“O que é a Arte, hoje em dia? Uma romaria sobre ervilhas.

Para dançar, já não basta um par de sapatinhos vermelhos, e tu não és o único afligido pelo Diabo. Olha só os teus colegas – ora, sei muito bem que não os olhas, que nunca os enxergas, que cultivas a ilusão do isolamento e reivindicas tudo para ti, todas as pragas da época. Mas, para te consolares, dá uma olhada neles, nos coinauguradores da Música Nova, e refiro-me somente aos que são honestos, sérios, e tiram as conseqüências da situação! Não falo dos decrépitos folclóricos ou neoclassicistas, cujo modemismo apenas os induz a evitar qualquer explosão musical e a trajar, com maís ou menos dignidade, vestes ao estilo de eras pré-individualistas. Esses fazem crer a si próprios e aos outros que o fastidioso se tornou interessante, porque o interessante começou a ficar fastidioso... Eles são igualmente impotentes, mas preferimos a respeitável impotência de quem se desdenhe de dissimular o morbo geral sob a máscara da dignidade. Mas geral ele é, o morbo, e os sinceros constatam seus sintomas em suas próprias pessoas tanto como nas dos retrógrados. Não enfrenta a produção a ameaça de estancar? E o que ainda merece ser levado a sério, entre as coisas lançadas ao papel, revela fadiga e desgosto. Causas exteriores, de caráter social? Falta de demanda – e, como nos tempos da era pré-liberal, as possibilidades da produção dependem grandemente do acaso do mecenato? Certo, mas isso não basta para explicar tudo. A composição em si ficou por demais difícil, terrivelmente difícil, e quando a obra já não estiver de acordo com a autenticidade, como se poderá trabalhar? Mas é mesmo assim, meu amigo: a obra-prima, a criação autosuficiente, pertence à arte tradicional, ao passo que a emancipada a nega. O mal começa com o fato de que a vocês fica terminantemente embargado o direito de disporem de todas as combinações de notas outrora empregadas. O acorde da sétima diminuta? Impossível! Também impossíveis certas notas de passagens cromáticas. Qualquer compositor que se preze traz consigo um cânone do que é proibido, das interdições que cumpre impor-se a si mesmo, esse canone que aos poucos chega a abranger os recursos da tonalidade e, com isso, de toda a música tradicional. O cânone determina o que está errado ou se tornou chapa gasta pelo uso. Na composição concebida segundo a técnica atual, sons tonais, tríades, sobrepujam quaisquer dissonâncias, e com essa finalidade talvez possam ser utilizados, mas só cautelosamente, in extremis, pois o choque será pior do que outrora a mais forte cacofonia. Tudo depende do horizonte técnico. O acorde da sétima diminuta encontra-se no seu lugar adequado e é sumamente expressivo ao começo do ópus 111. Não achas também que ele corresponde ao nível geral da técnica de Beethoven e à tensão entre o

que no momento lhe parece admissível. recusa ampliar-se no tempo. por isso. rejeita o fraseado. muita independência. que é a forma vital da obra. que abomina o supérfluo. Escuta o acorde fóssil! Até mesmo sob a sua forma isolada. e que requer muita rebeldia em plena subordinação. Reunidos. oposta à real. Mas. destroça o omamento e se dirige contra a extensão temporal. E o perigo da ausência de criatividade? A situação é demasiado crítica. Ele perdeu-o devido a um processo histórico que ninguém conseguirá inverter. A aparência dos sentimentos sob a forma da composição artística. distribui os papéis e os converte em quadros. Chega-se então ao ponto no qual as composições do artista não vão além de respostas dessa espécie e não passam de soluções de rébus técnicos. Temos nesse caso uma exigência de justeza que a criação dirige ao artista. que censura as paixões e o sofrimento humano. em matéria do justo e do errado. Cada som traz em si o todo e também toda a história. Obra. acontece que a percepção do nosso ouvido. A Arte transforma-se em crítica. expressão não fictícia. não transfigurada. Isso não resulta de nenhuma impotência nem tampouco da incapacidade de plasmar. Admissível resta unicamente a expressão da dor em seu momento real. inegavelmente. a técnica. muita coragem. pelo contrário. Conversão muito honrosa. não dissimulada. e a deixa vazia. Certas coisas não são mais possíveis. fez com que elementos . na sua totalidade. a aparência autosuficiente da própria Música tomaram-se impossíveis e insustentáveis. O movimento histórico do material musical virou-se contra a obra completa em si. não brincalhona. Esta já não suporta a aparência e o jogo. desde sempre. a esse único acorde. representa uma situação técnica geral. que em si não está errado. que é o espaço da obra musical. estão entregues à crítica. A cada instante. a ficção. exige dele que se submeta a ela e impõe a única resposta certa. de um inexorável imperativo de densidade. A impotência e a miséria cresceram a tal ponto que não é mais permitido realizar com elas jogos imaginários. tempo e aparência são uma e a mesma coisa.máximo de dissonância. Esta definha no tempo. Essa aparência que. porém absolutamente não tem nenhuma relação abstrata para com o nível técnico geral. que então se podia arriscar. provém. a autocracia da forma. não é? Não se esgotará em breve a ação do artista na realização daquilo que está circunscrito pelas condições objetivas da produção? Em cada compasso que alguém se atreva a imaginar apresenta-se a ele como problema a situação da técnica. permanece inelutável e diretamente ligada a ele. e a consonância? O princípio da tonalidade e seu dinamismo proporcionam ao acorde seu peso específico. É um pouco severa. para que a ausência de crítica esteja a sua altura! As dificuldades proibitivas da obra residem no próprio íntimo dela.

fossem empregados continuamente. ela leva a vantagem de não produzir imagens. comprazeu-se em confundir as leis e as convenções gerais. formalizados. válidas para ela. à convenção e à generalidade abstrata é uma e a mesma. com relação às demais artes. invertamos a proposição: o caso isolado finge ser idêntico à fórmula prefixada e familiar. ainda que não crie nenhuma imagem. Há quatrocentos anos. parte nessa burla em alto estilo. na medida das suas forças. em virtude de seu incansável esforço por conciliar suas ambições específicas com o rigor das convenções. toda a grande música está se dando por satisfeita com a ilusão de que tal unidade se tenha produzido sem nenhuma falha. A crítica ao ornamento. Certo. com suas aspirações mais particulares. O que permanece objeto dela é o caráter ilusório da obra de arte burguesa. do qual a Música participa.preestabelecidos. todavia tomou.” . se assim o preferes. mas. Isso não dá. como se se tratasse da necessidade inelutável de um determinado caso. Ou.

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