You are on page 1of 3

100 Anos de Ensino de Arquitetura e Urbanismo em São Paulo

O centenário da abertura do curso de engenheiros-arquitetos da Escola Politécnica, o primeiro curso universitário nessa área em São Paulo, nos dá ensejo para uma avaliação dos nossos cursos de Arquitetura do presente. Podemos nos perguntar se a formação técnica dos atuais cursos é a mais adequada e se os profissionais que formam são os que melhor servem ao país e à sua própria vocação. E perguntar se os cursos atuais são mais eficientes que os do passado. Quase todos os politécnicos que tiveram destaque na vida pública eram engenheiros-arquitetos ou engenheiros civis e arquitetos: Ramos de Azevedo, Alexandre Albuquerque, Hippolyto Pujol, Anhaia Mello, Prestes Maia, Guilherme Winter, Cerqueira César, Artigas. Em primeiro lugar devemos lembrar que este ano podemos comemorar também os 300 anos de existência comprovada da mais antiga Aula de Arquitetura Militar no Brasil, a da Bahia, já existente em 1696, certamente o início do ensino de Arquitetura, em todo o país. Diversamente do que se poderia supor, as Aulas de Arquitetura formavam profissionais que não eram conhecidos como arquitetos mas como engenheiros. Naquela época, a atuação profissional nessa área era dividida apenas entre Arquitetura Militar e Arquitetura Civil. A edificação civil era sempre entendida como Arquitetura Civil e exercida por engenheiros. Não se supunha também que os arquitetos pudessem exercer suas funções sem envolvimento direto com a direção das obras. Na França, os caminhos percorridos não foram os mesmos. Nos séculos XVII e XVIII desenvolveu-se em Paris o trabalho arquitetônico na Academia, com ampla base histórica, para atender à demanda de uma arquitetura especializada, de representação oficial e privada, mais do que utilitária. É fato bem conhecido, no Brasil, que em tempos de Napoleão Bonaparte, com a criação da Escola Politécnica e da Academia de Belas Artes de Paris, as atividades de projeto arquitetônicos se tornaram relativamente independentes da construção, com a definição final de duas profissões, ambas envolvendo as atividades de edificação civil e, no caso dos engenheiros, com as outras áreas, do campo que hoje conhecemos como Engenharia Civil, como obras de infra-estrutura, cálculos estruturais e instalações.

o curso estava próximo das duas tradições mencionadas.como a elaboração de normas técnicas. e como a tradição alemã. E quase todos tiveram destaque na vida pública. Na Alemanha. que de resto continua a não existir nos dias atuais. Eram comuns os casos de engenheiros civis e arquitetos que associavam as duas competências.e sua brilhante capacidade de articulação entre o desenvolcimento da indústria e o desenvolvimento de uma arquitetura racionalista. Ao organizar a Politécnica. até pouco antes de 1930. Essa combinação produzia efeitos para o que hoje entendemos como engenheiros. porque eram também "arquitetos") e demonstrou suas qualidades projetando a Escola Caetano de Campos. É interessante observar que Ramos de Azevedo formou-se na Bélgica como engenheiro-arquiteto e Paula Souza formou-se em engenharia na Alemanha ( onde os engenheiros tinham uma formação humanística. quando pensamos no curso de engenheiros-arquitetos da Escola Politécnica e no prestígio social que alcaram os profissionais ali formados. Podemos dizer que. que se tornaram famosos no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. para os alemães eram um tipo de engenheiros. Os que tinham menos talento para projetar.Mas não é tão conhecido. Na Inglaterra. como os arquitetos atuais não estão conseguindo alcançar. . E foram esses. Pelos seus padrões. de padrões para racionalização de componentes e luta pela industrialização das edificações . Max Hehl. Hippolyto Pujol. Era como uma continuação das Aulas Militares de Arquitetura que formavam engenheiros. à margem da Academia de Belas Artes. até meados do século XIX não existiam cursos de Engenharia Civil. A formação profissional visava a competência e não uma reserva de mercado. projetava bem e revelava qualidade como crítico de Arquitetura. Essas duas tradições nos voltam à memória. exatamente. a liderança do Movimento Modernista esteve com os alemães. E o primeiro brasileiro a coordenar o Gabinete de Resistência dos Materiais da Politécnica. formado do mesmo modo. Mas não havia regulamentação da profissão. Os profissionais da área de edificação civil. a separação não se concretizou. como também para os arquitetos. o fato de que essa separação não ocorreu da mesma forma em outros países. levou para seus quadros um engenheiro alemão. era engenheiro-arquiteto. que conhecemos como arquitetos. no Brasil. pela modernidade de sua arquitetura e por suas extraordinárias contribuições técnicas .

na vida política do estado de São Paulo. para aprender a controlar uma obra. A reforma de 1969 afastou dos quadros da FAU-USP os professores engenheiros. A formação humanística na Politécnica formou duas gerações de profissionais que souberam olhar para o futuro e liderar o desenvolvimento. Construir bem era uma obrigação. como faziam os nossos antigos engenheiros-arquitetos. com um mercado de trabalho que se estreita sempre mais. do ponto de vista de seu futuro profissional e do ponto de vista dos benefícios para a sociedade. A criação das faculdades de Arquitetura nos afastou das escolas de Engenharia e nos aproximou da tradição das academias de Belas Artes. Mas na FAU-USP.terminavam sempore por construir e muitos estiveram entre os melhores construtores de São Paulo. que tiveram apenas 4 meses de aula sobre Arquitetura e arquitetos que vivem à margem do controle da produção da construção civil. Pelo menos para os jovens. esta é uma boa oportunidade para uma avaliação dos resultados dessa situação. sob muitos aspectos. de início os professores engenheiros ainda pertenciam aos quadros da unidade e os alunos podiam. Hoje temos projeto arquitetônicos feitos por engenheiros civis. fazer o curso de mestre de obras do SENAI. Figueiredo Ferraz retirou-se da última sessão conjunta de nossa congregação protestando em altos brados e uma ou duas semanas antes de falecer nos reiterou seus protestos. se quisessem. . os arquitetos argentinos constroem obras que projetam e mesmo executam obras para outros profissionais. na sua área e. para estudantes de Engenharia e Arquitetura. bem perto de nós. Hoje.