You are on page 1of 9

ENTREVISTA

O imaginário é uma realidade
RESUMO Nesta entrevista Michel Maffesoli, pensador francês do cotidiano e do presente, herdeiro intelectual de Gilbert Durand, faz uma cartografia da noção de imaginário, definido como a relação entre as intimações objetivas e a subjetividade. ABSTRACT In this interview, Michel Maffesoli, French thinker of the contemporary and of the daily life, as well as intelectual heir to Gilbert Durand, presents his cartographic view of the notion of the imaginary, defining it as the relationship between objective intimations and subjectivity. PALAVRAS-CHAVE/KEY-WORDS - Imaginário (Imaginary) - Tecnologias do imaginário (Technologies of the imaginary) - Sociologia do presente (Sociology of the contemporary)

A PALAVRA IMAGINÁRIO virou moda. Ain da mais: entrou na linguagem cotidiana. Todo mundo a utiliza. Mas poucos têm uma idéia clara do que significa imaginário no campo das ciências humanas. Michel Maf-fesoli, sociólogo francês, professor na Universidade René Descartes, Paris V, Sorbonne, e diretor do Centro de Estudos do Atual e do Quotidiano (CEAQ), é um dos prin ci pais especialistas mundiais desse as sun to. Au tor de vários livros sobre a sociologia do presente, entre os quais A Violência totalitária, A Conquista do presente, A Transfiguração do político: a tribalização do mundo, A Contemplação do mundo e O Instante eterno, Maf-fesoli recuperou a tradição de Gaston Bachelard e de Gilbert Durand quanto à importância do imaginário na construção da realidade. Nesta entrevista, concedida em Paris, na sua biblioteca, à sombra dos livros dos grandes mestres, Michel Maffesoli enfrenta todas as questões delicadas e trata de apresentar semelhanças e diferenças entre imaginário e cultura, imaginário e ideologia, imaginário e apropriação individual de um patrimônio social. Além disso, Maffesoli ocu pa-se de fazer uma cartografia do termo imaginário, distinguindo a linhagem Bachelard/Durand da variante lacaniana des sa categoria. Uma entrevista para quem sempre quis entender o que significa, realmente, imaginário. Revista Famecos – O que é o imaginário? Michel Maffesoli – Parece-me uma noção que deve muito à maneira francesa de pen sar. Quero dizer que, tratando de ima gi ná rio em outros países, mesmo europeus, sem pre observei que havia certa am bi güi da de. Em geral, opõe-se o imaginário ao real, ao verdadeiro. O imaginário seria uma ficção, algo sem consistência ou realidade, algo diferente da realidade econômica, política ou social,

74

Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 15 • agosto 2001 • quadrimestral

Não se trata de algo simplesmente racional. Mas ela não se reduz ao imaginário. tan gí vel. pintura –. as maneiras de vestir-se. É o estado de espírito que caracteriza um povo. Mas. RF – O senhor não trabalha com conceitos. antropológico. das construções do espírito. uma construção mental. às vezes. das construções do espírito. Essa noção de imaginário vem de longe. Esse algo mais é o que se tenta captar por meio da noção de imaginário. além disso. surge Gilbert Durand. uma matriz. ou. Ele mesmo considerava esta segunda parte como em ruptura com a primeira. Na esteira de Bachelard. Na verdade. RF – A palavra imaginário está na moda. os costumes. a aura. alguma definições são possíveis. que se divide em duas partes: a do Bachelard conhecido e reconhecido.que seria. e. Pode-se ouvir. os fatos da vida cotidiano. aquilo que Walter Benjamin chama de aura. o Bachelard da “psicanálise do fogo”. O imaginário tem. no sentido restrito do termo. Da mesma forma. algo que as envolve. que se mantém ambígua. O imaginário. digamos. uma ultrapassagem. ao menos. para mim. Tem certa autonomia. etc. A sua reflexão recuperou o que tinha sido deixado de lado pela modernidade e indicou como o real é acionado pela eficácia do imaginário. perceptível. no sentido amplo. mas podemos senti-la. A cultura pode ser identificada de forma precisa. Tratava-se de demonstrar como as construções dos espíritos podiam ter um tipo de realidade na construção da realidade individual. Mas. o imaginário não se reduz à cultura. aparece a obra de Gaston Bachelard. uma superação da cultura. Bachelard pegou o bastão dos ro mân ti cos e repôs na cena intelectual pro ce di men tos que se encontravam esquecidos. um certo mistério da criação ou da transfiguração. é essa aura. a cada instante. palpável. Cada um explorou um caminho. literatura. A velha tradição é a romântica. de produzir. O imaginário permanece uma dimensão ambiental. de séculos atrás. O imaginário é uma 75 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 15 • agosto 2001 • quadrimestral . ou o líquido onde estão mergulhados os indivíduos ou grupos sociais e que lhes serviria de alimento. alguém falar do “meu imaginário” ou do imaginário de certo grupo. a fonte que banha a existência individual ou social. Gilbert Durand trabalhou na confluência da tradição literária romântica e da antropologia. dos sonhos. em luta contra a fi lo so fia e o pensamento então hegemônicos na França. das fantasias. Na aura de obra — estátua. mas não quantificável. Nos 1930s e 1940s. Durante muitos séculos tudo isso foi abandonado em função da dominação da filosofia racionalista. música. no sentido an tro po ló gi co dessa palavra. uma atmosfera. tendo es cri to uma obra-prima: As Estruturas an tro po ló gi cas do imaginário. Esta é a idéia fundamental de Durand: nada se pode compreender da cultura caso não se aceite que existe uma espécie de “algo mais”. seja por meio das grandes obras da cultura. Qual a diferença entre imaginário e cultura? Maffesoli – A cultura. em algumas obras. pois carrega também algo de imponderável. contém uma parte de imaginário. O imaginário é uma força social de ordem espiritual. O imaginário parece. algo de imponderável. claro. o intelectual voltado para a epistemologia. agora pensando em termos filosóficos. É mais ampla. sociológico ou psicológico. Bachelard teve dois discípulos diretos: François Dagonnier e Durand. Algo que envolve e ultrapassa a obra. no imaginário entram partes de cultura. Não vemos a aura. há a materialidade da obra (a cultura) e. teatro. A cultura é um conjunto de elementos e de fenômenos passíveis de descrição. as formas de organização de uma sociedade. mostrou que as construções mentais podiam ser eficazes em relação ao concreto. é da ordem da aura: uma atmosfera. Assim. num segundo momento.

Sei que a crítica moderna vê na atualidade a expressão mais acabada do individualismo. se voltamos ao que foi dito. por isso mesmo. A ideologia. mas. reflete o que chamo de tribalismo. apresenta. Pode ser. claro. Pode-se falar em “meu” ou “teu” imaginário. mas o contrário. os jardins públicos. RF – O imaginário não pode ser considerado como a ideologia. de imediato. uma tentativa de argumentação capaz de explicitar. a um des ven da men to. não pode ser individual. de um país. de um Estadona ção. A imagem não é o suporte.apropriação individual da cultura? Maffesoli – Para mim. Isso é uma construção histórica. etc. Quando se tem uma sensibilidade política aguçada. em imagem. A existência de um imaginário determina a existência de conjuntos de imagens. Mas se retomamos o que era ideologia para Destutt de Tracy. Enfim. ao mesmo tempo. que impregna o coletivo ou. de um grupo social? Maffesoli – O termo ideologia não me as sus ta. RF – Também nesse caso não se pode reduzir o imaginário à cultura de um grupo? Maffesoli – Insisto que há proximidade entre cultura e imaginário. de Walter Benjamin. pode-se dizer que o imaginário é a cultura de um grupo. o que está por trás de um discurso político explícito. como o onírico. um elemento racional. mesmo que seja difícil defini-lo. Existem muitos conceitos de ideologia. O imaginário é algo que ultrapassa o indivíduo. Já o imaginário. vê-se que o “seu” imaginário corresponde ao imaginário de um grupo no qual se encontra inserido. portanto. quando se examina a situação de quem fala assim. Destutt de Tracy foi um pioneiro. É cimento social. outra ordem de elementos em sua constituição? Maffesoli – Não é a imagem que produz o imaginário. ide o lo gia. do adversário. só existe imaginário coletivo. racional. Refiro-me 76 a todo tipo de imagens: cinematográficas. mas também outros parâmetros. embora me pareça um tanto datado. pensase. O imaginário de Paris faz Paris ser o que é. passível de racionalização. trata-se de um conjunto orgânico de idéias. esculturais. mais do que essa cultura: é a aura que a ultrapassa e alimenta. parte do coletivo. Contudo. O imaginário é um conjunto de imagens. A ideologia é uma premissa que deve levar. ao menos. ou razoável. a Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 15 • agosto 2001 • quadrimestral . O imaginário estabelece vínculo. é sempre pensada. uma aura que continua a produzir novas imagens. Não há quase lugar para o não-racional no olhar ideológico. Há um imaginário parisiense que gera uma forma particular de pensar a arquitetura. por exemplo. Nesse sentido. inconsciente. guarda sempre um viés bastante racional. O imaginário pós-moderno. necessariamente. armazenadas pelos indivíduos e grupos. uma explicação. Por isso. ao menos era assim durante a minha juventude. sem tentar precisar a posição de Gilbert Durand. capaz de fomentar a ação ou há algo mais. uma elucidação. a decoração das casas. ideologia é sempre a postura do outro. ainda no início do século XIX. que derivará da aplicação da noção de ideologia. RF – Quando se fala em imaginário. por exemplo. mas também o resultado de uma atmosfera e. No fundo do ideológico há sempre uma in ter pre ta ção. Nesse sentido. Logo. contudo. pictóricas. veremos que o imaginário é. a arrumação dos restaurantes. se o imaginário liga. mas o resultado. tecnológicas e por aí afora. falei na idéia de aura. Há algo. A ideologia. não está longe da idéia de imaginário. de uma comunidade. etc. conforme pensava Destutt de Tracy. o lúdico. une numa mesma atmosfera. Mas não é esta a minha posição. O imaginário é o estado de espírito de um grupo.

mas também uma alquimia um tanto mis te ri o sa que detona. às vezes. na poesia. além do racional que a compõe. mas da ocupação de um novo lugar de destaque. envolve uma sensibilidade. ou mística. de engano. na defesa das utopias. quem ade re a uma ideologia imagina fazê-lo por razões necessárias e suficientes. por exemplo. Eu não tenho nada a defender. De toda maneira. RF – Para certos críticos dessa noção. De algum modo. Há. a palavra interatividade faz tanto sentido na ordem imaginária. alguma coisa que encontra eco não somente na razão. Na ecologia. mas estas também influenciam as práticas. O que chamo de “emocional” e de “afetual” são dimensões orgânicas do agir a partir do espírito. mais abrangente. há uma esquerda e uma direita 77 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 15 • agosto 2001 • quadrimestral . Afinal de contas. Nela. etc. colocando o holismo acima das perspectivas binárias ou do individualismo. de ideologia. na esperança de um mundo redimido de suas falhas. Mas. o lúdico. com forte apego ao telúrico.fantasia. não é desabonador nem infamante ser romântico. de sintonia. Evi den te men te que a prática condiciona as construções do espírito. englobando o cotidiano. não dominá-la. meu discurso é ultrapassado por uma vibração que supera o argumento e instaura uma sensibilidade comum. essa sensação partilhada. na pers pec ti va de uma sociedade perfeitamente igualitária. reaparecimento de uma sensibilidade romântica. Há sempre uma parte de razão. dicotômica. o imaginário seria uma espécie de retorno a uma ideologia romântica. com a revalorização da natureza. nunca desapareceram. São equações de ataque. impalpável e real. etc. Há sempre algo de romântico no político. surge uma forma de intensidade. Os defensores de tais esquemas continuam a pensar de acordo com uma di nâ mi ca binária. No caso. O imaginário é. agora. Em geral. Quando faço uma palestra me acontece. há sempre uma construção. No desejo de in te ra ção. Creio que há. algo que é ar gu men ta do. Numa conferência. de partilha. nisso. não percebendo o quanto entra na sua adesão outro componente. quem sabe. que chamarei de nãoracional: o desejo de estar junto. Essa observação parece-lhe aceitável? Maffesoli – Não me incomoda que a noção de imaginário seja vista assim. Há processos in te ra ci o nais que criam aura. mas também nos sentimentos dos ouvintes. o homem age porque sonha agir. as construções mentais potencializadoras das chamadas práticas. de perceber algo que ul tra pas sa o que estou dizendo. o afetivo. Aquilo que o romantismo centrava na literatura. Trazer a poesia para a vida. Esse momento de vibração comum. o afetivo. funciona pela interação. enfim. tornase. Isso funciona? Maffesoli – Conheço esses esquemas. o laço social. de conteúdo. eis a síntese desse novo romantismo. no sonho de uma sociedade perfeita. o irracional. Penso que certos elementos colocados de lado pela razão retornam. os sonhos. de regressão. não no sentido do idêntico ou da regressão. Do ou tro lado: racionalidade = ideologia = pensamento de esquerda. o imaginativo. em certas situações. ao mesmo tempo. há uma acepção de reversão. Por isso. O imaginário. RF – Existem certos esquemas do tipo: imaginário = romantismo = pensamento despolitizado = ideologia de direita. o afetivo. questionar a idéia de retorno. muitas vezes. eis o que constitui um imaginário. o sentimento. O imaginário é também a aura de uma ideologia. Em outras palavras. Estavam apenas em posição secundária. de fato. Ou latente. pois. na relação com o público. Na convicção de que o homem deve negociar com a natureza. o nãoracional. no processo des cri to. de vibração. certamente. Por que não? Resta. uma interação.

a ruína de alguns dos fundamentos da separação entre esquerda e direita. os modernos. as datas que devem ser comemoradas. pois está aquém ou além dessa perspectiva moderna. Na pós-modernidade. O imaginário tudo contamina. em política. os processos de interação próprios da lógica imaginal. Mesmo os mais resistentes. impõe-se a sedução. que muitos dos pioneiros na percepção desses fenômenos sejam citados. Dito de outra forma. modernas que são. sem. cada vez mais a persuasão. O imaginário não é de direita nem de esquerda. do Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 15 • agosto 2001 • quadrimestral . os heróis e mitos que devem ser lembrados. Então. De resto. têm o poder de escrever. a emoção. utilizado por pensadores de origens e re fe ren ci ais muito diferentes. Mostrei em meu livro A Transfiguração do político como a passagem da convicção à sedução implica a metamorfose da política. com freqüência. não consegue mais compreender a realidade. logo de ditar a realidade. Este encarna uma complexidade transversal. que continua a participar do debate político. RF – Imaginário é um termo. Mesmo uma parte da comunidade intelectual dominante começa a perceber que algo mudou. como os símbolos de um partido. mas sempre soube ir além dele. Para além da argumentação. que existem fora da escrita politicamente correta da intelectualidade moderna. epistemologicamente. Atravessa todos os domínios da vida e concilia o que aparentemente é inconciliável. O marketing. toda a publicidade funciona assim. são obrigados. Em política. Compreendeu o que havia de não-racional na adesão a uma ideologia dita racional. como as esferas po lí ti ca. Mas. os ritos que precisam ser atualizados. falando de um real que talvez não exista mais. Trata-se do reconhecimento do aspecto impalpável des sa aura que é o imaginário. ao imaginário moderno. e não se adaptar às transformações do real. a não ser em suas imaginações. Ou. O modelo moderno era belo. funciona pela sedução. Morin foi um dos primeiros a ver. Qual a ver da dei ra diferença entre a noção de imaginário de Bachelard e Gilbert Durand e a de Jacques Lacan? Maffesoli – Não é fácil precisar essa diferença. acontece o re co nhe ci men to dessas dimensões alijadas da esfera do conhecimento. Convence-se pela emoção. Edgar Morin. esses esquemas permanecem. pois até hoje tenho dificuldade para compreender Lacan. pelo vivido. ideológica e econômica. as grandes dicotomias que estabeleceu. portanto. ou seja. nesse tipo de oposição. desde os anos 50 e principalmente nos anos 70. claro. Mesmo os campos mais racionais. Como muitas dessas pessoas. Não há do que se queixar. são recortados por imaginários. Isso faz parte dos procedimentos normais no mundo intelectual. RF – Falar de imaginário político é. aquilo que era desprezado ressurge. uma redundância. por per ma ne cer congelado. a reconhecer a força do imaginário nos campos considerados racionais por excelência. O modelo moderno quis reduzir a realidade aos seus parâmetros. tudo isso corresponde ao imaginário de tais grupos ou comunidades intelectuais. ou conceito. Temo que essas pessoas tenham sido ultrapassadas pelo concreto. persuasiva. caso se aceite este oxímoro. resume o cruzamento da razão — o planejamento publicitário racional — com a valorização do emocional. O ima gi ná rio político trabalha a argumentação através de um arsenal de mecanismos emo ci o nais. Prefiro estar em sintonia com outros universos. apropriado por quem o condenava. melhor. coerente e eficaz. entre as quais figuram os intelectuais modernos.que se baseiam. compreendeu muito cedo. Ou haveria um paradoxo escondido nessa expressão? 78 Maffesoli – Não há paradoxo.

Castoriadis sempre foi um intelectual preocupado com a política. Lacan o traduziu em termos que lhe eram próprios. outra leitura? Maffesoli – A obra de Castoriadis a esse respeito não me agrada muito. descobre a autonomia do que antes considerava como uma mera superestrutura. no meu entender. Lacan con se guiu manter-se na boa e verdadeira tradição freudiana. os do freudismo. Tanto que sua investigação se dá sobre a imaginação simbólica. na boa e velha tradição cartesiana. A minha tese é a seguinte: Lacan racionalizou a noção de imaginário que havia aprendido com Jung. em certos temas. em conseqüência. na separação. ao contrário. Ou seja. Há um vaivém entre categorias. A tentação do conceito. A se pa ra ção em categorias que fez é o resultado dessa necessidade racionalista de disjunção. Ora. Mas sabendo-se que na obra de Durand existem deslizamentos do simbólico ao imaginário. Isso não é pouca coisa. Racionaliza Jung e. na maleabilidade. RF – Outros pensadores ocuparam-se da noção de imaginário. Lacan foi contaminado pelo pensamento de Jung. pautada pelo primado da economia. Ao mesmo tempo. em contrapartida. Lacan nunca deixou de ser. no fim da sua vida. mas aproximações. Durand nunca apresentou conceitos precisos de imaginário e de simbólico. Mas. levou vários intelectuais a noções rígidas de imaginário. de algum modo. significa tornar rígido. Em outras palavras. Na linhagem de Bachelard. Tirou-se do imaginário a sua essência. Para mim. tentouse esconder essa trajetória. ao mesmo tempo. um pouco como Lacan. um racionalista. a idéia de ima gi ná rio. uma reflexão sobre a força do imaginário. Outra contribuição. acabou por in ves tir numa concepção rígida de ima gi ná rio. Atribuiu. Na França. do rigor cartesiano. Em vez de ir ao encontro de Freud. o que rigidifica e desgasta instrumentos de conhecimento que só valem enquanto pos su em a complexidade da vida. No fundo. são ca te go ri as que tentam conceituar em excesso. pois sempre viu os dois imbricados. cabe lembrar. acreditou. Em Durand todos as noções são flexíveis. De certa maneira. teve uma espécie de revelação e inverteu essa relação. Em Durand. quando a sua força consiste no oposto. Lacan não foi estagiar em Viena. Jung representa uma abertura. Nos anos 30. fazendo-se de Lacan um herdeiro direto de Freud. também por determinação da sua formação. apresenta categorias es tan ques. Os lacanianos usarão a tripartição imaginário. a da força do imaginário. Depois. Com a Instituição imaginária da sociedade. uma tradição que racionaliza o inconsciente. numa certa imprecisão. real já sem nenhuma referência ou relação com a influência que Lacan sofreu de Jung. Aí é que tudo se torna muito interessante. ao imaginário o papel que atribuía antes à 79 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 15 • agosto 2001 • quadrimestral . Lacan teve uma intuição. buscou Jung. Uma coisa contamina a outra. Por influência marxista. Em Lacan. estranha ao freu dis mo. tardiamente. que se perdeu na medida em que sua tradição intelectual o obrigou a racionalizá-la. Após essa revelação. não esqueçamos. ele desenvolveu. primeiro. A racionalização. entre infra e super-estrutura. simbólico. a rigidez acentuou-se. apesar do seu lado provocador.tipo ima gi ná rio e simbólico. Bachelard e Durand aliam imaginário ao vivido. Contaminado pelo pensamento de Jung. então. entre os quais Cornelius Castoriadis. Lacan. RF – O imaginário segundo Durand e Bachelard estaria mais próximo da noção de simbólico em Lacan? Maffesoli – Sim. cada coisa tem o seu lugar. não existem definições rigorosas. não existe verdadeira diferença entre sim bó li co e imaginário. Lacan. de maneira interessante. mas em Zurique. ao pensado.

tribal. o senhor acredita em instrumentos ou tecnologias de criação de imaginários? Maffesoli – Claro. uma atmosfera. o imaginário. o limita. O imaginário. Da mesma forma. como o cinema. por mais nobre. mais uma vez.infra-estrutura. As intimações objetivas são os limites que as sociedades impõem a cada ser. Um totem é o re sul ta do da predominância do individualismo. de Gilbert Durand. certamente. refere-se à instituição imaginária da sociedade. o imaginário dito individual reflete. de fato. pois o imaginário. a circulação de do seu modo o imaginário de um grupo? signos. O individualismo é sempre técnica. Há imaginário também na contra-revolução. ainda mais nas tecnologias de comunicação. presente em As Estruturas antropológicas do imaginário. Todo o meu pela técnica. pois o imaginário opera em qualquer situação. é a relação entre as intimações objetivas e a subjetividade. Não por acaso. mas sobretudo grupal. uma linguagem. Uma escultura é um objeto trabalho tenta mostrar que. Para Castoriadis. Relação. O termo instituição tem um valor de estabilidade. contra ou a favor das revoluções. O imaginário é determinado pela idéia de fazer parte de algo. partilhado. só há imagem uma con cep ção moderna. sempre social. Uma abre brechas na outra. não há técnico. O mais ser que diz “meu imaginário” pode recortar importante é a relação. que o imaginário coletivo repercute no indivíduo de maneira particular. enquanto comunhão. não uma instituição. Nisso entra. O imaginário é alimentado por tecnologias. Partilha-se uma filosofia de vida. Em outras palavras. Na base. a literatura. Mas claro que lógica nisso. O imaginário é uma sensibilidade. é sempre comunicação. Vejo uma valorização da técnica na existência. mas não se pode dizer que essa seja a sua prioridade. vê-se que o imaginário de um indivíduo é muito pouco individual. para bem ou mal. uma idéia de mundo. utilitário. Há. Tem o papel do indivíduo. rigidez nessa apropriação. a televisão. quando se examina o problema com atenção. e alguma coisa que ultrapassa essa solidez. as relações estabelecidas. RF – Como o senhor analisa a idéia da existência de tecnologias do imaginário. entre as coerções sociais e a subjetividade. a televisão e a publicidade Maffesoli – Tenho tendência a desvalorizar articulam o emocional e a técnica. Ora. O imaginário. Evidente utilização de materiais se gun do uma 80 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 15 • agosto 2001 • quadrimestral . Em que medida um uma parte desse fenômeno. uma visão das coisas. comunitário. o imaginário tem uma função determinada. musical. Cada sujeito está apto a ler o imaginário com certa au to no mia. Há sempre um vaivém entre as intimações ob je ti vas e a sub je ti vi da de. ao mesmo tempo. algo sólido. o indivíduo participa dessa de Internet. no entanto. Na maior parte do tempo. a vida com suas diversas modulações. não é apenas um fator de cons tru ção ou de fixação de algo. repito. Porém. pois a lógica da imagem é o in di ví duo existe. RF – Mesmo que o imaginário seja Existe um aspecto racional. a autonomia do imaginário. no plano sexual. na encruzilhada do racional e do não-racional. portanto. A técnica é um fator de estimulação imaginal. caso se queira de fato uma definição. mas isso representa apenas apropriação imaginal. justamente. Não é por acaso que o termo imaginário encontra tanta repercussão neste momento histórico de intenso desenvolvimento tecnológico. esportivo. atua nos pro ces sos revolucionários. Fa zer do imaginário uma instância necessariamente revolucionária significa dar-lhe um estatuto que. o imaginário de um grupo. artístico. Internet é uma tecnologia da interatividade que alimenta e é alimentada por imaginários. Desaparece.

Para os social. com su pe ri or e de uma reflexão muito arquétipos. RF – O cinema de Hollywood pode ser vis to como uma eficaz tecnologia do imaginário. A genialidade Mas não é assim que as coisas funcionam implica a capacidade de estar em sintonia no vivido. ao que existe de Maffesoli – Também. A técnica é o artefato. produz algo que não é racional. Isso significa que o criador deve mais so fis ti ca da. contrariaria o poder criador divino. mas também para a televisão e a publicidade. contra o que se considera artificial. que considera o indivíduo indefeso diante da imagem. Maffesoli – Sim. mas uma relação. A crítica à Internet vem de um pensamento politicamente correto que teme pensar com as tripas. o conteúdo. O criador dá forma ao que existe nos RF – Baudrillard também? espíritos. intelectuais modernos. RF – O mesmo vale para Paul Virilio? Não apenas a imposição de algo que vem de cima. imaginárias para alimentar imaginários . mostrou que existe uma reversibilidade. A imagem sempre in co mo dou por ser artefato. O arquétipo bombardeio de imagens. ao contrário. de artefatos. tenha uma parte de verdade. não dá conta do real. a Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 15 • agosto 2001 • quadrimestral 81 . A luta religiosa contra a imagem sempre foi a guerra contra o artefato. O criador. Atualmente. uma visão esquemática. Isso vale para o cinema de Hollywood. Embora Baudrillard maneira informal ou disforme. Na França. Como o senhor vê a influência dessas tecnologias na for ma ção do imaginário social contemporâneo? Maffesoli – A idéia de manipulação pertence ao esquema clássico. valorização da forma. A publicidade tenha a grande qualidade de um texto e o cinema lidam. precisa corresponder a uma atmosfera. incide no só existe porque se enraíza na existência mesmo medo do não-racional. Nada surpreendente. com o espírito coletivo. representação artificial gerada pelo ho mem. Um pensamento judaico-cristão marcado só é criador na medida em que consegue captar o que circula na sociedade. A crítica racionalista chama isso de manipulação ou de homogeneização. Logo. Ora. Eles têm medo porque a Internet multiplica imagens. as Daí a dificuldade em compreendê-la. Ele pela idéia de redenção. Deus. Só Deus seria criador. fortalecido pelo marxismo. Edgar Morin. tecnologias do imaginário bebem em fontes o cérebro e a razão são conteúdos. um impacto. atualmente. criação humana. A imagem não é um conteúdo. a verdadeira revolução pela imagem é a indiferença em relação ao con teú do. os principais críticos da Internet. Quantos homens tiveram a sua idéia do amor ou da mulher ideal forjada. Nesse modelo. por exemplo. para bem ou mal. O artificial. embora o que interessa é o cérebro. o fundamental seria passar um conteúdo. são racionalistas. portanto. A fonte da imagem é tecnológica. um vaivém. Trata-se do primado da ideologia. mesmo na publicidade. como Dominique Wolton e Philippe Bréton. a forma recebe a poderosa ajuda da tecnologia para multiplicar-se.técnica de construção. de esquerda. A forma seria apenas um suporte. etc. na comunicação manipulatória. Mas quando fala do estar em sintonia com o vivido. em livros como O Cinema e o homem imaginário e As Estrelas. por esse universo de imagens. As sim. Quan do há exacerbação tecnológica. pela razão. Virilio é a mesma coisa. há profusão de imagens. ao que está aí. Trata-se da oposição típica moderna ao que não pode ser dominado pelo cérebro. Portanto. A crítica consiste nisso: Internet não é racional e baseia-se na partilha de imagens.

Nota Entrevista concedida a Juremir Machado da Silva. em 20/03/2001. em Paris. 82 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 15 • agosto 2001 • quadrimestral .