse vencido com êxito absoluto o elevaria a uma posição de real importância. no entanto decidi avançar e entrei no quarto. acima de tudo. e da sua boca jorrava um fluxo escarlate. sustinha com a mão a cabeça do pai e com a outra segurava com dificuldade a bacia do lavatório. o pai era um homem ambicioso que constantemente aceitava riscos. de repente. enfim. para o meu espírito infantil. porém. a bacia . através da névoa do sono tive a sensação confusa e disparatada de que a mãe me chamava. estava preparado. O Pai. além dessa audácia natural. comunicou-o a mim e à mãe. I. Anos mais tarde. se não verificasse ser tão trágica. eu vim a reconhecer como a spes phthisica. não estávamos preparados para a calamidade que sobreveio. ajoelhada ao pé do leito. o pai. ouvi a sua voz. assumiam um significado cabalístico). O medo de algum desastre terrível fez-me deter. desta vez bem alta. havia nisto coragem. conhecia o perigo de protelar a viagem. todavia.era feito com uma forte confiança de restabelecimento. D. desde que o seu negócio chegara a um ponto crucial. não me foi difícil achar as razões. perante o que se seguiu. tossia. 0 rosto apresentava uma cor terrosa. a mãe. foi um momento que jamais esquecerei. «a se arriscar para bem de todos nós». quando analisei essa loucura obstinada. (iniciais que. na segunda semana. o procedimento dele podia-se explicar melhor por uma manifestação estranha e característica da moléstia de que sofria e que. O pai tinha isto em alto grau. ou seja a esperança falsa e persistente. anos decorridos. à sua referência a U. a porta do quarto do pai encontrava-se entreaberta e era daí que a mãe me chamava. se bem me lembro. inevitavelmente. — Laurence! Laurence! vem cá! Levantei-me sem demora. deitado de lado. associada. conforme a sua expressão. e. a qual seria cómica se. mas quando abri a porta vi as luzes do corredor acesas. e com um timbre de urgência tão assustador que imediatamente me sentei na cama. acordei por volta das duas da madrugada. já disposto a voltar-me para o outro lado.

no fim da prince albert. em vez disto. o pai está a deitar sangue pela boca. com o coração a bater-me desenfreadamente. doridos já do cascalho do chão. Pensei que iria indignar-se por ser importunado. compreendi que nunca antes atingira uma velocidade igual àquela. premi a campainha da noite. vi a luz vermelha da lâmpada exterior da casa do doutor ewen. enfim. depois de um dia de trabalho árduo. sempre a correr cheguei por último à porta do médico. a porta abriu-se e o doutor ewen apareceu. então. corri sempre. sabe quem é meu Pai. descalço. e ouvi o seu zumbido prolongado no interior da casa. voei pela rua adiante. envolto no seu roupão. nos lençóis da cama em desordem. mas venha. O silêncio daquela solidão interrompia-o o meu arfar ansioso. tamanho foi o abalo sofrido. ele podia mostrar aborrecimento. com força. na camisa da mãe e até nas suas mãos e na cara. tornejei para Colquhoun Crescent. nem vivalma nas redondezas. quando tornara a tocar. por favor. ninguém acudiu. — Venha. com insistência. saí de casa apenas com a camisa de dormir. mesmo cólera. venha depressa ao número sete da rua do Prince Albert. a meio caminho da Esplanada. disse-lhe ofegante : — Por favor. o Pai não se zangara com ele. das conversas de meus pais. acendeu-se uma luz no andar de cima. por amor de Deus! Dei meia volta e corri.estava quase cheia daquela escuma vermelha que. Sim. onde à minha frente. a mãe falou-me com a mesma entoação angustiosa e peremptória: — Laurie! vai chamar o doutor ewen. por momentos. com as armas do concelho: ele fora outrora presidente do município de Ardfillan. não o pusera de parte e deixara de ser seu cliente? Antes que pudesse falar-me. havia sangue por todo o lado. pior ainda. depressa. comprimiu os lábios e olhou-me com ar pasmado. não se importe com mais nada. . com horror. sem sequer envergar as calças e a blusa de lã. pois. depois desci a victoria street. que foram de dolorosa expectativa. sem mudar de posição nem desviar os olhos do marido. o que me teria demorado pouco mais de um minuto. sem me preocupar onde punha os pés. vi logo que era sangue. era uma lâmpada quadrada. e subi os degraus exteriores da porta. mas. a escuridão tornava a minha corrida uma coisa sobrenatural. depreendera que se tratava de um homem severo. chama-se Carroll. ornamental. o desespero de um médico a quem chamam a meio da noite.

mas serviram-me. e. Entra — replicou por fim. a segurar o pai. o mover vagaroso do pêndulo do relógio. ao chegarmos. não proferiu palavra. louvar-me pela minha carreira esbaforida. como por reflexo. Deslizei para o meu quarto. e enfieime na cama. mas quando o doutor Ewen surgiu no quarto a mãe saudou-o com uma exclamação de alívio. uma cabeça de veado fitava-me com olhos vítreos e implacáveis. no aposento contíguo. de maneira que ainda estava aberta. senhor. fiquei mais sossegado. — Abafa-te — disse ele. exclamou de repente: — Não pareces mau rapazinho. ouvindo os movimentos que iam na casa. eu não sentia frio. Minha Mãe ainda se achava ajoelhada junto da cama. quando reapareceu sobraçava um par de chinelas de pano e uma manta escocesa de viagem. porém. nunca faças tolices. através . x O vaporzito de rodas chapinhava alegremente entre as ondas batidas do sol. não fechara a porta.Sim. nem me atrevi a olhar. murmurou qualquer coisa entre dentes. o doutor pouco maior seria do que eu. bastante. ouvi. Viu-me cobrir com a manta. cumprida a minha missão. — Foge desse frio. sentia-me esgotado. sentei-me no vestíbulo enquanto ele voltava ao quarto. Pelo caminho. mas esplêndida. por muito tempo ali fiquei sacudido por tremores intermitentes. acima disto. embora me relanceasse de tempos a tempos. as chinelas eram velhas. era o Lucy Ashton. porém. ela. e eu. Ewen não levou muito tempo a vestir-se. à minha rua. a bacia desaparecera. misturados com as vozes sufocadas da mãe e do doutor ewen. Obedeci. cóm um medo horrível daquele regresso ao pesadelo da nossa casa. e consegui arrastar-me com elas. tomar-me nos braços e dizer-me que tudo corria bem. entrámos. na parede. mas os dentes entrechocavam-se-me. ewen pegou na sua mala preta e saímos. não veio. como este s e Demorava! desejei de todo o coração que a mãe viesse ver-me antes de eu adormecer.Continuou a olhar-me admirado. de chaminé encarnada. O teu pai tosse muito ? . tirei a manta e as chinelas. não compreendi o significado da frase. essa bacia que já se fixara no meu espírito como símbolo atroz de horror inesquecível. que ia.

eu e miss O'Riordan estávamos sós e silenciosos. com certo desânimo. miss O'Riordan. ao olhar agora para miss O'Riordan. dizendo: — Como o seu pai está tão doente. de Ardfillan para Port Cregan. Dar-lhe-ei um novo quando estivermos no presbitério. era uma mulher de cabelo ruivo. que a governanta de meu tio Simon era mais beata do que eu esperava. os passageiros passeavam. maneiras e aspecto geral. O senhor prior benzê-lo-á para si. mas estraguei-o. quando viera visitar o Pai. aspirando o ar cheio de gotículas de água. o tio Simon me despertasse a maior simpatia. por outro lado. lançava-lhe um olhar de soslaio perscrutador. — Obrigado. dos quais o mais novo. — fez urna pausa e concluiu: — Podemos rezar para passar o tempo. embora embaraçado pela vira do colarinho rígido. grandes olhos claros. em particular. e. em baixo. — Deve ser mais cauteloso com os objectos sagrados. se bem que. a grave doença do meu pai provocara uma reconciliação com os irmãos. Além disso sou má marinheira. no convés. meu filho. semicerrou os olhos e levou a mão a meio das costas. de tempos a tempos. achei que o menino não devia ficar lá em cima a ouvir a música. nunca até aí a tinha visto e. Como não tornasse a falar. aproveitei a oportunidade para reflectir tristemente nas alterações da minha vida. tem o seu terço? — Não. tudo sugeria resignação cristã a uma vida de sacrifício e sofrimento. ia eu viver com um padre? Ia sim. de cerca de quarenta e cinco anos. conversando. feições pontiagudas e tendência para sardas. achava que seria giande alívio para minha mãe nos deveres de enfermeira (que a si mesmo se impusera) eu passar ao menos umas semanas em sua casa. miss O'Riordan? — Enjoada. com bancos forrados de pelúcia. Simon Carroll.do estuário. no salão deserto. a expressão. rindo. miss O'Riordan. ouvindo a música animada de um quarteto alemão. e impregnado do cheiro a tabaco. tive um. — Deus é testemunha de que nunca me sinto bem. quando a criatura quebrou o silêncio. Percebi. . o baloiçar do barco dir-se-ia convir-lhe tão pouco que me vi obrigado a perguntar: — Está enjoada. mulheres devotas como aquela. filho? -Inclinou a cabeça para a frente. ou sentavam-se em grupos. eu começara a pensar por que razão estava o meu destino sempre a contas com mulheres. que se casava tão bem com o meu melhor fato.

por essa altura com pouco mais de vinte e seis anos. — Miss O'Riordan vai trazer-nos o chá. e bem iluminada por uma janela donde se desfrutava uma bela vista do porto. que dava para o jardim. port cregan pareceu-me um lugar agradável. olhou com ar interrogador para miss 0'Riordan. e tinha um aspecto juvenil. eu tive ocasião de tornar a observar o tio. ambos de pequenas dimensões mas pitorescamente construídos de pedra cinzenta. inquiriu num murmúrio discreto se eu queria «aliviar». apertou os lábios em silêncio e meneou a cabeça. — Como está connor? — perguntou em voz baixa. conduziu-me à sala de estar. Simon. que cheirava a cera de velas e a polimento. mas. que lhe fez um relato pormenorizado da nossa viagem. havia dois loiros e dois morenos. não falou. encostada à parede do fundo. veio ao meu encontro e pegou-me na mão. — Deixa-me só acabar o que estava a fazer. era tão alto que se curvava como para se esquivar a bater com a cabeça nos lustres. após o que se retirou. perante a minha resposta negativa. . e então a governanta. quando a governanta acabou a sua narrativa. Entrámos num vestíbulo forrado de carvalho. enquanto ela falava. segurando sempre na minha mão. ficava a igreja e igualmente o presbitério. julgo eu. sempre com a mão no ponto favorito das costas). já a perspectiva se me afigurava soturna: mas uma sacudidela e um rangido indicaram que nos encontrávamos junto ao cais de Port Cregan. levantouse. Ela não respondeu. percebi logo que era tímido e que eu o estimaria mais do que antes. dos quatro irmãos Carrolls. espero que o ar do mar te haja aberto o apetite — disse alegremente meu tio. e no cimo dela (a que miss O'Riordan trepou vagarosamente. com um olhar significativo. significando com isto. o tio Simon estava sentado à secretária de tampo de correr. era edificado numa colina. de cabelo preto e olhos escuros. com lojas interessantes e muito movimento nas ruas. que se achavam de cada lado do fogão. instalou-me numa das duas poltronas de cabedal. ir ao lavabo.cujos lábios se moviam em silenciosa oração. já não em muito bom estado. muito delgado na sua sotaina comprida. é um instante. do outro lado do estuário. Quando sorriu. ao desembarcarmos. pertencia ao segundo grupo. e dirigiu-se para a sua secretária. situada num extremo da casa. Contudo. o mais novo. depois de tomar fôlego com uma série de suspiros arquejantes. era uma quadra ampla. tal como Ardfillan. quando entrei.

estava bastante usado.. a nós ambos. o serviço de chá e um prato grande de fatias grossas de pão com manteiga. logo após a retirada da governanta. era um velho miraculoso..Descia um cesto! é claro que jejuava muito. sobre a qual figurava uma imagem de nossa senhora.Quem é? um dos santos da minha devoção. . mal dei pela falta de um bolo. no cimo de uma montanha. mas o que mais me chamou a atenção foi uma gravura muito grande. havia pouca mobília e pouco conforto na sala. e o tapete. — Extravagância de santo.Trinta anos! mas como é que se alimentava? . sem dúvida. e provavelmente dormia pouco. japonesa. — Gostas? — Perguntou o tio.. talvez a camisa de serapilheira o conservasse acordado. cabeludo. como se gasto por passadas contínuas durante muitos anos. que erguera a cabeça com um sorriso vago. — E não tombava de lá quando adormecia? acho que devia cair. tio. — Bem. além das poltronas e da secretária. E me observada . azul e branca. tinha o pensamento tão cheio daquele estranho velho no alto da coluna que.Que altura tinha aquilo. miss O'Riordan trouxe numa bandeja preta. num meio estranho. na parede pendia um crucifixo de marfim. as cortinas acastanhadas já não eram novas. grande.Tinha umas setenta e tantas polegadas de altura. na outra parede. Neste comenos. eu encontrava-me. com ar de quem faz um esforço supremo. . para nos recompormos. Isto causou-me tal espanto que me ia engasgando com a fatia de pão com manteiga. semi-nu. embora acostumado a melhor tratamento. esteve lá trinta anos.Senti instintivamente que nos dava tempo. como as poltronas. . de um homem de longas barbas. — O tio voltou a sorrir. inquiri : .. empoleirado no topo de uma alta coluna de pedra. na prateleira do fogão descobri um barrete de clérigo e uma extensa fila de moedas de cobre em várias pilhas. e quanto tempo esteve ele ali? .Mas o que faz ali em cima? — Nada de especial.

No fim de contas. Gostaria de continuar ali com esse tio recentemente descoberto. tio — disse eu. . acrescentando no entanto que estaria livre no dia seguinte. uma colher de sopa cheia. curava os doentes. se repararmos bem. obrava milagres e. ele pregava-lhes. É o dia em que não vem a senhora Vitello e não teremos muito mais do que isto antes do almoço de amanhã. me elevava aos píncaros da intelectualidade e da história. como vês.Houve um silêncio. acontecem todos os dias. para me mostrar uma coisa interessante. mas ele declarou-me que tinha de ir à igreja para ouvir confissões. de modo que. agora come o teu pão. — Senti um estremecimento de prazer ao ouvi-lo tratar-me pelo primeiro nome. vai tomar emulsão de purdy. após haver indagado de novo se eu não queria «aliviar». realizava inúmeras conversões ao cristianismo. Laurence. à sua maneira. deixe-me ver o que usa. deitou na colher o líquido espesso que. quando veio buscar a bandeja.Não percebo por que havia ele de fazer isso — comentei. três vezes ao dia. e aí exibiu uma garrafa em cujo rótulo se via um bacalhau com a boca aberta. miss O'Riordan tomou conta de mim. é muito bom para o peito. . seduzido com a nossa conversa. pensativo. acrescentou ela.— credo! uma camisa de serapilheira! O tio esboçou um sorriso. para conversarmos mais acerca de colunas e de santos. depois de eu engolir o remédio. depois da missa. vinham multidões admirá-lo. e como o seu nome é parecido com o meu. — tocou-me com um dedo na camisa aberta e soltou uma . lentamente. fazia de juiz. — Meu filho. . . no meio de tribos selvagens. — Agora.Quando eu estava no seminário. embora bem disfarçado. senti-me lisonjeado. às vezes durante horas.Quem me dera ver um milagre. descemos um lanço de escadas. em vez das esperadas referências a meu pai. em espanha. tomei conhecimento com ele. sabia a óleo de fígado de bacalhau. escuta. é vaidade da minha parte. entrámos na cozinha. — Simeão viveu há muitíssimos anos num país montanhoso. como se pode calcular. a qual.É por isso que o tem aqui na sala? . Eu olhava deliciado para meu tio. que decerto me fariam chorar.

meu filho. só moedas e moedinhas de cobre. pensando em muitas coisas acerca do homem da coluna. Vagueei por ali.exclamação de tristeza. coitadinho. achei também que. que dava acesso à porta lateral da igreja. porque disse: — Nunca se torce o nariz a comida boa. mata-se para as pagar. quando vim para cá. vou tratar disso antes que seja tarde.— 0 quê? não tem camisola de la? deve usá-la rente à pele. mas não apanhasse frio nem sujasse o fato. Aí de mim! quando o relógio da vila deu seis horas. ela reapareceu à porta da.Pagar! — Exclamou ela. e o seu tio. com um riso desdenhoso que flagelava tantos fiéis anónimos. — viu as moedas na prateleira da sala? Éis como eles contribuem. — Modestamente. com a amortização da dívida e pagamento dos juros. Tinha preparado papas de aveia e um prato cheio delas. vivemos aqui modestamente. decerto notou em mim uma expressão de descontentamento. saí. podia perfeitamente continuar com o tio Simon. e as esmolas que ele dá. miss O'Riordan? . se Miss O'Riordan me deixasse em paz. um milagre! Aliás podiam ser vistos. com as mãos nos bolsos. filho. havia uma grutazinha com uma imagem de nossa senhora coroada de estrelas e poisada sobre conchas. Ah! Se eu tivesse visto algum dos seus milagres! que belo espectáculo. enquanto se sentava no lado oposto. cozinha e chamou-me. mas sofreei o desejo para não o perturbar no confessionário. para assistir à minha ceia. Largou-me então. atravessava o relvado um passeio de cimento. mas houve um certo sacerdote com ideias superiores às suas posses. — O Povo não paga. ladeado de arbustos. — Mas como é que a igreja tem dívidas? — Foi da reconstrução. «se reparássemos bem». com o indispensável copo de leite. fumegava na mesa. . apesar de o crepúsculo me fazer saudoso da Mãe. tive vontade de ir lá encontrar-me com o tio. O jardim era um quadrado de relva. há quinze anos. não quero citar nomes. a igreja está sobrecarregada de dívidas. dizendo que fosse brincar no jardim. Miss O'Riordan? — Sim. não queremos que lhe aconteça o que aconteceu ao seu pobre pai.

acabei por murmurar as palavras. nunca vi uma criança tão comovida durante o terço. tornara-o interdito durante o dia. declarou em tom solene. — Meditemos nos mistérios dolorosos. tinha pena dele. Estas revelações sensacionais. e. e. o seu rosto surgia claro perante mim. me fazia aumentar o pranto. . e de súbito. Miss O'Riordan levantou-se. que me reaparecia com formas grotescas nos meus sonhos. permitiram-me acabar as papas sem reparar que não tinham sal. senti-me reconfortado. que parecia exalar a austeridade dos muitos missionários que ali se haviam abrigado nas suas idas e vindas entre o porto de cregan e o interior de áfrica. e eu. na verdade. de certa maneira. em quem eu pensava era na mãe. a agonia do senhor no horto». não pensava em meu pai. devagar. mais tarde descobri que ela era adepta da comida insossa. se bem que desconsoladoras. mas. mas é homem inteligente e bondoso. uma torrente de lágrimas correu-me pelas faces enquanto eu continuava a rezar maquinalmente. há-de livrar-se de apuros. seria possível ? — Com um novo interesse e respeito. o que. Apesar da intenção. de ser menos prejudicial aos rins. — Vamos rezar cinco estações no seu quarto.o que fica quase nem lhe chega para comprar uma camisa. mas aquela pavorosa cena a meio da noite. a minha companheira não me desfitava. lastimava o seu estado. ajoelhámos no quarto vazio. quando acabámos. principiando por mover os lábios em silêncio. Começou: «primeiro mistério doloroso. Levantámo-nos da mesa. com a ajuda de deus e da minha. segundo dizia. se podia exercer livremente. quando a minha vontade. só da sua agonia me lembrei. confidenciou-me Miss O'Riordan em tom de intimidade. — Já lhe arranjei umas contas. via-lhe a expressão de tristeza e ternura de quando me dissera adeus nessa manhã. com uma sensação de culpa. como sempre fui um visual. por causa. embora ela me houvesse pedido que fosse corajoso. Uma vez no andar de cima. antes de se deitar. sussurrou Miss O'Riordan. — O menino reza muito bem. Corei. ou lá o que fosse. e lembre-se disto: rezamos por intenção do seu pobre Pai. olhando ainda para mim e. — Com tanta devoção! Hei-de dizer ao Senhor Prior.

por muito absurdo que isto pareça. atributo que (em breve descobri) o céu não concedera aos outros dois irmãos. que me pôs sobre a pele. neurasténica. Bernard e Leo. frustrada. para a ajudar na labuta doméstica do presbitério? Nenhuma. apesar da disciplina que a si mesmo impunha. «isto é a minha camisa de serapilheira». José foi mais prolongada do que eu previra e. aliviava aquela solidão natural exigida pela sua vocação. Pobre Miss O'Riordan! Eu nunca devia escrever nada em teu desfavor! que vida mais árdua haverá no mundo do que a de uma governanta solteirona. não era difícil. mas já estava tão exausto da sua solicitude que não tive forças para resistir. e de Miss O'Riordan. e. me não sobrecarregasse de atenções. como meu pai. de repente. a não ser a do próprio pároco. pessoa inteligente. mas deixando uma gretinha por onde podia observá-la. tenho aqui uma coisa que fiz para si. Quando fechei os olhos num sono simulado. senti a pressão de lábios na testa. segurando-mo com fitas de nastro em torno do pescoço e das costas. havia na sua natureza uma doçura. de quarenta e cinco anos. Era. depois de eu me despir. ela esteve uns momentos a contemplar-me. com a mesma distinção inata. Ouvi-a sair e fechar a porta de mansinho.— Olhe. fez o sinal da cruz sobre a minha cama e apagou a luz de gás. achei quente e incómodo. rígidos. persuasivamente. estranhos para mim. ainda que meu tio. Isto. — É para conservar os seus pulmões em bom estado. E apresentou-me uma espécie de peitilho de flanela encarnada. durante sete anos de formação espiritual. tornou ela. mas secos. depressa percebi que me apreciava a presença no presbitério e que a minha companhia. solitária. onde. tão diferente da excessiva devoção de Miss O'Riordan. na escuridão. pensei com tristeza. mártir de si mesma. XI A minha estada em S. «e Miss O'Riordan é a minha coluna». uma fina sensibilidade que conquistaria qualquer criança. no entanto era um beijo. aliás. vivera e estudara com notável bri- . ao contrário da governanta. depois. havia ido em pequeno para o colégio escocês de Valladolid na Castela velha. não os lábios tépidos e macios a que eu estava habituado. italiana. só com uma mulher a dias. é coisa que atraí sempre. a simples bondade. tanto mais que não podia deixar de ver que eu começava a ser-lhe afeiçoado.

chamada Sarah Mooney. Também discordei da prontidão com que ele acudia a todas as dificuldades. a espanha educara-o. tinha na verdade um ar espanhol que. ao lado da mulher a dias. muitas vezes até à noite. Evocava não só os dramas da história. aborrecia-me que se pusesse à disposição de todos. e donde os cachos de uvas doces como mel quase lhe caíam na boca. mas principalmente recordações pessoais. porque eu apreciava a sua companhia e lhe sentia a falta quando se ausentava. recordo-me de uma frase que usou.» com o seu fato preto. afigurava-se-me uma trágica expulsão do paraíso. os claustros banhados de sol. Sancho de Leão. eu suspeitava de que muitos deles eram impostores. destinava meio dia todas as semanas para ir a Ardfillan ver meu pai. observando-os da janela aberta. na minha desconfiança fui apoiado por Miss O'Riordan. achava que o enganavam.lhantismo. de forma nostálgica. Mas o tio Simon não se importava. conhecia todas as crianças e a maior parte das mulheres pelos seus nomes próprios e até parecia gozar esses deveres inerentes ao múnus pastoral. me falou ele da sua existência venturosa em Valladolid. opinião partilhada. perfumados das laranjeiras. tosca e pobre. estava perfeitamente à vontade na sua paróquia. senhora vitello. «a nobreza dos homens. decerto conscientemente. e recebiam as esmolas da praxe. quando ele se levantava para ir celebrar a primeira missa. nomeadamente essa que me parecia a pior. com a maior regularidade. por Miss O'Riordan. visitas de que regressava com uma alegria fictícia que não me iludia. o gabinete de paredes caíadas donde se avistavam as montanhas distantes. cabelos e olhos escuros. . a encantadora cidade de Cervantes e Colombo. os quais principiavam às seis da manhã. que criticava especialmente o que intitulava de procissão dos pedintes. Quantas vezes. moldara-o. Todas as quartas-feiras à tarde apresentavamse em bicha aqueles impetrantes. enquanto Miss O'Riordan despachava os requerentes. procurava acentuar com alguns pequeninos maneirismos. em especial desde que. conquistada aos mouros por D. além das obrigações de rotina. que andava amparada à muleta. de sotaque rústico. e os jardins do seminário. e certa latada de parreiras sob a qual ele dormia a sesta. a meu ver tristes e fatigantes. o garbo e pureza das mulheres. e que nunca se satisfazia com as suas doses de chá e de açúcar. e se prolongavam pelo dia adiante. cor de oca. com muitos gemidos e suspiros. entre o barulho dos estaleiros. e passar daí para uma freguesia escocesa. Simon Carroll amava a espanha e admirava profundamente o seu povo. aliás. a quem ouvia de tempos a tempos protestar junto do meu tio contra as depredações que a Sarah fazia na despensa. à porta da cozinha. uma velha de olhar manhoso. imbuíra-o das suas tradições e cultura. tez pálida e a capa de sacerdote pendendo-lhe dos ombros. arrastando uma perna.

não só granjeara a consideração de Miss O'Riordan como conseguia desempenhar sem intromissões tudo quanto se relacionava com o seu cargo eclesiástico. estragar tanto uma simples costeleta de carneiro ou um inofensivo pedaço de vaca. mas contrariou sem rodeios os precoces projectos religiosos da governanta. Via em mim uma criança nervosa. transformando-me numa espécie de bola de naftalina ambulante. ensinou-me os rudimentos do xadrez. sabia lidar com a sua austera governanta. eu costumava designar por «sonhos vermelhos». as nossas conversas eram sempre interessantes. mau grado a desvantagem da mocidade. acima de tudo. que ele tirava da caixa remetida de oferta por um colega de Espanha. e o seu único luxo era uma boa xícara de café depois do jantar. por se concentrarem em grotescas variações da hemorragia do pai. Calma e firmemente intervinha em meu favor. acompanhada de um charutinho fino e encurvado. muitas vezes atormentada por pesadelos que a obrigavam a acordar alagada em suores frios e que. os atrozes cozinhados.O tio Simon. tolerava-lhe os fracos. a entrar na confraria de nossa Senhora do Monte do Carmo e a decorar as respostas em latim para eu ajudar à missa no breve tempo da minha estada em S. e eu ganhava sempre. Mas a nossa maior diversão era o entretenimento que ele sugeriu na primeira ocasião em que nos encontrámos. . Miss O'Riordan estava sempre a dar-me purgantes e até me arranjara. Com esta condescendência em assuntos que o tio achava de pouca importância. estou certo de que a devota criatura me teria ordenado. porque ele nunca se ria das minhas ingenuídades. O tio Simon não logrou pôr termo a estes medicamentos. e noutra ocasião praticámos tranquilamente sobre o tema do inferno. como me sentia grato pelo tempo que me dedicava! À noite jogávamos às damas. Se a deixassem agir à sua vontade. Em diversas segundas-feiras. alugou um barco de remos e levou-me até ao ponto do estuário conhecido por Tail of Bank. sem se queixar. deixava-a resolver em alguns casos. mas. por motivos higiénicos. sofria-lhe. uma cruz de cânfora para pendurar ao pescoço e cujo cheiro me impregnava a pele. fisicamente pouco desenvolvida. o seu dia menos ocupado. possuía o discernimento necessário e a necessária sensibilidade para compreender o abalo psicológico que eu sofrera. nem antes nem depois. com um bico de pena numa das extremidades. tonsurado e talvez até canonizado! mas o tio simon não queria nada disto. que através de um longo hábito se considerava a pedra angular da paróquia. o tio não olhava para o que comia. da culinária de Miss O'Riordan devo dizer que nunca vi. contudo. e lembro-me que até aflorámos uma vez mais algumas excentricidades dos santos. decisivos passos para a santidade. os quais me compeliriam a fazer a primeira comunhão. ao contrário de mim. não intervinha no governo da casa e. José.

. o «escocês veloz» recusou-se a partir. saiu fumo pela chaminé. examinámos em pormenor todas as peças. uma reprodução em miniatura dessa famosa locomotiva. tênder pintado de verde. — Não faço ideia de como veio ter aqui. à espera de um resultado imediato. mas capaz de funcionar. êmbolos. com fósforos (contra cujo gasto Miss O'Riordan protestou) o pavio bem espevitado. com o pobre inocentinho por baptizar! O tio pôs-se de pé.Certa manhã. e tão perfeito que eu pulei de contente. o tio soprava a chama de álcool a fim de intensificar o calor quando Miss O'Riordan surgiu inesperadamente. a bela máquina permaneceu indiferente e inerte. Ele pareceu ser da mesma opinião. com um sorriso de desculpa e o ar de um estudante que foi apanhado em falta. depois do almoço. ao afastar-se. a pedir a Miss O'Riordan um pano de pó. deitar na caixinha do combustível álcool de que o tio se havia providencialmente fornecido. vi um modelo de locomotiva. ai de nós. conduziu-me ao sótão e. com a cara suja de óleo. e eu corri à cozinha. mas. murmurou o tio. Levámos a locomotiva para o jardim. uma vez tudo isto feito. que alegria encher de água a caldeira. mas. lançou-me um olhar animador. tio. com a respiração ofegante. e da minha. e depois recuar. Talvez sobrasse de alguma venda de caridade. não acredito que trabalhe muito bem. e acender. Estendido por fim no chão. juntos lubrificámos a máquina com a almotolia da sua bicicleta. — Senhor Prior! — Ergueu as mãos e os olhos ao céu. há mais de meia hora. chegou-se a ouvir o apitozinho. Era. Veja! Exclamei. de rodas cintilantes. a água ferveu. horrorizada. era na verdade um engenho de nos fazer pulsar o coração. afinal. despiu o casaco e ajoelhou-se no pavimento cimentado. — Oh. colocámo-la no passeio de cimento. — Em mangas de camisa! E em que estado! E o senhor Lafferty e a esposa à sua espera na igreja. Em vão desaparafusámos porcas e tornámos a apertá-las. limpa. coberto de poeira. diante da porta das traseiras. no meio de trastes fora de uso. devíamos «aliviar»! — Na minha impaciência nem reparei que usara a frase clássica de Miss O'Riordan. apesar de toda a sua agitação interior. mas podíamos experimentar. apontando para as letras de bronze num dos lados: «O escocês veloz».

lá de recônditas partes infernais. um espectáculo magnífico. como se se transportasse nesses momentos à sua querida Valladolid. fazendo observações em voz baixa à senhora Vitello. O rodado girou com ímpeto e o «escocês veloz» despediu-se de nós como uma seta. álcool e água e fizemos esta ferver em cachão. a máquina renitente tornou-se para nós uma obsessão. discutíamo-la todos os dias. com toda a pressão dos seus êmbolos poderosos e com as rodas girando. — Está a andar. . E tentámos. saiu vapor de uma válvula insuspeitada. nem ele tão-pouco. eu não sabia disso. produziu-se imediatamente uma explosão. porém. Dei-lhe um abanão violento. laurence. de cabeça baixa e com a perna a arrastar. a locomotiva não se movia. em termos pouco técnicos. tudo sem efeito. da janela da cozinha. tio! — Bradei. desesperado.— Ainda não estamos vencidos. fumava sempre com modo sonhador. mostrava no olhar uma expressão divertida. Miss O'Riordan. tentámos repetidamente e sempre sem resultado. bem disposto com o café e com a cigarrilha. — Hurra! — Gritei. trouxeram o café ao tio e ele muniu-se da sua cigarrilha. trata de a sacudir. o tio acabou por dizer num tom que traía pessimismo: — Deve estar emperrada em qualquer lado. decididos a não desistir. vinha em nossa direcção. Segui-lhe o olhar. Debruçado sobre a máquina insubmissa. apoiada à muleta. Vamos ao «escocês veloz»? Vamos. lançava fumo para o ar e a fornalha faíscava como a cauda de um cometa. esguichou uma matéria viscosa. Veja. veja! Descia em linha recta pelo passeio cimentado. ganhando velocidade. nós pusemos óleo. estupendo! — Valha-nos Deus! — Exclamou de súbito meu tio. acabado o jantar. Na quarta-feira da semana seguinte. de olhos semicerrados. e por fim pespeguei-lhe um pontapé. a caldeira. bastante admirado e entristecido me sentiria se soubesse que daí a poucos meses ele seria de facto transferido para aquela cidade como professor do seminário. enquanto Miss O'Riordan nos espiava com ar de censura. tentaremos outra vez. nessa tarde. Retirámos a locomotiva do telheiro. Sarah Mooney saíra da igreja e.

emitindo ondas de vapor. mas pela cara de Miss O'Riordan e pelos modos do meu tio. tombava de lado e jazia na relva. pela primeira vez na vida) antecipou-se: — Será um milagre se não voltar amanhã com duas muletas. eu surpreendia conversas cochichadas entre a governanta e a mulher a dias. rouca e ofegante. também. Miss O'Riordan (que parecia satisfeita. Sarah! — Gritou o tio Simon. Depois desse breve instante. «tísica galopante». muitas vezes repetidas. enquanto a máquina. com um grito agudo. galopando loucamente para a morte num grande cavalo branco. mas.Mas. Olhou-me o tio. recolheu ao sótão. Nunca cheguei a perceber. puxando pelo braço dele. e a locomotiva. mas sorridente. Na cozinha. aliás. sem nenhuma tentativa de reparação. bateu-lhe na muleta. correu como uma lebre. creio que gozara com a fuga precipitada de Sarah Mooney. que ele morreria em breve. que ele. naquela noite fatídica. . observei. descrevendo um arco. a senhora Mooney ficou sentada no chão. O tio Simon começou a atravessar com maior frequência o estuário. nem tentei sequer explicar a mim mesmo. a locomotiva não voltou a funcionar e. pensativo.— Cuidado. não viu? Ela correu. absorvida pela perspectiva da merenda. daquele dia em diante. pôs-se de pé e correu. que saltou. lívido como naquela noite inesquecível. e se quebrou com retumbante estampido. Graças a Deus que não se feriu! — Disse o tio Simon voltando-se para Miss O'Riordan. eu percebia que as notícias de Ardfillan eram bastante piores. por que motivo o cavalo devia ser branco. com certeza absoluta e estranha indiferença. pode andar! Foi um milagre. O tio continuou calado. que nunca . não havia eu pressentido inconscientemente. mas não tão depressa que não ouvisse duas palavras ominosas. não o ouviu. Sarah. as quais imediatamente me traziam aos olhos a visão de meu pai. e sem muleta. mais graves e preocupados. nem sempre com êxito. não me diziam nada. depois. envolta numa nuvem. mas sabia. e a regressar de semblante melancólico. conversas que interrompiam para me saudar com excessivas demonstrações de estima. até se refugiar na igreja. avançando com uma precisão quase inspirada. todo o aspecto da minha estada no presbitério se modificou muito. se esforçava por alegrar quando eu aparecia. que viera reunir-se a nós. por momentos Sarah pareceu estupefacta. antes que pudesse responder.

então. nem uma palavra me dirigiu. escolhido com a ideia predominante de que eu estava a crescer. sinal de dor antes da manhã seguinte. ressentido pela gravidade e preocupação dos outros. me informou do que havia sucedido. quando tocou a campainha da porta. me pôs um braço sobre os ombros E. principiei submissamente a verter lágrimas. meu tio leu-o. depois de envergado o seu traje de sair. empalideceu e declarou-me: — Tenho de ir à igreja. som que eu detestava porque era em geral o prelúdio de uma saída do tio. desanimado com a falta do calor que me envolvera até então. depressa estancaram. olhei para o tabuleiro das damas e lamentei o fim do jogo no momento em que a minha posição era tão boa. gradualmente.se curaria? Vagueando pela casa. pendiam até à barriga das pernas. escondendo as contas no avental. porém. explicou ela. A governanta chorava e rezava o terço. O casaco parecia um saco. elas. dominou-me um grande desconsolo. Observei mais uma vez o meu velho amigo barbudo encarrapitado na coluna. Estávamos nisso. e ele já me havia permitido «comer» uma dama. quando Miss O'Riordan. todavia. cerca de dez dias depois. os calções. enquanto olhávamos ambos para o porto distante. Apeteceu-me dizer-lhe: «Por que mente. e com o ar complacente de quem se desempenhara do encargo: — Ele aceitou muito bem! À tarde. tão depressa que Miss O'Riordan observou várias vezes. Uma noite. levou-me a Port Cregan e comprou-me um fato preto já feito. contudo. meu filho. convenci meu tio a jogar uma partida de damas. mas quando Miss O'Riordan entrou. onde um navio da Clan Line estava a descarregar. Laurie. compreendi imediatamente. o qual. dando a impressão de calças . me assentava tão mal que era mesmo um escândalo. Contei as moedas empilhadas na prateleira do fogão. cheia de fervor. não chorei. escutava com impaciência os murmúrios de «nova hemorragia». e desci à cozinha. Miss O'Riordan saiu da sala atrás dele. que era isso que esperavam de mim. encarregada dessa MISSÃO. deixando-me só. doze em cada uma. Miss O'Riordan?» Não dei. largos. porque senti que assim devia fazer. — Estou com dores de cabeça. me conduziu à janela da sala. em vez de lágrimas. no decurso do dia. ela cautelosamente. trazia na mão um telegrama.

. que me descia até às orelhas. fumo para o braço e luvas também pretas. teimara em encomendar. apesar dos meus protestos frenéticos. gravata preta. como ele ironicamente diria. me inundou com as suas lágrimas incompreensíveis. XII O enterro realizou-se discretamente em Lochbridge. se tinham instalado e vivido em piedosa obscuridade. fora nessa cidade industrial que Laurence e Mary Carroll. onde. depois. haviam adquirido um pedaço de terreno para sepulturas. então o tio Bernard. Sentámo-nos no convés. e eu fiquei transido ao ver o meu progenitor tão novo e belo. um verdadeiro janota. humildes mas honrados. por cima da qual ele e a mulher residiam com os meus dois primos. para minha surpresa e decepção como uma vulgaríssima taberna. estendido na sumptuosa urna acolchoada que o próprio tio. Gostaria de me reunir a elas. perfeita imagem de cera de si mesmo. porém.. vertendo lágrimas. que. nora e Terence. o tio Bernard obrigara-me ao que ELE denominou o «último adeus» ao pai no seu caixão. aí meu pai habitara antes do seu casamento e aí também o tio Bernard se estabelecera com as Caves de Lomond. preparado de modo impecável para a sepultura. flácidas e lívidas e colocou-a na minha. no cemitério local. a boa Miss O'Riordan completou-me o vestuário com um chapéu de feltro de copa redonda e abas reviradas. tristemente cônscio do meu fato. em volta pulavam crianças ao som da música. arrepiado de horror. de cabelo escovadíssimo e bigode aparado. Na véspera. determinada a fazer de mim um exemplo vivo de desgosto. Mas talvez previsse melhor do que EU o que ME esperava. mas não me encontrava presente. nesse traje hediondo de luto que me fazia assemelhar a um gato-pingado em miniatura. com extravagante sentimentalismo e contra a vontade de minha mãe. acompanhado do tio Simon. agora desvendadas. beijando-ME E chamando-me «pobre cordeirinho». os meus avós paternos. para meu grande alívio a mãe resolvera que eu não assistisse ao funeral. Foi o meu conhecimento com a morte.de homem amputadas pelo joelho. que na verdade já atraíra olhares condoídos. onde o mesmo quarteto alemão tocava as mesmas valsas vienenses. Na manhã seguinte. o pai estava. não ousei sair do meu lugar. disse adeus a Miss O'Riordan. fugidos à fome que reinava no seu berço irlandês. ergueu uma dessas mãos frias. A tarde estava chuviscosa e pardacenta quando o FÉRETRO saiu da igreja. parti de cabriolé para IR tomar o barco de Ardfillan. reparei nessa ocasião que no .

despreocupada: — 0 prédio está condenado. as caixas tombaram do cimo da pilha. Estaria a brincar? Não. caixotes. Se não ruir antes. diante da qual esgaravalavam.. como já quase nos aconteceu antes. bicavam e cacarejavam galinhas.. pois não? -— Realmente. libertei-me e fugi para fora do quarto. desprendeu um bocado de argamassa que me caiu exactamente aos pés. e a própria casa. esperei com minha prima nora no pátio exterior das caves de Lomond. contrastando com a arrumação da minha própria casa e de tudo o que eu conhecia ou vira antes. mas isento de novos terrores no cemitério. vibrando de alto a baixo na sua velha estrutura. e à sua passagem. porque nora me contemplou com um sorriso malicioso e interrogador. talvez o mesmo que o meu pobre pai tomava em novo. quando isto for demolido? Vamos falir. barbeado pelo can-galheiro na véspera. Um monte de coque bloqueava a porta da adega. suponho. uma fileira de canis que pareciam manter-se de pé por meio de um emaranhado de arame ferrugento. cercada de estacas. e tudo isto em tal estado de desordem. noutro. — Há ordem para ser demolido dada pela câmara municipal. e tornou a sorrir com a mais completa . com um grito. era uma coisa estranha. sempre em confusão. — As coisas aqui são assim mesmo. com um adesivo a tapar-me a sobrancelha. — Condenado? — A palavra tinha algo de sinistro. a um canto havia uma capoeira em ruínas. Assim agora. naquele momento passou um comboio da caledoniana. Esse pátio ficava entre a linha do caminho de ferro e as traseiras do edifício de tijolos rubros das caves. Mas que vão vocês fazer. concordei diplomaticamente. não está muito. tão desastradamente que bati com a cabeça no umbral da porta. espécie de terra de ninguém. não parecia importar-se nada. — Não está muito em ordem. todo o prédio estremeceu. como para confirmar o que a nora dissera. incrível. nora. começara a despontar uma ténue barba arruivada.olhei apreensivo para a minha prima. contudo. — E acrescentou. grades com garrafas vazias ou partidas e restos de palha. que acabou por se revestir para mim do encanto do «belo horrível». O espectáculo devia ter-me transparecido no rosto. aparentemente falava a sério. cheia de madeira. quando relanceei a vista derredor.queixo do defunto.

no entanto. pertencia a uma raça que eu desconhecia. e ao cabelo que ela deixava solto e era também de um preto luzidio. embora uns três anos mais velha do que eu. com pestanas compridas e recurvas. mas não o tio Simon. chama-se Joker. não há homem. — Não tardam a regressar. ignorava. esse tão cedo não se escapa da sua entrevista com o superior. Para não ficar atrás dela. antes de ir para o cemitério. conhecia a minha prima há poucas horas e sentiase disposto a gostar dela sem reservas. apesar da bancarrota da família. — É de raça atravessada? — Perguntei. cintilava de alegria. sem qualquer semelhança com os animais aristocráticos e bem tratados que vi passeando nas ruas de Ardfillan. e muito delgada de ombros e de pernas. que espreitava silencioso do fundo do canil. tão cheio de um à-vontade de que eu era incapaz. — Qual! não sabes distinguir um galgo? O Joker tem muito valor.indiferença. prosseguiu nora. todavia. se bem que abanasse a cabeça. para aquela conjuntura envergara um vestido novo de lã preta. em todo o caso escolheu um tema mais simples: — Bem — comentou. a natureza dessa conversa. mas acabará por ceder. continuava mais ou menos da minha altura. leve. reassumira o papel de cicerone e apontara para um animal magro. aos olhos quase pretos. Como se desejosa de estimular a nossa conversa des-falecente. não era pessoa para se deixar vencer facilmente. Hás-de compreender que é uma grande honra para o tio Simon. cão ou cavalo que o bata nas corridas. de olhos melancólicos e cauda curta e enrolada. — Naturalmente o velho é contra isso. desde a sua facezita fina e animada que. cor de rato. esbocei um gesto de assentimento. A minha cara de total incompreensão deve tê-la levado a mudar de assunto. com muitas pregas e que tinha um ar luxuoso que contrastava com a declaração de insolvência atribuída aos pais. o tio Simon falara em particular com minha mãe. embora não fizesse a mínima ideia do que fosse o tal superior. quebrando o silêncio que se estabelecera. agradava-me o seu sorriso. . — Aquele cão é do Terry. comprido. custou um dinheirão ao Terry. à pele que tinha a cor da nata.

um ovo tão escuro! Vamos tirá-lo e cozê-lo para a tua merenda. levou-me a indagar: — Quem é o superior. mas era inútil. castanho. sem perceber ainda de que se tratava. Pegou no ovo tentadoramente macio. porém. mas insisti: . vende fazendas por atacado. mas duas morreram. Nora fitou-me de cenho carregado e protestou: — Não recomeces nisso.— Com certeza. então o tio Simon ia deixar-nos. Esta palavra desconhecida. pronunciada com tanta ênfase como se ainda se tratasse do bispo. venham cá. sim. ansioso por não perder a presença desae outro tio que eu não conhecia ainda. Agarrou-me no braço e arrastou-me à força para a capoeira. de Winton. aquela está choca. A curiosidade. abalou-me profundamente. justamente agora que me tornara tão seu amigo! E a mãe também contava com ele. após um silêncio. aquela diabinha parecia saber tudo. venham cá. retorqui. sai daí. tínhamos uma dúzia. — Ah. É preciso expulsá-la do ninho. homem! O velho Mick Macauley. resolvida a distrair-me a todo o custo. mesmo muito. Verás se não é. ali estão. Desde a véspera que me achava num estado de tensão nervosa. patifa! Ah. vou mostrar-te as galinhas. — Mas o tio Leo há-de vir. e esta referência inesperada ao meu pai. tem de esperar pelo comboio. já que principio a gostar de ti.. levemente mosqueado. nora? tem um armazém em Winton. O Terry chama-lhe gabiru. — Virá. indiferente. trouxe-me lágrimas aos olhos. é uma pessoa esquisita. replicou ela. que nunca se sabia ao certo em que é que o Leo se ocupava. não sabes que querem mandar o tio ensinar num seminário espanhol? fiquei como se petrificado. a mudança rápida da luz do dia para o interior . disse eu.Que faz ele. mas o tio Conor costumava dizer. rindo. — Olha. vivo e rindo.. — O bispo. nora? Olhou-me embasbacada.

Não. experimentei imensa pena de que não continuasse com aquele tratamento tão reconstituinte. é para te dar coragem. abriu a torneira de metal e encheu dois cálices. examinando-me com olho crítico. via-se uma grande fotografia colorida do Pápa Leão XIII. depois. Depois. compartimento espaçoso. mas. a qual já me deslizava pela nuca. Avançou calmamente para um barrilinho de loiça que estava no balcão. ofegante. Que poderia eu fazer senão submeter-me à fricção capilar que ela me administrava? — Pelo menos isto tirou-te a vontade de chorar. Dócilmente. empurrou-me contra a parede. aumentou a minha tristeza. adornado com as palavras «vinho do porto». diante do qual secavam várias toalhas. deixei que ela me conduzisse. ordenou. eu «emborquei» a minha. — Depressa. as filas de garrafas nas prateleiras. subi com ela para a sala da residência. nora observou: —. Eu era como cera nas suas mãos. e depois ao longo de um corredor estreito que desembocava no salão do estabelecimento. passando-me firmemente um braço em torno do pescoço. por fim. o calor da sua proximidade. não há nada melhor para o cabelo. quando. Oh. — Mas ainda ficarásse mais reanimado se tomares qualquer coisa. isto é uma loção estupenda. que cheirava a palha e tinha outros odores mais desagradáveis. Por cima do fogão. — Emborca isto.sombrio e misterioso da capoeira. declarou. através do pátio. — Pára com isso. deume uma série de rijas cabeçadas. comecava a sorrir dèbilmente. não importa. e quase tão desarranjado como o pátio. por amor de Deus! Segurando o ovo. diabo! O ovo quebrou-se.Em sinal de luto temos isto encerrado até à noite. O roçar do cabelo dela na minha cara. de súbito. enquanto eu contemplava com um espanto de neófito as torneiras de cerveja. até à porta das traseiras. nora se deteve. a força com que me cingia. a serradura espalhada no chão. dei fé de UMA coisa pegajosa no cocuruto. exclamou. enquanto ela bebia a sua porção. deixa cá ver o lenço. tudo isto era singularmente apaziguador. Mas não digas a ninguém. com uns palmitos secos enfiados na parte . cheio de mobília boa mas mal tratada. — Toma.

— Já aí estão. fosse qual fosse a sua reacção futura. — Vêm a subir a escada. Mal acabara de falar. e. tinha uma expressão vagamente sonhadora. tanto na sua pessoa como em tudo o que respeitava à higiene. de cara flácida e bolsas sob os olhos. na base. um anúncio das corridas de junho. estava muito mais magra. chegava a ser exagerado. deramme a impressão (seria efeito do vinho do porto?) de que. pálido por natureza mas que o calor do fogão enrubescera um pouco. mole. de costas abauladas. A mãe de nora era uma mulherzinha branda. meio calvo. beijando-me. que detestava o desarranjo e. pesado. abriu-se a porta e entraram os meus dois tios. os seios visivelmente túmidos. ela tirara o corpete. isolada e imune. que parecia sempre viver numa atmosfera de admiração e alheamento. diversos livros de orações mais ou menos rasgados. podemos servir a refeição. O seu rosto. Parecia incrível que o tio Bernard fosse tão diferente do meu pai. sob uma sumptuosa blusa de cetim preto. hesitante. Que hálito agradável que tu tens. — Não foi a carruagem o que eu ouvi? — Inquiriu sorridente. Quando entrei. por uma questão de comodidade. senhora — respondi e não mentia. na verdade. confirmou nora. Nesse momento a tia teresa entrou. ao fundo da sala ostentava-se um harmónio com as teclas quebradas e. sentindo uma extraordinária leveza de pernas. Não compreendia que. sapatos desirmanados. mas. exausta por meses de enfermagem. a um canto. espantava-me a actividade da mãe e o seu decidido ar de alegria. esperava encontrá-la prostrada por desgosto inconsolável. só podia sentir alívio ao ver-lhe o fim do sofrimento.superior da moldura. ao regressar de Port Cregan. disse. como se tantos anos dessas caves condenadas e da desordem que ali reinava a houvessem por fim elevado a um páramo sobrenatural onde ela vogava sossegadamente. trazendo uma travessa com um presunto enorme. Acarinhavame muito mais desde que eu voltara. Bernard vinha à frente. — Visto isso. — Estiveste a chupar rebuçados ? . ou então se esquecera de o pôr. um saco roto de bolachas para cães. o que. sabendo que meu pai devia morrer. embora tivesse .Não. a mãe ajudava a mulher do tio Bernard (que eu agora sabia chamar-se Teresa) a pôr na comprida mesa de mogno a loiça para o repasto. naquela ocasião não a dominasse a tristeza. e um par de suspensórios velhos.

de verdadeiro homem de sociedade. com o seu ar alheado. tão bém dotado. alguns anos mais novo do que Bernard. Digo-te. mas deves ser corajosa. e eu também não. reanima-te. salsichas. Bernard incitava-nos a comer e. desde que lhe observara um sentimentalismo tão pronunciado que se diria incapaz de o conter. não me admirei de lhe ver ainda na mão o lenço de barra preta quando se aproximou de minha mãe e lhe poisou um braço consolador sobre o ombro. porém. Nesse momento meu primo terence entrou de escantilhão.apenas quarenta e cinco anos. Estava de fato azul escuro. proferido quase sem tomar fôlego. Conor. para minha surpresa e decepção. com certeza. novo fornecimento da cozinha. senta-te e come qualquer coisa. o fazia parecer mais velho. era alto e bastante magro. considerando a sua dor. providenciarei para que nada vos falte. sensação extraordinária. mas. meu irmão. Bernard murmurou uma oração breve e todos nos sentámos à mesa. ele vestia desde rapaz.. O tio Leo. eu nunca vira tanta quantidade de alimentos. junto dos pais. a mão de Deus caíu sobre nós. rapada. galinha. reprimia-se com notável fortaleza. Olhei. pelo facto de a sua personalidade parecer tão reservada e distante. puré de batata. o vinho surtia o seu efeito e eu sentia a cabeça como se repleta de algodão em rama. com cara comprida. Jurei-o à beira da campa e torno a jurar.. ah. enquanto o irmão falou. E deixar-te a ti e ao pequeno. e só nos resta conformarmo-nos com a vontade do todo poderoso. devia ter sido o que mais lhe custou! Com a ajuda do senhor. com o aspecto mais elegante e belo do que nunca. curvada pela massa de cabelo preto e liso. agora. que me fazia esquecer as . ele repousa debaixo da terra. um fato tão apertado e tão lustroso pelo uso que. salvo quanto a um leve tique dos cantos da boca. — Minha pobre filha. tão novo. O discurso de Bernard. não apresentava nenhum sinal de luto. comoveu-me profundamente. A abundância de vitualhas foi para mim outra indicação da generosidade de Bernard. aquilo bem se poderia considerar vestígio de um sorriso sarcástico. Depois veremos o que se há-de fazer por ti e pelo teu filho. transportando. mas não desagradável. este conservou-se silencioso. para o tio Leo. para falar a verdade. ainda mais de louvar se pensarmos nas suas dificuldades financeiras. que se me despedaçou o coração quando o desceram à cova. ao contrário dos outros. pálida e inexpressiva. a sua fisionomia permaneceu inalterável. a mãe não tinha muito apetite. com tão belo futuro à sua frente. Enquanto a tia teresa andava dentro e fora. cheio de lírica intensidade (e que minha mãe escutou de cabeça pendida). Grace. agora tudo acabou. expectante.

— E. — E agora. o nosso pobre con não te deixou muito dinheiro. tanto ao Hagemann como ao banco. ele pagou tudo o que devia. é claro. . — E para bom fim. ergueu então a vista ao tecto. olhando para a mãe com estima e compaixão. disse Bernard. em tom soturno. Bernard ergueu a mão benevolente.. que até aí não dissera nada. com duzentas libras. e também se há-de resolver quanto à conta do médico. como já te disse. — Ele tinha seguro? Não. e perguntou com ar desanimado. — A mãe corou ao responder. minha querida Grace. No entanto.Quase tudo o que possuíamos foi para o negócio de Conor. Que há ao certo no banco? — Insistiu Leo. resta a conta do médico e as despesas do enterro. e tinha o estranho hábito de não olhar para a cara das pessoas. mesmo por cima da cabeça da mãe. observou Leo. a impor silêncio. estás de acordo em que tenhamos uma pequena conversa de família acerca do teu futuro? Pelo que deduzi. evitando como a peste os manjares fumegantes da tia Teresa e contentando-se com um copo de leite. que. e quatro comprimidos tirados de um frasquinho que trazia no bolso do colete..creio que tentou. isso do funeral é comigo. no começo da refeição. Cerca de duzentas libras. Mesmo assim. a primeira coisa que a cunhada deve fazer é vender parte da sua mobília e deixar aquela casa dispendiosa. dominava a situação. mastigado devagar. mas não chegámos a receber a apólice. O tio Leo. respondeu a mãe. sem ofensa.passadas tristezas. deliberadamente voltara o prato para impedir qualquer possibilidade de lhe colocarem ali as iguarias do funeral. um bolo de trigo quente. não se vai longe. Nem mais uma palavra a esse respeito. sempre a olhar para o tecto. Se é que posso expor o caso nestes termos. — Na minha opinião. . muito calma. o mais curioso de tudo eram as maneiras à mesa e as preferências gastronómicas do tio Leo.

Tentarei. bateu no tampo da mesa. como fiz ao meu Terence? Irá mais tarde. I. qualquer coisa me dizia que seriam importantes.. Combinei com uma vizinha tomar-lhe de arrendamento três quartos na sua casa. que estava fria e um tanto trémula. muito bem. . no qual tiveram parte igual o receio e a excitação. Por lealdade para com ele.— Já tenho tudo determinado nesse sentido.. Enquanto Bernard continuava a louvar a minha mãe. A ideia foi excelente. Bernard. — Porquê? Deve valer alguma coisa. receberás encomendas. alheias. no final. ela. produziu-me um verdadeiro sobressalto. — Não quero vender. porém. — Agora não me quero separar dele. mas já eu ultrapassara o estado de atenção coerente. convém transaccionar a representação. Ela olhará pelo Laurence quando ele não estiver na escola. e tê-lo-ia feito se o tio Leo não recomeçasse logo. — Em seguida. Se eu o mandasse para Rockcliff. D. para mim absolutamente inesperada. embora mal o conseguisse. sempre pode fazer qualquer oferta. abanando a cabeça. se haja desinteressado.. A discussão entre a mãe e os meus tios prosseguiu. — Não — Retorquiu a mãe. se está resolvida a isso. prognosticando-lhe. continuou com firmeza: — Conor fez o negócio.. Por baixo da mesa agarrei a mão de minha mãe. apeteceu-me felicitar a mãe por aquela réplica tão tranquila. Sim. talvez. creio que serei capaz da agência. com muito optimismo. entusiasmado.. Estou do teu lado. Íamos então viver com Miss Greville! A informação da mãe. senhora. Vou ocupar-me inteiramente sua e era não desejo ver isso em mãos pessoa. Se se achar comprador.. Mas quanto ao Laurence? Estarás todo o dia em winton. È essencialmente obra de UMA de continuar. e sem ser por causa dos teus bonitos olhos. — Pois então. — Volveu a mãe. és uma mulher heróica. eu tentei prever as contingências adstritas à nossa nova residência e. Ainda que a U. se bem que uma vez por outra tivesse vaga consciência da nota de pessimismo que se depreendia da voz de Leo. Houve um silêncio. todos os êxitos. nada mais se poderá fazer. declarou ele.

porém. soltando um suspiro. que baixou a cabeça e se levantou. Vê se te despachas. devo dar de comer ao cão.Sexta-feira! O cão.. — Se não te precatas. colocou-o no chão e. Terence. . Meu primo observou-me dos pés à cabeça. — Soltando o galgo. bradou: . Está lá fora uma porção de gente com a garganta seca. Terence. Quem te arranjou essa farpela? . .Na pausa que se seguiu. bruto!». deteve-se como que electrizado. -— É verdade.Miss O'Riordan.explicou Bernard. tirou o prato das mãos de nora. Mas hoje não é sexta-feira. sinal de reprovação. cujo movimento de cauda se tornara vertiginoso. senão ficarás sob o seu poder para o resto da vida. — Arranja-lhe o jantar.disse Terry. Não consintas que elas mandem em ti. queres vir? — Acrescentou. olhando para mim. Por uma questão de curiosidade. Calámo-nos. Logo vi. — Primeiro. Terence sacudiu a poeira de um caixote e sentou-se cautelosamente. A homília de Terence não foi para mim muito compreensível. aceitei-a como obséquio à triste situação em que me achava. — Abanou a cabeça lentamente. objectei. Terry.. Quero mostrar o Joker ao nosso primo. creio que se preparava para me dar outros sábios conselhos. nora apareceu. — Este animal é bom católico. mas como parecia manifestar interesse pelo meu bem-estar. Não toca na carne em dias de abstinência. com a baba a gotejar-lhe da boca. em tom de aviso solene. que esperem. que já se lançava sobre a carne. rapaz. repelindo os pulos frenéticos do Joker com as palavras «quieto. Pois não. nora. trazendo num prato uma grande posta de carne de primeira qualidade. nesse momento. Ali diante do prato. as mulheres serão a tua desgraça. Descemos ao pátio por uma escada exterior cuja existência me passara até aí despercebida. fixava Terence com olhos suplicantes. acendendo um cigarro com um vagar que exasperava Joker. — Ele vai abrir as portas do estabelecimento. A vida tem de continuar. E não em muito boas circunstâncias. Aprende a governar-te sozinho.Bem vês — notou meu primo. talvez lhes aumente a sede. o tio Bernard fez um sinal misterioso a terence. Ora cá estamos nós outra vez.

pequeno. É tão infalível como a do papa. — Terence pareceu reflectir. Foi.. que nem uma só vez me dirigira a palavra e nem sequer parecera dar pela minha existência. disse ele. Houve um silêncio de certo modo vazio. no entanto. um cão muito cumpridor. Fiquei profundamente impressionado. Na quaresma. observou quando se retirava. como já passava das quatro horas. converti-o. Leo tirou do bolso das calças lustrosas um punhadito de moedas de prata. e alguém gritou: O — Abram. mas recusara (com grande desconsolo meu. Tive muito trabalho em lhe tirar os hábitos hebraicos. achou uma de um quarto de xelim. Quebrou-o minha mãe. triste e enigmática se imobilizou a meu lado. na verdade.. — Toma. dizia que devíamos ir tomar o comboio. — Isto foi só para tu veres. Terry? Nesse tempo. daqui a pouco dir-lhe-ei que é sábado. Na quaresma concedemos-lhe dispensa. mas por fim. e lembra-te sempre disto. rapaz. o tio Leo. e agora é o mais devoto possível. certo é que parecia causar a nora uma série de sobressaltos que ela procurava conter. aproximou-se DE mim em passo vagaroso. o teu melhor amigo será sempre a tua conta DE banco. Em três dentadas a carne desapareceu. após essa extraordinária demonstração. Havias de vê-lo fingir-se coxo antes de eu o alcançar numa corrida! Aonde este notável diálogo nos conduziria é impossível determinar. pois estava desejoso de renovar o meu conhecimento com nora na capoeira) e agora. ocorreu-me um pensamento. Terence levantou-se sem demora e desobrigou Joker com um gesto e entoação verdadeiramente apostólicos. graças a Deus. E como é que resolves o caso na quaresma.Para o Joker a minha palavra basta. chamando-me do cimo da escada. Enquanto ela punha o chapéu e o casaco. . entre as quais. por amor de Deus! Estamos todos aqui de goela seca. — O Joker nunca falta. depois de busca diligente. — Não desperdices. É. Quando a sua figura alta. mas. de súbito. E o mais engraçado é que o comprei a um judeu. todos os dias são praticamente de abstinência. É dinheiro que custou a ganhar. Tinham insistido para que passássemos a noite em casa do tio Bernard. interrompido por violentas pancadas em qualquer porta que dava para a rua.

impassível. e eu. apesar de suportado com resignação e calma. quais eram ao certo os seus pensamentos? Sem dúvida que acerca de meu pai. como se ela não se tivesse sentido à vontade em casa do tio bernard e o dia. Já o disse a tua mãe. Sem se despedir. e de quanto ele havia sido. os passos da mãe pareciam igualmente mais ligeiros. quanto me regozijei pelo facto de nora me pegar na mão. mas se algum dia precisares de um emprego ou de aprender um ofício. voltou-me costas e afastou-se. ela não dizia nada. através de um crepúsculo sereno e pálido. e ainda um mais pequeno. baloiçando-a sempre enquanto andávamos! E corei de satisfação quando Terry me perguntou se eu ainda era bom corredor. — Parece que o tio Bernard. visto darem ambos para o jardim. ganhando velocidade. vem ter comigo. Eu cá não fui feliz nos meus negócios. nas traseiras do primeiro andar da espaçosa vivenda tínhamos dois belos quartos. Nora e Terence. Achei agradável estar ao ar livre. era apreciável e. não muito grandes mas bem iluminados e alegres. embora os lábios lhe tremessem. vieram connosco à estação. oferecido tão agradavelmente. observou ele.Não ficara com boa impressão do tio Leo. diferente dos outros irmãos. mas nesse momento. como o tio Simon. ambas tão decentes comparadas com o que vira e padecera naquele dia? Não pude decidir. ajustava-se às nossas necessidades. — Há-de fazer por ti tudo o que puder. tudo considerado. se vai ocupar de ti. OU pensaria na SUA situação actual. O alojamento. lhe houvesse representado UMA provação horrível. contíguo àqueles. num comboio que se afastava das caves de Lomond e. vendo-o tão pouco abonado (o que eu já desconfiara) mas ansioso de me dar aquela moedinha. mudança memorável. senti pena dele e agradeci-lhe reconhecido. de novo para além do vale sombrio de Fruin. não só de domicílio como também de vida. agora aliviados das suas obrigações pela presença do pai. nos levava. com a brisa fresca a dissipar todas as impressões estranhas e contraditórias que me haviam tomado naquele breve tempo. em nítido contraste com a vida passada e A educação recebida. antiga . Mas o que então mais importava era estar assim junto dela. XIII NA segunda semana de Abril eu e a mãe mudámo-nos para casa de Miss Greville. Sentados juntos ao canto de uma carruagem de terceira classe. se bem que fosse a mais pequena de todas. fitando-a intensamente. e tão escura e gasta que tive dúvidas quanto à sua validade. compreendi a tristeza que a envolvia.

depois de vir a correr todo o caminho de regresso da escola. fui amplamente compensado pelo golpe surpreendente dado na velha rotina. almoçando em qualquer restaurante de winton). arquejante. o facto representava aos meus olhos mais o propósito de Miss Greville nos querer auxiliar do que a vontade de receber um mesquinho rendimento. às doze e trinta. convertera numa cozinha exígua mas funcional. a nossa situação nessa época era demasiado incerta para poder justificar a frequência de uma escola melhor. se este sonho adorado tivera de ser diferido. No primeiro dia. Segundo ela me confessou. Sem dúvida que houvera o cuidado e a preocupação de tornar a nossa existência confortável. que acertadamente considerou prejudicial ao seu labor! Às oito e um quarto saíamos juntos. Em geral começava por umas papas e em seguida comíamos cada qual um ovo quente e torradas com manteiga. e disse: — Bom. Também dispúnhamos de uma casa de banho. com medo de chegar atrasado. como não sabia qual a quantia exacta que a mãe pagava mas que devia ser modesta. todas as manhãs a mãe se levantava às sete horas e fazia o nosso primeiro almoço. já que a querida mãe passava fora o dia inteiro (não voltava antes das seis horas da tarde. com o polegar metido no cinto. a mãe vestia o seu fato de trabalho. pelo menos no início. custa-me acrescentar. Vai lavar as mãos e penteia-te. Depois dessa colação ela lavava a loiça e eu enxugava-a. almoçar na companhia de Miss Greville tornou-se o encanto e ao mesmo tempo. à escola. dir-se-ia que a animava e fortalecia. Enquanto a mãe tomava várias xícaras de chá muito forte. ainda não perdera aquele ar oprimido que me assustara quando regressei de Port Cregan. foste pontual. relanceou a vista pelo relógio de bronze e porcelana. Ali. . com grande aversão. até insistira. de pé. o comboio das oito e quarenta. de tecido cinzento escuro. mas é a verdade. que ainda se tratava da de Santa Maria. que alívio vê-la sem o preto sinistro do dia do funeral. não conseguia fazer nada sem principiar o dia com o seu chá forte. e. quando entrei. ela esperava-me na casa de jantar. a prova crucial da minha vida. Todavia. no vão do patamar.alcova que Miss Greville. Miss Greville propusera. eu para me dirigir. com a instalação de fogão a gás e pia de loiça. que eu tomasse com ela a refeição do meio-dia. sem qualquer relutância. principiamos uma vida nova. a mãe para tomar. e então enquanto me acabava de arranjar. da prateleira do fogão. eu ingeria um copo de leite. pois. nessa reduzida acomodação. apesar de parecer sempre triste.

e pessoas. de desporto (se preferires). bastaram para me atrapalhar e intimidar. música. serás tu. Já vi essa rocha. Senti-me corar. constituiu grata novidade. Por muito amiga que seja da tua mãe. e Miss Greville indicou-me o lugar. . Depois de haver apanhado. volveu Miss Greville com frieza. Carroll. Deixei cair o guardanapo e tive de o procurar. antes de tu mesmo ocupares o teu lugar. A primeira pessoa a ser discutida. quente e. quando vieres para a mesa deves daqui por diante arrastar-me a cadeira e verificar se estou bem sentada. Trataremos de acontecimentos corriqueiros. Para começar. Para um pequeno carinhosamente designado por Laurie. senhora. que abraces o ideal espartano. Queres ser assim? Não. entre os quais avultavam dois faisões de prata. Penso que não quererás vir a ser um ensimesmado. Repara que te trato simplesmente por Carroll. Conheces sem dúvida a cidade grega de Esparta. por isso. o almoço. deverás cultivar a arte da conversação. ouvi Miss Greville observar: — Vamos ter a nossa primeira conversa. As apalpadelas. assim como a disposição dos pesados talheres do mesmo metal. livros. servido pela velha criada Campbell (que procedia como se eu não existisse) foi delicioso. simplesmente atiradas da rocha abaixo. Miss Greville. Visto que és actualmente o único deste nome. respondi humildemente. Percebeste? Sim. que espero seja sempre agradável para ti. Carroll. melhor ainda. debaixo da cadeira. durante o almoço. para mim. ou. Então deixa de ter pena de ti. o emprego do apelido só podia parecer uma agressão brutal aos meus sentimentos. Sentámo-nos. onde as crianças fracas eram enjeitadas e morriam ao abandono. Proponho-te. Sabes o que isto é? Uma criatura perpetuamente condoída de si mesma.Voltei. e só em raros casos por Laurence. — Além disso. Os acessórios da mesa. acho que estás a sofrer de um excesso de benevolência maternal. não há razão para te chamar menino Carroll. de história natural. Oh! — Murmurei.

permanecia fixo no relógio. passavam grande parte do tempo exercitando-se. miss greville concentrou-se. estragado com mimos e sem nenhuma decisão. Embora ela me houvesse ofendido. Espero aqui por ti às nove em ponto. Carroll. Então amanhã. Com um leve sorriso. mas basta de história. disse ela firmemente. a indignação começava a ferver em mim. senhora. Carroll. jogavam com uma bola cheia de sementes. ela levantou-se e. disse eu um pouco a medo.respondi. começarás a aprender. de súbito. — Miss Greville olhou-me calmamente. — Sabes alguma coisa de botânica? Não. e o sorriso . aos sete anos. Mordi os lábios com força para reprimir as lágrimas. Que companhia há-de ter? A minha. por agora é suficiente sugerir-te a vantagem de um banho frio todas as manhãs e de exercícios que fazem enrijar o corpo e circular o sangue. espeta-os na carne.— Agora responde. eu não queria que me repudiasse. Mas lembra-te de que o garfo não é uma pá. como é sábado. na palestra. Mantendo-me assim submetido. andavam descalços. Além disso. a triste verdade. nunca mais quero saber de ti. ela sorvia lentamente o café. corriam. nos lábios. Carroll. lutavam. sob vigilância competente. deteve-se. avançou para a janela. pegando na xícara de café que lhe haviam servido. Tão magoado fiquei que os olhos se me arrasaram de água. Repudio-te. meio escondida. onde. A frase «anormalmente solitário» deu-me no goto. tão peculiar. afectando desdém. queres ser lançado da rocha ou viver como um verdadeiro rapaz grego? . O seu interesse era conservarem-se vivos através de várias competições próprias de cada idade. no entanto. brando em excesso. dir-se-ia absorta no invisível. eu vi-a ali de pé. O olhar. Quando este bateu uma hora. como é que um rapaz na minha situação pode deixar de ser solitário. Desde o dia em que entravam na escola.E como viviam eles? — Perguntei. E agora serve-te doutra costeleta. Os seus dentes são para ser utilizados. é que te acho um pequeno anormalmente solitário. fascinado. — Se choras. com ar sombrio. por trás da longa cortina de rendas. — Talvez queira explicar. aprendiam a atirar projécteis e a repelidos.

aprofundou-se. Por fim voltou para dentro, com uma expressão satisfeita, quase alegre, e poisou a xícara na mesa. — Podes ir-te embora, Carroll, disse em tom afável. — E não te esqueças. Amanhã de manhã, às nove. Nessa tarde, na escola, em vez de prestar atenção a Soror Margaret Mary, que se esforçava por nos ensinar os princípios das fracções, meditei tristemente, quase heroicamente, nos insultos que recebera, e, à noite, quando a mãe voltou de Winton, informei-a de que não estava disposto a sujeitar-me aos planos que Miss Greville concebera para mim. — Acho que deves ir, meu filho, disse a mãe, apaziguadora. Estou certa de que ela faz isso para teu bem. Assim se tornou evidente que a mãe estava associada à minha detractora. Na manhã seguinte, entre apreensivo e curioso, compareci à hora marcada. Miss Greville apresentava uma figura um tanto singular. tinha uma saia de mescla que, muito mais curta do que parecia conveniente, deixava à mostra a barriga das pernas musculosas metidas num par de sólidas botas de cabedal, o chapéu verde à tirolesa, de aba virada de um lado e encarrapitado na cabeça, tinha um ornamento que em nada se distinguia do traje, pusera a tiracolo um estranho recipiente lacado de preto. —Isto, explicou ela, notando o meu espanto, é a caixa para os especímenes. E aquilo é o nosso almoço. Tu é que o vais transportar. Pegando numa mochila de coiro tão escurecida pelo tempo como as botas, ajudou-me a afivelá-la às costas, e em seguida iniciámos a marcha. Em passo cadenciado, fomos pela nossa rua até Sinclair Road, que levava directamente à colina. Miss Greville segurava um curioso bordão ornado de pequeninas insígnias de prata. Apeteceu-me perguntar-lhe o que significavam, mas subíamos com tal ímpeto a ladeira que achei mais prudente poupar o fôlego. Além disso percebia que os transeuntes nos lançavam olhares de mofa, os quais a minha companheira desprezava em absoluto. Chegámos ao cimo da encosta sem trocar uma palavra. Em breve passámos pelas últimas vivendas espaçosas que se ostentavam no meio de grandes jardins em que já avultavam pinheiros, a civilização ficara para trás de nós, achávamo-nos em plena mata. O suor descia—

me para os olhos, a respiração provocava-me um ruído sibilante. Quando compreendi que Miss Greville achava que esses pinhais ainda não eram suficientemente remotos e pretendia arrastar-me para a charneca distante, estive quase a esmorecer. Contudo, não dei parte de fraco, por mais débil que fosse a minha coragem, aquela mulher abominável e absorvente conseguira insuflar-me novas energias. Queria demonstrar-lhe que não era o rapazinho que os espartanos precipitariam do alto da rocha. Com a garganta seca e o coração aos pulos, continuei a acompanhá-la, às vezes a meio trote, recusando-me a ficar para trás, e quando, por fim, saímos da mata e entrámos no imenso espaço vazio, que se estendia por muitas milhas através do vale de Fruin até às margens do lago, eu ainda seguia, embora exausto, ao lado de Miss Greville. Aqui, felizmente, ela parou, olhou para mim e tirou o relógio do cinto. Uma hora e vinte minutos, participou. — Não foi de todo mau. faremos melhor, quando te aperfeiçoares. Estás cansado? Não, senhora — repliquei mentindo. Observando-me com atenção, pela primeira vez, sorriu e disse muito animada. — Então começaremos o verdadeiro objectivo do passeio. Tem estado um inverno sem neve, e, se tivermos sorte, acharemos coisas interessantes para a tua colecção. Segui-a pouco entusiasmado, enquanto Miss Graville, curvando a cabeça, se embrenhava devagar no matagal. — Deves conhecer as plantas vulgares da charneca. A urze, ainda não em flor, o tojo, a giesta... e o linho-dos-brejos, de penachinhos brancos que voam no vento... — fez uma pausa. — Mas já conheces esta... — Não, senhora, respondi mal humorado. Ajoelhara no chão e, afastando as ervas, mostrava-me uma plantinha delicada de folhas pontiagudas, coberta de flores amarelas. — É a canafrecha, Narthecium ossifragum, uma das liliáceas. Apesar da minha má vontade, impressionou-me não só a sua manifesta erudição como a inesperada descoberta daquela flor oculta, cintilante. — Arrancamo-la?

— Não. Vamos apenas colher um racimo para imprensar. — E apanhou uma simples haste que, um tanto para minha surpresa (visto que eu decidira não cooperar), aceitei e guardei na caixa. Continuámos a andar por uns minutos, sem nenhum incidente, até que ela se deteve outra vez. — Ora ali está qualquer coisa pouco vulgar. A orvalhinha, de folhas redondas, drosera rotundifolia. Enquanto eu olhava para a graciosa roseta, Miss Greville prosseguiu: — Cada folha, como vês, tem várias ordens de pêlos de um tom carmesim, com cabeças redondas, lembra os tentáculos da anémona do mar. De facto o seu fim é idêntico, segregam um fluido pegajoso que prende os insectozinhos que se arrastam na folha. Os esforços que eles fazem para se libertar irritam os pêlos, os quais se curvam sobre o insecto, que assim fica seguro e é digerido e assimilado pela planta. Percebo! — Exclamei, admirado. — É uma planta papa-moscas. Exactamente. Esta vamos arrancar. Não lhe tenho grande amor, plantá-la-emos em terra musgosa e tu poderás, lá em casa, observá-la em acção. — Poderei realmente, Miss Greville? — Por que não? Consentiu que eu manejasse o saehinho tirado da caixa e, depois de arrecadada a planta, fez um gesto como que a libertar-me. — Agora que já estás iniciado, Carroll, vai procurar sozinho, chama-me se vires alguma coisa digna de interesse. Obedeci com uma prontidão que eu não acreditaria ser possível, ansioso por demonstrar a minha perícia de explorador. para desgosto meu, embora Miss Greville parecesse estar a obter êxito, os meus olhos experientes não descobriam nada. mas por fim, quando menos esperava, topei uma flor magnífica, erecta no meio da eiva murcha, grande como um jacinto e de um bonito tom de púrpura, Miss greville! — Chamei. — Venha cá se faz favor, aproximou-se. Veja, Miss Greville, não é uma beleza? Confirmou com um generoso movimento de anuência.

— É a Orchis maculata, raiz tuberculosa, brácteas verdes, trinervadas, um espécimen de primeira ordem, felicito-te, Carroll, se descobríssemos a sua congénere, a Moris, poderíamos considerar-nos afortunados. Corei de orgulho, cuidadosamente, ela cortou duas flores do caule espinhoso e, com outros exemplares que havia colhido, permitiu-me que as guardasse na caixa, encontrávamo-nos agora num côncavo arrelvado da charneca, provavelmente uma antiga pastagem, abrigada de um lado por uma rocha alta, Miss Greville ergueu os olhos, O sol pálido estava mesmo por cima de nós. — Não te parece, Carroll, que é bom sítio para se almoçar? Concordei imediatamente com a escolha do local. — Vamos lá ver o que a Campbell nos arranjou — disse ela, abri a mochila e peguei reverentemente nos guardanapos húmidos que embrulhavam várias iguarias, entre as quais notei, com prazer, que havia salsichas dentro de pãezinhos feitos em casa, por fim descobri, junto da garrafa de café, uma limonada da marca que eu mais apreciava. Isto comoveu-me tanto que exclamei: — Oh, Miss Greville, foi tão bondosa! A não gosta de mim , não costuma exteriorizar não responde quando eu lhe falo. A Campbell disposta a conversar. além disso é um tanto campbell é que foi, ela os seus sentimentos, mas talvez não esteja surda.

Arrumado este assunto, começámos o almoço. como este excedia a minha expectativa, comi grande parte dele, o que foi favorecido pelo facto de Miss Greville não ter dado muito apreço às salsichas. havia tirado o chapéu e estava sentada muito direita, de olhos semicerrados e com aquele sorriso que concedia à alma da charneca, de tempos a tempos, enquanto mastigava resolutamente, eu olhava receoso para ela. O vento cantava nas estevas, por cima de nós, em círculo, voavam narcejas, piando no céu azul, mais nenhum som, a não ser o zumbido de alguma abelha. — Dá licença que diga uma coisa, Miss Greville? — Atrevi-me a perguntar, lançando mão da última sanduíche de agrião e ovo. — Parece-me que vou gostar muito de botânica, imperturbável, ela inclinou a cabeça. — Então vamos fazer mais, ainda temos de encontrar uma orchis moris para reunir à tua Orchis maculata. Demorámo-nos ainda um bocado e depois recomeçámos na busca, não nos embrenhando muito no matagal mas cortando-o em direcção ao caminho, cheio de ardor botânico, excedi-me verdadeiramente,

— Sim. Judas. quando finalmente tomámos a estrada. Chegámos a casa. mas agora. achei uma orquídea rara. tive um dia óptimo.O reverendo Lesly tem dotes excepcionais. porém o peito estava cheio de ar puro. se bem que o celibato não seja naturalmente imposto ao nosso clero. disse-me ela. tinha as pernas cansadas. separei-me de Miss Greville e subi para os meus aposentos.Recompôs-se imediatamente. mas quase sempre sozinho. embora eu automaticamente suspeitasse de todos os sacerdotes de credos diferentes do meu. filho. além de uma planta que come moscas. respondendo a uma pergunta sua.deparámos a orquídea Moris.era a descer. que estava em maré de louvores. com o reverendo Lesly. com a caixa das plantas. das quais Miss Greville sabia os nomes latinos. se bem que sempre longa. — que belas cores adquiriste! senta-te aqui a meu lado. os de S. Miss Greville vai-me ensinar a prepará-las e vai também cortar secções para o seu microscópio. muito pertinho. e. E conta-me tudo a esse respeito. Judas. — Puxou-me para si E apertou-me com força. A tarde declinava. ou talvez isso fosse devido aos halteres leves que Miss Greville colocara no . João. de pimpinela amarela e erva de S. e exemplares de murta. —. estamos sob muitos aspectos de acordo convosco. vigário de S. também me mostrou um ninho de tarambola com quatro ovos e um grupo de medronheiros que em poucas semanas teriam fruto. ouvi-te. é também um espírito largo. a igreja de miss Greville. enevoando-se. às vezes em companhia de miss Greville. A mãe estava sentada. com efusivos agradecimentos. considerei o homem bastante simpático e. esta inflação e uma sensação inebriante de façanhas cometidas acompanha-ram-me durante um encontro inesperado — que noutras circunstâncias me enervaria. Quando levantou a cabeça. a sua expressão pareceu-me tão preocupada que perguntei: — Não me ouviu ? Que aconteceu . a minha paixão pela história natural teve ao menos o mérito de me tornar mais saudável. trazemos outras de várias espécies. ? XIV DURANTE essa primavera e verão seguinte passei horas de felicidade e bem-estar nas charnecas. — Mãe. fazendo contas numa folha de papel. declarei-me católico de uma maneira que Miss Greville mais tarde elogiou. — Nós.

em que predominava a beterraba e que tinha o nome de bortsch. quando me achou útil para a localização dos ovos de aves daqueles sítios. quando queria alardear. ele devia ter-se certificado da minha inocência. . e até arranjou oportunidade de se encontrar comigo e de conversar. o conteúdo da minha caixa de especímenes tranquilizou-o em parte e a gíria botânica que eu usei para me justificar convenceuo provavelmente de que estava a lidar com um maluco. meu defunto pai caçava grandes quantidades nos baldios do Yorkshire. discernia a diferença subtil que vai do quinquefólio a uma sete-em-rama. a sua tarefa consistia em conseguir a maior quantidade de caça para o dia 12 de agosto. Se os passeios solitários pelos tojais me não proporcionaram a tão ambicionada camaradagem de alguém da minha idade. sabia os nomes de todas as plantas silvestres existentes entre Ardfillan e o vale de Fruin. um couteiro. pensativamente — com essa ave. Carroll. observando-me através do seu óculo do ofício. Sabe uma coisa. depois de uma apresentação penosa (quando ao ver o meu vulto recortado no horizonte o guarda john mackenzie veio a correr para me acusar de destruição de ovos de galinhas silvestres). continuava a animar-me com o ideal helénico. o certo é que me trouxeram a amizade incrível daquele espectro dos meus primeiros anos de infância. a qual. tanto no prato como fora dele. em diversas ocasiões. mais tarde.mau grado essa deficiência inata. a qual delas te referes? Ao galo silvestre. com exemplos convincentes da austeridade seguida pelos corredores que se treinavam para os jogos olímpicos. creio que por fim mereci o seu respeito. Carroll. até era capaz de cortar em secções e colorir uma planta para mostrá-la à mãe no velho microscópio Zeiss de Miss Greville. — Não foste dotado com uma anatomia muito notável.meu quarto e aos banhos frios matinais. que apesar das objecções da minha mãe eu persistia em tomar sob os conselhos da minha mentora. miss Greville? — Comecei eu certa vez. mas sentia-me mortificado quando miss Greville procurava em vão os primeiros sinais do progresso dos meus bicípetes. sei muitas coisas. e. tens de a melhorar. como couteiro do vale de Fruin. porque ele se deu ao trabalho de me fornecer temas estimulantes para a minha conversa ao almoço com miss Greville. depois de provar com satisfação a primeira colherada de uma sopa de tom vermelho. Estou familiarizada — respondeu ela. além disso aperfeiçoei-me deveras no conhecimento da charneca. comecei a desenvolver-me.

que os está sempre a contar. absorvido nas minhas digressões botânicas. Que disparate. Não é isso. nunca perdem o apetite. PODEM ARRANJAR-SE perfeitamente sem mim. a fêmea bebe muito mais quando está a chocar. porque amava e confiava nela mais do que em ninguém. respondia A MÃE — E REALMENTE NÃO estou COM disposição PARA TOCAR. por fim. — Também a água é necessária. com muitas raízes. miss Gillbraith e Alice Charteris vieram visitar-me e agora é altura de um pouco de música. Miss Greville levantou a vista da sopa. dedo apoiado à face e lábios movendo-se ao de leve. — Mosquinhas! — declarei. naquelas aventuras sentir-me-ia feliz durante as férias grandes se não fosse a mudança. triunfante. só certo número tem licença para ali estar. Grace! Todas NÓS A desejamos. sugeriu ela. E que mais ? Abanou a cabeça. mal reparava no seu olhar tão alheado quando ao fim do dia ela regressava de winton. em sorrir. Miss Greville. operada em minha mãe. fazendo uma aparição inopinada no andar de cima. com expressão abstracta. Grace? — dizia miss Greville. e isso só lhe faria bem. Já calculava — volvi. que de súbito se me tornou evidente. A contar carneiros? então sofre de insónias? — Indagou. O quê?! Espantas-me. Foi com certo orgulho que falei em proteínas. — Alegra-me que não tenhas perdido o teu. que quando a avezita voa. e manter as poças da charneca aptas à procriação dos insectos em proteínas. nem eu podia adivinhar a depressão moral de que ela sofria. mas comem noite e dia os renovos das urzes. serve-te de mais sopa. Carroll. — É por isso que se devem queimar as urzes velhas. miss Greville. as ovelhas pastam na charneca. ou como às vezes ficava sentada. consentiu. sempre imaginara que resistiria à morte do pai. só com cinco dias de existência. — Que melancolia é essa. além da perda da companhia e apoio do marido.Mas sabe. Miss Greville. são piores do que os corvos. . não poderia sobreviver sem duas coisas? Os raminhos novos da urze. é claro que os rebanhos são a maior praga que aflige o senhor mackenzie. como se falasse sozinha. — Tem de ir comigo lá para baixo. SINTO-ME CANSADA. O senhor mackenzie era de facto um homem instruído.

— isto é terrível. condescendente consigo mesmo. nem um só problema financeiro nos ameaçava. aqueles SERÕES musicais enervavam-na bastante.. E a soma é grande? Enorme! Invadiu-me uma onda de indignação. sempre endividado e à beira da falência. sentou-se. que deve a outras pessoas e que está muito atrapalhado. dispendiosos. Diz que não pode. O tio Bernard era um homem sem noções práticas. tudo corria bem. detestáveis. tudo continuaria como dantes. dignas sob todos os aspectos. eu ouvi. o correio trouxe uma carta para a mãe. Certo dia. era sincero nas suas promessas e nas generosas ideias .. meu deus! — exclamou em voz angustiada. — Que foi. que lhe vão demolir o prédio. no caso presente. mãe? Como se perdesse as forças. E quando a mãe cedia às instâncias. pareceu-me que lhe faltava a respiração e vi-a levar a mão à testa. Não há direito de fazer uma coisa dessas! ele é um. como outros do seu género. E agora a conta. andava cheio de boas intenções. Assumiu toda a responsabilidade. e no entanto procurava viver bem e dar conforto aos filhos. além disso. com a na mão.Estas amigas de miss Greville eram professoras na escola de Santa Ana. A mãe relia a CARTA. acontecimento tão raro que eu aguardei cheio de curiosidade quando ela a abriu e a leu. prometeu pagar todas as despesas do enterro. antes de morrer. perfeito indesejável. é-me enviada com a ameaça de um notificação. — A mãe estava quase incoerente. mas vi que precisava de desabafar comigo. estava tudo regularizado. por essa razão tivemos todos aqueles luxos desnecessários. — Ele é que deve pagar. mas o tio Bernard não concordou. — Teu pai. disse-me que queria um enterro muito simples. CARTA — O tio bernard manda-me a conta. a mim afigurava-se simples e natural que a mãe se ocupasse dos negócios do pai. que eu supunha liquidada há muito tempo. de repente. Contudo havia responsabilidades às quais eu compreendia que nem um quarteto de Haydn podia DAR alívio. não se justificaria muito. — Esta palavra eu aprendera-a com Miss Greville e. —oh.

onde havia uma rima de documentos. d efeições regulares. deixando cair um pouco de caspa na gola do casaco. calmo e pensativo. preparara-se uma merenda abundante. — Tinha um lápis na mão e. não só nessa ocasião acreditava que não faltaria à palavra dada como muitas vezes. diz que naturalmente terá de abrir falência. Não é a primeira vez que fala da falência — retorqui. revolvia o cabelo preto. debruçados sobre a mesa. quando voltei. escreveu-lhe. de modo que não apressei o meu regresso. a mãe deu-me dinheiro e disse-me que podia ir à cidade comprar uma lata de caramelos. mas decerto lhe faltou o dinheiro.de bem-fazer. implacável. e eu levei a carta ao correio. pois. por uma espécie de alucinação. preciso de pensar na educação do Laurence. com a outra. como vimos no dia do funeral. talvez a mãe sentisse isto. Stephen chegou num sábado à tarde. estavam ainda a conferenciar. Há gente que vive desse modo. com fiambre e salada de batata. falava pouco. contudo. cuja mão segurou por muito tempo. quando acabou. não haverá disputas mesquinhas sobre a tua sepultura! A carta de Bernard devia ter feito a mãe sentir-se muito só. e bela testa de intelectual com tendência para vincar uma ruga de estudioso. não havia probabilidade de comunicar com Leo. embora nunca escrevesse à família. moço pálido. porém mostrou satisfação em ver A mãe. — Uma vez tudo liquidado. todavia a-responsabilidade recai sobre mim e eu quero pagar tudo. Eu sabia que queriam conversar. se convencia de que cumprira tudo. que se achava na universidade de winton. incluindo essa conta inesperada. ainda ficarás com cento e cinquenta libras no banco é pouco. os seus negócios correm mal. e todo o conforto possível. . podia fazê-lo agora ao irmão mais novo. o tio Simon estava nos seus claustros de espanha. Era natural que ela procurasse estímulo noutro lugar. porque suspirou. Suponho que queria pagar. bastaria esta cena para se compreender a afeição que entre eles existia. e acrescentou para si mesma: — meu pobre Conor. bem delineadas. com boa comida e bons fatos. — a mãe falava lentamente. estava exactamente como eu me recordava dele nas suas raras visitas a Ardencaple. fitando-a interrogativamente nos olhos. — As coisas vão muito bem. Grace — dizia Stephen. Realmente não deves apoquentar-te. Stephen. sem mais delongas. — E sai-se sempre bem.

— Não posso lidar com eles familiarmente diante de uma garrafa de cerveja. e declarou que eram horas de ir tomar o comboio.Mas tens o teu trabalho. — Voltar atrás. é extremamente fácil de gerir. um simples ingersoll de cinco xelins. — Mas em que condições? não posso aceitá-las. grace. que pensaria ele de mim se de repente me retratasse e dissesse: «agora tens de esquecer tudo o que te ensinámos de pequenino e submeteres-te a ideias diferentes»? Além de ser cruel. se formou com distinção na universidade e obteve outra bolsa de estudos.. seria também um acto de deslealdade para com. — Extraordinariamente importante. igual ao meu. O negócio. A cabeça. tão novo e inteligente.. e terás outra vez um lar confortável. fingir que estou arrependida. especial para investigações? Não gostarias de lhe seguir o exemplo? Sem dúvida que gostaria. a mãe sorriu-me. mas por que não reconsideras na oferta do nosso pai? Para quê? — Redarguiu a mãe. Hagemann foi justo em garantir as entregas nas condições anteriores. que cometi um erro terrível. consultou o relógio. mas já não. Laurence. e as encomendas não diminuíram. Fazem-mas somente porque têm pena de mim e porque gostavam do Conor. como fazia o pobre Conor. mas agora vou ser boazinha e fazer as pazes? Creio poder garantir-te que serias bem acolhida. . sabes quem. a mãe abanou como antes. — Também hão-de gostar de ti. como depreendo. por um momento. A mãe abanou a cabeça. pareceu debater consigo mesma qualquer questão. tão desanimada. depois. o defunto. reunindo os papéis: — Sabes. que o teu tio. com um olhar cauteloso para mim. A ideia da mãe com uma garrafa de cerveja era tão cómica que soltei uma risada. e por causa de. Não quero teimar contigo. isso fez com que erguessem a vista para mim e. é para ti um ponto tão importante como isso? A mãe. em seguida. disse em voz baixa à mãe. Stephen pôs-se de pé... de olhos baixos. rodeada da tua família.

durante aquele inverno. está feito. ela já tem bastante com que se preocupar. à qual eu tinha livre acesso. Nas memórias de quem. Laurence. tão frio. não a amava eu de todo o meu coração? Infelizmente. e está a fazer sacrifícios por ti. no entanto. de todas maneiras possíveis. Por fim. por coisas de que Não precises realmente. e não repudio. poderia ficar na pátria. as promessas feitas com tanta prontidão depressa foram esquecidas. acarinhar. uma biblioteca típica de casa de província da época. herdada do pai.. a um canto afastado e . por modéstia. constara-lhe que eu era esperto e para um rapaz órfão de pai o trabalho perseverante era o caminho do êxito. suponho. estendido no chão. respeito-te por isso. prudente e vigilante. mostrava-se pessimista quanto às suas probabilidades. deu-me este conselho: Não aborreças a tua mãe. prometi ser reflectido. se tirasse uma nota alta no exame.— O que está feito. grace. não me lastimo. até que stephen falou: Acho que tens razão. devorei aquelas páginas com voracidade crescente. aproximava-se o inverno. seguiu-se um longo silêncio. a mãe. esta conversa que eu não compreendi fez-me no entanto sentir-me pouco à vontade. o que não implicava necessariamente o embarque. se aventurou a relatar os anos da sua infância. húmido e nevoso. Por este motivo me coíbo de apresentar um catálogo e declaro apenas que li tudo. fiquei contente quando Stephen me pediu que o acompanhasse à estação. pois. condições climatéricas que normalmente se encontram nessa estação em tais latitudes. nada mais aborrecido do que a enumeração longa e fastidienta das obras que o autor leu e o conduziram à formação de um gosto literário que se revelou excelente. disse-me que ia tentar o funcionalismo civil do ultramar. No trajecto animou-me a estudar com afinco. literatura boa e má. era. como eu. própria para recreação do espírito.. pouco antes de o comboio partir. volumes bem encadernados. sim. e uma nova paixão começava a absorver-me. XV Miss Greville possuía uma grande biblioteca. Mas a forma da minha leitura pode merecer anotação apenas pelo facto de ter sido tão má.

Nessa tarde. miss Greville! O Senhor Jorrocks acaba de dar uma queda do cavalo. conhecendo Hester Pryne quando criança. tudo entre o almoço e a merenda. — Ainda tens aquela bola que te dei? — Tenho. Carroll. juntei-me ao senhor Jorrocks na sua perseguição da montada. mesmo a dormir. está numa gaveta do meu quarto. no meio das quais eu me perdia como em transe). Num sábado de março. — Vai buscá-la — ordenou.necessariamente escuro da sala. isso não se faz. recordo-me perfeitamente da minha corrida através da letra escarlate no espaço de uma breve tarde. jorrocks é interessante. por obscuros processos que me ultrapassavam. contudo. quando eu estava outra vez embrenhado na leitura. Carroll. sim. não queria. senhora. e enterrando-a logo a seguir. os efeitos físicos não tardavam a manifestar-se. no entanto eu continuava. com o nariz em cima do livro. Tinha os olhos vermelhos e a arder. Abrandou um pouco. miss Greville? Ler constantemente. e dava mil voltas na cama. tão fortemente me achava sob o domínio desse narcótico. sentia dores de cabeça. miss Greville reapareceu. ergui os olhos do volume que eu lia estirado no soalho. — Sim. aliviado. não só omitia muita coisa como adquiri a habilidade irreverente de apanhar o sentido de uma página quase por absorção visual das palavras e frases. Miss Greville observou-me com desagrado. e James Pigg. quando os primeiros raios do sol pálido da primavera se infiltravam na sala. não vês o sol lá fora? ONDE está o meu juvenil espartano? Mas isto é tão bom. fui lendo sempre na maior rapidez. técnica de velocidade que se aperfeiçoou com o hábito. o pescoço endurecido. — Na realidade. . nunca a utilizara. não podia desistir. trabalho de péssima assimilação que mesmo os mais peritos críticos profissionais poderiam invejar-me. ou melhor. saiu. Fossem quais fossem os resultados mentais desses esforços (e a minha imaginação agitava-se com visões fabris. Mas tudo tem um limite. O quê.

se fosse possível (visto que ela seria a responsável). havia jogado com os irmãos quando rapariga e chegou a tentar introduzir o jogo na escola de santa ana. ela tinha sido educada no críquete. enquanto um quarto. Carroll. que em parte contribuíra para a sua demissão daquele estabelecimento pretensioso. olha que é com óleo puro de linhaça. arregaçou as mangas da blusa. Depois de eu ter aceitado a pá. ideia mal recebida. Como o grande estilo de miss Greville me irritava e eu me ressentira pelo facto de me haver arrancado à leitura. — Atenção! — disse ela. deixando à mostra braços tão musculosos como a barriga das pernas. e. arremessou-me a bola muito por baixo. através de uma janela. vê se a conservas bem oleada. com ar atarefado. Três paus do jogo do críquete estavam fixados no extremo do relvado. protestei. e o meu wicket caiu por terra. dava . e eu. bem contra vontade. avançando. numa corrida curta e enérgica. embora os meus conhecimentos do jogo fossem rudimentares. Entretanto postei-me no devido lugar e tomei a atitude de defesa.veio rasteira de mais. dei uma volta desastrada. — Isto agora pertence-te. um yorker. falhei. após outro quarto de hora de . onde coloquei a bola. ela despiu o casaco da malha e. palerma! A minha humilhação durante os quinze minutos que se seguiram foi uma coisa séria. acto que mais tarde me deu o direito de afirmar que começara a minha carreira de jogador de críquete com uma bola usada no campo do Lord's no desafio entre Eton e Harrow. miss Greville pegou na pá e manejou-a. enfraquecido. sabia que tinha boa vista e não me sentia nada mal de pá nas mãos. em silêncio. ora jogava alto. então. ora jogava para a minha esquerda. só quando. ora repetia os yorkers.Obedeci. e submeti-me ao seu desejo de me levar ao jardim. Pancadas à toa e em vão. avultava na extremidade da casa. me convenceu da necessidade de acertar em cheio na bola é que a minha instrução começou. apresentou a palma da mão. contra o qual se apoiava uma pá. e com tão bom resultado que. resolvi atirar a bola para fora do jardim e. desta maneira.

— Iça-te para trás de mim quando eu começar a andar. era a sua habilidade em me comunicar entusiasmo. Fiquei apaixonado pelo críquete e tivemos inúmeros jogos durante aquela primavera seca e suave. tão infeliz. Uma das qualidades dessa mulher notável e. para sair. miss greville precisa de ti. quando conversava com minha mãe. campo de jogos do clube de críquete de Ardfillan. atingi o projéctil com o bojo da pá e o repeli para os degraus da porta da casa. admirei fotografias de alunos do melhor colégio. com a dona encarrapitada lá em cima. onde eu. miss Greville estava à minha espera. partilhando do seu triunfo quando ele marcava muitos. miss Greville ficou um tanto pensativa e. A bicicleta de miss Greville era de boa marca mas tinha o selim muito alto e uma forma tão pouco ortodoxa E original que não podia deixar de atrair a atenção dos transeuntes. o que eu desejava era ser um jogador famoso de críquete. a pedalar energicamente E eu pendurado atrás. desgostando-me bastante quando ela nada conseguia. depois de eu ter dado uma belíssima tacada que sepultou a bola no bardo de groselheiras. No dia seguinte. mostrou-me a revista Captain. vem depressa para casa. . no começo de junho. com ciumento enlevo. cujo nome estava na minha pá e cujo número de pontos feitos eu seguia com o maior interesse no Winton Herald de Miss Greville. disse-me: — Amanhã. encontrava-se ao portão. a mãe. mas estes olhares risonhos facilmente os esqueci quando no extremo oeste da vila percebi que íamos para Willow Park. com a pá do críquete presa por uma correia. de Nottingham.experiências. mas vestida. recomendou ela. como George Gunn. casaco escuro e boné às riscas ou gironado. coitada. Haviam-se acabado as minhas expedições ao campo. grupos olímpicos de calças brancas. de chapéu tirolês. e a sua bicicleta. Certa tarde. notei que à noite. regressei da escola a boas horas para o nosso jogo habitual no relvado. mais tarde. a minha ambição de sobressair como botânico. depressa despertou a curiosidade do público. logo que acabes as aulas. se mostrava satisfeita. embora não fizesse nenhum comentário. embora desportivamente.

obrigado. miss Greville. gritou: — Heston! O interpelado aproximou-se. no meio da elipse verde.dê-lhe três ou quatro lições por semana e mande-me a conta. — Quero que tome conta deste. na verdade. heston? — Perguntou ela. em direcção ao recinto de relva rigorosamente tosquiada. Heston reprimiu um sorriso triste. — Veremos isso. para os rapazes de Beechfield. em baixo. miss Greville encostou a máquina ao pau de bandeira. e. estendendo-lhe a mão. — Ainda é treinador. pondo as mãos na boca. parente próximo de uma gargalhada. Heston? — Sim. e nós desmontámos junto do elegante pavilhão branco. senhora. miss Greville. entroncado. Você também não é muito grande. em especial nos feriados. baixo. com assustadora irreverência. venha cá. mas rir. . e eu estremeci sob a sua expressão duvidosa. há muito que não vejo a senhora.a última vez foi em Santa Ana. Entrámos no pavilhão. à sua qualidade de profissional. um homem de calças brancas enxovalhadas e camisola velha empurrava lentamente um cilindro. acelerando o passo. que era. É pequenino. — Está bem — replicou ao acaso. Era homem de meia-idade. se faz favor. como eu mais tarde compreendi.Rija. colégio de Beechfield. E levou a mão ao — Como vai essa saúde. juntava. Olhou-me.Miss Greville pedalou através do portão aberto. como eu já sabia. as funções de encarregado do campo de desporto do clube. boné azul quando reconheceu a minha companheira. onde me apresentou duas caneleiras. —. em forma de corneta. na parte de dentro estava escrito a tinta «Scott-Hamilton». de cabelo cortado à escovinha e com uma pele que parecia feita de couro espesso. Heston. foi coisa que nunca O vi fazer.

Carroll — gritou miss Greville. não na perna direita. — Não sejas tolo. incitando-me.não. acima de tudo eu ambicionava poder jogar naquele campo de críquete e sabia que. No meio das suas outras preocupações afligia-a a ideia de não saber o que fizesse de mim nos dois meses das férias grandes. eu esperava. atrás da rede. a primeira foi um lançamento suave. miss Greville já lá se encontrava. Comecei a repelir a bola com violência. só me derrubou o Wicket duas vezes. a quem parecia dedicar estima. a bicicleta parecia voar. durante cinco minutos. mas eu. ou só uma delas. escorregava-me quando comecei a dirigir-me para o campo. falhei redondamente e ela atingiu um dos três paus verticais. o Heston aceitou-me. Firmei os joelhos que me tremiam. corri ao andar de cima. seria recambiado para casa. heston só me derrubara os paus três vezes e vi com satisfação que ele estava a suar. ao fim de meia hora. Sabia que jogara bem e esperava um elogio ou. que significava poder continuar com ele (apesar de proferida em tom resmungão) foi suficiente para me pôr doido de contente. preparava o nosso chá. pelo menos. ainda com o traje da rua. Coloquei uma na esquerda. . resolvido a não ser tolo.— Ponha-as. sem contar a primeira. mas tão nervosamente que mal pude apertar a correia na fivela. mostrou-se mais satisfeita do que. mas. tentando apará-la. Heston principiou a lançar bolas ridiculamente fáceis. já não se tratava de aparar a bola mas de manter intacto o meu wicket. depois aumentou de força e rapidez. Chegado a casa. se fizesse má figura diante de Heston. felicitações. a caneleira era grande de mais para mim. mãe. pois não possuía recursos que me permitissem uma mudança de ares. esta indicação. heston continuou a arremessá-la calmamente. embora Heston tivesse uma conversa particular com miss Greville. sem jeito nenhum. Acabara ela de entrar e. no regresso. o caso é que a mim só disse o seguinte: — Temos de lhe ensinar a não ultrapassar o primeiro poste. o que provava bem a sua opinião quanto às minhas possibilidades.

e lastimando em especial a cor verde dos olhos. havia crescido um pouco. o cabelo era de um castanho alourado e. um casaco azul e um cinturão azul e branco com fecho de metal prateado. os dias longos e soalheiros espalhavam uma luz doirada. fiquei de certo modo cativado com a minha imagem. porém. do meu pai. segundo a Enciclopédia Pears. o meu desembaraço no jogo veio corroborar essas conjecturas. com inegável egoísmo. até aí tivera sérias dúvidas quanto à minha aparência. certa vez chegou de winton com um embrulho que continha um par de calças brancas. entre os membros do clube passei por um visitante que a acompanhava nas férias. a mãe comprara-me em Ardfillan uma bicicleta de segunda mão. esse círculo fechado de riqueza e pretensiosismo? mais provavelmente fora a minha apresentadora quem evitara que me olhassem como um intruso e me repelissem como tal. XVI O verão foi excepcionalmente belo. os olhos não pareciam um bocadinho menos verdes ao captarem o tom azul do casaco? Talvez não. cheguei à conclusão de que o aspecto geral era o de um jogador de críquete. eu. herdara pelo menos a tez fresca e os sólidos dentes brancos. experimentei tudo isso e observei-me cuidadosamente ao espelho.Nesse caso. sozinho no meu quarto. tenciono ir lá todos os dias. Com as economias que conseguira fazer. miss Greville desfrutava de consideração na terra. irás durante as férias para o Willow Park. que se enroscava nos arbustos e nas sebes. era quase invariavelmente o infeliz resultado de casar uma pessoa de olhos azuis com outra de olhos castanhos. e. apesar de tudo isto. na mata circundante ao campo de críquete floria a madressilva. e sempre que me aproximava de Willow Park o aroma inebriava-me com a promessa da tarde agradável. acrescentei: — não lhe farei muita companhia. a qual para mim tinha o aspecto de quase nova. pois claro — respondi ufano. muitos deles. cujos pais serviam nos regi- . talvez um sobrinho seu. com os rapazes de Beechfield a minha situação era mais crítica. a qual. perguntando muitas vezes a mim mesmo como é que pais tão belos podiam ter gerado um filho tão insignificante. Seria esta nova aparência que me deu prestígio em Willow Park. a despeito das suas excentricidades.

seu país natal. de qualquer maneira. é claro. percebo — volveu Scott-Hamilton. que era alto. Heston?» ele. — Vamos escolheras equipas. desculpando-me a mim próprio com a ideia de que. — Queres jogar connosco? passas aqui as férias com a tua tia. porém. tens estado doente? — Dos pulmões. como eu. em especial o que se chamava ScottHamilton. adorava o críquete. dono da caneleira que eu usara. a princípio mostravam-se frios comigo. depois de eu ter feito boa exibição. mas. além do facto de eu ir muitas vezes de manhã ajudá-lo a aplanar o campo.mentos da Índia ou noutras partes então orgulhosamente referidas como o império. Respirei aliviado. e o irmão mais novo. menti tranquilamente. se sofria com isto. fazer a linha de demarcação ou pôr uma rede nova. Heston. não é verdade? Sim — respondi. não tendo conseguido fazer parte da equipa do Hampshire. forte. sabendo de antemão que se confessasse frequentar a incrível escola da Clay Street me desprezariam e me poriam de parte. que vinha muitas vezes ao campo para um jogo improvisado. tinha treze anos. — Tenho um professor em casa. mas um dia. continuava imperturbável — O homem mais impassível que até hoje conheci. isso não te complica com o críquete — redarguiu ScottHamilton. viera para o norte como treinador e casara . que se estabeleceu meio século mais tarde. A propósito. nem sequer se sonhava naquela época. a noção de igualdade que entre o amador e o profissional. aproximou-se de mim com o irmão. podia desmascarar-me. — Ah. condoído. capitaneava os onze de Beechfield e. — E bati com rudeza nas costelas. eu estava aceite. permaneciam no colégio durante as férias. aquilo passara. Scott-Hamilton. em que colégio andas ? Esta era uma pergunta que eu já esperava há muito tempo e para a qual preparara a resposta. e a situação de heston era a de um assalariado que devia forçosamente tratar por «senhor» a quem servia e submeter-se às suas ordens e insolências: «Heston. pode limpar-me as botas?» «onde diabo escondeu a minha camisola. e havia alguns que viviam mesmo em Ardfillan. se miss Greville não era minha tia era uma espécie de professora. Heston estava do meu lado nesta conjuntura. no fim de contas.

eu sentia que ele desprezava o pretensiosismo dos seus patrões. tinha uma filhinha. amizade existia. um anseio de afeição. nos braços desenvolviam-se-me verdadeiros músculos. ancorado em gareloch. inventava. franqueza excessiva ou falta de tacto de qualquer espécie era sempre acolhida com um «não sejas patego». alguns dos quais. no . que desde o princípio discordara do meu cinto de críquete com fecho em forma de cobra. depois da morte deste. pus em jogo toda a fertilidade da minha imaginação e fiz um uso tão inesperado do calão de beechfield que eu próprio me espantei. que nunca infringia e era bastante aborrecida. revelavam toda a afectação dos parvenus. a protecção. o Carroll ostenta uma velha gravata de eton. ela ficara com quase tudo o que lhe pertencera. Durante aquele verão joguei críquete com os alunos de beechfield. em vez de exagerar. pelo menos os novos ricos. e. Douglas vangloriava-se do iate do pai. acima de tudo. empregada da casa de chá de Willow Park. em cuja companhia se tornava ainda mais agradável o som das pancadas na bola. repetidamente nos dizia a todos que não fôssemos pategos. realizara um dos meus sonhos mais ardentes. por trás daquela fachada de indiferença. usava ele um código de superioridade. — Olha — comentou o segundo dos Scott-Hamilton. sugeriu algo de mais elegante para segurar as calças. fantasiei parentescos. três anos mais velho do que eu. assim como nas pernas. tinha finalmente amigos. um monstro de dois canos amarelos. mas também muitos desses moços bazofiavam. elevara-me acima de mim mesmo. com arrogância e naturalidade. sim. e rapazes da espécie com quem sempre desejara conviver. nunca me sentira em tão boa forma. eu nada tinha de que me gabar. que era mais impressionável do que o irmão. miss Greville. do meu lado. Sem dúvida que havia momentos de perigo.em Ardfillan com uma bonita rapariga. que afinal jamais obtinha inteira retribuição. e o jovem colquhoun nunca se esquecia de nos lembrar que os pais dispunham de quinze criados em bengala. O sol bronzeara-me a pele. tornara-me pretensioso? Não. 0 seu epíteto favorito de depreciação consistia na palavra «patego». e com este fim deu-me uma gravata que fora do irmão. ou indiferença. de camaradagem. Então compliquei as coisas. uma vivenda com jardim. simpatia ou amizade do primogénito dos scott-hamilton. um lar feliz. E assim. mas eu vencia-os facilmente.

embora a sua atitude fosse a habitual. escolhera esse dia tão importante para o Garden Party anual de S. pois havia sempre a terrível possibilidade de ela. só com um débil nevoeiro outonal que prometia um dia bom. ridículo e comovente de ser recebido na sociedade e tratado como igual. verdadeiro intruso (na opinião de Scott). é provável que o jogo do críquete não seja assunto de grande interesse para a maioria dos leitores deste livro. contra um dos professores do colégio. antes de ir para Fettes. o tradicional encontro de todos os anos entre os rapazes treinados por heston e o segundo onze do clube. reforçada de vingança. descrevê-lo-ei resumidamente. já foi pois suficiente que eu levasse comigo os seus votos de felicidades quando. decerto que o meu nome figurava no último lugar da lista. a manifestação de um desejo fervoroso. às dez horas. revelando extremo mau gosto. o reverendo Lesly. que era capitão do grupo do clube. não se tratava só do seu último ano em Beechfield. parti para o campo do clube. mas por um lado senti certo alívio com essa ausência forçada da minha «tia». . mas isso não tinha importância. como esse encontro particular foi coisa falada e o seu resultado o tornou ainda mais memorável. nas suas conversas e comentários. Nem queria pensar que o outono poria termo às minhas alegrias. oscilando entre o aborrecimento e uma espécie de indiferença sonolenta. todavia. essa perspectiva triste foi apaziguada pela ideia do jogo final. revelar a verdadeira natureza das nossas relações. contudo. eram dez alunos do beechfield. ver-me actuar por ter um compromisso no presbitério. Judas. e eu. miss Greville não podia.. XVII A manhã do desafio estava fria e clara.. um tal Cunningham. tinha uma má vontade especial. com grande pena minha. achava-me nos onze! Desde aí. Scott-Hamilton entrara ao nosso lado. homem sem queixo e de dentes saídos. tudo quanto disse ou fiz era desculpável. eu sabia que Scott (como agora o chamava) queria desesperadamente ganhar este desafio.entanto. o nosso treino passou a ser intenso. O jogo teria o seu início às onze. quando as férias estavam prestes a acabar. como os dias se tornavam mais pequenos.

marcando com brilhantismo na sua última bola. Quando se resolveram a jogar a sério. começaram por nos oferecer catches que. o caso foi diferente. jogou a primeira série cheio de confiança. a minha acção no jogo tornara-me excitado. Sentado na varanda do pavilhão. conquanto não tivesse feito nenhuns catches. o que era de lamentar em virtude da excelência das iguarias. embora com a minha fantasia habitual houvesse sonhado uma exibição espectacular. em companhia dos outros. ele ia inaugurar o nosso jogo. quando me servia da última. Laurence. derrubou o pau central de Bethune. etc. o qual. no entanto comi uma sanduíche de fiambre e tomei vários copos de limonada. pastelão de vitela. os nossos adversários. galinha. scott. que devia conhecer-me através do marido. arremessou a sua primeira bola. estavam preparados para nos tratar com ligeireza. a senhora Heston. Bethune estava agora postado para se defender de Cunningham. as pessoas andavam cá e lá com pratos de salada. sentia-me intimidado só à ideia daquela caminhada até ao Wicket. com Bethune. que foi servido de pé. com uma jocosidade que achámos ofensiva. acalentei a esperança (apesar dos votos da senhora heston) de não ter de ir para aquele lugar. pelo que não tinha muito apetite. que era um batedor de primeira classe e atleta completo. com toda a calma. mas o nosso estilo de arremesso era seguro. aceitámos. e aplaudido aquele jogador forte e perfeito. tomou o seu lugar. com surpresa deles. agora. preenchido com o almoço. dando uma corrida alarmante. a minha reputação podia manter-se nisso com segurança. ao fim de uma hora a nossa marcação estava superior à deles. Depois do intervalo. tinha bolado sempre sem ser substituído. no meio da maior cordialidade. rápida e bem lançada. eu portei-me bem. e Cunningham foi assim escolhido pela sorte para ser o primeiro a usar da pá. A senhora heston havia preparado um rico almoço. foi a nossa vez de bater. .Em frente do pavilhão lançou-se uma moeda ao ar. como eu o admirei quando se dirigiu airosamente para o Wicket e. disse-me em voz baixa: — Desejo-lhe boa sorte.

às quais os próprios partidários se juntaram.Enquanto eu assentava um triste zero no meu marcador. desci os degraus de madeira do pavilhão e entrei no campo. «mantém-te no teu lugar e deixa o resto comigo» eu estava tão nervoso que me esqueci de me pôr em guarda. Enquanto se procedia à mudança de campo. chegou-se a mim. que conseguiu marcar quarenta. o resultado foi uma explosão de gargalhadas. infelizmente. a primeira bola roçou o Wicket. o jogo degenerara em farsa e. e conseguiu-o nessa ocasião. foi então o fim da série. nessa ocasião. em que se incluíam alguns conselhos. Scott veio ao meu encontro a meio caminho do Wicket. ao primeiro lançamento. que estava a arbitrar. depois de scott. na bancada da varanda sentia-se agora um ar frio de desânimo. que me precedia imediatamente na ordem de bater. se dirigiu bamboleando-se para o seu posto de uma forma que me causou inveja. mesmo à sua custa. O esforço do batedor seguinte foi de igual modo breve e ainda de menor resultado. . tendo assim divertido os espectadores. Quando douglas saiu. para bem do críquete. não se demorou ali mais de dez minutos. meti a pá debaixo do braço. colocara já as minhas caneleiras. pálido de raiva e descoroçoamento saudou-me com uma série de frases irritadas. a triste sucessão continuou e só foi detida por Hailly. perdeu o equilíbrio e ficou sentado no chão. gostava de ouvir risos. uma vez principiada a asneira. Harry tinha muito de palhaço. com uma sensação terrível de vazio no estômago. Harry deu meia volta. ele era o nosso melhor batedor. houve um alívio momentâneo devido a Douglas. manejou a pá contra bolas imaginárias. heston. a pontuação não era mais de oitenta e dois para oito Wickets. finalmente. mais valera que houvesse terminado logo com a minha irradiação. que haviam aumentado no decurso da tarde. de mãos nos holsos do comprido casaco branco e disse suavemente: — Aguente bem. nesta atmosfera de hilaridade tinha eu de entrar em cena. crescia a minha inquietação de minuto para minuto. o qual conseguiu fazer dez pontos antes de ser apanhado por Cunningham. tremi no momento em que o mais novo dos ScottHamilton. e tomou por fim posição para enfrentar o adversário. a segunda atingiu-me no cotovelo. depois de ser pôr em guarda de forma exagerada. não se afaste das bolas. colquhoun tomo o lugar daquele.

a fim de se dirigir ao pavilhão. eu actuei meramente como seu ajudante. bastará informar que. gingando. que ficava perto. na última bolada do desafio. Harry com a sua tendência para o cómico. A propriedade era grande. — Nunca pensei que tivéssemos uma colecção tão grande de pategos! tu. Carroll ? Este convite teve o efeito de um vinho capitoso. e. onde trabalhavam dois . tive um momento de glória quando. pelo caminho discutimos o desafio. além de conservar o meu Wicket intacto. e. por sorte incrível. ao passo que o meu total foi apenas um mísero dezanove. era como se me armassem cavaleiro. o outro mofando do desconsolo do senhor Cunningham. enquanto Scott atingia outros trinta e oito pontos. descobria vista de um parque. mas. felizmente. eu achava-o um homem deveras simpático. Scott declarou que essa alcunha ia «pegar». do outro. foste o pior da súcia. para além da mata. seguimos por uma alameda de castanheiros que. a certa distância. um pomar e uma horta. enquanto tirávamos as caneleiras. Só compreendi que isso representava a vitória quando vi Scott à minha espera. num lugar recatado. fiquei ali mais de três quartos de hora. a minha eficiência no jogo elevara-me acima de mim mesmo: agora eu flutuava. que mereceu aprovação. entre os quais «dentinhos de coelho».Nos acontecimentos que se seguiram. aí. Harry. por motivos de ordem pessoal. inventando nomes ridículos para ele. detestava-o. antes pelo contrário. batera-me nas costas uma palmadinha amigável e dissera: «bem jogado!» mas Scott-Hamilton. a sua marcação foi de oitenta e seis. imponente. Depois de mudarmos de roupa. voltando-se para mim: — Queres ir tomar chá à minha casa. Scott e Harry. saímos juntos. trocei do infeliz cunningham. e. eu. uma honra e uma intimidade que eu jamais esperara obter. a mim não parecia que o professor estivesse muito preocupado com a derrota do seu grupo. houve um que não foi patego de todo. de um lado. cheio de arrogância. liberto. ele repeliu todas as felicitações. à parte a má colocacão dos dentes. o mais atento possível ao jogo. Scott-Hamilton foi o herói. em direcção à casa destes. me aventurei a uma lance teatral. eleito membro da sociedade. quando saíramos do campo.

entrei com os dois irmãos na cozinha. — Queremos Ginger-Beer. conchinhas. alegremente. um largo espaço arrelvado. com dois canteiros de flores a cada banda. Tem aqui os dois heróis. ajuntou: — Hão-de contar-me tudo isso. Ela sorriu. — Vamos tomar um refresco. não com a ternura que a minha mãe mostraria mas com certa expressão semidivertida e aristocrática. de costas para nós. em frente. desculpa trazer-te aqui. Scott conduziu-me ao interior da casa. Quando nos aproximámos. ainda mais para além. Bridgie. como seria de esperar — Respondeu apressadamente o Scott. avultava uma série de estufas. a casa tinha trepadeiras a cobri-la. disse Scott— Apresento-lhe o Carroll. convidei-o para tomar chá. com desembaraço.homens. através do vestíbulo e ao longo de um corredor. havia um bosquete e um conjunto de pedras. abrindo a porta. perto da janela estava uma criada vestida com apuro. para meu opróbrio — achava agora preferível. — Mãe. desventurado Harry! Não importa. clara e revestida de ladrilhos brancos. olhando para todos nós. atravessava a relva uma senhora já com alguns cabelos brancos e de ar distinto. e. se inclinava sobre o forno do fogão. mãe — acentuou o Harry. — Antes de se afastar. usava luvas próprias para jardinagem e levava consigo um açafate cheio de rosas. cascatas ornamentadas de plantas. enquanto uma cozinheira corpulenta. — Eu por mim não fiz nada. que era ampla. . que eu. Oh. ocupada a limpar as pratas. disse ele. ao fundo do qual existia uma porta coberta com reposteiro de baeta verde. — Como decorreu o desafio? Ganhámos. vão tomar chá comigo quando eu acabar a minha colheita de rosas.

como criada antiga e privilegiada. um professor? Sem prestar mais atenção a Harry. que conhecia bem os cantos da casa. menino Scott. que claramente dizia «que faz aqui. como se reflectisse: — Mas. de mão na ilharga. em que acreditava com tanta firmeza como na comunicação dos santos. — Pelo que diz. que são para o lanche da senhora. inútil. depois. e. menino harry. por cima do ombro. o seu tom era persuasivo quando inquiriu. mas não mexa nessas panquecas. com o menino Scott e o menino harry?». quando ia ao templo e eu emergia da escola? se estes testemunhos não fossem suficientes. concordou ele. Percebi que a melindrava a minha aparição repentina numa classe superior. Harry. com um par de olhos redondos e pretos. reconhecera imediatamente a mulher. não o tenho visto em Clay Street com uma pasta de estudante? Afectei um sorriso incrédulo. não se sentava ela a meu lado na igreja. interveio Harry. Ah.. seria bastante para me convencer de que eu fora reconhecido. ela granjeara o direito de se sentir como em família. estava a fornecer-nos copos de Ginger-Beer quando a cozinheira se endireitou e. mostrou uma cara cheia. era uma transgressão à ordem solidamente estabelecida. o seu olhar de espanto. fiel devota de santa maria e membro influente da irmandade de Santa Teresa. Bridget O'Halloran. é verdade. tomou a atitude de quem se dispõe a conversar.. . tem um novo amigo. não se incorporava na mesma procissão: não passava às vezes por mim nas suas saídas à tarde. Bridgie. esvaziando o copo.— Então tomem — Replicou a cozinheira. a sua expressão modificou-se. contudo. — Com certeza que não. num meio a que não pertence. sim? que interessante! E como é que se instruiu ? Tem um professor em casa. é fraco do peito e não pode frequentar o colégio. numa esfera onde. quase me engasguei com a minha bebida. voltando-se para nós. a mulher fixou em mim um olhar glacial e penetrante. vermelhusca e amável. conhecer-me-ia? Pergunta tola. que começara a servir-se das panquecas. — Vai ser seu colega em Beechfield? Não.

— O teu professor ? Foram as suas últimas palavras. um movimento em direcção à porta.E o galo cantou três vezes. até que proferiu lentamente: . Harry soltou uma risada. não cheguei a alcançar o ponto da minha penitência. Será capaz de me garantir de que não era o menino ? — Claro que não era! — Exclamei em tom violento. alçou as sobrancelhas. porém. cocorocó. — É tola. e. a conversa esmorecia. sofrendo de vergonha. esbocei. LOGO que pude.. — Preciso de me encontrar com uma pessoa. amaldiçoava-me e desprezava-me com uma violência que. com. vamo-nos embora. que iria eu lá fazer? Fitou-me por um instante. me levou instintivamente. o rapaz observou: — É pena que te retires já.— É estranho — insistiu. declarei que tinha de partir. pelos dois campos de ténis. foi um tormento para mim. em vez de me fazer sucumbir de tristeza. passei pelos dois jardineiros. mas não via nada. em direcção a Santa Maria. a seguir à . Saí. mais do que tudo. não sei de que está a falar. um sorriso fugídio e desdenhoso.teria Bridget. contra Beechfield. despertado na minha alma pérfida sentimentos de contrição que só podiam ser mitigados com uma visita solitária à igreja? Se assim era. e o clube de críquete. a bridgie! e o galo cantou três vezes. cego de raiva. apesar dos esforços difíceis da senhora Scott-Hamilton. e o mundo inteiro. toda a amargura do meu coração alanceado se dirigia contra Scott. — Cala-te. olhava para mim muito sério e com ar de curiosidade. Scott-Hamilton. onde eu esperara brilhar. com a sua última frase. ineficazmente. O chá na sala. depois de me acompanhar até à porta principal. atravessei a alameda. — Era capaz de jurar que o vi sair da escola de Santa Maria. contra todos os Scott-Hamiltons. contra mim mesmo. disse com fria polidez. como o assassino que volta ao local do crime. Empalideci e o sorriso gelou-se-me nos lábios.. harry. pelo pomar.

não! Vá sem demora para casa. uma das amigas de miss Greville. ouvi uma exclamação de horror.a . por essa rua desviada. gritando e suando. recebido com aclamações. a caminho da escola e no regresso dela. da mesma forma como haviam fugido de bandon os meus antepassados. e isso em plena via pública. o baixo e vulgaríssimo «pontapé na lata». a que tocava violino e pintava aguarelas e a quem. sob a ameaça da fome e do tifo! Infelizmente esse itinerário inevitável despertavaOH. voltei para casa exausto. com um rasgão nas calças. na junção da clay street com a estrada real. olhei. com um molho de livros debaixo do braço. — Pegou-me no braço. de véu de pintinhas e boá de penas. lancei-me no jogo. passava de cabeça baixa. eu havia cumprimentado. abriram-se-me os olhos. a gozar a consciência de que me desfazia da falsa aparência com que andara revestido nos derradeiros dois meses. Fitava-me espantada uma senhora idosa. Venha comigo. por então. dando pontapés caindo na valeta. não muito tempo antes. sem fazer caso das minhas roupas patrícias. realizado por um grupo maltrapilho dos meus condiscípulos. comprometendo-me a novos jogos quando a escola reabrisse. não. não o larguei enquanto não me senti completamente purificado. depois. evitando tudo que pertencesse ao Beechfield. O jogo prosseguiu até ao crepúsculo. em paz com a minha consciência. sob um céu perpetuamente chuvoso. — Não vou. na próxima semana. estes é que são os meus amigos. com esses garotos andrajosos? Estou a jogar. Não! — Gritei. escorregando. — Tem de vir. vá a senhora. era miss Galbraith. não! Com esses malcriados.livraria vitória. XVIII monotonia do inverno que se seguiu. qual sombra de mim próprio. pensei. os meus iguais. libertando-me. Oh. Laurence! Que faz aí. mas. sujo e triste. quando eu. efectuava-se um jogo. No meio dessa turba desenfreada. não vou. correndo. eis aqui.

aquela ada se tornara a pedra de toque do inatingível. essa. de duas tranças cor de linho e andar desembaraçado. afectando a pronúncia de Ardfillan: «não é divertido. pois me fazia esbarrar. por acaso soube o seu nome. enquanto ali estava na minha obscuridade houve uma que me atraiu a atenção. a ponto de ela te permitir que tu as colhas na sua bela estufa! Hei-de guardá-las como lembrança permanente da tua prodigalidade. com grupos de raparigas de belas fardas cinzentas.me. em companhia de Heston e de George Gunn. contentando-me humildemente em caminhar pela valeta. Tive de fingir que não te via. uma loirinha cativante. e às quais eu tinha de ceder o lado nobre do passeio. numa volta da estrada. observava-me com enlevo quando eu. ada. trocas de presentes que provocavam mútua admiração. a figura central das fantasias que eu criava não só de dia mas à noite. e que bom seres tão íntimo de lady Meikle. ada?» Ao recomeçar a tertulia. é claro. Não julgues que não te vi quando passaste por mim há dias. pelos seus encantos. Saudades da tua ada . a lembrança dolorosa da minha decadência. a recordação das minhas desventuras. quantas vezes a vi inclinada para mim. antes de adormecer. arrogantes até à insolência. em certas ocasiões. transportava a pá do críquete para um Century no Lord's. somos tão vigiadas em Santa Clara! Por isso já é bem bom que eu possa escrever-te. Laurie?» e quanto me exaltavam as suas cartas diárias! Querido laurie Não sei como te agradecer as tuas lindas orquídeas. imaginava diálogos inebriantes. peregrinação quotidiana. exclamando: «não é divertido. Quando passou. Estiveste ultimamente no campo? Seria óptimo que um dia pudéssemos encontrar-nos lá. com o seu narizito arrebitado. a querida ada. na cama. aristocráticas. mas. ainda mais me fazia sentir a situação de pessoa posta à margem. a companheira disse em voz alta. sem sequer olhar de relance.

que parecia fervilhante de vida e que. numa tarde de março. comecei a enfas-tiar-me de ada. uma expressão que eu não queria . porém. apaixonara-me pela Amoeba Proteus. desde a absorpção das diatomáceas e formação dos vascúolos até à cissiparidade e divisão dos núcleos no acto final de partição. o que me fez. tornou-se depressa uma paixão (excedendo as minhas pesquisas botânicas do ano anterior) e convenceu-me de que me devia tornar cientista. cedo teria de deixá-la. por felicidade. Foi a descoberta ocasional de um compêndio de zoologia elementar. contudo ainda não ousava interrogar minha mãe quanto ao que me destinava no futuro. o polistómela perfeitinho.Eu escrevia estas cartas depois de fazer os trabalhos escolares e metia-as na caixa do correio para as encontrar na manhã seguinte. com todos os cílios ondulando. mais verdadeiro notar que ela foi suplantada por um ser mais humilde. no meu caminho para Clay Street lia-as com um sorriso beatífico que. Mais merecedor da minha afeição. ao observar pelo instrumento ocular de miss Greville. na escola de santa Maria era incapaz de me adiantar. a solitária vorticela. passadas semanas. no entanto. e que alegria quando. Será. essa procura. chegava aos habitantes mais raros e mais ferozes da floresta subaquática. cuja laboriosa actividade. passando daquelas células primárias. isto originava-me uma comoção que se intensificava quando eu. buscar o protozoário. lentamente se fanava quando a fria realidade dissolvia um sonho que não nascera apenas da sedução de ada mas do desejo que eu tinha da sua amizade. ai de mim. me dava entrada num mundo povoado de espantosas criaturas microscópicas. talvez ela também estivesse cansada de mim. eu voltava das minhas expedições à charneca não com a caixa das plantas mas com frascos de água repleta de impurezas. pertencente a miss Greville e intitulado a vida do charco. quando saía. a magnífica paramécia. Chegada a primavera. havia agora no seu rosto uma reserva que me proibia qualquer pergunta. me enchia do maior pasmo. porque as suas cartas denotavam frieza e eu deixei de as receber. a princípio sem entusiasmo. O estonteante rotador. avançou maiestosa através das algas verdes para o meu campo de visão! Foi este o interesse que me susteve durante um período de melancolia e incerteza em que senti não estar a aprender nada.

porque a mãe procurava adquirir produtos mais baratos e mais alimentícios. peixe salgado. no armário tens um prato de arroz doce» . em particular quanto à nossa mesa. quando eu chegava da escola. como favas cozidas. Com o decorrer dos meses evidenciou-se progressivamente a falta de dinheiro com que labutávamos. encontrava no vestíbulo a criada Campbell. no intervalo do meio-dia. só uma vez em que miss Greville reuniu em casa as suas poucas amigas de Santa Ana para um sarau musical é que ela acedeu a ir. onde. Nos seis meses decorridos. não se podia deixar de concluir que quanto mais desejosa da intimidade se mostrava miss . que. parecia que a mãe achava um tanto opressivas essas efusões. intensificando a ideia de privação. na mesa da nossa cozinha. a sopa está em cima do fogão. perguntava a mim mesmo. a pouco e pouco. desde que via acabados aqueles almoços apetitosos com que miss Greville me regalava o estômago. não tinha disposição para tais festas.interpretar mas que parecia de mau augúrio para as minhas esperanças. a qual participava com um sorriso cruel. devido à pena que inspirava e à consideração pela memória do pai. a princípio agradava-lhe ser convidada para aqueles chás. de começo. menino Carroll». pastelão de carne. e. e isso porque se sentiu na obrigação de tocar ou pelo menos de acompanhar miss Greville no violoncelo. deparava um bilhete a lápis deixado pela mãe: «querido laurence. esperançado apesar de tudo. que me fazia cair o coração aos pés: «hoje não sirvo almoço. e cada vez mais diminuíram as encomendas. isto suscitava. outro problema. um enigma misterioso respeitante à minha benfeitora. miss greville. da própria refeição da Campbell. que regressava de Winton cansada e desanimada. o que obrigava a recorrer a economias e ameaçava frustrar o ambiente de segurança em que até então vivera. mas. com as narinas dilatadas pelos bons aromas que vinham da cozinha. mas agora. contudo. raras vezes aparecia à hora do almoço. e até para tocar e cantar. que eu recebia ressentido. dava sempre à palavra «menino» uma leve inflexão irónica. na verdade. eu subia devagar ao andar superior. comigo e com minha mãe mostrava-se mais do que nunca jovial e afectuosa. a mãe fizera bastante com o negócio do fermento. me feria profundamente.desse sarau voltou deprimida e sem nenhuma vontade de outros encontros do género. estabeleceu-se a concorrência. interessada em novas e imprevistas actividades. isso foi declinando. o qual estava para além do meu entendimento.que acontecera a miss greville?.

no entanto. quando miss Greville. não abertamente. mas com discrição.também me parece. lavei-me e escovei o cabelo com o maior cuidado antes de entrar na sala de jantar. na verdade. sumptuosamente trajada para ir à igreja com um vestido creme muito cintado. nestes últimos meses tão sombrios para nós. andara sempre satisfeita. fossem quais fossem. e exalando um leve perfume de violetas de parma. Era nisto que pensava quando. e o seu pendor para trajes que despertavam a atenção não constituía novidade para mim. e atrevia-me a esperar que faria mais. chapéu enorme. sombrinha nas mãos enluvadas de branco. tive a sorte de encontrar miss Greville em casa.. aqui dava-se precisamente o contrário. não só a admirava profundamente como sabia muito bem o que ela fizera por mim. como ainda às vezes acontecia. mas aqueles atavios dominicais deviam ter qualquer intenção que o meu entendimento não abrangia. Estás bastante apresentável. opulenta. principalmente aos domingos. vinha ao nosso andar para se submeter à apreciação. há quanto tempo já? Há quatro anos. miss greville saudou-me com um sorriso amigo. no alto do carrapito. eu acolhia de braços abertos todas as manifestações. se a tristeza reinava na parte da casa que habitávamos. Carroll — disse ela. da amizade de miss greville. Não me lembro como se desenrolou a nossa conversa após esta prometedora abertura. quando ocupava o meu lugar.Greville. esta reserva. contente por não necessitar de ir comer arroz doce. miss Greville. em certo dia de março. — Miss Greville sorria confiante. e por que não. miss Greville. espampanante. grace? darei na vista? Olhando para aquela figura cheia. ao contrário da mãe. como se procurasse mantê-la a distância. mais a mãe se retraía. notava. visto como aquela mulher tão notável possuía o condão extraordinário de . não duvido de que fosse interessante. O almoço ia ser servido. o seu interesse pela minha pessoa parecia-me agora a única possibilidade de alcançar o que eu mais desejava. querida Grace? Miss Greville sempre fora assídua à igreja. — Fazes muita diferença daquele rapazinho tosco que me partiu a vidraça. a mãe respondia constrangida: — Com certeza dará na vista. — Fica-me bem..

na aparência. por aquele rosbife. Carroll! Pareceu tão contente com a minha dedução que o meu inveterado desejo de brilhar me levou a prosseguir. és bem educado. mais subtis. . Carroll — começou ela.provocar diálogos estimulantes e muitas vezes caprichosos. Judas. igualmente. miss Greville. e mais língua pode mentir. dei esta resposta incrível como qualquer pedante. acha. — Mas não sentias curiosidade? — Continuou. nos lábios flutuava-lhe o mesmo sorriso vago e estranho. Sem saber se conviria confessar ou negar. Conheces o senhor Lesley. até me ensinara a replicar de forma civilizada e. miss Greville. és deveras discreto. vês-me ir sempre até à janela e nunca perguntaste a razão por que o faço. e. a coisa sem sentido se não houvesse troca de olhares. desejosa de manter o assunto em discussão. ela brincava distraidamente com o seu longo colar de contas de marfim. os Carroll. — Não seria delicado.sentia. expressivos do verdadeiros. com a sua xícara de café. como de costume. O nosso vigário de S. nesse dia. com certeza. queres mais bife? — Se faz favor. como meio de comunicação. embora de forma carinhosa. acabei por inclinar prudentemente a cabeça. fosse quem fosse. porém. eu era capaz de tudo. havia fatalmente de a ver. depois de ali se demorar mais do que era hábito. nestes momentos de agradável intimidade. sorriu. os olhos nunca. regressou à mesa com um ar que eu justamente considerei comunicativo em extremo. miss greville afastarase. miss Greville? Graças a Deus. e com a ideia de o repetir. — Seria uma olhos humanos. e não suspeitavas do motivo ? Supunha que estava à espera de alguém que passasse aqui a essa hora. todos os dias. só quanto ao que se passou no fim do almoço é que a minha memória é clara. inteligente. — Muito bem. eu estava a contas com um excelente rosbife para lhe poder dar mais completa atenção. são mais que a língua. — Imitando as suas maneiras. até à janela. olhando-me com insistência. Enquanto me regulava com outra dose de bife. — Confessa o teu pecado.

Carroll. sejam quais forem as mudanças que se produzam num futuro próximo. que não é nada mau no seu género. — Como já te disse. Não te sentirias aí muito à-vontade. belo. quero que a tua mãe o conheça. O coração pulou-me no peito. exactamente. miss Greville poisou em mim um olhar benevolente. Seguiu-se prolongado silêncio. não me atrevia a inquirir. Catita.— Ora se conheço! Encontro-o tantas vezes na rua! E lembra-se de que ele parou para falar connosco no primeiro dia em que voltámos do vale de Fruin? Foi no dia em que descobrimos a orquídea. talvez. de certa maneira. deves ir para um da tua religião. interpretara bem as suas palavras ou fora meramente levado pela minha esperança? Sem dúvida que tinha sido significativa a pergunta quanto à idade. Carroll. — Rockeliff. deve vir cá tomar chá comigo no próximo sábado. . no Yorkshire. inteligente. e o enfiar esperançadamente na argola de prata para possível uso no futuro. Que idade tens. melhoraste muito. depois de eu enrolar o meu guardanapo. e não é tão novo como isso. notando qualquer coisa nos meus olhos: — não esse em que estás a pensar. considero-te. Carroll ? . será preferível Amplehurst. miss greville? Esboçou um gesto de aquiescência. muitas vezes me dissera que a dos catorze anos era a mais própria para. — Um bom colégio.Treze anos. tenciono fazer algo por ti... não. mas o desejo latente na minha alma fez-me proferir estas palavras: — Talvez mandar-me para um colégio decente.. criação minha. miss Greville? — Por que te mandaríamos para a irlanda? Se insistes nos jesuítas.. que termo deplorável! Diz antes insinuante. gostaste dele? Achei-o catita.. e quero que saibas o seguinte.. e novo. — E acrescentou.

que era veloz. mudo de comoção. pois. de vez em quando. — Vou mudar de roupa. com justos motivos. à laia de pósescrito. embora estranho à minha natureza. enquanto me metia pelos atalhos encharcados. quando nos sentávamos à mesa estreita da cozinha. lhe transmiti o convite de miss Greville para sábado. por que está tão admirada? Não sabe que ele e miss Greville são muito amigos? Todos os dias. não me ofereci para . elas haviam-se tornado não somente o modo de expressar a minha dedicação mas também a autoridade que miss Greville exercia sobre mim na instituição de um regime que. goles de chá. a mãe escutou-me em silêncio. saltando lamaçais. relatei entusiasmado a conversa com miss Greville. olhando-me por cima da xícara de que tomava. gostava de correr e acreditava. isto ofendeu-me. depois hei-de contar-lhe grandes novidades.Amplehurst! Indiscutivelmente o melhor colégio católico. oh. todavia a sua expressão parecia decididamente esquisita. achava impossível ir prender-me na aula mal cheirosa da Clay Street. resolvi. fitei-a com um olhar cintilante. não! Olhou-me com frieza.. ela regressara mais cedo noutro comboio e estava ao fogão a preparar-nos a ceia. acabara por me ser agradável. mas conteve-se e ficou silenciosa. Minutos mais tarde. Naquela tarde não pude estar sossegado.miss Grevillle animara-me a essas corridas de corta-mato e. outra vez favas. vesti uns calções velhos e camisola e saí para uma longa digressão à chuva. Por onde é que andaste? vens todo molhado. assim como a forma como recebeu a minha informação.. A mãe aborreceu-se comigo quando voltei. — Não se zangue — retorqui. mãe. soltou uma exclamação ansiosa: — O senhor Leslie vem cá? — Pois claro. mas quando por fim. como o banho frio matinal que eu suportava a tremer. à hora do almoço. disposto a ser expansivo. A mãe ia falar. sorriem um ao outro através da janela. fazer gazeta. ambicionava debalde encontrar-me com Scott-Hamilton para o informar de que em breve a minha vida tomaria rumo novo e brilhante.

apesar de me fingir ignorante. vi que avaliara mal o tempo.lavar a loiça e. Quando. contrariamente aos seus hábitos de cortesia. retirei-me para o meu quarto. deixei-os para trás ocupado na busca. lodo esse rebuliço? Não me espantaria se miss Greville convidasse. aprendizes e semelhantes. e de certo modo assemelhava-se a um actor. percebendo que a tarde declinava. seguindo os papéis que inicavam a pista. meus amigos. desde que no outono eu me reunira a eles e vencera uma corrida de obstáculos para rapazes de menos de catorze anos. a sua personalidade fora do vulgar infundia-me temor e respeito e eu acabara por a considerar uma excêntrica notável. as quais até me haviam encantado no princípio das nossas relações. de em seguida a perder e de a descobrir outra vez depressa me absorveu por completo. dir-se-ia confuso: apertou à pressa a mão das senhoras e quase que tropeçava nos degraus da porta. eu ia atrasado. percorreu-me o corpo uma sensação de orgulho ao alcançar alguns extraviados do grupo e. a porta do número 7 estava aberta e nela minha mãe e miss Greville recebiam as despedidas do senhor Leslie. dava-me conta de que ela valia tanto como o seu vigário. muito corado. O tempo estava óptimo para outra corrida. depois de a minha mãe me arranjar um ovo frito e uma torrada. Quando. disse comigo mesmo. a concentração fora marcada para a orla da floresta de Davie. decerto que não me passavam despercebidas as singularidades de miss greville. um vago mal-estar fez com que desejasse sair à tarde. não deu mostras . a excitação de a encontrar. buffalo bill em lugar do senhor Leslie. por exemplo. tanto mais que os do grupo corta-mato andavam na diversão que consiste em perseguir dois corredores que vão deixando um rasto de papéis rasgados. sem fazer caso de uma pontada na ilharga. mais propriamente. porquê. este era um homem de boa figura. agora. então. razão pela qual estava preparado para não me admirar de nada que fizesse contra as convenções estabelecidas. mas em breve me achei entre os pinheiros. em vez disso. usava a risca do cabelo ao meio. porém. mas tomar chá com o reverendo não se m eafigurava contrário às ditas convenções. safei-me de casa trajado de calções e camisola de lã. chegou o dia de sábado. no entanto. O referido grupo era composto de moços caixeiros. que havia de censurável entre miss Greville e o senhor Leslie? Era evidente que a mãe ficara alarmada com a ideia daquele convite e se dispunha a não o aceitar. enfiei a correr e enlameado para a minha rua. contudo o próprio mérito da velocidade que atingi tornou-se-me contraproducente. naquele momento.

Judas. tanto mais que essa dissolução mental se transformou ostensivamente em comédia. e para minha mãe tão cheios de ansiedade que trazia os nervos arrasados e se sobressaltava e empalidecia sempre que chegava até nós um som menos habitual. entrei em casa. vindo do primeiro andar do prédio. não viu como ele olhava para mim? A mãe demorou-se a vir para cima. ou talvez nem me visse. a pobre solteirona apaixonara-se pelo moço sacerdote. como é natural. — Mãe. se jamais alguém pareceu ansioso de partir. assustou-me. apesar de eu. — Isto para nós nunca terá fim.de me reconhecer. para mim tão irreais que me conservavam em constante estupefacção. Ainda agora me custa reconstituir essa infeliz desintegração de um espírito que eu sempre considerara culto e privilegiado. que aconteceu de mau? Ergueu a cabeça lentamente e olhoume. querida Grace. era antes uma realidade com que vivíamos e sofríamos. de tal espectáculo. de todas as pessoas. miss Greville está a perder a razão. a mãe e miss Greville estavam no vestíbulo quando o atravessei em passos rápidos e furtivos. ao chegar. não saber disso. o desequilíbrio de miss Greville filiava-se num que actualmente é bem conhecido em psiquiatria e não muito raro em mulheres da sua idade e . Todavia. a vítima. eu transpirava e sentia calafrios. nunca. esse foi o vigário de S. a mãe disse em voz baixa e admoestadora qualquer coisa que eu não ouvi mas a que miss Greville replicou com um riso alegre: — Não é o que se diz. eis o que me custava a crer. que miss Greville. para nós todavia estava longe de ser divertido. sentou-se pesadamente à mesa e apoiou a testa nas mãos. Laurie. fosse a figura central. XIX Quão estranhos foram os meses que se seguiram. nunca. assunto de teatro alegre próprio para desencadear gargalhadas.

de começo. Para mim. não parava um instante. compreendia-se que não quisessem imiscuir-se no assunto. miss greville. não havia nada que se pudesse fazer senão esperar. parecia sempre em movimento. que provavam a convicção absoluta em que laborava. ponderada e acertadamente. passado tempo. como declarou à minha mãe. fazia os preparativos de casamento. quando tinha horas disponíveis. indo à cidade e voltando. já não exuberante. ouvia até ao fim. durante o qual a mãe muitas vezes exclamou num tom de . abanando a cabeça. não foi de nenhum auxílio. há motivos para tudo.estado. de qualquer maneira. que têm leves tendências paranóicas. quase divertida. sei muito bem. essa mulher surda e taciturna andava desde o início ressentida com a nossa intromissão na casa. devido à sua situação na escola. uma vez que o primeiro sinal de interferência da nossa parte provocaria sem dúvida um escândalo na vila. rejeitou-os sempre. revelavam uma serenidade que. a quem poderia recorrer? Aquelas senhoras de Santa Ana. eram inatacáveis pela razão. com o seu sorriso calmo e confiante. a criada Campbell. com quem a mãe tentou aconselhar-se. a minha mãe falou-lhe nesse sentido com discrição e diplomacia. sentava-se a costurar ou a cortar moldes. no entanto. que ninguém poderia contestar. não tomariam a mãe a sério. persuadidas de que essa nova fase da amiga haveria de passar. empregou termos mais fortes e argumentos decisivos. mas. achava que tinha direitos mais antigos sobre a sua patroa e não quis revelar o endereço do irmão de miss Greville — O que estava em Quénia. despedia-a com esta lógica irrefutável: «a grace não compreende. e os tecidos que já comprara para novos reposteiros denunciavam todos bom gosto.» Estas três palavras finais. os seus planos para melhorar o presbitério não podiam ser melhores. O mais espantoso de tudo era a forma como acolhia as tentativas para a dissuadir da sua ideia. quando a mãe propôs escrever-lhe. com muita aplicação. e depois. seguiu-se um período de expectativa. tão familiarizadas com as anteriores fraquezas de miss greville. as dificuldades para tomar uma deliberação pareciam insuperáveis. convinha à situação eclesiástica do futuro marido. o aspecto mais intrigante do comportamento de miss Greville era a maneira como ela dava realidade à sua ilusão. a mãe já não sabia que dissesse ou fizesse. Os acrescentamentos ao seu guarda-roupa.

todos os meus pensamentos e esforços se haviam concentrado em miss greville. mãe? . certas contingências em que eu nem tinha pensado. nem que o meu ânimo subisse e descesse como um barómetro. lançando para a frente o que eu supunha ser o estômago mas que era indubitavelmente o pélvis. me causou grande excitação. ao presente. com o seu prenúncio de maiores terrores. a falta de oportunidade não evitava que eu esperasse e temesse. como poderia cumprir a promessa que fizera de me enviar para um colégio? Que seria das minhas ambições. à tarde. contudo. em geral. que lia o Ardfilan Herald. cuja saída era no fim da semana de repente. ai de mim. e. estava optimista.Se miss Greville não retomasse o seu estado normal. via-me perdido. tudo acabará bem. visto que a mãe me conservava a maior parte das tardes a seu lado. o busto e as ancas arredondavam-se-lhe mais. já eu sentia arrepios quando lhe fiz a pergunta: — Que foi.. tem de passar. dizia comigo. se continuasse a piorar. todavia não largou o jornal. no entanto. sobressaltavam-me e confundiam-me certas frases de imprevista franqueza. antes continuou a lêlo avidamente. nada de mau virá daí. ouvi-a exclamar com voz agitada: — Deus do céu! Mudara de cor. achava-me com a mãe.presságio: «como acabará tudo isto ?!» Devo confessar que o aspecto estranho da situação. que tantas vertigens me causavam? Jamais se realizariam. a semelhante ideia gelava-se-me o coração. por fim deixou-o cair das mãos e inclinou-o para trás na cadeira. mais raros. Num sábado chuvoso.. com as pernas afastadas. esquecera-me do senhor Leslie. olhando para mim como se não me visse. estimulada com as alterações que se produziam na personalidade de miss Greville e na sua aparência física. se aguentarmos uns seis meses. tinha uma maneira nova de estar de pé. isto só podia significar desgraça. estes eram. os mais persistentes pensamentos depressivos. É fácil de calcular a ansiedade com que eu observava miss Greville nos momentos em que estávamos juntos. quanto me enganava! Outros factores operavam já. isto não continuará. a fascinação que me davam estas transformações sombreavam-na.

em corpo menor. Depois de ler não levei muito tempo a descobrir que miss Georgina era a irmã do meu camarada jogador de críquete e filha.Não respondeu nem pareceu dar conta da minha presença. — Não percebe? — Insisti. ia repetir a pergunta quando lhe escaparam estas palavras.. como se depois" de atravessarem a barreira do som: — Ela há-de ver isto. mas acho que não deves ir lá tão cedo. — Mas isto é estupendo! — Bradei.. havia uma notícia encimada por este título. — Não quero dizer nada — Volveu a mãe com firmeza..súbita decisão da parte dos dois simpáticos jovens. Como se incapaz de continuar. — Fez uma pausa. de dois canos amarelos. — Há-de servir-lhe de grande consolo..A. e abaixo.. coitada!. A mãe olhoume em silêncio. todo o serão a mãe esteve calada... a casa permanecia silenciosa. compreenderá que o seu casamento com ele é impossível. núpcias de um conhecido eclesiástico.Lesly com miss Georgina Douglas... no dia quinze do mês que vem.. Mãe! — tive de lhe abanar o braço. ou ouvir dizer. portanto.. muito bem acolhida pelos numerosos amigos. — Quer dizer que ela não. anuncia-se o casamento do reverendo H. a mãe passou-me o jornal.. — Quando miss Greville souber que ele vai casar com outra. movia os lábios não a rezar (a experiência ensinara-me que assim era) mas falando silenciosamente consigo mesma.. apressadamente. como se desejasse pôr ponto final na conversa. inclinação que já vinha de longe . antes de ver como as coisas se resolvem. — Esclarece tudo.. desconcertou-me o sorriso triste da mãe. do rico proprietário do iate a vapor.. na manhã seguinte . — Que aconteceu? O senhor Leslie vai casar. percorri com os olhos o resto da notícia: ....

ser posto de parte em tal contingência. angulosa e antipática da Campbell. podia ser levada a fazer uma declaração vital quanto ao meu futuro. Judas. tinha as mãos escondidas no avental engomado. dirigindo-se para a porta. — A minha senhora deseja falar-lhes. — Irei consigo. — Pois sim — respondeu devagar a mãe.. fitei-a com um olhar inquisidor. com a cabeça à banda. igualmente alarmado. calculei que tencionasse interrogar a criada. . — já lá vou. — Começou o mãe.A minha senhora pede que vão ambos. o coração batia-me apressado. — Abro? Abanou a cabeça e. Quando voltámos da igreja. acrescentou no mesmo tom a Campbell. no entanto. vivíamos tanto sob o sortilégio do silêncio perpétuo que só falávamos cochichando. vendo-se perante essa crise da sua vida. A mãe hesitou. às quatro horas preparei o chá. mas a Campbell não . não queria. disse cerimoniosamente. olhei de vez em quando para a mãe. surgiu-nos. quando eu acendia o gás. na verdade sentia que miss Greville. não me lembro o que a mãe fizera para o almoço. miss Greville convidava-nos para almoçar. ela mesma a abriu. os joelhos vergavam-se-me. — Está bem — acudi. ia e vinha pé ante pé no corredor. de chinelas. ouvimos bater à nossa porta. escutando constantemente. enquanto a lavava e enxugava.fomos à missa das dez horas. enquanto eu fazia os meus exercícios escolares. porque comi sem prestar atenção. Anoitecia e recomeçara a chover. de súbito. A deliberação que tomei não resultou de um acto heróico.. O prédio continuava silencioso. a mãe assustou-se. a sua expressão era impassível. no escuro. às vezes. pude ver que estava terrivelmente inquieta. ao domingo. levei a loiça do chá para a pia e. a figura magra. não encontrámos nenhum convite à nossa espera. mais tarde ela repousou uma hora. virando-se para mim. e soubemos que miss Greville tinha ido a S.não sei se. obter qualquer informação quanto ao andamento do caso.

até já começava a retirar-se. dobrou a carta. com o Presidente do Município. — Uma é para o senhor Lesly. havia quatro cartas redigidas. descansando a pena. considerando melhor o assunto. . — Pegou nelas e eu aceitei-as maquinalmente. a última é para a tal mulher. achei que era necessário agir. antes de entrar no quarto de miss greville. sempre cortês. tão tranquila como antes e num tom mais grave: — De maneira que escrevi estas cartas . grace. nunca entrara ali e. e embora o cabelo estivesse um pouco em desordem.. pensei que seria preferível não fazer caso. a normalidade do seu aspecto sossegou-me imediatamente. que fechou. mas agora os reposteiros estavam corridos e as luzes acesas. não teve nada com isto. — Bem vê que ele. coitado. parecia calma. — Desculpem! — Exclamou por fim. Era um quarto grande com duas janelas que davam para o terraço. e. miss Greville prosseguiu. sentada num sofá. de combinação com o director do Herald. que colocou à sua frente. Repelindo a tentativa de protesto da minha mãe. outra para o Bispo. com uma mesinha à sua frente e envolta num roupão. ela deteve-se e. a terceira para o director do Herald e a quarta para o secretário da câmara. a mãe alarmou-se outra vez.continuou ela. não havia razão para negar e a mãe disse que sim. cheio de curiosidade. trata-se de uma intriga escandalosa urdida por essa mulher. compreendi o alívio que sentiu pela atitude sensata de miss Greville.. reunindo depois todas as cartas. e ocupava-se a compor uma quinta missiva.era pessoa que se deixasse interrogar. — A princípio. ievantou-se e em voz baixa observou: — Suponho. fora de dúvida. mas. que farás o favor de deitar no correio. nós seguimo-la. ia examinar a mobília quando a minha atenção foi solicitada para a própria miss Greville. escrevia tão aplicadamente que nem levantou os olhos quando entrámos. que leu a notícia do Herald. visto tratar-se de um ardil grosseiro. a quem esperava encontrar transtornada. franqueou-nos a passagem. meteu-a num sobrescrito. pôs o endereço e colou o selo. Carroll. instintivamente contei os sobrescritos fechados que se viam sobre a mesa. fez um maço.

olhei para o vestíbulo. senti a mãe sobressaltarse. que conto consigo para testemunha. a mãe foi direita ao rés-do-chão e telefonou ao doutor Ewen. O que depreendi tornou-me acabrunhado. e só saí ao perceber que o doutor ewen se retirava. — Não faça semelhante coisa! — Fá-lo-ia. ouvio dizer à minha mãe: — Passa-se o atestado e ela será levada imediatamen tXX TRÊS meses depois. dominado por um sentimento da maior desolação. e agora fazia-o de novo.Miss Greville sorriu. ali permaneci durante a visita do médico. tisnado. desafiei-a para um duelo. na esperança de descobrir os segredos daquela fisionomia fechada. — É verdade. tentando ler-lhe no rosto. considerando-me um verdadeiro idiota. mesmo que não devesse. despendera esforços para a obrigar a falar. usando como pretexto a visita que projectávamos ao manicómio de Castleton. com ares . que corria veloz. . virei-me e olhei pela janela. que logo recaiu no seu mutismo. dos estaleiros da margem fluvial. Grace. por cima do corrimão da escada. ainda antes de ela acrescentar: — É claro. depressa o saberemos.— Fez uma pausa e olhou para o toucador. eu havia recolhido ao meu cantinho da nossa cozinha. por várias vezes. Não muito depois do internamento de miss Greville. homem alto. que compareceu daí a meia hora nessa altura. quando. Derrotado. Não me lembro como saímos do quarto. haviam trazido os floretes do vestíbulo. sentado em frente da mãe numa carruagem do comboio de Winton. calculei que ela tencionava tomar providências desesperadas. respondeu a mãe. recapitulei os acontecimentos que nos havia trazido à beira do desastre. — Supõe que miss Greville tenha melhorado ? — Espero que sim. querida Grace. logo que nos escapámos. em vez disso. Reconheci o sorriso de uma mulher completamente dementada. chegara de África o irmão. — Oh! — Exclamou a mãe. mas não admirei o cenário. magro. eu examinava-a às ocultas.

mas estava um dia de sol. Realmente. à entrada do manicómio. éramos apenas intrusos.°7? com o decorrer do prazo que nos fora imposto. dava ouvidos à Campbell.autoritários mas de aparência correcta. e. ao irmão Stephen. mas em súbitas saídas com destino desconhecido. flanqueados por duas casinholas embutidas no alto muro de pedra circundante. Nottingham e Cardife. agora empregado no funcionalismo público. que mais nos podia reter no n. aumentou a incerteza do nosso futuro. instaláramo-nos lá a convite de miss Greville e a título precário. sempre sensível à vegetação. depois de a examinar atentamente. senti estranha apreensão quando a mãe puxou a argola de ferro e o sino enorme retumbou. mostrou ao porteiro. . onde o seu trabalho parecia ter cessado. era uma linda aldeola. entretanto a mãe desenvolvia grande actividade. não na agência. o qual. ao tio Leo. por fim. tomara logo conta da irmã. com a partida de miss Greville e a maior parte da casa desmantelada. desapareceu era o túnel. alegrou-se consideravelmente. E várias conferências com os médicos. tornando-se por último mais frio. nunca antes eu a vira escrever tantas cartas: ao tio Simon. castleton. onde o condutor do carro nos deixou. após uma visita que lhe fez. se dirigiu a um telefone de parede. quando deixámos o coração da urbe. em londres. de começo. na qual nos dava um mês para despejar o apartamento. que vivia em Winton. embora a rede dos eléctricos se espalhasse por toda a parte. e. determinara o arrendamento da casa e a remoção da mobília para um armazém. e. A paisagem. passando pelos subúrbios dispersos e emergindo em pleno campo raso. o meu espírito. ainda intacta. havia cerca de três semanas. a caminho da Union Street e do carro eléctrico. de repente. e enviadas a lugares tão distantes como Liverpul. Foi uma viagem lenta e longa até castleton (naquele tempo. que era criada antiga da família e nunca gostara de nós. que estava em Espanha. a mãe tinha uma autorização por escrito. havia dois portões de ornatos maciços. — Recebêramos uma carta do advogado. embora a mãe nunca deixasse de pagar pontualmente a renda. delicado. que indicava estar próxima a estação. daí a minutos atravessávamos a plataforma cheia de fumo e mergulhávamos no centro da cidade. fez rodar a manivela e falou com alguém. e ainda a outras pessoas de quem jamais ouvira falar. a velocidade destes não era muita). para com a mãe ele fora.

soltei uma exclamação de espanto ao ver a extensão e beleza da propriedade. e no outro uma elevação povoada de castanheiros. mas afinal reapareceu. a atmosfera de discreta morbidez e até a mobília preta de torcidos e tremidos da sala de espera em que me encontrava agora. através do qual avistei celeiros e pilhas de feno. mas de repente. com outras pesadas portas a intervalos. aquele abrir e fechar de portas. mãe — Comentei em voz baixa. restituída ao que fora. não tive pena de que me deixassem ali. na linha do horizonte. sensação que aumentou ao ouvir um grito repentino. como uma fila de prisioneiros. com uma enfermeira à frente e outra na retaguarda. através de uma série de portas. uns grotescamente curvados. ia ter à casa acastelada na colina. entretanto. logo reprimido. A mãe demorou-se muito tempo. nesse instante. passávamos pelos recintos de jogos e por um caramanchão entre dois canteiros com túlipas em flor. uma chave que lhe pendia do cinto por uma corrente. utilizando. ladeada de faias. não existia ali nada que pudesse ofender a vista. todos marchando em passo vagaroso. o porteiro voltou. levou-nos. Na entrada principal fomos recebidos por uma freira trajada de azul escuro.A irmã acha preferível esperares aqui. confusos e sufocados pela madeira pesada. olhando desanimada para mim. outros gesticulando. por fim. num lado havia um pomar de pereiras e macieiras em flor. todas fechadas. — E ainda mais difícil sair — respondeu sombriamente. os sons estranhos. vi de relance um corredor estreito .— É difícil penetrar aqui. e franqueou-nos a entrada. sorriu num gesto de aquiescência. pelo menos a verdadeira miss Greville. que nos isolava do luminoso mundo exterior. falou em voz baixa à mãe. que me fez dar um pulo da frágil cadeira estofada de veludo em que me sentara cautelosamente. lobriguei uma comprida procissão sombria de vultos. com a destreza da longa prática. embora eu quisesse ver miss Greville. entrou numa antecâmara. tudo contribuía para me causar calafrios. onde se deteve e. Laurence. a qual se voltou e me disse: —. através da porta aberta. Começámos a subir a alameda de saibro que. a um largo corredor de passadeira espessa e ornatos dourados. todas sem puxadores. que terminava num jardim fronteiro ao edifício.

aí. — E acrescentou. sobrenatural. aqui a mãe encomendou o lanche. cuja porta a freira se preparava para fechar. de cabelo em carrapito e olhos negros e espantados. mirou-me e sorriu. Na aldeia de castleton havia um bom salão de chá. sabia que tinha visto a minha boa amiga miss greville e que a não tornaria a ver. a sua expressão mudara por completo. — Se continuamos aqui por muito tempo. ao menos. que se cruzaram com os meus e não deram sinal de me reconhecerem. um ovo fresco cozido. mãe? Aquilo não tem cura. a mãe respirou profundamente e. emoldurada pela esguia abertura. incitou-me a comer e de tal maneira que devorei todos os pastéis. e depois de . eu estava admiradíssimo. ergueu-se e. como se falasse consigo mesma: — Agora. Uma vez cá fora. mudança que parecia extinguir a tristeza permanente. não pude falar. embora se soubesse já. mel e um prato de pastéis de creme. ficou silenciosa. talvez já não possamos sair. começou a descer a alameda. observei-a inquieto. ao ar livre. estava uma cara esquisita. sabemos com quem contar. observando-me. O abalo que me provocou a visão dessa face estranha.Como a encontrou. para minha maior surpresa. pãezinhos quentes. torradas com muita manteiga. declarou alegremente: — Vamos. petições que ninguém jamais háde ler. comer qualquer coisa. em seguida a uma pausa. com tudo o que apreciava mais. por cima da padaria. ainda me fazia vibrar os nervos quando a mãe me tomou o braço. pois sabia quanto estávamos em apuros. flácida. segurando-me sempre o braço. filho. todo o dia as escreve. entrámos aí. de cabeça apoiada na mão. quando alcançámos o caramanchão. enquanto servia o chá. Laurie. escreve cartas que não chegam a ir para o correio. ela disse: — Deixa-me sentar aqui um instante.que conduzia a outro quarto. depois de agradecer à freira e de se despedir. tinha de lhe fazer a pergunta: . com um sorriso a pairar-lhe no rosto. que estava ela a fazer? — Petições. a inquietação e as indecisões não só desse dia como das perturbadas semanas anteriores.

não senti mais do que um estranho vazio que me fez proferir. eu deixaria a escola. pela qual me oferecem quarenta libras. por pior que isso fosse. porque já és um rapaz crescido. Isto. música . depois de ponderar todos os expedientes. nada senão a mobília. não possuía habilitações para empregos. A esplêndida refeição que tinha tomado deu-me coragem para aparar este rude golpe. que não temos nada. Seguiu-se um silêncio. — A agência. a única resposta possível: — Então que vamos fazer? — Tu vais com o tio Leo e eu vou para Gales. O tio leo prometera tomar conta de mim e habituar-me ao seu negócio. que se inclinou para a frente. terminou. — Não vou fatigar-te com as dificuldades dos últimos anos. pareceu-me ainda pior. não era trabalho para uma mulher. involuntariamente. disse-me em tom sério: — Laurence. pelo menos para mim.olhar em volta para se assegurar de que não estava mais ninguém na sala. apenas uma firmeza que era quase desafio. mas deves tê-las adivinhado. contudo não houvera mágoa na sua voz. Foi uma rica ideia do teu pai. tua mãe está falida. me passou meigamente os dedos pela cara e começou em tom natural e persuasivo a explicar quanto a nossa situação era grave e como. talvez fosse para isso que a mãe quisera fortificarme. e eu agora devo dizer-te. mas agora acabou-se. achara ser aquele o que podia resolver o caso. à chuva. durante o qual me senti muito pouco à vontade. — Interrompeu-se para tomar o gole de chá e eu tive a visão súbita de nós dois a cantarmos numa rua de Winton. cama e mesa não me faltariam. sempre procurei conservar-te fora disso. recomeçou ela. pelo menos por algum tempo. cometi o erro de a não vender como o tio Leo aconselhara. a fim de angariar o pão para a nossa ceia. a compaixão não dura sempre. O caso dela seria mais difícil. A minha expressão deve ter precavido a mãe. por ser incompreensível.

durante os próximos doze meses. dissera ter-lhe conseguido um lugar de governanta na escola de meninas do convento de santa mónica. mais tarde. que não me seduzia nada. Mas no dia seguinte esquecer-se-ia de tudo. Mas sou levada a confiar nele. procurando uma válvula por onde escapar. não deixei de ver por quantas dores e trabalhos a Mãe passara. aí. * Não é possível. e mesmo muito nalgumas coisas. até porque não nos prometeu mundos e fundos. enquanto eu tentava recompor-me o suficiente para compreender as consequências desta proposta surpreendente. depois submeter-se-ia a exame para ser visitadora sanitária. então estaria garantida com um vencimento regular. filho. arranjar-me-ia um explicador para recomeçar os estudos. se eu não quisesse continuar com o tio Leo. voltaríamos a reunir-nos. fora-lhe prometido um desses se a mãe obtivesse o diploma dentro de um ano. mesmo assim não tinha diploma para o ensino nem havia possibilidade de o tirar. pudesse vir a ser bolseiro e matricular-me na universidade. hem? Estarás melhor com o tio Leo. a Mãe olhou-me suplicante. escrevendo de espanha. de modo a que. por intermédio de um amigo de Stephen no município. Isto diminuiu em parte o meu ressentimento. sempre com as melhores intenções e de lágrimas nos olhos.era tudo quanto sabia. nas suas horas livres. mas repelia. —Não poderia o tio Bernard ajudar-nos? — Nunca. — E eu nunca lho pediria. * Por que não irei consigo para Gales? — Perguntei. Seguiu-se um silêncio. numa função para que se achava indicada. no Monoutshire. — A Mãe sufocou uma risada. através da confusão que se estabelecera no meu espírito. poderia tomar umas lições especiais em Cardife. durante o qual examinei a nossa situação. declarando: — O tio Leo é um excêntrico. Esse é que nos prometeria mundos e fundos. contudo o tio Simon. Quatro destes lugares (abertos agora às mulheres) seriam criados em Winton e. respondeu categoricamente a Mãe. A hipótese de estar com o tio Leo num negócio verdadeiro já me havia ocorrido como admissível. Todavia. Tinha razão. Tendo acabado num tom bastante animador. — Num convento. sofrendo toda a espécie de recusas para conseguir levar avante o seu plano. . — É.

comecei a pensar na nossa próxima separação. invadiu-me o singular pressentimento de que aquela estada nas Highlands seria má para mim. embora pequenos e no último andar. o que me fez inquirir: — Quando é a partida? A Mãe respirou rapidamente e exclamou animada: — Só depois de passarmos juntos umas boas férias. a escolha pareceu justificada pelos nossos aposentos que. próxima de um jardim sobranceiro ao lago e onde havia uma araucária prodigiosa.. Fort William encontrava se sob uma neblina que envolvia Ben Nevis e gotejava dos telhados de ardósia da cidade. Logo que acabou o seu . cedendo logo o lugar a uma palidez maior do que antes. a Mãe pegou na campainha que estava em cima da mesa e agitou-a como uma louca a fim de chamar a criada. quadrada. —Sim. Tive grande curiosidade de saber quais eram essas condições. Ardshied. porque se tratava de um assunto proibido. mas não me atrevi a indagar. Laurence. tão descuidada como se houvesse alijado uma imensa carga de cima de si. Olhei-a estupefacto. Olhando em volta. um tanto soturno. Com os parentes do seu lado? Suspendi-me. Laurie.. com a mesma expressão de desafio. XXI Quando saímos da estação. De facto.. não seria possível para si. ou melhor. Aceitarei a oferta das quarenta libras pela mobília e gastá-las-emos connosco até ao último cobre. precisamos dele. a pensão que escolhêramos. situada a meia encosta. Ambos merecemos repouso. A Mãe optara por essa devido a ser mantida. paralisado pelo repentino rubor que lhe subiu às faces. tenho possibilidade de regressar. Depois disso estaremos restabelecidos e prontos para tudo. hesitante. era uma casa pequena. a Mãe declarou serem de asseio impecável. mas em condições que nunca aceitaria. — É o que tenciono fazer. não recebeu a semana passada uma carta de Stephen? Pois eu pergunto: não poderíamos ir... por duas irmãs solteiras. Iremos às High-lands.— Mãe — disse por fim. enquanto a Mãe combinava com o moço de fretes o transporte da nossa bagagem num carrinho de mão. A desventura afectara-lhe o cérebro? E ei-la a sorrir-me. Antes que eu pudesse responder uma só palavra.. que elogiavam as qualidades da pensão usando a palavra «selecta». de pedra. Em vez disso.

com qualquer coisa de espectral. calçado de chinelas de feltro. Só havia dois homens. E. Evidentemente que é para bom fim. a comida estava boa e quente.. e isso depende da pontualidade às refeições.. enquanto Miss Ailie. Era surdo como uma porta. de meia-idade ou velhos e. Descemos. que nos declarou ser Miss Kincaid. a quem já ouvira tratar por xerife Nicol. mostrando o maior dificuldade em comer com os dentes postiços. Na lapela tinha uma mosca artificial usada na pesca do salmão. inclinou a cabeça. — É que nós gostamos que todos sejam servidos enquanto a comida está quente. a seguir a Miss Kincaid. Levei algum tempo a descobrir que se tratava do pai das senhoras Kincaids. . servia os legumes e. Olhei através da mesa para uma cadeira vazia. a terna Miss Ailie. para nos saudar. gordo. estava o segundo pensionista masculino. sorrindo. Miss Ailie Kincaid. de olhos fitos no prato. Durante a refeição conservou-se sempre calado. Assim. magra. descoberta agradável que a Mae corroborou com um olhar rápido e significativo. com velha mobília estofada de veludo vermelho. não mais que dez pessoas estavam sentadas a uma comprida mesa de mogno numa sala de janelas de varanda. Apesar da sua simplicidade. soou o gongo para o almoço. que se encontrava no extremo da mesa. mais tarde. Miss Ailie. Da cabeceira da mesa ergueu-se. para o nosso hospital. um velhinho de cabelos brancos. sentado à minha direita. a regra é esta: quem chega tarde mete um dinheiro no porquinho. que entrara sem ruído. na sua maioria. mas antes de eu saber isto considerei-o uma espécie de fenómeno. Em seguida apresentou-nos aos outros hóspedes e à irmã mais nova. do sexo feminino. — Está admirado do nosso porquinho ? — Perguntou-me. e começou então a trinchar a carne. Eu já gostava da mais nova. Outra curiosidade que me chamou a atenção foi um porco de loiça com uma ranhura nas costas e que se encontrava ao centro da mesa.exame. não vi nada desprimoroso nos outros hóspedes. Eram todos escoceses. Um deles. Sentando-se de novo. respeitáveis. murmurou o Benedicite. no outro lado. uma mulher alta. era um indivíduo baixo. que principiou pela roupa das camas e terminou no jarro da água. vestida de preto. e embora me sentisse um pouco desconfiado de Miss Kincaid — preconceito totalmente injustificado. o pudim de sémola e ameixas. de faces verme-Ihuscas. Depressa percebi ser a sua função costumada.

— Então. — Adora a manta escocesa. Sem dúvida que me vira olhar para a sua mosca artificial. grandes. rindo. cujas fitas lhe caíam sobre um ombro. pagou ao cocheiro. Trajava fato desportivo enxadrezado e barrete escocês. Informou-me de que vinha todos os anos à do salmão. enquanto os outros acabavam de tomar chá. rapazinho? — Foi a saudação jovial que me endereçou. no outro tinha uma pequena manta presa por uma adagazinha de prata onde se encastoava uma grande pedra amarela.Sommen. Era um homem elegante. — É novo hóspede? — Sim. em Spean. ela faria meia e vigiar-me-ia. ou. Não quis saber do ausente senhor Sommen. — Um verdadeiro senhor. foi na vaga esperança de que. Poderíamos ir juntos a essa lagoa e. olhando para a janela. E que bem que ia! — Miss Ailie suspirou. enquanto eu pescava. se me lembrei dele. contribuísse mais tarde para tornar as minhas férias ainda melhores. não era tão mau como pensara. * Oxalá tenha bom tempo em Ballater — continuou Miss Ailie. olhos pretos. como uma terceira sobrancelha sobre o lábio superior. e bigodinho também preto levemente encurvado. como se lhe dissesse que Fort William. no fim de contas. — Veio com os seus pais ? * Esse que falta vai pagar multa? * Não. Fiz sinal a minha Mãe. o que me levantou logo o moral. de que se apeou ràpidamente um sujeito. acrescentou um «e isto é para ti». — É o lugar do senhor . e a conversa tomou outro rumo. sendo a pessoa que era. É a alma do nosso grupinho. — Estava tão interessado nas danças regionais! * Levava a manta quando saiu esta manhã ? — Levava. de tez pálida e luzidia. porque indagou de súbito se eu gostava da pesca. Nessa altura chegou à porta uma carruagem. sim. Nesta altura o meu vizinho xerife tossiu como se se houvesse engasgado. Foi ao festival das Highlands. fui para a entrada da casa desenredar uma linha de pesca que o meu novo amigo xerife me dera e que eu tivera artes de emaranhar mais. respondeu ela. e depois veio na minha direcção. senhor. intervindo na conversa. * Nunca vi um inglês tão agarrado às Highlands como o senhor Sommen — observou uma senhora gorda. e prometeu mostrar-me um sítio onde se podiam apanhar trutas. Tem tão boas maneiras ! — Não se vê muitas vezes gente assim. Passa o dia em Ballater. Às cinco horas.

Conte-nos. Quando concluiu a descrição do seu passeio. Não tinha a mínima intenção. Respondi que já tomara. tão divertido em sociedade e. acrescentou: — Em seguida ao jantar costumamos ter uns serões musicais.. Enquanto eu comia o bolo observava cheio de admiração aquele homem descontraído. — Pareceu logo contrito. ou se canta? Com desgosto meu. Desapareceu-lhe o ar brincalhão. que eu me penitenciarei pondo meio xelim no porquinho e retirando-me envergonhado. — Chego tarde de mais para a bebida que alegra mas não embriaga. Baixou a cabeça. lançando um olhar amigável que me abrangia. tirando o barrete. onde. aproveitandose de uma pausa.— Com a minha mãe. Com um braço amigavelmente passado em torno dos meus ombros. em especial. Tão grande foi a minha desilusão que perdi a timidez e exclamei: . minhas senhoras? Se assim é. respeitoso. bigodinho cuidado e olhos pretos insinuantes. — O pai ainda ficou a trabalhar? — O meu pai já morreu. falou com a Mãe por uns momentos e. De acordo? Óptimo. se é que se interessa por esta espécie de coisas. — Quem sabe se toca um pouco. senhor Sommen.. avançou. e eu fiquei deveras impressionado com as suas maneiras. tornou-se logo sério. desejou-lhe uma estada feliz em Ardshied. — Minhas senhoras. — Lastimo muito haver gracejado. fez uma vénia respeitosa. fluente. digam-no. — Isso é que temos. — Oh. entrou na sala de jantar. A mãe confessou que adorava música. — Venha então comer outro bolo. que a distância não as fez gostar mais de mim e que não têm o menor interesse em saber o que se passou no festival. Quando várias vozes o tranquilizaram. feições correctas. suponho que não sentiram saudades minhas. lastimo. como se reflectindo. Venha tomar chá. tão bem parecido. entregando-me uma grossa fatia de bolo tirada da bandeja. Miss Ailie apresentou-o a minha Mãe. com a sua tez pálida. nunca embaraçado... ela replicou que preferia ouvir. relatando o que fizera durante o dia. correcto. depois de cumprir a sua promessa com uma piscadela de olhos. recebeu a xícara das mãos de Miss Ailie e. Depois. tomou o seu lugar ao canto do fogão.

qual é o seu objectivo? — Em Roma sê romano — redarguiu Sommen. sim? Agrada-me ouvir isso. Tocou uma vez num concerto. Au revoir! A Mãe zangou-se comigo quando subimos aos nossos aposentos. já o senhor Sommen estava na casa de jantar. que se ruborizara igualmente. É muito expansivo. do que vi nessas raparigas das Highlands durante as suas danças de conjunto. depois de lançar olhares cáusticos por baixo das sobrancelhas espessas àquela nova peça de vestuário. sem se irritar. vermelho com gola de renda. não achas? No entanto. a reunião dos vários clãs não vai nada mal. Enquanto arrastava as cadeiras para as senhoras. meu rapaz! Talvez nós ambos sejamos capazes de a convencer a dar-nos o gosto de a ouvir. — Espero que o teu amigo da manta escocesa nos não mace com os seus serões musicais. observou de repente: — O senhor sabe. diante de centenas de pessoas. que eu adorei. O senhor Sommen olhou para mim tão satisfeito que corei de prazer. rindo-se com vontade. que limpara e passara a ferro antes de sairmos de Ardfillan e que lhe ficava muito bem. não só eu como os outros. — E a manta que usa é dos Macgregors. de mãos atrás das costas. calças pretas bem vincadas e casaco de popelina cnxadrczada. replicou Sommen. que parecia novo. Não há nada como um banho depois de um dia ao ar livre. que essas cores são dos Mackenzies. E agora. E também canta. Só um dos comensais se mostrou abertamente discordante desta adulação geral. confessou com modéstia que o comprara em Ballater.— A Mãe toca lindamente piano. com gravata preta de laço. — Mas à parte o facto de ser quase ilegal usar as cores a que não tem direito. . Quando soou o tanta e fomos para baixo. ò xerife Nicol. se me dá licença. ao passo que as fitas do barrete são dos Stuarts. Dá impressão de que colecciona clãs. vou tomar o meu banho. numa atitude indolente. disse-me em voz baixa: — Muito bem. ostentava uma camisa de brancura imaculada. —-Ah. depois do festival. De pé. — Gosto de coleccionar e. Ao principiarmos a comer uma sopa excelente de tomate com lentilhas. O casaco. Desviando a vista da Mãe. — Tanto melhor. reparei que ela envergava o seu melhor vestido. com certeza. provocou um coro de louvores. Achei-o imensamente elegante.

Enquanto serviam em volta café e biscoitos. em seguida. senhoras e senhores. «C. de modo solene. Sommen curvoü-se e respondeu com inesperada gravidade: —Sim. Sommen. proferiu no meio de aplausos: — Minha senhora. fomos para a sala de visitas. Aproximou-se e.» — Dá-me licença que lhe ofereça? — Agradeço. de pé. — Desculpem a minha humilde intromissão. Se me visse a distância não me distinguiria do Guilherme Tell. Relanceei-a condoído e afinal. Pelo contrário. temos agora entre nós uma pianista exímia. O xerife insistiu. Após essa troca de palavras em que o industrial de tabaco tinha evidentemente levado a melhor. mostrando uma fila de cigarros compridos e achatados. e. No Verão passado estive na Suíça. tocou Pauzinhos Chineses. a «sala melhor». vi impresso a azul. dá-me a honra de a conduzir ao piano? Devo confessar que nesta altura eu começava a estar maçado com aquele nosso novo amigo. Danse des Echarpes. vi que a Mãe o não repelia. ou. Somos fabricantes de cigarros. com a sua bondosa permissão. vou pedir-lhe que inicie a festa. com muito garbo. R. Quer ver um dos nossos produtos? — Exibiu uma cigarreira de marroquim e abriu-a. resmungou o xerife. — Deve ter um grande negócio para poder viajar tanto. desconcertado com aquela demonstração de solidez económica. Tocou um prelúdio de Chopin e. a minha família possui talvez a mais antiga manufactura de tabacos da cidade de Londres.— Eis o meu lema quando viajo. Compreendi que. por então. ao jantar. levantou-se e acedeu sem protestar (até com certo graciosismo) àquela indesejada deferência. em cada um deles. tinham sido um tanto exageradas e agora essa galantaria barata parecia confirmar os receios que ela manifestara. Sommen avançou para o piano e. Por inesperada felicidade. mas não aceito. Aí. senhor. o jantar continuou com renovadas amabilidades. acabando entre o rumor das palmas. deu o sinal de nos levantarmos.°1. Especial n. Quando aquilo passou de mão em mão. de braço arqueado. — Tenho o meu cachimbo. com surpresa. exalando o seu aroma agradável de charneca. com um dedo só. e no fogão brilhava um belo lume de turfa. tinham corrido os reposteiros contra o frio da noite. como Miss Ailie a designava. As suas atenções para com a Mãe. Quando Miss Kincaid. Sommen estava bastante .

À sua chegada. sentei-me logo na cama. disse ele. acima de tudo. a Mãe tinha razão.Exclamou a Mãe. acrescentou. respondeu sem sequer se virar para mim. Com certeza que a Mãe ia agora recusar terminantemente! Mas não. Depois de muita procura de músicas escolheram. cujo primeiro verso Alto e forte o lanceiro estava moribundo me causava tamanho arrepio de expectativa que eu chegara a considerar a balada minha propriedade individual. Vamos ouvi-lo cantar. ao lado de Sommen. aproveitando um momento de silêncio. como se. a familiaridade crescente e. se encontrasse num meio que lhe era de todo estranho. e imprimia grande sentimento dramático à letra da canção: Como um raio de luz ele desceu Rápidamente. pelo menos conservei os olhos fitos no tecto e coibi-me de me juntar à prolongada salva de palmas que os coroou. * Que disparate!. vou agora para o quarto. * Excelente. não tive outro remédio senão recolher ao quarto. imprevistamente. ainda inclinada sobre a música. A Mãe demorou-se muito mais do que eu esperava. notando que lhe escapara a pronúncia de londrino popular. a conversa e os risos. Eu acompanho-o ao piano. em vez disso. A canção. A dupla demonstração de talento produziu tal efeito na assistência (com aborrecimento meu) que houve pedido geral para um dueto. Com a mesma vivacidade. Imaginava que ela se retiraria comigo. Daqui a pouco irei para cima. Como eu já estivesse de pé.admirado. não foi? .” A Sereia”. Digno. * Tem muita categoria. No entanto. mas. quase direi alegria. o desejo de exprimir as minhas impressões desagradáveis não me deixou adormecer. tinham-me causado a maior irritaçao. —-Afinal. Achei que já era de mais e. filho. Desejei tapar os ouvidos. seleccionou O Casaco de Oleado. * E acrescentou como se quisesse metê-lo a ridículo:— Agora é a sua vez. apurando-a. do Albert Hall. Para minha desilusão ele tinha uma voz de meio tenor que não era de todo má. as delicadezas impertinentes daquele escocês à força. disse em voz alta: — Mãe. rindo. Depois. e uma sereia achou No fundo do profundo mar azul. quase com respeito. — Sim. Aquilo foi uma maçada. são horas de te deitares. Principiaram.

voltei para a pesca. * Talvez. entre pinheiros. já se sabe. desaparecera-me a sensação de ofendido e. A Mãe continuava sem aparecer. Como não pescava nada. devia ser meio-dia. mas tão desanimado andava que deixei uma enguia aproximar-se do anzol e devorar de tal maneira o engodo que me vi atrapalhado para a desprender e não a aproveitei. cada vez me sentia mais ansioso pela chegada da Mãe. parti com o xerife Nicol para Spean. Cheio de irritação. foi um divertimento. e portanto trata de as aproveitar. depois do almoço. Se queria almoçar viesse mais cedo! Como não tinha outra coisa que fizesse. dei-lhe uma boa-noite muito brusca.. Por que se demorava tanto? Estaria o meu relógio adiantado? Não.. era antes um poço escuro e fundo. Depois de me ver ali instalado. que veio acompanhar-nos à porta. não sem ter olhado para o céu azul e declarado com pessimismo que o dia não estava bom para pescar à linha. e o rumor da queda da água fazia-me a cabeça tonta. desprendi do anzol com todo o cuidado e lancei de novo à água. na manhã seguinte. * No entanto. o meu companheiro afastou-se para o seu próprio posto. a pino. * Porquê? * Ele é apenas um fabricante de cigarros. filho. . Virando-me para outro lado. que há quatro anos não gozávamos. Lembra-te de que estamos aqui só por umas férias.Sorriu. Pelo sol. que. No espaço de duas horas apanhei só um salmão-zinho de três polegadas. Mãe. levando a minha cana de pesca e uma refeição leve. A Mãe. Já me doía o pescoço de o virar para o atalho da mata. pelo que não devemos ser tão exigentes. achei tudo tão reles. e Deus sabe que há muito tempo não tínhamos disso. de certo modo. Mas. alimentado por uma queda de água. Decerto que também me não considerei muito afortunado. retirei-me para debaixo dos pinheiros e comi o meu quinhão do almoço. ao arrepio da corrente. e será um tanto intrometido. decidi comer também o que lhe era destinado. Todavia. prometeu reunir-se a mim dentro de uma hora. A lagoa a que Nicol me conduziu ficava logo abaixo do rio. Os seus olhos estavam cintilantes e as faces coradas. * Sim. mas julgo-o bem intencionado. Enrolei a linha. Não era o género de resposta que eu esperava da minha mãe.

e olhasse com ar de censura para a irmã. Com insuspeitada perícia e uma destreza que me pareceu incrível. Sommen teve o desplante de interferir. resolvi renunciar de vez. filho. Não mostrei dar atenção ao esforço que ela fizera. * A Mãe e ela foram sozinhas? * Não. ou antes. enveredando-a para o assunto que preferia! Nesse momento. * Quem a convenceu ? * Ora. notei com azedume: — Afinal não compareceu! — Desculpa. ofegante. Mas não. Ele é que organizou a excursão e tomou cuidado de tudo. como a tarde estivesse adiantada. — Sorriu. Fui-me arrastando até ao extremo da mata e já me encontrava no caminho que sobe do rio para a colina quando se me deparou um vulto recortado no horizonte. ao jantar. que pretensioso. Desejei que ele cometesse qualquer asneira irremediável que levasse os outros a rirem-se à sua custa. Sem fazer caso das suas expansões cordiais. saindo-se muito bem. que ficou a resmungar. Reanimei-me logo. Aquilo foi de mais para mim e também para Nicol. Naquela noite. observei-o à maneira de Scott-Hamilton. cortou até ao fim. Miss Baird. com um olhar crítico e avaliador. Era a Mãe. . filho! — Disse isto como se a ideia se lhe afigurasse ridícula. e. monopolizando a conversa. que lhe saltasse para a cara. principiou a trinchar a ave. olhando de cenho carregado para o nosso inimigo. * Combinaram um passeio interessante a Banavie — continuou ela. Esperei que a galinha escorregasse da travessa para o chão. melhor ainda. — E convenceram-me a acompanhá-los. minha senhora». pois tinha vindo quase a correr. — Duas mulheres sozinhas! O teu amigo senhor Sommen foi connosco. A custo acreditei nos meus olhos quando esse atrevido se inclinou com um <<dê-me licença. como Miss Kincaid. de pessoa ressentida. de pois de cortar fatias de presunto. parecesse atrapalhada no trinchar uma das galinhas.. Alegrei-me quando o xerife me convidou para jogarmos às damas na saleta de fumo: era uma forma de evitar o serão na sala de visitas. ou.Depois disto. Miss Baird era a senhora corpulenta que simpatizava com Sommen. tirando-lhe a faca da mão. mas compus uma expressão de frieza.. Pareceu-me que hesitara antes de responder. mesmo para chegar atrasada e arquejando. num perfeito conhecimento anatómico. Que palhaço era aquele homem.— Os nossos planos tiveram de ser alterados.

E o rubor aumentou ao recordar a atitude da Mãe. Mas. quando me encontrava na lagoa de Spean. No começo da segunda semana. — Deixa lá. Sommen com os estúpidos atavios escoceses. uma alegria que eu antes nunca lhe notara. Almocei com aparente calma. pelos seus olhares. para que pudesse estar com ele. no extremo do jardim. . levantei-me e desapareci. esse inglês trajado à escocesa. Não respondi. mas.. (pensei uma palava que não magoasse muito) a cortejar minha mãe. No seu caso. em cujo anzol já não havia isco há muito tempo. gestos e expressões. reacção natural que eu achara desculpável numa mulher cuja vida fora ultimamente tão triste e difícil. filho. entusiasmara-se com aquelas atenções odiosas e agora. a pouco e pouco. e o modo de me evitar. uma solicitude excessiva. Escondi-me entre os arbustos.Nicol não falava muito. 0 coração deu-me um pulo quando os vi aparecer. Logo que a refeição terminou. De início. Parecia mais nova e mais bonita. Não voltei à lagoa. Posso estar enganado. com uma estranha sedução que vinha desabrochar-lhe à flor da pele. que eu sentia ser um processo para se livrar do meu olhar inquiridor. * Foste feliz ? — perguntou com animação forçada. dir-se-ia apenas lisonjeada. Eu não seria posto de lado! Fervendo de indignação. * Não. fitou-me e disse: — Você é bom rapaz e a sua mãe uma senhora digna. Não me fizeram esperar muito tempo. e regressei a Ardshied. não me restaram dúvidas. por minha parte.. quando dispusemos as pedras no tabuleiro. A Mãe estava à porta. andava. O pior de tudo era a sua mudança para comigo. a Mãe com o seu fato de mescla castanho e um lenço novo de cores garridas ao pescoço. A minha resolução estava tomada. Tinha outra vivacidade. este fez-me corar. Estou certa de que apanharás alguma coisa quando tornares a tentar esta tarde. não confiaria nele até o ver pelas costas. pô-la-ia de sobreaviso contra esse londrino de baixa esfera. incitando-me a ir à pesca. enrolei a linha. nem dos outros hóspedes da pensão a mudança que nela se operara. esse homem. cheguei à conclusão" de que não podia aguentar mais. Apesar da suavidade do termo. pedi licença. que não me parece mais do que um caixeiro. uma demonstração espectacular de ternura. não podia esconder de mim. E. mas não à minha espera. A prevenção alarmou-me. passados poucos dias. mas.

apontando de forma persuasiva. fui no seu encalço. chegaram-se um para o outro. desci até à ponta do cais e instalei-me atrás de um frade de pedra. embora discretamente separados. afinal. O tráfego impetuoso fez-me deter. Ele. procurando por toda a parte. onde. pude atravessar a rua. O meu desejo seria correr. Dominado pelo ciúme e pela cólera. porém tornei a vê-los no lado oposto da rua. Por instinto. Estavam acolá. estrangulado pelas fitas do barrete e gritando em vão por socorro. A par. com ar despreocupado. fosse com toda a sua elegância pelo lago abaixo. Era dia de feira e havia animação. Andei cá e lá no meio das barracas que atravancavam a ruela. mas reconheci que não devia aproximar-me em demasia. Espreitando através dos loureiros. Tê-los-ia perdido? De repente. Por um minuto escaparam-se-me. embora não . enfiaram para a rua direita. agachei-me. esse escocês audacioso. escondendo-me mais atrás da pedra. embora as palpitações fossem desenfreadas. Respirei de alívio. mas a Mãe abanou a cabeça e então afastaram-se. Uma vez na cidade. sem desviar os olhos do barco. invoquei todos os poderes da luz e das trevas para obrarem o milagre de fazer com que esse janota. saí do jardim e segui atrás deles. Nem sinal deles. Quando ele se inclinava para dar uma remada. Sommen ia aos remos. vi de revés que se desviavam para Mealmarket. observando a montra de uma loja que vendia loiça regional e outras lembranças para turistas. apenas a poucas centenas de jardas da margem. Não estavam visíveis. Ali. desceram a colina em direcção à cidade. deixei-os distanciarem-se e depois. vi um barco de remos na água batida pelo sol. atormentava-me a proximidade a que ambos ficavam. Decorreram cinco. Já longe das vistas da pensão. voltaram para terra. que eu sabia ser imensamente fundo. dez minutos. quando do extremo de Mealmarket desemboquei na praça calcetada que ficava em frente do lago. Enfim. devia ter sido oferta dele. por conseguinte. viela estreita que conduzia à parte antiga da cidade. Procurei não avançar muito e. tagarelava.lenço que ela não comprara e. Estuguei o passo e virei para Mealmarket. e a Mãe sentara-se à popa. esse fabricante de cigarros se desequilibrasse e caísse à água. à distância. ora manejando-os ora deixando a canoa flutuar. quando. como de costume. Lentamente.

pudesse ver. Agora os passos eram no empedrado acima de mim. que vinham do andar de baixo. — Está decidido que vou. Julgando-me seguro. A carruagem chegou às duas horas. veio ter comigo ao jardim.. Depois do primeiro almoço. * Bem.. onde eu já tomara uma posição estratégica junto do portão. Quando a Mãe subiu ao quarto. pensei). — Então. os passos dele em terra e a sua voz quando a ajudou a desembarcar.. Mas suponho que não te interessas pelos pontos turísticos. — Por que não ? — Redargui. mantendo-me sempre numa frieza estóica. alegando estar cansado. noutro dueto abominável. tentou convencer-me a acompanhá-la à sala. vi-os enfim desaparecer. E eu. a sua mão. se mostrara comigo de uma jovialidade um tanto forçada. ansiosa pela reconciliação e com uns laivos de culpa nos modos. que. — 0 senhor Sommen sugeriu um passeio de carruagem esta tarde. Ouvi o embate da canoa contra a muralha. Estas palavras fizeram-me estremecer. * Considerando que passei toda a semana na lagoa e não pesquei nada. com um sorriso conciliador (o sorriso de Judas. O fabricante de cigarros.. não lhe ocorreu que eu talvez preferisse ir a um ponto turístico? Tanto mais —acrescentei. onde a tristeza da tarde mais se me acentuou ao ouvir as vozes. numa atitude teatral. julguei que antes quisesses ir para a lagoa. como és um entusiasta da pesca. sem olhar para ela. com o pretexto de que iam fazer jogos.. A Mãe. Quando voltei a Ardshied não revelei nada do que testemunhara. a altas horas. A Mãe tomara-lhe o braço e afastavam-se ambos. para visitar o castelo de Onich. A manhã seguinte surgiu clara e soalheira. e fui meter-me na cama. ajudou-me a subir para o lado do cocheiro antes de tomar lugar no . Todo o resto da tarde desafiei a Mãe com o meu silêncio e hostilidade. fechei os olhos e fingi dormir.. — Meu querido — disse. Corou ao de leve e ficou um momento calada. queres realmente ir connosco? — Quero — respondi. Ao longo da costa. Já ela começava a olhar para mim com ar de censura e. depois do jantar. Jogos! Resisti. acentuando bem as palavras — que certamente haverá muito que ver. enquanto esperávamos à porta. seria capaz de escutar. de braços cruzados. ergui a cabeça. imobilizado pela traição sofrida. era toda doçura e alegria. — Querida Grace.

Depressa chegámos à aldeola de Onich. indicava com o chicote os pontos de maior interesse. Debilitado pela raiva e desilusão deixei-me cair no banco. — Vamos já tratar disso — declarou alegremente. De braço dado. mas ao menos estava com eles e jurara a mim mesmo que não os largaria um só instante. o industrial de tabaco ajudou a Mãe a apear-se. no alto de um rochedo. amavelmente. Volte para o cais. junto de minha mãe. Era agradável ir sentado tão alto e ter ao lado um cocheiro que. mas agora sabia que também era velhaco. Oh. erguia-se o castelo. olhando para baixo.. ao longo da costa enrolavam-se ondazinhas. num simulacro de afeição pouco convincente.assento de trás. O sol brilhava. os dois começaram a subir o rochedo em direcção ao castelo. Quanto à duplicidade da Mãe. Mais do que o tempo estipulado vogámos abaixo e acima. Agora. fora do porto. — Que lhe parece. o céu estava de um azul turqueza. ainda no cais. Em primeiro plano. Dois rapazes de botas de borracha e camisola azul içavam uma vela. Os meus captores mal falavam inglês. Largou mais pano e o barco seguiu sem novidade. — Agrada-lhe a ideia? Achei-a excelente. Sempre considerara Sommen um tipo grosseiro. Enquanto eu saltava do meu poleiro. Abanou a cabeça. se aquele homem não estivesse connosco! A sua intrusão manchava-nos a existência. e. a vela inchou ao vento e encontrei-me fora do porto. voltando-se para mim. Em parte tranquilizado. Ah. quase apreciei o passeio. meu Deus. o vento trazia-me água aos olhos. onde vários barcos de pesca oscilavam no molhe. Na véspera eles andavam de canoa e eu estava em terra. De que melhor maneira poderia eu têlos debaixo de olho? Fiz um gesto afirmativo. ajudou-me com toda a solicitude a embarcar e depois. a situação invertia-se. e antes que eu percebesse o que ele estava a fazer. O «cavalheiro» contratara-o por uma hora. Partimos. nesse . Nunca mais a Mãe teria ocasião de estar só com aquele homem. empurrou o barco.. meu jovem amigo?—Tornou Sommen. bradei ao maior dos dois rapazes: — Volte para trás. Furioso. Detivemo-nos no portinho. descendo para ir falar com os rapazes. enquanto a Mãe me acenava da costa. Era a perfídia final. — Que dia estupendo para um cruzeiro! —Exclamou de súbito. Quando o segui. exprimiam-se em mau escocês das Highlands. Eu não podia observá-los.

da minha palidez que. O fabricante de cigarros. devido ao balanço da embarcação revelava eu estar à beira do enjoo. * Acho que não gostarias do castelo. Oh. meu Deus! . * Muito. da praia. fui reflectindo e concluí que nenhum deles estava à vontade. * Os barqueiros eram simpáticos. corada e nervosa. — Divertiu-se. * Penso que não. mas o orgulho coibia-me. e em especial (isto é que mais me custou a suportar) da razão evidente pela qual o «cavalheiro» me pusera a bordo. e navegando em ziguezagues contra o vento (o que me prolongou o mal-estar). Não havia dúvida de que acontecera qualquer coisa. Vou ver se arranco o nosso cocheiro da taberna. — Bem!—Exclamou Sommen. Outra vez ao lado do cocheiro. fitava-me como se desejando mostrar a sua afeição por mim. meu amigo ? — Diverti-me. percebi que falavam de mim. Entrámos na carruagem e esta pôs-se em movimento.dialecto. o que me alegrou por momentos. nem uma palavra. * E húmido. a Mãe quis tomar-me o braço. 0 indigno par reaparecera. olhando ora para o castelo ora para a minha pessoa. Embora eu não entendesse uma única palavra. Com muito cuidado. Até se calavam. voltei a cabeça e olhei por cima do ombro. inclinado para a Mãe. Por fim. os ouvidos é que iam bem atentos. esforçando-se por se mostrar alegre. do meu fato elegante. hem. Laurence. contra o costume! Seria um presságio favorável para mim? Desejaria virar a cara. * Calculo! * Não tiveste frio no barco? * Nenhum. para mim incompreensível. e eu pensei que se tinham zangado. mas fingi tropeçar e mantive-me afastado dela. passava-lhe o braço pela cintura e beijava-a. chegou um apelo. * É muito velho. Então não pude resistir mais. — São horas de partir. conversavam de contínuo em tom motejador. * Assim parece. Seguiu-se uma pausa constrangida antes que o nosso estranho diálogo pudesse continuar. A Mãe. À saída do cais. muito obrigado — respondi com a fria polidez que resolvera assumir. Eles continuavam silenciosos. regressámos definitivamente ao porto.

A minha mãe procedendo assim à vista do público, com aquele grosseirão pretensioso... Quase tombei do assento. Quando chegámos à pensão fui direito para o meu quarto. Estava sentado à borda da cama, a contemplar as rosas desbotadas do papel da parede quando senti mover-se o manipulo da porta, hesitante, quase tímida, a Mãe entrou. Sentou-se a meu lado e passou-me o braço por cima dos ombros. Das suas maneiras, da sua carícia receosa, depreendi que se arrependera e que ia pedir-me desculpa pela ofensa que fizera, não só a mim mas à nossa amizade. Em vez disso, declarou: — Querido Laurence, o Charley... o senhor Sommen... pediu-me em casamento. Contive a resposta por algum tempo. O abalo experimentado emudecera-me. Senti um ardor no coração que me fez querer gritar-lhe, «Não, Mãe, peçolhe, por amor de Deus! Sabe que somos unidos, e quanto representamos um para o outro. Por favor, não ponha ninguém entre nós.» Mas a recordação daqueles beijos em público rete-ve-me as palavras. Perguntei friamente: * E aceita ? * Talvez aceite, meu filho. * Porquê? — O tom da minha voz era levemente desdenhoso. —Está, como se costuma dizer, apaixonada por ele? * Gosto dele, é verdade. E creio que me tem amor. Evidentemente que se trata de um homem um tanto original, diferente daqueles com quem estás habituado, mas pareceme bom, generoso. E tão alegre, o que para mim tem importância. Uma boa alma. Além disso, seria óptimo para o nosso futuro, o teu e o meu. Sozinha tem-me custado a singrar. Assim, não era preciso separarmo-nos, não precisavas de ir com o tio Leo. Poderíamos ficar juntos, em Londres. Charley... O senhor Sommen... diz que há lá muito bons colégios para ti. Ele é teu amigo, Laurence. — Não quero a sua amizade. Detesto-o. — Desembaracei-me do seu amplexo e, embora o peito me doesse de amor ferido, olhei-a com serenidade. — É um aventureiro, um intruso, um janota de meia tigela. Que é que a entusiasmou, a si, uma mulher tão requintada? O xerife Nicol classificou-o dc caixeiro londrino da mais baixa extracção. Deve saber que todos os hóspedes comentam o seu procedimento e a sua leviandade em dar atenção a um homem mais novo, e todos se mostram indignados. — Laurence!

* E que sabe realmente a respeito dele, além de que possui uma fábrica de tabacos e que espalha dinheiro para se fazer passar por um lorde? Há duas semanas nem conhecia a sua existência! Que lhe contou a nosso respeito? Saberá que estamos praticamente na miséria? * Não consinto que me fales dessa maneira. — Recuara para o extremo da cama e fitava-me com um olhar de raiva dolorosa. — O senhor Sommen jamais se lembrou de me interrogar quanto à nossa situação. * Não receou fazê-lo a mim — repliquei escarninho. — Pouco depois da nossa chegada tentou tirar-me nabos da púcara a respeito do negócio do Pai. Fanfarronei, é claro, e disse que o Pai fundara a melhor agência dc fermentos da Escócia. De modo que há-de julgar que a meiga e ingénua viúva nada em dinheiro. Por isso não a larga. — De súbito, baixei a voz. — Vi-o na carruagem, o ordinarão! Não podendo tolerar mais, a Mãe soltou um gemido e atirou-me uma bofetada, que por um pouco me deitava ao chão. Olhámo-nos num silêncio hostil. Não me lembrava de que ela me houvesse jamais batido. — És um malvado! — Exclamou sufocada. — Sim, um malvado. A querer destruir o único bocadinho de felicidade que tive desde que o teu pai morreu! Pois hei-de fazer o que quiser, apesar de tudo o que dizes e de tudo o que tu inventas. Levantei-me. Sentia a cabeça zumbir. Bradei: — Pois leve a sua avante! Eu avisei-a. Há-de arrepender-se. Saí de casa, com a orelha a chiar e, embora já detestasse a lagoa, achei-me lá outra vez. Sentei-me numa pedra e apoiei a cabeça nas mãos. Aquela mulher, única possuidora do meu coração, a quem eu amara exclusivamente desde que abrira os olhos ou talvez desde que me dera o peito, acabara por me atraiçoar. O meu impulso imediato foi abandoná-la, inquirir do primeiro transeunte qual era o caminho para Winton e seguir a marchas forçadas até à casa do tio Leo, o qual, no fim de contas, me esperava. Houve todavia uma circunstância que me reteve. Eu queria justiça, mais ainda, queria vingança. Vingar-me da Mãe e desse charlatão, a palavra satisfez-me, que me suplantara no coração dela. Se existisse ao menos uma pessoa a quem eu pudesse recorrer! Cogitei, fui pondo de lado todos os parentes Carrolls, por inúteis e desinteressados. Considerei a hipótese do xerife Nicol. E então lembrei-me

de Stephen, Stephen tão seguro, tão de confiança, Stephen agora instalado em Londres, no Ministério do Trabalho! As possibilidades desta ideia deram-me um calafrio pela espinha. Pus-me de pé. Voltei a correr para Ardshied, pedi papel de carta a Miss Ailie e fechei-me no quarto. Estendido no chão, peguei num lápis e escrevi a Stephen. Daí a meia hora punha a carta na estação do Correio. E até lhe acrescentei a nota de urgente. Depois de tudo isto feito achei-me repentinamente calmo, talvez por compreender que, acontecesse o que acontecesse, eu tomara as minhas providências. Se bem que os espiasse às refeições, afectei indiferença e, quando iam em passeios, já não os seguia, habituara-me a esperar. Por várias ocasiões a Mãe tentou retomar o assunto e abater a barreira que eu levantara, mas sempre sem êxito. Recusava-me até a ser acarinhado. Contudo eu andava ansioso e, como o tempo corria sem que viesse resposta, o meu nervosismo aumentava. Ardshied situava-se a certa distância do centro da cidade e tinha só uma distribuição diária de correspondência. Pelas três horas da tarde eu ia para a porta, à espera que passasse o carteiro. Por fim, numa tarde chuvosa, recebi uma carta. É verdade, uma carta com o carimbo de Londres! Febrilmente, corri à casa de banho do rés-do-chão, onde me fechei à chave; rasguei o sobrescrito e li o seguinte: «Querido Lawrence «Embora não tenha muito tempo disponível, achei que a tua carta era importante e fui tratar do caso. «A lista dos telefones contém cinco Sommens, um deles com Tabacaria e Agência de Jornais em Mile End Rode, 120, na parte oriental de Londres. Tomei um autocarro e fui a esse bairro insalubre, para não dizer miserável. A loja é lúgubre, vende jornais, bilhetes para as apostas de corridas de cavalos, e tabaco. Entrei e comprei, imagina! — As News of the World. Atendeu-me uma velha cheia de reumatismo, com um casaco de malha muito usado e abotoado até ao pescoço. Ao fundo da loja um rapariga morena, despenteada, de avental sujo, fazia cigarros numa maquineta manual. Saí e fui à taberna mais próxima, três portas adiante, onde me prestaram esclarecimentos. «O pai já morreu, o negócio está muito em baixo, e praticamente a viúva é que o mantém. Há três filhas, uma delas a que faz os cigarros. O pai tinha algum conhecimento desta manufactura, que está em decadência. Falaram-me de dívidas. A mãe, as filhas e o filho vivem por cima do estabelecimento.

«O filho, esse de quem pedes informações, descreveramno como homem simpático, capaz de ser prestável a um amigo, mas embusteiro, espaventoso no trajar e pouco inteligente. Canta alguma coisa e exibe-se em espectáculos privados. Gosta de jogar nas apostas, às vezes ganha e,_quando isto sucede, dá-se a umas férias de arromba. O seu emprego é de criado de mesa no Metropolitan Sporting Club, no West End.

num dos extremos. que nos derradeiros anos a dominava cada vez com mais frequência. Não podia esperar um instante que fosse. * Recusei-o. um vulto. Senti um nó na garganta. e lancei-me às cegas no seu peito. Voltou-se um pouco para mim e arriscou um sorriso. Eu sabia que se encontrava lá nesse momento. não percebi qual o seu uso e só vi o meu. pois. voltara-se de novo para a janela e olhava para fora. Contendo a respiração. como para evitar que a chuva o molhasse. Laurence. Olhei para a Mae. Como chegasse de noite. saiu da casa e entrou na viatura. Instintivamente. antes que eu pudesse evitá-lo. em cujo tejadilho se empilhavam malas. Então.. tornei a ler as palavras odiosas «criado de mesa no Metropolitan Sporting Club». Responderamme de dentro: — Entre. De repente descobri que não existia lugar para mais ninguém. uma espécie de tristeza meditativa. — Ele foi-se embora? —Balbuciei por fim. ocupando a esquina de duas ruas estreitas calcetadas. e o trem afastou-se. * Porquê? — Houve o teu pai. E não só a expressão. mas tinha de ir para a frente. . Tremia agora. Nos últimos dois dias chovera e a Mãe estivera mais recolhida. com a carta na mão. amarfanhei com a mão livre a carta. A Mãe baixou a cabeça lentamente e voltou-se para mim. XXII Habitação do tio Leo ficava num armazém de quatro andares chamado um tanto singularmente Casa dos Templários e situado no bairro insalubre de Winton conhecido por Corbielaw. O sangue subia-me à cabeça. com aquele ar abstracto. Não estava a ler. compassiva. até a tornar numa coisa informe. Fechou-se a portinhola. O último andar consistia num corredor sombrio e comprido. mas à janela. com muitos quartos de cada lado. o meu olhar seguiu o seu.. Teu tio amigo Stephen. perto da Argyle Street e das docas. o triunfo desvairava-me quando bati à sua porta. e em seguida corri para a escada. possuía decerto para o tio as vantagens da localização comercial. meu querido Laurie? Segurando-me ainda na mão. Como residência tinha menos que oferecer. Contudo. — Que é.. pegou-me na mão e uniu-a à face. — Há uma coisa que lhe quero mostrar.«Espero que estes informes detenham o idílio incipiente. Prédio de gaveto. descansando e lendo no quarto depois do almoço. embora sem paramentos escoceses. Reinou profundo silêncio no quartinho de dormir. e suava. mas. — Mãe. eu não ia desistir por causa desses ardis sentimentais. Nem pude falar. era velho e mal conservado. — Avancei para ela. Dá saudades à tua mãe e diz-lhe que não faça tolices. A sua expressão terna e. numa corrida. os quais serviam de depósito. o cocheiro subiu para o seu lugar. como se encontrava no centro da cidade. por qualquer motivo.. com as janelas laterais entaipadas e pintadas de uma cor escura. descarregando esse golpe fatal não só nas esperanças de minha mãe como no seu orgulho. mobilado com um catre de ferro. familiar. tirou-me a coragem.» Senti-me electrizado por uma alegria enorme. queria vingar-me sem demora de tudo o que sofrera. E agora havias tu. Defronte da porta estava um trem de aluguer.

lavatório e cadeira de junco rebentada. na Estação Central. onde a criada. A perspectiva de um ano de separação — apesar de a Mãe afirmar que passaria depressa — tornara difícil a despedida. de quem me apartara na tarde da véspera. perturbado pelo barulho dos eléctricos da Argyle Street e pelas saudades pueris de minha mãe. e a cozinha. na outra extremidade do corredor. me deu pão e queijo para a ceia. Dormi mal. Mas a manhã trouxe a promessa de novas 158 . Annie Tobin.

Por fim redarguiu: * O patrão há mais de trinta anos que não põe os pés numa igreja. visto ser aquele o seu manjar predilecto. Estes destemperos da senhora Tobin não depunham muito. fazendo uma careta. Compro de vez em quando com os meus extraordinários. Sente-se e esteja à vontade. — O tio ainda não se levantou? Voltou-se. Além do aspecto desalinhado. Levantei-me e. Um usurário. sempre com acesso de riso a espreitar. * Manteiga. No entanto. * Onde é a casa de jantar? — Aqui mesmo.. * Então já vai. — Do senhor Leo não é fácil apanhar manteiga nem para a cova dc um dente. aconselhou-me condoída. 0 seu tio aprecia e compra-a por atacado. com certa relutância. olhando para a minha cara. olhinhos azuis encovados e cabelo grisalho e hirsuto. Não há outra. eu. pensei. comia-as. depois de me lavar e vestir. é o que é. desejoso de não melindrar o tio. * Depressa o menino se habituará a estas idas e vindas. comi as papas mas reflectindo com tristeza nos quebra-jejuns apetitosos de minha mãe. sala de visitas. menino. A senhora Tobin estava na cozinha. e eu decidira que a senhora Tobin não me agradava mesmo nada. dou-lhe uma fatia do meu pão. no seu caso. Cozinha. Era uma mulher disforme. sem qualquer aroma e que ela colocou diante de mim juntamente com um copo de leite azulado e uma colher. Nessa ocasião tremeu-lhe o ventre e os olhos azuis desapareceram por completo debaixo dos repolhos de pele avermelhada. não achando outra razão para que ele fizesse aquela madrugada. O resultado foi uma espécie de papas de lama acastanhada. * Sim. resolvido a não permitir familiaridades. sem falar dos almoços excelentes de Miss Greville. A senhora Tobin desatou a rir. Amarrado à cintura tinha um avental velho. * O seu pão!—repeti. a seu favor. Ela tirou da prateleira uma tigela de loiça. — Como não há outra coisa. castanho. menino? — Os olhos cintilantes começaram outra vez a sumir-se. o seu sotaque acentuadamente irlandês e as maneiras demasiado familiares já me haviam ofendido. Era tão meigo o tom de voz. Sentei-me. — Que é isto ? —-Um género de papas de aveia feitas com farinha de fava. filho. realmente. casa de jantar. É um ateu de alto lá com ele. embora só Deus saiba o que anda a fazer. com grande abatimento. a senhora Tobin observou-me: * Se não está satisfeito. menino. — Foi à missa? — perguntei. «Credo». * Não se faça esquisito.aventuras. deitou até meio um pó amarelado e juntou-lhe água fervente de uma cafeteira que estava sobre o fogão. de cinquenta e tal anos.. * Talvez saibam melhor com um pouco de manteiga—-retorqui. faces vermelhas marcadas de acne. deixando explodir a minha revolta. Quando esvaziava a tigela. «até parece que lhe contei uma anedota». considerou-me com ar bem humorado e disse: — Levantou-se e saiu há mais de uma hora. que eu me vi obrigado a suspender o . e tão pronta a aplanar dificuldades. abri a porta e fui circunspectamente à procura do almoço. e adornavam-lhe os pés chinelos de ourelo. Quer o primeiro almoço? * Pois sim — repliquei friamente. Pus um bocadinho na colher e levei à boca.

se já acabaste. Alfaiate. e finalmente uma chapa denunciadora. dentro de um fato azul apertado e lustroso. 01hando-me de esguelha. a mim afiguravam-se mais cansadas e sujas do que seria de esperar. porque dizia. Em cada peça estava atado um rótulo com o preço marcado não em algarismos mas em letras. quando ma lançou aos ombros. diga-se de passagem. de maneira que produzia eco quando falávamos. Depressa te acostumarás à nossa maneira de ser. e o meu tio entrou na cozinha. Nesse depósito amplo e poeirento estava uma fila dupla de armações de mesas. em seguida os cheviotes. e a mesma cara comprida. Lote para negócio. rabiscado a tinta azul: Arresto. eu não lhe achei a menor diferença. que supra haver entrado no estabelecimento por engano. Aceitei em silencio. onde. Vendido em leilão abaixo de 50 %. Donegal. que representava 9. o olhar foi-me atraído mais de uma vez. como a avaliar a confiança e a fidelidade que eu lhe devia merecer. Leo abriu a porta e me fez entrar no armazém. tanto mais que ela estava a cortar uma fatia grossa de pão fresco e apetitoso. Enquanto hesitava em mencionar a minha impressão. — Essa farinha branqueada. X por 2. quase definhado. Principiou então a fazer-me girar entre as mesas. deu-me as boas-vindas. Shetland. por outros letreiros. não referenciados segundo o código do tio mas toscamente marcados a vermelho com indicações deste teor.. mau grado o seu abanar de cabeça reprovador parecesse discordar da minha fatia de pão. deu-me uma fita métrica. aquilo sabia realmente a comida verdadeira. Primeiramente as flanelas. . — Vais agora começar a aprender o teu mester. Era simples: o alfabeto ao contrário. Depois de apreciar os meus conhecimentos quanto a medidas lineares. Harris. Laurence. de lã ordinária encarnada. onde se via uma passadeira gasta. disse o tio. embora eu fosse novato na matéria. visto ter lido no verso. deixando. Depois da farinha de fava. que permanecia fixado. Descemos pela escada de pedra até ao primeiro andar.. por um esforço de vontade. Ainda mastigava quando soaram passos na escada. tenho a certeza (se bem que eu estivesse então a quatro milhas de distância) que expirou da mesma forma insondável e que foi enterrado com igualíssimo fato azul. deixando um corredor a meio. não me pareceram merecer os encómios que ele lhes tributava. Mas vejo que comeste as papas de farinha de fava: é o que realmente convém aos teus pulmões. com suficiente jovialidade. daí a trinta anos. escrito a letras pretas. no funeral do Pai. Apresentava o mesmo vulto alto e magro. em molde imutável. pálida. Este era em todo o comprimento do prédio. Sortimento de Falência. Y por 1. e quando morreu. parando em cada uma para me instruir quanto às mercadorias expostas. inexpressiva. vou levar-te lá abaixo. Aqui cuidamos muito do que se ingere. o tio revelou-me o segredo do seu código. Agora. e muito alto (abrangia o primeiro e o segundo andar). Propriedade de Morris Shapiro. escolhendo uma chave do molho reluzente preso aos suspensórios por uma argola fina.três quartos de um milhão de libras esterlinas. os panos de algodão. impenetrável.meu ressentimento. Entretanto. as mesclas. e assim até Q. estraga o estômago. Leo era um homem sem idade. pondo-me no ombro a mão. Z por zero. nas mesas havia peças de fazenda empilhadas e em confusão. Venda. Tudo isto me poderia ter impressionado melhor se não suspeitasse do pouco valor dessas mercadorias. e a barrá-lo generosamente de toucinho derretido. a lã angora. das quais o tio falava como de coisas raras e preciosas. Embora já tivessem decorrido quatro anos depois que o encontrara pela primeira vez.

todas dirigidas a firmas de especialidades alimentares. achou uma revista intitulada Boletim da Alimentação Saudável. de maneira que as calças me ficavam acima dos tornozelos e as mangas do casaco não me cobriam os punhos. porque sem dúvida precisava de uma farpeia. Segui-o através de uma porta em que não tinha reparado antes e entrei num quartinho mobilado com uma secretária. quanto a uso. Vem ao escritório. Fiquei inteiramente conquistado. ele tirou um relógio de prata da algibeira do colete e consultou-o pensativo. acrescentando: . para que estejas ocupado. Esta tarde Shapiro tirar-te-á as medidas.É clássica. Laurence. E.» Ao acabar as cartas. o tio Leo continuou: — Aqui está uma linda peça de fazenda. — Tenho de ir — declarou. — Se vier alguém.. garrafas e botijas. cada um deles marcado com uma cruz. respondi : -— Obrigado. depressa descobri. já era quase meio-dia e nenhum freguês aparecera ainda. foram concisas. além disso. mas esse pareceu-me mínimo. Antes. algumas abertas. Procurando afanosamente entre os papéis da secretária.. de caneta na mão. No soalho viam-se muitos embrulhos e caixas de papelão. — Olhei-o reconhecido. acto que. eu me achei sentado à secretária. escrevendo a primeira de uma série de cartas todas deste teor: «O senhor Leo Carroll apresenta os seus cumprimentos à Companhia Alimentícia das Algas do Oceano e roga o favor de lhe enviarem para o seu escritório supra mencionado umas amostras gratuitas do produto «Sargaço» anunciado no Boletim de Alimentação Saudável. A tal fazenda. ajuntou: —Dar-te-ei o fato. Terás cama e mesa e. significava o prelúdio das suas saídas súbitas e misteriosas. — Espero que tenhas boa letra. Folheou-a e indicou-me alguns anúncios. Talvez notasse a minha hesitação. chama pela senhora Tobin ou limita-te a dizer que não me demoro. mas ainda ignoro se pela sua generosidade se pelo desenho do tecido. — Não será um pouco berrante. Laurence. De modo que. tio Leo ? — Berrante ?! — Repudiou a ideia. que para receber aqui um aprendiz eu exigiria normalmente uma caução. cinco minutos depois de ele partir. Contudo. e penso que precisas de um fato. Leo parou na derradeira mesa. porém.Completado que foi o nosso circuito. . e um cofre grande pintado de verde. e a única no género que possuo. receberás um xelim por semana para os teus alfinetes. Entretanto vou distribuir-te trabalho. Quando o tranquilizei acerca desse ponto. A Mãe dissera-me que o tio prometera pagar-me salário. que lhe exprimisse o meu agradecimento. que ele desdobrou com grande perícia profissional. para seu uso pessoal e possíveis futuras encomendas comerciais. Dispenso-te da caução. — Fez uma pausa e. se precisares de qualquer coisa. apesar de me surpreenderem. deu-me as suas instruções que. durará uma vida inteira. porque prosseguiu rapidamente: — E mais. em tom de imensa liberalidade. tio Leo. Enquanto eu permanecia silencioso. uma só cadeira. Nos últimos meses eu tinha crescido bastante. E não pequena! Mas deixei falar a voz do sangue. as quais revelavam bonitas latas rotuladas. dizendo: — Compreendes. era um xadrez de tons discordantes e tão vivos que só pareceria destinada a cavalheiro de pronunciado gosto desportivo.

que o meu tio não está muito próspero. todavia. senhora Tobin? * Minhas. se é que não o conhece já.perguntei: * São suas. Abanou a cabeça. como todas as Irlandesas. colocando a outra no seu. Passaram-se minutos e eu falei: — E estas batatas estão bem cozidas.. pregado no lado de fora da porta. surpreendeu-me o alívio que senti por ver a senhora Tobin. Em segundo lugar. senhora Tobin? Isto é..» Esta prova da pouca confiança que meu tio depositava em mim deixou-me um tanto desalentado. — Que engraçada a sua figura com uma fita métrica aos ombros! Esquecendo-me de que deliberara não gostar dela. a fim de ver se não se teria formado na rua alguma bicha.Tornei ao armazém e abri a porta. — Lembrei-me — continuou a criada.. * São de lata — retorquiu sucintamente. as papas não me haviam enchido a barriga. Quanto a bebidas. E. onde cedo percebi que a minha refeição constava de batatas cozidas e um triângulo de queijo. Leo. que principiaram imediatamente a chiar e a desprender um aroma sedutor que me fez crescer água na boca. * Tenho a impressão. Enquanto as frigia. senhora Tobin. Mas não me trate por senhora Tobin. Como podia adivinhar que ele. jamais deixa a mão direita saber o que faz a esquerda. Também não fuma. Mas já são horas de almoçar. Estarei cá às duas horas. salvo quando fica aqui a tarde a chafurdar nas suas amostras alimentícias e não sei que mais.atalhei com certo interesse. — Em primeiro lugar. Vim para dentro e pus-me a olhar através de uma janela. . nunca as tomou na sua vida. * O meu tio não vem almoçar? —Inquiri. Trate-me por Annie. a senhora Tobin pôs uma frigideira ao lume e tirou não sei donde. Contudo. Annie. Se lhe chovessem em cima costeletas de porco. retirando a frigideira do fogão. ansioso por aprofundar o assunto. 0 menino não levará tempo a conhecê-lo bem. * Não prova carne.. 0 senhor Leo é pessoa estranha e discreta. contemplava-me com um largo sorriso sugestivo. Se lhe parecer almoço. Apesar das vidraças sujas. um papel com estes dizeres: «Volte mais tarde. acrescentou com ar astuto. com a sua astuta previsão. Não compreendia por que motivo o meu tio escolhera semelhante local para viver. por uma espécie de prestidigitação. * Tenho dedo para elas. confirmou. — Acrescentou. vai comer ao restaurante vegetariano da Union Street. Nessa altura descobri. de vir observar como se desembaraçava. espetou com um garfo uma das salsichas e pô-la no meu prato. raramente come o que alimentaria um pardal. lojas mesquinhas. a rua. revelou-se-me tal como era. duas gordas salsichas. uma fila de padiolas de vendedores ambulantes. só aproveitaria a gordura para engraxar as botas. sabia que o planeamento urbanístico elevaria o valor da propriedade a um preço fenomenal? Uma risada atrás de mim arrancou-me àquela meditação e fez-me voltar a cabeça. Fechou a porta da rua e nós subimos à cozinha. uma taberna. Eu estava com apetite. * Meu Deus! É realmente vegetariano. A despeito das afirmações do tio. * Parece muito boa. instalado num prédio tão grande e arruinado para só utilizar uma parte mínima. antes de servir essas coisas. não podendo conter-me. Não havia ninguém. com a boca cheia de salsicha e puré.

os clientes eram alfaiates modestos. que depois de comprarem ele cortesmente as obsequiava com um molde da «Costureira em Casa» da revista Weldon. Depois despiu o casaco. com medo de novas revelações. com certeza. Nesta casa não se fia. a comida não é abundante. e que veio ao armazém ao cair da tarde. Se o menino tivesse. com enormes olhos pretos e uma pastinha de cabelo preto através do crânio amarelado. não raramente. Devo contudo dizer. algumas embrulhadas em xailes (símbolo seguro dos bairros miseráveis). Tratava-se de um homenzinho débil. a comer papas de farinha de fava? Não me atrevi a prosseguir no assunto. subido e descido as casas dos inquilinos em Anderson Cross. quando chegar o dia do próximo engarrafamento. * Mas virão depois! Hão-de vir. que pareciam vir comprar o que chamavam saldos e que eu percebi serem restos de peças. a quem foi confiada a honra de fazer o meu fato. mas a despeito desta familiaridade e das adulações. dentro ou fora de casa. Quando por fim se recompôs. no qual havia. Algumas deviam ser.Se eu dissesse a pilhéria mais engraçada do mundo. * Que é o principal. ele mantinha-se reservado e limitava-se a apontar para um dos muitos letreiros afixados e que rezava assim. em abono da verdade. que tem isso? * Que tem? * Este armazém é só uma pequena parte dos negócios do senhor Leo. Quer dizer. E ainda não seria o principal. eram dolorosamente insinuantes. Que havia eu de concluir desse tio tão escandalosamente rico mas que morria de fome. quando ele estiver lá. sozinho. que aliás raramente tirava. As suas maneiras para com Leo. porque o tratavam por Leo. Acabado o almoço. omnipotente. corado de confusão! — O tio não parece viver muito bem. pertencia sem dúvida a esta classe. de aspecto cadavérico. para receber as rendas. Estes. porém. insuficientes para os usos triviais. Na maioria. barris e barris. Chegou pontualmente às duas horas. Todas as minhas noções acerca de Leo me rodopiavam numa incerteza perturbante. a envelhecer e a tornar-se mais caro com o tempo. pelo lado de trás. menino. a contas com os seus livros comerciais. como eu. pareceu contente por me ver no trabalho e até me felicitou em termos sóbrios pela forma como eu redigira as cartas. mesmo que não venham. alguns deles estrangeiros e. enxugou os olhos e redarguiu: * O que o fez pensar assim? * Ora — expliquei. Toda ela tremeu com as gargalhadas que dava. Annie? * Whisky! — exclamou ela. Possui propriedades em toda a cidade. expressas em grandes gesticulações. E a verdade é que esta manhã não veio uma só pessoa ao armazém comprar roupa. dirigiu-se ao seu escritório. * — Whisky em depósito. a senhora Tobin recusou outra vez a minha oferta para a ajudar na lavagem da loiça e eu desci pensativamente à loja para garantir a minha presença ali quando Leo regressasse. O que mais me impressionou foi o número de mulheres pobres. saberia muito mais. onde por algum tempo esteve ocupado. 0 senhor Morris Shapiro. todos selados. um carimbo com a palavra «Grátis». vestiu um colete com mangas de alpaca e. ele e eu. porém. Também ficará ciente disto. judeus. gozando o efeito dessa palavra. voltaram ao cofre quando os clientes começaram a afluir. inquilinas do tio. De tarde. . ainda de chapéu na cabeça. Olhei-a espantado. o efeito na senhora Tobin não seria maior. E.

queimou o fio e levou a parte chamuscada ao nariz. como se quisesse aflorar o assunto. senti que por qualquer razão desconhecida o incidente o inquietara. contudo. Contudo.Pareceu. olhou para mim e depois para o tio Leo. Uma vez tomadas as medidas. Mesmo quando escrevia. não utilizava o correio. indicando desse modo a sua próxima saída. Fechou a porta à chave (uma das que trazia no molho) e desceu rápido a escada. com certeza a maior parte das suas cartas. concordou à pressa Shapiro. É altura de encerrar a loja. — Deu-me uma palmadinha confirmadora. Por que me levava consigo? Creio que um resto de consciência. então permanecia em serviço na loja. olhou cauteloso de soslaio e disse-me ao ouvido: — Há muitos anos que ele desejava desfazer-se deste corte. porque estava a escurecer. senão todas. Andou cá e lá. Portastete bem. a despeito da diversidade de negócios. — Ficará um amor. em seguida puxou um fio do tecido. Então olhou outra vez para Leo. sabes pois que farei tudo por ti. Todavia as expedições em que acompanhava o tio constituíam para mim o mais revelador dos aspectos de Leo. riscou um fósforo da caixa que tirara da algibeira. enquanto eu subia lentamente para a cozinha. — Mas servirá. — Agora tenho de ir falar com um sujeito. consenti que Leo inclinasse afirmativamente a cabeça. — És meu sobrinho. eu tive larga oportunidade de observar este homem deveras extraordinário. Mas lembra-te sempre de que o dinheiro custa a ganhar. conforme as suas instruções. Leo deixava-me agora atender os fregueses que por acaso vinham a essa hoxa. afastando-se com extrema indiferença. Mirou-a. como nos encontrávamos frequentemente juntos no trabalho. relanceando-me de vez em quando. Consultou o relógio. o induziu a querer proporcionar-me . Embora Leo possivelmente não tivesse ouvido. De manhã. ele abanou a cabeça. e. Se não andava a fazer esses recados. a correspondência era relativamente modesta. Shapiro hesitou. Afinal não o fez. pegou na fazenda e meteu-a debaixo do braço. eu escrevia. porque as máquinas não eram da simpatia de Leo. Fora para mim um dia estranho. rapaz. Ao perguntar-lhe se podia acender o gás. ou talvez o sentimento da obrigação que devia à minha mãe. resíduo da sua primeira educação. Quando se retirava. veremos como continuas. —Pobre em lã — declarou.O menino gostou disto ? Muito acanhado para falar. — E há-de assentar como uma luva. — Talvez — disse Leo. Já se sabe que não havia máquina para esse fim no escritório. uma vez que eles pagassem ao balcão. visto grande número deles ser tratado de viva voz. eu é que ia entregar as missivas. aproximou-se de mim e pôs a mão no meu ombro. —Não será um pouco bera? — Não. palpou-a. com a fita métrica ao pescoço e um lápis atrás da orelha. e a cabeça andava-me à roda com a recordação dos acontecimentos. . sem precedentes. denunciar certos receios quando posto distante da fazenda escolhida. XXIII Durante as semanas seguintes tornou-se claro que o meu tio pretendia conservar-me ocupado.

estavam cheios até ao tecto e era difícil abrir as portas sem que nos caísse em cima a mobília empilhada. às vezes. de um lado e outro do corredor do último piso. o seu valor ia crescendo. O mais curioso é que. e a despeito da opressão e trapaças com que me confundia. Antecipou-se ao perigo da depreciação da moeda e colocou todo o seu numerário em propriedades e whisky. mas o que nunca me cansava eram as visitas àquilo a que Leo se referia sempre como o «imposto». fui informado de que o líquido nunca envelheceria senão envasilhado em cascos já usados. Era precisamente este sentimento que ele procurava inspirar. eu levava para juntar à baralhada de coisas arrecadadas nos andares superiores do nosso prédio. Esses quartos. eu olhava pasmado para essa cara pálida e impassível quando ele. enquanto me compenetrava da sua riqueza presente e futura. Eis. notava-se-lhe um leve tremer de lábios. invadia-me uma onda de ternura e até de comiseração. Depois. Contudo. Conforme a Annie me garantira. As filas de barris. até que fazia um gesto de assentimento e. Mesmo nesses primeiros tempos Leo já possuía uma clarividência espantosa. que me apareciam à luz difusa vinda pelas janelas cobertas de geada. lançava fora todo o trago. como ele a praticava. entre a turba dos licitantes roucos. precisávamos de duas chaves.certa base na car reira comercial ou na «arte» do negócio. Não raramente eu o observava. Comprava whisky. não só pela quantidade e tamanho dos recipientes mas porque esperava achar o whisky do tio Leo engarrafado. o triunfo de toda a sua artimanha. nas vendas de Argyle Street. A sua vida era um modelo da mais sombria. o negócio principal do tio Leo. e uma «amostrinha» de Islay. pois. Cedo. Não era só um perito na compra mas um grande entendido na lotação. Para entrarmos nesse edifício. o seu capital. com o tempo. quando no decorrer de uma conversa de negócios proferia uma frase típica tal como «sou pobre» ou «não tenho posses para isso». Então percebi que o supremo gozo de Leo. a outra guardava-a o funcionário do Fisco. quando lhe contemplava o rosto pálido e enfermiço. Pelo preço justo Leo comprava qualquer coisa. porém.no e os adicionava a um whisky especial cujo nome não revelava a ninguém. e aos armazéns de retém das docas. embora eu visse ou suspeitasse de tudo isto. eu não deixava de lhe ter estima. o auge do prazer íntimo. uma o tio trazia-a no seu molho. pois . quando ele reunia maltes das High-lands e das Lowlands. com uma expectoração violenta. Disse já que ele jamais sorria. Contudo. jazia no conhecimento secreto da sua própria riqueza. fascinado. não podia impedir-me de pensar que é que faria dela. A seu lado. com um piscar de olhos quase imperceptível. gargarejo ando-a quase. sob o fingimento da penúria. Assim. como se tivesse dificuldade em conter a vontade de rir. da mais rigorosa e miserável austeridade. Leo nunca ingeria qualquer bebida alcoólica. Às vezes os leilões fatigavam-me. subia para meio xelim o lanço de algum objecto sem préstimo aparente e que. comprava-o na boa altura. Pelo contrário. não só mercadorias de falências ou de salvados mas o que instintivamente percebesse poder dar-lhe um lucro garantido. armazenava-o isento do imposto de consumo. surpreenderam-me a princípio. pela nossa porta privativa. permitia que o acompanhasse a todos os leilões a que assistia. sendo transportável. ao passo que me excluía da cobrança das rendas (feita pelo próprio e pela Annie). e. provava a mistura em volta da língua. a fonte dos seus proventos futuros.

e Farinha de Fava. o seu horroroso padrão condenou-me a padecer vergonhas e tristezas sem fim. ia para a cozinha e. e passou-o a ferro. Quando lia o futuro nas folhas de chá. Mantinha-nos. a senhora Tobin fez-me despir esse traje infame. predizia sempre bons eventos. o que muito gostava de fazer. tais como «devemos levar a vida a sorrir» ou «ri-te e o mundo rirá contigo. era silêncio. e. embora se justificasse com frases feitas. 0 seu almoço envolvia-se em igual mistério. Na verdade. e. chora e chorarás sozinho». parecia viver quase sem sustento. O tio. era eu quem recebia sempre o quinhão maior. Conquanto a vida com o tio Leo não fosse muito difícil. numa absurda meia ração. Mas um sábado. e. exceptuando a comida extravagante para a qual o arrastava a sua mania. a pessoa mais amável e alegre que eu até aí conhecera. generosa e sem o mínimo vestígio de maldade. até a avareza do tio Leo. Tostas de Pão Integral. Não foi só através do estômago que se dissipou a primeira impressão que a Annie me produzira. quando à noite regressava. sem excepção. ainda de chapéu na cabeça. raras vezes se aborrecia. Teria passado muito mal se não fosse a senhora Tobin. como eu crescia rapidamente. Annie devia ser. e no domingo de manhã apresentei-me com um vestuário que era ao menos respeitável. após uma semana de angústias durante a qual me senti objecto de irrisão e espanto da cidade inteira. Jamais lhe ouvi qualquer observação pouco caridosa. que merecia sem dúvida . este sempre aparecia quando ela o ameaçava de se despedir. andava quase sempre com fome. com ar abstracto. lhe servia para riso. O seu contrato incluía alimentos. embora falhasse às vezes porque Leo alegava não ter dinheiro disponível. o meu problema principal consistia na alimentação. Essa mesquinha concessão habilitava-a a suprir as puras necessidades da nossa dieta com o que Annie chamava os «seus extraordinários» e que dividia voluntariamente comigo. Araruta. quando se fazia a divisão. O próprio tio Leo. por assim dizer. Tudo. era uma fonte inesgotável de afabilidade e estava sempre pronta a rir das suas preocupações e das minhas. muito antes de eu me levantar.estabelecia e confirmava a personalidade que ele criara e dentro da qual existia o verdadeiro Leo Carroll. Nada podia ensombrar aquela natureza jovial. Glúten de Grãos de Aveia. secou-o. e. preparava uma ou outra das suas mexerufadas. à noite. aquilo provinha da sua maneira de ser. tingiu-o de um castanho discreto. Tomava sozinho a primeira refeição. Uma vez com o meu fato novo.

Arranjava emprego e. de homem. Afinal. que foi lindo. Na prateleira da cozinha. Annie sorria e começava: — Danny sempre foi bom moço. Quando olhava para ali... Annie também era bastante popular entre os expatriados irlandeses que usualmente se reuniam nas terças-feiras à noite na taberna de um do grupo. Mas. e em seguida (apesar de eu ainda não ter idade legal para isso) introduzia-me secretamente na taberna do Trevo. Não tinha feitio para isso. concluindo em geral com a canção predilecta que. Tinha muito de fidalgo. já ouviste O que se diz? Quem tudo manda Vai proibir que o trevo cresça Mais uma vez no chão da Irlanda! Seguia-se o estribilho. de Taj Mahal. Era viúva e tinha quatro filhos. largava-o. ao qual com o maior sentimento todos se juntavam: Querido trevo. mas. onde comprava postas de peixe frito para a ceia. Quando possuía umas moedas a mais. Caro Patrícius. com um sorriso saudoso. todos rapazes.as maiores censuras. Daniel». ostentava-se um postal ilustrado com uma vista ao luar. ao fim de duas semanas. . espero que este a encontre de saúde. Embora raramente lhe escrevessem. quanto à minha é boa. graças a Deus. falava mais do marido. no qual estava escrito. quando muito. que popularidade gozava! Quando morreu toda a gente da rua acompanhou o enterro. junto do pequeno aquário onde ela conservava ternamente um peixinho dourado que já devia ser velho. nas nossas longas conversas à noite. embora um bocadinho travesso. ele é mais rigoroso consigo mesmo do que connosco». e levava-me em primeiro lugar ao restaurante do Bonelli.. Annie punha um boné de fazenda. evocando um ou outro incidente do passado. um xelim). como eu me tornara muito amigo da senhora Tobin. estaríamos bem. mas sem êxito.. Chamava-o «Da». ela o desculpava com um sorriso de compaixão. para o Canadá. ou quando apostara no cavalo vencedor (em que gastava só três dinheiros ou. para trabalhar no campo! Comprou um cavalo e uma carroça. «Querida mãe. Se lhe pagassem o que fazia. Eram mais ou menos neste teor: — «Da» não podia ser melhor pessoa. Annie de vez em quando falava-me deles. ouviam-se gritos de «Canta qualquer coisa. e que designavam patrióticamente pelo nome do nosso emblema nacional. à sua maneira. Ah. trevozinho. se não estou em erro. se chamava «Pátria Verde». e se o fazia era de modo resumido. Seu filho afectuoso. Nunca me esquecerei do dia em que caiu do molhe de Dunoon. Annie!» Após uma troca de gracejos e sem o menor constrangimento ela acedia cantando o «Menestrel» ou «Palácios de Tara». em geral. E inteligente! Mas estava sempre desempregado. A sua entrada era sempre acolhida com exclamações de boas-vindas e. «Só se pode sentir pena do pobre homem. escutava-a com ar tão atento quanto possível. Estas constituíam muitas vezes ocasiões festivas para mim. que segurava cuidadosamente com alfinetes de chapéu. Três estavam no exército (dois na índia e um em Singapura) e o quarto emigrara. Devo confessar que me interessavam pouco essas reminiscências familiares. mas arranjar dinheiro não era com ele. o Trevo. depois de ela pedir para si cerveja preta (nunca tomava mais do que uma) e ginger ale para mim.

lixo caseiro composto de maçanetas já velhas. «Mais outra costeleta. raquíticas. para aumentar o pandemônio. e. porém. dissertando num ambiente à Eton acerca da Orchis maculata. e assim. Quando. 168 . Se bem que estivesse enferrujada. marchando abaixo e acima. Essas conversas sérias com meu tio. Contudo. como se sentia afundar numa espécie de pântano. Querido e belo trevo da Irlanda! Apesar destes divertimentos. sabia qua a mãe se via aflita para desempenhar as suas obrigações na escola a tempo de tomar o comboio para Cardife e comparecer às suas importantes aulas nocturnas que. deviam tê-la induzido a uma impressão inteiramente falsa das perspectivas que ele poderia oferecer-me. à procura de desordens. A casa de banho do prédio de Leo servia presentemente para depósito de objectos inúteis. limpei a tina daqueles escombros. parando uma vez por outra para entoar um hino ou pregar os terrores da condenação. eram mais difíceis do que previra. sufocado pelo imenso fumo e fuligem. tentei agarrar-me de novo ao ilusório ideal espartano. impelido pelo vácuo que sentia no estômago eu ia ao Bonelli comprar um vintém de batatas fritas e ouvia em linguagem mascavada que as batatas ainda não estavam prontas e só as ervilhas. não me atrevia a escrever e a revelar a verdade. cortados de ruas estreitas e becos nos quais se viam todos os sinais de miséria: mulheres de xaile. enquanto. não podia deixar de sentir que a minha existência decorria agora num meio muito baixo. o Exército de Salvação surgia com o estrondo dos cím-baíos. Custava-me apenas meio dinheiro o eléctrico que me levava de Argyle Street a Kelvingrove Park. sufocada do tráfego. os marinheiros emergiam das docas. ajudado. molduras partidas. Entretanto. depois dos desafios. pregos tortos. experimentava a sensação amarga de que a minha estrela empalidecera desde aqueles tempos felizes e prometedores em que Miss Greville. todas as manhãs quando me levantava. eu fazia quinze minutos de ginástica e em seguida tomava um banho frio. Às tardes. pelas suas cartas frequentes. à tarde. não havia nada que melhorasse ou me estimulasse o espírito. Nos meus contactos diários. Argyle Street parecia-me uma chaga purulenta. durante as quais ela estudava o rosto pálido e triste do cunhado. o rufar do tambor e o frémito dos metais. trevozinho. deformadas. os casebres cerca-nos. mas como às vezes me faltava essa moeda. Para todos os efeitos eu vivia e trabalhava nos bairros pobres no Winton. crianças andrajosas. O loo£ era horrível. que me sustentara no passado. se interrompia para me perguntar. etc. e. com muita coisa técnica que lhe custava perceber. A mudança fora brusca e alarmante. suja. etc.Ó belo trevo. Isso não modificaria a minha situação. Perpetuamente ruidosa. facções rivais de clubes de futebol combatiam com os punhos ou com facas. Carroll?» Tinha agora a certeza de que minha mãe não previra o que me esperava no armazém de Leo. pela Annie. que começavam a ser mais longas. que o tio não se resolvia a deitar fora.. ou estendidos nas valetas ou conduzidos à esquadra. ou talvez por causa deles. no subúrbio ocidental da cidade. ela era ainda consistente. o pior de tudo. voltava com prazer à minha antiga paixão de corredor. adaptação física que não se me reflectira até aí na delicadeza do arcaboiço. Sábado à noite a multidão crescia e andava como se desvairada: havia bêbedos por toda a parte. homens ociosos. segundo me confiou. com o esmalte escalavrado. Porta com porta. humanos e inumanos. caixas de papelão estragadas.

Chegado ao parque. no circuito por mim estabelecido. e depois começava a correr. As possibilidades que eu teria de estudar ali eram agora desesperantemente remotas. Quando estava fatigado. Com excepção de um eventual par de namorados sentados num banco. os quais. Ao passar nos claustros desertos lia os nomes inscritos no alto das entradas e deixava-me arrastar sempre para a da aula de Biologia. contanto que levasse os velhos sapatos de lona. o mesmo desejo veemente impelia-me a subir a colina e vaguear em volta do recinto. depois de tomar fôlego. que se estendia numa série de alamedas abaixo da Universidade. andando cá e lá junto da porta fechada. que me faziam sentir leve e cheio de elasticidade. olhando para a Universidade. parava para me recompor. Por fim regressava à cidade. todavia. . de encontro ao céu crepuscular. onde. aos últimos clarões da tarde.eu não me importava de ir a pé todo o caminho ao longo da Sandimount Street e Western Road. A sensação de liberdade e prazer indiscutível que eu experimentava com essa corrida através do ar frio. velha e nobre construção que sobressaía escura. sentindo que a minha vida se afundava numa rotina estúpida e improfícua. ficavam perdidos para trás de mim. concedia-me uma evasão a todos os meus pesares. sentava-me a descansar. aspirava o cheiro da terebintina e outros odores. poucas pessoas se viam ali àquela hora. como se varridos pelo ímpeto da minha velocidade.

Quando me olhou de cima a baixo. de grande pé direito. e depois de um terno aceno de despedida. Quando lha expliquei. — Ora viva!—disse Terence. — Tony. estacionava um automóvel vermelho estofado de cabedal da mesma cor. examinando-me com olhar satírico. Depressa descobri a entrada de serviço. lobriguei o átrio de sumptuosa alcatifa vermelha e cadeiras douradas. com um motorista fardado. seguiu com a vista o carro até este desaparecer. — Estás então a trabalhar para aquele avarento 1 Nunca passo por ele. tal como se chamassem um cocheiro. fizera-me olhar para trás. tremi um pouco. Mas não parecia muito satisfeito.Vai então pelo lado de trás do edifício. O Criterion era um hotel moderno. Terence! Fez de conta que não me ouvia. um verdadeiro figurino. Perante tamanha elegância. e. Lá te espero. quando os nossos olhos se cruzaram. com pretensioso aspecto continental. — Que andas a fazer aqui? A total ausência de comunicação que existia agora entre minha mãe e Lochbridge deixara-o na ignorância da nossa situação actual. Nessa ocasião. Profundamente impressionado. cuja ostentação de metais brilhantes e luzidios azulejos brancos ofuscavam a vista. mas desta vez com ar meditativo e em tom mais baixo. * Que é que fazes. sem um cabelo fora do seu lugar. através das largas portas de vidro. levou-me por um corredor comprido até à cozinha do hotel. recaí em mim e afastei-me rapidamente. quando me encontrava com Terry. Não deixaria de lhes valer. disse Terence. Terence vinha na minha direcção. — Ou não te desagradaria comer agora? — Antes que eu pudesse responder. mais belo do que nunca. Terry? * Sou recepcionista no Criterion Hotel. po rém. Evitando o meu olhar. na rua. explicou Terence — acabo de descobrir um parente que morre de fome. relanceei a vista pelo entrada de colunas de mármore e. ajudou-a a sentar-se com todas as demonstrações de solicitude. Quando ele se voltou. quadra enorme. enquanto eu. um assobio estridente. Reconheci-o imediatamente. continuou: . lembrando-me de súbito de que. era impossível não me envergonhar do meu aspecto. defronte da porta do restaurante anexo ao hotel. no regresso de uma missão de que Leo me encarregara. Por que não vieste ter comigo? Sempre gostei da tua mãe. e Terence. — Suponho que Leo te alimenta bem. sem efusão.XXIV Uma tarde. 170 . quando eu subia a Union Street em passo vagoroso. É pessoa simpática. chamei-o em voz alta. com modos indolentes. repudiei a Maggie. Ela estava agora vingada. Mais acima. Terence escoltou a sua dama até a esse veículo pomposo. vi sair do Criterion Hotel um rapaz em cabelo e de extrema elegância acompanhado de uma senhora trajada com requinte talvez excessivo. Um rapaz de avental e barrete de cozinheiro lia nesse momento um jornal. o contemplava como um imbecil. de calças listadas e casaco escuro. que já estava à porta. oito anos antes. humilhado. Tens aí qualquer coisa que se lhe dê? Tony baixou o jornal. soltou outro assobio. continuou a falar muito animado com a companheira e passou por mim como se eu não existisse. Em Winton chegava às raias da opulência. que não me apeteça cuspir -lhe na cara. a ambos.

pois. Foi um alívio ver a casa de jantar do pessoal (para onde Tony me levou) completamente deserta. jÉ porque este prato está uma delícia. dominado por uma timidez enorme. após um intervalo surpreendentemente curto. sem reflectir. sim! Com o grupo de Ardencaple. um estado de conflito interior somente equilibrado pela disciplina que me impunha. — O quê ? ! — exclamou Terence. — Então que diabo é que fazes ? * Estou ocupado o dia inteiro — respondi. A coisa ainda não é oficial. Venci dois anos seguidos a prova de corta-mato. Eu não podia dizer que a rapariga era bonita. Quando Terence proferiu estas palavras percebi que esperava qualquer resposta. Devo informarte. pensativo. De forma que menti heroicamente: — Não me interesso por pequenas. Esta é que é a sério. muito obrigado. Terence instalou-se numa cadeira defronte de mim e acendeu um cigarro.— São três horas da tarde. replicou. * Pensei que gostasses da Polly Grant — disse eu. impressionou-me a proeminência do nariz. e isto fica entre nós. E bastante. mas praticamente ela é minha noiva. -— Ainda não tens uma pequena? Foi a minha vez de corar. confirmando o antigo boato acerca das suas visitas frequentes a Ardencaple. embora a tivesse visto de relance. defen-dendo-me. o cozinheiro trouxe-me uma boa dose do que me pareceu um guisado. e acrescentou: — Entraste nalguma competição a valer? — Ah. Quando Terence sorria ninguém podia resistir. — E só eu é que estou de serviço. Assentiu. mas considerou-me. De modo que declarei apenas: — Ela é muito elegante. — Aquilo foi um entusiasmo de momento. — O carro é dela? * É do pai. Fitou-me ainda mais pensativo. complacente. Não desejava esclarecer Terence quanto aos meus anseios nesse sentido. . — Por isso viemos cá. sim? Pela primeira vez despertou a curiosidade de Terence. o construtor Gilhooley. Aí. ao anoitecer. * Ah. — E. — E acrescentou. depois de um silêncio: — Nunca sais com raparigas? A pergunta era tão absurda que me limitei a abanar a cabeça. — Pudera não! É carne à bordelesa. — Não. —Pareceu querer brincar com o caso. Passou um leve rubor nas faces de Terence. que a Josey e eu estamos noivos. — Isso é que é engolir. com um ar satisfeito de proprietário da dita senhora. — Lembro-me de que corrias bem. Nadam em dinheiro. — Agrada-lhe? — Sem dúvida. * Que é que ele quer ? * Qualquer coisa com carne. vou até ao parque e exercito-me a correr. — Devias estar esfaimado. Quando comecei a comer. rapaz! — comentou daí a momentos. A minha amiga Miss Josey Gilhooley também a comeu hoje ao almoço no restaurante do hotel. Terry. Tony largou o jornal e levantou-se. Terry.

de modo animador. E mais: o assunto de Rockcliff fora aflorado. Devem chegar esta tarde uns hóspedes muito importantes. que é hoje bolseiro. A atitude expansiva de Terence levantou-me o moral. * Não fales nisso. Aquiesci tristemente. Verificarei o tempo que gastas na corrida da milha. — Tenho de ir para a recepção. Já te dou o endereço. * Quem sabe ? — replicou. a directora comercial do Earle's. Já tirou o canudo. quando ele me conduziu à porta das traseiras. XXV DURANTE uns dias esperei qüe Nora entrasse em contacto comigo. Os Donohues são nossos amigos. * De que maneira? * É assistente de Miss Donohue.. embora ainda por determinar. — Ouve cá: sabes que a Nora está em Winton? * Não sabia.* Talvez uma destas noites eu possa ir marcar-te o tempo. Mostrou-se satisfeito. ajuntando em voz baixa: * Daria tudo para ir. Sabes o que é estar encarregado dos fornecimentos ? Sabia mais ou menos.. É pena que não tenhas podido ir para Rockciiff. tenho boas relações. Além disso irlandês e também católico. — Pois! Eu era ali o campeão. continuou Terence. Gilhooley é homem importante.— Por que não a vais visitar? Vive com Miss Donohue. ou quase. e vai singrando lindamente. saí regozijado com o feliz acaso que me pusera no caminho de Terry. no sábado 172 . fazer por mim? 0 nome de Gilhooley. e com certeza Terence falara à irmã do nosso encontro. Com certeza me atenderia. Custava-me tomar a iniciativa. Brilhavam-me os olhos quando lhe murmurei a minha gratidão. 0 velho Donohue e meu pai foram amigos íntimos. Não é caso para desesperar. lembrei-me agora de um meu antigo colega. Mas mantém-te em contacto comigo. — Ainda não é tarde. deduzi que a situação de Miss Donohue devia ser muito boa. de modo que é esplêndido para Nora estar sob as ordens dessa senhora. * Lembro-me de nos teres dito que venceste as cem jardas de Rockliff. Poderei escrever-lhe. de quem Terence estava noivo) sugeria possibilidades que.. Não se esqueceram de mim. Que poderia Terry.. embora tenha muito em que me ocupar para ser eu próprio a correr. Estivera tanto tempo sem um camarada decente que a perspectiva de conviver com Terence e Nora me enchia de excitação. associado àquele automóvel faustoso (para não falar da filha espampanante. ou lá o que é. Ainda sou capaz de fazer isso. * Pois está. Ou até o próprio reitor. Chama-se Philan. E como o Earle's era o principal estabelecimento de modas femininas de Winton. pareciam ilimitadas. A propósito. — Recuou a cadeira e pôs-se de pé. — Nora pergunta sempre por ti. ou Feeney. isso te garanto. Nem fui capaz de lhe agradecer como devia. Entrarei pela porta de serviço. Na verdade. Mas como não recebi nem novas nem mandados. se te saíres bem podes lucrar com isso. Tirou do bolso do colete uma lapiseira de ouro e escreveu a morada. em Park Crescent. Há sempre recursos. * Será mais fácil para ti — concordou. Não te esqueças de aparecer por aqui. ou os seus amigos. Como já te disse. * Não me esquecerei.

ou não. as campainhas de ouro estavam já em flor. sobranceiro ao Kelvingrove Park. Era possível . luminosa. A tarde. Aí. Já desanimado pela atmosfera superior deste local. Situado num ponto alto.° 9. na "vasta alameda onde eu costumava fazer as minhas provas atléticas arrastavam carrinhos de criança. Eu devia. lembro-me perfeitamente. agora convertidas em apartamentos. estava calma. que tanto contrastava com a miséria de Argyle Street e de Templar's Hall. suave. fui em ar de passeio até Park Crescent.seguinte. continuei a andar e não parei senão quando me encontrava cinquenta jardas além de Crescent Park. em vez de me deter defronte do n. avançar descaradamente * bater à porta? Os rebentos despontavam nos castanheiros. Park Crescent ficava num privilegiado bairro residencial. cheia de uma bela promessa de Primavera. era rodeado em parte por casas de estilo georgiano. com olhar de observador desinteressado debrucei-me na balaustrada e contemplei o outro parque lá em baixo. quando acabei o trabalho. no lado oeste da cidade.

porque temos de sair ambas.. sob as pestanas curvas e espessas que pareciam mais escuras em contraste com a frescura delicada da tez. Laurence. como se se partisse qualquer coisa cá por dentro. me afastava apressado dos passeios. A minha prima estava diante do espelho do toucador. numa atitude empertigada.que Nora não tivesse nenhum desejo de me ver. de cabeça inclinada para trás.° 9 e penetrei no extenso átrio de entrada. e queria a sua amizade. Ah. E não só linda como elegante. escolhi a que tinha colado um bilhete de visita com este nome: Fidelma Donohue. —-Oh. e ficámos a olhar um para o outro. pateta? Não. Porque não havia dúvida quanto a isto: Nora era linda. Obedecendo. No entanto. * Então por que não apareceste mais cedo. Somos uma família 174 . íembrando-me de que estava apresentável com o meu belo fato tingido de castanho. Laurence Carroll. Tem-lo com abundância e de um belo tom castanho. pôs a mão no meu ombro e voltou a mirar-me dos pés à cabeça. — Miss Nora Carroll está? -— murmurei. Era exactamente o género de moça de quem eu. que prazer tornar a ver-te! Há muito que o desejava. como estás bonito e crescido! Nem quero pensar como te tratei daquela vez. Nora! — Pois parece que te fez bem ao cabelo. No fim de contas. na capoeira. impelindo-me para uma porta entreaberta: — Nora está ali. Conheci muito bem o seu pai. porém. saia verde escura pregueada e um colar de contas verdes. entrei no compartimento indicado. Mas não deixe de voltar. não somos primos? Àquela pressão tépida senti uma espécie de choque. Tinha a boca larga. à sus insistência. toquei a campainha. Lembraste do ovo? — Se me lembro. adornada de duas filas cintilantes de dentes postiços. eu gostara dela na última vez que nos encontráramos. Enchendo-me de coragem. — Sou primo dela. acolhedora. Virei-me e notei que não navia vivalma na rua. coitado. guarnecido de cortinados de ramagens e cadeiras estofadas do mesmo tecido. Voltou-se. a expressão modificou-se. De várias portas. como te bati de encontro ao muro! Avançou para mim. — Pronto! Foi para te compensar. observou-me com um olhar duro. Contudo olhava-me sorridente. Mal reconheci nessa rapariga extraordinariamente bonita a garota magrizela que batera com a cabeça na minha no dia do enterro do meu pai. de casaco e chapéu à moda. subi os degraus do pórtico n. continuou. Com que então está agora a tentar a sorte com o tio Leo ? — Sem me dar tempo a negar esta sugestão. abraçou-me e deu-me um beijo demorado. Compreendi que viera em má altura e dispus-me a pedir desculpa e a retirar-me. inquiridor. * Nora. -—Entre! Por que não nos veio visitar mais cedo? E por que não preveniu de que vinha? Quando entrei. com o olhar baixo. Abriu a porta uma senhora baixa.. um quartinho de dormir muito feminino. e sorriu. vestida para sair. murmurei. — Sim. forte. e os seus olhos pretos. é um verdadeiro Carroll. com medo de a macular com a minha presença. a culpa foi minha. Apertei o nó da gravata e. Envergava blusa de seda com bordados. voltei atrás. não. Vá vê-la num instante. cintilavam de prazer e malícia. Abrandou imediatamente. Ao menos ninguém presenciaria a minha possível expulsão. um tanto irónica. — Que deseja? — perguntou.

O calor suave daqueles lábios persistia no meu sangue inocente. eu. Tinha sobrecasaca preta. nunca. — Que tal ? Fica-me bem? Cuidado. convidado para outro encontro! Nunca. É uma pena. se eu sei ajuizar. Fez-me sinal para que me sentasse a seu lado. não! Pelo contrário. colarinho de guta-percha e gravata de laço. apressei-me a dizer. Nora. também simpático. Terence e outros. * Vou-me já embora. — Laurence Carroll — disse ele. — Na realidade. Precisamos de recuperar o tempo. Duvidoso de que a explicação fosse elogiosa ou depreciativa. quando ia pelo passeio ribeirinho. aceitei o convite e sentei-me. A não ser — acrescentou. estava um homem de aspecto encolhido. Nunca. Laurence. és um moço engraçado e. decorridos sete anos. eis o que me impressionou de tal maneira que recaí em mim dos meus sonhos e respondi involuntariamente: * O Rankin!—Então pedi desculpa da familiaridade. * Conhecer-te-ia em qualquer parte.acabou de pôr o chapéu defronte do espelho e voltou-se para mim. eu estivera familiarizado com essa espécie de tacão de madeira terminado em engaste de ferro que o fixava à sola espessa de uma bota. Compreendi» a vida. Era um chapelinho de palha guarnecido com uma rosa. com que naturalidade e afecto eu fora acolhido. dizendo a seguir: — Admirei-me tanto de que me conhecesse que me saiu isto pela boca fora. * Espera.—Oh. e tu vais connosco.... Miss Donohue. à segunda sessão do Alhambra.. e esse homem olhava-me com um meio sorriso complacente. Ter-me reconhecido no meu estado presente. — Passeias por gosto ou vais em serviço? . fui imaginando um futuro no qual ela e eu estávamos constantemente juntos. Saí daquela casa num êxtase de felicidade que (quando voltei instintivamente para o parque) se transformou em exaltação. Parei instintivamente e ergui a cabeça. Laurence. e Leo é intratável. E enquanto marchava num passo que me fazia transpirar. Sentado num banco do parque. sozinho. que é um modelo lá da loja! —Desatou a rir. * Assim assado. Aqui. feriu-me o olhar distraído um objecto que achei estranho apesar de não me ser desconhecido. Agora escuta. Em qualquer caso não tenho muito vagar para distracções. com quem nunca sequer trocara uma palavra. fazendo-me pulsar deliciosamente o coração. * Nesse caso. Isso de teres estado todos estes meses com o tio Leo não foi com certeza divertido. No sábado à noite vamos todos. A súbita lembrança da minha absurda paixoneta por Ada. Nora. que eu sentia encaminhar-se para aquela prima. mas eu e Miss Donohue temos um compromisso a que não podemos faltar. Já não me senti só e WinloW cessara de ser um ermo..extraordinária pela maneira como procedemos uns com os outros! É claro. * Havemos de falar disso e de tudo o mais que te tem acontecido. De repente. alguém me beijara assim. Noutro tempo. olhando-me com ar de troça — que isto te torne mais infeliz! * Oh. sem dúvida. — Pegou no chapéu que estava sobre o toucador. Isto sim. Laurence — volveu ele amavelmente. além de teres crescido não mudaste nada. mas não te devíamos ter perdido de vista. não passara de uma brincadeira de criança. Simon está em Espanha. na minha vida. fez-me ruborizar. encontrar-te-ás connosco à entrada da plateia. Eu já deixara de ser um garoto. de todo entregue ao meu sonho de ventura.. Rankin continuou a eximinar-me. Como Nora me recebera bem. Teremos os bilhetes. — Mas não agora. era a sério.

com ar distraído: — E a tua pobre mãe. — Então. se há tantas ruas? * É onde trabalho. murmurando: — Nesse easo. Era sempre o mesmo homenzinho pacato e prosaico. Laurence — declarou com animação.. Tenho acesso a todos os documentos da biblioteca da Universidade e ocupo um quarto decente e tranquilo na Hillside Street. * Voltava para Argyle Street. e fê-lo na direcção da Universidade. nem que levasse muito tempo — respondi. — É o Novo Testamento. Espero que sim. — Deixa-me ver bem a situação. enquanto eu olhava perplexo. quando ele disse: —Fala-me agora de ti. colijo os Anais da paróquia de Ardencaple. Mas Rankin não me consentiu que resumisse e exigiu mais esclarecimentos. aposentei-me. Com certa relutância fiz uma narração breve dos acontecimentos. * Então deixaste de estudar ? — Fiz sinal afirmativo a ele mirou-me zombeteiro. e mesmo Medicina.. Mas ainda estou activo. estamos em iguais condições. ele levou a mão à algibeira do casaco e tirou um livrinho de marroquim preto. pondo a cabeça ao lado e afagando a barbicha branca. a qual não me pareceu muito sedutora. — Mas como poderia manter-me? — Há muitas e variadas maneiras. Em vez disso. — Falava com entusiasmo e. — Por que não tentas com mais ardor ? Há tantas bolsas de estudo na Universidade. ao alcance dos rapazes inteligentes! E tu és inteligente. graças a Deus. à laia de recompensa. tão meiga e tão galante. Julguei que fosses um rapaz esperto. — Tenho querido muita coisa que nunca obtive. * Por nenhum desses motivos. começava a arquitectar um plano para me esquivar.Tive um desejo louco de me confessar. acerca da qual ele estava informado. para um trabalho pessoal e interessante. que estava acima de nós. esperei qualquer expressão de pesar. Laurence? — Não sei. antes que eu me recompusesse do abalo. Precisas de subir. aqui perto. parecido com o meu livro de orações. e.. até me haver feito esgotar a história toda. e vendo que o tinha interessado. ele relanceou-me daquele modo çus me fazia pressagiar algo desagradável e acrescentou: — Estou muito desiludido contigo. muito usado. * Trabalhas? Em quê? * Sou uma espécie de aprendiz num armazém de atacadista. senhor Rankin. Na verdade. com o espírito sobrecarregado em excesso para me dar ao cuidado de reflectir naquele encontro. 176 . * É uma maneira de falar. pois essas palavras. pareciam quase indecentes. como a sugerir qual fosse o meu destino. * Reformou-se? — perguntei diplomaticamente. alcandorada na colina. desde a morte de meu pai. Uma delas é ter iniciativa.. —Gostava de estudar Ciências. Uma vez concluída esta. Rankin observou. interrompendo as minhas respostas com exclamações sufocadas de alegria ou tristeza. Disponho de todas as facilidades que se podem ter para um labor aprazível. vindas do velho professor. Procurava apresentar sob o melhor aspecto a sua situação actual. de lhe falar de Nora e do esplendor que nimbava agora a minha existência. —Ergueu o queixo. Felizmente que conservei suficiente juízo para não ceder ao meu impulso. Laurence. Nunca imaginei encontrar-te como caixeiro de um armazém da cidade. * E porquê Argyle Street. hem.

enquanto os carrinhos de criança passavam por nós e um guarda do parque nos olhava como se desconfiado de que estávamos planeando saquear-lhe os canteiros de flores. Seria uma invocação final? Depois. * Quem te tem ensinado? Ou estragado? —Puxou pela barbicha como se quisesse arrancá-la. Aposto que desconhece a diferença que existe entre as quatro espécies de eriças. e com uma certeza fatal. Soou como Eleison. levantei-me. e. como estamos ambos em Winton. Mas para obter essa admissão são necessários conhecimentos de outra ordem. uma proficiência modelar que tu ainda não possuis. precisas pelo menos de dois anos de estudo constante. não. Obedeci e. Não percebo patavina. abanou t cabeça. murmurou uma palavra que não percebi. Repliquei mal humorado: . — Sei muitas coisas acerca de botânica e zoologia.não me demorarei aqui mais de "seis meses. Tens aí um lápis? Toma nota da minha direcção: Hillside Street. de que vontade de vencer as dificuldades e tirar um curso brilhante — É pena. falando consigo mesmo. Vou para baixo contigo. senhor Rankin. esses assuntos são precisamente os que deves saber. um tanto indeciso. E agora não te retenho mais. — E a respeito de latim? * Estudei os lugares selectos de Ovídio e todo o livro chamado Pro Patria. senhor. Isto era irrespondível. Embaraçado. ou como é a divisão dos cromossomas no núcleo de uma amiba.. Ali. É claro. naquele banco de jardim. que decepção! — Calou-se.. filho. talvez mais do que o senhor. findo o interrogatório. Lembras-te daqueles exercícios de rimas acerca dos fins de semana? Eram invulgarmente bons. fiz esta observação. De súbito. — Não podia o senhor.Abre-o ao acaso e traduz. Laurence. E prosseguiu: — Expõe o quinto teorema do terceiro livro da Geometria. com pretensões a gracioso: * Para mim é grego. Seria um trabalho improfícuo. Estás tão atrasado demais. soltou uma espécie de gemido cavo. Outro silêncio. — Estás completamente deseducado. dando um estalido com a dentadura. depois da tua admissão num estabelecimento científico. olhando-me de baixo. também comecei a ler um pouco de Virgílio. não podia leccionar-me? Imediatamente. 212. até à paragem do eléctrico. o que significava o máximo da insatisfação. Sempre foste um aluno muito prometedor. tanto da minha parte como da tua . — Calou-se de súbito.. olhando-me carrancudo. e sem dúvida aperfeiçoar. Eu costumava lê-los nas aulas. gaguejei: — Infelizmente não fui além do segundo livro.. isto é. Fitou-me com um sorriso compassivo. redargui com certa irritação. * Não estou.O quê? Não sabes grego?Oh. Seguiu-se um silêncio longo e triste a esta extinção da minha esperança. Rankin submeteu-me a exame e. Tinhas um extraordinário sentido da frase.. * Um pouco de Virgílio — repetiu ele. — Ê impossível. ao fim da tarde. acrescentou: — Acho que não há prejuízo em nos vermos. Aparece por lá na próxima semana. após uma pausa. sempre acalentada. Laurence. — Meu pobre rapaz. forma que achei estranha. Mesmo assim não desistiu.

Mal disposto como me sentia. Laurence. Ter-me-ia enganado na sala ou na porta? Um quarto de hora depois. ao subir para o carro. Sem desviar a vista do relógio da Estação Central. cheguei tão cedo que fui quase arrebatado pela onda de gente que saía da primeira sessão. Em seguida um vento húmido. — Espero que não se tenha constipado! — exclamou Miss Donohue. atraía olhares curiosos. e um irmão desta. quase que nem respondi antes de lhe virar as costas. três minutos para as nove. mancebo de expressão dura e trajando com um belo fato. Nora. agarrando-me pelo braço. cinco. Terence e Miss Josephine Gilhooley. Miss Donohue. arrastando nevoeiro do rio. * Mas tomo eu. não me despojara de todo o meu futuro. quando já tencionava ir-me embora. e. 178 . fez-me sentir enregelado. Eu ainda tinha Nora. não me agradava ser publicamente visto com ele e ser lembrado através da figura desse coxo extravagante. muito antes dessa hora já me encontrava à porta do teatro. só me havia desanimado. O pano já devia ter subido. Mas o tempo passava. afinal. vi-os chegar.portões do parque. Na verdade. com o desejo de ver surgir Nora. mais certamente. o que me levou a crer terem jantado juntos. embora também. à laia de compensação. Ao menos. O andar de Rankin. Rankin não me valera.. me saudaram. acudiu com brandura. O grupo era maior do que eu esperara. Nos declives ele ficava ofegante. Fomos juntos até aos XXVI A segunda sessão do Alhambra principiava às nove. como é de calcular. me disse «aparece no começo da semana que vem». Todos se mostravam com boa disposição de espírito. Quando por último. andei cá e lá para me aquecer. Comecei a aborrecer-me. * Eu não tomo o eléctrico. Dez. A suspeita de que eu fora excluído dessa reunião prévia foi confirmada pelas efusões com que.. mais vagaroso e claudicante do que dantes. mas no sábado. E recomecei a pensar nela quando me dirigi para Argyle Street.

casaco listrado e chapéu de palha. sussurrou-me apressadamente. Desanimado. — Eu e o Martin vamos dar-lhe uma oportunidade. ficava com Miss Donohue. ela. esperançado num olhar de compaixão. — Tem pilhas. Até aqui Nora não havia falado. embora ainda calada. não tem? — disse Miss Donohue. que ia à frente. de maneira que Terence. Era bem parecido. ria como uma louca. de cabeça inclinada para trás e mostrando os dentes obturados de ouro. depois de me oferecer um. procurei Nora com a vista. Sempre disse que se conhecem as pessoas pelo físico». e essa impressão acentuou-se. acabou por intrigar Miss Donohue. em que eu notava certos laivos de piedade. na confusão da nossa passagem para o centro da fila. Então. Esta solicitude de Miss Donohue. — Desembrulhara uma caixa de chocolates e. por isso não te pude convidar para o Criterion. — Os primeiros números nunca são muito bons — segredou-me Miss Donohue. sorriu com ar de intimidade. * Muito gosto em conhecê-lo. Miss Gilhooley.são. fazia-me sentir como órfão de um asilo numa festa gratuita. — Agora são os Gémeos. Esforcei-me por esboçar um sorriso. — Mas espere e verá Hetty King. Um homem de chapéu de coco e nariz pintado de vermelho entoava agora uma canção a que todos pareciam achar muita graça. um malabarista arremessava bolas ao ar. mais do que tudo. porém. que me perguntou em voz baixa: * Josey. deixando-me a palma impregnada de um perfume que persistiu toda a noite. não podia contudo desviar o meu olhar perturbado daquele outro par da plateia. tinha o aspecto rude de um pugilista. depois Martin junto de Nora. De maçãs do rosto salientes e nariz um tanto achatado. com um aperto de coração. que trazia um casaco de peles de aparência muito rica e uma charpa de tule lilás em volta da cabeça e do pescoço. me consolou da longa espera. Repare como trabalham bem! Obrigado a prestar alguma atenção à mímica dessas duas figuras tão parecidas. o qual não me dirigira a palavra e se havia limitado a pousar em mim um olhar frio. e acrescentou: — «Constou-me que é um grande corredor. enquanto eu. — Sirva-se quando lhe apetecer. No palco. Na próxima vez com certeza irás. vi que Martin segurava a mão de Nora. * Penso que o será. o que. Os amigos dos meus amigos meus amigos . mas faltava-lhe agrado e distinção. menos eu. Melhor ainda. Tenho pena de que não me falassem de si há mais tempo. Logo à primeira vista antipatizara com o Donohue. com um olho no palco e outro na fila de cadeiras. Infelizmente. rindo satisfeita. quando entrávamos no teatro. Nesse momento. apresento-te o Laurence — disse Terence. como que a explicar a demora: — Foi a festa de Miss Gilhooley. agarrada a Terence. A minha posição pouco natural. um dia destes. na cauda do cortejo. Esta distribuição não me agradou nada. lançando ao mesmo tempo outro olhar para a fila. — Miss Gilhooley. Apertou a minha mão. sem perder a animação habitual. perdi o meu lugar. conversava com Martin Donohue. comentou judiciosamente Terence. Vê-se mesmo. quis também mostrar-se amável. se sentou ao lado de Miss Gilhooley. deixou-a aberta sobre o regaço. de calças brancas.

— Nora e ele parecem ser muito amigos. tentando a custo o tom de conversa amena. no átrio que se esvaziava. disse. Nem Hetty King conseguiu animar-se. Martin é agente de apostas. Mas já é um caso arrumado. Terence e Donohue levantaram-se imediatamente para ir ao botequim. Terence e Martin correram a tomar a última bebida. viaja pelo país. É agente. — Mais do que isso. de modo a que ela possa trabalhar por sua conta. * Todos gostamos. — Não te divertiste nada. Fiquei à espera. calado e infeliz.. — Não estão positivamente noivos. como todos os de sangue irlandês. agora numa atitude resoluta. vai apenas nos dezassete anos. lançando-me um olhar malicioso. * Então por que não te sentaste? — Arregalou os olhos. que tinha de desabafar. mas nos seus lábios. — Vê-se bem que é inexperiente! Não. — Não. enquanto as duas senhoras se dirigiam aos lavabos. e talvez fosse. Miss Donohue? * Decerto. Chegou-se ela para mim. * Pensei que quisesses ter o Martin a teu lado. Miss Donohue? — balbuciei. apesar da impressionante informação de Miss Donohue de que o sem número Oh. mas é uma jóia e eu gosto muito dela. se estivesse sentado junto de ti. Na debandada geral. voltei os olhos para o lugar normal e apressei-me a declarar que não necessitava de óculos. Não me diga que é míope! Com esforço. — O Martin! — Exclamou. * Gostaria. Mas. Nora. aqueles lábios frementes que me haviam beijado. O resto do espectáculo foi para mim inexistente. um desses. ficam-me pegados aos dentes. Tinha o hálito tépido. Tem uma agência para a maior parte das corridas de cavalos e está em vias de criar excelentes relações no meio. Senti. * Por negócios. não é isso? Olhou-me condoída. enquanto ela continuava: * Nora é uma rapariga adorável. Um bocadinho impetuosa. e eu quero treiná-la no Earle's durante um ano. — Há ali o que se pode chamar um acordo. agradável. — Ele vive em 'Winton? * Parte do tempo. num tom de censura e ao mesmo tempo de pena. Não é o género de coisas de que tu gostas. eu voltei-me para Miss Donohue. dominou-me uma sensação de alívio. Salvou-me a descida do pano para o intervalo. Achaste uma maçada. mais ou menos. Coma um chocolate. 180 . pairava a sombra de um sorriso.. Quando o pano desceu e a orquestra tocou uns acordes do «Deus Guarde o Rei».— Deu um mau jeito ao pescoço? Parece que está com torcicolo. — Caixeiro viajante. O facto de não estarem noivos dar-me-ia algum alívio se não fosse a última frase: «um caso arrumado». replicou. diligenciando em vão mostrar-me despreocupado. linda boneca era a canção predilecta dc rei Eduardo. num súbito desespero. Quando protestei abanou a cabeça. — Um acordo. Não gosto dos que têm recheio de caramelo. * Não tinha o gosto de conhecer o seu irmão. Olhei para Miss Donohue. meu filho. e enquanto Miss Gilhooley se debruçava sobre as cadeiras vagas para falar com Nora. Miss Donohue — observei. em geral. estou certo — retorqui. de olhos fitos nos meus: estavam sérios. sozinho enfim com Nora. Nora ainda é muito nova.

— Estou farta dele. Aborrece-me. Preferia que estivesses junto de mim. O coração pulou-me de alegria. Liberto do peso que me oprimia, senti o sangue afluir-me à cara. * Mas ouve cá, Laurence — volveu ela, olhando-me provocante. — Terry diz que não te importas muito com raparigas. * Importo-me contigo, Nora. Se queres saber, nunca houve ninguém que me importasse tanto. Gosto muito de ti. Sorriu e pensei que ia continuar a provocar-me. Mas, após um momento, a sua expressão modificou-se e nos seus olhos azuis escuros transpareceu uma espécie de ternura. — Também gosto de ti, acredita. E quero ver-te muitas vezes, mostrarte um pouco, fazer-te sair da casca. É um mundo difícil, Laurence, e, desculpa que te diga, acho que deves ir-te habituando a ele. Tens de aprender a misturar-te com as pessoas e a divertir-te de vez em quando. Não levas a mal as minhas palavras? — Não, de maneira nenhuma, Nora. Os outros aproximaram-se, e ela concluiu: * Ouve: no próximo domingo Mart e Terry estarão ausentes. Vai a Park Crescent e faremos o que quiseres. * Oh, Nora!—balbuciei. — Nunca tive um convite que me alegrasse tanto. Posso ir de manhã? Julguei que ia desatar a rir. Os lábios tremeram-lhe e, sob as pestanas curvas, as pupilas contraíram-se e cintilaram. — Pois sim. Mas não muito cedo, senão ainda me encontras na cama. Fiquei reanimado, pronto a sorrir quando os outros reapareceram e a assegurar-lhes que me divertira muito. Despedi-me cordialmente e agradeci a Miss Donohue quando ela me convidou para a sua próxima festa. Tudo isto era contra o meu feitio, mas fazia-o por saber que Nora gostava de mim. Quando, por fim, os deixei, e segui a pé para Argyle Street, sentiame felicíssimo, e o estridor dos eléctricos soava-me aos ouvidos como música celestial.

XXVII
Com excepção das cartas semanais de minha mãe, não esperava nada pelo correio. Foi, pois, um caso extraordinário o bilhete postal que chegou na quarta-feira seguinte e que a senhora Tobin me entregou ao almoço. Era de Rankin e dizia apenas: «Porque não vieste visitar-me? Espero-te na quarta ou quinta-feira desta semana. Não faltes.» Eu já desistira de Rankin. A sua estimativa das minhas aptidões, ou falta delas, deixara-me no coração um espinho e eu não tinha desejo de ser mais uma vez interrogado e despedido. De que me serviria ir falar com ele? Para melhorar de situação teria de esperar pelo regresso da Mãe. Contudo, no decorrer do dia, tirei o bilhete várias vezes do bolso e olhei para ele. No fim de contas, era uma coisa tão rara... E comecei a pensar se não haveria algo de urgente naquelas palavras. Além disso, eu devia obrigações ao meu velho professor. Em resumo, com a minha inconstância característica, às sete da noite estava eu a bater à porta do n.° 212 da Hillside Street. Era uma pensão bastante modesta, facto que deduzi do cheiro de couves cozidas, no vestíbulo exíguo, e da passadeira de oleado já muito gasta, nos degraus que conduziam ao quarto de Rankin, situado nas traseiras do

segundo andar. O professor estava a ler junto da janela, mas era evidente que esperava por mim; recebeu-me sem qualquer expressão de censura. Por cima do ombro dele, vi logo que fizera despesas em atenção à minha visita: uma garrafa de limonada e um prato de bolos, tudo na mesinha redonda ao lado da janela. — Laurence — começou ele, depois de me sentar — ocorreu-me outro dia uma ideia que pode ou não ser boa. Desde então tenho-me empenhado nisso. Mas, antes de entrarmos no assunto, deixa-me oferecer-te um refresco. Deitou a limonada num copo e pô-lo à minha frente, com o prato de bolos. — E o senhor não toma? Abanou a cabeça, sorrindo. Observou-me por instantes e proferiu com certa ênfase: * Laurence, quero falar-te acerca de Ellison. * Ellison?-Repeti, sem perceber. Fez um gesto afirmativo e, unindo as pontas dos dedos, formando com as mãos um V invertido, inclinou-se para mim. — Como decerto sabes, há muitas espécies de fundações, sociedades, bolsas de estudo e doações à Universidade. Algumas destas são fora do vulgar e, conquanto perfeitamente aceitáveis pelo Senado, quase se podem chamar extravagantes, pelo que reflectem do carácter do doador. — Fez uma pausa, fitando-me tão atentamente que me esqueci de acabar o bolo. — Ora John Ellison era um homem extravagante, Laurence, um modesto moleiro, não exactamente literato, mas fervoroso nacionalista escocês, apaixonado pela história da Escócia. Sou levado a crer que ia todos os anos a Bannockburn no aniversário da batalha. De qualquer maneira, quando morreu, com oitenta e três anos de idade, deixou todos os seus bens para constituir uma bolsa de estudo anual de trinta mil libras, durante cinco anos, a que podem concorrer estudantes universitários ou que pretendam sê-lo, será atribuída a quem escrever o melhor ensaio acerca de uma personagem histórica escocesa, ensaio que deve ser feito no espaço de duas horas na Universidade no último dia da primeira semana de Agosto. Daqui a três meses, portanto. — Fez outra pausa e então acrescentou em voz branda mas acentuando as palavras: — Laurence, gostarias de passar estes três meses a estudar com afinco a história escocesa e concorrer no fim à bolsa Ellison? Olhei-o atónito. A minha reacção, além da surpresa inicial, foi principalmente de rejeição instintiva. A ideia era tão inesperada, o fundamento da bolsa tão ridículo, pendendo mesmo para o absurdo, e a minha competência para esse trabalho tão manifestamente duvidosa que eu me encolhi como um coelho na sua lura. Sabia-me incapaz de fazer tal coisa, que estava muito acima das minhas forças, e comecei a preparar uma recusa lógica mas em termos que não ferissem o professor. * É muito amável em preocupar-se comigo, senhor Rankin, mas esqueceuse de que tenho um emprego que me ocupa a maior parte do dia. * Bem sei, Laurence. Mas à tarde, e mesmo à noite, podes, com a minha ajuda, enveredar pela História. — E onde iria eu arranjar os livros? — Com as minhas actuais facilidades na biblioteca da Universidade, emprestar-me-ão todos os livros de que precisas, e mais ainda. Obras raras, esplêndidas, interessantíssimas. — E Rankin ajuntou: — Noutros tempos, gostavas muito de ler.

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Esta observação pungiu-me, pois havia meses que eu não alimentava o espírito com algo de mais substancial do que o semanário Tit-Bits que a senhora Tobin assinava. — Em qualquer caso — redargui — nada garante que eu seja capaz de fazer essa prova... além daquelas redacções da escola e que eram simplesmente esforços infantis. E o senhor Rankin já me declarou que estou muito atrasado.... * Mas és inteligente, Laurence — atalhou. — Além disso, duvido que a aptidão literária seja o que mais conta para o assunto. O júri há-de querer especialmente espírito nacional. * Espírito nacional! — protestei. — Sou meio irlandês! * Isso te dará imaginação para te tornares mais escocês do que os próprios escoceses. Esta pressão delicada mas insidiosa começou a agir em mim vigorosamente. — Não, realmente não me sinto com forças para isso. Sou muito novo para entrar na Universidade. Prefiro esperar que a minha mãe volte. 0 seu curso acaba em Setembro. Quando ela tiver a sua colocação em Winton, vai alugar um apartamento ou uma casinha. Nessa altura talvez em possa estudar num colégio. — Não és muito novo para a Universidade. Terás dezasseis anos feitos se entrares lá no Outono. E já não estás em idade de começar num colégio. Quanto à tua mãe não seria estupendo poderes dizer-lhe que concorres a uma bolsa... e talvez, até, que a obtiveras? Que alegria lhe davas, Laurence! Depois entravas para a Universidade com mais do que o suficiente para te manteres ali. Trinta libras anuais garantidas por cinco anos! Pensa nisto, rapaz. E não te esqueças de que estou pronto a ajudar-te. Deliberadamente ou não, Rankin tocava todas as teclas do sentimento, sem faltar a da ternura que eu sentia por minha mãe. Brincava tão deslealmente com as minhas comoções que o sangue me afluiu à cara e eu não soube que responder. Olhou para outro lado, afagando a barba e parecendo não reparar na minha humilhação, mas não antes de tanger a última corda, ultrajante, imperdoável. — Deves calcular o que representaria para um velho inútil como eu contribuir para que ganhasses a bolsa Ellison. Estava ele a representar, descendo a esse estratagema para me convencer? Rankin era um professor, um clássico, um homem culto, mas nas suas veias havia uma forte dose dos sentimentos desse grupo de escritores que contaram histórias acerca da vida dos escoceses humildes. Eu já acreditava que fosse sincero no que dizia, e isso bastou para me dar por vencido. Rankin assim o percebeu. Levantou-se rapidamente, e, saltitando (estava à vontade, de chinelas, sem o costumado tacão), dirigiu-se a um armário metido na parede. — Não vais tomar essa limonada, que já perdeu o picante. Tenho aqui outra garrafa guardada para ti. — Trouxe-a consigo e despejou-a num copo limpo. — Há mais bolos, se quiseres. Não queria bolos nem limonada, sentindo que, depois de me considerar como um adulto, ele me tratava como uma criança. Mas aceitei, para ter tempo de reflectir, e servi-me em silêncio. Ninguém experimentaria maior entusiasmo do que eu com a perspectiva daquele nosso empreendimento. Rankin devia ter percebido isso porque me falou em tom diferente, autoritário. — Agora presta atenção. Três vezes por semana comparecerás aqui às sete da noite, e passaremos juntos pelo menos duas horas. Já fiz uma lista dos livros de que precisas. Para começar, tens aqui dois, a

História Geral da Escócia, de Hume Brown, e as Guerras Fronteiriças, de Duncan. — Entregou-me um dos volumes e abriu o outro ao acaso. — Não calculas quanto isto te vais interessar... as figuras extraordiniráas que vais conhecer. Este conde de Angus, por exemplo, denominado Archibald Campainha-noGato, foi uma personagem espantosa. Chega a tua cadeira mais para aqui e vamos ler isto juntos. Assim principiámos a averiguar as heróicas excentricidades de Angus, chefe dos partidários dos Douglas; como ele enforcou os músicos do rei e como adquiriu a alcunha de Campainha-no-Gato. Contra vontade, comecei de facto a interessar-me. Rankin podia não ter dado nada como orador sagrado, mas como professor era óptimo. Tive pena quando, às nove horas, declarou encerrada a sessão. — Para início já chega. Agora, além da leitura que te fiz, quero que escrevas um relato sucinto, digamos umas quinhentas palavras, a respeito do que acabámos de ouvir. Traz isso na sexta-feira. Pus-me de pé, tentando encontrar a expressão exacta de consentimento. Como podia eu ser tão obstinado, tão timidamente adverso? Ele, porém, deteve-me. — Já te conheço, Laurence. Nada de efusões, por favor. Trabalho é que é preciso. Com os livros debaixo do braço, fiz a corrida habitual através do parque e depois, impaciente por travar novo conhecimento com as guerras da fronteira, segui na mesma velocidade para Argyle Street, escolhendo o caminho junto do rio, as ruas desertas e mal iluminadas, ouvindo o eco dos meus passos atrás de mim, entre os barracões sombrios das docas, até que me encontrei no meu quarto, sentado na cama, com a vela acesa e o livro aberto sobre os joelhos.

XXVIII
O domingo, tão ansiosamente esperado, chegou por fim. Embora me levantasse por volta das sete horas, fui como de costume à missa das dez, em S. Malaquias, com a senhora Tobin. S. Malaquias era a igreja da vizinhança, servia o bairro mais pobre da cidade e permanece na minha memória associado a bandos de mulheres de xaile e a tossidelas constantes. Mas a senhora Tobin gostava de ir ali, de se encontrar com as amigas, e eu acompanhava-a sempre. Nessa manhã era minha intenção excepcional ir à missa das nove, a fim de poder estar em Park Crescent cerca das dez, mas, lembrando-me da recomendação de Nora de que não fosse muito cedo, resolvi só aparecer lá às onze horas, se bem que se me afigurasse já um pouco tarde. Soavam onze badaladas no relógio da Universidade quando toquei a campainha do número 9, trajado com o meu fato melhor, um tanto nervoso mas radiante com a ideia de ver Nora. A minha devoção a Ellison era coisa agora estabelecida, porém tinha ainda um longo caminho a percorrer, e nada me faria perder a oportunidade de passar um dia com essa prima tão adorável. Talvez a campainha não tocasse... Premi-a outra vez e esperei. Não houve resposta. Carregava de novo o botão quando ouvi certo ruído no interior da casa e a porta se entreabriu o bastante para me deixar ver Nora de camisa de noite e roupão. Olhou-me pestane-nejando, estremunhada, até que, sem mostrar muito prazer, me reconheceu. — Ah, és tu, Laurence. É melhor entrares. Apertando o cinto do roupão e arrastando os pés nas chinelinhas acolchoadas, conduziu-me à cozinha, sentou-se na borda de um banco e conteve a custo um bocejo.

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Notei com prazer. Estão acolá. — Nunca pensei! — murmurou. vamos. pensei então. Winton ao domingo é uma maçada. Depois de me mostrar o armário da despensa. vendo as coisas que eu pusera na mesa coberta com toalha. * Não nos demoremos. retirou-se para o seu quarto. de súbito. 0 tio Leo devia levar um tiro. explicou ela. parecia mais bela do que nunca. — Casa flutuante? Gozou a minha surpresa. com o Martin e o Terry. que seguiu para Perth.. É divertido. Olhou para mim. e tu podes ir na de Miss Donohue. Nora. impaciente. Nora! — Exclamei. —Talvez não seja má ideia. A vida com minha mãe habituara-me a improvisar refeições. já enxutas. uma espécie de aveia. xícara de chá. era na verdade estimulante. transparentes que tinham sido lavadas e pendiam. — Acrescentou. Mas. Levei-lhe as meias. Minha prima. * Que comeste? -— As papas do costume.. estarei pronta num abrir e fechar de olhos. depois de vários meses sem sair das imediações da Argyle Street.. . Embora sem meias e de chinelas.. Nunca imaginara que almoçar com alguém pudesse ser tão agradável. Fui despedir-me de Miss Donohue.Então torna a comer. Olhou para a janela. Esta perspectiva. Bate o Criterion! Vais servir-te também. quando ela trincava a torrada. Dá-mas. e Miss Donohue.. além das torradas e dos ovos estrelados. e. o encanto peculiar da Nora: a sua capacidade para a alegria. Respirei fundo. — Ah.. — Parece-me que vim incomodar-te. num varão perto da chaminé. E agora diz-me francamente o que te apetece fazer hoje. É uma chatice.. Recolhi tarde a noite passada. — Há muita gente que tem casas flutuantes no Loch Lomond. lamentoso e todavia fascinado pelo espectáculo que ela me dava. envergava uma blusa branca e uma saia escocesa em que predominava o amarelo. Pus-me logo de pé. Pela uma hora lá estaremos. — Isto é luxo. Se queres ir já. Nora.—Oh. — Não te rales. Posso lavar a loiça e fazer Umas sanduíches. e eu resolvi preparar-lhe um almoço a valer. * Sanduíches. o chá estava pronto. — Se és irlandês bem podes orgulhar-te disto. que os seus dentes tinham a alvura dos do meu pai. se estivesses de acordo. alisando o tecido sobre os joelhos. depois de andar com o grupo. Eis. era irmos ao campo. mas primeiro deixa-me calçar as meias. esfregando pensativamente o ombro sobre a camisa. pensei. se queres pôr a chaleira ao lume e fazer-me uma. Martin. Vamos de bicicleta. * Já almocei. —. Para onde vamos? «É o seu tom de pele». Vamos para a casa flutuante. — São as cores dos Kerrys. «o cabelo escuro e os olhos em contraste com a tez clara que a tornam tão encantadora». possuem uma não muito distante de Luss. agora fresca como uma bonina. não és rapaz citadino. desatou a rir. — O que me apetecia. Para feriados e o mais. O sol brilhava no muro branco do pátio. leves... E não te preocupes com a loiça. os belos dentes dos Carrolls. Quando ela voltou.. não. Trouxe outra xícara e começámos a comer as torradas e os ovos.

mas outra semelhante. A de Miss Donohue. * É verdade. Apreciei-a deveras. Laurence. nos prados. como é próprio dos domingos. serpenteando ao longo da linda margem curva. matraqueando atrás. — Agora é só enfiar os sapatos. * Não te rales. Mas exercício era justamente o que eu queria.. soou como coisa tão deslocada que fiquei ruborizado. Nora. Montámos na bicicleta e saímos da cidade antes que eu soubesse que dia era hoje ou aonde nos dirigíamos. Os cordeiros. observan-do-me disfarçadamente com estranho ar de malícia. * Esta frase idiota. modelo antigo. Parou de cantar. sem mãos. * Lamento profundamente. Quando chegámos ao lago. * Porque não me detiveste. A culpa foi minha. * Não me deste oportunidade a fazê-lo. obrigava-me a grandes esforços. Nora começou a fazer habilidades na bicicleta. Talvez não seja pecado mortal. baliam atrás das mães. Assim falando. me lembrei de que Nora não fora à igreja nessa manhã e devia. se for. Nora? Teria ido contigo aos Jesuítas. As duas bicicletas estavam na cave. que principiava: Há um ano chamaste-me boneca E disseste que eu era muito bela Para saber. e o campo raso. movia doidamente os pedais. com o guiador elevado e uma engrenagem que prendia a roda. Era a tal casa flutuante. Ao descermos a colina. começou a calçá-las. Esta infracção à calma dominical teve em mim um efeito indescritível. Não era a canção de Hetty King. de repente. A cerca de cinquenta jardas mais além via-se. * Pronto! — Exclamou por fim. Trouxemo-las para o pátio e montámos. * Obrigado! Nora — tartamudeei. até que. embriagava-me de gozo.. de passagem. ser censurada por tal falta. já reverdecido pela Primavera. empoleirado no alto selim. — Um pecado que há-de pesar-te na consciência! Não quero ser repreendida. endireitando-se. ela lançou-se à frente e virou-se para troçar de mim. na qual estava um barquito preso a um poste por uma corrente enferrujada. apeou-se. há muita gente que faz coisas piores. não foste hoje à missa. que devia ter saído do meu subconsciente em agradecimento ao prazer que me dera. flutuando ancorada. É a minha igreja preferida. fascinado. me permitia deitar um relance de olhos à brancura da pele sob a saia escocesa.. — Olha. e. Encaminhámo-nos para uma enseada com a praia coberta de seixos. Os espinheiros floresciam e eu aspirava.Sentada ali mesmo. na Craig Street. mas o certo é que me aborrece bastante. Depois desatou a cantar. miniatura do que eu imaginava ter sido a Arca de Noé. Felizmente que ela não reparou. os caminhos estavam desimpedidos. e eu. rapaz. pois. o perfume que exalavam. 186 . Pedalei até junto dela e exclamei consternado: — Nora. uma coisa curiosa pintada de branco. Tinha de pedalar duas vezes mais do que Nora para que fôssemos a par. Laurence.. Estava convencido de que Miss Donohue não usava aquela máquina havia anos. porque te dei muita pressa. As primeiras despontavam entre as sebes. enquanto eu. com portas e janelas. replicou com ar sério.

porém.Nora tirou uma chave da bolsa da bicicleta e abriu o cadeado da corrente. * Seja como for. num estado de extrema desordem... Era preciso dizer a verdade.meu encontro. Enxuguei-me rapidamente. hesitei. Depois saberás qual é a minha ideia. Por dentro era exactamente como uma casa pequena. O choque da água glacial quase me sufocou. dizendo: — Vou arranjar-me num instante. levámo-lo até à embarcação ancorada. e cozinha fornecida de fogão de metal. isso não nos diz respeito. —O pior é que não trouxe os calções. eu só pensei que. a cama por fazer. de fato de banho. * Quando me conheceres melhor. Mas toma cuidado. se o fizesse. e cinco minutos depois Nora aparecia. Só a cabeça estava visível quando. Voltei para trás. desejoso de ser útil — eu posso acender o fogão. cada um com o seu remo. ao movimentar-me. olha que a água deve estar muito fria. com quarto de dormir. Junto da minha roupa fora colocada uma toalha. Empurrámos o barquito e. como eu. Ao longe. vesti-me. Tirei a roupa. havia uma estalagem com esta tabuleta: «Inchmurrens Arms. Se tomássemos um banho? * Quem me dera! —respondi. Ia responder-lhe que isso bastava.quando eu me aproximava ? Francamente. se dirigiu ao. Laurence. Estava cheio de calor e de poeira.. o pico de montanha parecia mais azul do que o céu. uma espécie de sala de estar. * Se houver alguma coisa para cozinhar. * Mas. Era impossível perceber se tinha ou não fato de banho. * Porque não ficaste lá. Proprietário.. de cabelo gotejante mas. Mas a ideia de que. saberás que detesto cozinhar. cortou-me a retirada. Só com um esforço que me deixou arquejante é que consegui alcançar o lado oposto da embarcação e içar-me para o lugar donde havia mergulhado. com braçadas velozes.» Desembarcámos numa ponte--cais de madeira. tanto como detesto sanduíches. olhando em volta e torcendo o nariz. — Mas não importa. na estrada marginal. mas. porém. pudesse apresentar-se como a natureza a fizera sobressaltou-me tanto que fugi qual uma truta assustada para as bandas da praia. Nora. Não se demorou a regressar. John Rennie. remei cerca de meia milha até outra calheta onde. estou muito esfomeada para discutir. Nora. — Ninguém vê — retorquiu ela naturalmente. que era cercada de balaústres ornamentais. dinheiro é coisa que não tenho. com grande alívio meu. . — O quê? —Assumiu um ar de surpresa exagerada. dei o mergulho. ainda receoso da minha nudez total. a escorrer água. nesta barcaça não há nada que se coma senão sardinhas de lata e bolachas velhas. * Que confusão! — disse Nora. Nadava havia já algum tempo quando um chape inesperado me fez virar na água. és de uma timidez aflitiva! Por que hás-de ser tão reservado? Deitei uma olhadela quando estavas nu e digo-te que não tens nada de que te envergonhes. vendo o meu intento. Subi uma escada de mão até àquela plataforma. Precisamos de comer. e espero que sim. e. sob a sua direcção. Metemo-nos então no barquinho e. no chão uma garrafa vazia. — Nora. Ela seguiu-me como uma sereia tentadora. * Pensas de mais. Achava-se. A enseada tinha um grupo de árvores a envolvêla em parte e o lago cintilava ao sol. Aí. Em qualquer caso. jornais e pratos acumulados sobre a mesa.. Fiquei ofegante. não és tu meu primo? Atira-te do cesto da gávea. mas já Nora descia a escada. — Eu não olharei e. Esse é o teu mal. murmurei. A minha prima reunira-se-me no lago. a circulação refez-se rapidamente..

. requeijão e leite-creme. Nora devia ser cliente habitual.. Vens cá frequentemente com o Martin? * Uma vez por outra. Uma vez fora. embalsamado. — Não te preocupes. A menção deste nome fez com que o Porto me soubesse um pouco a fel. Isto é por minha conta. voltou com um cálice em cada mão. o vinho do Porto auxiliava-me. e voltou a cabeça.. — E acrescentou. * Porque. * Por que me hei-de ofender? * É que. — Com estes rodeios ia-me aproximando do assunto doloroso. * Havemos de voltar cá. quando éramos garotos? Pois vamos tomar hoje outro gole. * Noutras. Agora estou de candeias às avessas com ele... Depois comemos maçãs assadas. — O Rennie reteve-me lá dentro com conversas acerca de cavalos.. ela já havia liquidado a conta. através do jardim da estalagem. Foi à aldeia.. Estarão à vontade no gabinete. e uma deliciosa sensação de euforia começou a invadirme. com certo espanto. perfeito ! * Só falta uma coisa para rematar. que simpatizes com o Martin. detesto-o. Se queres saber. de que me servi duas vezes. fatias espessas. Passado muito tempo. eu gosto muito de ti. Mesmo assim deu-me certo alento. senti o aroma delicioso que destilavam os goivos aveludados. desatou a rir. Estava uma tarde bela e calma. — Quando deixarás de te rebaixar? Não tens muito bom conceito de ti mesmo. quando chegou.. disse ela. com a filha. rosbife ou carneiro. — Temos galinha. Levantei-me.. Nora! Isto é tudo tão. se isto não te ofende. dir-te-ei que aprecio estar contigo como nunca pensei que apreciaria. vermelhas a meio e tostadas em volta. pois o dono do estabelecimento conheceu-a imediatamente e veio apertar-lhe a mão. * Há ocasiões em que simpatizo.— Não tens dinheiro? Bonito! Ao ver-me corar até à raiz dos cabelos. Lembras-te do copo de Porto que te dei na loja do meu pai. * Nora. Eu tomei limonada. e é natural. Vamos para o bote. E com Miss Donohue também. como sobremesa. como sabes. O senhor Donohue não vem hoje com a menina? — Olhou demoradamente.. Servimo-nos de rosbife. É a pura verdade. Ouves-me? Gozo este momento como tu próprio o gozas. — Suponho. Recostada na cadeira e acabando a sua cerveja enquanto mordiscava uma lasca de queijo. * Oxalá assim continues.. tinha uma mesa coberta de oleado e escarradeiras no chão onde havia serradura espalhada. Diplomaticamente. * Suponho. com acompanhamento de batatas e salada. aquecidos pelo sol. depois de reflectir: — Minha mulher vai ter pena de a não ver. Nora mandou vir um copo de cerveja. O gabinete não era muito elegante. * Por amor de Deus! — exclamou. e por fim queijo. com o pretexto de discutir corridas de cavalos. eu não valho muito. — O Martin costuma dar-Ihe palpites. Levantou-se e saiu do gabinete. Na prateleira do fogão via-se um aquário com um lúcio de ar triste. 188 . produziu o melhor efeito. não achas ? * Se fosse possível. pelo vinho e pela expressão ardente do olhar de Nora. a minha prima observava com um sorriso as voltas que eu dava a uma talhada muito maior. maçãs assadas. Mas a comida. reforçada pelo almoço. Laurence.. e.

* Estás confortável. como para se fazer compreender bem. Podia verlhe os reflexos azuis nos olhos escuros. Chega-te mais para cá. pobre simplório. amarrámos o barquinho. nem ousei pensar que Nora desejava mais alguma coisa de mim. Laurie. — É duro a valer. * Queres que te diga uma coisa. Da sua proximidade vinha um calor estranho e perfumado. * E eu também gosto de ti — balbuciei. — Gosto muito. Abri as pálpebras. Nora! Obrigado por tudo. — Mas não é tão confortável como na cama. — Depois daquela refeição. o sinal no alto da maçã do rosto. muito de ti. Em toda a minha vida nunca podia ter desejado mais do que isto. — Então ama-me. tão bem situado que parecia postiço. em geral pálida. — Amo-té de todo o meu coração. tinha um leve tom rosado. Nora? * Estou. com as penas a sair por vários pontos. Fechei os olhos. A cara de Nora estava junto da minha. sabe Deus quantas perturbações me não haviam guiado os passos incertos através da minha puberdade! Mas Nora era para mim misteriosa. Eu. e entrámos. Devia ter-se ocupado disso quando se vestira depois do banho. Soltou uma risadinha. — Fez uma careta cómica. com uma pausa entre cada palavra. Especialmente pela tua companhia. — Está bem. Ela começou a fazer-me cócegas na palma. Quando me virei para o lado dela. erguido numa corrente da comoção mais pura e poderosa. Foi boa ideia. Não seria melhor descansar no convés? * Já experimentei. segurei-lhe na mão. suave e estranha. A minha capacidade de cooperar não estava em causa. Ainda estás muito afastado. Nora olhava-me com aquele ar vagamente sorridente que eu lhe notara quando ela havia calçado as meias. fora de mim mesmo. agora havia uma alteração: já não escarnecia de mim. Apertou-me de encontro a si e apoiou os lábios entreabertos nos meus.Chegámos à casa flutuante. . o que fez com que o coração se me tornasse tumultuoso. Uma gotinha de suor brilhava-lhe no lábio superior. percebia-se uma vaga incitação. querido Laurie? — Falou lentamente.. Nora. com a ponta de um dedo. Seguindo-lhe o olhar. Agarrei em todas as almofadas e levei-as para cima. Laurie. arrítmico.. Mas. Mesmo através das pálpebras cerradas o sol tinha um fulgor que se harmonizava com o meu estado de espírito. — Sinto-me tão feliz. Não queres? Podemo-nos deitar ali. Ainda de olhos fechados. apetece-me dormir a sesta. sentimento tão destacado do corpo que era eomo um êxtase da alma. se te agrada:—respondeu. Estavam um tanto amachucadas. de certa maneira. A tez. Mas onde é que estás? Estendeu um braço. * Mas está um dia tão bonito.o seu braço enlaçou-me o pescoço. Nunca me lembrei das almofadas. Senti-me transportado. — Levamos as almofadas do sofá. Em vez de malícia nos seus olhos. Percorreu-me uma onda de suavidade. mas pareceram suficientemente fofas quando as dispusemos no convés e nos estirámos sobre elas. vi que a cama estava feita. condescendendo.

Por cima de mim via o céu imenso. Então. de facto. deixa-te ficar aqui. mas é preciso estar de pé atrás. nessa altura. intrigante. e nada a pesar-nos na consciência! — Adormeceste também? — Não. A minha lanterna apagara-se e subíramos a pé . como seria de esperar. o Sol começava a declinar e Nora não se encontrava junto de mim. Fui um asno ou simplesmente um moço idealista. 190 . com o vinho do Porto. que me soube muito bem.. não há nele maldade nenhuma. * Um dia te direi. Um dia estupendo. a perda da virgindade. lobriguei uma mulher pequena mas forte. soou da praia um grito que nos sobressaltou. Laurie. * Acerca de quê. Livrar-me-ei dela num instante e volto nos mesmos passos. Comecei a sentir que flutuava. indecente. com o calor do sol. quase angélica. a minha atitude seráfica? Fosse como fosse. através das nuvens. Tomei outro banho para refrescar e. pus a chaleira ao lume e sentei-me aqui a meditar. — Terry é bom rapaz. eu ouvia o barulho dos remos fendendo a água. de interesse protector. proferindo palavras de louvor na verdade estranhas: — És uma jóia. falho de experiência? Devo merecer o desprezo da geração actual de adolescentes sabidos que falam destas aventuras com uma segurança tediosa e trazem a algibeira cheia de drogas anticonceptivas? Manteria. parecia uma coisa sórdida. e ia sempre flutuando. enquanto nos achávamos assim nos braços um do outro.tinha adormecido! Quando acordei. e muitas vezes apoiava a mão no meu ombro. enquanto ali estávamos às escuras. Realmente conversámos bastante no regresso a Winton. com o esplêndido almoço. embora com relutância. ela deu-me um abraço e um beijo apressado. e escutava o desenrolar das ondas na praia. Levantou-se. que nos acenava com molhos de junquilhos. esse seria capaz de esfolar a própria avó. como também a minha disposição de espírito exaltado me coibia das tentativas terrenas de um acto que. a fazer chá. Fui encontrá-la na cozinha. * Meu Deus! — gemeu Nora. — Miss Nora. Já era muito tarde quando chegámos ao Park Crescent. Faleilhe da bolsa Ellison e ela incitou-me a estudar com afinco para o concurso. Nora ia a meu lado. felizes e sem alento. Para minha vergonha. A senhora Rennie era muito faladora e Nora não se desembaraçou tão depressa como esperava. Outro conselho que me deu foi não deixar Terence ludibriar-me. alisou o cabelo e. Sonhei com a corrida de bicicleta. — Não.a última parte da colina. em seguida. Virandome sobre o cotovelo. um momento depois. mas sim ternamente. fomos para terra e. — Vou buscar — declarei. da estalagem. o que me tornava sonolento. Depois de tomarmos chá. Beijou-me na face. Não só preferia morrer a ofendê-la.. ao menos estou dispensado de acrescentar a esta história a mais banal de todas as acções. com censuras ou desdém. dirigimo-nos a penates. para mim. Nora? Sorriu. trouxe-lhe flores para a sua casa. soaram vozes na troca de saudações amigáveis e de conversa à beira do lago. Quanto ao Martin Donohue.excepcional. — É a senhora Rennie. Por fim. Não me acolheu. e com certo ar. o ar estava mais frio. nas respectivas bicicletas. como em sonhos. porque. de modo a podermos conversar. Diabos a levem! * Umas para si e outras para Miss Donohue — continuou a voz. Tirei a bicicleta das mãos de Nora e disse-lhe que eu guardaria as duas máquinas na cave. até ao fim.

e li-o mais uma vez: «Espera por mim no sábado. e por fim O Cardo e a Rosa. peguei nele. acima de tudo. Terence. E. 0 tempo escasseia cada vez mais. de que me acautelasse do elegante Terry? Contudo. a História Geral da Escócia e As Guerras Fronteiriças. fosse uma oportunidade (e lembrei-me do que Terence me dissera acerca da sua influência em Blackrock) eu faria mal em perdê-la. defeito que ele de contínuo procurava sanar (mas sem resultado) quer por meio de correcções quer de conselhos. a última frase deu-me que pensar. junto dos apontamentos quanto à regência de Murray e à de Lennox. Havia mais de dois meses que trabalhava sem descanso sob a direcção de Rankin. não me prevenira Nora. admirável. lastimoso. O tempo era agora muito precioso-para o perder com encontros fúteis. meneou a cabeça ao ver-me sentado atrás de uma rima de livros. menos da minha parte do que da sua. * A educação é uma grande coisa — disse ela -—. por baixo do relógio. devoção heróica. Laurence. Enquanto tomava o chá que a senhora Tobin me trouxera e que eu deixara arrefecer. e não com o cérebro — dizia. * Então veja lá não apanhe uma febre cerebral. Eu estava muito ocupado para tomar isto como brincadeira. Não faltes. o meu olhar poisou. XXIX ERAM quatro horas de uma tarde quente de sábado.. Daqueles dois aperitivos. «É para teu interesse». A sua atenção concentrava-se principalmente na minha falta de estilo literário. À noite. em que estava absorvido. na Estação Central. querido Laurie. passara a leituras mais substanciosas: a Guerra da Independência da Escócia. com efeito. Annie. sentia-me tão entusiasmado com a contenda entre Rothesay e Albany e a morte de Rothesay em Falkland. Franzindo a testa. como para ver se me escapara qualquer pormenor.. Se. eu não iria. no postal que viera na véspera e que se encontrava em cima da mesa. às cinco horas. não me esforçava tanto. Actualmente eu ia quatro vezes por semana a casa de Rankin. de Gregory. Com frequência o pensamento me retrocedia ao tempo em que tanto desejara ter um leccionador.. Já resolvera não sair. subiu a escada e desapareceu. A senhora Tobin havia trazido uma xícara de chá ao meu quarto.— Boa noite. E obrigado por seres como és! Com estas palavras. e não pela primeira vez nessa tarde. de tal maneira que sentia os nervos arrasados. à mesa de vime que eu salvara de um dos compartimentos em que o tio guardava o seu refugo. os Reis Stuarts. de Barron. como o filho da senhora Finnegan quando ficou mal no concurso para os Correios. Enquanto acabava de tomar chá. . no qual tinha pouca esperança.» É claro. mas eu. debati o problema. de Skene. se fosse o menino. * É preciso. À parte o meu objectivo verdadeiro.. a minha querida Nora. Antes de sair. Agora tinha-o: um mestre paciente. principiara a interessar-me pelo assunto em causa. É para teu interesse. que só parava quando a vela se consumia toda — iluminação muito a carácter com os episódios do século XIV. a Escócia Céltica. que era a minha melhor oportunidade para ler. em meados de Julho. — Escreves com o coração.

— Já não te disse que ele. que muito me surpreendeu. Cinco minutos depois da hora marcada. — Por que há-de ser hoje? — perguntei. Aproveitando o convite. * De acordo. * Depois te direi. * Mas porquê. * Ah. — Tenho de saber para que é isto. praticamente me venceu. como se meio convencido. levantei-me. Terence apareceu. Terence esperou que nos servíssemos e então. Mas ganhou duas corridas com os Harriers. Juntei-me a elas. Suponho que podemos dar-lhe uma oportunidade. Eles pediram cerveja. — Bateu com a biqueira do sapato na maleta. em tom enfático. Por fim. No entanto. Não me devia surpreender. Donohue sorria também. — Não podemos falar aqui — disse Terence.. Pois vamos hoje fazer isso. A tua vestimenta trago-a aqui. — Que querem tomar? — perguntou Donohue. meio a sério meio a brincar. Mart? * Pelo que vejo — redarguiu Donohue — não há nele uma onça de gordura. pois Terry. não creio que possa aguentar. ou pelo menos o rosto macambúzio mostrava uma expressão de afabilidade desusada. este ano e o ano passado. respondi que queria uma sanduíche de presunto e um copo de leite. — Óptimo! Já cá estás. Já é coisa que se deve levar em conta. — Garanto-te que sim — respondeu Terry. com um olhar significativo. Contudo. De que serve saberes antes de vermos de que és capaz? * Não — declarei categoricamente. É a que eu usava em Rockcliff. * Mas será veloz? — Donohue olhou para mim. Faltavam dez para as cinco quando lá cheguei. Era um local preferido de encontros e já outras pessoas esperavam debaixo do relógio descomunal. em garoto. não te preocupes. 192 . o interesse que manifestavam por mim. * Aguentará. Não estou em forma. replicou Donohue. — Penso que não te fizemos esperar muito. Terry? — Aquelas perspectivas. encolheu os ombros. E com belo aspecto. — Tudo arranjado. um rapaz como tu nunca deixa de estar em forma. hospitaleiro. duvidoso. — Vamos para o bufete. Mas não vinha só. tudo isso seria muito lisonjeiro mas fazia-me desconfiar. agarrei no boné e dirigi-me para a Estação Central. — Terence cumprimentou-me efusivamente.. depois de inquirir solicitamente se estava tudo bem.primeiro de uma forma e depois de outra. * Pois é. * E que bela oportunidade! —Terence voltou-se para mim. tomou um gole de cerveja e fez-me a seguinte declaração: — Já me ouviste dizer por diversas vezes que queria ver em que tempo percorres uma milha. — Temos de ver isso quanto antes — replicou.— É por minha conta. visto que até então nenhum caso fizera de mim. — E tenho autorização para te experimentarmos no campo do Harp. * Isso foi há anos.—É preciso que desenvolva velocidade para a arrancada final. a proposta apanhou-me desprevenido. a este argumento. trazia na mão uma mala pequena.— Bem. * Mas não tenho feito corridas a valer nos últimos tempos. em mais de uma ocasião me falara no assunto. Fomos para o da primeira classe. a maneira como fora vencida a má vontade do Martin. Que te parece. Donohue acompanhava-o. Donohue.

deixando-me uma polegada de vazio entre os dedos dos pés e a ponta. E já me animava o desejo de mostrar que era bom corredor. Em toda a volta.» Meu primo conseguira impressionar-me de novo com o seu encanto e o ar de segurança em si mesmo. surgiu o campo de futebol pertencente ao Harp Juniors Club. Disse ao motorista que esperasse e virou-se então para Martin Donohue. que era ainda mais modesto do que o campo. Solicitamente ajudado por Terence. que resolvera fazer de meu criado. a quem detestava por causa de Nora. era miserável e mal cheirosa. A vizinhança. não havia mal nenhum naquela prova. «Terry faz as coisas à grande..— É para teu bem. Concordei em ir. — Darte-á mais elasticidade. contíguos a fábricas. A maleta. dizia comigo. Contanto que sejas como pensamos que és. contudo. principiei a vestir-me. — Ora cá estamos! — exclamou Terence entusiasmado. Por toda a parte havia pó e um odor forte a suor. Saímos do bufete e metemo-nos num dos táxis que estavam à porta da estação. encerrava um campo de futebol mal cuidado e um barracão de madeira. naturalmente devido ao gás. revelou a existência de calções.Ficas na pista enquanto eu vou com o Laurie. Eu nunca ouvira falar dos Harp Juniors. .. «De facto». dominada por dois enormes gasómetros.. Entrámos no barracão. As tábuas do soalho eram nuas e estavam estaladas.. uma vez aberta. havia uma pista de corridas. o que começo agora a duvidar. num subúrbio oriental da cidade.* Não te disse no postal? — exclamou Terence. Observei isto a Terence. Esta nota de cepticismo decidiu-me. uma camisola e sapatos de corrida. —. Afinal. cerveja e urina. que eram muito compridos. — Não tem importância — respondeu com autoridade de entendido. principalmente ao Donohue. Tudo estava ao meu tamanho menos os sapatos. cercada por um tapume de zinco ondulado já carcomido pela ferrugem. e a propriedade. já velhas. De pregos colocados na parede pendiam camisolas às riscas. O nosso ponto de destino ficava bastante longe. Depois de um percurso de vinte minutos de automóvel.

Depois saberás porquê. soltou um brado de vitória. —Agora! Fiz uma boa largada e. Acendera um charuto. da cabeça aos pés? — Sem dúvida! Tem a altura necessária. Levamos-te e trazemos-te no mesmo dia. Minha mãe. Quando acabei. tinham afinal menos elasticidade do que ele prometera. A nossa ideia é que disputes a milha. pôs uma das mãos no meu ombro. * Ganhar ? * A taça. * Mas não se esfalfe — observou Donohue. Donohue andava cá e lá. eu tenho exame na primeira semana de Agosto.Estou. Dois dias antes. mas dá uma boa fricção. — Com ar grave. Mas não havia motivo. empurrando-me para diante. com um olhar que parecia reprimir o entusiasmo de Martin. inclinou a cabeça. Na mala encontrarás uma toalha.. — Há uma competição desportiva no começo de Agosto em Ber-wick-onTweed. pálido e ofegante. — Bela corrida! Eu bem sabia de que eras capaz. sagazmente — há grande quantidade de apostas. manifestava satisfação. * Dez libras! — Era de facto tentador. no qual vislumbrei certo respeito involuntário. de olhos fitos no relógio. * Agora escuta-me. e os que entram na prova são uns patetas sem importância. com as mãos nas algibeiras e um ar de expectativa.. como se receoso de que o motorista o ouvisse. — Quatro voltas à pista é uma milha exacta. como sabes. nas duas últimas voltas. acrescentando em voz ainda mais solene. Inclinado sobre o relógio. com ar confidencial. Estudámos o terreno e. — Qual foi o meu tempo? Terence levou um dedo aos lábios. naquele equipamento com as cores de Rockcliff. — Vamos então a isto. as dez libras. A sanduíche que havia comido incomodara-me um tanto ou quanto. corei de prazer. Receberás dez libras. Estás pronto? —.Viemos para fora. pelo que vimos hoje. — Recuou um pouco. referindo- 194 . por momentos engasgado com o fumo do charuto. Donohue não fez comentários. Terry. Terence voltou-se para mim. O tom de Donohue. * Mas. * Isso mesmo! Exercícios para tornar os membros flexíveis — disse Terence. Laurie. estamos convencidos de que deves ganhar. -A corrida é a cinco. escorregando-me no terreno. E olha para as pernas. e o Martin. É uma coisa modesta. numa indecisão angustiante. No táxi. senti-me descontente com a minha actuação. mas bateu-me nas costas uma palmada amigável. sentia que os não iria desiludir. Fiz alguns passos preliminares. tão rápido quanto possível. Na outra segurava o relógio. — Mas. em carta recente. Da parte financeira nós nos encarregamos. local. Ainda arquejante. Martin tratará das apostas. — Falava em voz baixa. — Nem uma palavra acerca disso por enquanto. Queria ganhar a taça e. — Terence. Dez minutos depois regressávamos à cidade. dei as quatro voltas à pista. trabalha nisso. e os sapatos de Terry. — Não é mesmo um corredor. Agora. Qual é a dificuldade? Mordi os lábios. * Agora escuta. Parece-me que cortaram a água. Agora vai mudar de roupa. — Aqui está — declarou Terence. piscou-me o olho. Não fica a mais de três horas de Winton. — E também boa soma de dinheiro. No dia sete. principalmente.

disse-me logo de entrada. e aí me apeei. é de tranquilidade de espírito e algum treino. — E qual o significado disso? — Nenhum. é só dizer. penso que faríamos bem se dedicássemos atenção especial à época quinhentista. * Óptimo! —Terence apertou a minha mão. Em segundo lugar. Atravessávamos ruas familiares. quase a hora de começar a minha lição com Rankin. cofiando a barba. E uma vez por outra aparece lá no hotel que eu providenciarei para que te dêem bons bifes. não seria justo que aproveitasse as vantagens que tinha? A bela proposta de Terry era perfeitamente legítima. noto que a personagem escolhida de há dez anos para cá é Maria Stuart. estudando com mais cuidado aquela mulher infeliz . — Nas proximidades de Hillside Street. convidan-do-me com um gesto a sentar-me na outra cadeira — tive a sorte de apanhar os pontos de exame da bolsa Ellison. quase comparável à faculdade de levitação concedida pelo Céu a raros santos. tinha às vezes a impressão de perder contacto temporário com a terra firme. e. não longe da Universidade. quando eu corria. quando cheguei à Hillside Street e subi ao quarto de Rankin. — Sorriu. e folheava com interesse uma rima de papéis. era inegável que possuía um dom especial. consolidara-se desde que tinha treinado com os rapazes de Ardencaple e vencera por duas vezes a prova final das corridas anuais. Sim. ao fim do dia. e se Donohue queria apostar em mim. — No entanto. * Disputarei a corrida. lastimava-se de ter vendido a nossa mobília quando deixáramos Ardfillan. Com dez libras poderíamos comprar muitos móveis. Atendendo a tudo isto. Terence mandou o motorista contornar o parque. O que precisas. não estava certo de que não prejudicaria a obtenção da bolsa Ellison. agora. A ideia de ser suplantado foi-me intolerável naquele momento. pois tenho outro tipo em vista. Muito simpaticamente. De facto. Achava-se já sentado à mesa. Olhou para mim. Mas como aceitaria Rankin semelhante empreendimento em vésperas de concurso? — Acho que só lhe faria bem um pouco de distracção antes do exame. — Parece-lhe? — Em primeiro lugar. Donohue desceu o vidro da janela e renunciou ao charuto. que certamente não perderá a ocasião de receber uma boa quantia. e se acentuara com os meus esforços em manter as boas condições físicas. decidi consultálo acerca do assunto. — Ver-nos-emos de vez em quando! — bradou Terry quando o carro se punha em movimento. — Mas se não quer. Contudo. satisfeito. — Verás que não te arrependes. ainda um tanto excitado e com uma agradável sensação de importância. Era lisonjeiro ser escolhido por Terence e ver confirmada a crença inata quanto às minhas qualidades excepcionais de corredor. seis dos pontos são exclusivamente dedicados a uma personagem histórica escocesa do século XVI. O táxi parou no sopé da Gilmore Hill. Dirigi-me para a pensão de Rankin. provavelmente. também isso era legítimo.se à casa que pretendia alugar no seu regresso. dos últimos dez anos. — Laurence. — Donohue devia ter adivinhado os meus pensamentos. à minha espera. Essa convicção da minha velocidade. Há conveniência em lê-los. — Onde quer que o deixemos? Calculei que já fosse perto das sete. de que pela primeira vez tivera consciência quando fora a correr chamar o médico para o meu pai. Vi que já tínhamos passado a Estação do Norte e que entrávamos na Mor-tonhall Street.

Ponderou no assunto. Com renovado ardor juntei-me a Rankin num estudo mais intensivo da personalidade dessa prima da rainha Isabel. Andrew Lang ajudar-nos-á nisso. não vi Nora na rua. Dei volta ao prédio. e. esperando em vão que Nora ou Miss Donohue acabasse por aparecer. mas Craig Hill tinha sobre mim uma sedução especial por causa da igreja dos Jesuítas. Em parte o seu estado actual resultava 196 . até ao pátio das traseiras. se não inteiramente deprimido. íamos em passo vagaroso até Crescent. ainda que subtil. dizendo-me sempre ter esperança de que eu obtivesse a bolsa Ellison. Então.e os seus familiares. em contraste com muitos dos templos convencionais da cidade. fazia torradas cobertas de queijo e no-las servia com cacau. Na verdade eu começara nos últimos tempos a imaginar que Nora tinha qualquer aborrecimento. que tinha gosto culinário e apreciava bons petiscos. Não recebi resposta às campainhadas que fiz. Se bem que o sentisse vagamente (nunca apreendera bem o verdadeiro significado daqueles momentos de abandono no convés da casa flutuante). quando o tempo estava bom. de braço dado. e repelisse as minhas perguntas. Trouxe hoje da biblioteca a biografia que ele escreveu. Naquela ocasião é que me compenetrei de quanto o estimava. falei assim: — Só uma coisa antes de começarmos. pelo menos para o meu espírito. uma grande atracção. senhor Rankin. o que constituía. já não era uma coisa acidental e maliciosa. era do sombrio estilo românico. Então dirigi-me ao longo do Crescent em direcção a Craig Hill: não seria o trajecto mais curto para a Argyle Street. Aqui. deliberei visitá-la no meu regresso a casa. quando saí da casa de Rankin. onde Miss Donohue. e aliás a própria Nora não as sugeria. E um dia ao ar livre será óptimo. que aceitara provisoriamente. Sempre fui de opinião de que se deve descansar o espírito antes de um exame. E disse-lhe que o meu primo me propusera tomar parte numa corrida que se realizaria em Berwick dois dias antes do exame. XXX Nessa noite. faltava algo que não saberia definir e que fora substituído pela solicitude. Vagueei por ali cerca de um quarto de hora. O seu rosto tinha nesse momento uma dignidade simples que fazia esquecer o defeito físico e o seu sentimentalismo insípido.intervalo que se me afigurou anormal. fitando-me com benevolência. a aplicação que Rankin exigia de mim não me consentia excursões ao campo. Percebia que ela gostava mais de mim do que dantes. E quanto favorece a pobre rainha! Ia abrir o livro quando eu. a atitude de Nora para comigo sofrera uma alteração substancial. que só te fará bem. ela vinha em passeio através do parque e eu encontrava-a à minha espera sob o candeeiro. mas um desejo sincero de me animar. eu desfaria já o compromisso. Muitas vezes. Laurence. Julgar-se-ia que se tornara subitamente mais velha. Esta aprovação tão sensata foi para mim um alívio. conquanto nos beijássemos com ternura. a qual. Embora o negasse. fui pouco afortunado. todavia. mais comedida. mas não vi nenhuma luz nas janelas. muitas vezes mostrava um ar ausente. — Creio. Como decorrera já uma semana sem que a visse. defronte do prédio 212. e que. se achasse não me convir. ansioso por dissipar as minhas dúvidas.

como se hipnotizada pela chamazinha vacilante que provocara. * Oxalá tenhas razão. . Estava sempre pronta a troçar da água benta e do incenso. lembrei-me. * Houve um silêncio. Nora. que era nova. o seu ar calmo e sério ali no degrau do altar. escura e silenciosa — tudo o que eu desejava. Nora. Na noite em que ali entrei segui para o altar da minha predilecção.. sem o que pressentia não ter qualquer probabilidade. Minha prima fitou-me. * Não vou ainda para casa. — Verdade? — Sim. onde havia uma. limitou-se a sentar-se e olhava em frente. Nora não era devota. Todavia quanta felicidade me dava saber que Nora. da parte de Miss Donohue. Nora ? * Perto da Mortonhall Street. levou-me a concentrar a atenção na rapariga. pois desde a traça original até aos mármores interiores tudo se mostrava deteriorado. Uma mulher que lá se encontrava devia ser a responsável pela conservação dessa única vela. — Laurence! — Exclamou. reconheci que se tratava de Nora. Na maior parte essas criaturas ficavam ajoelhadas. Avancei em bicos de pés. Por que te lembraste disso? Desviou a vista. Há séculos que não te via! Posso acompanhar-te a casa? Deteve-se no último degrau. excepto um círio votivo.da carência de fundos. que me levava a pedir a Deus auxílio para o meu êxito no exame. Não era um fervor religioso. contemplei-a num êxtase que eu usualmente reservava para a divindade. Nora. Ê esquisito. Abanou a cabeça. o que me aborrecia muito. além de contribuir com dinheiro. e de repente. Gostava de a contemplar e sempre me punha em atitude suplicante. ficando só arcos e colunas de tijolo. porém. réplica da Nossa Senhora de Simone Martini. — É a coisa mais simpática que jamais poderias fazer. Mal quis acreditar. A surpresa. hem? — Não é. com um sobressalto de espanto e prazer.. Estava nessa disposição.. — Ora. mais do que a curiosidade. Nora! Toquei à tua porta mas ninguém respondeu. Eu sorri-lhe. todas as luzes estavam apagadas em roda. Desta vez. desconhecedora do meu hábito de visitar a igreja à noite. se o tinha — para a compra da cera.. Nora lembrava uma santa. se me antecipara e fora acender uma vela por minha intenção! Cheio de amor e reconhecimento.. Sempre oculto. * Onde. e por tudo. que parecia quase intacta. virando-se bruscamente. mal pude vê-la. Tenho um recado a entregar. * Vamo-nos então embora? Quando descíamos os degraus da igreja. Obrigado pelo círio. demais a mais sendo o templo relativamente perto para mim. com o seu rosto pálido e puro.. ainda que não alcance a bolsa Ellison. Eu tinha até notado que se esquecia dos jejuns e abstinências às sextas-feiras e na Quaresma. inclinei-me para ela e sussurrei: — Obrigado. — Que feliz encontro. À noite a igreja estava em geral deserta. * Queres continuar aqui? — perguntei. o coração dilatou-se-me. Nunca me esquecerei. Confesso que tinha o costume de entrar lá. Não pude esperar mais tempo. que projectavam na nave sombras medievais. mas aquela. Creio que auxiliará. que nunca possuí. antes um sentimento de confiança. eu tomei-lhe o braço. desfiando as contas.

e que tomo parte no festival de Berwick. Começámos a andar. 198 . — Tu também? — Depende. vamos. — Nesse caso. Estou convencida de que passará depressa. ocupada por pequenos estabelecimentos curiosos. ainda enlevado no meu reconhecimento. — Pois sim. Eu.. com uma expressão distante. * Creio que não sabes que estive hoje a correr. tive a impressão de que ela não era a mesma. no carro dos Gilhooleys. A sua maneira e as palavras que empregara revelavam-me quanto ela tomava parte nos meus anseios. encaminhei-me para Argyle Street e a Casa do Templário. * Sim.. De novo pensei que a tinha ofendido. um ervanário. na sua voz. Nora largou-me o braço. pronto a partir. Estava também desusadamente silenciosa. Desses estudos e do mais.. como sempre atravancada de tráfego. Uma onda de calor invadira a cidade. após uma pausa. mas. O que é? — Um pouco de tudo. já ouvi falar disso. Nora. Para te dizer a verdade. dir-se-ia hesitar. acender na igreja um círio por minha intenção. Era ali que a senhora Tobin comprava larvas de formigas para o peixinho dourado. como deves saber. eu não queria repisar o assunto. olheirenta. Notara eu. declarou. Contudo. veremos. e depois. Nora parecia pálida. — Então vem connosco. contemploume com um sorriso triste. A viagem ajudar-te-á a restabelecer. mas sempre fui dizendo: — Obrigado pelo teu círio. não sou assim tão devota. — É aqui que eu fico — disse ela. ao afastar-se. Não longe de Market Cross. Senti uma gratidão tão grande que não lhe pude replicar. — Laurie. Parámos no passeio oposto a Market Arcade. virando-se para mim — não tenho andado bem ultimamente. — Antes de ires. com tartarugas vivas na montra.* Vou contigo. Chegámos ao extremo de Craig Hill e enfiámos pela Mortonhall Street. Nora. Sob os lampejos da rua. tenta-se tudo. Até estamos para ir todos. quando se deseja muito uma coisa. — Era difícil. Esperei até a ver atravessar a rua. Até que replicou: — Deves estar cansado.. e eu pensei se a minha descoberta involuntária. uma vidente e uma loja de venda de animais de estimação. uma espécie de farmácia um tanto singular. Nora. Mas. perto de Market Arcade. porém. Ela. rua coberta. alguma inflexão de impaciência? Não. Falei com decisão. e a noite continuava quente. porém. a teria aborrecido. Laurie — acrescentou. — Nunca estou cansado para andar contigo. desde o meio-dia. — Lastimo bastante. olhando-a de revés. morria por lhe contar o meu triunfo desse dia.

Não dissera nada dos meus planos ao tio Leo. — Eu sempre disse que não convém esses esforços. com certeza. Os outros não tardam. juntamente com o hábito de começar todas as suas observações com a frase «Eu sempre disse que. nunca vi mulher que conseguisse parecer tão espaventosa. * Ora toma. As boas notícias da minha mãe davam-me esperança de que. . eu estava convencido de que teria de esperar. Apesar de Terence haver insistido em que partíssemos cedo. Um momento depois Nora surgia das portas giratórias do hotel. pôs o carro em movimento. Nora. Devia ser a melhor cliente de Miss Donohue. Nessa altura. Espero que contribua para que eu hoje ganhe uma boa quantia. Estava sempre a agitar-se. seguida por Donohue. olhou-me e sorriu. Miss Gilhooley. é o que eu sempre digo antes de partir. gastava somas fabulosas no Earl's.. irritavam-me deveras. eu não continuaria a trabalhar com ele. Pode arrefecer.. e pensava regressar a Winton dentro de poucas semanas. o qual saíra do carro e pegara na manivela de accionar o motor.». reuniram-se a mim no assento de trás. depois de várias voltas da manivela.. Branca como a cal. Miss Gilhooley? Terence soltou uma gargalhada. sem dúvida.XXXI _AS oito e meia da manhã. e. Enquanto assim fazia. Mas por que será que Nora não aparece? * Ela fez um grande esforço para vir connosco — observou Miss Gilhooley. sábado cinco de Agosto. * Muito prazer em ver-te. Miss Gilhooley acabava de fazer esta recomendação quando Terence. Nora foi só tomar um café. Embora o céu estivesse nublado. Que tal te sentes? * Óptimo. seguro com o seu costumado tule cor-de-rosa. À minha chegada. Enquanto eu entrava no carro. eu terminaria o meu compromisso com Leo. — Está necessitada de dinheiro. meu rapaz. dirigi-me ao Criterion Hotel. e um chapelinho do género tacho. estendeu a manta sobre os nossos joelhos. tudo com feminina garridice. gesticulando ou reclamando de Terence atenções desnecessárias. a suavidade do ar era agradável depois do calor recente. mas não disse nada. Tinha um casaco vistoso.. empoando o nariz.onseguiu que o motor funcionasse e. axadrezado. — Senta-te aí atrás. O automóvel avançava. Está aí mesmo. — Bom dia. a ataviar-se. Acho-a até muito pálida. mesmo nesse momento ern que me cumprimentou com uma condescendência graciosa. Josey! Todos sabem o que o nome de Gilhooley representa. — Desdobra a manta. se tudo corresse pelo melhor. Nora que estava sentada entre mim e Martin Donohue. com Terence sentado ao volante e Miss Gilhooley junto dele. meio voltada para mim. Terence ergueu o braço e saudou-me. compondo o cabelo. A Mãe já tinha o seu lugar assegurado no Departamento da Saúde. contudo. e as suas pretensões a esses atributos. mostrava os dentes de ouro num sorriso de boas vindas. ajeitando o vestido examinando as unhas. retomando o seu lugar ao volante. Chamados impacientemente por Terence. Terry. mas quando me aproximei do hotel vi já à porta o carro vermelho. Abafem-se bem. Miss Gilhooley não era bonita nem muito nova. efeito que ela acentuava com uma variedade de afectações de mau gosto.

A conversa era agora menor porque Terence lançara o carro a toda a velocidade. * Miss Donohue foi fazer compras a Manchester. passado algum tempo. Enquanto este. por fim. decerto para salvar as aparências. Contemplei-a cheio de solicitude. consultando o mapa. de ruas calcetadas e sinuosas. Achei-lhe os dedos tão frios que comecei a esfregá-los. e assim. Teria a deserção de Donohue perturbado a rapariga àquele ponto? * Se não te sentias bem não devias ter vindo. autocarros e carroças. séria e pálida. mas o ar fresco dispôs-me melhor. de facto? No estado de espírito em que eu a via. Era um velho burgo à beira do rio Tweed. desistiu de lhe dirigir a palavra. além dos seus escassos encantos físicos. Nesse dia. e já devia ter conduzido esse automóvel várias vezes. a praça grande estava atulhada de automóveis. ela mal respondia e continuava a olhar em frente. Nora totalmente não parecia a mesma. a expressão não se modificou. cercado por um muro medieval com muralhas que dominavam o porto. Os outros iam tão embrenhados na sua conversa que não havia perigo de escutarem a nossa. Terence enganara-se no caminho e agora descobria. Querê-lo-ia. e em toda a parte reinava uma espécie de excitação. dizendo-lhe segredinhos. * Estás enjoada? * Um bocadinho. apresentava um aspecto de actividade desusada. O que não devia era ter tomado aquele café. Nora? Olhou-me e fez um gesto afirmativo. perto da sua foz. o qual. Nora manteve-se calada. mas. quando atravessámos as ruas principais de Winton em direcção à estrada de Edimburgo. Era impossível não reconhecer que haviam esfriado muito as relações entre Nora e Donohue. eu abandonei-me ao luxo do progresso. À parte o risco de nos perdermos nas azinhagas do campo. parando junto de um ardina e atirando-lhe uma moeda. — Ultimamente tenho andado esquisita. * Não poderia ficar sozinha todo o dia. . o que altamente agradou a Terence e a Donohue. à uma e vinte minutos. — Temos de comprar um jornal — disse Terry. Terence guiava bem. Isto passa. Logo que atravessei o arco compreendi que era o lugar ideal para passear e sonhar. Isto não agradou a Donohue. a sua mão procurou a minha sob a manta. rindo e conversando com uma vivacidade que fazia grande contraste com o silêncio quase total da retaguarda. se dedicou a Miss Gilhooley. para os aquecer. com um encolher de ombros. da competição desportiva. Iam ambos muito bem dispostos. E não te esqueças de que desejo ver-te correr. duvidava muito de que a corrida lhe ocupasse os pensamentos. Nesse momento é que percebi a razão por que Miss Gilhooley possuía atractivos para ele.Era esta a minha primeira viagem em carro particular e. tornava-se necessário regressar à estrada costeira e isto levantava o problema de saber se chegaríamos a tempo do início. inclinando-se para a frente. atravessávamos um estreito arco de pedra e entrávamos em Berwickon-Tweed. às duas horas. que a volta inútil por Dunbar nos custara mais quinze milhas do que o percurso directo. lhe fazia uma vez por outra qualquer observação sem importância. fazendo-a rir e competindo com Terence nas atenções que lhe dispensava. — Sentes-te bem. Havia muita gente na rua central. contudo. e. a avaliar pelos seus comentários. Nesta altura ocorreu uma diversão.

— Não. Dobrei o jornal cuidadosamente e guardei-o no bolso. Senti um antecipado estremecimento de prazer. Terence estava disposto a tratar-nos bem. Quando Donohue começava a dispor o seu quadro e o estrado. e leva-o contigo. — Vem?—perguntou Donohue. e ficarás sabendo o que pensam de ti. não queres comer primeiro uma sanduíche? — Mais tarde — respondeu Donohue. extensão plana sem vegetação ao longo da série de rochedos. De um lado havia um espaço não muito grande para o golfe. eu ajudei a retirar os apetrechos que vinham no porta-bagagem. o veterano Harry Pumes. era uma coisa que eu queria conservar. e do outro era o mar. e F. Saí do automóvel e. Este antigo estudante.. Queria mostrá-lo a Nora. Josey. triunfador do ano passado. o Berwick Advertiser. Não desejamos fazer previsões. Vinham as horas das corridas.. mas nessa altura. — Vamos já para o campo de jogos. meu rapaz. que ostentará as cores do Rockcliff. a comida dali matar-te-ia — replicou Terence. baixei o jornal. era o restaurante mais famoso de Edimburgo. impaciente com aquele abandono momentâneo da sua pessoa. quando é que se almoça? Parece-me que vejo além uma espécie de hotel. o nome dos corredores e os prognósticos para as apostas. — Lê isto. ou o presente detentor do troféu. mas. enquanto Miss Gilhooley e Nora iam ao alpendre dos refrescos. Antes de prosseguirmos o nosso caminho. . depois das quatro horas. — Cá está — respondeu Terence. Terence não arrumou o carro no recinto próprio mas atrás da instalação dos agentes de apostas. para aborrecimento do treinador. com um sorriso de aprovação. e F. reuníamo-nos já à multidão que se dirigia para o estádio. Chegámos por fim ao campo. passou-me o jornal. por um jovem do Oeste chamado Laurence Carroll. para quem apostar. meninos. «Um Estreante na Milha A crença geral de que o vencedor da milha será ou Peter Simms. o moço Carroll será a melhor coisa do cartaz. lá comeremos qualquer coisa. A situação agradou-me e a brisa fresca do oceano servia-me de estimulante. com bandeiras. em qualquer caso.Oh. até que Miss Gilhooley. toldos e uma variedade de barracas que davam ao lugar um aspecto festivo de feira. apontando para o centro da página. sacudidos no carro devido ao mau terreno. e ela estava inclinada para a frente. Terence interpelou-o: — Mart. mas nitidamente delineada. — E óptimo! Ambos examinaram a página com toda a aparência de satisfação. feito de secções que se ajustavam umas às outras. — Vai. não quis que registassem o seu tempo. Mostrar-lho-ia mais tarde. apoiada às costas do assento dianteiro. Senti que poderia actuar bem..Era um jornaleco de quatro páginas. F. e então à volta determo-nos-emos em Edimburgo para uma boa refeição no F. fez recentemente uma bela prova no campo do Harp Juniors Club e consta que. Eram algumas linhas na secção dedicada aos desportos. exclamou: .» Impando de orgulho. esticando o pescoço. pode ser abalada hoje. voltou-se para mim e. designação abreviada de Ferguson e Forrester. Terence passou-lhe imediatamente uma vista de olhos.

porém. lembrei-me de vir saber como te sentias. disse um tanto constrangido: — Antes de iniciar o meu trabalho. * Daqui até à noite ainda vai muito tempo. relanceando por mim a vista. -— Não vou à festa — declarou Nora. Desejaria não assistir a esta disputa. * Contenta-te com isso. que ambos transportámos para a mesa.. Parecia tão enjoada como infeliz. — Posso oferecer-te alguma coisa? Uma genebra.Como principal participante no grande acontecimento do dia. replicou. A festa desta noite darte-á boa disposição. de ficar. — Ainda bem que pensas assim. — Por amor de Deus. Enquanto os dois se afastavam. * Se tenho de tomar alguma coisa. Nora. pois. * Queres aguardente. depressa conseguiu arranjar dois pratos de sanduíches e algumas bebidas. no balcão apinhado de gente. — Vão ambas para ali e sentem-se. ergui a cabeça vi que o Donohue entrara e avançava para nós. — Vamos até lá fora respirar um pouco de ar puro. prendi a chapa na lapela do casaco.. Feito isso. autorizados por Terence. -— Estou farta de genebra. como se desejasse que eu não estivesse presente. Nora tomou a genebra mas não comeu nada. necessitada de um conhaque. de lábios apertados: — Não estarás um pouco atrasado? Sinto-me o pior possível. Eu sempre disse que não há como conhaque para as indisposições de estômago. distraidamente. Nora? A irmã abanou a cabeça. A mim couberam-me dois pãezinhos com salsichas. que acabou o que restava das sanduíches e até. descartou-se da outra metade. esta referência indirecta à minha pessoa não me produziu efeito muito agradável. * Está bem. E Nora está enjoadíssima. As coisas não estão tão más como isso. faz um esforço. Sentou-se e. Pensei que Nora não ia responder. mas. Josey. com ar repugnado. Nora — disse ele. — O quê?! . * Isto é horrível. mas o banco em que Donohue se sentara impedia-me a saída. A verdade destas palavras foi confirmada quando nos reunimos a Nora e Miss Gilhooley. Alegrava-me a ideia de me encontrar a sós com Nora. — À noite terás lagosta e champanhe. queria averiguar por que estava tão transtornada. com o desembaraço habitual.prefiro genebra. Parece que tenho de passar a vida a tomar essa porcaria. Miss Gilhooley estava com ar indignado. — O que ali há não te fará mal. passado um momento. que eu detesto! — Vamos. Que gentalha! E parece que não há nada senão cachorros quentes. domina-te. -—Não sejas desmancha-prazeres. Tive. tentando falar com brandura. consumiu a metade deixada por Miss Gilhooley. Quando. Quando me afastava com Terence. conciliador. E não posso comer muito. tirou do bolso uma chapa redonda de competidor. — Leva isto contigo para o vestiário. volveu Terence. Terry apontou para uma mesa ao canto da barraca. disse-lhe: — Devo ter cuidado com o que como. já que queres saber. Terry. A tua roupa está no carro. — Levantou-se. Miss Gilhooley comeu metade de uma sanduíche e depois. e entregou-ma. Terence.

Deixámos Nora e fomos ao escritório. 0 secretário era um sujeito baixo. se tal acontecer. porém. É ocasião de o levar ao gabinete do secretário. declare que já fez dezasseis anos. tomarei o comboio em vez de regressar de automóvel. Depois lançou-lhe um olhar duro. Se não confirmamos a sua entrada. parto-lhe a cara. e todos os agentes de apostas faziam as suas contas. se não me sentir melhor. E não me olhes dessa maneira. vermelhusco. Notei que os valores atribuídos ao acontecimento principal. Donohue permaneceu silencioso. Que direito tinha ele de me tratar daquela forma? E que significava essa intrujice quanto à idade? Ainda indignado. a disputa da milha.— Não estou para isso. Terence e Miss Gilhooley ainda não estavam à vista. vai. — Voltou-se para se ir embora. * Isso acabou. * Então não entra também? — Tenho de organizar os meus registos. olhou-me com interesse e estendeu a mão. Não procedeu a inquéritos inoportunos. Cá fora. — Está bem — sentenciou. penetrei na cabina. e acrescentou: — Boa sorte. — Queremos mais como você. Donohue deteve-se e recomendou-me : * Não diga quem o trouxe cá. a última cabina da fila. — Oiça. — Venha você. Está o caso arrumado. — Mas só os terei a dois do mês que vem. . Senti restaurado o meu prestígio quando vi que figurava como favorito ao lado de Purves e de Simms. — Sorriu. Quando escrevi a minha assinatura. E. * Não queres ir comigo? * Não. Ficarei aqui e. mas parou de súbito. não me aproximei do estrado. a coisa fica sem efeito. * Que comboio? * O rápido das seis menos dez. se lhe perguntarem a idade. ou o desclassificam antes da corrida. — Se é da tua vontade. a avaliar. Não sei por que diabo recai tudo sobre mim. de fato de mescla com calças de golfe e gravata condizente.Faça o que lhe digo. consolando--me assim do orgulho ferido. seu parvo. -Levantou-se e pegou-me no braço. Eram quase duas horas. Fitei-o num desespero mudo. Como já me considerava farto de Martin Donohue. Chegando fora verifiquei que o Donohue se retirara para o seu estrado. ele devia fazer excelente negócio. E tu também. Segui devagar ao longo da fila. pela multidão que o cercava. * Ainda há bem pouco tempo gostavas que eu olhasse para ti. estavam escritos a giz nos quadros. dizendo.

Dominava-me uma estranha passividade. os nervos iam-se-me tornando tensos. Quase imediatamente deram início à segunda. Aquilo parecia sem sentido. agora. deduzi terem entrado em todas as competições anteriores. * Convém mudar já de roupa. animado pelo facto de que o meu nome continuasse a figurar como um dos favoritos. era o único mais aproximado da minha idade. Era muito mais novo do que Purves. pediam bilhetes de aposta em alta. Tratei de me preparar. se eu ganhasse. Com um abalo doloroso verifiquei que. fez-me recair em mim a presença de um sujeito já velhote. a vestir camisolas ou a atar os sapatos. Furando pelo meio da turba. Na ocasião em que me acercava. Mas calculei que pretendesse estar sozinha e que qualquer intervenção da minha parte poderia tornar tudo pior. Avancei para a vedação e compreendi que se tratava das cem jardas. de pernas curtas musculosas e peito forte e cabeludo. os meus antagonistas pareciam conhecer-me de longa data e. encaminhei-me para o vestiário. de cerca de dezassete anos. Mas foi tudo quanto depreendi. e o pior que o leve o diabo. Respirei fundo. Continuei na vedação e fui observando as corridas. participou: — Sou o Purves. a impressão indefinível de que eu fora apanhado pelas circunstâncias. — Possa ganhar o melhor. aconselhou-me Purves. — Não tarda que a sineta toque. eu frustrá-laia vencendo a corrida. Só por curiosidade olhei para o quadro dele. dobrava os joelhos. avançou para mim. de faces enrugadas. Simms. A minha vez aproximava-se. Na maioria. Inquieto. Donohue enlouquecera? Desde o princípio que se estabelecera como certa a minha vitória. à roda dos vinte e seis anos. e depois. Viera para ganhar. era positivamente um velho. grita. Entrei no vestiário em estado da maior perplexidade. enquanto me debatia nesta incompreensão. Não se me afigurou um competidor muito perigoso. a quem tratavam por Chuck. calvo como um ovo. No turbilhão dos meus pensamentos havia uma coisa que me parecia clara: fosse qual fosse a patifaria que Donohue tramava. Conforme o tempo passava e as provas do certame se sucediam. prometera ganhar e havia de ganhar! 204 . Um rapaz magro. Mas custou-me a acreditar. solidamente constituído. não devia tardar. ele teria de pagar seis vezes o que recebia! De repente. Estavam ali outros.Soou um disparo. e outro remédio não havia senão submeter-me. devia ter peso a mais. Estava agora mais gente à roda de Donohue. experimentava a elasticidade das pernas. meu rapaz — disse cordialmente Simms. seria ridículo temê-lo. fui buscar ao carro a minha roupa. não teve pejo de apagar o algarismo 5 e de o substituir por 6. Ouvi dizer que vem disposto a bater os velhos campeões. Donohue dava vantagens de cinco a um contra mim. apontando para outro Lanço da barraca. — E aquele é o Simms. e. pelas suas referências joviais a acontecimentos passados. Dirigindo-se-me de mão estendida. Tinha vontade de ir ter com Nora. a multidão ainda se adensou mais à sua volta. por diante da instalação dos agentes. escrito a giz. em quem nunca deixava de pensar de mistura com outras coisas que me aborreciam. * Boa sorte. Quanto a Purves. vestido com uma camisola encarnada e azul às riscas e calções velhos tão apertados que lhe davam a aparência de uma segunda pele nas pernas musculosas. que estava a despir-se e praticamente nu. — Sorria. Principiava a primeira das corridas. estendiam as mãos. Com isto. mexia os pés.

Batido. Tinha as pernas como se as não sentisse. vencedores de outros circuitos e. Os passos rápidos atrás de mim em nada me perturbavam. Ia apenas a meio da volta quando. Quando toquei. saímos da tenda. Ai de mim! A prece não foi escutada. Agora. através de uma abertura estreita na vedação. delicioso antegozar do triunfo.A uma campainhada. com tremendo impulso. perdera-se como um eco. Purves se me adiantou célere. guardei a roupa da corrida no saco. vesti-me. tomei logo a dianteira. Logo atrás de mim batalhavam mais três. de cabeça baixa. Deligenciei dominar aquele assalto maciço mas não o consegui. só um concorrente me seguia. Que louco eu fora. Agradou-me a sua bondade. a cambalear. por assim dizer. em penúltimo lugar. mas um desconhecido e adversário duvidoso) inesperadamente me ultrapassou. deixei-o de novo atrás de mim. na fita que marcava a meta. meu rapaz. Até aí não me compenetrara bem da multidão que ali estava. Quão depressa se completou o primeiro circuito! Já da distância. poderia competir com homens experimentados. com aquelas pernas hercúleas trabalhando como êmbolos e os cotovelos rasgando até. eu tinha a vaga sensação de que mais vultos me iam nitrapassando. num largo oval. Inclinado um pouco para a frente. que me esperava. terminei a segunda volta e continuei à frente. No meio de gritos mais excitados e enérgicos. em más condições. sabendo que enfraquecia mas rogando a Deus que me conservasse na vanguarda. Compreendi que estava liquidado. Da copa de um chapéu invertido tirámos à sorte os nossos números: coube-me o 4. o único nesse circuito derradeiro. e escondi-me. De cabeça erguida. Antes que eu pudesse pronunciar uma só palavra de desculpa. fui vacilando para lá. um deles. porém. tem muito tempo à sua frente. sendo Simms. * Que demora! . abafado pelo de Purves. ao supormos que na minha idade. corria com passos pesados. Felizmente que o vestiário ficava perto. a garganta seca sufocava-me. e Terence também. com vontade de chorar. ele pegou-me pela banda do casaco. Até metade você foi muito bem. pareceu recuar quando nos alinhámos sobre o risco branco. e do facto de que três voltas perfaziam a milha. Mas não importa. coração palpitante. o paizinho Purves! Correndo apesar de tudo. só tinha consciência do sol brilhando no campo arrelvado que se estendia diante de mim. Eu ia à frente e queria manter essa posição. O meu nome já ninguém o bradava. Movimentando-me em plena liberdade. mas quase às cegas. Soou o tiro. eu começava a ouvir o meu nome gritado e repetido. Dirigi-me logo a Terence. um retardatário isolado. sem treino. os pulmões pareciam rebentar-me. Nesse momento contei os corredores: éramos oito. tal uma onda. mas não pude responder. Ia a meio do segundo circuito quando um corredor (nem Purves nem Simms. e vim para o ar livre. no outro banco. entrámos na pista. Precipitei-me instantaneamente para o interior da pista e. tentou consolar-me. A milha não é distância que lhe convenha. o ar estava menos fresco e as pernas já não me ajudavam tanto. cortando o ar puro. Quando me sentei. certifiquei-me de que era imensa. com ímpeto veloz. conforme era meu intento. de ouvido atento ao sinal de partida. Concluíra. Achei intolerável submeter-me a tamanho atrevimento. com pavor. agora. mole enorme de rostos expectantes que. profissionais! Por fim reanimeime. o tal rapazola de nome Chuck. ganhando--me umas boas três jardas. pois. Em seguida. Purves. humilhado. fiz um grande esforço e. Contudo. sentia que me seria fácil ir sempre assim.

— exclamou apressado. E, sem me dar tempo a falar, continuou: — Escuta, Laurence, não te aproximes do Donohue nem de nenhum de nós. Nem vás para o automóvel. * Mas porquê?—balbuciei. — Por não ter vencido? * Não é isso, palerma! —Hesitou um pouco, olhou em volta e baixou a voz. — É que há sarilho por causa das apostas, e será melhor para ti conservares-te de parte. A culpa foi daquele chato do Donohue, e o que eu pensava ser uma pândega transformou-se em maçada. 0 que tens que fazer é isto: vai muito quietinho para a povoação e espera por nós junto do arco. Lem-bras-te por onde entrámos? — Lembro-me. — Então já sabes. Estaremos lá com o carro em menos de uma hora. Aqui tens uma nota de libra para, se quiseres, petiscar qualquer coisa enquanto aguardas a nossa chegada. — Tenho pena de ter perdido, Terry. Angustiado, tratava de me penitenciar. Fitou-me de maneira estranha, após o que, sem uma palavra, rodou nos calcanhares e afastou-se rapidamente. Segui-o com a vista até desaparecer entre o povoléu. Depois, cabisbaixo, de saco na mão, saí do estádio pelo lado do campo de golfe e, em passo arrastado, encaminhei-me para o centro da vila

XXXII
PARA meu alívio, a estrada estava quase deserta. As provas desportivas não acabavam antes das cinco, ainda eram quatro e meia, de modo que poucos espectadores tinham começado a retirar-se. Extenuado, ia andando lentamente, tão mergulhado na minha tristeza que a princípio nem reparei na pessoa que, com igual lentidão, caminhava em frente, não a grande distância. De súbito, porém, vi quem era e, apressado o passo, chamei: — Nora! Voltou-se, surpreendida. — És tu! Deixaste os outros ? Baixei a cabeça, melancolicamente. * Terence disse-me que me conservasse afastado deles. Fiquei de os esperar junto do arco. * Que te conservasses afastado deles ? Porquê ? * Estavam atrapalhados com os que apostaram em mim. Olhou-me vagamente, mas de lábios comprimidos. * Ganhaste a corrida? * Não. Fui praticamente o último. Eram todos homens feitos, muito mais velhos do que eu. Não tinha probabilidade de vencer, apesar de tudo o que dizia o jornal. — Que jornal? Caminhávamos agora lado a lado. Tirei da algibeira o Berwick Advertiser, desdobrei-o e mostrei a noticia. Nora leu, deitou-me um olhar, tornou a ler e em seguida murmurou qualquer coisa com tanta amargura que me considerei feliz por não ter percebido a frase. -— Meu pobre Laurence — disse, depois de um silêncio. — Não vás ter com eles. Regressa comigo no comboio. Eis uma perspectiva inesperada e muito agradável. — Mas são capazes de ficar à minha espera... — Não ficam. Descansa, que eles não se preocupam connosco.

206

* A que horas é o comboio, Nora? * Às seis menos dez. * Não temos de mudar em Edimburgo?
— Não. Felizmente, é comboio directo. Antes de partirmos, terás tempo de comer o que te aprouver. -— E tu também, Nora. — Como ela não respondesse, acrescentei inquieto: — Ainda te sentes indisposta? — Não estou completamente bem, mas esforço-me por me dominar.:— Humedeceu os lábios e tentou sorrir. — -Ambos nos temos visto ultimamente atrapalhados, mas se nos unirmos sairemos bem das complicações. Em passo vagaroso, pois Nora não tinha pressa, nem eu, em pouco tempo alcançámos o burgo. Supusera que todos os habitantes de Berwick haviam ido assistir às provas desportivas, mas afinal as ruas formigavam de gente, parte da qual parecia vir dos arredores; num descampado próximo da praça central via-se uma espécie de feira com carroceis. — Isto está muito movimentado — observou Nora. — Deve ser feriado local. Procurando em volta um lugar onde se pudesse comer, ela deteve-se em frente de um restaurante em cuja montra se lia este anúncio: «Salmão do Tweed, cozido ou grelhado, 1/6 a posta.» — Gostas disto, não gostas ? — Muito- respondi. — Especialmente grelhado. — Nunca mais comera salmão desde o tempo, já tão distante, daqueles almoços substanciais com Miss Greville. Entrámos. Era uma simples casa de pasto, empestada de fumo vindo da cozinha e tão cheia de gente que foi difícil encontrar lugar. Nora pediu salmão para mim e um bule de chá para ela. — Come qualquer coisa, Nora — supliquei. Limitou-se a abanar a cabeça. Enquanto esperávamos que nos servissem, observei--lhe: * Não compreendo por que é que Terence falou em sarilho. * Querido Laurence — replicou ela — não vamos averiguar isso, mas devia tratar-se de qualquer estratagema indecente para apanhar dinheiro. Eles sabiam de antemão que tu não tinhas possibilidade de vencer. Todavia não te queixes muito do Terence: é fraco e egoísta, mas não tem mau coração. Para ele foi apenas um divertimento. Donohue é que merece censura. Tudo partiu dele. — O tom de voz fez-se duro. — Oxalá o povo o desancasse, o que não acredito: há-de livrar-se de apuros, como de costume. Tirou o lenço e limpou a testa. Tinha a respiração ofegante. Chegou por fim o meu salmão. Acompanhado de um prato de batatas cozidas com casca e colocado à minha frente por um homem em mangas de camisa, afigurou-se-me a mais bela posta de peixe pescado no Tweed. De repente descobri que morria de fome e, por um intervalo breve mas compensador, as minhas aflições desapareceram. Só quando havia praticamente terminado é que reparei que Nora afastara a xícara de chá intacta. — Está muito calor aqui dentro — disse a minha prima, à laia de desculpa. — Vou aos lavabos. Olhei-a pesaroso. Estava tão diversa do que era, mesmo a andar, que achei preferível irmos o mais depressa possível para o comboio. Durante

a sua ausência,pedi ao criado a conta, que paguei com a nota que Terence me dera. Dirigimo-nos para a estação do caminho de ferro, que infelizmente ficava situada no ponto mais alto da vila. Embora ela não fizesse alusão a isso, pareceu-me que Nora não gostava de subir. Contudo chegámos e vimos a bilheteira aberta. — Quando nos acharmos instalados na carruagem, sentir-te-ás melhor... Nora tirou o porta-moedas. Queria dois bilhetes de terceira classe para Winton. O homem disse o preço, pegou em dois cartõezinhos e ia metê-los na máquina de furar quando observou: * É para segunda-feira, não é verdade? O comboio sai às sete e quinze. * Segunda-feira! — exclamou Nora. — Tencionávamos ir hoje mesmo, no das seis menos dez. O empregado abanou a cabeça. * Hoje não há esse. * Há, sim, senhor — protestou Nora. — Eu consultei o jornal. „ Em silêncio, ele pegou num horário e, tirando o lápis de trás da orelha, indicou determinado ponto da página. — Está a ver o asterisco ? Excepto aos domingos e feriados. E hoje, sábado dia de feira, é um grande feriado regional. Olhei para Nora e vi o abalo que isto lhe causara. Parecia sucumbida. * Mas deve haver outro comboio... * Hoje não há nenhum. Nem amanhã tão-pouco. — E, desinteressando-se de nós, o homem começou a somar algarismos num bloco de papel. Nora encostou-se à parede. Julguei que ela ia desmaiar. — Nora, vamos depressa até ao arco. Terence ainda pode lá estar à nossa espera. — Não está — respondeu desanimada. — Já se foram embora, com certeza. — Experimentemos. O arco não era longe da estação. Em pouco tempo o alcançámos e durante cerca de uma hora ali nos mantivemos em silêncio, acotovelados pelos transeuntes, procurando com a vista o carro encarnado, enquanto o movimento da feira, na rua central, atingia o apogeu. A noite vinha a descer. * Não vale a pena — disse Nora por fim, em voz sumida. — Eles provavelmente quiseram safar-se depressa. * Então que vamos fazer? — repliquei desesperado. — Será fácil alugar um carro até Edimburgo? Ali tomaríamos o comboio. * Mesmo que assim fosse, eu não aguentava a viagem. — De repente, Nora desatou a chorar. — Laurence, todo o dia me senti mal, mas já não posso mais. Tenho uma pontada horrível num lado e, se não me deito, daqui a instantes caio no chão. É preciso descobrir um lugar onde passar a noite. A sua consternação emudeceu-me. Todas as espécies de disparatadas contingências me atravessaram a mente. Permitiria aquele empregado da bilheteira que ficássemos na sala de espera da estação? Ou talvez encontrássemos qualquer abrigo no parque local?... Quando, porém, a vi comprimir a ilharga com a mão, quase a desfalecer, compreendi que ela devia descansar num quarto de hotel.

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Apesar do comentário desdenhoso de Terry, o hotel da praça grande, para além da feira, pareceu-me bastante decente. Levando Nora pelo braço, pois se mostrava agora incapaz de qualquer movimento voluntário, desci a rua e para lá me dirigi. O hotel tinha uma tabuleta: «Berwick Cockle». Saíam e entravam ondas de campó-nios barulhentos, mas, furando entre a multidão, conseguimos enfim penetrar no átrio alcatifado dê vermelho. Depois da rua aquilo era. um santuário abençoado. No entanto, o empregado da recepção mal olhou para nós. O hotel estava cheio, disse ele, cheio até às portas, e durante todo o dia não tinham feito outra coisa senão recusar hóspedes.

embatido pela maré. No interior deparámos um corredor estreito de pedra. Atravessámos uma ponte estreita. * Experimente Spittal. Como nada a diferençava de uma taberna vulgar. a minha esperança desvaneceu-se. que se deixou levar em silêncio. trazendo debaixo do braço um tabuleiro vazio. enquanto lhe dizia desesperadamente: — Estivemos nas provas desportivas e perdemos o comboio de regresso. senhora — apressei-me a esclarecer. Do outro lado da praça havia uma estalagem. — O quê? — bradou. Nessa altura emergia da taberna uma mulher de cerca de trinta anos. 0 povo parecia ter-se concentrado todo na praça. * Esta noite. com certa dificuldade. entrei numa sala cheia de fumo e apinhada de grupos de homens que. sempre com a mão apoiada na ilharga. de blusa e saia. A feira estava no máximo da animação. Era uma velha construção de tijolos. * Veja se se lembra de algum! — insisti. Enveredei para ali e. Repugnava-me levar Nora para ali. consegui chamar-lhe a atenção. chamado «Drovers Rest». antes que um me apontasse com o cachimbo para uma mulher gorda. No sopé da colina deslizava o rio. escandalizada. mal iluminada e com poucos sinais de acomodação. . de copo na mão. — Seja lá onde for. * Que é. meu rapaz. Os mastros das embarcações de pesca evidenciavam-se de encontro ao resplendor de Berwick no momento em que eu amparava Nora ao longo do desembarcadoiro empedrado. Bati e surgiu-me um homem de idade. pai? -perguntou. tinha um ar digno. Ela não se sente bem. Interpelei vários deles. Talvez lhe arranjem uma cama. tomei o braço de Nora. * Este parzinho quer um quarto. adivinhei-lhe na cara que nos ia dar alojamento. O velho olhava-me por cima dos óculos. A criatura tinha uma cara prazenteira que me animou. escuro. Por favor. a «Masons Arms». Tinha os nervos de tal maneira tensos que só reparava nestes pormenores desnecessários. não achará um só quarto devoluto em Berwick. — Há um botequim. riam e conversavam ruidosamente. Soava no ar da noite a música dos divertimentos populares. Fica logo a seguir à ponte velha. que conduzia ao botequim. Por duas vezes me enganei na rua e voltei à principal. estava de chinelas. Trajava com simplicidade. camisola de lã azul e trazia na mão um exemplar do Chamber's Journal. À direita vi uma porta com o letreiro de «Particular». mesmo ao pé da ponte. Nenhum reparou em mim. Depressa chegámos a «Drovers Rest». com a recomendação de não se mover. de cabelos loiros e vestida de preto: pelo seu ar de sociabilidade eu depreendera que fazia apenas parte do grupo de foliões. Eu durmo em qualquer canto. De coração palpitante. respondeu-me com ar duvidoso. mostrei-lhe o meu saco com o traje de corredor. arqueada. o cheiro das algas e a frescura do ar salgado. De novo no largo. da outra banda. Havia sons de vozes em discussão. arranje um quarto para a minha prima. Aí predominava um agradável sossego. e chegámos ao lugarejo de Spittal. — Um quarto para os dois? — Não.Saímos. perguntando pela gerência. mas o coração confrangeu-se-me quando ela abanou a cabeça. Deixando Nora cá fora. — Como se vai lá ter? — Volte na segunda rua à direita e desça a Cooper Lane. até que descobri a Cooper Lane. a fim de provar a nossa respeitabilidade.

* Decerto. que ela o detestava. como me deixara iludir tão facilmente. — Bastar-me-á deitar-me e dormir. O colchão em que me deitei. que fizera o melhor por Nora. Soltei um grande suspiro de alívio. respondi à pressa. A súbita . se quiser! Seguiu-se um silêncio. arruinava-o de facto. Se eu tivesse vencido. se bem que já menos desconfiado. mas para mim seria um triunfo. XXXIII Os meus esforços inúteis naquela desastrosa corrida e a luta para encontrar alojamento deixaram-me quase morto de fadiga. Mas o velho não nos perdia de vista. — E esforcei-me por autenticar o facto. onde ele abriu a porta de um quartinho. que eles conduziram com a maior seriedade. visto que percebera. oferecendo excessivas apostas contra mim. senhor. nada de abusos. ouvi a porta fechar-se. a murmurar boa noite e saí com ele do quarto. Laurie. pai — declarou de súbito. — Diz que estiveram nos jogos? — Inquiriu o velho. lisonjeado na crença de que poderia vencer! E quanto gozo a minha credulidade idiota fornecera a Terence e a Do-nohue. jamais concretamente. senão ponho-os a ambos na rua. O velho entrou no quarto e trouxe uma chave. voltava-me inquieto no colchão. procurando manter o meu tom de voz natural. além de tudo. ela regressara ao botequim. desejei beijar aqueles lábios descorados. e para Nora também. Seguimo-lo ao andar superior. no quarto das arrumações. não era de todo desconfortável. já os previno. Todavia não conseguia dormir. fazendo-o pagar cinco vezes mais o valor das entradas. Limitei-me. Eu senti. A mulher ora olhava para Nora ora para mim. — Harry Purves venceu a milha. Tinha pouca mobília. * Dormirás bem aqui. Quando seguíamos pelo corredor. Mas. Isso. — A menina pode ficar no terceiro e o rapaz no quarto de arrumação. e. preparando--me para o sacrifício! Como perdera o senso comum a ponto de não compreender quanto era disparatada a ideia de competir com profissionais experimentados? Desde o começo que eu fora logrado. como muitas outras coisas da minha vida —estava fora da minha vontade: só se realizava em sonhos. Era evidente que nascera para falhar e ser iludido. assegurei-lhe. mas o soalho parecia limpo e a roupa da cama asseada. — Eu confio neles. — E amanhã de manhã estarás boa. aliviado e orgulhoso. — Sim. desde essa farsa no campo de futebol do Harp. Torturado pela incapacidade demonstrada. com toda a ternura do meu peito amante. Ficarei cá fora. Os acontecimentos do dia giravam e emaranhavam-se-me na cabeça. porém. Que tolo eu fora. Donohue planeara a notícia na gazeta local e. olhando para o saco que eu ainda conservava na mão. embora aquilo não tivesse utilidade para nenhum de nós. * Obrigada. o jarro da água partido. embolsara boa maquia à minha custa. Antes que lhe pudesse agradecer. Quis dizer mais qualquer coisa a Nora. pois. * Não lhe quer deixar isso?—indagou o estalajadeiro. pelas suas palavras. o papel da parede estava desbotado. volveu a minha prima com um sorriso fugaz.— É só para a minha prima.

— Vou procurar socorros. ali estive com o ouvido encostado ao painel e sem que nenhum som chegasse até mim. não como Donohue. com a impressão de que alguém me chamava. dando uma canelada na borda rija de um objecto invisível. — Estás aí? Ouvi então a sua voz. intensificava o silêncio. Nesta altura adormeci. Cautelosamente. apoiando-me num cotovelo. O leve rumor de um rato. abri a minha porta. não. se alguém me chamara só podia ter sido Nora. Tinham cessado os sons da taberna em baixo e o zumbido distante da feira de Berwick. algures no aposento. Não encontrarás ninguém. um pouco mais abaixo. O medo que durante todo o dia me assaltara tomava agora maior vulto. graças a Deus. * Temos de chamar alguém. fraca e fléxivel. — Nora — murmurei — Chamaste-me? Entreabriu os olhos. Soergui-me. quando me pareceu ouvir outra vez chamarem por mim. menos pela dificuldade de comparecer na segunda-feira na Universidade (o comboio da manhã devia chegar a Winton pelo menos ao meio-dia) do que pela convicção de que. — Arfou em novo espasmo. Ninguém respondeu. na escuridão. Dei volta ao puxador e entrei. — Onde. também falharia no concurso. que a cobria apenas até aos joelhos. Acordei sobressaltado. parecia mais velha. é perigoso continuar assim. mas por baixo da porta do quarto dela vi um feixezinho de luz. e fiquei à escuta. se ficares junto de mim. porém não por muito tempo. * Por enquanto. e fui às apalpadelas até à porta. Precisas de um médico. a custo reconhecível. Mas pior do que tudo era a lividez do rosto. —Nora. Nora? Fez um gesto em direcção do estômago. Eu não me despira. * Estamos a meio da noite. Ran-kin conduzira-me a isso. convencido de que me enganara. avancei sem rumor para a porta iluminada e bati devagarinho com a unha do indicador. * Ainda estás enjoada? * Sim. num apelo inequívoco. — Não. Aguentarei.recordação da bolsa Ellison aumentou-me a angústia. Peguei-lhe na mão: estava quente e a palma coberta de suor. Tenho uma dor fortíssima. Ela premia sempre o lado e não respondeu. percebia alguma coisa de apendicite. Levantei-me num pulo. . Sofria indiscutivelmente. Bastante. — Espera-se mais um pouco. O corredor estava às escuras. mas. só com a camisa vestida. — Tratei de a não alarmar. — Nora! —proferi num sussurro. —Não pude sentir-me só mais tempo. mas por melhor motivo: só com o fim de fazer subir o nível da minha instrução. limitara-me a tirar o casaco e as botas. Indeciso. é necessário já. quase feia. Nora estava deitada de lado. Encaminhei-me para o leito. Os lençóis e cobertores haviam caído e amontoavam-se no chão. Tinha os olhos fechados e as mãos meio enclavinhadas. Podia ser um pateta e um falhado. Ia deitar-me de novo. assim como falhara na corrida. Em peúgas. No entanto.

De repente. com modos já diferentes e num tom que me deixou transido. acalmou o cachorro e fixou em mim uma expressão colérica e ao mesmo tempo ensoñada. 0 compartimento achava-se às escuras. Se me ajudares a dar uma volta no quarto. ou melhor. um cãozinho desatou a ladrar e a rosnar. — Vamos lá. E fechou-me a porta na cara.. Sobre o fogão havia um relógio: eram duas e meia da manhã. Enquanto eu a amparava. Continuou zangada mas limitou-se a resmungar: — Só me faltava esta! Por que acedi a dar-lhes dormida? —Lastimo incomodá-la. quase escondida por um reposteiro. para meu alívio. nas quais eu ainda não havia reparado. até que se resolveu. Não me atrevi a desobedecer-lhe. cheio de medo pelo que poderia suceder a Nora. às escuras. Voltei para o quarto de arrecadação e permaneci junto da porta. até que. talvez a dor me passe. percebi que era com o médico. Tremia ao pensar no seu rosto lívido e pedia a Deus que o médico viesse depressa. ordenou: — Vá para o seu quarto e não saia de lá sem que eu o chame. os cobertores caídos no chão. a cama em desordem. ouvi-a descer a escada.* Mas. fui ao andar de baixo e bati à porta onde estava escrito «Particular». Apoiou-se num cotovelo e passou o outro braço por cima dos meus ombros.. senti no quarto um cheiro desagradável. soou uma voz áspera. 0 seu olhar abrangeu Nora. — Quem anda aí? Respondi dizendo quem era e que necessitava de auxílio urgente. Nora.. Vi-me numa salinha de estar confortavelmente mobilada. com uma dor forte — declarei antes que a mulher começasse a discutir. por favor. Mas. * Fica. Estendido no chão e apurando o ouvido. a filha do estalajadeiro entrou na cozinha. dei a volta ao puxador e entrei. — Deve ser uma crise de apendicite. embora não distinguisse as palavras. onde. o que me . Recostei-a de novo na almofada e. senti-a entrar no que calculava ser a sala de estar. Isto calou-a. de ouvido atento. Então. A camisola branca e os calções amontoavam-se a um canto. A mulher entrou. empapados e terrivelmente sujos. Quase imediatamente ela começou a falar ao telefone. Ou então telefone já ao médico. Reparei então que o saco que eu trouxera estaca aberto e vazio. levou-me à cozinha. Passados talvez uns dez minutos. Outro silêncio. A operação de apendicite era uma coisa séria e eu sabia também que se um apêndice inflamado não fosse extraído urgentemente poderia rebentar com consequências fatais. por favor. vá vê-la. o bacio quase cheio e as várias manchas alarmantes nos lençóis. Ainda a atar o cinto do roupão. não me deixe especada aqui toda a noite.. Fui à frente e abri a porta do quarto de Nora. mas descobri o interruptor e acendi a luz. A mulher continuava no quarto com Nora. Outra porta. transpôs o limiar e deteve-se. Por uns minutos nada aconteceu. — A minha prima está a sentir-se mal. Pensei que ela vomitara sobre a roupa e isso decidiu-me. a minha camisola suja atirada para um canto. sujos de um tom acastanhado. Despache-se. Como ninguém respondesse.Atalhei. aflito com o facto de ela não me deixar ir buscar um médico. O meu aposento ficava mesmo por cima do corredor do rés-do-chão e o soalho era nu. de trança caída pelas costas. sem uma palavra. saltando do seu cesto colocado em frente da lareira.

para que lhe deitem a mão. olhando fixamente através da janela. vesti o casaco e entreabri a porta. congestionada pela indignação. quando me faltava o cenário. Virou-se para mim. pelo menos. eu achei que não podia suportar mais. Você. ouvi-a subir outra vez a escada. vim ao corredor. com um leve tremor. tão escandalizado que perdi a noção de onde estava e do que me dava aquele abalo em todo o corpo. No meu compartimento principiavam a penetrar os alvores da manhã. um aborto provocado com pílulas. quando ela apareceu na rua ainda escura e silenciosa. além de me acordar a meio da noite! Uma sonsa que se fazia passar por sua prima! O cjue eu devia era participar à Polícia. ganhando velocidade depois da sua paragem em Glaisend. contemplando uma cena de pavorosa desordem. Incapaz de falar. não? Jurarei que o fez de propósito. A mulher estava no quarto de Nora. peças de mobília desirmanadas e partidas e mais coisas deste género. No meu espírito só havia uma ideia. submergir o curso vagaroso dos meus pensamentos. Estimulava-o. Então algo dentro de mim me fez compreender. chegava ao fim da viagem para Winton. Retirei-me para dentro e escutei os sons da remoção de Nora: o que não tinha era coragem de ver. trapos. o que isso significava. * Ela não tem culpa — respondi. Sozinho a um canto do último compartimento da terceira classe. XXXIV O comboio. — Fez o quê? — Seu intrujão! Não finja que não sabe. * Um quê ? * Sim. Que diabo queria ela dizer? Devia estar louca de raiva. e eu compreendi. baldes. E faço-o. Tinha a cara enrubescida. eü ia privado de qualquer sensação a não ser a de profunda apatia. Calcei as botas. — Ela irá melhorar? — perguntei. com as mãos nos joelhos. Apesar de aterrado. — Não sei nem me importo. . às manchas. * Ah. Gritou-me isto e deu-me um bofetão que me ia deitando a terra. Quando a conversa terminou. entorpecido pelo rápido e confuso deslizar da paisagem que servia para deter ou. Não se ouvia nada. olhei-a estupidamente. imóvel. Aquela porca estragou-me a roupa da cama e sujou o quarto de tal forma que tem de ser esfregado. seu canalha. Durante três horas assim me conservara. Decorreu um intervalo íntoleràvelmente longo antes que o doutor chegasse. Esperava que essa espécie de marasmo me não abandonasse. Mas esta calma era-me também intolerável. contemplando os anúncios do lado oposto da . Fui à única janela para espiar a chegada da ambulância. Um desmancho imundo! Eu não entendia. Por fim tudo se aquietou. Tapei a cara com o braço e encostei-me à parede do corredor. é que a trouxe para cá. Quase ao mesmo tempo correu ao telefone. de mangas arregaçadas e mãos à ilharga. Não se demorou a entrar no quarto de Nora. pondo à vista montes poeirentos de malas. Mas a força brutal das suas palavras aturdiu-me ainda mais do que a pancada. olé se devia. Cautelosamente. quis defender Nora. Em seguida senti-o de novo subir os degraus.tranquilizou em parte. Todavia.

— O homem estava disposto a conversar. Ele riu-se. Está em férias? — Não — Respondi imediatamente. levado pela necessidade de comparecer em Gilmore Hill. E de vez em quando fragmentos de medo e horror flutuavam-me à superfície do espírito como resíduos asquerosos. um aborto provocado. No entanto... e. sim? —Parecia impressionado. — Por isso está com um ar de cansado. pensava eu. E teve de se levantar cedo. até os ver transformarem-se a pouco e pouco. Saí da carruagem e encaminhei-me para a porta que dava acesso à Queen Street. Esta tendência da minha personalidade para se dissolver numa espécie de ermo exterior era coisa assustadora. —Winton é a próxima paragem. acreditar fosse no que fosse? Os subúrbios de Winton iam ficando para trás. não sabia. não fosse mais do que um acto inconsciente. Reflecti um momento no que lhe devia dizer. naquela mesma tarde — isto é. Agradeci-lhe. Não me custava muito a suportar a decepção sofrida. — Fez uma viagem comprida. na Universidade de Winton. * É verdade.. depois da tragédia daquele fim de semana escandaloso.. Então a aventura em que me vira envolvido de novo me acudiu à mente. pensei. era pensar outra vez em Nora. como se. embora compreendesse o que devia fazer. evidentemente. que não fora ter à Estação Central. verificando ao mesmo tempo que chegara às doze e quarenta. Pois então desejo-lhe felicidades. * Também o senhor.bancada. deteve-se na Estação Norte da cidade.. às duas horas em ponto. numa estranha paisagem sombria. Há três meses que ando a preparar-me. e eu senti alívio em ter declarado abertamente o meu propósito. pior do que isso.» A vida revelara-se-me tão sórdida e odiosa! Poderia eu tornar a crer em alguém. era a ideia de Nora. no estado actual. com um último silvo. incluindo a fraude da corrida. O comboio.. repliquei por fim. tornava a ser Laurence Carroll. também. Ainda bem. pelo carregar de um botão se me varresse da mente a ideia fixa. nem sempre me salvara. O revisor fez um aceno amigável e foi-se embora. fossem involuntários. embora os meus movimentos. apenas com cinco . Não esquecia. quando passava. num borrão nebuloso. Ao menos isto não persistia. Tremia ao lembrar-me das palavras da estalajadeira: «Aquela porca.. vou participar à Polícia. como agora. sem memória de mim próprio. — Vou à Universidade fazer um exame. * É o meu ofício. como se a impressão de vacuidade mental e visual representasse o coroamento de tudo. Entreguei-lhe o bilhete.. pior até do que o interrogatorio e a detenção pela Polícia quando tudo veio a lume. o comboio diminuía de velocidade e o revisor entrou de novo na minha carruagem. defesa contra o estado de choque em que me encontrava. Talvez. porque julgava perderme e vaguear sozinho. que dera a minha palavra a Rankin e que a devia cumprir. às duas horas. No entanto esse torpor. que eu passara o domingo na esquadra de Berwick. * Ah. naquele sentido. o reflexo daqueles meses de preparação constante. Era certo. que o agente da Polícia me dera nessa manhã e que já fora perfurado três vezes. eu experimentava alguma dificuldade em identificar-me com a pessoa que agia dessa maneira. Agora não vejo nada.

0 relógio da torre bateu duas horas no momento em que eu entrava na sala da Universidade. Sem hesitar. mais por necessidade do que por gosto. alguma coisa ou alguém me sugerisse que esse tema. — Chegou mesmo à tabela. devia almoçar. abri o sobrescrito do ponto e comecei a estudar o assunto. Não muito longe. sem uma hesitacão. principalmente das pernas. ou outro semelhante. estavam já a escrever diligentemente. a rainha Maria da Escócia quanto ao seu procedimento em relação a Lorde Darnley e particularmente quanto à noite de 9 de Fevereiro de 1567. e. À uma e vinte minutos pedi a conta. portanto. eu quisesse defender aquela ambiciosa real. Tudo se realizaria normalmente. não porque. observou o homem que estava sentado à secretária. As palavras afluíam ao bico da pena. prelúdio de desintegração nervosa a que não podia resistir ainda que o tentasse. ainda que isso me granjeasse uma bolsa de estudos. Conhecia toda a história da infeliz rainha e agora. Embora abarrotado de operários que iam para casa almoçar. apresentava argumentos favoráveis e. e não tardou que um aparecesse. podia ser o escolhido. Calmamente. quando ma serviram com ervilhas e puré de batatas. escalpelizei-a sem dó e com uma subtileza de que nunca me julgara capaz.a tentação foi quase irresistível. notei que os outros candidatos. Como o . 0 tempo aquecera e eu sentia também uma impressão no alto da cabeça. «Prova Ellison» Escreva um ensaio com um mínimo de duas mil palavras justificando. nos recessos do pensamento. todas as minhas acções eram agora automáticas. no meu presente estado de espírito. e cada uma delas brotava da ferida que eu recebera. com a consciência de que estava destruindo a possibilidade de êxito. enquanto riscava o meu nome da lista.minutos de atraso. Atravessei a rua e entrei. dactilografada. saldei-a na caixa e parti. Sentei-me. que não me dissipou mesmo quando passei na frescura do claustro. escolhi a costeleta e. Não quis apressarme. em atitudes contorcidas de gente concentrada. mas apenas pelo absurdo da ideia de que. Não precisava de me apressar. aguilhoado pelo que havia no meu subconsciente. um por um.bilhete fora comprado pelo polícia. comi como se tratasse de um acto de rotina. Mas tive de ficar de pé todo o percurso. quase com malícia. inutilizava- . Relanceando a vista derredor. o melhor que puder. A ementa. eu ainda tinha algum dinheiro no bolso. Um relógio de parede por cima da porta de entrada mantinha-me informado das horas. e quando chegámos a Gilmore Hill já me sentia fatigado. De maneira ordenada. Entregou-me o ponto de exame. Passavam ali com frequência. Um eléctrico verde levar-me-ia ao sopé de Gilmore Hill. vi um dos restaurantes modestos de Winton. lançou-me um olhar de revés e indicoume uma carteira desocupada. no lado oposto. Com o pretexto de a defender. molhei a pena no tinteiro e comecei a escrever rapidamente.» Eu devia sorrir. Apesar de não estar compenetrado disto. oferecia a alternativa de costeleta de carneiro e língua cozida ou bife e pastelão de rim. Era justo que me alimentasse antes do exame. entrei prestamente. sem apetite nem paladar. Subi devagar a colina. cerca de vinte. 0 período da Escócia desde o século XV ao século XVI fora o meu estudo mais cuidado.

nada podia ser mais virtuoso do que os cuidados assíduos da bela e juvenil rainha. piedoso.. Paris. de volta branca no pescoço Teria eu reparado nisso quando entrei? Com certeza que não. numa tentativa para clarear a visão. disse-me em voz branda. desfazendo as circunstâncias atenuantes e deixando-a apenas entregue à crueza dos factos históricos.. a tensão anteriormente experimentada transformou-se em vertigem. desejando-lhe boa noite e verificou se a vela estava espevitada. Infelizmente. o tempo devia estar prestes a terminar. manchas de sombra flutuavam-me diante dos olhos. no entanto. Beijou o marido. É estranho também que houvesse uma explosão tremenda. Mas a pouco e pouco. É estranho que o escudeiro de Bothwell. Desta maneira tornei evidente que esse enlace contra--indicado com o jovem e insensato Darnley. pois que estava vazio de pensamentos conscientes e nenhuma máquina evocaria mais inexoravelmente o passado. — Acabou? * Creio que sim. extenuado. certa noite. magro e taciturno. As linhas oscilaram na página. a minha amargura pareceu enfraquecer. É estranho que se fechassem as portas e se despedissem os criados. * É o último. na cidade de Glásgua — fora a sua solicitude de esposa que a levara a decretar. apliquei o mata-borrão e fechei o caderno. sujo de pólvora. Posso então levar a sua prova? Já deram quatro horas. enquanto ela dançava naquela noite. Depois de haver expelido o meu veneno. sentia-me fraco. Durante mais de uma hora nunca levantei a vista: a pena trabalhava sempre. que aquele podia mais convenientemente recuperar a saúde na casa isolada e meio derruída de Kirk 0'Fields? Uma vez Darnley aí instalado. se era este o termo com que devia designá-lo. notei que a maior parte dos candidatos já entregara a sua prova. Parecia. quando se aproximou. ergui a cabeça e olhei em volta. antes de sair: entregou a Darnley o seu livro de salmos. Prometera ir a um baile que se seguia a um casamento e. O examinador. Agora só me faltava ir entregar o trabalho. embora atordoado. que se tratava de um padre. Com um esforço.. quase na salva real. no meio das colgaduras de seda do leito enorme. Desafeiçoada do marido — que jazia doente e desfigurado. alto. além disso. a noite de sábado 9 de Fevereiro. sentada no seu coxim de veludo encarnado e à noite dormia num leito do andar de baixo. depois de uma entrevista secreta com Bothwell. Para minha surpresa. Um último gesto enternecedor.. mole. tinha relutância em levantar-me. cobrindo o papel branco com a regularidade de um autómato. vi.os rudemente. decerto sem conforto (pois era uma residência imprópria para um doente). passasse por ela no portão. completei o último período. que dedicadamente passava o dia junto dele. aparentemente um casamento de amor. não tivera outra razão além do ódio que ela votava à prima rainha Isabel: só um ano mais tarde o proscrito Conde de Bothwell seria seu amante adulterino. que a vontade me abandonara e. que se impôs de forma singular. quando chegava ao fim da descrição do despertar de Maria Stuart na manhã seguinte ao assassínio. deixara a sua secretária e avançava lentamente para mim. palavra de rei não volta atrás. substituída por uma extraordinária sensação de cansaço. já planeando o seu casamento com Bothwell e sentando-se para saborear o almoço favorito de um ovo quente. ela não pôde permanecer ali. Nessa altura. ansiando por uma reconciliação. Entreguéi-lhe o caderno . Era na verdade uma escrita automática. e quando.

Que era eu. — Espero que tenha sido benévolo para com a pobre mulher. 0 melhor sintoma da convalescença era a possibilidade de ver para além da cadeia dos pensamentos tristes em que me encerrara e distinguir as coisas com um olhar em que já vislumbrara interesse. Os caminhos de regresso tinham sido tortuosos e difíceis. era uma «desavergonhada e uma sonsa». que. que eu ocupava. —Laurence! Procurei-te por toda a parte. confusamente sabia que regressava daquele país negro e espectral a que a minha doença tanto tempo me confinara. mal mobilado. Chegaram à conclusão de que não havia nada contra mim. e de Nora. e crescia. na alcova conseguida com um reposteiro. Dirigi-me à cozinha.. crescia. constituído apenas por um quarto e cozinha. até que desapareceu na vaga de escuridão universal que me submergiu e absorveu na sua maré negra e avassaladora. tal um estranho monstro aquático. alguém esperava por mim. lentamente me compenetrava da minha identidade. Embora pequeno. Se era. Na cadeia. não fui.. no claustro. voltando as páginas. XXXV Seis semanas depois.. uma cadeira e minúscula papeleira. * O examinador! Valha-me Deus! Era o professor de Teologia. a única nota . porém agora levantara-me e andava pelo apartamento ainda pouco familiar que a minha mãe arrendara. Não me apetecia andar. vi que possuía as utilidades usuais.. Pensaram que eu era o culpado daquilo. Esse quarto. Rankin ondulava cada vez mais. Tornei.. como nessa ocasião. a examinar o apartamento. com fingida naturalidade. Não. rapaz. estás doente? Creio que não. restringido a um pequeno foco. Fora. Na minha opinião. A cabeça é que me dói. Onde estiveste? Levei a mão ao alto da cabeça para verificar se ainda a tinha. se habia fixado em tormentosa apatia. e em breve poderás voltar à tua vida». quando entrava ali o sol da tarde. encontrava-se em estado de grande agitação. * Quero lá saber! Disse-lhe a verdade. de uma cor quente. * Deveras? — Ergueu as sobrancelhas e não disse mais nada. * Que estiveste a fazer ? Onde dormiste a noite passada? * Agora me recordo... E disse-o ao examinador. O polícia até me deu almoço. Não era fácil esquecer o medo e o horror desse período sombrio em que o meu espírito. Mas foi tudo abominável enquanto durou. pia. e. tudo ao contrário. * Não me lembro ao certo. às quatro horas da tarde. pus-me de pé. mas o papel da parede era novo. mas nessa manhã o médico dissera-me: «Estás livre de perigo.. a verdade é que ele me agradou. armário. * Laurence.. Agarrando-me à carteira. o aposento resplandecia com um clarão róseo que o inundava e preenchia a sensação de vazio.. saí da sala. mesa. tinha simplesmente um catre de ferro. soltaram-me esta manhã. mas de qualquer forma. Começava a sentir-me melhor. Eu estivera de cama. e. — Fizeste uma prova boa? -Péssima.* Escreveu muito — comentou um tanto ironicamente. * Não te lembras? O vulto de Rankin ondulava à minha frente como se visto debaixo de água. * Santo Deus! * Ah. Pareceu-me Rankin. Não me sinto o mesmo. pois. com casa de banho a meio. Respondi.

deu-me a conhecer que não faltava muito para que a Mãe regressasse a casa. a verdade é que isso destruíra o complexo da minha infância. porém. devo confessar que esse facalhão serreado me assustou. talvez obrigados pela autoridade eclesiástica. Faltava só grelhar as salsichas (manjar raro e reservado para essa noite) e dádiva da minha fiel amiga Annie Tobin. enchi a chaleira e. Já não sentia por ela aquele amor ciumento e desmedido. em Clarkhill.tinha espírito prático e sabia quanto eu apreciava salsichas. antes de partir para o trabalho. com todas as manifestações de sincera devoção. se ia à igreja ao domingo.escocesa. após a morte de meu pai. claramente. Depois. porém. ainda afectuosa mas reservada. Respeitava-a e confiava nela. Pensei. em Ardencaple. animei-me a começar. Só quem sofreu uma depressão nervosa é que sabe as fobias angustiantes a que isso pode induzir. para obter essa instalação. Mais tarde soube que. Também me dera novidades. . como noutros tempos. Lenta e cuidadosamente. insidiosamente. O relógio de despertador. desfrutava uma vista arrebatadora de terraços e mesmo. as quais. a estada no convento tinha-a modificado bastante. minha mãe fora favorecida pela circunstância de desempenhar aquele seu novo emprego na cidade. Não que eu desejasse particularmente agradar-lhe. Outrora. assistia à missa das sete e comungava diariamente. não me impressionaram nada. e a nossa loiça não era muita. Isso. que ficavam a Oeste. Se bem que os trabalhos manuais prescritos pelo médico houvessem melhorado o meu sentido da coordenação. A visitante não trouxera flores. se poderia ajudá-la a preparar a nossa refeição. Nora e Donohue. Revestida de todos os atributos sinistros. Embora me custe. A corda distendera-se. embora surpreendentes. contudo. Mas agora a vergonha e a vontade de provar que já me achava bom forçaram-me a pegar na faca e á cortar fatias de pão. coloquei-a sobre o fogão. ainda tinha receio de deixar cair os objectos. Sentia ainda. Isso era. nos dias límpidos. As nossas relações não eram as mesmas. mas. No começo da minha doença eu tivera um medo horrível. Situada no último andar de um prédio recentemente construído para habitação da classe operária. Nem me atrevia a olhar para ela. Descobri o pão no armário e a respectiva faca na gaveta. dos montes de Ochil.. Contudo a origem dessa mudança era mais profunda. era apenas para comprazer ao marido. admirado com o seu peso. A principal atracção da casa era. Apesar de essa mudança haver começado. e de quê? Da papeleira do meu quarto. Talvez que a atitude diferente de minha mãe. Dominava-me uma sensação de triunfo quando acabei de grelhar a última salsicha. estimava-a. o coração aos pulos quando as pus na torradeira. contribuísse para pôr termo àqueles transportes.. a cama de dossel capaz de se fechar pela frente com dois painéis de correr. Banida pela família e de relações agora irremediàvelmente cortadas com os Carrolls. enchia-me de terror. A Mãe ficaria animada com esta prova do meu restabelecimento. erame agora indiferente. estendi a toalha na mesa e pus as chávenas. fossem quais fossem os tormentos por que eu passara. a sua altura. e. uma indicação do triste estado em que me encontrava. Contudo. Sem dúvida que a disciplina conventual deixara nela a sua marca. iam casar. na prateleira do fogão. Tornara-se mais grave nos modos e na disposição e muitíssimo mais religiosa. Agora levantava-se todos os dias às seis horas da manhã. mais leve de espírito como estava.

compelida por circunstâncias infelizes a lutar sozinha .devia sentir-se muito isolada.

compreendi a razão da sua relutância em subir. Misteriosamente. infelizmente. que sofriam de raquitismo. Em Winton o número de menores deformados. na rua e na paragem do eléctrico. A Mãe sabia como fora afortunada em obter o emprego e andava satisfeita com as suas novas funções. porém. vi Rankin (que não era raro vir a essa hora tentar consolar-me) dirigir-se coxeando para a entrada do prédio. A Mãe entrou na cozinha. de fato saia-e-casaco azul marinho e chapéu da mesma cor com a insígnia municipal de Winton. subalimentados e com vérmina. sorrindo. de repente. Cortei duas fatias de pão e pu-las na torradeira. — Ah. as quais diziam principalmente respeito à inspecção e reabilitação de crianças miseráveis e raquíticas. * O senhor Rankin está lá fora. mas. Então. comentando: . Não era surpresa para mim nem me entristeceu nada. Com a idade de dezasseis anos voltar para a escola oficial parecia estar fora de causa.. Ainda que não se manifestasse nesse sentido. Enquanto ela mudava de roupa. Que futuro seria o meu? Por causa da loucura daquela prova para a bolsa Ellison perdera a única esperança de entrar na Universidade. — Até veio mais cedo. fui abrir a porta e deparouse-me Rankin. — É como eu gosto delas. — Já chegou. ouvimos tocar a campainha. No entanto.. Entrou na casa de banho e senti-a sacudir-se na banheira vazia. — Laurence — disse-me logo de entrada — tenho estado à espera da tua mãe. Quando voltei à janela o professor fora-se já embora. Afigurou-se-me que ficara um tanto desconcertado com esta informação. fui ao quarto endireitar a minha cama.As salsichas devem estar boas. Quando acabei de dobrar a colcha ouvia ainda o barulho característico do tacão de Rankin no passeio da rua e notei que o professor andava cá e lá com ar manifestamente indeciso e perturbado. dez minutos depois. Laurence. Uma vez na cozinha. Laurence! —Exclamou. vi que ele estava realmente perturbado. Fazia parte do meu restabelecimento que eu sentisse pena da desilusão que lhe havia dado. nenhum editor se mostrava interessado em publicar a obra e em breve ele teria de regressar à aldeia para aí passar o resto da vida com a sua magra reforma. mas hoje parece que se demora mais. O pior é que queimei as torradas. e. A minha resposta pareceu agradar-lhe. Aquilo intrigou-me. não haviam reaparecido. o futuro era para mim muito incerto. Voltei à cozinha. Mas primeiro faz mais torradas. Soaram passos na escada e ouvi uma chave rodar na fechadura da porta. onde havia melhor luz.contra o mundo. chama-o.respondi. Aparentemente resolvera partir: ainda o vi dobrar a esquina da rua. Quando dobrava a colcha à janela. eu compreendia que a maior preocupação da Mãe incídia sobre mim. tal era o seu novo uniforme. Devo dizer-lhe que suba? * Sim. quando começávamos a nossa refeição. aqueles acessos de tristeza. costume que adoptara para se libertar das pulgas que fatalmente adquiria na sua peregrinação diária pelos lares daquelas crianças. mesmo que não estivesse. Mas explicou. tornara-se um escândalo nacional. preparaste a ceia. poderia eu contar com minha mãe para me sustentar mais dois anos sem nada garantido ao fim desse tempo? Que trapalhada eu fizera da minha vida! Realmente. Completara os seus «Anais de Ardencaple». .

Caíram na ratoeira e trataram quase de beatificar a rainha. onde. como hás-de calcular. estavam liquidados desde o princípio. Mas. — Como te sentes hoje. Sabia exactamente o que queria dizer e desejava com ardor que ele se explicasse. Aborreceu-me. aquele seu hábito de repetir as palavras. eu estou pronto a ouvir.. —Não.. os candidatos se foram abaixo por quererem louvá-la em demasia. — Ao menos uma xícara de chá. o elogio de Maria Stuart. Bem. devagar. Laurence? . eu também não havia prestado atenção. uma reivindicação da sua própria crença. de súbito. * Não. Séntou-se e aceitou a chávena que minha mãe lhe apresentava.. não. visto que é tão amável. — E quase acrescentava: — Preparado para as más notícias que traz. «o melhor que puder». lá vai. * Sente-se — disse a Mãe. — Vai comer connosco. O seu ensaio foi uma satisfação enorme para o júri. e mereceu os maiores encómios. sem olhar para mim: —Lembras-te com certeza do ponto. Contudo principiava a ficar mais tranquilo. às quais. — Nesse caso. óptimo. Pensei falar primeiro com a tua mãe. — Muito melhor. ripostou o professor. — A voz ia-se-lhe alterando e tornando tão rouca que ele teve de tomar novo gole de chá. na maioria. e continuou no mesmo tom. Observei-lhe: — Se tem qualquer coisa na ideia. se viu obrigado a condená-la em termos violentos.. para falar verdade. declaro que venho directamente da Universidade. e posso afirmar-te que. houve por acaso um candidato que. Com um júri constituído por dois ministros presbiterianos e um professor de Teologia chamado Rnox. estão patentes os resultados do exame para a bolsa Ellison. muito obrigado. Deu um suspiro de alívio. visto que estás pronto. receoso de que te pudesse provocar uma recaída.. . Lançou-me um olhar oblíquo e ansioso. incapaz de apresentar qualquer argumento favorável. Não perceberam estas palavras incluídas no tema. — Contudo. A mão dele tremia um pouco e parte do chá entornou-se no pires. — Óptimo..* Já me custa a subir as escadas. Concederam-lhe a bolsa por unanimidade. — Tomou um gole de chá.

Por esse tempo a minha carreira médica florescia. no rosto da Mãe quando Rankin prosseguiu: — Laurence. tivemos de dar tamanha batalha contra a adversidade que ficámos esgotados ao máximo. enquanto Leo.houve quem alvitrasse que essa morte se devera. iludindo todas as ordens para a sua demolição.. silenciosa e implacavelmente. e sem qualquer auxílio. completamente só num quarto miserável de Gorbielow. Quando comecei a estudar anatomia a minha crença arrefeceu. dispunha de bastante dinheiro. nos cinco anos seguintes. Bernard continuava numa existência de dissipação e conforto nas condenadas Caves de Lomond. Entretanto eu e a Mãe íamos lutando tenazmente pela vida. Tínhamos épocas de frieza quando para mim os seus silêncios e o seu ar distante assumiam aspectos de verdadeiro martírio. tendo trocado Miss Gilhooley pela dona de um conceituado hotel de Dublin. mal lhe ouvi o grito de vitória.Comecei a sentir-me comprometido. Havia uma expressão estranha. em especial quando são novos e têm talento. Aos outros parentes nada pedimos e deles nada recebemos. Então já eu me impressionava com a sua magreza. inteiramente do seu punho. e Terence. Mas a amabilidade e a boa disposição não vêm com facilidade se a fome nos alanceia ou se se anda . eu iria. Também noutros assuntos as nossas ideias estavam em conflito. com três crianças a sustentar. quando finalmente desapareceu. Sem dúvida que eu merecia censura. cursar a Universidade. Todavia. O seu sistema de avareza e parcimônia refinou a tal ponto que por último Annie o deixou e embarcou em Greenock para o Canadá. ainda pertencia ao futuro. Finalmente o nosso futuro estava garantido. Embora a situação da minha mãe fosse sólida. à fome que ele passava. É triste confessar que eu pensava pouco nos seus sacrifícios heróicos e que as nossas relações eram com frequência tensas e difíceis. Levantando-se num repelão. No testamento. no fim de contas. ao passo que o fervor religioso da Mãe se tinha intensificado. parece que lá no alto está quem proteja os loucos. por um golpe felicíssimo. mas. a Casa do Templário fora vendida por uma soma fantástica. uma extravagância a que não pudera resistir. fez os maiores legados a sociedades vegetarianas e incluiu uma cláusula pela qual deserdava de modo explícito os sobrinhos e a sobrinha. entornou a chávena. excepto de Simon. deixou Nora em Liverpul no meio de grandes dificuldades. Não se pôde coibir mais tempo. Nas raras vezes que me encontrava com Leo na rua. Tudo isto. quando morreu anos mais tarde. Quem mais sofreu com isto foi Nora. Só por um milagre de economia e de renúncia conseguiu ela desenvencilharse. Foi para mim um momento triste vê-la afastar-se no City of Montreal. redundou em autêntico desastre. contida. feito por motivos de reparação. Donohue nunca poderia ser mais do que Donohue: quase nunca estava em casa e. onde se reuniria ao filho. estendeu-me os braços e pulou comigo numa espécie de dança de pé coxinho. Mas o casamento de Nora. é claro. Meio sufocado. Nesse momento de exultação tudo me pareceu definitivo.. que por seu lado de pouco dispunha mas que sempre nos mandava qualquer contribuição de Espanha. ia amontoando uma espantosa riqueza. os seus magros proventos mal nos chegavam para as coisas mais necessárias à vida.ideia fútil de ambas as partes para compor as coisas. Não me passou pela cabeça que ainda houvesse longas e fatigantes lutas para travar. pelo menos em parte. Mas compreendi que. ele fingia não me reconhecer.

Por fim. Apesar dos cabelos brancos. pouco antes de as lojas fecharem. Quando saí de Bute Hall para me encontrar com eles no Union. que servia apenas para o indispensável. Nunca mais consentiria que me enganassem. ela não queria ir comigo ao Union — meteu-me na mão uma caixinha de cabedal com todo o aspecto de coisa religiosa.mal vestido (durante anos Shapiro continuou a ser o meu alfaiate) e ainda quando se está isolado pela pobreza evidente e atormentado pela ameaça do fracasso. e Rankin veio de Ardencaple para assistir com minha mãe à cerimónia. como um barco batido pela tempestade se aproxima vacilante da costa. cada exame que se seguia enchia-me de terror. chegou o dia da formatura. tudo acabaria para mim. apta desde então a qualquer emergência. no sábado à noite. quando já estava próximo do portão. reconheci-a sem dificuldade. pois não ignorava que. Depois de conversarmos uns momentos. Não existia ainda a assistência concedida nos últimos anos aos estudantes pobres. se chumbasse. nunca mais deixaria o coração impor-se ao cérebro. não me permitia segunda oportunidade. onde dissera que me esperassem a fim de evitar a multidão. enquanto a Mãe saía. era Miss O'Riordan. Nunca. Lera o meu nome na lista dos candidatos aprovados e desejou ver-me receber a carta de formatura. todavia. senti tocarem-me no ombro. . Ainda me vejo de cotovelos fincados na secretária e olhos fixos na Anatomia de Quain. vitoriosa. Nesse momento. Passei os meus exames finais. que a envelheciam notavelmente. para comprar pelo mais baixo preço um bocadinho de carne. O ideal espartano da minha infância fora realizado finalmente. Embora nos meus dois primeiros períodos eu obtivesse notas de distinção em Botânica e Zoologia. Era impossível não adivinhar o que continha. Não era raro no seu regresso ser abordada por qualquer bruto que vinha reclamar alguma dívida em atraso. nós avistámos a nossa terra prometida. lenta e penosamente. que fundo suspiro soltei. confiante. consciente da minha nova personalidade: forte. longo e triunfante. e a minha bolsa. Sabia agora que desaparecera a brandura dos meus primeiros anos.

ali fiquei imóvel. atiraria as contas para dentro de uma gaveta e nunca mais pensaria nelas. uma sensibilidade de que nunca me libertaria. sob pressão dos dedos no cabedal flexível. Abri a caixa. Agora não se esquecerá. dominado por sensações confusas. cuidadosamente dobrada. um verdadeiro espartano. o terço lá estava. recordações da minha fase espiritual no Presbitério. senti um leve estalido. tão vencido por esse oportuno rasgo de bondade (que me habilitava a adquirir os instrumentos necessários ao início da minha carreira) que lentamente. e os olhos se me enervaram até às lágrimas. desprendido e indiferente. era inútil. Ou então perdeu-o. Alheado da multidão que girava à minha volta. Vi-a afastar-se e contemplei em seguida a oferta. De súbito. eu não mudara nem jamais mudaria. Tudo aquilo que eu ambicionara e diligenciara ser. a vítima do génio sentimental. Marcado para sempre pela minha infância singular. COLECÇÃO CONTEMPORÁNEA . Na minha natureza havia um ponto fraco. a despeito de todos os meus esforços para o evitar. Por isso aqui está outro. eu era. Não. o escravo involuntário das minhas próprias emoções. por uma educação em que demasiadas mulheres haviam participado. ao regressar a casa. sim. e seria toda a vida.— Tenho a certeza de que o menino quebrou o terço que lhe dei. frio e estóico. Mas Miss 0'Riordan pusera junto dele uma nota de banco de cinco libras. se me formou um nó na garganta. estava muito para além de mim. inexoravelmente. e apenas consciente de uma coisa: de que.

Scott Fitggerald 12 325 000 FRANCOS por Roger Vailland 13 HISTORIAS DE MULHERES por José Régio 2º edição. esgotada 14 MANHA SUBMERSA por Vergilio Ferreira 2º edição 15 OLHOS DE ÀGUA por Alves Redol 2º edição 16 VIDAS SECAS por Graciliano Ramos 2º edição 17 O CAVALO ESPANTADO por Alves Redol 18 AS COLINAS DA IRA por Leon Urie 2º edição 19 CRISTO PAROU EM EBOLI por Carlo Levi 20 DEPOIS DA CICUTA por Angus Wilson 21 O CIUME por Alain Robbe-Grillet 22 PRAIAS DA BARBARIA por Norman Mailer 23 O DEUS DAS MOSCAS por William Golding 24 O ROSTO DA INOCÊNCIA por William Sansom 25 PORTA DE MINERVA por Branquinho da Fonseca 2º edição 26 CORPO AUSENTE por Mário Braga 27 LUNA-PARQUE por Elsa Triolet 28 ESCALADA por Faure da Rosa 29 BARRANCO DE CEGOS por Alves Redol 2º edição 30 TALVEZ SEJAM VAGABUNDOS por Maria da Graça Freire 31 TERNA É A NOITE por F.1 A TERRA FOI-LHE NEGADA por Maria da Graça Freira 2º edição 2 O ELEITO por Thomas Mann 3 O MINISTÉRIO DO MEDO por Graham Greene 2º edição 4 O PREGADOR por Erskine Caldwell 1º edição 5 A VIOLA por Michel del Castillo 6 COM RAZÃO OU SEM ELA por Claude Roy 7 ROSAS A PRESTAÇÕES por Elsa Triolet 8 APARIÇÃO por Vergilio Ferreira 4º edição 9 UMA FENDA NA MURALHA por Alves Redol Esgotado 10 O DEDO DE DEUS por Erskine Caldwell Fora do mercado 11 O GRANDE GATSBT por F. Scott Fitzgerald 2º edição no prelo 32 CRÔNICA FAMILIAR por Vasco Pratolini 33 ESTRELA POLAR por Vergilio Ferreira 34 FELIZMENTE HA LUAR! por Luis de Sttau Monteiro Esgotado 35 SOB CÉUS ESTRANHOS por llse Losa 36 HÁ MAIS MUNDOS por José Régio 2º edição 37 O CÉU CAI por Lorenza Manetti 38 OS DEUSES TEM SEDE por Anatole France .

39 SEARA DE VENTO por Manuel da Fonseca 2º edição 40 A CIDADE E A PLANÍCIE por Faure da Rosa 41 ANGUSTIA por Graciliano Ramos 42 O VENTO por Claude Simon 43 SÁBADO A NOITE E DOMINGO DE MANHA por Alan Sillitoe 44 FANGA por Alves Redol 8º edição 45 APELO DA NOITE por Vergilio Ferreira 46 UMA ABELHA NA CHUVA por Carlos de Oliveira 3.* edição 47 ILUSÕES por Ruth Rehmann 48 AVENTURAS MARAVILHOSAS DE JOÃO SEM MEDO por José Gomes Ferreira 49 MORRERAM PELA PATRIA por Mikail Cholokov 3º edição 50 O FIEL E A PEDRA por Osmem Lins 51 RIO TURVO por Manuel da Fonseca 2º edição 52 VIAGEM INCOMPLETA por Mário Braga 53 HISTORIAS AFLUENTES por Alves Redol 54 O PRÉMIO por Irving Wallace 3º edição 55 ANÚNCIO por Alves Redol 3º edição 56 OS RATONEIROS por William Faulkner 57 CASA NA DUNA por Carlos de Oliveira 3º edição 58 ALDEIA NOVA por Branquinho da Fonseca 3º edição 59 SEMANA NEGRA por Enrico Emanuelli 60 LUTO NO PARAÍSO por Juan Goytisolo 61 PAO INCERTO por Assis Esperança 62 AS TRÊS SEREIAS por Irving Wallace 3º edição 63 TERRA DO NOSSO PÃO por Antunes da Silva. 64 Ó CLANDESTINO por Mario Tobino Fora do mercado 65 MAR SANTO por Branquinho da Fonseca 1º edição 66 AS NOITES DE SALOMAO FORTUNATO por Maria da Graça Freire 67 O DEMÓNIO EM PONTE LUNGQ por Riccardo Bacchelli 68 ENCONTRO NO OUTONO por Ilse Losa 2º edição 69 ASSEMBLÉIA DE MULHERES por Natália Nunes 70 UMA VIDA VIOLENTA por Pier Paolo Pasolini Fora do mercado 71 O DESERTO por Félix Cucurull 72 O SABOR DA VIDA por Marta de Lima 73 DIAS LAMACENTOS por Urbano Tavares Rodrigues .

Cronm . Scott Fitzgerald 83 OS ARMÁRIOS VAZIOS por M. Judite de Carvalho 84 AUTOBIOGRAFIA DÉ UMA MULHER ROMÂNTICA por Natália Nunes 2ª edição 85CONTOS EXEMPLARES por Sophia de Mello Breyner Andresen 2a edição 86 ALEGRIA ASSUSTADORA por Joyce Cary 87 BALADA DA INFÂNCIA por A. DO LADO DE FORA por Wolfgang Borchert 77 UM SENTIDO DA REALIDADE por Graham Greene 78 DIÁRIO DE ÉDIPO por Alberto Ferreira 2º edição 79 CAETÉS por Graciliano Ramos 80 SOLIDÃO pòr Irene Lisboa 3º edição 81 AS IMAGENS DESTRUÍDAS por Faure da Rosa 82 ESTE LADO DO PARAÍSO por F.74 O SINO por Iris Murdoch 75 VIVER COM OS OUTROS por Isabel da Nóbrega 2º edição 76 EM FRENTE DA PORTA. J.