Boletim Bibliográfico 5

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Os Escritores do mês

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Junho de 2013

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Fernando Pessoa

"Ainda assim, sou alguém. /Sou o Descobridor da Natureza (...) Trago ao Universo um novo Universo / Porque trago ao Universo ele-próprio." (Alberto Caeiro, "XLVI", Poesias - Heterónimos )
O apelido de Pessoa remete-nos para o teatro grego, as máscaras com que cada um pode en-

frentar as dificuldades, os perigos, os desastres que envolvem a sociedade humana e que persistem acima de nós. Pessoa transporta-nos para essa noção de diversidade, de multiplicidade do individual. O poeta de que aqui falamos e que é o escritor do mês em Junho na Biblioteca da Escola Dr. Manuel Laranjeira, é uma figura marcante da cultura europeia e mundial. Representa a procura para num mundo coletivo, exprimir a voz do indivíduo, do seu olhar e das suas possibilidades. Pessoa foi influenciado por um conjunto de circunstâncias, as suas, a do seu tempo, que lhe criou um ambiente histórico onde já se determinavam as dificuldades do Portugal Contemporâneo. A saber, O Ultimatum inglês, a decadência da monarquia, as dificuldades de afirmação da República, a instabilidade política e social, os acontecimentos trágicos à volta de Sidónio Pais. A confirmação de um regime onde a dignidade do ser não existia assegurou-lhe um Portugal cinzento, sem visão, nem futuro. Pessoa soube criar uma poética que respondia à multiplicidade individual, oferendo-nos a dimensão moderna, universal do homem como medida de realização de um todo. Afinal o que pode ser a vida? Neste caminho em contínua aprendizagem que dimensão nos pode transportar para uma felicidade mais próxima da respiração de cada um? Um trajeto baseado em sensações, nas perceções que por si nos dão a materialidade do mundo, como em Alberto Caeiro, ou o modernismo tecnológico do mundo de Álvaro Campos, ou os constantes valores culturais da memória de Ricardo Reis? Afinal não são os heterónimos diferentes possibilidades de olhar para a afirmação do género humano nessa aventura que é viver? Em todo este complexo modo de ser, Pessoa afirmou-nos que é pela força das ideias que o País poderá ter a sua única possibilidade de se afirmar no mundo desenvolvido. A Mensagem, mais do que um relato de feitos do passado transporta-nos para essa ideia de um Quinto Império em que Portugal para ser autónomo, diferente, melhor, só o pode concretizar se for autêntico, se souber assumir a sua verdadeira dimensão. Pessoa afirmou-se modernista pela sua tentativa de transformar o futuro do País pelas ideias, pela arte, pela cultura, no sentido de cada indivíduo poder participar na construção de uma comunidade. Quantos que governaram este País, inclusive no presente, se esqueceram deste simples princípio? Pessoa é um criador universal, porque soube criar as diversas possibilidades do indivíduo, a sua multiplicidade onde se encontram inscritos, os valores humanos. Afinal o que poderemos ser em cada dia, reconstruindo o futuro quotidianamente, é uma das suas grandes ideias. Partindo de uma experiência individual, as suas palavras reforçam a nossa humanidade, como valor universal. Só os homens geniais conseguem acima da espuma dos dias, verificar o movimento mais profundo e compreender como poderemos ser mais dignos como País, nas palavras de Almada. Existir é pouco para uma dimensão mais consciente da vida. A genialidade de Pessoa é essa. A de revelar a necessidade de quebrar a incerteza que reina nestas praias em sucessivas gerações. Mariano Deida afirmou há alguns anos, que o poeta de autopsicografia inventou a própria literatura, no sentido não de ter criado palavras novas, mas de nos revelar dimensões novas ao sentido humano. Fazer uma biografia de um poeta é uma inutilidade, no sentido que a sua vida são as suas palavras. Por elas compôs o mundo, em sentidos de esperança e transformação, no desejo de reajustar o real ao grande sonho do homem, a sua dignidade natural. Tratando -se de Pessoa a sua poesia diz-nos muito dessa integridade do ser, de uma consciência para compreender a multiplicidade do mundo. A sua poesia representa a multiplicidade do homem, a sua universalidade em se descobrir capaz de realizar sonhos, olhares, caminhos. As linhas abaixo apenas traçam alguns que foram os seus gestos quotidianos de uma vida complexa de definir. Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, a treze de Junho de 1888, sendo a sua mãe natural da Ilha Terceira, Açores e o seu pai era de Lisboa. Com a perda do pai em 1893, a família mudou -se para Durban, na África da Sul, na medida em que o seu padrasto era naquela cidade cônsul. Pessoa viveu em Durban de 1896 a 1905, tendo aí realizado os estudos, desde a escola primária à frequência no Ensino Superior. Em 1906 matriculou-se no Curso Superior de Letras da Universidade de Lisboa que abandonou no ano seguinte. Os seus primeiros escritos datam de 1910 e a partir de 1913 participou com Almada Negreiros e Mário de Sá -Carneiro no movimento de ideias, o Modernismo. Com este movimento havia de surgir Orpheu, revista literária modernista, que difundiu as novas ideias que já há algum tempo circulavam pela Europa. Em 1925, perdeu a sua mãe, desgosto que marcará a sua vida futura, e do qual nunca verdadeiramente recuperou. A partir de 1926 escreveu poemas que irão integrar um dos seus heterónimos, Bernardo Soares, O Livro do Desassossego. Em 1934 publicou a Mensagem. Morreu a trinta de Novembro de 1935 devido a uma grave crise hepática, provocada pelo excesso do consumo de aguardente. Deixou-nos uma obra vastíssima, complexa e fascinante, ainda por conhecer completamente e que a pós a sua morte foi sendo publicada e descoberta.

“(...) E ao lerem os meus versos pensem Que sou qualquer cousa natural Por exemplo, a árvore antiga À sombra da qual quando crianças Se sentavam com um baque, cansados de brincar, E limpavam o suor da testa quente Com a manga do bibe riscado. (1)." Fernando Pessoa - “I”, O Guardador de Rebanhos (Heterónimo Alberto Caeiro)

Boletim Bibliográfico 4-

Os Escritores do mês

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Junho de 2013

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Fernando Pessoa

«Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo » (1)

Falar dele, apresentá-lo num boletim bibliográfico é um desafio. Por mais textos que já tenhamos escrito sobre ele, é sempre uma novidade falar dos continentes de emoções e latitudes diferenciadas. A sua biografia é só uma impressão, um gesto de uma genialidade complexa, universal e original nas formas e muito rica de ideias. Foi com ele que atingimos a universalidade dentro de um particular de pouca grandeza, onde sabemos distinguir a palavra, a dúvida e o sonho. Inventou num mar de aparente solidão, uma nova forma de apresentar as palavras, de desenhar ideias de futuro construindo uma língua, uma literatura. Ele somos todos nós. Aqueles que ele inventou nos quotidianos onde tantos seres particulares ganham a sua originalidade, a sua universal humanidade. Se há poeta, se há escritor, se há literatura ele é tudo isso. É a demonstração que um país é a sua cultura, a sua língua, as suas pessoas, a sua individualidade… Em alguns poemas traçou uma filosofia capaz de dar ao indivíduo as suas possibilidades de traçar uma forma de existir. De Alberto Caeiro «Falaram-me os homens em humanidade. Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade. Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si. Cada um separado do outro por um espaço sem homens.» , a Ricardo Reis «Da verdade não quero mais que a vida; que os deuses dão vida e não verdade, nem talvez saibam qual a verdade., a Álvaro Campos «És importante para ti porque só tu és importante para ti. E se és assim, ó mito, não serão os outros assim? , notamos essa necessidade de expressão individual. Verificamos o que uma sociedade moderna construiu, uma organização social e cultural onde o homem se sente só, onde as ideias não funcionam como formas de construir o real. Colocou-nos questões de profunda atualidade, num diálogo essencial, o que opõe consumismo versus despojamento, massificação versus regresso à natureza, o Eu versus Os outros e as ações versus os valores éticos. O seu património na cultura universal é de uma evidência gritante. Pessoa somos todos nós, na possibilidade de fundarmos universos pessoais e lhes darmos o significado que as nossas vidas permitirem, pela ousadia, pela inteligência, pela viagem interior. Ele é o nosso maior poeta, o filósofo das partidas esquecidas e dos sonhos de conquista do infinito universo. Chama-se Fernando Pessoa, andou por aqui durante os milénios dos seus sonhos e alguns anos que adormeceu. Continua a incomodar o real tão feito de aparentes compromissos de verdade e imaginação. (1) Alberto Caeiro, Guardador de Rebanhos

Ficha Técnica:
Redacção: Equipa da Biblioteca Biblioteca: Escola Dr. Manuel Laranjeira Periodicidade: Mensal Distribuição/Publicitação: (Afixação na BE / Plataformas digitais)

«(…) Sou fácil de definir. Vi como um danado. Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma. Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei. Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver. Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras; Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento. Compreender isto com o pensamento seria achá -las todas iguais. Um dia deu-me o sono como a qualquer criança. Fechei os olhos e dormi. Além disso fui o único poeta da Natureza”. Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos