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Biografia e regimes de historicidade

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Benito Bisso Schmidt*

Resumo: O artigo aborda, inicialmente, a trajetória do gênero biográfico no campo do conhecimento histórico a partir da noção de “regimes de historicidade”, na forma como é proposta por François Hartog. A seguir, analisa algumas controvérsias que cercam os estudos biográficos na atualidade, propondo alternativas para superá-las. Palavras-chave: biografia, regimes de historicidade, historiografia.

Abstract: The article deals, initially, with the path of the biographic genre in the field of historical knowledge according to the notion of “regimes of historicity” as it is proposed by François Hartog. Then it analyses some controversies around current biographic studies proposing alternatives to overcome them. Key words: biography, regimes of historicity, historiography.

Introdução
A biografia voltou a ocupar um lugar de proa na historiografia contemporânea. Prova disso é que, a partir de meados dos anos 80, alguns dos mais renomados historiadores da atualidade consagraram trabalhos ao estudo de trajetórias individuais.2 Sintoma da crise dos grandes paradigmas explicativos? Manifestação acadêmica do individualismo que marca a nossa época? Concessão ao gosto popular por fofocas e mexericos? Muitas são as tentativas de explicar o “retorno” e o sucesso do gênero, mas é difícil negar a sua importância na reflexão atual sobre o conhecimento histórico. O presente artigo não busca, obviamente, dar conta de toda a complexa gama de questões suscitada pela biografia histórica, mas apenas situar e analisar algumas delas. Em primeiro lugar, pretende-se rastrear a trajetória desse gênero a partir da noção de regimes de historicidade, a fim de mostrar
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Professor do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UFRGS; e-mail: bbissos@yahoo.com

MÉTIS: história & cultura – SCHMIDT, Benito B. – p. 57-72

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2. partilhando a mesma natureza humana)” (Hartog. no passado. de escrito que tem por objeto a história de uma vida particular. A escolha que ele fez de contar as “Vidas” de grandes homens do Estado do passado não deve ser confundida. pela qual cabia ao passado iluminar o futuro. 2003 .4 Segundo Françoise Frazier (1996. em alguma medida. ao contrário (e mais freqüentemente). Ele ritma a escritura do tempo. com as mesmas regras do jogo. p. 58 MÉTIS: história & cultura – v. Em uma formulação célebre. tenta-se mapear algumas controvérsias que cercam as biografias. as biografias acompanhavam um regime de historicidade que buscava. com Tucídides. propondo alternativas para superá-las.] repousava sobre a idéia de que o futuro não repetia o passado. para as ações tomadas no presente: era a chamada “história mestra da vida” (historia magistra vitae). 8). 1996). 9-10). procurando elaborar uma outra. ensinamentos para o presente através do exemplo de seus personagens: Plutarco desenvolve uma lição de civismo e desenha um ideal de homem da cidade nutrido pelo passado e. senão já no século V a. são um bom exemplo dessa forma de se conceber e de se escrever a história. 57-72.. 277). 1997. de Plutarco.] como uma formulação sábia da experiência do tempo que.. As Vidas paralelas. jan. Encontros e desencontros entre história e biografia Em seu sentido lato. no entanto. o autor explicitou suas motivações para apresentar as vidas dos grandes homens da Antiguidade: “a história dos grandes homens é como um espelho que eu olho a fim de trabalhar para.. pelo menos até o final do século XVIII e início do XIX. a mesma providência e os mesmos homens.C.. p. profundamente atual. ou seja.que certas questões e problemas a ele relacionados já possuem uma longa tradição de estudos e debates. [. modela nossos modos de dizer e de viver nosso próprio tempo. positivos ou negativos. p.C. Essa fórmula remonta a Cícero. porém não o excedia jamais (movia-se no interior do mesmo círculo. Para examinar a trajetória das relações entre história e biografia. no passado. em Plutarco percebemos uma íntima ligação entre moral e história. em retorno. mas os gregos já a praticavam desde o século IV a.. Esta “[. exemplos. à qual se pode subscrever ou. 3. a biografia está ligada ao próprio surgimento da história como forma de conhecimento do mundo. pois ele busca. valho-me da noção de regimes de historicidade. representa uma “ordem” do tempo. querer escapar./jun. Um regime de historicidade abre e circunscreve um espaço de trabalho e de pensamento. regrar a minha vida e me conformar à imagem de sua virtude” (apud Frazier.3 Pode-se dizer que. a seguir. p. n. na forma como é proposta por François Hartog (1997.

p. as vidas de santos. este ponto de vista e este telos que lhe dão sentido. a última aparece como a tentativa de expressar. com as vestes da ciência.. de castidade. por assim dizer... é a constituição de um novo regime de historicidade no qual cabe ao futuro esclarecer o passado: As lições da história são substituídas pela exigência de previsões. isto é. ela vem.. O que se verifica. Com o regime moderno. o exemplar.. O passado está. a imagem da Nação. Lejeune (1993. de caridade. 50). p.] Este futuro que esclarece a história passada. em uma espécie de protesto contra a hipocrisia vigente (Bonhôte. do Povo. Ela está em um futuro que acontecerá como diferente do passado [. Na historia magistra. inclusive com seus pecados. o ponto de vista do futuro domina. percebe-se uma progressiva transformação na escrita biográfica e também autobiográfica. no século das Luzes.. da República ou do Proletariado. ultrapassado. ao lado das obras de inspiração religiosa. torna-se “[. de forma muito nítida. Segundo Jacques Le Goff (1989. 57-72 59 .] pensável e legítimo para todos e cada um contar a sua vida”. – p. desaparece para dar lugar àquilo que não se repete. os livros de razão. 1997.. base da ideologia do progresso. tratavam-se de “[. essas narrativas edificantes ofereciam modelos de conduta. com um laudatio temporis acti nostálgico [. da maneira mais sincera possível..de maneira alguma. o exemplo ligava o passado ao futuro através da figura do modelo a imitar. cujo objetivo era. adquiriu. mas ele busca o único. 11) chega a considerar que a obra de Rousseau marca “[. Essa mudança pode ser ilustrada pelas diferenças existentes entre duas célebres “Confissões”. 9). A partir do final da Idade Média.] suas biografias tentam recuperar a herança grega para nutrir a vida da cidade moderna.5 Tal perspectiva foi retomada pelo Cristianismo e pelos historiadores medievais expressando-se. Para o autor. p. p. O historiador não mais elabora o exemplar. então.] aparecem. a vida do autor. É nessa concepção “futurista”. Se ainda resta uma lição da história. que se apoiam algumas das grandes filosofias da história do século XIX como o MÉTIS: história & cultura – SCHMIDT. a de Santo Agostinho e a de Rousseau: se a primeira é o relato de uma conversão. 1988). 9-10). Benito B. sobretudo. sucessivamente.. como tal. O futuro... portanto... do futuro e não mais do passado.] (Hartog.] a reviravolta de toda uma época”. De acordo com Philippe Lejeune (1993. por princípio. de virtude. de fé.] biografias retocadas e seguidoras de modelos estereotipados e normativos”. com a idéia de que “todos os homens nascem livres e iguais em direito”. da passagem do vício à virtude.. nas hagiografias. “[. [. menos exemplares”. pedagógico: mais do que apresentar a vida de um homem. as histórias de vida de pessoas mais comuns. etc.

orientando-se para a descrição não apenas de vidas. uma ordem do tempo. Conforme Tadié (1970. a biografia acabou sendo exilada dos domínios da historiografia. essencialmente individualista. que se manifesta das mais variadas formas: nos auto-retratos. na autobiografia. o século XIX marca o triunfo do eu. Tarde. 24). p. como Michelet e Lavisse. ancoraram suas narrativas em noções coletivas como “povo” e “nação” (Weinberg. Também os grandes historiadores do século XIX. Enfim. Um regime. mas de sociedades que se curvavam frente à onipotência de indivíduos geniais. uma rítmica. 60 MÉTIS: história & cultura – v. especialmente no campo literário. Segundo ele. considera que a narração histórica de vidas individuais encontrou. mas um plano de pensamento de longa duração. da introspeção. Em todos os gêneros literários.. Apesar de ser também o século da descoberta da multidão (com Le Bon.6 o século XIX dá proeminência ao indivíduo como fonte de inspiração e objeto de reflexão.. conhecer-se são palavras de ordem da burguesia oitocentista (Gay. “recicla” os elementos anteriores da relação de tempo. finalmente. 2003 . a biografia foi um elemento importante na difusão da mística do individualismo burguês. 203). Uma grande parte das obras biográficas escritas nos finais do século XIX e princípios do século XX testemunham um ideal de sociedade onde os homens capazes encontrariam abertas todas as possibilidades de sucesso.]. Assim. e mesmo nas reações as mais anti-românticas na aparência. 1987). 44). p. revelar-se. “o século XIX inteiro fala na primeira pessoa.. jamais existe em estado puro. que permite e proíbe pensar certas coisas. o regime moderno de historicidade e o (ínfimo) papel nele ocupado pelo gênero biográfico foram alvo de críticas desde o seu surgimento. de outra maneira [. as transformações históricas aparecem como produtos de forças (leis naturais e imutáveis) impessoais. n. 2.positivismo e o marxismo. Em ambas. Romantisme. ou talvez por causa disso. 57-72.] não é uma entidade metafísica. p. vinda do céu. do individualismo. Rodrigues (1978. apesar de suas tradições clássicas. p. a fim de fazer com que ele diga outra coisa. p. um regime de historicidade reformula. ao contrário. 2000. uma respiração. para além de todas as escolas. neste regime moderno de historicidade – no qual não cabe à história oferecer exemplos para o presente mas. cabendo ao indivíduo uma ínfima margem de atuação. Desnudar-se. 1999. a subjetividade se afirma como em nenhuma outra época”. 10) salienta que o regime de historicidade [. Hartog (1997./jun.. jan. Paradoxalmente. de outro ponto de vista. Contestado tão logo de sua instauração. no gosto pelos diários e memórias. 3. um forte estímulo com o advento da sociedade burguesa. entre outros). A biografia também desponta nesse panorama. no romance. projetar o futuro e perceber como ele esclarece o passado –.

O slogan “Tudo. por exemplo.. pichado nos muros de Paris. [. ou gerando. que é também a morte coloca-se na frente a vida e o presente. posição criticada pelo autor: “um homem não pode dar prova mais tristemente espetacular de sua própria pequenez que ao se negar a crer nos grandes homens”. – p. em nossa relação de tempo. do futurismo para o presentismo: para um presente que é. os opositores da concepção heróica da história viam o “grande homem” como um “produto de sua época”. onde mais de meio milhão encontraram sua morte. Na visão de Carlyle. escreveu: “um acontecimento no qual milhões de homens se mataram. quase diariamente. no século XX. seu próprio horizonte.. de forma nem imediata nem direta.Thomas Carlyle (1997. 11-13).. Essa. referindo-se à invasão napoleônica na Rússia.] Passou-se. não pode ter por causa a vontade de um só homem [. afirma o presente como único tempo possível: contra o passado.. Léon Tolstói (1974. p. ainda em 1840. e negar mesmo que sua existência seja desejável”.7 O século XIX foi marcado pela discussão a respeito do papel do indivíduo na História. voltando sua atenção para outras temporalidades como a “longa MÉTIS: história & cultura – SCHMIDT. A historiografia respondeu a essa mutação. deplorava o fato de viver em uma época cética: “o período no qual nós vivemos [. O romancista. tecendo uma crítica à perspectiva da história heróica: “Para o historiador.] É justo considerar que a alma de toda a História do mundo é a História de seus heróis. [.] A História do mundo não é mais que a biografia dos grandes homens”. que.. 785) também participou desse debate. De acordo com Hartog (1997... estigmatizando a biografia como um gênero menor. para si mesmo. instaura-se um novo regime de historicidade.] não é no fundo outra coisa que a história dos grandes homens.. o passado e o futuro de que necessita cotidianamente. mas ele deve ter homens comuns”. portanto.] parece negar a existência de grandes homens. Benito B.] a História Universal [... contra a celebração do passado e a idéia de progresso. Para o artista. [.. existem os heróis. 23-55). 780.. “[. Para ele. imediatamente!”. 57-72 61 . mais próximo do anedótico e do antiquarismo dos amadores. que examina as reações de um personagem em todas as condições da vida. à medida que se constituía como uma disciplina autônoma e com pretensões científicas. p. em 68. Sem futuro e sem passado. é um bom exemplo dessa “hipertrofia do presente”. acabou menosprezando o estudo de trajetórias individuais. progressivamente.. o presentismo. que examina o papel de um personagem histórico na realização de algum objetivo único.. ele não pode e não deve ter heróis.] há uma infinidade de causas e nenhuma delas pode ser chamada de a verdadeira causa”. p.

Como afirma Le Goff (apud Weinberg../jun. de objetos. 2.. Segundo Hartog (1997. n. etc. mais precisamente. ou ainda. já inquieto. as biografias de personagens célebres continuaram a chegar nas livrarias. organizada por Pierre Nora entre 1984 e 1993 (cf. de gênero.] em favor da biografia: no crepúsculo de um século XX objetivamente acabado. p. de paisagens. nacional. cronológica. jan.8 Contudo. mais próxima do cotidiano – tinha um espaço muito pequeno. geracional.. 15). de forma semelhante.]. “houve – de forma particularmente sensível no movimento dito dos ‘Annales’ – uma eclipse da biografia histórica no coração do século XX”. preocupados com o estrutural e o coletivo. Nesse sentido. 44-45). seriam recriados – a fim de servirem como referências para o presente e como recordações de um passado idealizado. em todo caso. nesse período. p.duração” braudeliana ou a “história imóvel” de Le Roy Ladurie.. p. a “história antropológica” de Le Goff. 1995).. preocupado com a memória e as genealogias [. p.: Annales HSS – dossiê Le temps désorienté. no plano das mentalidades. mas tais obras eram menosprezadas pelos historiadores “científicos”.”.]. nessa perspectiva. de espécies animais) e ansioso pela defesa do meio ambiente [. como constitutivos de uma suposta identidade de classe. a biografia – ligada a uma temporalidade curta. 57-72. 2003 . a cultura parece tomada de pânico diante do desmoronamento não numérico. de fato reconstituir. regional. Talvez seja possível pensar que o dito “retorno” do biográfico também acompanha essa onda de interesse pela história-memória. atendendo ao gosto de um público sempre ávido por títulos como “A vida secreta de.. pelo patrimônio e pelas comemorações de efemérides nacionais são sintomas importantes das “falhas do presentismo”. 24). um passado já desaparecido ou a ponto de apagarse.. preocupado com a conservação (de monumentos. descobriu-se em busca de raízes e de identidade. também relaciona o interesse atual pela biografia com a busca de uma identidade por meio da história-memória: Um traço mais geral joga [. Obviamente que. No campo da historiografia. “Os segredos de. racial. a obra emblemática dessa tendência é Les lieux de mémoire.” etc. esse presente busca uma identidade: a moda “retrô”.. 3. de modos de vida. os personagens do passado “ressuscitariam” – ou. Arnaud (1989.. o gosto por filmes e romances históricos e o interesse pela memória. sem volta. 2000. Como se se desejasse preservar. mas 62 MÉTIS: história & cultura – v. Incapaz de saciar-se por si mesmo.. o presentismo vai conhecer fissuras sobretudo a partir dos anos 80: Este presente. événementielle..

anti-histórico. MÉTIS: história & cultura – SCHMIDT. 101102).. p.. dizia Muzil – sucedeu aquela de uma sociedade flexível e de um eu todo poderoso. Em contrapartida. aos fundamentos da ordem. comandam os mecanismos econômicos. Interrogar-se sobre um homem. depois da Primeira Guerra Mundial.. abordando o caso francês. 1989. uma defesa quase cega. No campo do conhecimento histórico. – p. 1994. organizam as relações sociais. [. pós-literário – à “aldeia universal” sob dominação americana... pois ela não permitia perceber os grandes conjuntos econômicos e sociais. 48): Parecia-me que o estudo das estruturas era insubstituível. p.. Ele iluminava o passado com uma maravilhosa coerência... de viver. 57-72 63 . e também no da literatura (Arnaud.] a biografia estava plenamente legitimada pela história política. “antes de mais nada [. espacial.] apenas ela pode dar aos historiadores o sentimento do tempo vivido pelos homens. mas que escapam. por seu próprio fracionamento. ao objetivo ao qual se propõem secretamente [. sobressalto de um olhar em migalhas que tenta se reconstituir através de diversos museus. de escrever. a retomada dos estudos biográficos relaciona-se igualmente com a crise do paradigma estruturalista. dicionários e enciclopédias que pululam hoje. Sintoma entre outros. engendram as formas do discurso”. resumem com precisão os encontros e desencontros entre história e biografia nas últimas décadas: [. Os “Annales” lhe negaram todo o interesse. as formas e os comportamentos aparece como a última ambição coroada de um sucesso público. segundo o qual a história deveria. ao evento. e necessariamente sobre um homem conhecido. recapitular as personalidades. Diante do impulso de sua rival “macluhaniana”.] identificar as estruturas e as relações que. aos encadeamentos cronológicos. 1989). a galáxia Gutemberg faz o recenseamento de seus bens. A Europa extrai da desordem seu último (?) fogo de artifício antes da grande conversão ao universo visual. Benito B. [. a onda da biografia aparece como uma resposta instintiva. os historiadores atuais “quiseram restaurar o papel dos indivíduos na construção dos laços sociais” (Chartier. Mas tornavao muito simples.qualitativo do escrito. Concluindo essa primeira parte do artigo. da estética e do eu. E uma biografia permite lançar um primeiro olhar sobre a opressiva complexidade das coisas. cito as palavras de Prost (1996. Reação um pouco medrosa.. aos empreendimentos que visam. Segundo o depoimento de Guenée (apud Le Goff. p. O estudo das estruturas me parecia também dar um espaço demasiadamente grande à necessidade..] Uma biografia permite conceder mais atenção ao acaso. À representação de uma sociedade de estruturas onipotentes e de um indivíduo plástico – “coloidal”.]. independentemente das percepções e das intenções dos indivíduos. 86) que. Fazer o inventário dos modos de pensar.

que permitiria uma compreensão global da sociedade e de sua evolução. p. 3. religiosos...] e atraídos pelos direitos autorais. jan. Mas esta não é mais exatamente a mesma biografia. acredito que a questão seja pertinente. pois. Neste novo contexto. 2. aceitaram este trabalho encomendado e nele encontraram um interesse. No caso específico da biografia. p. seduzidos pela esperança de notoriedade [.. através dele. 2003 . Mas ela respondia a uma demanda do público. p. 49-50): 64 MÉTIS: história & cultura – v.. A primeira dessas controvérsias poderia ser: até que ponto as novas biografias são realmente novas? Em outras palavras. o vento biográfico encontra janelas abertas. a interferência de lógicas e a articulação de redes complementares. travestem-se. concepções sobre a história bastante ultrapassadas. em 1985. estava assim situada fora de uma história científica que se queria geral. a configuração teórica da história mudava. Valendo-me de sua metáfora. Os editores solicitaram os historiadores que. As grandes coleções conheceram um verdadeiro sucesso. que “um vento de biografia sopra hoje sobre a história”. mas sempre presente a bafejar sobre a história. A esperança de uma história sintética. ora brisa. sob a rubrica da novidade. Tornava-se mais interessante compreender./jun. 57-72. Controvérsias em torno da biografia: o que há de novo? Torres (1985. muitas vezes. esfumava-se. Simultaneamente. de uma história total. como salienta Petersen (1992). tentarei mostrar porque “esta não é mais exatamente a mesma biografia”. a biografia. a biografia mudava de status e encontrou uma legitimidade. a fim de escaparem à crítica. são significativas as palavras de Le Goff (1989. ocorreu uma verdadeira renovação do gênero ou apenas a retomada de uma antiga forma de escrita da história já tão criticada? Embora ciente do esquematismo da contraposição antigo/novo. culturais. os funcionamentos sociais. prefiro dizer que esse “vento” vem de muito longe: ora ciclone. individual e singular por definição. n. No contexto historiográfico atual. 141) afirmava. Nos anos 1950-1970. e não é mais apenas aquela dos “grandes” homens: ela busca menos determinar a influência do indivíduo sobre os eventos do que compreender. a partir de casos concretos. por vezes apenas um suspiro. trazendo consigo antigas controvérsias e apontando para novas reflexões. era desperdiçar um tempo que teria sido melhor empregado em descobrir o movimento dos preços ou em circunscrever o papel dos grandes atores coletivos como a burguesia.pois os outros raramente deixaram traços. A seguir.

Nesse sentido. geralmente. Mais tarde. Porém. defendeu a história-problema. ao menos em um certo grau. Isso acontece. ele também questiona: Agora que a história foi profundamente renovada. sem preocupações explicativas e analíticas. nos últimos anos. na fase Braudel. realizaram. procurando integrá-las às suas preocupações. por exemplo.. após a Revolução Francesa e o Império que “nada aprenderam e nada esqueceram.. herdeira e continuadora dos “Annales”. tratou de recolocar a possibilidade de articulação entre narrativa biográfica e história-problema. o historiador partiu da trajetória de Rabelais para discutir o problema mais geral da possibilidade ou não do ateísmo no século XVI. A retomada atual do gênero. o indivíduo – compreendendo-se neste o “grande homem”. meramente cronológica. a política. relato. Nesse sentido. 57-72 65 . – p. considera que “[.. bem sucedidas biografias nas quais a história-problema permanece como horizonte. estes inevitáveis objetos da história que são o evento. Benito B. incapaz de mostrar a significação histórica geral de uma vida individual. Assim. contra a história événementielle. alguns dos historiadores-chave da nova história francesa.] Uma verdadeira biografia é inicialmente a vida de um indivíduo e a legitimidade do gênero histórico passa pelo MÉTIS: história & cultura – SCHMIDT. que antes tinham como objeto preferencial as mentalidades. o historiador não é capaz de retomar. a biografia foi preterida em favor da história econômico-social e da temporalidade da longa duração. objetos outrora traídos por uma historiografia positivista redutora e mistificante que os “Annales” tiveram o grande mérito de combater vigorosamente? [. para uma renovação. por exemplo. parte essencial da escrita biográfica. Apesar da inegável existência de um oportunismo acadêmico/editorial. uma das críticas mais comuns dirigidas às biografias é a de que elas seriam meras narrativas cronológicas. acredito que muitos trabalhos biográficos produzidos recentemente apontam. sem que se abra mão da narração. Le Goff (1989.] a biografia histórica deve se fazer.O que me desola na atual proliferação de biografias é que muitas são um puro e simples retorno à biografia tradicional.. 49-51). Lucien Febvre analisou trajetórias individuais sem abrir mão da perspectiva da história-problema. pelo menos em certos casos. que se sacrifica a uma psicologia desatualizada. Tal contestação partiu sobretudo do movimento dos “Annales” que. em Le problème de l’incroyance du 16 siècle. narração de uma vida. anedótica. fatuais. coletivas por excelência. cientificamente e mentalmente melhor aparelhado. quando seus autores levam em conta as críticas já feitas ao gênero. É o retorno dos emigrados. p. superficial. mesmo na primeira geração da Revista. Porém. sim. ela se articula em torno de certos eventos individuais ou coletivos – uma biografia não événementielle não tem sentido”.

respeito a este objetivo: a apresentação e a explicação de uma vida individual na história.. Mas continuava atendome à história-problema. de documentos. jan. mais chances de ter por herói um ‘grande homem’ do que um homem comum”. Mas na realidade não me desviava nem um milímetro de meu percurso. Le Goff afirma: “Para o historiador. Duby – que escreveu a biografia de Guilherme Marechal./jun. o São Luís. 2003 . alguns autores parecem respaldar tal perspectiva. São Luís entra em uma categoria da Idade Média. De forma semelhante. voltam sua atenção para os “grandes homens”. 49-50). p. Citando o exemplo de seu estudo sobre o rei da França Luís IX. Contava uma história. relegando à obscuridade os indivíduos das classes populares. dispor de informações suficientes para escrever uma biografia outra que aquela de um personagem de primeiro plano”. de uma questão. 1993. 66 MÉTIS: história & cultura – v. em todo caso. declarou: [. Eu era. em geral. à história questão. ao comentar as motivações que o levaram a realizar essa obra. Le Goff afirma: Rei e santo. p. seguindo o fio de um destino pessoal. Mas uma história iluminada pelas novas concepções da historiografia. na tradição do espírito dos “Annales”. os representantes das elites políticas. com efeito. ela tem boas chances de ser dedicada a um político ou a alguém que tenha ligações com a política. cavaleiro medieval que foi regente do rei da Inglaterra Ricardo III (Duby.. o primeiro dentre os epígonos de Marc Bloch e Lucien Febvre a aceitar escrever a biografia de um “grande homem”. por exemplo. Referindo-se especificamente à época de São Luís.] deve ser consagrada a um personagem sobre o qual possui-se o suficiente de informações. 57-72. que está ligado aos documentos. Minha pergunta continuava sendo a mesma: que é a sociedade feudal? (Duby. ao fato de que os biógrafos. ou seja. Na historiografia atual. Le Goff (1989. Segundo ele.. 2. Outra crítica muito comum feita aos estudos biográficos relaciona-se a um suposto elitismo natural do gênero. Eu estava voltando sem rodeios à narrativa. 137-138). 3. é muito difícil. assim. p. militares e intelectuais. Ele se conformou ao modelo desta categoria ou manifestou diferenças devidas à época ou ao que se pode reconhecer como sua individualidade? A biografia parte. 1987) –. Ela tem. como a biografia histórica “[. reconheço – dizia respeito à forma. aquela dos santos reis. n.. antes do século XIV no Ocidente. atribui essa limitação à escassez de fontes.] eu podia ser acusado de trair o “espírito dos Annales”. A única modificação – das mais importantes. formula-se como um caso de história-problema.

O estranho é que tais questionamentos normalmente só são feitos aos “pequenos personagens”. é plenamente justificável procurar estender o conceito histórico de indivíduo às classes mais baixas pois “alguns estudos biográficos mostraram que um indivíduo medíocre. – p. representatividade? Ou: o que é um indivíduo representativo? Trata-se de uma representatividade estatística? Existe um “homem médio”? Quem representa quem. se a documentação permite. 57-72 67 . Afinal. mas também em alguns trabalhos de historiadores franceses (Vovelle. o seu gênero.Entretanto. etc. enfim. Corbin. Benito B. o seu grupo social. o seu país. a qualificação de elitismo atribuída ao gênero biográfico não se sustenta diante de um exame da produção historiográfica atual. para além do sentido político da representação? MÉTIS: história & cultura – SCHMIDT... Poder-se-ia ir mais longe e perguntar: o que é. Além disso. No Brasil. soaria estranho perguntar pela representatividade de um Napoleão Bonaparte ou de um Getúlio Vargas. afinal. todos compartilham..] da cultura do próprio tempo e da própria classe não se sai a não ser para entrar no delírio e na ausência de comunicação. determinados códigos culturais. Nas palavras do historiador italiano: [. com a produção de biografias de militantes operários. destituído de interesse por si mesmo – e justamente por isso representativo – pode ser pesquisado como se fosse um microcosmo de um estrato social inteiro num determinado período histórico [. É comum perguntar ao biógrafo em que medida o personagem por ele examinado representa a sua época. De acordo com ele.]”. Isso vem ocorrendo sobretudo por inspiração da micro-história italiana (Ginzburg. na qual a idéia de “história vista de baixo” já foi incorporada à análise de trajetórias individuais.. Este alargamento do panteão dos biografados remete a outro problema crucial: o da representatividade. 1987). outros historiadores – com o uso de muita criatividade na localização e leitura de novas fontes ou na releitura de documentos conhecidos – têm conseguido iluminar as vidas de indivíduos comuns.. escravos e ex-escravos. a cultura oferece ao indivíduo um horizonte de possibilidades latentes – uma jaula flexível e invisível dentro da qual se exercita a liberdade condicionada de cada um.. 27). Assim como a língua. por mais singular que seja um indivíduo – como é o caso do moleiro Menocchio por ele estudado – existem sempre pontos de contato entre suas práticas e suas idéias e as dos seus contemporâneos. 1985. Uma resposta possível à questão foi dada por Ginzburg (1987. como se a atuação de um “grande homem” justificasse por si só a realização de sua biografia (essa sim uma perspectiva elitista!). percebe-se um movimento semelhante. etc. 9 Enfim. p. 1998). em maior ou menor grau. de populares.

suas imbricações recíprocas. Isto quer dizer que ele constrói um universo de responsabilidades sob coações. complexificar. a história política. afinal de contas. e nem isso seria possível e desejável. mas onde a liberdade jamais é total. contudo. a margem de iniciativa dos atores parece em grande parte ilusória [.. 3.. ele é obrigado a cruzar umas com as outras e a discernir.]. A história econômica ou social está mais do lado dos constrangimentos. ao historiador biógrafo –. mais especificamente. aquela dos partidos. Na análise das crises. em função de um critério decisivo: a participação que os atores podem ter nas diferentes situações históricas. a tensão. aquela das revoluções e dos golpes de Estado está mais do lado dos atores. cabe a ele mantê-la como constitutiva de sua explicação e da sua narração da história. p.. por conseguinte. 14-15). 57-72. das grandes transformações como a industrialização ou a urbanização. Em uma das extremidades desta hierarquia. De um lado as coações. matizar. p. onde a fatalidade é excluída. [. na nossa época – quando a massificação do cotidiano e o controle social possibilitado pelas novas tecnologias de informação e comunicação fazem lembrar o “1984” de 68 MÉTIS: história & cultura – v. n. [Porém] não há crise sem banqueiros ou sem ministros de finanças. a força das coisas. é basilar na tradição filosófica ocidental mas. Inversamente.]. Parece-me que não cabe ao historiador – e. faz parte do ofício do historiador examinar e hierarquizar as causas de um determinado fenômeno histórico. relativizar ou mesmo negar as análises generalizantes que excluem as diferenças em nome das regularidades e das continuidades. a biografia pode servir para introduzir o elemento conflitual na explicação histórica. 10 Nesse sentido. resolver essa tensão que. Conforme Prost (2000. transformando a situação [... ao invés de se pretender representativa. e mesmo das correntes de pensamento como as Luzes. aqueles que dependem diretamente de sua intervenção. ao contrário. não há greve sem sindicatos. não há correntes de pensamento sem escritores. que eles suportam sem poder lhes influenciar. seguidamente.] O historiador não pode obviamente fundar sua explicação exclusivamente sobre as tendências pesadas ou sobre as intervenções dos atores. De seu ponto de vista./jun. entre liberdade e necessidade. Na outra extremidade.Parece-me que. tanto quanto possa. os fatores massivos. é pertinente retomar o velho problema filosófico da relação entre indivíduo e sociedade e. De acordo com o tipo de história. ela acentua as decisões que influenciaram o curso das coisas. ela acentua a lógica das evoluções. que. para ilustrar. as tendências pesadas. jan. 2003 . de outro a decisão. Essa ordenação ocorre.. aquela dos erros e dos sucessos dos governos. os historiadores são mais sensíveis ao peso das coações ou ao papel dos atores. 2. aqueles sobre os quais os atores nada podem. Não se pode negar. exposta de forma tão bela por Tolstói em Guerra e Paz.

mesmo que tangencialmente. pode-se dizer que muitos historiadores. questionou o pressuposto. opressão e extermínio. ao biógrafo. ao contrário. Cabe. Tal enfoque evidencia a tentativa de entender a história pelas margens e de responder. e o indivíduo não pode ser visto apenas como um produto das condições históricas. acompanhar o “fazer-se” (parodiando Thompson) do indivíduo ao longo de sua vida. também. levando em conta os diferentes espaços sociais por onde ele se movimentou. oscilações. o que transparece na atenção dada às trajetórias de “desviantes” de todo tipo: heréticos.]” . mas também na participação de diversos personagens em atos de violência. Bourdieu (1996.. uma coerência e um fim. A última crítica feita às biografias a ser abordada nesse artigo diz respeito à “ilusão” que as narrativas do gênero produziriam: a ilusão de que a vida tem um sentido imanente. Benito B. etc. mas também suas percepções subjetivas. então. feministas. mesmo que intersticial. de um projeto [. os acontecimentos biográficos devem ser entendidos como “colocações e deslocamentos no espaço social” e as trajetórias dos indivíduos “como série de posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente (ou um mesmo grupo) num espaço que é ele próprio um devir. de intervenção no curso dos acontecimentos? Esse questionamento conduz. têm mostrado que esse gênero já tão velho pode ainda renovar-se e apontar para novas possibilidades de se compreender. 57-72 69 . os biógrafos têm se mostrado mais propensos a indicar os espaços de liberdade do indivíduo frente aos sistemas normativos vigentes. um conjunto coerente e orientado.. Finalizando. a biografia não pode ser narrada como a revelação de um sentido já dado a priori ou como a realização de um plano pré-fixado e conhecido pelo historiador que parte de uma visão retrospectiva. 184-190). leva a pensar não só na resistência à ordem estabelecida. Para ele.11 Logo. – p. p. curandeiros.. que pode e deve ser apreendido como expressão unitária de uma ‘intenção’ subjetiva e objetiva. enfim. entre outros. revolucionários. a possibilidade da liberdade. a uma questão existencial: qual é a nossa possibilidade de individuação. de criatividade.Orwel –. Por conseguinte. sem renunciar à biografia mas incorporando as críticas que a ela já foram feitas. como se coloca a noção de responsabilidade individual? Afinal. “de que a vida constitui um todo. escrever e construir a história. a um problema ético: se o peso dos atores é decisivo. MÉTIS: história & cultura – SCHMIDT. presente na maior parte dos trabalhos do gênero. pensadores utópicos. repressão. estando sujeito a incessantes transformações”. aqueles que vão contra. hesitações e mesmo o acaso. as disciplinas e os padrões morais e sociais vigentes. a personalidade seria “o conjunto de relações objetivas que unificaram o agente considerado”.

Para um balanço. ver: Berlin (2002). De acordo com o primeiro. jan. 40) apresenta um panorama semelhante no âmbito da literatura. 50) afirma que “o intimismo aparece sobretudo como uma das reações da burguesia à sociedade industrial de massa que engendra a semelhança e a promiscuidade [. pois a idéia de explicar uma obra através da vida de seu autor foi desacreditada em favor da análise estrutural dos textos. 38) a essa perspectiva./jun. liberado a si mesmo. p. 5 Para uma visão diferenciada das biografias de Plutarco. a quem também agradeço. 11 10 Sobre a questão da liberdade e da necessidade em Tolstói. 2 Ver. n. a biografia literária conheceu um eclipse no século XX. Rabelais e Margarida de Navarra (Raminelli. ver o texto de Maria Aparecida de Oliveira Silva incluído nesse dossiê. Clos considera que “ao experimentar as relações sociais que o constituem. Duby (1987). 9 Sobre a noção de regimes de historicidade.. buscando diferenciar-se do subjetivismo. Ginzburg (1987). Muitas das reflexões aqui apresentadas têm origem nas leituras e discussões feitas no seminário “L’expérience individuelle: la subjectivité et l’acteur dans les processus historiques”. Arnaud (1989. ver também Koselleck (1990). e freqüentemente sem sabê-lo. cujos atos são vistos apenas como adaptações a diferentes espaços sociais. (1998). Le Goff (1996 e 1999) e Vovelle (1985). ver: Schmidt (1998) e Xavier (2000).. as obras de Lucien Febvre consagradas a Lutero. o sujeito. p. 70 MÉTIS: história & cultura – v.]”. 57-72. Bourdieu. 2.. 1990). 1 8 Saliente-se.Notas A primeira versão deste artigo foi elaborada como parte do relatório final das atividades desenvolvidas durante um estágio de “bolsa sanduíche”.]”. Salvo quando indicado. 7 4 3 Ver entrevista de Sabina Loriga incluída neste dossiê. Agradeço à Capes pela concessão da bolsa. como exceção a essa afirmativa. 3. “a literatura pré-existe ao escritor. coordenado pela Professora Sabina Loriga na École des Hautes Études en Sciences Sociales. ao deixar de lado a “topologia subjetiva” do sujeito. faz funcionar a dialética das possibilidades e impossibilidades subjetivas que sua história sedimentou”. Para os representantes dessa tendência. p. A obra quer a morte de seu autor para viver plenamente [. p. Chamo a atenção para a pertinente crítica de Clos (1989. 6 Nesse sentido. as traduções do francês são de minha responsabilidade. realizado no Centre d’Histoire Sociale du XXe siècle – Université de Paris 1 – Panthéon-Sorbonne durante o primeiro semestre de 2000.. acabou caindo em uma “ilusão sociologizante”. entretanto. entre outros: Corbin. substituído pelo “agente”. Madelénat (1989. 2003 . Segundo ele.

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