“INSTR UCÇÃO” E “CIVILISAÇÃO” “INSTRUCÇÃO” NOS CL UBES E ASSOCIAÇÕES CLUBES ESPORTIV TIVAS ESPOR TIV AS EM BELÉM ENTRE 1890

E 1920

Antonio Maurício Dias da Costa *

Resumo: busca-se, neste artigo, deslindar os diversos significados contidos nas concepções culturais ligadas às práticas esportivas e de lazer difundidas em Belém no período de 1896 a 1910. A idéia proposta é que são cristalizadas as clivagens sociais nas práticas educativas ligadas ao esporte e ao lazer por meio do ensino público e de associações esportivas surgidas no período. Palavras-chave: educação, esporte, representações, lazer

E

ste artigo trata do desenvolvimento do ensino de educação física, da difusão das práticas de lazer e de esporte em Belém entre a década final do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX. O foco primordial se apoia na tese de que, em fins do século XIX, nos centros urbanos brasileiros e na cidade de Belém, em particular, desenvolve-se a noção e a prática do lazer (assim como as práticas esportivas), acompanhada pelo ensino da educação física, todas como atividades voltadas para o desenvolvimento físico e moral, distintas de outras atividades cotidianas. Tal separação ocorre, no caso brasileiro, no mesmo momento em que se acentua a divisão entre o tempo do trabalho (dedicado a atividades produtivas) e o tempo livre (dedicado a demais atividades cotidianas e ao ócio). Ambos se definem pelo tempo do relógio, regulador cada vez mais presente, neste momento, das atividades fabris e do cotidiano de trabalho nas regiões comerciais dos centros urbanos. O aparecimento da concepção de lazer tal como a compreendemos hoje ocorreu exatamente neste contexto, associado à consolidação da rotina do trabalho industrial nos centros urbanos dos países localizados no centro ou na órbita do desenvolvimento do capitalismo.

apresentando-se como atividades recreativas. que deveriam colaborar com a formação moral do trabalhador.. Goiânia. v. p. 66-79. zelando os seus creditos de povo civilisado. 1. quando fôrdes homens e tiverdes de co-operar na obra grandiosa e patriotica do progresso da vossa terra. n. da preguiça. no caso de Belém. jan. [. atividades de lazer e práticas 68 educ . A concepção de lazer emerge então como um produto típico das sociedades saídas da revolução industrial. verdadeiros antagonistas da ética do trabalho na sociedade capitalista2. tal como sintetiza um texto introdutório de um livro sobre “Educação Cívica” de 1898: Meus meninos. liberado da produção. a elaboração de uma nova concepção de tempo. . escriptas para creanças. Este livro do administrador da Imprensa Oficial do Pará. um tempo dividido entre o comprometimento com a produção e outro.Desde o século XVIII. para não contradizer esta orientação. entrardes confiantes no exercicio dos vossos direitos de cidadãos de um paiz livre (AMANAJÁS. pela reorganização da chamada “instrucção publica” em prol do desenvolvimento da “civilisação”3. estes. Temos. 1898. a partir do mesmo ano de sua publicação. o escritor Hygino Amanajás. de accôrdo com ellas. O final do século XIX. os pensadores da Economia Política Clássica1 na Europa destacavam em seus estudos o devotamento às atividades produtivas como único recurso possível para a produção de riquezas e para a prosperidade dos homens e das nações. não deveria se reduzir ao ócio. do respeito que lhe deve ser tributado. A obra se apresentava como um guia de conhecimento cívico e visava inculcar nas crianças paraenses o zelo pelos “seus créditos de povo civilisado”. Educação. sim. “Civilisação” e “instrucção” fazem par neste discurso como fim último da responsabilidade das autoridades públicas de promover o progresso da nação. foi também marcado. sómente e sem outra aspiração que não seja a de prestar-vos algum auxilio no esforço que fazeis para a vossa educação. lúdicas e instrutivas. p. 2010. VII. estas lições despretenciosas./jun. momento de constituição do regime republicano no Brasil. O lazer ocupa então o papel fundamental de opositor do ócio. 13.. por ordem do Conselho Superior de Instrucção Publica.] Um dia. com isso. O tempo do não trabalho. VIII). servir-vos-ão para. passou a ser adotado nas escolas públicas do Pará.

Mirabeau. educ . 13. a existência da maior parte da população de Belém que permaneceu alheia a este projeto. como processo sócio-histórico (ciclo de civilização). dentro e fora dos clubes. Essas sociedades definiam. nos quais se fazem evidentes as ‘leis’ que presidem a vida social e a economia. na transição para o século XX. na medida em que: • a prática da gymnastica e da educação physica limitaram-se a ser difundidos como componentes da formação educacional em determinados estabelecimentos de ensino. que exigiam pagamento de joias4 e mensalidades./jun. desde o século XVIII. em primeiro lugar. ao passo que a maior parte da população não tinha acesso à educação formal. teria sido o primeiro escritor a empregar o verbo “civiliser” em suas obras6. Rapidamente. isto é. já defendiam a difusão da civilização como controle das emoções. Nesta produção literária. segundo Elias. tal como defendiam as elites políticas e intelectuais. Para Norbert Elias (1990)5. n. a noção de civilização está vinculada à idéia de ordenamento social com vida própria. em obras literárias francesas em fins do século XVIII. 1. trazidos da Europa por membros da elite local e por estrangeiros – remo. ao mesmo tempo. 2010. durante todo o período de sua vigência. Goiânia. A nova ordem orientada pelo mundo do trabalho. como se portar nas competições. futebol. esgrima etc – eram organizados por clubes sociais (criados neste período) voltados especificamente para as parcelas abastadas da população da cidade. a burguesia e a aristocracia de corte na França. • os jogos e os esportes.esportivas tendiam a ser vistos pelas elites políticas e intelectuais da época como instrumentos fundamentais (e relacionados entre si) para a difusão da civilização. Esse discurso (e as práticas associadas a ele) desconsiderou. como jogar. isto se transformaria de um hábito da sociedade de corte num ideal associado ao “caráter nacional francês”. jan. p. na visão da elite política e intelectual da Belém da época. A difusão dessas novas práticas no período contribuiu para marcar a diferença entre estratos da sociedade quanto ao acesso aos esportes e ao lazer. estima pela cortesia e eloquência na linguagem. sintetizava a relação entre educação. v. 66-79. o termo “civilisation” apareceu. atividades de lazer (chamadas à época de diversões) e práticas esportivas como formas de difusão da “civilisação”. 69 . considerando as dificuldades de ingresso em institutos educacionais e em clubes sociais. Na verdade.

a propagação das práticas de lazer (de acordo com os padrões de moralidade definidos pelos clubes sociais) e das modalidades esportivas. Neste momento. . Já os esportes. Isto contribuiu para justificar as ações neocolonialistas das potências europeias7 desde fins do século XVIII8. futebol e remo. os estabelecimentos de ensino e os clubes sociais detinham o monopólio da difusão dessas práticas. os torneios de natação 70 educ . n. as regras comerciais (diminuição de barreiras tributárias). conduzir a pacificação interna dos países. entre outros) e a população da cidade acompanhava e assistia às mobilizações de massa da época como marcos representativos desse clímax urbano. a difusão da civilização na década de 1890 significava também incentivar a educação física como conteúdo da instrucção escolar. Os eventos de lazer nos clubes sociais poderiam ser jogos (como o jogo de bilhar). Civilização. as partidas de futebol. Podemos aqui fazer uma analogia com o estudo de Sevcenko (1992) sobre a ritualização dos movimentos de massa por meio do esporte na São Paulo da década de 1920. aumento populacional via migração. 1. limitadas a uma parcela pequena da população da cidade. boxe. é uma marcha progressista total. v. 66-79. e já nos anos 1920. eram ciclismo. concertos e espetáculos teatrais. durante a qual os governantes e a sociedade se encarregam de aperfeiçoar as leis. urbanização. as corridas de automóvel. o futebol. incrementar o refinamento das maneiras e ampliar a educação. Este último modalidade preferida pelos desportistas dos clubes belenenses nas décadas de 1890 e 1910./jun. As festas cívicas. significava “gymnastica” e exercícios militares. festas em geral. recorte final desta pesquisa. A cidade de São Paulo atravessava neste período o apogeu de seu período de metropolização (industrialização. Goiânia. 13. water pólo. o processo civilizador transcende o indivíduo e se apresenta como uma marcha inexorável do aprimoramento das instituições sociais. atletismo. natação. Educação física. especialmente. É de acordo com essa perspectiva que os discursos de intelectuais europeus do século XIX opunham a “civilização europeia” à “barbárie de outros povos”. patinação. faziase notória a presença na cidade de atividades de lazer e de práticas esportivas de massa. difundidos especialmente pelas associações esportivas. entre as quais. especialmente aquelas responsáveis pelas leis e pela educação. p.Nessa perspectiva. neste sentido. Mas a mudança ocorreu com uma certa velocidade. neste contexto. No caso da Belém recém-republicana. bailes (tais como bailes de carnaval). esgrima. jan. 2010.

Tanto em São Paulo como em outras cidades do Brasil na década de 1920. A organização do Comitê Olímpico Internacional em 1894 e a reunião das entidades esportivas europeias em prol da organização dos jogos mundiais estiveram ligadas pelo crescente interesse da opinião pública europeia na educação física e na prática de esportes. os raides aéreos. 13. O ritmo da vida “civilisada” nas cidades industriais poderia ser melhor apreendido com o exercício de obediência às regras esportivas e com o reconhecimento dos padrões morais adequados às atividades de lazer. recriados pelo Barão de Coubertin. ingleses administradores de empresas estabelecidas no Pará (comerciais. O processo de massificação de algumas modalidades esportivas no Brasil acompanhou a mesma tendência um pouco antes desenvolvida na Europa. Eric Hobsbawm (1997. dedicavamse à venda de alguns desses artigos. no período de 1879 a 1914. Goiânia. o futebol passou a desempenhar a função de esporte de massa. por exemplo. n. nas quais tomavam parte filhos de famílias abastadas que estudaram na Europa. foi criada a Liga de Futebol de Belém com o apoio da Intendência Municipal (GAUDÊNCIO. no caso inglês. Os equipamentos esportivos eram importados da Europa na fase amadorística da difusão do futebol em Belém./jun. promovendo tais mobilizações públicas9. O espírito cosmopolita e civilizador que animou a criação dos Jogos Olímpicos modernos foi o mesmo que incentivou as concorridas Exposições Universais no mesmo período. 2010. jan. 1. como no caso do Sport Club do Pará. por sua vez. 71 . 2007). p. Não é por coincidência que ocorreram os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna em 1896. p. v. A partir de 1913. 66-79. destaca a realização de festivais esportivos na cidade na década de 1910 marcados pela participação popular. constituíam rituais públicos de exaltação e de êxtase coletivo na cidade. 296) mostra que. Esses festivais foram precedidos pelas partidas de futebol realizadas na Praça Batista Campos e no Largo de São Bráz na década de 190010. Alguns clubes. o ciclismo e a luta romana no continente europeu tornaram-se parte do repertório das tradições de massa inventadas no final do século XIX. telegráfica e elétrica) e os empregados brasileiros dessas empresas. entre outros. Gaudêncio (2007). aristocrata francês entusiasta dos esportes. Tanto isto como educ .no rio Tietê. O futebol na Inglaterra. o futebol tornou-se a matériaprima fundamental do culto proletário de massa. fundado em 1896. assim como ocorria com outras modalidades esportivas.

v.aquilo poderiam ser aprendidos nas aulas e nos cursos de educação física ministrados em escolas ou em clubes sociais. o Lyceu Paraense (futuro Gymnasio Paes de Carvalho) e o Instituto dos Educandos Artífices de Belém (CUNHA. 66-79. Goiânia.] belos gradis do Instituto Gentil Bittencourt e de sua própria sede. na verdade. em que o autor destaca a produção de: [. 1997). acentuando o seu papel de fornecer “instrucção primaria e profissional (operaria ou agricola)” aos “orphãos ou filhos de paes pobres”. a prática da educação física não era tomada meramente como um benefício corporal. desde a fundação do Instituto. Neste contexto. lançou um decreto que reorganizava o instituto. Paes de Carvalho instituiu um decreto que mudava o nome do Instituto Paraense de Educandos Artífices para Instituto Lauro Sodré.. Em 1899. Para uma discussão mais detida sobre a difusão da educação física. Até a década de 1870. jan. Educação física correspondia. ginásio. em 1897.. tal como ela foi adotada em Belém nos primeiros anos da República. Este último foi reorganizado (e./jun. em grande medida. Teatro da Paz. e todo o fornecimento de móveis para os grupos escolares. O ingresso dos estudantes no Instituto era feito mediante comprovação da situação familiar (ou inexistência dela) e aprovação em exame de aptidão. Os cursos de formação profissional oferecidos eram ministrados em aulas teóricas e em exercícios práticos na oficinas do Instituto. encabeçado por Paes de Carvalho12. Em seu primeiro ano do governo. mas também como requisito para o ingresso na onda civilizatória. em homenagem ao primeiro governador constitucional republicano. 1. 1998). O trabalho nestas oficinas veio a se tornar. 2010. É claro que o acesso à educação (instrução) civilizadora (no campo dos esportes e dos lazeres) estava restrito àqueles que tinham condições de pagar pelas jóias e mensalidades dos clubes sociais ou que gozavam da oportunidade de fazer cursos de educação física11. Tal situação fica patente neste trecho de Carlos Rocque. assim como os sapatos e fardas para a Força Pública e para todos os internos dos outros estabeleci72 educ . a uma ideia de educação moral (PINHO. p. 13. quais sejam: a Escola Normal. refundado) durante o segundo Governo Constitucional Republicano do Estado. fonte de produtos e mão-de-obra barata para o Governo do Estado13. n. é necessário focalizar sua presença na política de “Instrucção Publica”. . foram criadas as três mais importantes instituições de ensino na cidade.

pobre. Esta referência destaca os anos do governo Augusto Montenegro (1900-1909). Ao mesmo tempo. 271). os integrantes das classes abastadas tomavam a iniciativa de constituir seus ambientes particulares voltados à prática de esportes e de atividades de lazer. O Instituto Lauro Sodré. os dotados de “bons costumes”. Goiânia. 73 . p. ministrada em duas aulas de gymnastica durante a semana ao longo dos seis anos de curso. por sua vez. consolidou-se no papel de formador de mão-de-obra barata e qualificada nas mais diversas profissões industriais e agrícolas15. respectivamente). jan. se apresentavam como abertos a um “ilimitado numero de socios”17. 13. que quando dali saíam. Este é um exemplo característico da importância que a educação física passou a ocupar na política de instrução pública neste período. Constituir “cidadãos morigerados”. recebiam o necessário para o seu primeiro estabelecimento (ROCQUE. 18 e 21 anos e eram de “reconhecida moralidade” e conhecidos pelo “bom comportamento”. 2010. Os clubes sociais fundados em Belém.mentos do Estado. isto é. p. Sua presença nos “ajuntamentos em tabernas e ruas” era tomada como escandalosa e perigosa pelos arautos da onda civilizatória. n. negra ou mestiça. além do diploma de operário. 1. tinham idades mínimas que podiam variar entre 15. as aulas de ginástica (divertimentos gymnasticos) eram compostas por exercícios militares e ensino de esgrima. com destacada parcela oriunda da escravidão recém-abolida. educ . como já propunha um documento de 187016. Ao mesmo tempo. 66-79. v. na mesma medida. a educação (instrução) poderia desempenhar uma função complementar (embora em pequena escala) às proibições legais no controle da vadiagem (tais como as dos códigos de posturas municipais). Algumas vezes. O governo pagava o custo da mercadoria. significava desestimular e combater a presença da vadiagem no ambiente urbano. a formação deveria ser acompanhada pelo ensino da educação física. Dessa forma. mais 10 por cento. quando se ampliou o serviço de “instrucção publica”14 em Belém./jun. “bons artistas” e “cidadãos morigerados”. da massa da população desocupada. 1996. presente nas ruas da cidade. mas eram associações restritas aos que podiam pagar as joias e mensalidades (que podiam chegar a valores como 20$000 e 10$000 réis. acréscimo com o qual se formava um fundo de assistência em favor dos alunos-aprendizes. Esta era uma política que visava produzir. no período de 1896 e 1918.

Nos estatutos dos clubes. 1. lazer e educação física deveriam corresponder a uma ideia de “educação moral”. Percebe-se. por exemplo. ao mesmo tempo. voltados a temas como “gymnastica”. velocipedia. Não sabemos até que ponto esses objetivos foram bem sucedidos. como trazer resultados beneficos ás suas pessôas” (CLUB DO REMO. portanto. de garantir o usufruto do lazer e dos esportes como uma parcela importante do novo modo de vida urbano “civilisado”. Os clubes se apresentavam. n. defendido por entusiastas oriundos da elite local. como espaço privilegiado onde seria possível “tratar do desenvolvimento physico”. 66-79. Fala-se também em incentivar os sócios a produzirem estudos sobre esportes. Diversões e distrações eram entendidos como meios de proporcionar benefício aos sócios21. que associa o aprendizado da prática esportiva à atuação profissional nos ramos da indústria e do comércio22. patinação e esgrima. aparelhos e apetrechos” ligados a modalidades esportivas. 13. Nossa leitura dos estatutos dos clubes indica que esta seleção dos sócios ingressantes visava incorporar pessoas aptas a absorverem “instrucção ligada aos sports”. bem como a bailes festivos. espetáculos teatrais e “toda sorte de diversões que tenham por objecto não só proporcionar aos seus associados útil e proveitosa distracção. . atividades comerciais e industriais. como centros de ensino e difusão dos esportes e. aulas de dança e música. v. Exemplo cabal dessa ligação está no capítulo VII. Os estatutos de clubes sociais fundados em Belém entre 1896 e 1918 revelam que os associados tinham acesso a gabinetes de leitura19. p. a se dedicarem à “educação physica e cultivo dos desportos” e a participarem de “certamens desportivos”18. mas eles nos servem para avaliar a importância atribuída pelos associados à relação entre lazer. há promessa de realização de palestras e criação de cursos de educação física para os associados (“se os recursos sociais permitirem”). assim.Estes eram os critérios econômicos e morais (portanto. como revelam as proibições de mani74 educ . artigo 26 do Estatuto do Guarany Foot-Ball Club./jun. 2010. Como dito. “machinas. Goiânia. do cotidiano das atividades comerciais e industriais. Isto é acompanhado pelas preocupações de fundo moral quanto ao comportamento dos sócios23. subjetivos) adotados para a seleção de associados nos clubes. 1917). salões de jogos20. jan. que havia uma tendência em prol da elitização na incorporação de novos associados. prática de esportes e educação física com o mundo do trabalho.

especialmente futebolísticos. jan. então associadas às mobilizações de massa. quando estejam de passagem n’esta cidade em excursão artística. aos rituais públicos (SEVCENKO. Os clubes e associações esportivas despontavam neste período como ‘ilhas’ onde era cultivada. n. incluídas no cotidiano de lazer da maior parte da população da cidade. portanto. como destacam os Estatutos do Guarany Foot-Ball Club: Art. ao contrário. de forma amadorística. Mas este recorte final já é o momento em que o “projeto civilizador” por meio dos esportes e da educação física ganhou novas conotações. scientifica. terão que ser apresentados a qualquer dos membros da Directoria24. porem. religiosas e nacionalistas no interior dos clubes. commercial ou industrial” em Belém poderiam ser tomados como representantes do processo civilizador em movimento nos centros urbanos do Brasil e da Europa. p. 13. aristocrático. O exclusivismo dos clubes no cultivo das práticas esportivas foi gradualmente perdendo força até a década de 1920. 1992). em praças e largos da cidade. quando exceder este período de tempo poderão continuar a freqüentar o Club mediante a quota mensal de 5$000 paga adiantadamente. esses visitantes ilustres eram recebidos sem ônus durante um período (trinta dias) suficiente para que concluíssem sua excursão. As proibições. 71 – É permittido aos viajantes. destacam exatamente a ocorrência dessas manifestações e o esforço dos defensores do “nível social” do clube em controlar e expulsar os “instigadores”. commercial ou industrial.festações políticas. Os viajantes “em excursão artística. uma vez que sua permanencia aqui não exceda de 30 dias. a prática dos “sports” e onde era possível usufruir de divertimentos (lazer). 75 . Goiânia. em direção à massificação de algumas modalidades esportivas. 66-79. v. onde eram difundidas as novas modalidades esportivas e os novos estudos sobre educação física. 2010. 1. quando despontaram os festivais esportivos. pautado num “bom nível moral e social”. Em qualquer dos casos. ligado a uma educação (instrucção) civilizadora por meio do lazer e dos esportes. freqüentar o Club diariamente. Ao mesmo tempo. No clube Guarany. scientifica. educ ./jun. de um projeto elitista. eram bem vindas as visitas de sportmen e pesquisadores do tema aos clubes sociais. Segue-se.

1.. Sobre isto. ver Lafargue (1990). p. p. vivenciada pelas elites de Belém e Manaus. Para um estudo antropológico sobre o papel desempenhado pelas atividades de lazer como conteúdo da sociabilidade num bairro periférico de Belém nos anos 1990. ver Costa (2000) e Cruz (1968). adquiridos via importação. ter conhecimento das regras que presidem as diferentes modalidades esportivas e ter condições financeiras de comprar equipamentos esportivos. 233-72). ocupar uma posição socialmente privilegiada e prestigiada.. Goiânia. Percebe-se. Os dados que seguem foram consultados em Governo do Estado do Pará (1899). Como é o caso da invasão do Egito pelas tropas napoleônicas em 1798. O típico entusiasta dos esportes neste período em Belém era conhecido pela expressão inglesa sportman. ver Pinho (1997). Weinstein (1993). quando as riquezas oriundas da exportação da borracha contribuíram para a emergência de uma “belle-époque” amazônica (marcada especialmente pela modernização urbana). e Holbach. Sarges (2000) e Daou (2000). 2010. Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Tais como Thomas Malthus. Ser sportman implicava fazer parte de uma sociedade esportiva. ver Said (2007). que inclusive compunham o quadro de diretores de diferentes clubes esportivos da cidade. em seu Système social. também de 1774. apresentada à opinião pública francesa como uma “conquista para a civilização”. foram o padre Raynal. Ver Said (2007. na maioria. 66-79. Ver especialmente os trechos entre as páginas 51 a 55 e 58 a 64. de 1774. que ser publicamente reconhecido no período em questão como sportman em Belém significava portar um signo de distinção. v. ver Santos (1980). ./jun. Sobre isto. 64-83). p. Sobre o assunto. ver Costa (1999). Dias (1998). na segunda edição de seu Histoire philosophique. Sobre a presença do substrato ideológico do neocolonialismo nas obras de importantes escritores franceses e ingleses dos séculos XVIII e XIX. jan. n. Outros autores que utilizaram “civilisation” em suas obras. Os sportmen eram geralmente homens das classes abastadas que conheciam/praticavam diversos esportes exclusivamente na condição de desportista amador. de acordo com Elias. David Ricardo e Adam Smith. ver Lopes (1994. com essas características. Sobre a transformação do futebol em esporte de massa no Rio de Janeiro. Exemplos de notórios sportmen do período pesquisado são Edgar Proença e Nilo Penna. Para uma visão oposta a esta e especialmente original de um pensador marxista do final do século XIX.A forma como ocorreu esta transformação em Belém é o que busca desvendar o percurso da pesquisa aqui esboçada.. O trabalho dos jovens aprendizes era recompensado com o pagamento de um pecúlio pelo governo estadual que era recebido no final do curso descontando-se as 76 educ . Quantia paga para o ingresso em clubes e em associações. 13. O aumento da quantidade de recursos financeiros nos cofres públicos foi um dos resultados da pujança econômica de Belém e Manaus neste período.

Para os acervos de livros. fundada em 1913. bons artistas de que a província tanto carece e cidadãos morigerados. . 2010. 13. caso esta fosse necessitada) acumuladas durante a permanência na instituição. fundado em 1905. Consultado no Centro de Memória da Amazônia/UFPA (1872-1919. na mesma obra citada (1996. UFPA. Ideal-Club. O estatuto do Clube Guarany fala sobre o ensino da educação física e da ginástica como devendo ter sempre um “fim utilitário”./jun. fundada em 1918. 01). quando forem julgadas de merecimentos” (CENTRO DE MEMÓRIA DA AMAZÔNIA. Club do Remo. educ 77 . alfaiate. contando com um total de 9. electricista. p. fundado em 1907.] faria de tantos orphãos e meninos pobres. todos os dados pesquisados são provenientes destes estatutos: Centro de Memória da Amazônia/ UFPA (1872-1919). que ahi vagão sem direção e applicação útil. Dr. 1872-1919. cx. artes graphicas. Deste ponto em diante.. decorador de edifícios e modelagem. commercio e sciencias modernas. n. estas serão mandadas imprimir pelo Club. cx. Sociedade Recreativa Juventude. Relatório que trata da criação do Instituto dos Educandos Artífices: Relatório do Presidente da Província Dr.706 alunos matriculados. telegraphista. funileiro. surrador. fundado em 1916. “É permittido aos sócios apresentarem producções relativas ao sport em geral em sua conexão com a industria.” Pesquisamos os estatutos dos seguintes clubes sociais e associações fundados neste período: Sport Club do Pará. João Alfredo Corrêa de Oliveira passando a administração ao 4º Vice-presidente. foram criados outros estabelecimentos de ensino. 1872/1919). Neste período. afirma que o número de grupos escolares no Pará subiu de 8 em 1901 para 36 em 1909. typographo e impressor. fundada em 1910. revistas. marceneiro e entalhador. serralheiro mechanico. Os estatutos do Sport Club do Pará proibiam o uso de bebidas alcoólicas pelos atletas na “garage” das embarcações. sapateiro. 1899). O Yole Club proibia que seus associados. pintor. caldeireiro de cobre e ferro. jornais. Goiânia. 66-79. (CENTRO DE MEMÓRIA DA AMAZÔNIA. Carlos Rocque. v. carpinteiro de moldes e torneiro. stenographo. Escola de Farmácia e Faculdade Livre de Direito. Os profissionais formados pela Instituição eram: “encadernador. 1. Yole Club. saíssem em “traje que comprometta a moralidade do Club”. 271). tintureiro. destacando-se as publicações esportivas. conductor de machinas. Sociedade Recretiva Club Tenente dos Diabos. Abel Graça (1870): “Um estabelecimento d’esta ordem [. Sociedade Phenix Caixeral Paraense. como Instituto do Outeiro (para órfãos). Federação Paraense dos Sports Náuticos. fundada em 1914. nacionais e estrangeiras.14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 despesas (ou metade era entregue a família. Todas as frases aspeadas são excertos de artigos dos estatutos que discorrem sobre a finalidade dos clubes sociais. p. jan. Guarany Foot-Ball Club. fundado em 1896.. tal como o jogo de bilhar. Os estatutos são categóricos em afirmar que devem-se praticar no clube os jogos permitidos por lei. curtidor e correeiro. durante as regatas. fundado em 1918. 01). regente agricola” (GOVERNO DO ESTADO DO PARÁ.

Não há desonra. do Diario Official. jun. T. CUNHA. Cartório de Títulos e Documentos da Amazônia. História do Clube do Remo de 1905 e 1969. n. Belém: Cejup. 1997. C. A belle epoque amazônica. São Paulo. CRUZ. 1910 – 1911 / 1913-19). Abel Graça. Zahar. M. H. DAOU. Dissertação (Mestrado) – Belém. São Paulo: Mandacaru. 1994. Revista USP – Dossiê Futebol. Extracto dos Estatutos. jan. S. O ensino profissionalizante no Pará: ainda a escola para os desfavorecidos pela fortuna – o caso Lauro Sodré. N. Belém: Typ. I. S. P. 1990. 1968. p. 120 p. E. L. DIAS. n. Diário Official do Estado do Pará. (Série Estatutos. M. Monografia (Graduação) – Belém. IFCH/UFPA. GAUDÊNCIO. M. 1998. A.626. Lazer na ocupação: um estudo da sociabilidade de integrantes de uma associação de moradores na periferia de Belém em 1997. 2010. 66-79. Dr. Decreto 726. de 12 de Julho de 1899. E. 64-83. n. São Paulo: Cia. Centro de Memória da Amazônia/UFPA. Rio de Janeiro: Paz e Terra./ago. Goiânia. Manaus 1890-1920: a ilusão do fausto. PINHO. Dissertação ( Mestrado) – Belém. Zahar. 01 – 10 doc. rivalidade e política: o RE X PA nos festivais futebolísticos em Belém do Pará (1905-1950). Rio de Janeiro: J. Rio de Janeiro: J. se perde. Antônio Lemos e sua época: história política do Pará. 1. CENTRO DE MEMÓRIA DA AMAZÔNIA/UFPA. 1999. (Orgs. IFCH/UFPA. M. Noções de educação cívica: para uso das escolas primarias do Estado do Pará. E. do Diário do Gram-Pará. ROCQUE. V. 13. uma história dos costumes. (Coleção de Obras Raras da Biblioteca Pública Estadual Arthur Vianna). E. J.Referências AMANAJÁS. 1998. cx. A produção em massa de traições: Europa. 1990. 2000. 1898. p. CLUB DO REMO. Cartório de Títulos e Documentos da Amazônia. O direito à preguiça e outros textos. João Alfredo Corrêa de Oliveira passando a administração ao 4º Vice-presidente. da. O processo civilizador. HOBSBAWM. COSTA./jun.). A invenção das tradições. 2007. GOVERNO DO ESTADO DO PARÁ. 2000. HOSBAWM. RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA Dr. COSTA. O jogo é um jogo: se vence. Diversão. PPGAS/UFPA. ELIAS. O orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. . 22. RANGER. IFCH/UFPA. vence. A vitória do futebol que incorporou a pelada. das 78 educ . In: E. 1872 / 89 / 1900 / 1906-09 e CX. 02 – 54 doc. LAFARGUE. Monografia (Graduação) – Belém. 1996. ((Série: Estatutos. F. do dia 14 de Novembro de 1917. 1997. perde. LOPES. A enciclopedia do futebol paraense. SAID. Pará: Typ. Manaus: Valer. Rio de Janeiro: Urupês. M. v. O esporte é higiene em Belém na primeira década do século vinte. 1872-1919). Belém: Cabano. 1870. 1879 a 1914. 7. D. A.

79 . 1993. 13. Apto. WEINSTEIN. A. Orfeu extático na metrópole: São Paulo. through public teaching and sportive clubs appeared in the period. v. Batista Campos. 401 B. “INSTRUCTION” AND “CIVILIZATION” IN SCHOOLS AND SPORTS CLUBS IN BELEM BETWEEN 1890 AND 1920 Abstract: this article aims to identify the diverse meanings involved in cultural conceptions linked to leisure and sportive practice developed in Belém from 1896 to 1910. das Letras. M. 1571. 2000. 2010. p. 1850-1920. SARGES. n.Letras. de N. Belém (PA). 66-79. Leisure * Professor na Faculdade de História da Universidade Federal do Pará. A borracha na Amazônia: expansão e decadência. São Paulo: T. Belém: riquezas produzindo a Belle-Époque (1870-1912). jan.br. B. Key-words: Education. CEP: 66033-230. Representations. 1980. Doutor em Antropologia Social e pesquisador associado no Núcleo de Antropologia Urbana (NAU) da Universidade de São Paulo. educ . SEVCENKO. 2007. 1992./jun. The proposed idea is that social divisions are strengthened in education practices related to sport and leisure. SANTOS. São Paulo: Hucitec/Edusp. Belém: Paka-Tatu. História econômica da Amazônia (1800/1920). 1. R. São Paulo: Cia. Endereço para correspondência: Rua dos Caripunas. Queiroz. Sport. N. sociedade e cultura nos frementes anos 20. Goiânia. E-mail: macosta@ufpa.

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