A natureza categorial da preposição

Márcia Barreto Berg
Fundação de Ensino Superior de São João del-Rei

Abstract
The aim of this paper is to identify the categorial nature of preposition, from the perpective of Chomsky’s Generative Grammar (1981/1995). The preposition has been described as a lexical, uniform category, defined by the features [ N, V]. This classification is not consensual, however. We therefore made a survey of the proprieties that distinguish the lexical from the functional, applied the properties to the data of Brazilian Portuguese and came to conclusion that prepositions belong to the functional category.

Sugere-se até que há sistemas cerebrais diferentes . Antes. a preposição tem sido descrita como uma categoria uniforme do tipo lexical. 3) se as preposições seriam uma categoria do tipo lexical. em grande parte. O referencial teórico aqui adotado constitui-se de hipóteses desenvolvidas no Programa de Pesquisa da Gramática Gerativa (Chomsky. não é consensual. resumidamente. Assim como os nomes. cujos traços são [+N. O pressuposto de que o núcleo de toda projeção é funcional (Fukui. 1970/74). atribuindo agora o papel central na estrutura frasal aos elementos funcionais. 2) se os limites entre elas e outras categorias é claro e.BERG 108 I dentificar a natureza categorial das preposições é nosso objeto de estudo. entretanto. 1986. o papel e a natureza das categorias funcionais foram repensados. à variação nas propriedades lexicalmente especificadas das categorias funcionais” (Ouhalla. Há estudiosos que colocam em dúvida se: 1) em todos os seus usos. Esta classificação. Explicaremos. A noção de categoria “funcional” em oposição à “lexical” se reveste. as categorias funcionais são vistas como definidoras das gramáticas particulares: “a variação paramétrica se reduz. 1981/1995). Fukui & Speas. +V] (Chomsky. A visão que surgiu começa a inverter a valorização tradicional. porém. em separado. verbos e adjetivos. Além disso. as chamadas preposições são núcleo de PP. 1986) atribui a essas categorias um papel fundamental na concepção da gramática. os itens acima. de cada vez mais importância dentro do quadro da gramática gerativa. 1991: 3). gostaríamos de justificar a nossa motivação em elucidar a natureza categorial das preposições. Com as grandes mudanças de transição na sintaxe gerativa para a abordagem princípios e parâmetros. portanto.

CENÁRIO A TU AL : PREPOSIÇÕES E PREPOSIÇÕES? ATU TUAL AL: 1. 1. 10. Belo Horizonte.107-124. pois.1. ao classificá-la como vazia de significado. Há também autores que implicitamente colocam em dúvida o estatuto da preposição. o que recebe o apoio de evidências oriundas de síndromes patológicas (Grodzinsky. Abney (1987: 63) apresenta dúvidas quanto à categoria da preposição ao afirmar que “P seems to straddle the line between functional and thematic elements. 1998 109 para lidar com categorias funcionais e categorias lexicais (Tsimpli & Ouhalla. as crianças adquirem elementos funcionais mais tarde que os lexicais. 1987: 64). one might wish to treat it as unspecified for [+ F]”. Giorge (1991).7. onde se lê “thematic” entendese por “lexical” e onde se lê “grammatical” entende-se por “funcional. Agora vamos à explicação dos itens (1 a 3) relacionados acima. p./jun. a habilidades de processar elementos funcionais é perdida enquanto o uso e entendimento dos elementos temáticos (= lexicais) sobrevive (Abney. n. apud Ouhalla.1. Já Emonds (1985: 14) sugere que a preposição pertença à classe funcional “P (which usually corresponds to the tradicional term ‘preposition’) is a head which is a grammatical rather than a lexical cathegory”. 1991. 1990). Marantz (1984). Dummy implica na propriedade de não atribuir papel temático. jan.Rev. pois para ele. como realizadora de Caso e não atribuidora de Caso. Essa classificação recebe por alguns autores o nome de “prepositions dummy”: Williams (1989). Nesse texto. Est. O tipo de categoria a que a preposição pertence Na literatura há controvérsias de que a preposição seja lexical ou funcional. todas as categorias lexicais atribuem Caso. Também na psicologia a distinção entre funcional e lexical é importante. . 1990). Ling. Já em certas afasias. Borer (1985) dentre outros. na aquisição da linguagem. o que implica rejeitar o seu estatuto como categoria lexical. Chomsky (1986) trata esse tipo de preposição. v. que ele identifica como “of”.. p.

-V]. isto é.3.θ e o traço [N] corresponde à propriedade de não atribuir Caso e papel-θ. Lobato (1989) apresenta dúvidas de qual elemento é o núcleo na expressão “atrás de”. seria de se esperar que todas tivessem um comportamento semelhante. entretanto ela pode ser considerada núcleo de IP. Chomsky (1981).2. -θ] = [. gerando dúvidas quanto ao seu estatuto lexical. das estruturas nominais. +θ] = [-argumento] Desse modo a descrição em termos de [-N] e [-V] indica que a preposição não é nem argumento. todas preposições deveriam preencher o lugar de núcleo do PP. A uniformidade da preposição Se a preposição é uma categoria uniforme. 1991).predicado] [-N] = [+Caso. .BERG 110 1. Se a preposição é definida pelos traços [-N. Uriagereka (1995) coloca a preposição como núcleo de AGR. assim como Williams & Dubinsky (1995) que admitem que as preposições temporais ocupam a posição de CO quando ocorrem antes de um complemento oracional. debaixo de NP.tempo] (Haegman. Os traços que definem a categoria preposição Chomsky considera a visão de Port Royal para definir as categorias sintáticas principais em termos de duas noções semânticas: Substantiva = [+ N] = argumento Predicativa = [+ V] = predicado Segundo Chomsky (1981) o traço [V] corresponde à propriedade de atribuir Caso e papel. Freidin (1992) insere a preposição “of” . 1. considera “for” [-wh] como CO . quando “to” é marcada pelo traço [. à luz de Chomsky (1981) podemos concluir que: [-V] = [-Caso. visto que Lemle (1984) considera o advérbio “atrás” como uma preposição. nem predicado.

passamos a investigar em que metacategorias as preposições podiam ser incluídas. (b) P e Complementizador. Est. 2 . generalizamos ainda mais essas propriedades estabelecendo um quadro definidor: (quadro 1) Categorias funcionais 1) Representam uma classe fechada 2) Apresentam uma contribuição semântica de segunda ordem 3) Não atribuem papel temático 4) Atribuem/Checam caso Categorias lexicais 1) Representam uma classe aberta 2) Apresentam uma contribuição semântica plena. Para efeito de argumentação assumi. Ouhalla (1991) e Chomsky (1995). Belo Horizonte. Abney (1987). as preposições do Português do Brasil deveriam: ./jun.107-124. n. v. jan. não ficam claras as fronteiras entre: (a) P e advérbio. Essas propriedades foram aplicadas aos dados do Português do Brasil. fizemos um levantamento das propriedades que distinguem o que seja uma categoria lexical e funcional. (c) P e Nome. Nessas bases. que as preposições são categorias lexicais.7.1. 3) Atribuem papel temático 4) Não atribuem/Checam caso Apesar das limitações do diagnóstico feito a partir dos textos resenhados e assumindo que a distinção lexical e funcional permite identificar metacategorias.Rev. p. Esse levantamento foi baseado nos trabalhos de Fukui & Speas (1986). (d) P e tempo.. como hipótese nula de trabalho. Depois de analisar e comparar as propriedades das referidas categorias. Ling. com a diversidade das propostas apontadas acima. 1998 111 Assim. AS CA TEGORIAS LEXICAIS E FUNCIONAIS CATEGORIAS Para tentar resolver os problemas acima e definir o estatuto categorial da preposição.

d) não atribuir/checar Caso. Bechara (1992). . Somente as categorias funcionais checam caso. antecipadamente que as categorias lexicais não atribuem Caso. Cunha (1986). que as propriedades que dão suporte a essa hipótese não se confirmam. c) atribuir papel temático.1. Assim N. por serem os únicos que discutem explicitamente a questão relativa a que itens formam o conjunto das preposições. de acordo com Chomsky (1995). Almeida (1988). Cegalla (1994). Nesse trabalho não abordamos as locuções prepositivas. visto que. de acordo com o número de preposições que cada um listava. 3. O quadro a seguir é o resumo de uma listagem de preposições essenciais apresentada por diversos gramáticos: Ali (1964). Lima (1984). mostraremos em (3). Em direção à nossa hipótese nula de trabalho: “Preposição é uma categoria Lexical”. abaixo. b) possuir uma contribuição semântica plena. A e V não atribuem Caso (o Caso objetivo é checado por v e não por V).BERG 112 a) não formar uma classe fechada e sim formar uma classe aberta. a noção de atribuição é substituída pela noção de checagem. CHECA GEM D AS PROPRIED ADES CHECAGEM DAS PROPRIEDADES 3. Trabalhamos apenas com as preposições consideradas “essenciais”. Assumiremos. Sacconni (1979). Luft (1989). André (1990). Separamos os autores em quatro grupos. porém mostraremos no final deste trabalho que P não é uma categoria lexical e sim funcional. A preposição: classe fechada? As informações contidas nesta seção foram buscadas em estudos de abordagem tradicional. Nessas bases somente P atribuiria Caso.

7. perante. perante. “per” e “trás”. após. até. As preposições “dês”. de modo geral. o valor semântico da preposição. ante. sob. trás Número das preposições comuns a todos os autores = 16 A. n. sem. por. pode-se dizer que. com. per.107-124.2. desde. em. desde. formando uma classe fechada e estável. Belo Horizonte. Est. contra. Assim podemos concluir que os elementos pertencentes à classe das preposições do português contemporâneo são de número limitado. sobre. que são preposições nãocomuns a todos autores. entre. o reconhecimento de estarem incluindo algumas preposições a mais numa lista fechada. com. entre. p. por parte dos autores.. em. até. O valor semântico da preposição O segundo item da nossa hipótese de trabalho. em relação à natureza categorial. trás. de. são por eles justificadas – preposições que estão em desuso atualmente. para. não se observam neologismos na categoria das preposições (Alves. v. sobre A comparação das listagens extensionais acima permite um quase total consenso quanto aos itens da classe das preposições. dês. Portanto. ante. contra. Preposições não-comuns aos diversos autores 2º grupo dês 3º grupo dês. após. para. 1998 113 1º grupo: Preposições listadas por todos os autores Número total das preposições listadas = 19 A. por. podemos afirmar que as preposições comportamse como categorias funcionais de acordo com o quadro (1). Este fato evidencia. O mínimo é dezesseis (16) elementos. 3.Rev. 1990).1./jun. per. jan. per 4º grupo dês. Ling. sem. de. Dezenove (19) é o número máximo de elementos enumerados como componentes dessa classe. Diferente das outras categorias. sob. aceitase que algumas preposições têm conteúdo semântico e outras não .

por. não-verdadeira” = funcional). Quanto à letra (a). Analisando as propostas desses autores. Exemplificaremos abaixo apenas com a preposição a. embora reconheçam que algumas preposições podem ser vazias em um contexto e não-vazias em outro (Williams. Borer. Quanto às preposições do Português do Brasil.BERG 114 têm (Giorgi. “as preposições embora apresentem grande variedade de usos. Chomsky. temporal e nocional”. 1981. bastante diferenciados no discurso. é possível estabelecer para cada uma delas uma significação fundamental (grifo meu). Essa ambigüidade nos leva a pensar que a distinção entre P semântica versus P gramatical está relacionada ao lugar na estrutura frasal onde ela foi inserida e não no seu conteúdo intrínseco. 1991. 1986). constatamos que os critérios para tal distinção não são muito claros. abaixo. . por acreditarmos que as outras preposições se inserem no rol dos mesmos critérios com que foi analisada a preposição a. 1989). segundo Cunha (1986). em. Há também autores que assumem essa distinção. dividimo-las em duas subclasses: a) As preposições com mais de um significado e b) As preposições com apenas um significado. Lobato. 1989. para. de. 1993. marcada pela expressão de movimento ou de situação resultante e aplicável aos campos espacial. como podemos verificar. pois uma mesma preposição pode ser vazia ou semântica. com. nos exemplos (1) e (2) de Williams e Grimshaw (1993) e nos exemplos (3) e (4) de Lobato: (1) The letter to John by himself (to = gramatical) (2) The letter was to John (to = semântica) (3) João só viaja com seus amigos (com = Preposição verdadeira) (4) João só concorda com seus amigos (com = Preposição não-verdadeira) (Entende-se que “Preposição verdadeira” = preposição semântica e “P. constatamos que essa significação múltipla é aparente. sobre. Aplicados testes sintáticos para as preposições a. Williams e Grimshaw.

Belo Horizonte. entre. o sentido de movimento desaparece: O prefeito pagou a Ouro Preto. portanto. (12) Maria caminhou com (o lenço) e Pedro caminhou sem. Uma evidência de que o sentido está no verbo. n. até. parecenos que em (5) a preposição não é responsável pelo conteúdo descritivo de “movimento” e sim o verbo “voltar”. por acreditarmos que as outras supracitadas em (b) se encontram no mesmo rol dos critérios explicitados em (11 e 12). Exemplificaremos abaixo apenas com as preposições sem e contra.107-124. ela. Ling. .Rev. sob e constatamos que elas têm um comportamento atípico. é trocarmos somente o verbo. (9) *Voltei a. Em (6) e (7) parece ser o verbo dar (em forma nominal ou verbal) que traz intrínseco o conteúdo descritivo de benefactivo. não sendo. (11) Maria lutou a favor d(os comunistas) e Pedro lutou contra. sem. perante. p. mudando-se assim o sentido do NP: obedeceu ao Pedro/obediência a Pedro. que por si denota “movimento”. Entretanto. Quanto à letra (b). pois se trocarmos o verbo.. Outro teste sintático aplicado foi o fato de que as preposições da letra (a) não podem ocorrer no final da sentença: (8) *Maria falou com. v. Assim. 6 e 7) os valores de movimento (= direção a um limite) e situação. aproximando-se da classe dos advérbios. concluímos que a preposição atua com uma significação semântica de segunda ordem. após. (10) *Pedro pensou em.7. jan. Est. preposições com apenas um significado.1. 1998 115 (5) Voltei a Ouro Preto (6) Deu ao Pedro (7) Doação ao Pedro Celso Cunha atribui à preposição a em (5./jun. contra. ajudando na interpretação de seu complemento. a responsável pela significação do complemento. foram aplicados testes sintáticos com as preposições ante. a preposição sozinha. desde.

3. mas. Outra evidência é o fato de elas mudarem de sentido quando trocadas no interior da sentença. apresentam uma contribuição semântica de segunda ordem. a atribuição de papel temático. já que a transmissão do papel temático não seria possível. é um obstáculo para essa proposta. com. Outro fato que as diferencia do primeiro grupo é o fato de elas poderem ocorrer no final da sentença. de. sobre e concluímos que as preposições não são completamente destituídas de significado e nem possuem um conteúdo semântico pleno. Entretanto. sim. Uma evidência disso é o fato de elas não poderem ser apagadas in situ como em “*eu gosto Ø bolo” ou “*eu vim Ø Paris”. para.3. A atribuição de papel temático Quanto ao terceiro item da nossa hipótese nula de trabalho. ações ou eventos ou entidades. constatamos que a preposição não tem essa propriedade. então. por. 1986). em relação à nossa hipótese nula. as preposições em (a) comportam-se como categorias funcionais. em. apenas as preposições a. visto que ela não contém um conteúdo semântico pleno.BERG 116 As relações que as preposições contra e sem estabelecem são sempre as mesmas. ausência. as preposições indicam relações e não. . pois a supressão da preposição deveria fazer com que a estrutura ficasse malformada. Entretanto. há na literatura várias propostas: (1) A preposição atribui papel temático ao NP Chomsky (1981. Adotamos. a ausência de contraste entre as sentenças de doce eu gosto / doce eu gosto. como verdadeiras. independente do contexto onde aparecem: contra = noção de oposição / sem = subtração. Pollock (1988) e Borer são alguns exempos de autores que admitem essa proposta. Portanto. Do mesmo modo que o tempo indica “passado” e “não-passado”.

(13) I saw John [NP that day] Larson se baseia na análise de Bresnan e Grimshaw (1978) para justificar atribuição de Caso e papel-θ “bare-NP adverbs”. Esse traço é oriundo das propriedades de seus próprios núcleos. “there”.. de fato não atribui. Concordamos com esses autores no que diz respeito à tal atribuição. A fim de tornar mais claro o traço (F). etc). Se assim é. Ling.e. nos remetemos a Larson (op. Todos os autores que admitem a existência de preposições “dummy” admitem indiretamente que elas não atribuem papel temático. 1984 sustentam essa proposta. p. O NP recebe papel-θ de acordo com sua carga semântica intrínseca (= seu conteúdo semântico inerente).Rev. vazia de significado.. Analisando a proposta desses autores entendemos que o elemento que transmite papel temático. cit. i. Est. jan. como “bareNP adverbs”.1. A meu ver. isto é. de acordo com seus significados: “place”. possui. Larson adota a idéia de Bresnan e Grimshaw e assume que os NPs possuem um traço (+F) que é oriundo das propriedades de seus próprios núcleos. Belo Horizonte. Ouhalla. “here”. 1998 117 (2) A preposição transmite papel temático ao NP Essa proposta se baseia na afirmação de que o verbo e/ou o nome atribui papel temático ao PP e este o transmite ao NP objeto. n. v. lugar. etc. 595) que descreve o NP em (13). podemos traduzir a análise de Larson em termos do Programa Minimalista: . Baseados em Larson (1985). p. complemento de P. 1994 e Marantz./jun. herdado por qualquer NP tendo um N como seu núcleo. (3) A preposição não atribui papel temático ao NP A noção de que o verbo/nome é o responsável pela atribuição temática vem acompanhada da discussão de que a preposição é “dummy”. abaixo. admitimos que o elemento responsável pelo papel temático é um traço (F) que o NP.7. modo.107-124. podemos afirmar que indiretamente esses autores afirmam que a preposição não atribui papel temático. A classe de NP advérbios é marcada pelo traço F (= tempo..

O léxico especifica os itens que entram no sistema computacional com suas propriedades idiossincráticas.e.BERG 118 (i) o traço [+F] é um traço semântico intrínseco e (ii) a noção de “receber papel temático de [+F]” é equivalente a receber papel temático de P. como em 14 acima. Para explicitar o que significa acessível à computação. como em (14) abaixo: (14) Eu vim de Paris *Eu vim Ø Paris O papel da preposição seria então o de tornar o traço [+F] visível quando necessário. o NP (complemento da preposição) é interpretado. torna proeminente um traço semântico do NP. Uma derivação converge ou é acessível à derivação. se ela converge na FF e FL. em contraposição aos verbos. Com relação às preposições. a estrutura fica malformada. torna proeminente um traço semântico do NP. No sistema computacional há dois níveis de interface: a) perceptuais/ articulatórios (=FF) e b) conceptuais/intensionais (=FL). Pode-se afirmar então que “receber papel temático de P ou [+F] equivale a dizer que P ou [F] tornam o NP acessível à computação”. ela apenas realça. Outra evidência de que P não atribui papel temático. ela apenas realça. O papel da preposição seria então o de tornar o traço [+F] visível. se [+F] for visível (i. O sistema computacional usa esses elementos para gerar derivações e Des (descrições estruturais). baseamo-nos em Chomsky (1995): a língua consiste de dois componentes: um léxico e um sistema computacional. acessível). o NP não é interpretado. Se o traço [+F] não for visível. É importante ressaltar que a preposição não acrescenta traços ao NP. é o fato de ela não selecionar tematica- . É importante ressaltar que a preposição não acrescenta traços ao NP. visto que se P ou [F] não realizam sua função. quando necessário.

193) argumenta a favor da distinção entre atribuidor/realizador de Caso.. ela pode coocorrer com qualquer NP. nem todo NP pode coocorrer com qualquer verbo. entretanto./jun. jan. Os Casos considerados inerentes são genitivo e oblíquo. Com relação aos verbos. 3. o Caso. p. v. em contraposição a *dormir água/ *costurar água. Na literatura mais recente. beber água. etc. com a preposição. Est. A diferença fundamental entre ambos é a seguinte: “. Belo Horizonte.107-124. fragilizado quando Chomsky (1986. ou seja. de certo modo. podendo coocorrer com qualquer NP: de água/ com água/ sobre água/ em a água/para água/ à água.. Os Casos nominativo. Ling. p.. a noção de atribuição é mudada para Checagem.Rev. por isso se distribuem em duas subclasses: casos estruturais e Casos inerentes. há restrições. permanece a noção de que a preposição é que atribui esse Caso ao seu complemento. ao passo que. p.. nos ambientes onde há Caso genitivo: o adjetivo e o nome são de fato atribuidores de . acusativo.193) De acordo com essa formulação entende-se que um elemento só pode ser atribuidor de Caso inerente se ele também atribui um papel temático ao NP.4. inherent Case is assigned by α to NP if and only α θ-marks NP. A atribuição/checagem de caso O quarto e último item da nossa hipótese nula de trabalho. isto é. Esse estatuto é. while structural Case is assigned independently of θ-marking” (Chomsky 1986. constatamos que as preposições checam o Caso no Spec de PP. O caso genitivo Desde Vergnaug (1980) concebe-se a preposição como uma categoria lexical atribuidora de Caso. 1998 119 mente seu complemento. isso não ocorre. n. quanto ao Caso objetivo.7.1. genitivo e objetivo têm naturezas distintas em relação à Teoria Temática.

onde o NP. complemento de P. poderiam ser checados. O programa Minimalista não deixa clara a questão das preposições. Assim a preposição “of” não atribui Caso inerente. Assim como D é checado no Spec de DP. P também . isto é acessível à derivação. p. (15) Eu gosto de bolo (15) A construção da casa Apresentamos então algumas propostas: uma das hipóteses seria nos basearmos em Uriagereka (1995). cuja preposição ocupa o lugar de núcleo desta estrutura. é associado à atribuição de papel temático. Chomsky adota a teoria da checagem. Assim o traço do NP poderia ser checado no Spec de AGRp. A questão que se suscita é como o traço de N. Com isso propomos que as preposições tenham o mesmo comportamento de Caso nas estruturas [V+P+N] e [N+P+N] independentemente se é Caso Oblíquo ou genitivo. Se a análise desenvolvida nas seção “Papel Temático” estiver correta. Fica então um problema não resolvido: se todo NP entra na numeração com um traço de Caso.114). Segundo o Programa Minimalista. a configuração para checar Caso é Spec-núcleo. em (15) e (16) abaixo. mas parece que. para Chomsky. por exemplo.BERG 120 Caso genitivo e “of” realiza esse Caso (Chomsky 1995. não haverá lugar para Caso inerente. Sabemos que o NP complemento da preposição é checado. é checado? O caso oblíquo O Caso oblíquo é concebido como um Caso inerente atribuído por preposição. já que. todo NP entra na numeração com um traço de Caso. “bolo” e “casa” como. visto que P não atribui papel temático. Entretanto é inadequado falar de traços-φ para as preposições do Português do Brasil. complemento de P. Uma outra hipótese seria admitir que P tem o mesmo comportamento de D. no que diz respeito às preposições. que propõe uma estrutura de AGRp. Por ser inerente. permanece a noção de atribuição/realização. porque ele é visível na FL.

a categoria que possui esses traços só pode ser uma categoria funcional./jun.Rev. 4. Seria então mais razoável admitir que o traço do NP complemento de P é checado no spec do próprio PP.1.A uniformidade da classe preposição: fizemos um corte subdividindo as preposições do Português do Brasil em dois . jan. b)possuem um conteúdo significativo de segunda ordem.3 . Assim reinterpretamos Chomsky (1981/1986) e redefinimos [-N.A natureza categorial da preposição é funcional já que elas têm as seguintes propriedades: a) pertencem à uma classe fechada. 1998 121 seria checado no Spec de PP. 4. p. 4. logo. 4. O problema com essa hipótese.2 . Em PB as preposições não licenciam esse tipo de spec. levantamos três questões: (1) a qual o tipo de categoria que a preposição pertence (lexical ou funcional?). nas estruturas possessivas de DP. Est.1 .Os traços que definem a preposição [-N. -V] não a definem nem como argumento nem como predicado. v. do tipo “John’s picture”. [-N] significa não pertencer à categoria dos nomes e [-V] significa não pertencer à categoria dos verbos. (2) quais os traços que a definiriam (= os limites entre a preposição e outras categorias) e (3) a sua uniformidade (= todas preposições são núcleo de PP?).107-124.. o Caso é checado para a esquerda e esse tipo de estrutura não existe no PB (*John’s retrato. Ling. e sim retrato de John). A posição de spec do PP conteria um traço de Caso onde ocorreria a checagem do traço de Caso do NP. n. c) não atribuem papel temático e d) atribuem/checam Caso. Isto é. Belo Horizonte. Abaixo responderemos a essas questões com base nas discussões dos itens de (1) a (3) deste trabalho. CONCL USÃO CONCLUSÃO Na introdução deste trabalho. -V] como traços que definem uma categoria funcional. é que.7.

ocorrendo como núcleos de CP. TP. SN e PP. No primeiro grupo temos os elementos ante. Abney.BERG 122 grupos. que consideramos como preposições propriamente ditas. não se comportam como preposições. como. (b) A análise uniforme no que diz respeito ao Caso: todas as preposições checariam o Caso estrutural. sem. Esta é uma característica muito singular que as distingue dos outros elementos. AGR. de. 1987. perante. por exemplo os advérbios? . DP. desde. por que a preposição só pode ser apagada quando subcategorizada pelo verbo? (1) De bolo eu gosto / φ bolo eu gosto (2) De Paris eu vim / *φ Paris eu vim O apagamento da preposição seria. sobre. que. de fato. Entretanto deixamos em aberto algumas questões para pesquisas futuras: (a) Qual seria a análise da preposição nas estruturas [oração] P [oração]. uma questão da recuperabilidade de seu conteúdo? (c) Qual é o limite entre a classe de preposições e as outras classes. Vemos algumas vantagens em admitir a preposição como categoria funcional: (a) Elucidar a dúvida latente em muitos autores. Ouhalla. temos os elementos a. 1981. isto é. entre. com. após. de acordo com nossas discussões. 1991 e o próprio Chomsky. por exemplo. com em (16) abaixo? (16) [Maria gosta] de [cantar no banheiro] O elemento “de” é um PO ou um CO? (b) Como explicar o contraste entre (1) e (2) abaixo. e. São essas as preposições que ocupam lugares diferentes na estrutura frasal. em. sob. para. no segundo grupo. por. contra.

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