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ARTUS

INFLUÊNCIAS DO PENSAMENTO PEDAGÓGICO RENOVADOR DA EDUCAÇÃO FÍSICA: SONHO OU REALIDADE?
Neyse Luz Muniz
DEF – UFF

Helder Guerra de Resende
PPGEF/UGF

Antônio Jorge Gonçalves Soares
PPGEF/UGF RESUMO MUNIZ, Neyse Luz; RESENDE, Helder Guerra de & SOARES, Antônio Jorge Gonçalves. Influências do pensamento pedagógico renovador da educação física: sonho ou realidade? Artus – Rev. Ed. Fis. Desp., v. 18, n. 1, p. 11-26, 1998. O objetivo deste estudo foi verificar a influência de princípios e fundamentos teórico–práticos identificados com o Pensamento Pedagógico Renovador da Educação Física (PPREF), considerando os depoimentos de professores de educação física da rede estadual de ensino. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de entrevista e analisados com base nos princípios da análise temática (Bardin, 1977). Constatamos que não existem evidências de conhecimento e apropriação sistemática de princípios teórico–práticos identificados com o PPREF. Fundamentos de abordagens humanistas, embora presentes no discurso de alguns informantes, revelamse contraditórios quando estes justificam e relatam exemplos do que ensinam, como ensinam e o que ocorre durante suas aulas (abordagens tradicionais). Desta forma, pudemos constatar junto a este grupo de professores que as fundamentações e propostas identificadas como PPREF ainda são uma realidade restrita ao discurso dos intelectuais e aos livros que veiculam suas propostas.
Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 11-26, 1998.

Unitermos : educação física, pensamento pedagógico renovador, concepção, intervenção profissional.

A década de oitenta foi um dos momentos marcantes da história brasileira por constituir um período de transição entre o final de um regime de governo autoritário e um novo momento de redemocratização da sociedade. Desencadearam-se, a partir da vida política, processos de questionamento e de mudança em várias esferas sociais. Nesse contexto, os especialistas retomam os argumentos de que a educação deveria ser meio e fim na formação de novas consciências e de um novo cidadão para a sociedade brasileira, processo que ainda está em curso. No conjunto destas mudanças, a formação universitária em educação física viveu um dos períodos mais férteis e singulares no sentido do debate, da formação de uma comunidade acadêmica e do amadurecimento da área. É verdade que muitos processos iniciados na década de oitenta ainda se encontram em debate e em formação. As questões colocadas em pauta e suas respectivas respostas, por mais equivocadas que pudessem ser, provocaram e alimentaram o debate e o amadurecimento acadêmico na área. 11

às diretrizes e aos instrumentos de ação didático–pedagógica norteadores da intervenção do professor. começou a configurar o que estamos denominando de Pensamento Pedagógico Renovador da Educação Física (Resende. essa tendência renovadora apoiouse. publicações e eventos acadêmicos. 2 A sucessão apresentada não implicou na superação dos referenciais anteriores. devemos destacar o engajamento de profissionais da área em cursos de mestrado e de doutorado no Brasil e no exterior. Desp. n. Estes mecanismos de divulgação têm um sentido de formação de opinião no meio acadêmico. frutos do modelo de desenvolvimento e das pressões sociais ocorridas nestas últimas décadas. pelas novas concepções. Fís. Ed. formulamse críticas aos modelos didático–pedagógicos do treinamento físico–desportivo que foram transladados para o ensino da educação física escolar. 12 Artus . tanto de natureza pedagógica. 11-26. tipicamente de denúncia e de crítica. chegando àquelas de orientação marxista. mas o desafio maior dessa produção é atingir o professor que atua na escola. p. . como práticas que estavam associadas quase exclusivamente ao desempenho mecânico/ motor do treinamento físico e/ou desportivo.1 Inicialmente. apesar das críticas que vem sofrendo em relação à sua legitimidade e à sua autonomia pedagógica no contexto escolar. nesse contexto de denúncia das limitações e contradições das concepções rotuladas de tradicionais.Universidade Gama Filho Dentre os fatores que podem ter contribuído para esse amadurecimento. a produção acadêmica de perspectiva renovadora teve o propósito de integrar a educação física no contexto dos discursos e dos projetos educacionais de orientação humanista e democrática. continua a ser uma disciplina curricular obrigatória na educação básica. fundamentalmente. A máxima desse movimento era construir uma pedagogia que considerasse o homem em sua totalidade e ainda o educasse para engajarse criticamente na dinâmica da prática social. 1.. nem naqueles de abordagem tradicional. quanto ideológica. na vertente da denúncia. É importante destacar que no contexto histórico da década de oitenta a educação física como disciplina curricular tornou-se objeto de profundo questionamento no que diz respeito aos sentidos. O Pensamento Pedagógico Renovador da Educação Física (PPREF). No contexto da educação física. Idealizava-se. v. denominou tal concepção de tradicional. O fato é que. contribuir com o processo de conscientização e emancipação sociocultural dos indivíduos. e de anúncio de novos referenciais teóricos.2 Esse movimento pedagógico renovador tem como algumas de suas marcas consensuais a contraposição a determinadas práticas ditas tradicionais. vários estudos foram realizados e uma quantidade significativa de artigos e livros tem sido publicada. Diante disso. 1992). a implementação dos cursos de pós-graduação em níveis lato-sensu e stricto-sensu no Brasil. além de 1 A educação física. trazendo em seu bojo a crítica ao modelo político–econômico da sociedade brasileira e o conseqüente sentido de cidadania. Esse momento. inúmeros eventos acadêmicos de repercussão nacional foram promovidos. além do aumento significativo de pesquisas. A concepção de educação física nomeada de tradicional seria encarada como míope. com ênfase no esporte de rendimento.Rev. Essas eram estandardizadas. Eles conviveram (e ainda convivem) num cenário de tensão e conflito. aos valores. bem como os valores e sentidos vinculados ao pensamento político–social e educacional hegemônico. por entender e intervir na formação do homem de forma fragmentada. assim. afirmando que a neutralidade ideológica era apenas encarada como sintonizada com o status quo. em pressupostos identificados com vertentes do humanismo de base escolanovista. 1998. O suporte teórico de tais formulações apoiava-se em fundamentações da biologia e da fisiologia do esforço. 18.

quando da elaboração da presente pesquisa. p. não acrescendo informações/opiniões novas àquelas já coletadas. como evidenciam os resultados de estudos realizados por Ferreira (1983). O corpus do presente estudo foi constituído pelas entrevistas realizadas com professores de educação física que atuam nas escolas públicas da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro.Rev. Nesta perspectiva. portanto. considerando o referencial teórico que serve de suporte ao estudo de textos. 11-26. com base nos princípios da análise temática. Além dessas características. entrevistas. em função das idéias constitutivas dos enunciados e das proposições que apresentavam significados de conjunto e/ou de singularidade. Desp. A despeito de toda essa produção acadêmica. característica da análise do conteúdo. Assim. padronizante. por concentrar a investigação na opinião que o professor tem da influência dos pressupostos teóricos e didático–pedagógicos identificados com o PPREF na prática do ensino. Necessariamente. que é. Das experiências à formação de concepções Buscamos identificar traços conceituais em relação à educação e à educação física presentes nos discursos dos informantes. esses estudos não tinham como foco levantar a influência do PPREF na mentalidade do professor que estava atuando diretamente na rede de ensino. esses estudos apresentam em comum a constatação do predomínio de intenções pedagógicas ditas de caráter autoritário. Investir nas representações dos professores permite inferir sobre o grau das mudanças e continuidades que vêm ocorrendo na educação física escolar. quanto de suas estratégias de divulgação e disseminação entre os professores. Estudos dessa natureza têm um sentido de crítica e autocrítica. essa opinião revela uma das dimensões da realidade. bem como as orientações básicas do seu fazer pedagógico. já estamos convivendo com esse tipo de produção há cerca de 15 anos e. n. mecanicista. tornouse importante levantar o que os havia influenciado durante a graduação e quais os meios que eles têm utilizado para sua atualização profissional. a representação dos professores a respeito de sua própria prática. ou seja. tanto dos postulados teórico– práticos veiculados pelo PPREF. v.ARTUS provocar mudanças tanto no âmbito da prática pedagógica quanto da prática social. Não nos foge ao conhecimento a limitação que o estudo apresenta. Para isso..3 Entretanto. Dessa forma. A opção por esse procedimento metodológico partiu do princípio orientador da técnica de configuração de amostra denominada “Bola de Neve”. Pediu-se também aos informantes que falassem sobre os objetivos e a metodologia caracterizadores de suas aulas. Ed. Artus . Mapear essas informações tinha por intenção analisar em que medida o PPREF estaria marcado em seus discursos. as mudanças vislumbradas e justificadas academicamente não pareciam estar se efetivando no âmbito da prática pedagógica do professor na escola. 13 . 3 O número de treze professores informantes foi determinado pelo “momento de saturação” das entrevistas. apesar das proclamadas intenções manifestadas pelos professores investigados. Resende (1985. Fís. dentre outros. 1. 1998. isto é. 1994). justificava-se. as entrevistas foram recortadas em núcleos temáticos. momento em que os dados coletados começaram a ser repetitivos. 18. os temas são considerados como unidades de análise pela significação que apresentam. o esforço acadêmico de verificar as influências do pensamento renovador junto aos professores atuantes na escola. segundo Bardin (1977). documentos etc. Os dados coletados foram analisados qualitativamente. mencionada por Becker (1994).

híbridas e tradicionais. Os cursos de reciclagem ou capacitação pouca influência exerceram no sentido de formação de opinião dos entrevistados. mais fortemente. nem sempre bem articulados. Esses dados são interessantes para que se pense meios mais efetivos de atualização dos professores da rede de ensino. 1. 14 . pela via das inúmeras reciclagens e encontros promovidos pela Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro. As influências das abordagens humanistas4 Os pressupostos humanistas serviram de base teórico–metodológica para os primeiros passos do PPREF. cuja pretensão de crítica superadora às rotuladas abordagens de biologização e da desportivização. 18. Os livros são lembrados mais vagamente. Porém. considerando que uma parte dos informantes graduou-se na década de oitenta. foi seu principal alvo. 1998. Ed. princípios. p. são esparsas e assistemáticas. v. Indícios desta abordagem aparecem nos depoimentos de alguns informantes. Acerca da outra parte da amostra. Fís. de formas de agir e de pensar. fortemente influenciado pela abordagem não-diretiva de Carl Rogers. e alguns poucos livros parecem constituir-se nas referências mais significativas durante a formação dos informantes. fundamentos e formas de concepção e de intervenção identificadas como PPREF. julgávamos que teria ao menos a possibilidade de acesso ou informação sobre as proposições e debates acerca do PPREF. Sua influência parece auxiliar a construção das concepções e dos procedimentos de intervenção pedagógica dos informantes. É interessante notar que os informantes indicam como a forma de atualização mais utilizada a troca de idéias entre seus pares. n. presentes no contexto da chamada educação física tradicional. As idéias livrescas que os marcaram. o que não é O humanismo aqui citado refere-se apenas àquele de base circulante na educação física. para que se entenda o baixo consumo ou internalização das idéias proclamadas pela literatura mais densa da área. Este dado coincide com o resultados obtidos por Paiva (dados não publicados). Não podemos aceitar apenas explicações de cunho economicista que justificam a falta de recursos do professor para consumir este tipo de literatura.Universidade Gama Filho Nossa posição era de que os professores universitários do curso de graduação. a literatura específica e/ou outros motivos pudessem ter exercido algum tipo de influência. no sentido de veicular pressupostos. quando constatou a baixa quantidade e qualidade das leituras solicitadas pelos docentes 4 universitários atuantes nos cursos de formação de professores de educação física do Rio de Janeiro. poder-se-ia dizer que tais aspectos se agrupam em três categorias que nomeamos de humanistas.. esse dado nos indica que devemos sofisticar explicações sobre a ausência de leitura na área. por mais óbvio que seja.Rev. o carisma sempre parece ter mais espaço quando o conhecimento é escasso ou onde se promove a ignorância. Em outros termos. Essa marca aparece nos depoimentos como uma espécie de modelo ideal. 11-26. O professor universitário foi lembrado pelos informantes como exemplo marcante de postura. O discurso dos informantes ressalta também aspectos conceituais ligados à educação e à educação física. De fato. Os professores de graduação. quando aparecem. Desp. Entretanto. Artus . ainda que se tivesse graduado na década anterior. pode-se intuir que existe uma relação entre o professor universitário ser a principal referência quando este não fornece aos futuros professores a oportunidade de debruçarem-se nas leituras da área. Pode-se notar que a leitura não é hábito da maioria dos informantes. Acreditamos que estudos mais detalhados sobre a narrativa e sobre o conteúdo dos livros devam ser realizados.

eles vieram ao encontro de uma coisa que eu pensava. segundo os humanistas. mas em horários diversos da aula de educação física.ARTUS garantia de se tratar de posicionamentos deliberados. 11-26. os livros de Medina e de Oliveira foram praticamente desencadeadores dessa tendência Deliberado está sendo usado no sentido do sujeito ter conhecimento e intencionalidade acerca da base teórica que norteia sua prática pedagógica.. Em alguns discursos a idéia de criar um clima de interação facilita a maximização de aprendizagem do grupo. promovendo a confiança necessária para investir naquilo que acreditam e desejam. Ed. Seu modo de pensar foi desenvolvido a partir das leituras de Medina (1983). No entanto.. isto não quer dizer que os informantes que falam da importância do relacionamento interpessoal e afetivo desprestigiem a idéia de maximizar o desempenho físico e motor de seus alunos no seu fazer pedagógico. 18. p. 11) A fala do informante é interessante na medida em que reduz a idéia do termo educação física à prática escolar. mas em um horário alternativo. considerando o PPREF. os aspectos do desempenho motor e físico.. um informante sugere a preocupação com as reações interpessoais travadas no contexto do ensino–aprendizagem. 15 . quando a concepção chamada humanista ganha adesão e começa a circular no discurso da educação física. Segundo o informante pode-se até treinar alunos. quando coloca o treinamento desportivo como uma prática distanciada da educação. Ele valoriza a necessidade de possibilitar o crescimento pessoal dos alunos. os livros citados tecem críticas ao enfoque que vinha (ou vem) sendo dado aos conhecimentos/habilidades sobre os esportes no contexto escolar. Um outro indício da influência de abordagens humanistas pode ser percebido no depoimento de outro informante que chama atenção para a importância de algumas leituras na informação de sua concepção. Como exemplo. Contudo. n. defendida pelos professores por ocasião do processo de formação profissional. v. parece ter marcado e ainda servem de referência para a situação profissional dos informantes. Seu depoimento revela também um sentido crítico quanto à influência de princípios pedagógicos identificados com o esporte de rendimento.Rev. não deve ser feito na aula de educação física. O informante parece acreditar que a aula deve estar pautada em princípios que não discriminem ou marginalizem os menos aptos e que levem os alunos a se conhecerem e a se 5 valorizarem. Artus . Eu faço questão de diferenciar isso. seu alvo de crítica era justamente a idéia de desempenho físico estandardizado no esporte ou em qualquer outro tipo de atividade corporal. 1998. Certamente. Esses livros “foram as primeiras produções na educação física questionadoras da rigidez da prática desportiva” (Inf. 11). Essa valorização das relações afetivas como aspecto primordial é o contraponto à concepção tradicional que evidenciaria mais. que vieram ao encontro das suas expectativas no que se refere ao papel educativo da educação física: . no final da década de setenta. Oliveira (1985) e Coletivo de Autores (1992). Até pode ser feito na escola. de que a educação física não é só desporto.5 Os depoimentos revelaram que a abordagem humanista. Entretanto. fora da aula de educação física. outros comentários de coerência conceitual podem ser vislumbrados a partir desse segmento de discurso. (Inf. Desp. Entretanto. as potencialidades de cada um. criando-se um ambiente de calor humano e empatia. mas eu acho também que isso não é educação. como será visto à frente. eu acho que é importante o treinamento desportivo. 1. além da preocupação com os menos habilidosos. e ao mesmo tempo quebra com a unidade totalizante do termo. Fís.

assegurando um clima de grande satisfação. O discurso reduz-se. p. Uma das críticas às orientações escolanovistas é que essa abordagem se reduz a uma perspectiva subjetiva e individualista. É imperioso a criação de um ambiente agradável. além de necessária a uma educação de corpo inteiro. mas também nos cursos de formação de professores para atuar no primeiro segmento do primeiro grau. Artus . Destas referências. destacado na abordagem “psicologizante” de Rogers. n. a afetividade é um dos aspectos centrais do ato pedagógico. Ed. 18. enfatizando que prática sistemática das atividades motoras. não só nos cursos de licenciatura em educação física. à liberdade e à espontaneidade das crianças. não contestando as determinações político–sociais presentes nessas relações. a tônica das contribuições de Carl Rogers à educação é a formação de atitudes. em detrimento dos pedagógicos. privilegiando-se os aspectos psicológicos e de relacionamento social. O interessante é que o livro do Coletivo de Autores surge para o informante como uma referência que se agrupa aos livros germinais do pensamento renovador. Ela é Contudo. 16 . enquanto o livro do Coletivo de Autores é uma obra mais recente e baseia-se em fundamentos que se autoproclamam superadores em relação à abordagem escolanovista. Consenso e conflito da educação física brasileira. Desp. cercado de muita afetividade. 1. foi o desenvolvido por J. No fundo. que condicionam a prática educativa. Um dos aspectos centrais deste trabalho é a questão da afetividade. quando adequadamente orientada. Freire (publicado em 1989). Ressalta que procura estruturar suas aulas de modo a privilegiar atividades que despertem os interesses dos alunos. desvinculada da crítica superadora às determinações estruturais da sociedade. portanto. A crítica que o informante pinça como fundamental das obras que cita é do tipo interna. essa visão é atualmente contestada pelo próprio Vitor Marinho do Oliveira (ver seu mais recente livro. 11-26. v. Dentre os informantes que se dizem influenciados por leituras identificadas com o PPREF. publicado em 1994). Todo esforço realizado pelo Coletivo de Autores para entender uma educação física escolar a partir da cultura corporal e da luta de classes parece não ter tido eco para este informante. Para Freire (1989). 1998.Universidade Gama Filho pedagógica. B.6 Um outro trabalho de grande influência. constata-se que são assimiladas apenas algumas idéias sincréticas de ordem periférica..Rev. Sua crítica é contra o ensino tradicional e contra o treinamento físico–desportivo. tece críticas aos princípios pedagógicos e psicológicos da desportivização da educação física escolar. como referências pedagógicas para as aulas de educação física. Como sabemos. a chavões ou jargões 6 pedagógicos circulantes nos cenários acadêmico e profissional. o princípio humanista é o que parece ter influenciado mais a percepção de prática do Informante 11. Este autor ocupou-se em esboçar princípios gerais norteadores da intervenção do professor de educação física. defendida nos dois primeiros livros. por reduzir o atendimento do ato educativo ao nível das relações individuais. é condição para o respeito à individualidade. que. apoiado nas idéias de Carl Rogers. a idéia central que se solidifica para o informante (como comentou em outro momento da entrevista) é o clima de prazer e de relações interpessoais que devem ser estimulados no decorrer da aula. face ao propósito de criar-se um clima para o autodesenvolvimento e realização do educando. Uma questão deve ficar aberta: o que leva os poucos leitores da pedagogia da educação física a internalizarem apenas os jargões pedagógicos circulantes? Não se pode esquecer que o processo que desencadeou a mentalidade humanista na educação física foi desenvolvido fundamentalmente por Oliveira (1985). Fís.

Neles podemos perceber a preocupação dos informantes com os aspectos psicológicos dos alunos no processo de ensino–aprendizagem. As influências de abordagens híbridas Estamos denominando abordagens híbridas aquelas em que os depoimentos revelam cruzamentos sincréticos. tem sua raiz nas teses escolanovistas. seu discurso assume coerência entre os jargões e as poucas idéias desarticuladas do humanismo circulante na década de oitenta. por vezes. nos congressos e nos seminários da área. em nível do discurso. do que de estudos realizados a partir das produções sistematizadas no âmbito do PPREF. Esta idéia. da auto-estima e da ludicidade (o que poderia sugerir alguma identificação com a produção vinculada ao PPREF). assim como aos sucessos das experiências de aprendizagem. 1. constatamos que a presença de seus traços nos discursos é praticamente nula. Desp. matriz conceitual fortemente presente na literatura vinculada ao PPREF. quando se analisam os argumentos internos do seu discurso. Artus .. mas que. 18. No entanto. Na verdade. no qual os objetivos vinculavam-se a uma determinada concepção de educação. Pode-se dizer que Saviani (1982) já identificava essa espécie de hibridismo no discurso do professor da escola. mesmo que afirme ser a aula um processo contraditório e conflituoso que deve ser trabalhado e resolvido junto com os alunos. com ênfase na motivação e no relacionamento entre os alunos. religioso e/ou romântico (esta afirmação pode também ser entendida como uma autocrítica do orientador e co-autor deste artigo). ao revelarem seus objetivos de ensino. O discurso da afetividade. Assim. que mencionam como propósito o sentido da corporeidade. exclusivamente. Caíam muitas vezes num mecanicismo de cunho fatalista. começou a ficar cada vez mais evidente que a posição da maioria dos informantes decorre muito mais da apropriação de chavões. não relacionados com os conflitos e contradições existentes no contexto da luta de classes. difusos e pouco elaborados de diferentes concepções que. p. ficam de certa forma fragilizados. 17 . ligado à formação de atitudes e à promoção de um ambiente favorável ao autoconhecimento e à auto-realização. já que sua tônica está associada ao relacionamento entre os alunos. por sua vez. aparentemente. aqueles termos parecem cumprir um papel periférico. Os problemas emergentes na aula são entendidos de forma específica e. v. e as metodologias e a avaliação vinculavam- Cabe dizer que tais trabalhos deixavam explícitos a incipiente formação marxista de seus autores. está limitada aos fundamentos iniciais do pensamento renovador. 11-26. Ed. mesmo sendo mais elaborada que a dos demais informantes. O foco das aulas está concentrado no clima emocional. Os informantes. Mesmo os depoimentos do Informante 11. conflitantes. expressões e idéias veiculadas por meio do discurso circulante nos 7 âmbitos da educação e da educação física escolar. Os objetivos Os objetivos declarados que se identificam com a abordagem humanista situam-se entre aqueles que apresentam como tendência. como clima necessário às aulas.Rev. n. Fís. se tornam. os aspectos relacionados à afetividade e à interação social. ratificaram a descrição dessa tendência humanista. 1998. começou a sofrer críticas quando os pressupostos do materialismo dialético 7 passaram também a fundamentar a produção de uma das vertentes desse movimento renovador. a partir deste momento.ARTUS fundamental para que se crie um clima favorável ao sucesso das experiências de ensino–aprendizagem. Apesar desta literatura ter tido um grande impacto no meio universitário da educação física.

quanto o discurso de nossos informantes pensam que a base na primeira fase escolar deve ser psicomotora. é considerada pelos professores de educação física como conteúdo de educação física do 1° segmento do 1° grau. para que a criança saiba a musculatura que está sendo trabalhada e o que acontece com o organismo dele. não apresentam um sentido de unidade: enfoques da psicomotricidade e da fisiologia. É verdade que a psicomotricidade. da forma como as expõem. assemelha-se a uma espécie de bricoler. aquele Criatividade nas aulas de educação física.Rev. do ponto de vista teórico. v. Ed.. você lança um desafio e deixa ele dar a solução. é interessante como ele situa os aspectos metodológicos do livro Criatividade nas Aulas de Educação Física como um antídoto às concepções autoritárias de ensino que denominou de militarismo.. 2) Observe-se que para o informante a psicomotricidade e a fisiologia se constituem em concepções de trabalhos que ele combina. tanto propostas pedagógicas. (Inf. No entanto.. Isto resulta do fato de que os textos de psicomotricidade enfatizam. n. Me baseei muito nesse livro na parte de psicomotricidade. foi entendida como uma espécie de trabalho (ou conteúdos) que se limitava a uma determinada faixa etária. Eu acho que a criança tem que descobrir a maneira correta de fazer a coisa. 18 . p.] Até optei por trabalhar com pré-escola a parte da psicomotricidade [. assim como o rendimento motor.. É importante você usar muito Como pode ser constatado. Exemplos de posicionamento híbrido foram revelados nos depoimentos de vários informantes. onde a coerência talvez se construa subjetivamente tendo como referência sua prática. É interessante notar que a psicomotricidade. 2) aquele método de solução de problemas. o que o marcou foi a linha pedagógica de dois professores. além da referência que faz ao trabalho de Taffarel (1985). Fís.. Entretanto.] e o outro para a parte de psicomotricidade. formas pedagógicas mais adequadas à criança nos primeiros anos escolares ou às crianças portadoras de deficiência. que é também para não ficar aquele lado do militarismo – Você vai ter que fazer isso.] e na parte de fisiologia é importante o professor passar o que está acontecendo no momento do movimento. Então. [. é interessante e sincrético como o informante pensa a fisiologia como instrumento de informação para fornecer aos alunos durante seu processo de intervenção. o significado híbrido dos recortes a serem apresentados tem um sentido de desarticulação do discurso em torno dos fundamentos que devem e podem auxiliar a intervenção do professor de educação física escolar. este informante opera com diferentes propostas teóricas que. na sua maioria. enquanto que Artus . o informante referiu-se ainda à contribuição do livro da Celli Taffarel. enquanto concepção de intervenção pedagógica na educação e na reeducação. A psicomotricidade foi uma das primeiras “orientações metodológicas” apresentada como proposta alternativa aos modelos teórico– metodológicos que enfatizavam a padronização e automatização dos movimentos. eu procurei associar o conhecimento dos dois. que não se apoia nos referidos enfoques. No entanto. Desp. 18. que aí você não está adestrando o aluno. Além da influência dos dois professores (mencionados na fala anteriormente transcrita). no seu agir pedagógico. 1. você deixa ele buscar a solução. Um é mais voltado para a parte de fisiologia [.Universidade Gama Filho se a outras concepções opostas do ponto de vista teórico e ideológico. Seu discurso. Assim. 1998. Para um dos informantes. a gente vai dar as informações e ela vai buscar a solução. (Inf. de alguma forma. no âmbito da educação física. 11-26...

nos dá mostra de ser o esporte o conhecimento privilegiado. de contratação e de práticas no seio da escola (Rio de Janeiro. n.ARTUS no segundo segmento do 1° grau deve-se dar ênfase no ensino dos esportes. Se o discurso traz implícito valores como o da igualdade de oportunidades. 8 A visão do esporte enquanto conteúdo das aulas de educação física escolar é uma questão polêmica entre os intelectuais ligados ao PPREF. na realidade não estão preocupados em enfatizar a aprendizagem das habilidades técnicas dos alunos. de certa forma. 1998. de forma que sua máxima seria uma espécie de corpo criativo em ação. sendo adequada apenas a determinada faixa etária ou clientela no âmbito da educação física. o esporte a ser trabalhado nas aulas de educação física não deve ter um sentido seletivo e marginalizador dos menos habilidosos. tendo suas falas mapeadas em maior grau na influência humanista. o trabalho com outros conhecimentos/habilidades identificados historicamente com a cultura corporal (jogos e brincadeiras populares. Os objetivos Nessa perspectiva encontram-se os informantes 6 e 9. Artus . Outros. a ênfase do ensino recai nos aspectos normativos do esporte institucionalizado. o mesmo não podemos inferir sobre a coerência da ação dos professores. na qual o padrão deve ser rejeitado em função da espontaneidade. 11-26. ou ainda a aula enquanto um direito de todos. Para alguns desses intelectuais o esporte não constitui em elemento que contribua para a formação educacional do aluno e. o que se contrapõe. Para eles. em vários momentos. Também adequaram-se às dificuldades concretas que os professores encontravam em trabalhar com o esporte nas aulas de educação física para as crianças do primeiro segmento escolar. foi um definidor de políticas pedagógicas. mostram-se contrários a ser apenas o esporte o conteúdo a ser trabalhado na escola.Rev. v. deve-se considerar que o discurso em prol da psicomotricidade auxiliou a justificar a contratação de professores de educação física para o primeiro segmento do primeiro grau. Por outro lado. que tinha o esporte de rendimento como alvo de suas críticas. Para alguns informantes. O argumento de que a criança precisa desenvolver e aprimorar as estruturas psicomotoras para ativar o processo de construção das estruturas cognitivas. além de atender às suas necessidades afetivas. Opera-se aí com uma distorção. Secretaria Estadual de Educação e Cultura. o esporte é um dos elementos que pode ser trabalhado dentro das temáticas pertencentes à cultura das atividades corporais. o que se constitui em um aspecto criticado no âmbito do PPREF. não deve constituir-se em conteúdo escolar. ao sentido recreativo do esporte e à perspectiva humanista. A maior preocupação está em que seus alunos sintam prazer e adquiram o mínimo suficiente de habilidades para utilizar o esporte no sentido de ocupação do tempo livre e para que possam socializar-se com as pessoas. por meio da prática esportiva. estes argumentos muito se ajustaram ao pensamento renovador em sua primeira fase. que são as problematizadoras e desencadeadoras das ações dos alunos. apesar de fazer menção ao ensino do esporte. Fís. por outro lado.). que. Além destes argumentos de ordem interna. como a psicomotricidade enfatiza a diversidade de experiências corporais e cognitivas. p. facilitar a aprendizagem da leitura e da escrita. enfatizou.. ou de reparar as diferenças. portanto. 18. 19 .8 Essa ênfase sugere o teor híbrido desse discurso. 1. Já o Informante 11. ginástica etc. apesar de privilegiarem o ensino dos esportes. Desp. No entanto. visto que a psicomotricidade de uma teoria de intervenção é transformada em proposta de intervenção. Se do ponto de vista da coerência do discurso isto pode parecer contraditório. 1981). no entanto. Ed.

de viés tradicional. tanto quanto demonstram uma preocupação com as questões da afetividade (abordagem humanista). o sentido dominante do discurso é tradicional. e talvez nas suas práticas. então é muito fácil quando você é atleta. destacamos o depoimento do Informante 12. . como uma espécie de estratégia para maximizar a aprendizagem do esporte e ao mesmo tempo afastar o fantasma da alienação associado a este. os jargões da perspectiva humanista funcionam nos seus discursos. Outro exemplo dessa influência tradicional. na medida em que. Fís. 11-26. 18. com o ensino centrado no professor. 12) As influências de abordagens tradicionais Estamos denominando de abordagens tradicionais aquelas em que os depoimentos revelam orientações conceituais e metodológicas identificadas com os fundamentos biológicos e/ou do esporte de rendimento aplicados ao ensino da educação física escolar. adquirida a partir de leituras diversas. As duas primeiras. p. você pega a bola e [. se revela no depoimento do Informante 7. ele é visto como uma estratégia para se atingir níveis subjetivos de desempenho das qualidades físicas que Artus . Como pode-se notar. seu interesse é restrito aos aspectos instrumentalizadores para uma educação física desportiva. tanto nas dimensões da base e da forma de conceber. quanto à psicologia. constatamos que o foco de maior ênfase é a questão da atividade física. quando destaca as qualidades físicas como objetivo a ser atingido por meio de uma série de brincadeiras. Para o Informante 8. Este menciona. os livros me ajudaram no sentido de organizar os esportes..Rev. ele utiliza-se de possíveis fórmulas para entender e intervir nos problemas de ordem disciplinar. O enfoque ressaltado pelo Informante 12 como contribuição daquelas disciplinas sugere uma visão mecânica entre acontecimentos e modelos de intervenção pedagógica. 1998..] motivar para não ficar uma coisa repetitiva. Desp. 4 e 5. Porque eu não tenho uma vida de atleta. possíveis contribuições não pontuadas dos seus professores de fisiologia. ao analisar os depoimentos desses informantes. No entanto. O brincar. como denunciado pelo PPREF. considerando que a leitura do livro a que se referiu – Treinar jogando – ainda está sendo muito importante para suas aulas de educação física na escola. 1.”. perspectivas às quais o PPREF se contrapõe. Apesar dos professores utilizarem-se de todo um aparato teórico com um viés extremamente cientificista. nesse contexto. Para este mesmo informante. basicamente. as orientações recebidas durante sua formação profissional. estão associadas a aspectos técnicos de como ensinar os diferentes esportes. (Inf. v. enquanto o aspecto afetivo–social assume uma espécie de atenção ad hoc: O esporte é importante. 20 Este recorte reforça a identificação do informante com pressupostos tradicionais. na realidade. como referência para diagnosticar e acompanhar o desenvolvimento da criança. quanto na de orientar a ação de intervenção pedagógica.. na medida em que suas intenções são orientadas.. presume-se.. e que marcam sua atuação como professor. Essa identificação com a concepção desportiva também é partilhada pelo Informante 6. “mas também a afetividade. n. pelos pressupostos biológicos da promoção da saúde e do trabalho corporal (abordagem tradicional). não tem o sentido do prazer e do lúdico. de biomecânica e de psicologia. mesmo que as disciplinas não tratem desta questão na sua especificidade. durante sua formação profissional. Em termos da fundamentação geral. Ed.Universidade Gama Filho Ainda dentro desta abordagem também circulam as falas dos informantes 1. de forma sincrética.

Os objetivos Em relação à influência dos fundamentos biológicos. com características das abordagens tradicional e humanista. A contradição constatada nesses 9 O que não significa dizer que discussões acerca da temática saúde não devas ser contempladas de forma sistematizada pelas disciplinas escolares (biologia. Ao realizarmos uma análise comparativa entre as abordagens conceituais que influenciaram o processo de formação profissional de nossos entrevistados no que se refere à forma como pensam e desenvolvem sua ação prática na escola. a identificação com a abordagem tradicional. 4) e a promoção da saúde (Inf. com as que caracterizaram os objetivos que norteiam sua prática pedagógica. enquanto importante fenômeno sociocultural e meio educativo. não se constitui numa das competências específicas da natureza da instituição escolar.Rev. que. Fís. ao estar sendo bastante veiculado no meio pedagógico.ARTUS estão associadas à concepção biológica ou de promoção da saúde por meio da prática sistemática de atividades físicas. eu só tenho compromisso com a saúde. apesar de não negar a perspectiva do domínio das habilidades técnicas e táticas dos esportes. outros depoimentos revelam as experiências adquiridas pelos informantes a partir da influência de professores que marcaram suas formas de agir na escola. dentre outras). acaba incorporado por parte significativa dos professores de educação física. O objetivo seria dar educação para a saúde. Ed. A crítica a qualquer tipo de trabalho no contexto da educação física escolar orientada para a promoção e manutenção da saúde (entendida no seu sentido estritamente biológico) é um ponto de acordo entre os intelectuais identificados com o PPREF. p. esta não é a tônica do PPREF. 11-26. Na outra. a necessidade da prática e da reflexão sobre o esporte. Enfatiza. Pudemos constatar. apenas dois informantes apresentam seus objetivos de ensino influenciados pela abordagem híbrida. que revela o seu compromisso em trabalhar apenas a educação para a saúde. educação física. 1. Esse fato reforça nossa inferência de que este discurso. 3) Outra influência da abordagem tradicional pode ser observada no depoimento dos informantes 2. observamos duas situações. história. mais especificamente. No geral. encontramos o relato do Informante 3. v. 1998. como por exemplo: os princípios formais de organização de aulas (Inf.. enquanto as influências conceituais provenientes da sua formação profissional são marcadas pela abordagem tradicional. n. 21 .9 Ainda nessa abordagem tradicional. Contudo. como idéias que se cristalizam socialmente em forma de jargões pedagógicos e. No caso desses professores. a ênfase é dada aos aspectos instrumentais do esporte. sim. Em uma delas. de certa forma. 8 e 12. O que queremos dizer é que a promoção da saúde não é uma função específica da escola. eles argumentam que esta concepção. por meio da prática esportiva: Dar um condicionamento físico para o aluno. divergentes. Essas experiências situam-se no plano que poderíamos denominar de habilidades técnicas de ensino e de forma organizacional do ensino. (Inf. Artus . eu não tenho compromisso com o esporte. Estes informantes não deixam dúvidas sobre a importância do aluno aprender os esportes na perspectiva da aquisição da autonomia das habilidades técnicas específicas. Desp. por estes informantes. além de veicular uma compreensão reducionista e limitada de saúde. encontram-se os depoimentos de três informantes. a partir da análise do conjunto das entrevistas de cada um dos informantes. 6 e 10). 18. não enfatiza esses aspectos como finalidades do ensino da educação física na escola.

Taffarel & Escobar. estamos encontrando no seio da educação física escolar aquilo que Saviani (1982) já havia constatado há quinze anos: a predominância de uma postura tradicional de ensino. ligada aos aspectos advindos da formação profissional. Nesse núcleo temático. Formas de estruturação das aulas de educação física Como já dito. o que parece estar sendo o ponto central da ação pedagógica desses professores é a abordagem tradicional. enquanto a influência da abordagem tradicional. Artus . são os conteúdos organizados rigidamente em unidades bimestrais e em sua grande maioria voltados para a aprendizagem de uma modalidade esportiva. no que se relaciona à construção conjunta das regras dos jogos a partir das necessidades vivenciadas na sala. Os conteúdos são fundamentados em temáticas que se constituem nos elementos problematizadores e desencadeadores das ações dos alunos. no qual o professor. suas formulações ainda fazem pouco eco na comunidade de professores de educação física que atuam na escola. necessariamente. Ressalte-se que para o PPREF a aula deve ser um processo dinâmico. num contexto de análise “social e histórica. dentre outros aspectos. superando a idéia de divisão em partes. 18. o esporte deixa de ter um tratamento pedagógico restrito à sua dimensão de prática corporal. passando é claro pela sua significação cultural enquanto um fenômeno de massas”. No entanto. que pode ser mapeada quando os informantes são questionados sobre a forma como estruturam suas aulas. v. n. baseado nas expectativas e experiências reais dos alunos. passando a ser trabalhado também a partir das possibilidades de análise histórica. Poucas foram as menções à participação dos alunos no processo decisório referente ao ensino– aprendizagem. Entretanto. Em função disso. quase sempre determinada pela disponibilidade do material didático–esportivo das escolas. Características marcantes daquelas evidências. 1992.Universidade Gama Filho depoimentos é que seus objetivos são influenciados pelos princípios assimilados durante o processo de formação profissional e revelam grande identificação com a atual forma declarada de dar aula. . são a divisão das aulas em duas ou três etapas estanques. nobres e justas. tudo indica que não o são de forma sistemática. Ed. O planejamento é feito a partir de um processo participativo. constatamos que todos os entrevistados apresentaram fortes evidências de abordagens tradicionais em suas formas de estruturar as aulas de educação física. foi unânime a exemplificação do esporte como conhecimentos/ habilidades privilegiados nas aulas. De certa forma. 217). 1. uma vez que a humanista apresentase apenas em suas pretensões. Fís. p. social e cultural (Soares. está relacionada à forma como eles concebem e intervêm na prática pedagógica. O conjunto do seu depoimento não demonstra ser o princípio da participação do aluno um aspecto importante na assimilação do conhecimento nem elemento constitutivo e relevante na orientação do planejamento didático–pedagógico. 11-26. A influência da abordagem humanista nos objetivos explicita a forma como os informantes pensam o seu processo pedagógico. Somente o Informante 12 menciona a participação de seus alunos na dinâmica de sua aula. p. Observe-se que as pretensões do PPREF são muitas. reduzir o ensino da educação física escolar aos aspectos normativos do esporte contraria qualquer uma das vertentes conceituais do PPREF. Como já ressaltamos. Se outros 22 conteúdos são trabalhados. este conhecimento deve estar. 1998. Apesar de não negar a perspectiva de conhecer e praticar as habilidades técnicas e táticas dos esportes. Desp. o informante não expõe esta atitude como um acontecimento sistemático em suas aulas.Rev.. Desta forma.

4.Rev. n. Os depoimentos revelaram que não ocorre uma relação de apropriação consciente e consistente dos princípios e pressupostos identificados com o PPREF. De certa forma. 1. Entretanto. O aluno brasileiro não foi ensinado a vencer os autores difíceis.ARTUS decide e organiza os conteúdos que possam proporcionar o aumento qualitativo e quantitativo dos conhecimentos/habilidades de seus alunos e também a aplicação da reflexão crítica e das possibilidades transformadoras e criativas de sua inserção na prática social (Resende. mas nada em seus discursos evidenciou contato com a literatura ou conhecimento sistematizado dessa produção. p. É necessário que fique em aberto uma questão para futuros investimentos: que problemas estruturais e de comunicação apresentam as propostas vinculadas ao pensamento renovado?10 Qual a influência do pensamento pedagógico renovador da educação física? Com a intenção de verificar o que os informantes demonstravam conhecer a respeito do PPREF propriamente dito. 3. Cabe ressaltar que algumas experiências acadêmicas foram realizadas no sentido de implementar este modelo pedagógico. quando. 2. valendo-se do entendimento decorrente do senso comum. 7. v. Uma hipótese que pode ser formulada. 11 Neste caso. ou leituras como as histórias em quadrinhos. questões como essa auxiliam a problematizar a pouca articulação das idéias apresentadas pelos informantes. ao final da entrevista. é que o tom “intelectualista” da narrativa afasta de certa forma os professores que deveriam consumir estas propostas. Ed. sendo mais especificamente a não-diretiva. 1. restrita aos princípios pertencentes à sua fase inicial. 9. se tinham conhecimento da produção acadêmica surgida a partir dos anos 80. por Acreditamos que tanto análises do material teórico vinculado ao pensamento pedagógico renovador devam ser realizadas desvendando seus problemas de narrativa e seus meios de divulgação. dentre outras. entende-se prática como fazer ou intervir profissionalmente. Os textos. 11-26. 8. perguntamos. 10 23 . tal modelo de intervenção ainda está pouco disseminado entre os professores de educação física. buscam-se as leituras agradáveis e de fácil entendimento. que apresentava forte influência da vertente humanista–escolanovista. 6. 1998. 18. 11 e 12) revelaram uma compreensão superficial das propostas. Até mesmo aqueles informantes que demonstraram conhecer alguma literatura relacionada ao PPREF (Inf. A maioria dos entrevistados (Inf. Desp. Artus . Alguns mencionaram ter ouvido falar sobre as idéias e fundamentos de alguns intelectuais. A fala dos informantes revela que a prática ensina mais que a teoria. 1992). 1992. suas narrativas e as formas de divulgação devem ser analisados para que se pense porque o PPREF ainda não saiu dos muros da universidade. que muitas vezes são superficiais.11 Acredita-se no princípio da economia em que uma boa conversa com quem tem experiência ensina mais que o livro.. Entretanto. que assumiu uma posição de crítica à educação física escolar identificada com os princípios do esporte de rendimento e com o desenvolvimento da aptidão física na perspectiva da promoção da saúde. 10 e 13) nada expressou que indicasse qualquer leitura e conhecimento sobre o assunto. e teoria como refletir por meio da leitura. Fís. 5. Considerações finais Parecem existir algumas crenças generalizadas no Brasil que não deixam o hábito da leitura se firmar enquanto opção cultural. Coletivo de Autores. desarticulação das idéias e as fracas marcas do PPREF no discurso do professor não se explicam simplesmente pela falta de socialização na leitura.

no final da década de setenta. não estamos afirmando que existe uma relação de causa e efeito entre os discursos circulantes e as ações dos indivíduos. 11-26. muitas das vezes recorremos a argumentos de ordem emocional. e até outras Cursos de pós-graduação na área das ciências humanas imprimiam uma orientação humanista que. Na própria lei nº 4.Universidade Gama Filho exemplo. Ao realizarmos perguntas relacionadas às experiências concretas de ensino. 12 Talvez a presença de fundamentos humanistas. Entretanto. de certa forma. Entretanto. n. p. não saiu do círculo acadêmico. mas pelo que se ouviu falar. quando um técnico é chamado a posicionar-se sobre uma questão específica. Mesmo que essa matriz teórica tenha perdido força legal quando ganha força a proposta da tecnologia educacional (com as leis nos 5. Ed. Quando discutimos uma questão geral da sociedade. 18. Apoiado nas colocações de Gadotti (1985:22). sobressaem as expressões e os chavões de efeito assimilados a partir de um discurso pedagógico circulante sobre o qual ouviram falar. e constatarmos que ora eles se utilizavam de fundamentos de evidência humanista. Assim. vimos que nada ou muito pouco se coadunava. “o pensamento existencial e humanista constituía-se num verdadeiro antídoto ao pensamento oficial”. que na época estava vinculado à PUC-SP. ora misturavam outras abordagens pedagógicas. na educação física. encontrados nos discursos dos entrevistados. penetrava e influenciava outras áreas. que fixou as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. formando os discursos sobre a educação e sobre a educação física. o especialista que está na escola parece construir seu discurso sobre bases emocionais ou estéticas. No máximo. com o avanço do humanismo de base escolanovista. Mas. revelam contradições do ponto de vista teórico. entre outros aspectos. Até porque. dentre as quais a educação física. os poucos professores que evidenciaram em suas afirmações gerais alguns fundamentos identificados com o referencial humanista no que diz respeito a seus objetivos e exemplos de intervenção. 1. os argumentos mais plausíveis. muitos dos nossos professores ingressaram nesses cursos para se “pós-graduarem”. 1998. devem prevalecer. 24 Artus . já se fazia presente o ideário pedagógico humanista. Necessariamente. Desp. reacende a questão da valorização do homem e do educando e a preocupação em fundamentar a relação pedagógica numa filosofia da totalidade. ocorra porque tais propostas estejam circulando no meio educacional brasileiro desde o início do século e. desde meados da década de setenta.540/68 e 5. reforçadas pelo fato da proposta “tecnicista” não ter dado as respostas esperadas no nível da organização e da prática escolar. Apesar de apresentar determinadas intenções relacionadas ao humanismo. .Rev. amparados por algum saber técnico. são as teses humanistas que retomam fôlego.024/61. No entanto. Isso se evidenciou ao realizarmos a análise horizontal do conteúdo discursivo de cada informante. Fís. na área. 12 por opção político– educacional. o conteúdo discursivo dos professores entrevistados é evasivo e inconsistente. a fim de verificar a aplicação dos argumentos que utilizavam como intenção pedagógica. Apesar do discurso humanista apresentar as marcas mais fortes nos discursos dos informantes. Os exemplos de práticas relatadas mostraram-se essencialmente tradicionais. tentam justificar a influência de alguns pressupostos que dizem estar influenciando sua prática. o discurso humanista não foi adquirido por um processo de leitura crítica e sistematizada. seja uma espécie de “eco” com grandes distorções. desconfiamos que sua permanência se deva exclusivamente ao primeiro momento do PPREF. os professores têm uma noção sincrética da atividade profissional que exercem e demonstram que a atualização. O PPREF parece ainda não encontrar eco. Na falta de conhecimentos. presente no discurso de alguns informantes. sugerindo que as evidências dessa matriz conceitual.. v.692/71). Mesmo porque.

RESENDE. Influences of physical education teaching renovation thinking: dream or reality? Artus – Rev. if used to justify and to narrate examples of what professors teach. Métodos de pesquisa em ciências sociais. apesar de suas limitações. Thematic Analysis (Bardin. de se constituir numa práxis. Análise de conteúdo. H. v. São Paulo : Hucitec.. in the process of our interaction with these teachers.Rev. nos aproxima um pouco mais da compreensão da pouca influência do PPREF junto aos professores atuantes no ensino da educação física escolar. Desp.. 25 . p. de concreto. 1983. v. S. n. that happen to be present in the discourse of some interviewees. Renewing Pedagogical Thought. Longe. Thus. p. Neyse Luz. taking into consideration the speech of physical education teachers working in the public schools of the State of Rio de Janeiro. Fís. na medida em que residem nos sonhos de alguns intelectuais. 11-26. and what happens during the classes (traditional approaches). Some foundations of humanistic approaches. 11-26. The data were collected by means of an interview which were submitted to the principles of Artus . V. 18. n. Quando os informantes demonstram dificuldades de compreender as propostas e até mesmo de projetar perspectivas de aplicação das mesmas. L. Antônio Jorge Gonçalves. Keywords : physical education. Helder de & SOARES. 1992. conception. Assim. 1998. the way they act. o que pudemos constatar foi a influência preponderante da abordagem tradicional. Desp. Portanto. 18. show themselves contradictory.nutecnet. Lisboa : Edições 70. it has been verified. BARDIN. The results show no evidences. FERREIRA. L. 1. present only in the specialist’s discourse and in the books that expose their proposals. a pesquisa que subsidiou a realização deste artigo.br Abstract Referências bibliográficas MUNIZ. Ed. 1977. 1998.com. portanto. that the foundations and the proposals associated with the RPAPE are still a very restricted reality. 1977). é compreensível que perpetuem uma prática tradicional. Fis. neither of knowledge. temos os discursos de seus idealizadores disseminados em eventos acadêmicos ou nas páginas das literaturas publicadas. nor of systematic grasping of theoretical-empirical principles associated with RPAPE. professional intervention. 1994. Prática da educação física no 1°grau: modelo de reprodução ou perspectiva de transformação? São Paulo : Ibrasa. São Paulo : Cortez. COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino de educação física. The aim of this study was to investigate the influence of the principles and theoretical-empirical foundations identified to the Renovated Pedagogical Approach of Physical Education (RPAPE). mas ainda sem o eco necessário para a proclamada mudança de educação e da educação física escolar. BECKER.ARTUS intenções híbridas (sincréticas). M. 1. Helder Guerra de Resende Programa de Pós-graduação em Educação Física – PPGEF Universidade Gama Filho Rua Manoel Vitorino. As propostas da referida tendência pedagógica renovadora ainda estão limitadas a projetos e intenções que vislumbram ser materializadas. 625 20748-900 Rio de Janeiro/RJ E-mail: heldergr@rio. Ed. Mas também é importante que se pense naquilo que realmente se transmite com o discurso “sistematizado” do PPREF aos professores que atuam na escola.

A educação física na perspectiva da cultura corporal: uma proposição didático– pedagógica.). TAFFAREL. J. Rio de Janeiro : Ao Livro Técnico.. & ESCOBAR. N. __________. esporte e lazer: tendências e perspectivas. Rio de Janeiro : 1985. p. ___________. São Paulo : Scipione. p. 1985. P. Fís.Universidade Gama Filho FREIRE. São Paulo : Cortez. 1992. Criatividade nas aulas de educação física. SAVIANI. H.. 1989. GADOTTI. G. L. Educação: do senso comum à consciência filosófica. & VOTRE. H. Tese (Livredocência) – Universidade Gama Filho. Desp. 1983. SOARES. OLIVEIRA. 211-224. TAFFAREL. . MEDINA. 18.Rev. V.11-40. (orgs. 1982. 26 Artus . Relação entre intenção e ação pedagógico de docentes atuantes no processo de formação de professores de educação física. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro. M. Educação de corpo inteiro: teoria e prática da educação física. Ensaios em educação física. bases para a renovação e transformação da educação física. Rio de Janeiro : Ao Livro Técnico. J. B. O.). n. W. 1998. RIO DE JANEIRO. G. v. M. São Paulo : Loyola. RESENDE. In: MOREIRA. C. 1992. J. Comunicação docente. Secretaria Estadual de Educação e Cultura. Ed. Z. A educação física cuida do corpo e “mente”. (org. Educação física escolar na perspectiva do século XXI. S. M. 1. Rio de Janeiro : SEE-RJ/ FENAME. Rio de Janeiro. Educação física humanista. Educação física & esportes: perspectivas para o século XXI. Tendências pedagógicas da educação física. 1994. 1981. C. W. Campinas : Papirus. 11-26. Rio de Janeiro : UGF/SBDEF. 1985. In: RESENDE. C. D. S. Z. 1985. Reformulação de currículos: subsídios teóricos e sugestão de atividades . N. p. Campinas : Papirus.