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CLASSIFICAÇÃO DOS CONTRATOS

Classificar é distribuir em categorias; classificar contratos é, portanto, inserir cada uma das espécies contratuais em uma ou mais categorias reconhecidas pela doutrina e, eventualmente, utilizadas pelo legislador.

CONTRATOS TÍPICOS E ATÍPICOS A doutrina clássica utilizava os termos contratos nominados e contratos inominados. A raiz dessa distinção está no fato de que nem todos os acordos de vontade eram, no princípio do direito romano, reconhecidos como contratos (como, v.g., a emptio-venditio). Os pacta, a princípio, não eram contratos e, portanto, não tinham nomes específicos e só produziam seus efeitos indiretamente. Daí a distinção. No direito moderno, todos os contratos são igualmente dotados de efeitos, geram direitos e obrigações e, portanto, dispõem de ações para defendê-los. Assim, a distinção romana não faz mais sentido. Ainda assim, alguns autores mantêm a nomenclatura contratos nominados e contratos inominados. É claro que a significação não é a mesma. Até por isso mesmo, a doutrina tem utilizado, com maior freqüência, a denominação contratos típicos e contratos atípicos. O Código Civil, aliás, usa essa denominação no art. 425, que, aliás, positivou antiga convicção da doutrina. Segundo CAIO MÁRIO: “Diz-se que um contrato é típico (ou nominado) quando as suas regras disciplinares são deduzidas de maneira precisa nos Códigos ou nas leis”.

no contrato de hospedagem. dos itens constantes do frigobar). Na medida em que esses usos se sedimentam. Foi. Na verdade. Outros contratos permanecem atípicos. ou seja. eles já eram praticados largamente. ainda que por uma só noite). ORLANDO GOMES divide os contratos atípicos entre contratos atípicos propriamente ditos e mistos.Contratos atípicos. o que parece haver é uma sedimentação de usos contratuais. por exemplo. celebrando contrato típico. porque dificilmente um contrato atípico deixará de conter elementos de um contrato típico. entre outros. as partes se submetem implicitamente às regras que o disciplinam. liberdade de obrigar-se). essa divisão. Contratos propriamente atípicos seriam plenamente originais. Não seria ele um misto de locação (dos aposentos. por sua vez. o de hospedagem e o de guarda e limpeza de veículo. não estão previstos em lei. A importância dessa distinção (entre contratos típicos e atípicos) está em que. prestação de serviços (de arrumação. não faz muito sentido. Veja-se o que ocorreu com os contratos de distribuição e de transporte. não estão tipificados . No entanto. por exemplo. essa sedimentação de uso que levou o legislador a discipliná-los em lei. que não tinham previsão legal até o advento do Código Civil de 2002. Pense-se. que. por exemplo) e depósito (da bagagem)? . na prática. o legislador trata de positivá-los (ou de coibi-los. Na verdade. os contratos mistos seriam formados a partir de prestações típicas de vários contratos. são aqueles que não estão especificamente regulados e nascem da liberdade contratual (liberdade de estabelecer o conteúdo dos contratos. compra e venda (por exemplo. em princípio. portanto. também por meio de lei). como.

Realmente. que. Os contratos (que se formam pela conjunção de pelo menos duas vontades) podem criar obrigações para apenas uma ou para ambas as partes. nesses dependência . daí falar-se em sinalagma ou contratos sinalagmáticos. contrato bilateral a ênfase é nos efeitos dos contratos. Estudamos. acerca dessa categoria. enquanto para outros a sua característica é o sinalagma. todavia. pela convergência entre proposta e aceitação. isto é. assim deve qualificar-se todo contrato que produz obrigações para as duas partes. Essa é a análise que se faz do momento de sua formação. no segundo. Não se confundem com eles os contratos coligados. Exemplo do primeiro: comodato. diz-se que ele é unilateral. as prestações estão em recíproca. ela (a formação) se dá. Ainda assim. isto é. na formação dos contratos. porque nestes últimos não haveria unidade. em sua formação. segundo a doutrina que aceita essa categoria. é negócio jurídico bilateral. normalmente. em que é necessária a conjugação de (no mínimo) duas vontades. Quando se diz. no direito brasileiro. Confira-se o que afirma. nas obrigações criadas. No primeiro caso. Como diz ORLANDO GOMES: “O contrato é o negócio jurídico bilateral por excelência ”. bilateral. Para alguns. ORLANDO GOMES: “Não é pacífica a noção de contrato bilateral. razão porque preferem chamá-los contratos sinalagmáticos ou de prestações correlatas. o contrato misto é uma unidade que se forma a partir de elementos de outros contratos. CONTRATOS UNILATERAIS E BILATERAIS Todo contrato. Exemplo do segundo: compra e venda. o mecanismo deles é semelhante. a dependência recíproca das obrigações.De qualquer modo. Nos contratos bilaterais.

por exemplo. tratando-se contratos unilaterais. ainda. v. nos contratos bilaterais. iii) distribuição de riscos: nos contratos bilaterais. Isto é: ambas as partes visam a obter vantagens ou benefícios. Haveria. ii) resolução por inadimplemento (cláusula resolutiva tácita?): art. por exemplo. Ex. direito de retenção. entretanto. verificando-se interdependência essencial entre as prestações ”. 476 e 477. A importância dessa distinção está nos seguintes aspectos: i) exceptio non adimpleti contractus: arts. Segundo a melhor doutrina. as obrigações são uma a causa da outra. Elas devem ser ressarcidas pelo comodante. gerando. Nos contratos unilaterais. 492. inclusive. uma obrigação é a causa. no caso das despesas extraordinárias realizadas pelo comodatário. categoria também contestada. 475. art. Seu exemplo seria o contrato de sociedade. Pense-se. Contrato oneroso é aquele em que cada uma das partes visa a obter uma vantagem. surgem obrigações para a parte que usualmente não as tinha. 481).: compra e venda (art. impondose. a razão de ser. de conseqüência. 114). o contrato bilateral imperfeito não deixa de ser unilateral. Portanto. nos casos em que. Alguns autores falam em contratos bilaterais imperfeitos . . o pressuposto da outra.contratos. um “sacrifício”. res perit debitoris. res perit creditoris. a existência de uma é subordinada à da outra parte. na interpretação (art. os contratos plurilaterais. CONTRATOS ONEROSOS E GRATUITOS Essa distinção tem relevo.

cujo risco de não virem a existir assuma o adquirente (emptio spei). . Nos contratos comutativos.dizem respeito a coisas futuras. 458/461).Contrato gratuito é o negócio jurídico em que uma só das partes obtém um proveito e a outra suporta.dizem respeito a coisas futuras. e guardam entre si uma relativa equivalência de valores. tomando o adquirente o risco de virem a existir em qualquer quantidade (emptio rei speratae). 458). Em todo contrato há um risco. uma álea. Mas. havendo certeza quanto às prestações. Nos contratos aleatórios. 538) e comodato (art. as prestações de ambas as partes são de antemão conhecidas. Os contratos onerosos se dividem em comutativos e aleatórios (arts. . só. esta é de sua essência e foge ao “normal”.: doação (art. mas a certeza é objetiva). o “sacrifício”. a relação entre vantagem e sacrifício é subjetivamente equivalente. Os contratos aleatórios apresentam as seguintes classes: . ou seja. Ex. 459). 579). o encargo. à prestação corresponde necessariamente uma contraprestação (cuja equivalência é subjetiva.dizem respeito a coisas existentes. ou ser desproporcional ao valor da prestação (art. mas expostas a riscos. há incerteza para as duas partes sobre se a vantagem esperada existirá ou se será proporcional ao sacrifício. nos contratos aleatórios. . uma das prestações pode falhar (art. Nos comutativos. nos contratos aleatórios.

o mútuo). mas alguns tipos contratuais exigem que se complete com a entrega da coisa que será objeto da restituição. O fundamento das classificações difere: uma tem em vista o conteúdo das obrigações. pois existem contatos unilaterais que não são gratuitos (e.).. pode-se pensar na doação: o contrato surge com a transferência do bem doado e se extingue nesse mesmo momento. ex. Não há uma correspectividade necessária. no mútuo e no depósito. Mas é apenas uma coincidência . é de se ter em mente a advertência feita por CAIO MÁRIO: “Os contratos onerosos comumente são bilaterais. e outra. como no comodato. como na . CONTRATOS DE EXECUÇÃO IMEDIATA. DE EXECUÇÃO DIFERIDA E DE DURAÇÃO Contratos instantâneos são aqueles cujas prestações podem ser realizadas em um só instante. Como exemplo de contrato instantâneo de execução imediata. são contratos consensuais (compra e venda.g.. e os gratuitos da mesma forma unilaterais. enquanto os contratos reais dependem da entrega da coisa.dizem respeito a fatos que podem não suceder. Os contratos que se formam exclusivamente pelo consentimento. No que diz respeito à distinção dos contratos em onerosos e gratuitos. CONTRATOS CONSENSUAIS E REAIS Em princípio o consentimento é suficiente para formar o contrato. p. Em outras modalidades de contrato. seja ele imediato à formação do próprio contrato (instantâneo de execução imediata) ou algum tempo depois (instantâneo de execução diferida). e outros que são bilaterais e podem ser gratuitos (o mandato. por exemplo)” (grifou-se). o objetivo colimado.

não há. Com efeito. Sua participação no ato. É como observa ORLANDO GOMES: “Na formação do autocontrato. AUTOCONTRATO O autocontrato. 117 e 119 do Código Civil de 2002. Na verdade. Ex. em que uma determinada pessoa manifesta a vontade de outra. teria sido definitivamente proibida a celebração de autocontrato no direito . seria uma contradição em termos. o autocontrato só é possível pela figura da representação. Os autores afirmam que. a rigor. as obrigações das partes (pagamento do preço e entrega da coisa) podem ser cumpridas posteriormente à formação (como na compra e venda a prazo). pensado literalmente.: contrato de fornecimento. Então. assim. do ponto de vista dos centros de interesses em jogo. no autocontrato. o representante emite duas declarações distintas que consubstanciam os interesses dos quais se tornou o ponto de convergência” (grifou-se). se limita a aderir ao programa contratual já estabelecido. haveria uma impossibilidade lógica de se pensar em um contrato celebrado por uma única pessoa.compra e venda. por meio dos arts. CONTRATO DE ADESÃO Contratos de adesão são aqueles que não resultam de livre discussão entre as partes. se todo contrato é negócio jurídico bilateral. uma única pessoa. Contratos de duração são aqueles cuja execução (dada a natureza da prestação) não pode cumprir-se num só instante. Nessa espécie. uma das partes aceita as cláusulas e condições previamente estipuladas pela outra.

na forma dos arts. Salvo se o permitir a lei ou o representado. De outro lado. Essa assertiva. . consigna duas exceções: i) permissão legal (“ Salvo se o permitir a lei”) ou ii) acordo entre as partes (i. é equivocada a afirmação peremptória de que o autocontrato foi banido do direito brasileiro. celebrar consigo mesmo”. 172 e 176 do Código Civil. a sua revogação não terá eficácia. todavia. permissão do representado). 117. pode-se ajustar (validamente) que o autocontrato se celebre. e podendo transferir para si os bens móveis ou imóveis objeto do mandato. ser válido se houver permissão legal ou consensual para a sua celebração. no seu interesse ou por conta de outrem.e. Conferido o mandato com a cláusula ‘em causa própria’. 117: “Art. em princípio. deve ser vista com reserva.brasileiro. diz ser anulável (espécie de invalidade) o negócio celebrado pelo representante consigo mesmo. como ato anulável. A primeira parte desse dispositivo. é anulável o negócio jurídico que o representante. em virtude da redação do próprio art. no entanto. É o que ocorre na hipótese do art. desde que haja permissão expressa do representado. Desse modo. ficando o mandatário dispensado de prestar contas.. em princípio. no entanto. podendo. Assim. obedecidas as formalidades legais” (grifou-se). é passível de validação. Note-se que a lei. Melhor dizer que o autocontrato é. 685. nem se extinguirá pela morte de qualquer das partes. 685 do Código Civil: “Art. anulável.