Origens e Afiliações Epistemológicas da Teoria Ator-Rede: Implicações para a Análise Organizacional

Autoria: Dany Flávio Tonelli

RESUMO. O objetivo é apresentar algumas origens e influências epistemológicas que moldaram a Teoria Ator-Rede (TAR), visando contribuir para a sua inserção esclarecida no contexto da análise organizacional. Após apresentação inicial e uma reflexão sobre as origens da TAR, são discutidos os seguintes temas: (i) crítica da “construção social da realidade”; (ii) conceito de “simetria”; (iii) conceito de “translação” e (iv) expansão do significado de atuante. Ao final são exploradas implicações para a análise organizacional, as quais reforçam a importância dos conceitos básicos para compreensão da TAR, colaborando para a sedimentação do uso de suas categorias principais nos estudos organizacionais. 1 INTRODUÇÃO A Teoria Ator-Rede (TAR) tem influenciado direta ou indiretamente análises em diversas áreas do conhecimento, como, por exemplo, Educação (QUEIROZ e MELO, 2011), Ciência da Informação (ODDONE, 2007), Psicologia (TSALLIS et al., 2006), Comunicação (SILVA, 2011), Sociologia (MUÑOZ et al., 2005; MURIEL, 2011), Geografia (PRYTHERCH, 2011) e Direito (COWAN e CARR, 2008). Acerca dos estudos organizacionais, uma importante contribuição da TAR diz respeito ao redirecionamento do foco de análise para o processo de organização (organizing) e seus variados aspectos de interesse, como tecnologia, mudança organizacional, rotinas, organização virtual, poder, mecanismos de mercado e gestão do conhecimento, dentre outros (CZARNIAWSKA e HERNES, 2005; ORLIKOWSKI, 2007; ALCADIPANI e HASSARD, 2010). Davenport (2006) afirma que a TAR inverte os pressupostos da corrente tradicional de análise organizacional, assumindo que a existência dos atores não precede a existência das redes nas quais eles se inserem. Posicionamentos como este, além do vocabulário que lhe é peculiar, possibilitam à TAR oferecer insights novos que podem ampliar a compreensão acerca de como os processos organizativos adquirem certa estabilidade quando inscrevem uma série de entidades formadas simultaneamente de elementos humanos e não-humanos. Entretanto, quanto maior o espaço ocupado pela TAR, maior é o número de críticas que ela recebe. Baseado no pós-estruturalismo marxista de Deleuze e Guattari, Roberts (2012), por exemplo, afirma que a TAR (outra vertente do pós-estruturalismo) direciona sua atenção para os aspectos concretos e contingentes das organizações, não dando importância à sua forma abstrata, o que faz com que as contradições do capitalismo na sua essência sejam ignoradas, as quais reproduzem dualismos numa variedade de formas. Seja produzindo consenso ou provocando controvérsia, não se pode negar a crescente influência da TAR. Contudo, alguns aspectos demandam maior aprofundamento. Dentre eles estão questões de natureza epistemológica que dizem respeito, por exemplo, à influência exercida pela sociologia do conhecimento e pela filosofia da ciência por meio de conceitos como o de “simetria” originário de Bloor (1976) e o de “translação” originário de Serres (1990). A fim de oferecer um esforço de aprofundamento do debate, o objetivo é apresentar algumas das origens e influências epistemológicas que moldaram a TAR, visando contribuir para a sua inserção de modo esclarecido no contexto da análise organizacional. Acredita-se que muitos iniciantes ou até mesmo praticantes da TAR possam encontrar dificuldades de natureza epistemológica. Por esse motivo, o esforço de sintetizar argumentos complexos e 1

as principais características da abordagem estão baseadas em três pilares. recorre-se a um novo vocabulário e desenvolve-se uma nova estratégia metodológica que consiste em seguir os atores no momento de suas ações. 3). projeta-se a noção de que estamos em meio a um emaranhado de relações heterogêneas. foi realizada uma revisão da literatura especializada. Chama a atenção na expressão “Teoria Ator-Rede” o hífen que liga os termos ator e rede. Para tanto. 2 CONCEITOS INICIAIS A TAR foi elaborada e desenvolvida principalmente por três autores: Bruno Latour. Os elementos que produzem a realidade trazem consigo ambas as esferas de modo inseparável. na última parte são apresentadas algumas considerações e implicações para a pesquisa e a análise organizacional. Qualquer ator-rede não poderia ser compreendido se tão somente fosse possível dissociar dele o subjetivo ou o objetivo. A realidade não se explica apenas por meio de uma combinação de elementos vindos da esfera subjetiva e da esfera objetiva. Truth and false-hood. significado e identidade na rede. In one way or another all of these divides have been rubbished in work undertaken in the name of actor-network theory (LAW. Esse hífen revela o propósito de representa-los como uma única entidade (LATOUR. A segunda problematiza a dualidade entre a dimensão social e a dimensão cognitiva. Law afirma que: [. Em vez de aceitar essa separação para compreender a realidade. considera-se que os elementos sociais não são mais do que produto das interações entre os atores. Michel Callon e John Law. Activity and passivity. são apresentados conceitos introdutórios que possibilitam ao leitor uma noção geral acerca do que é a TAR e de quais são algumas de suas proposições. Human and non-human. Há aí uma preocupação em enfatizar uma conexão indispensável (GEELS. Por último. 2 . Não pode existir ator sem que haja a rede. Large and small. Uma vez que todas as entidades são resultantes de suas relações com outras entidades não há sentido em aceitar a ideia imposta pelas fronteiras das metáforas dualistas (LAW. A fim de acomodar esta tensão. 1999. Segundo Serrano e Argemí (2005). assim como propor novos debates num movimento reflexivo pode ser útil. Knowledge and Power. Segundo Law (1999).] entities take their form and acquire their relations with other entities. 2005). De início. Na sequência é apresentada uma história da sua origem nos Estudos de Ciência e Tecnologia (ECT) e da forma como ela se distinguiu em relação a outras abordagens de estudo das relações e interações sociotécnicas. p. “ator-rede” apresenta um oximoro semiótico proposital que pretende combinar e eliminar a distinção entre agência e estrutura. 1999). 1990). (ii) o conceito de Simetria originário do “programa forte de sociologia do conhecimento” de David Bloor. Finalmente. Materiality and sociality.oferecer um referencial de estudos. O que explica a realidade não é unicamente o ator e nem unicamente a rede em que ele se insere. Agency and structure. In this scheme of things entities have no inherent qualities: essentialist divisions are thrown on the bonfire of the dualisms. (iii) o conceito de “translação” cunhado por Michel Serres a fim de representar o tempo como o espaço da simultaneidade e (iv) a expansão do significado de atuante para além da atuação apenas das pessoas.. Em seguida são explorados conceitos que aproximam e distanciam a abordagem de outras como: (i) a noção de “construção social da realidade”. Before and after.. O ator só é ator porque ele adquire forma. O primeiro quebra a dicotomia entre as perspectivas micro e macro das ciências sociais. Context and content.

Ela se dá em relação à noção internalista de história científica e tecnológica predominante até então na comunidade científica e entre os filósofos da ciência (Entre esses. Historiadores da tecnologia não aceitavam a inserção da tecnologia dentro do contexto das ciências. de um lado. fazendo surgir o movimento apelidado de teia sem costuras (TSC). social. Para lidar com tais dilemas seria necessário um novo acordo semântico. 1992). de outro. 1986. A visão teia sem costuras abre possibilidades para o contexto das relações que se estabelecem em meio a uma série atores e instituições (HUGHES. A abordagem interativa tem três características essenciais: (i) considera uma divisão entre o social e o técnico. Entretanto. BIJKER. argumentando que há certa relação de troca e interação que impede a submissão unilateral de um pelo outro (BIJKER e LAW. Os internalistas defendiam que o entendimento acerca do desenvolvimento da ciência ou da tecnologia estava dependente unicamente do entendimento dos aspectos intrínsecos da ciência ou da tecnologia em si. 1986). Um novo sistema linguístico permitiria atribuições de sentido menos influenciadas pela tradição sociológica. Em Latour (1999) é possível perceber essa preocupação. A visão interativa é decorrente de certa resistência no âmbito de estudos históricos da ciência e da tecnologia a partir da década de 1970. o ato de produzir ciência ou tecnologia é considerado coisa isenta de influências sociais ou culturais. Isso ocupou um espaço importante na discussão entre os estudiosos. historiadores da ciência e. a verdade científica não está alheia às controvérsias humanas (HESS. 1986). historiadores da tecnologia. decorrente da opção de não se restringir em meio aos limites cognitivos impostos por dilemas intermináveis. No senso comum. se destaca Imre Lakatos e sua tese dos programas de pesquisai). 1995) destacam pelo menos duas abordagens distintas. 3 OS ESTUDOS EM CIÊNCIA E TECNOLOGIA Embora presente como orientação metodológica em diversos campos do conhecimento. Os ECT se contrapõem à noção predominante de que ciência e tecnologia sejam produzidas por meios puramente racionais. mas não uma dependência contextual (HUGHES. (ii) considera que o social molda o técnico e (iii) aceita a possibilidade recíproca de o técnico também ser capaz de moldar o social. Ao discutir algumas das categorias-chave será possível abordar um pouco da origem desses novos significados.Uma preocupação fundamental da TAR é ir além dos significados dados. Eles acreditavam que havia uma interação entre a ciência e a tecnologia. Essa posição acabou sendo uma grande limitação imposta pelos interativistas a si próprios. 1992. BIJKER e LAW. 3 . a TAR nasceu como um ramo dos Estudos de Ciência e Tecnologia (ECT). 1992). Paralelo a esse debate havia outro ocorrendo entre. cada qual entendendo diferentemente o relacionamento entre tecnologia e sociedade. 1995). dos pressupostos semânticos da linguagem teórica tradicional. os ECT representam um corpo teórico que abriga visões idiossincráticas e divergentes entre si. econômico e científico são tão importantes para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia quanto são as características endógenas (BIJKER. Os externalistas alegavam que contingências do contexto político. Estudiosos do campo (HUGHES. A primeira pode ser chamada de interativa e a segunda de “teia sem costuras” (seamless web). o qual buscou o rompimento com a noção de interação apenas entre ciência e tecnologia. Ela rejeita quaisquer reducionismos oriundos tanto do determinismo social como do determinismo tecnológico. 1995). Esse campo de pesquisas desenvolveu-se em torno do debate sobre onde. Ao contrário disso. como e se é possível estabelecer limites entre sociedade e tecnologias (BIJKER e LAW.

duas características a distinguem. a estrutura tecnológica de Bijker (1995) difere da estrutura social de Giddens (1989). como as que ocorrem em organizações. Eles se preocupam em entender “como as facticidades objetivas” tornam-se “significados 4 . quando eles são utilizados para explicar a estabilidade da ciência normal. Celluloid). A segunda está na preocupação em tornar simétrica a agência dos não-humanos em relação à agência das pessoas. 4 CONSTRUTIVISMO CRÍTICO Para os construtivistas sociais.g. O acesso a essas duas estruturas tecnológicas possibilitou a Baekeland se tornar um agente de mudança. Bijker (1995) deixa claro. a proposta embute incentivos para a mudança. uma vez que é impossível ao analista visualizar todas as relações e elementos constituintes da teia. Estrutura tecnológica funciona de modo similar aos paradigmas (KUHN.. Como exemplo. Bijker (1995. percebidos e compreendidos por meio do movimento.A visão mais radical da TSC não admite divisões estáveis entre o social e o técnico. A reconstrução seria sempre parcial. uma vez que essa última não faz referência a formas de ação coletiva. 2006). Entretanto. 1995). A análise da realidade social deveria começar com a reconstrução analítica de uma teia. p. Bijker (1995) apresenta um estudo detalhado do surgimento (construção social) do plástico. em 1907. todo o conhecimento reside na mente das pessoas. Leo Baekeland. Entretanto. são fundamentos sobre os quais ela se constrói. A primeira tem a ver com a preocupação em introduzir uma linguagem distinta daquela que poderia naturalizar percepções polarizadas da realidade. Uma característica comum e marcante dessas duas abordagens está no fato de elas considerarem o social e o técnico como criados. apenas por meio da reconstrução é possível avaliar como a realidade é afetada por diferentes tipos de circunstancias. the Celluloid frame) are linked processes. da ação (BIJKER. Na visão da TSC se inserem as abordagens estrutura tecnológica (technology frame) e Teoria Ator-Rede (TAR).. 193) exemplifica: The social construction of an artifact (e. and the emergence of a technological frame (e. the forming of a relevant social group (e. Esses agentes estão sujeitos à sua estrutura social e. foi o resultado da sua inserção tanto na estrutura tecnológica da celulose como parcialmente na estrutura tecnológica da eletroquímica. A mudança vai depender do grau de inclusão de um agente de mudança em uma estrutura tecnológica vigente. que a estrutura tecnológica é externa aos indivíduos. ao mesmo tempo. O conceito de estrutura tecnológica (technology frame) (BIJKER. por meio desse e de outros exemplos. Embora parcial. em parte. celluloid engineers). dessa vez com o construtivismo social. por meio do processo de estabilização de um artefato orientado continuamente por ações e interações.. no qual a estrutura é vista como produtora e produto da ação dos agentes cognoscíveis. A esse respeito. 1995) é análogo ao conceito de estruturação (GIDDENS. 1989). as quais permitem a criação de diferentes tipos de objetos e propósitos (BIJKER e LAW. 1995). colocando um foco incômodo sobre uma agência humana irredutível (BIJKER. Nisso há outra ruptura importante produzida pela TAR. mas construídas. O inventor do primeiro material plástico sintético.g. 1992).g. As estruturas tecnológicas não seriam entidades fixas. impondo assim o mesmo estatuto ontológico a essas duas categorias de agentes até então consideradas distintas (AKRICH e LATOUR. Entretanto. 1992). A mesma ideia de que a realidade é percebida como produto da interação entre diversos elementos distintos está presente na TAR. ainda que localizada no nível de um grupo social relevante. A simetria humano-não-humano favorece uma concepção distintiva de realidade.

p. O que o novo quadro procura capturar são os movimentos pelos quais um dado coletivo “estende” seu tecido social a “outras” entidades. fortalecendo o que Peci e Alcadipani (2006) chamam construtivismo crítico. pois enfatiza as associações entre humanos e não-humanos: “um intercâmbio de propriedades humanas e não-humanas no seio de uma corporação” (LATOUR. com isso. 2006). essa concepção de realidade seria inaceitável.subjetivos” (PECI e ALCADIPANI. introduzindo. contra o funcionalismo e o marxismo predominantes (PECI e ALCADIPANI. 2006. tratar humanos como objetos. isso não significa desconsiderar os traços característicos das diversas partes que o integram. assumindo que apenas as pessoas são capazes de atuar. está na “verdade assumida como realidade” construída a partir dos significados subjetivos – a relação entre homem (em coletividade) como produtor e o mundo social como produto dele. 147). 2001. p. oferecendo um termo opcional ao social. Latour (2000) defende o argumento de que as entidades reais são híbridas. Coletivo é mais amplo do que sociedade. 222). a realidade seria o resultado da cognição humana. Peci e Alcadipani (2006) afirmam que a abordagem fenomenológica e existencialista influenciou Berger e Luckmann (2008) a introduzirem conceitos centrais relacionados à sociologia do conhecimento. por exemplo. O construtivismo social prioriza o linguístico. o que revelou uma controvérsia fundamental (MICHAEL. 2006). 2005). Um dos argumentos de Latour se relaciona com a crítica da modernidade e seu consequente desígnio de separar o objetivo do subjetivo. Outro ponto considerado crítico está no fato de o construtivismo social. Desde seu início iluminista. Isso conduziu ao foco de interesse principal que. 147). 1996). p. 1996). É impossível circunscrever ao social o processo de construção da realidade. Com a adoção do coletivo. É isso que eu quis dizer até agora com a expressão 5 . a modernidade buscou purificar a prática científica de qualquer outra atividade. o jogo não consiste em estender a subjetividade às coisas. tomar máquinas por atores sociais e sim “evitar a todo custo o emprego” da distinção sujeito-objeto ao discorrer sobre o entrelaçamento de humanos e não-humanos. Como afirma Latour (2001. os quais são tão característicos de boa parte do construtivismo social (MICHAEL. pois ela desconsidera o outro lado não-humano: ponto fundamental para se compreender as ações coletivas. tirando de foco as entidades não-linguísticas. Historicamente. o qual não tenha seu significado subvertido tão facilmente como algo oposto à natureza. Se analisada sob o espectro da TAR. Ele ocorre simultaneamente e indissociavelmente com base em elementos humanos e não-humanos. Do ponto de vista ontológico. sustenta o argumento de que a utilização demasiada do construtivismo social simplifica sobremaneira o processo como um todo. Latour (2001) faz uso do recurso da semiótica. 2001. Autores dos ECT aprofundaram as críticas acerca dos limites do construtivismo social. conforme Peci e Alcadipani (2006. 222-223). o científico e o não-científico e a sociedade e a natureza (LATOUR. Se faz necessário mudar o quadro de referência do social. dicotomias entre. Trata-se do termo “coletivo” iii. especialmente na década de 1970. Entre as críticas. 2000. não-humanas e não-sociais (em última instância elas são construções das atividades linguísticas. Hacking (1999). o construtivismo social mostrou-se importante fonte de contraposição. p. por exemplo. Isso provoca um questionamento acerca de alguns dos pressupostos subjacentes da "virada linguística". intersubjetivas e intertextuais). Akrich (1992) afirma que o construtivismo social nega a atuação dos objetos. 2004. considerar a realidade apenas desconectada das questões materiais (PECI e ALCADIPANI. assim como outras abordagens predominantemente subjetivas (como a etnometodologiaii). O construtivismo social não considerou problemáticos os não-humanos.

Eles se transformam e também são transformados. ou é mediada. por exemplo. O conceito de simetria derivado do PFSC possibilitou elaborar o argumento de um mesmo estatuto ontológico entre discursividade e materialidade. Em torno de uma fabricação (termo sinônimo de construção muito utilizado por Latour (2000. Mudar o quadro de referência de social seria uma necessidade que compreender que há simetria entre os humanos e os objetos. por exemplo. Humanos e não-humanos passam a ser considerados simétricos. humanos e não-humanos nunca estão dissociados. quando nos tornamos atentos e humildes observadores. a metodologia dos programas de pesquisa (LAKATOS. Eles formam. inclusive os fatos. A ideia é que a sociedade é feita de humanos e não-humanos. Bloor (1976) exemplifica algumas das principais questões dos sociólogos desse campo. Os elementos introduzidos nunca saem do processo com as mesmas propriedades e características iniciais.provisória Ciência e tecnologia são aquilo que socializa não-humanos para que travem relações humanas. A sociologia do conhecimento ofereceu abordagens inovadoras. apresentado. ou seja. técnica. O que distingue a TAR de outras correntes é em grande parte devido a essa influência. Bloor (1976) critica. assim como os humanos. Latour (2001) não considera que o processo de fabricação seja um jogo no qual a soma dos elementos isolados é sempre igual à soma das partes quando elas são ajuntadas. p. história e pessoas. 2001)) juntam-se artefatos. No cotidiano. Cada ação que realizamos está associada. É justamente na heterogeneidade de associações que está o envolvimento de humanos e não-humanos (PECI e ALCADIPANI. a estabilização. por não-humanos que também agem. 2006. dentre outros elementos impossíveis de serem totalmente percebidos na sua completude. interesses. pelo processo de demarcação de um campo específico de conhecimento científico. 1976). ciência. conhecimento. Entretanto. computadores. sujeitos e objetos. assim como a ação passa a ser considerada distribuída entre as diversas entidades que a constituem. capacidade de ação (PECI e ALCADIPANI. essa agência desloca-se de um mestre todo poderoso para as diversas coisas com as quais temos que dividir a ação. algo não cogitado pelos cientistas sociais quando ignoraram o importante papel desses últimos em suas análises acerca da realidade. redes que constituem aquilo que chamamos de real. em conjunto. Conforme afirmam Peci e Alcadipani (2006). 1979) por conta do enfoque 6 . Bloor (1976) identificou que todas as abordagens anteriores lidavam com os processos sociais internos (relacionados com o a visão internalista da ciência e da tecnologia) e não com questões atribuídas às influências externas sofridas. O processo de construção é coletivo. a transmissão e a manutenção de conhecimento. 148). Improvisei a seguinte frase para substituir a expressão modernista: Ciência e tecnologia permitem que a mente rompa com a sociedade para alcançar a natureza objetiva e impor ordem à matéria eficiente (ênfase do original). 5 O PROGRAMA FORTE DE SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO O uso do conceito de simetria está associado ao programa forte de sociologia do conhecimento (PFSC) (BLOOR. humanidade e objetividade. Em sua época. tudo se constrói desse modo. Para que isso seja possível é necessária a mobilização de uma diversidade de elementos heterogêneos. 2006). Por meio de preocupações relacionadas com a criação. o vocabulário relacionado ao processo de fazer enfatiza o papel de alguma agência.

Essa mesma concepção de simetria também foi incorporada por Callon (1986). São eles: causalidade. Latour e Woolgar (1997) rompem definitivamente com esse tipo de filosofia da ciência. em princípio. O segundo pressupõe imparcialidade entre verdade e falsidade. considerando iguais em importância tanto a sua dimensão social quanto a sua dimensão científica. por exemplo. diferentemente de Bloor (1976) (e sob protestos do mesmo). Latour e Woolgar (1997) e Latour (1996) produzem uma série de evidências empíricas para o PFSC. por meio da noção generalizada de simetria introduzida por Latour e Woolgar (1997). São eles os princípios de imparcialidade e de simetria. relevante e suficiente entre vencidos e vencedores da história das ciências. Entretanto. do ponto de vista lógico. Para Bloor (1976) e Latour e Woolgar (1997). O quarto refere-se à reflexividade. racionalidade e irracionalidade. simetria e reflexividade. para entender o porquê de os franceses acreditarem em astronomia. Ambos os lados dessas dicotomias devem ser explicados e não apenas aqueles ligados aos aspectos socialmente considerados não verdadeiros. Por exemplo. não se buscam explicações em dimensões sociais. todo o tipo de explicação extracientífica pode ser razoável. relacionado com a recusa em perceber o mundo por meio de divisões entre polos distintos com qualidades intrínsecas. Por meio da imparcialidade e da simetria. Partindo dessas considerações. Ela não se refere apenas ao tratamento equânime. 1997). Se de modo assimétrico é presumível considerar que apenas pessoas podem ser agentes e performar o mundo. a noção de simetria de Latour e Woolgar é distinta. Bloor (1976) apresenta quatro dogmas que deveriam orientar o PFSC.sobre a capacidade relativamente autônoma das disciplinas científicas para se consolidarem a despeito de todo tipo de influência externa proveniente de uma infinidade de contingências. ao contrário. ou seja. Marques (2006) afirma que. uma vez que a astrologia não tem evidências científicas. psicológicas. A partir da simetria generalizada é possível entender um pressuposto fundamental da TAR. O terceiro considera que o estilo da explicação deve ser simétrico. os padrões de explicação do PFSC deveriam ser aplicáveis à sociologia em si e vice-versa. psicológicas e econômicas (entre outras) só entram na análise quando algo dá errado. Fora do PFSC. Dois dogmas dos PFSC exerceram grande influência epistemológica sobre a TAR. crenças verdadeiras e crenças falsas. Entretanto. acreditar em astronomia seria algo plenamente lógico e pleno de sentido (LATOUR e WOOLGAR. mas sociedade e natureza dentro de um mesmo plano simétrico. Para isso. Latour e Woolgar (1997) entendem que não seria suficiente. O tipo de simetria generalizada de Latour estimula considerar sociedade e natureza constituintes do mesmo plano ontológico (LATOUR. dimensões sociais. como a irracionalidade e o insucesso. etc. Seria necessário. a fim de compreender tal manifestação ilógica e aparentemente sem sentido. 2005). especialmente no plano ontológico. na compreensão do desenvolvimento das ciências. para explicar o porquê de os franceses acreditarem em astrologia. A mesma causa explicaria. a realidade e 7 . penetrar no âmbito mais profundo em que a produção científica estava inserida. O primeiro considera que as condições pelas quais crenças e conhecimentos são criados são causais. toda a explicação acerca do desenvolvimento científico deve ser simétrica. o cerceamento de sua dimensão cognitiva a alguns poucos fatores sociais. Afinal. Latour e Woolgar (1997) avançam em relação aos pressupostos preestabelecidos acerca do conceito de simetria. humanos e não-humanos são equânimes e cúmplices na geração de agenciamentos e performatividades (MARQUES. A simetria permite perceber que o mundo. as quais avançaram para além das pressuposições de David Bloor. o qual procurou explicar não apenas os pontos de vistas conflituosos e os argumentos contraditórios da ciência e da tecnologia. Considerar que o que dá certo. imparcialidade. não necessita de explicação fora da dimensão cognitiva da ciência é comportar-se de modo assimétrico. 2006a). sucesso e falha.

lacunas. Não há como isolar características de um ou de outro. É apenas pretensa a noção de que a racionalidade do presente favorecida pela ciência moderna rompa com os mitos e outros elementos não-racionais e distantes do passado. números distantes se aproximam. brechas. outros conceitos foram trazidos e incorporados pela TAR. Desses. poços. seja ela reta ou entrecortada. há 10 anos. esquecido ou ultrapassado. quando se compreendeu isso. Algumas metáforas auxiliam na compreensão dessas ideias. existir na cultura certas coisas que a linha fazia parecer muito afastadas e que estão de facto muito próximas. 86 – destaque conforme original). No cerne dessa questão está a inspiração do pensamento filosófico de Michel Serres. na verdade. multitemporal. carroceria ou talvez pela pretensão da publicidade. Em suma. a pesquisa espacial. Serres (1996. Sobre tal entendimento do tempo. pelo contrário. remete para o passado. um ministro de Estado. O ciclo de Carnot tem quase 200 anos. 1996. o qual pregava a ruptura entre ciências e humanidades e o progresso científico pela filosofia do nãov. 2009). estão distantes. p. 8 . o contemporâneo e o futuro simultaneamente” (SERRES. Quando isso é aplicado à noção de tempo. A roda. 6 O PROCESSO DE TRANSLAÇÃO Assim como a simetria. Um modelo recente constitui um agregado heterogêneo de soluções científicas e técnicas de diversas épocas diferentes.todas as entidades atuantes são produto de relações. algo revolucionário para epistemólogos como Bachelard.. é difícil imaginá-lo como uma linha. rupturas. A antropologia das ciências praticada por Bruno Latour foi primeiramente praticada por Michel Serres e exprime a noção original de imbricação entre cultura e prática científica. inversamente. um computador ou a própria TAR) é marcada por um atributo imprescindível: o hibridismo entre humanos e não-humanos. Ele é tão importante que a própria TAR também é chamada de “sociologia da translação” (CZARNIAWSKA. Outro exemplo dessa influência está na abordagem de Serres (1996) sobre o tempo. portanto.. nem segundo um plano.. “Qualquer acontecimento histórico é. uma rede social. muito próximas que. Cada entidade (por exemplo. Uma delas é a do automóvel. remonta ao neolítico. 83) afirma que: O tempo não corre sempre como uma linha [. ou coisas. A influência de Serres sobre Latour é extensaiv. chaminés de aceleração espantosa. desse modo. Na teoria dos números é possível reordenar a sequencia lógica natural. A crítica da modernidade baseada na impossibilidade prática do homem de separar (purificar) as ciências do mundo exterior (separar o fato da crença) é muito influenciada por Michel Serres.] Não é muito difícil. em que o objetivo e o subjetivo se misturam e se transformam.]. mas de acordo com uma variedade extraordinariamente complexa. aceitar que o tempo não se desenvolve sempre segundo uma linha: que podem.. o conjunto não é contemporâneo a não ser pela sua montagem. de forma que os vizinhos naturais se tornam muito distantes enquanto. fabricações e construções intermináveis. o de translação tornou-se uma categoria chave. por sua vez. [. p. pelo menos numa desordem visível. como se aparentasse pontos de paragem. tudo semeado aleatoriamente. Partindo de intuição decorrente da teoria matemática dos números. Serres (1996) afirma que o tempo é o espaço da simultaneidade. já aquela. por exemplo. desenho. É possível datar peça por peça: esta inventada no início do século. O passado não está tão distante.

Se. pessoas. talvez sobrepostos. do presente e do futuro. aproximada de uma narrativa que permite uma experiência convertida em palavras ou imagens. Se ele for estendido para ser passado a ferro. inverte lógica da comunicação voltada para a transmissão e marcada pela fidedignidade. John Law e Michel Callon incorporam essa noção de translação. Assim. Serres (1996). Segundo Czarniawska (2009). Ideias podem ser materializadas. Para Latour (2001. dois pontos que antes estavam muito afastados subitamente se encontrarão muito próximos. 2009). assim como símbolos podem ser inscritos nas mentes das pessoas. palavras ou imagens precisam ser materializadas.Outra metáfora é a do lenço. se. 9 . de modo geral. O tempo assemelha-se muito mais a essa variedade amarrotada do que à lisa. Todos são trazidos à tona. dois pontos muito próximos podem ficar muito afastados. Ela assume muitas formas diferenciadas. mesmo sendo tecnologia linguística. Pode envolver o ato de deslocar ou o ato de substituir alguma coisa. p. Consequentemente. será possível definir sobre ele distâncias e proximidades fixas. deslocam e transladam seus vários e contraditórios interesses. em seguida. cultura. tanto no sentido íntimo como no exterior. as cadeias de translação referem-se ao trabalho graças ao qual os atores modificam. Em lugar de uma rígida oposição entre contexto e conteúdo. o que é envolvido numa translação . 81). Uma prática não estabilizada por uma tecnologia. o arcaico recai sobre os ombros da atualidade. Sempre envolve transformação. técnica. além disso. estabelecer comunicação. pelo menos. a translação evoca tanto associações simbólicas quanto uma insistente materialidade. simultaneamente. 2009). forjar passagens entre domínios ou. A translação atrai interesse pelo fato de considerar a impossibilidade de uma coisa ser movida de um lugar para outro sem que ela própria não seja transformada. objetivadas (CZARNIAWSKA. etc. O lenço amassado. ele também media qualquer outro tipo de transformação e de transferência. reunindo artefatos. 1996). 356). ela é limitada por ser efêmera. amassado e enfiado no bolso. para viajar no tempo e no espaço. as translações que ocorrem nas ações coletivas e representam: todos os deslocamentos por entre outros atores cuja mediação é indispensável à ocorrência de qualquer ação. Bruno Latour. Cada ato de translação transforma o que translada como também aquilo que é transladado (CZARNIAWSKA. 1990) como um processo de construir conexões. Tanto o tempo da história como o do clima. não meramente linguística. Entretanto. “cada invenção desvenda ao mesmo tempo o real e o histórico”. o conceito de translação é útil porque ele é polissêmico: usualmente associado à linguagem. O lenço liso remete à geometria do tempo clássico. simplesmente. Por meio de cadeias de translação. na natureza. Michel Serres considera a translação uma operação generalizada. o lenço for rasgado em determinados lugares. Qualquer prática deve ser simplificada e abstraída em torno de uma ideia ou. o lenço for embrulhado. p. Cabe aos processos de translação produzir a conexão de elementos que fabricam a realidade. de um ato de invenção ou de bricolagem que emerge a partir da mistura de elementos heterogêneos do passado. diversos interesses. assim.seja conhecimento. embrulhado e rasgado remete à topologia do tempo experimentado. A translação em Michel Serres aparece em sua obra Hermes (SERRES. no dizer do próprio Serres (1996). não pode durar. corporificadas. Trata-se. demasiadamente simplificada (SERRES. pessoas ou coisas – sempre assume uma identidade incerta. Como afirma Serres (1996. Entretanto.

Isso cria uma tensão que faz os atores selecionarem apenas o que. Em vez disso. Ao se considerar que tecnologias possuem qualidades intrínsecas. Segundo Czarniawska (2009). Não no sentido que a princípio se atribui. ela passa de mão a mão e. Torna-se menos e menos reconhecível (LAW. Isso implica em destacar a afirmação de que todas as representações também traem o seu objetovii. assim vista. tradução remete a similaridade. Para Law (2003). Greimas introduziu a noção de atuantes como sujeitos gramaticais. de modo geral.Como indica Latour (2000). ao contrário.. inventar novos grupos. Para exemplificar. há também o pressuposto de que elas são passadas de uma mão à outra de maneira simplista. mas também animais. Isso inclui não apenas seres humanos. 2003). Focando o lado voltado para a compreensão das relações que se estabelecem entre os atores. Law (2003) vai além ao comparar translação à traição. remete à diferença que transforma. a translação visa minar a ideia de que poderia haver algo como fidelidade de representação: tradução fiel. sem que atravessem um processo de transformação. que considera a que a tecnologia se origina num ponto e depois se espalha. dos próprios atores. se entende que. Enquanto o ator e a ação claramente assumem um 10 .. os quais podem ou não revelarem-se como pessoas. a possibilidade de interação e as margens de manobra são negociadas e delimitadas. mesmo. translação é transformação. Isso porque. elas também precisam ser resignificadas e reelaboradas. alguém tem que ceder e desviar-se um pouco do seu objetivo inicial: se você desviasse um pouquinho. Um atuante é aquele que realiza ou sofre um ato. pode ocorrer: (i) quando alguém encontra e se associa a outras pessoas que querem a mesma coisa que ela: eu quero o que você quer. Traição. os ajuda a alcançar os seus objetivos entre uma multiplicidade de possibilidades existentes. 7 ATUAÇÃO NÃO-HUMANA Como pensar na figura do ator dissociada da noção de atuação apenas humana? Uma influência importante para resolver essa problemática veio dos estudos semiológicos do lituano de origem russa Algirdas Greimas (1917-1992). Não pode existir. assim. Os processos de translação são os momentos por meio dos quais a identidade dos atores. fidedignidade entre a origem e o resultado daquilo que é traduzido. É transformada. (iv) quando há remanejamento de todos os interesses e objetivos iniciais: deslocar objetivos. Para Callon (1986). considerando suas limitações. à medida que ela passa. A translação. algo como transferência de tecnologia. em atribuir maior ou menor responsabilidade pela invenção a um ou outro ator) e (v) quando todos os agentes passam a se mobilizar em torno de uma ação coletiva de modo voluntário. às vezes. por que você não quer? (iii) quando. inventar novos objetivos. Para o autor. quando mudam de mão. vencer as provas de atribuição (rejeitando a tendência dos historiadores ou. para ser necessário alcançar um objetivo comum. elas também são performativas. objetos e conceitos. O atuante pode adquirir o caráter de ator ou pode continuar sendo objeto da ação de algum ator. a expressão latina inter-esse expressa a ideia de que ele existe entre os atores de todos os tipos e os seus objetivos. para haver transferência de tecnologias. tornar invisível o desvio. A substituição da palavra ator tem sido feita para mostrar que os atuantes mudam de papéis ao longo de uma narrativa. o autor questiona a possibilidade de haver transferência de tecnologia. Latour (2000) trás alguns exemplos de situações em que há translação de interesses. uma vez que. As ideias da semiótica de Greimas permitiram a elevação de associações entre atuantes e artefatos físicos a um papel mais relevante. (ii) quando certa mobilização desperta interesses comuns em outras pessoas: eu quero. contribuindo para a propagação de uma tese no tempo e no espaço: tornar-se indispensávelvi. ela muda.

influenciada.] já não estava fazendo. O segundo episódio foi marcado pela redefinição do foco que saiu da linguagem e foi para o estudo da prática das pessoas. Esse exemplo da psicologia auxilia a compreender a natureza da ação e o motivo pelo qual ela não possa ser restringida a espaços delimitados. transladada e emprestada (LATOUR. um pintor. arrebatado por aquilo que ela [. 324): Quem jamais dominou uma ação? Mostrem-me um romancista. Essa virada semântica que faz repensar e reconstruir o próprio significado do ator de agente pessoa para uma estrutura mais ampla e complexa que mobiliza e é mobilizada por elementos heterogêneos produzindo ou deduzindo de programas de ação cria uma abordagem original para considerar a criação das entidades performáticas. talvez seja concebível prever as suas consequências. Ao observar a prática. 1995). como nas histórias de oposição e de resistência (CZARNIAWSKA. a ação na perspectiva da TAR é distribuída (LATOUR. adquirindo um caráter relativamente distinto e estável. como Deus. A esse respeito comenta Latour (2001. um cozinheiro que não tenha. está na surpresa acerca dos seus desdobramentos. esses atuantes se tornem atores. Quando a ação é considerada restrita. Conforme explica Hutchins (1995). 11 . a ação pode ser sugestiva. A questão fundamental nesse escopo é: o que faz uma pessoa conhecer? O lócus do conhecimento é assumido como pertencente ao espaço interior do indivíduo. 2005). 2009). alternativamente. Assim como a cognição para Hutchins (1995). as sociedades e as instituições (CZARNIAWSKA.caráter humano de conduta intencional. uma característica fundamental. sido surpreendido. Um exemplo dessa possibilidade de ação produzida no espaço exterior à pessoa está nos estudos de Hutchins (1995). um arquiteto. de conducentes de navios da marinha e de pilotos de avião. Entretanto. traída. como as corporações. 2005).. por exemplo. Hutchins (1995) introduziu a ideia de que a cognição humana está também situada em um complexo mundo sociocultural e não pode se desvincular dele. o atuante poderia melhor descrever a construção de macroatores. mesmo quando se é expectante de domínio completo do que se faz. sendo os métodos de investigação baseados na formação de conhecimento a partir da linguagem. Assim. em se tratando do uso da expressão “ação distribuída”. um sumário dos procedimentos de pesquisa guiados pela TAR implicaria na identificação de atuantes e em persegui-los por meio de uma trajetória determinada por uma série de programas e antiprogramas de ação. Conforme afirma Latour (2005). 2009).. aqueles que estão ligados a antiprogramas que vencem os programas. O conceito de cognição distribuída procura justamente desenvolver a ideia de cognição como uma espécie de ecologia de pensamento que sintetiza a interação humana com os recursos acessíveis e dispersos do ambiente (HUTCHINS. O primeiro está relacionado ao entendimento de que o conhecimento é puramente um fenômeno intrínseco do indivíduo. Os antropólogos passaram a considerar duas coisas: como as pessoas conhecem o que elas conhecem e a que contribuição os ambientes provocam na assimilação de conhecimento? Hutchins (1995) sugere que tais pressupostos privilegiaram a ênfase em descobrir e descrever estruturas de conhecimento que estão em algum lugar dentro do indivíduo. uma vez que essa tarefa é um tanto impossível. o problema não está em localizar a origem da ação. Desse modo. pois a ação está dispersa no espaço e no tempo em meio ao movimento de uma infinidade de entidades e movimentos sobrepostos. p. Quais atuantes se tornam atores? Aqueles ligados a programas que têm sucesso em combater antiprogramas ou. enfim. até que. há dois episódios importantes no desenvolvimento do campo da antropologia.

Perceber o papel exercido pelos atores constituídos simultaneamente e simetricamente de pessoas e de coisas. como. inclusive o próprio processo organizativo. O conceito de estrutura tecnológica. Dessa forma. rotinas. Algumas implicações desse esforço podem ser úteis. Segundo Serva et al. a compreensão ampliada de sua origem sem dúvida auxilia no entendimento acerca do que distancia construtivismo social e construtivismo crítico. por exemplo. O conceito de simetria também oferece um relevante argumento contra o paradigma internalista de história da ciência que alimenta inclusive o funcionalismo na administração. a própria ciência da administração deixa de ser neutra e passa a ser percebida como um complexo sistema de crenças. uma vez que se percebe um crescente interesse da comunidade acadêmica por orientações que fogem ao mainstream funcionalista que tem influenciado e moldado o campo de pesquisa em administração desde Taylor e Fayol. assim como o estabelecimento de programas ou antiprogramas performáticos de ação distribuída. A primeira delas se resume nas possibilidades para inserção de categorias dos estudos de ciência e tecnologia na análise organizacional. para os processos de mudança entendidos como mecanismos de mobilização de estruturas tecnológicas diferentes. tecnologias ou princípios. O esforço é relevante. Os processos de translação ocupam um papel importante. por exemplo. pois eles são os mecanismos de ligação entre pessoas e coisas. (2010). Segundo Marques (2006b). adotando para isso uma abordagem metodológica que procura identifica-los e persegui-los. como sociologia e filosofia da ciência.8 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao sintetizar algumas origens e afiliações epistemológicas da TAR foi possível apresentar alguns conceitos e abordagens que servem a uma compreensão mais aprofundada dessa perspectiva que adquire cada vez mais adeptos no contexto da análise organizacional e da administração. abrem-se mais possibilidades para uma correta interpretação do conhecimento científico. Por meio dos processos de translação é possível criar entidades reais da disjunção caótica de elementos. quando é considerado o contexto social onde qualquer ciência está inserida. os quais escondem os diversos elementos heterogêneos que se juntam na sua fabricação. Entretanto. Quando se estabilizam no contexto organizacional. os quais permitem. torna-se fundamental para compreender como a realidade é fabricada. por exemplo. a mudança organizacional e os processos de motivação e de empreendedorismo. Acredita-se que as mesmas podem ser úteis para compreender variados temas de interesse. A segunda se dá por meio de uma análise crítica reflexiva entre a abordagem construtivista e o conceito de simetria. limites e possibilidades. valores. Mesmo que haja apropriação do conceito de translação de modo coerente. gerando conjunção por meio de conexões improváveis. estudos que procuram sedimentar paradigmas emergentes podem auxiliar na redução de dificuldades epistemológicas da teoria das organizações. por exemplo. a transformação de atuantes em atores. Uma última implicação destacada tem relação com as novas possibilidades que a noção de translação abre para a análise organizacional. por exemplo. ainda assim a imersão mais aprofundada em suas origens na filosofia matemática de Michel Serres e a noção de tempo topográfico incorporam elementos 12 . permite conciliar diferentes disciplinas. elas se tornam. Não são comuns reflexões acerca dos pressupostos introduzidos por meio do conceito de simetria. definidas por limites de especializações técnicas ou por ambientes e realidades distintas. Para entender o processo organizativo é necessário compreender como a ação pode ser distribuída em meio a uma infinidade de atores e atuantes. numa abordagem interdisciplinar que apresenta afinidade com os estudos organizacionais. É possível ampliar o referencial explicativo.

37. BIJKER. CALLON. (2010). building society: studies in sociotechnical change. 9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AKRICH. LUCKMANN. ISSN 1350-5076. p. O desafio que se coloca diante dos estudos organizacionais e da ciência administrativa como um todo não é simples.: MIT Press. x. W. J. 2. como é o caso da TAR. ALCADIPANI. Como afirma Serva et al. v. H. 2008.259-264. Shapping technology. 423-441. CARR.. Shaping technology/building society: studies in sociotechnical change. Cambridge. In: LAW. ISSN 0170-8406. J. action and belief: a new sociology of knowledge? London: Routledge.. Mass. a grande maioria dos estudos ainda se atém a métodos tradicionais de orientação funcionalista. Actor-network Theory and Organizing. 17. v. n. 1976. COWAN. organizations and critique: towards a politics of organizing. implementation. 2009. B. In: BIJKER. Mass. 380 p. 156 p. colaborando para a sedimentação do uso da TAR e de suas categorias principais na análise organizacional. and the private landlord. BIJKER. cap. bakelites. Emerging Institutions: Pyramids or Anthills? Organization Studies.adicionais para compreendê-lo mais amplamente. (Ed. Management Learning. 1992. Cambridge.. 30. LAW. Power.. M. London: Routledge & Kegan Paul. Journal of Law and Society. 419-435. 248250. and bulbs: toward a theory of sociotechnical change.). DAVENPORT. 13 . E. Actor-network theory. p. 341 p. Organization. 1995. Caminhar na direção de resolver esse dilema significa também intensificar esforços rumo a discussões essenciais de cunho epistemológico. Cambridge: MIT Press. D. v. B. p. P. Jul 2010. Actor-network theory and organizing. BLACKBURN. W. L. O esforço desse artigo ressalta a importância de pequenas. M. p. mas importantes contribuições que possam ser úteis àqueles que não se conformam com o trivial e buscam orientar suas pesquisas por abordagens que se colocam numa posição crítica em relação ao funcionalismo e positivismo. R. ISSN 1350-5084. HASSARD. e LAW. n. p. v. A summary of a convenient vocabulary for the semiotics of human and nonhuman assemblies. 4. 9. (Ed.: MIT Press. ISSN 0263-323X.. Knowledge and social imagery. 437 p. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1992.. T. n. 149-166.196-223. D. Jun 2006. HERNES. Of bicycles. E. BERGER. B. J. 2008. W. 1986. Actor-Network Theory. ao mesmo tempo em que há a necessidade de proporcionar uma leitura mais profunda e complexa do fenômeno organizacional. LATOUR. 4.. Some elements of a sociology of translation: domestication of the scallops and the fishermen of St Brieuc Bay. Dicionário Oxford de Filosofia. S. E. 1997. CZARNIAWSKA.). J. T. BLOOR. 2005. 35. Liber. Rio de Janeiro: Vozes. p. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. CZARNIAWSKA.

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vii vi v iv iii Law (2003) inclui aqui a própria representação da TAR e assume que seria incoerente esperar construir por meio dela um conjunto de pressupostos fundamentais. a utilização de dinâmicas coletivas evita o viés semiótico de. porém mal sucedido se conduzir uma transferência degenerativa de problemas” (LAKATOS. Imagine a possibilidade de ver uma tese logo se transformar numa caixa-preta comum nas mãos de todos. pelo menos na possibilidade que abre para o abandono de pressuposições anteriores diante de experiências recalcitrantes que apontam para essa direção (BLACKBURN. É o oposto de perspectivas que consideram o comportamento humano produto de estímulos causais externos ou de motivações internas. A filosofia do não contém sua concepção de progresso científico e possui afinidades com o falsificasionismo de Popper. em que Bruno Latour entrevista Michel Serres com a finalidade de projetar luz sobre o percurso intelectual e o conjunto da obra desse autor. mas sim como programas particulares de pesquisa. Para maiores detalhes ver Michael (1996). 198). das compreensões compartilhadas e da ação social ordinária que pode ser desenvolvida em um programa de pesquisa empírica (OUTHWAITE e BOTTOMORE. ver Latour (2001). 2006. o qual afirmava que uma teoria da ação e da organização sociais estaria incompleta sem uma análise acerca de como os agentes sociais compartilham conhecimento e raciocínio produzidos pelo senso comum na condução de seus assuntos comuns. por exemplo. Sobre a preferência da sociologia da translação pelo termo coletivo em vez do termo social. 163). 22. A principal inovação está no estabelecimento de explicações das propriedades do conhecimento produzido pelo senso comum. ao enfatizar apenas o termo social. p. desconsiderar o lado não-social dessas dinâmicas. considerada por muitos. et al. 1996) proporciona uma síntese acerca da influência de Michel Serres sobre Bruno Latour. Gaston Bachelard (1884-1962) propõe uma visão da ciência segundo a qual esta não é concebida como um corpo de verdades que cresce gradualmente. 2000. excessivamente hermética. Interações. participando de bom grado da construção e da disseminação de caixas pretas” (LATOUR. 57-86. Foi fundada por Harold Garfinkel. O livro intitulado “Diálogo sobre a Ciência a Cultura e o Tempo” (SERRES. “O programa de pesquisa será bem-sucedido se tudo isso conduzir a uma transferência progressiva de problemas. uma vez que a própria TAR está sujeita à transformação quando muda de mãos. É esse cinto de proteção que tem de suportar o impacto dos testes e ir se ajustando e reajustando. O que nós psicólogos podemos aprender com a teoria ator-rede. Os programas têm um núcleo em torno do qual impera a necessidade de articular ou mesmo inventar hipóteses auxiliares que formam um cinto de proteção. A. Em vez de dinâmicas sociais. Esse livro é o resultado de dois anos de trabalho. 16 . p.TSALLIS. 1979. A grande crítica dos interativistas a Lakatos (1979) estava centrada na recusa deste em reconhecer que os aspectos extracientíficos são essenciais para compreender a consolidação de qualquer disciplina científica. comprando seus produtos. mas como um diálogo ativo entre a razão e a experiência. 1996). A metodologia dos programas de pesquisa de Lakatos considera a ciência não como um todo. ISSN 1413-2907. no qual os fatos científicos acabam por ser tanto uma criação da mente racional como uma das suas descobertas. “Os contendores simplesmente se sentariam em seus lugares e os outros passariam sem esforço por entre eles adotando suas teses. ou mesmo ser totalmente substituído conforme for a necessidade de fortalecimento do núcleo. ii i Campo da sociologia que investiga o funcionamento do conhecimento produzido pelo senso comum e do raciocínio prático em contextos sociais. C. o conhecido por “metafísica cartesiana”. 1997). como. n. p.

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