A essência da técnica e o Mito do ser: Heidegger e Caputo. por J. C.

Marçal•

RESUMO: Este artigo visa discutir a idéia de Heidegger sobre a essência da técnica e a que a te/xnh é o modo próprio do pensamento calculador em contraposição ao pensamento medidante – delimita a questão da essência da técnica à sua esfera ontológica. Para Caputo, a técnica em Heidegger representa o ponto alto de sua filosofia e só é possível de ser pensada a partir daquilo que Caputo chama de Mito do ser fundado por Heidegger: Mito que aponta para os gregos e os alemães como aqueles que realizaram de modo autêntico o destinamento do ser na História. Temos que analisar, portanto, se a essência da técnica em Heidegger conduz seu pensamento político e torna possível seu endossamento ao nazismo. interpretação de Caputo para tal abordagem. Definir a essência da técnica como Gestell – e entender

Palavras-chaves: Técnica, Gestell, Mito, Ontologia, Ciência.

ABSTRACT: This article aims at discussing the Heidegger´s idea on technique essence and the Caputos´s interpretation on such account. Defining technique essence as Gestell – and understanding that te/xnh is the proper way of calculator thought unlike the meditative thought –

delimits the technique essence question into its ontological sphere. For Caputo, technique in Heidegger´s thought represents the peak of his philosophy and it is only possible to be thought from Being Myth, as Caputo says, founded by Heidegger. This Myth points to the Greeks and Germans as those who have carried out in a proper way the Being destination on History. Therefore, we have to analyze if the technique essence in Heidegger´s thought lends to his political thought and makes possible his Nazism endorsement.

Key-words: Technique, Gestell, Myth, Ontology, Science.

Professor Doutor em Filosofia pela UFPE. Professor da Faculdade Joaquim Nabuco. E-mail: introitu@hotmail.com.

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escuta. 135. como uma tékhne. o mesmo.p. O próprio pensar é tido. segundo Heidegger. Mais ainda: o pensamento pertence ao ser. p. 1998. Não se trata de um pensamento vazio. Só onde há ser. que 2 . Mas desde Parmênides – Frag. para Heidegger. em sua pureza. o pensamento. O pensamento calculador. se assenta sobre a praxis e a poíesis. Op. neste ponto. Cit. o acontecimento-apropriação pelo qual o ser se ilumina no que lhe é próprio. O dizer. Heidegger interpreta esta dinâmica de sentidos afirmando aparecer”1. é deixá-la (Vorliegen-lassen) e o tomar à sua guarda (In die Acht nehmem)”2: o primeiro determina o segundo. 2 1 já no Banquete (205b) de Platão surge como produção – e que tem na natureza. na sua essência e na sua proveniência. é aquele que se afastou de seu elemento original. Ser e pensar. (Os Pensadores). 6 – que o pensamento está atrelado constituindo uma plurivocidade do termo. parte-se primeiramente do pensamento (noei=n) para o trazer de volta ao ser como Dobra (e0o/n) que só é possível ser pensado a ao dizer. 134. ocorrendo uma co-pertença. se mostra como uma memória e uma partir de sua destinação (moi=ra). le/gein. é aquele que se mantém na obediência ao ser. expressão – rege a essência daquilo que foi denominado como te/xnh. 3 Cf. por outro lado. devemos libertar-nos da interpretação técnica do pensar. 4 HEIDEGGER. O pensamento meditante. a citada essência do pensar. o processo da reflexão a serviço do fazer e do operar4. sua máxima O sentido da reflexão. Op. que “para os Gregos. Este entrelaçamento. ao mesmo tempo. ali. Cit. Marlene. um recolhimento do presente3. noei=n. A poi/hsiv . realizá-la. São Paulo: Abril. Heidegger e as palavras da origem. sem conteúdo. ou seja. deixar qualquer coisa ser posta-diante-de tal como já está posta. o Ereignis: o advento. Le/gein e noei=n formam um par que surge como o “deixar-estar-posto-diante-de Parmênides atrelado ao verbo ei]nai. eclode o pensar. Martin. O to\ au0to – o mesmo – é compreendido como uma relação de pertença mútua entre ser e pensar. em sentido mais originário – via Homero – nos indica um “pôr” (legen). Conferências e Escritos Filosóficos. Neste sentido. p. 138. que une ZARADER.Em termos gregos. cujos primórdios recuam até Platão e Aristóteles. e0o/n e moi=ra definem um território em comum. In:______. pp. em sua abertura original. uma reciprocidade mútua entre ambos. Lisboa: Piaget. mas de um pensamento que se mantém na obediência daquilo que não lhe é próprio. Sobre o “Humanismo”. Como nos diz Heidegger na sua carta Sobre o “Humanismo”: Para primeiro aprendermos a experimentar. fu/siv. Tanto assim é. 1984. que noei=n irá aparecer no Fragmento 3 de Deste modo. o que significa. 149-50.

2ª ed. Produzir já diz este trazer à tona. bem como o antigo moinho de vento.sob uma co-pertença termos que aparentemente são distintos entre si. em sentido diverso da técnica entendida como poi/hsiv. “a para trás a lh/qh. As quatro causas fundantes da filosofia – causa materialis. da obra Que é uma coisa?(Die Frage nach dem Ding) de Heidegger. A a0lh/qeia fala de um deixar traduzirmos a palavra grega a0lh/qeia de modo direto. 77. p. ao ser como ser dos objetos da experiência – e sua relação com o poder de conhecer – ver o segundo capítulo. É assim que Heidegger poderá definir a técnica como “uma forma de desencobrimento”8. o trabalho do camponês. M.p. 17. 2002. a0lh/qeia. sabendo-se que é o homem quem realiza a exploração que des-encobre o chamado do real. 1990. Há. 11 Op. Assim. capaz de. 228-9. 7 Cf. demonstrar. Heidegger. o surto ao aparecer. ou seja. transforma. Por quê? Ora. formalis. pp. daí sua relação com a verdade. saída para fora da lh/qh.Este processo abre e ex-põe a própria natureza. ou Este desencobrimento vale como o traço fundamental da técnica. e isto mesmo no sentido de uma exploração. 78. é no desencobrimento que se funda toda produção. 17. HEIDEGGER. estoca. Petrópolis: Vozes. 19. Cit. Einführung in die Metaphysik. a compreensão de um desencobrimento explorador: aquele que extrai. In:______. Entretanto. não provocam e desafiam o solo agrícola ou o rio. A técnica moderna dis-põe da natureza. para Heidegger o homem não possui em 5 6 ZARADER. p. Martin. p. finalis e efficiens – encontram seu seio no âmbito mesmo deste desencobrimento. permite que Heidegger pense a essência da técnica atrelada à sua compreensão muito particular da verdade. 8 HEIDEGGER. nos parecem estranhos – a nós. Mas. p. num primeiro momento. a vinda à presença”5. a técnica moderna é uma exploração que “impõe à natureza a pretensão de fornecer energia.Ensaios e conferências. 16 10 Op. Martin. M. trata-se de uma provocação. mesmo aqui. seja. como tal. Cit. Op. assinala sua desocultação. γ. Apud ZARADER. usa de exemplos que. mais precisamente. trazer à luz. ser beneficiada e armazenada”11. o desocultar daquilo que estava velado. 3 . § 27. aponta para a primeira determinação da fu/siv grega. Cit. Cit. para acentuar esta diferença. Diferentemente da fu/siv. Se nós (Unverborgenheit). Tübigen: Niemeyer. sua origem e. neste ponto. ela mesma. que é um “surgir e elevar-se por si mesmo”9. 1953. 78. distribui e reprocessa. O que se pensa com esta afirmação é que a a0lh/qeia é. neste deixar para trás. teremos o termo desvelamento como condição de conhecimento do ente. “a eclosão mesma do ente no seu ser”6. A questão da técnica. Op. a técnica “des-encobre o que não se produz a si mesmo e ainda não se dá”10. 9 Op. Rio de Janeiro: Edições 70. aqueles inseridos na vida fáctica da técnica moderna. já que o ser é o que se oculta e se vela e se mostra a partir deste ocultamento7. p. p. Cit.

ainda. O Ge-Stell determina. Cit. Uma vez que ao realizar a técnica o homem já participa da dis-posição – entendida como um modo de desencobrimento – entende-se o perigo atrelado ao fato do homem ficar ex-posto a um perigo que provém do próprio destino.seu poder o desencobrimento “em que o real cada vez se mostra ou se retrai e se esconde”. O Princípio do Fundamento. p. Op. Op. Este encadeamento histórico – que envolve um a priori e um a essência da técnica não se dá como algo técnico ou maquinal. 4 . Não se trata. O homem é provocado a abordar a natureza como objeto de investigação. nomeadamente quando o homem equivoca-se com o 12 13 ZARADER. M. Deste modo. 14 Idem. A história do direcionar e do libertar é a base para entendermos que. 95 15 Op. ou seja. elaborou a questão do sentido do ser à luz da diferença ontológica. Este modo de pensar só é possível porque Heidegger. contudo. comporta. outrossim. uma idéia heideggeriana bastante interessante: trata-se do destinamento do ser.O homem realiza sua participação no desencobrimento quando age na técnica. Heidegger pode entender que a essência historial da técnica. mas indica. Op. p. e sua estruturação na vida fáctica. “o presente mostra-se em posição de objetividade”16. o modo como o real se des-encobre . Cit. Isto significa que a essência da técnica está para além de sua onticidade. Esta diferença.p. A questão da técnica. posterior a aparição histórica da ciência – entendida aqui como teoria do real – é que determina seu curso. Esta compreensão está atrelada à própria compreensão heideggeriana da diferença ontológica: a diferença entre o ser e os entes. ao remeter-se. HEIDEGGER. Cit. M. p. posteriori – permite pensar o coração da ciência moderna como e0pisth/mh. Heidegger propõe um termo de difícil tradução para indicar esta “interpelação única que reúne o homem e o real à volta de uma única tarefa de que eles são apenas os dois elementos complementares”12: Ge-Stell. M.] o ser. Nas palavras de Heidegger. 24. 138. 148. E ainda mais: “[. Este destinamento nos diz que “o ser se nos atribui e se aclara e clarificante arruma o tempo-espaço. de pensar uma demonia da técnica. Cit. 16 ZARADER.. Esta determinação da sua essência enquanto comum.. 1999. Lisboa: Piaget.e aí reside a dis-ponibilidade. onde o ente pode aparecer”14. nas diversas manifestações da técnica. Ge-Stell significa “a força de reunião daquele por que põe. 145. desde os primórdios de sua Analítica Existencial. como dis-ponibilidade”13. Ele salta do essentia latino-romântico para o Wesen greco-germânico. na época moderna. já que Heidegger localiza o perigo em outro lugar. O perigo mesmo é o destino do desencobrimento. que desafia o homem a des-encobrir o real no modo da dis-posição. p. produz o campo livre do espaço de jogo temporal e com isso o homem primeiramente num campo livre liberta as suas respectivas possibilidades essenciais remetidas”15.

é a mesma que esta a-létheia original. sedimentadas abaixo da ontoteologia dogmática da tradição. uma vez que ali se pensa o fenômeno originário da verdade (Das ursprüngliche Phänomen der Wahrheit) em oposição ao conceito tradicional de verdade (Der traditionelle Wahrheitsbegriff)18. pode deixar suas marcas numa época histórica? O Mito do ser remete a um começo primordial situado exclusivamente entre os primeiros gregos. O Mito do ser é também o Mito da Origem (Ursprung) e do Começo (Aufang). mas este é o perigo. 214 e 219. ou seja. Sein und Zeit. É aqui que entra Caputo como um contraponto a Heidegger. possibilita-o pensar o Quádruplo. Este Mito do ser. p. Op. Desmitificando Heidegger. Escreve Caputo: 17 18 CAPUTO. 19 CAPUTO. mas destinadores (geschicklich). já que inicialmente teríamos aqui uma “hermenêutica da facticidade” que Caputo compreende em duas frentes: “[. O problema. sedimentada abaixo da metafísica da ousia”17. é que a a-létheia. podemos mesmo afirmar que já no § 44 de Ser e Tempo há uma possibilidade de divisarmos este Mito. M. do mundo da vida fáctico das comunidades do Novo Testamento. Caputo quer nos fazer ver que Heidegger funda o Mito do ser. portanto. Tübingen: Niemeyer. Cf. Caputo não está propenso a aceitar a idéia de um povo grego originário doador de determinadas tradições lingüísticas. p. que ganha contornos heróicos e poéticos no último Heidegger. A a-létheia original deve ser.] por um lado. para Caputo. 16. aquela que surge historicamente entre os pré-socráticos. 1998. assim com a diffèrance de Derrida. Não é de se estranhar que Caputo pergunte como isto é possível. ante-histórica. como este Wesen da história – que permite que a história seja – e que nunca pode ele mesmo ser histórico. científicas e sociais do Ocidente. 19. por outro lado. p. e. não é nem um nome nem um conceito e. A verdade só pode ser romantizada e cristianizada como veritas após as tentativas de Platão e Aristóteles em precisar “esta concepção com uma <<definição>> do elo existente entre o pensamento e o ser que relegou para segundo plano o aspecto da alétheia como desocultação”19. excluindo qualquer possibilidade de pensarmos uma inserção desta escuta atenta originária entre a tradição greco-judaica.. John D. Cit. 40. É assim que Caputo pode escrever que “os <<Gregos>> de Heidegger não são algo meramente <<histórico>> (geschichtlich). J. HEIDEGEER. Este Mito não surge inicialmente nas primeiras conferências de Heidegger em Friburgo que deram origem a Ser e Tempo. Mas parece que a alétheia grega. Para Heidegger. condutores do próprio destino (Geschick) do Ocidente”20. do mundo da vida fáctico da ética aristotélica. 19ª ed. não se trata de um entre tantos outros perigos. pp. 20 Op. Se seguirmos Caputo. não possui unidade nominal.desencobrimento e chega a interpretá-lo mal. Lisboa: Piaget.. 5 . Isto é possível porque são os primeiros gregos que pensavam o ser na sua existência como presença dentro da a0lh/qeia. 2006. Cit. seguindo estas prescrições.

então. Cit. no § 69. Esta abordagem que surge apenas nos anos 30 se distancia do que nos é dito em Ser e Tempo onde a ciência aparece de modo positivo quando. 2007. é que estas determinações partem da compreensão heideggeriana do Wesen que não constitui algo que é humano. pp. Caputo entende que Heidegger. Diante desta essência da técnica que coloca em um só bojo a produção de trigo para produzir o pão que alimenta e a produção de armas que matam. CAPUTO. b. Desmitificando Heidegger. a parte mais poderosa de sua obra. Ela é “uma sensibilidade para as exigências da situação individual. parece um grande distanciamento do real. Revista Perspectiva Filosófica. a essência da destruição não se dá na aniquilação nuclear. está contra as turbinas. M. Vol II. J. mas sim conhecimento que lida com um cenário que oscila e que se dá num mundo que muda. da História. influenciado por Hölderlin e os primeiros gregos. A crítica que Heidegger faz à tecnologia é. eis a célebre conclusão de Heidegger e isso mesmo porque o ser se representou como Gestell. a essência da habitação não se relaciona com quatro paredes e um teto. Desmitificando Heidegger. Então o deus que emerge nos últimos escritos de Heidegger é um deus poético. mortais e deuses – é uma profunda concepção de Hölderlin que Heidegger deriva de suas leituras desse poeta sobre o mundo grego. Sein und Zeit. bem como o lugar reservado às mulheres e aos escravos. onde tudo é sintetizado ao sabor do logos. pp.58. Esta não é um conhecimento do imutável. para Caputo. p. sendo algo dado. 6 . 26. a essência da linguagem não reside no discurso humano. Cit. O Gestell preenche o esclarecimento dado no seu próprio afastamento. HEIDEGGER. 24 Cf. Só um deus pode nos salvar. portanto. Heidegger e a teologia. do Autor). a essência da dor nada tem a ver com o sentimento22. Op. p. Op.. A diferença ontológica aponta sempre para a essência numa esfera anterior ao ôntico. p.Heidegger demonstra nestes escritos uma decidida preferência pelos primeiros gregos. Cit. uma experiência poética do mundo como algo sagrado ou merecedor de reverência. (Trad. para Caputo. mas o modo como pretende ser.21 O problema crucial aqui. Heidegger. 357. O Quádruplo – terra e céu. Cf. os computadores e “as horríveis e trituradoras rodas do Gestell”23. 21 22 Idem. No invisível do esclarecimento emerge a tecnologia que não é o ser. não é tecnológica. 98-9. segundo Caputo.123-4. Idem. que não é o Ereignis e nem tampouco o Es gibt – e isto. esquece a alta taxa de mortalidade entre os primeiros gregos. pela experiência grega de ser como physis e alétheia e pela experiência dos ‘deuses’ como parte do ‘Quádruplo’. A essência da tecnologia. 23 Op. procura-se estabelecer um conceito existencial da ciência (einen existenzialen Begriff der Wissenschaft)24. Caputo coloca a phronêsis25. da vida dos homens que trabalham e sofrem. 25 Cf. 176.

M. enquanto modo do homem lidar com o mundo. HEIDEGGER. pelo próprio destinamento do ser. facticidade. Pensemos na escrita. mas sim de entender também que o sentido mesmo do que se mostra não se 26 27 sentido (Der Sinn) é o que pode ser articulado na interpretação27 . 161. Sein und Zeit. Cit. acrescentando que era sua concepção de historicidade que constituía a base deste envolvimento. repete Caputo. desentranhado de seu ponto originário. ganha corpo e pode ser pensado e dito. Op. Este retorno nos obriga a privilegiar a “hemenêutica da facticidade” de Ser e Tempo em detrimento ao Mito do ser que surge depois. p.uma intuição (nous) que o entendimento prático efectua das idiossincrasias do particular”26. É na sua carta aberta à universidade alemã que Heidegger afirma que os alemães têm a responsabilidade do Ocidente. O próprio Heidegger não teria escutado o apelo a-histórico do destinamento do ser oriundo dos primeiros gregos. mas sim o seu Wesen enquanto ocorrência. Entretanto.remontamos ao par noei=n Op. Cit. 99. Mesmo o pensamento da verdade do ser se diz historicamente na escrita. é histórica exatamente devido à escrita. fadado a escutá-lo de modo autêntico. 7 . criando uma reciprocidade entre seu povo e a magna graecia. parece que há uma certa intenção não dita nestas linhas. uma das mais antigas manifestações da técnica. Agora se torna claro o intuito de Caputo: o infernal endossamento de Heidegger ao nazismo está na base de sua própria filosofia – o Mito do ser (que reúne sobre um único privilégio os primeiros gregos e os alemães) valida o programa político nazista na medida em que o povo (Volk) alemão está na ponta. O intuito de Caputo é definir que esta postura de Heidegger em favor do Wesen aponta para suas escolhas políticas. A essência da técnica que produz campos de concentração é a mesma daquela que extrai alimentos da terra. De fato. p. Na escrita – aquela mesma que pode elaborar um poema que pensa a verdade do ser ou declarar uma guerra – vemos que não é a delimitação em si do seu Wesen que atinge e modifica o mundo. Mesmo que Heidegger afirme que a essência da linguagem não resida no discurso – apesar de sabermos que o e le/gein. Talvez se trate muito mais de estabelecer não apenas a essência daquilo que se mostra e que é pensado como gênero ou universal. da escuta atenta do destinamento do ser. mas isto não significa que podemos pensar esta base à luz de sua compreensão da essência da técnica. dentro da História. É conhecida a anuência de Heidegger à pergunta de Löwith se seu envolvimento político estava na essência de sua filosofia. A questão é que a e0pisth/mh. coisa viva e real que. Heidegger apela aos alemães que assumam a sua missão histórica. Sem esta técnica não poderíamos escutar o que Heidegger teria para nos dizer. Trata-se de uma mitologia greco-alemã onde se trata de responder ao destino de um povo que possui a característica particular de já estar. modificando o estado de coisas ou a conjuntura do mundo. o endossamento de Heidegger ao nazismo está na base de sua filosofia.

A questão da técnica em Martin Heidegger. Se noei=n e le/gein se articulam numa unidade. a diferença ontológica em Heidegger nos leva a repensar a questão da Ética. Uma coisa é certa: o endossamento ao nazismo levado a termo por Heidegger – um pensador de tão grande envergadura – nos mostra que se de fato há um destinamento autêntico do ser dentro da História. na angústia vazia frente ao perguntar e à negação que causam cegueira em relação ao essencial (‘que é invisível aos olhos’). como dissemos anteriormente.28 A palavra chave aqui é esta: Vieldeutigkeit. A escrita. Acredito que Caputo forja. ou seja. p. a te/xnh. 28 8 . portanto – enquanto modo do pensamento – também está atrelada ao seu dizer. O essencialismo de Heidegger. pela escrita. a redução do significado e do sentido do ser ao monopólio da explicação técnica. Entretanto. segundo Caputo. Este reducionismo é o alvo visado por Heidegger em suas críticas à técnica moderna. por último. Mas não se trata aqui do dizer enquanto teoria (qewri/a). está atrelado ao seu dizer. à luz de suas influências francesas – mais especificamente Derrida. COCCO. já que o pensamento. Levinas e Lyotard – um modo de ler a questão da técnica em Heidegger que não parece condizer com a própria leitura heideggeriana ao problema. v. jan-jun 2006. mas sim de apontar os fundamentos desta própria esfera. segundo. Heidegger indica a partir do que se anuncia o abandono do ser: primeiro. 10. Ricardo e FLEIG. não aponta diretamente para a vida. a própria memória. mas nos perseguem temporalmente naquilo que é. Não se trata de debater as implicações éticas da técnica moderna – mesmo que Heidegger esteja buscando revalorizar a escuta atenta ao sentido do ser – mas sim de apontar para o terreno comum em que qualquer técnica se torna possível. As lições não são puras memórias de uma essência atemporal. assim nos mostra e une o passado com o presente. Como bem nos lembram Cocco e Fleig: No texto Contribuições à Filosofia. na obstrução do pensar ao se implantar valores e idéias como imutáveis. O advento da escrita enquanto técnica fundamental aponta desde sempre para um lugar mais original. para aquilo que possa de fato interessar aos homens.capta apenas olhando um dos pontos de sua origem. seja em sua essência ou em seu modo fáctico de aparecer. na fuga da meditação e na impotência do esperar que somem a partir da supervalorização do calcular. terceiro. já que aqui não se trata de analisar a esfera ôntica. e. O saudosismo de Caputo frente a essentia o obriga a redimensionar a problemática da técnica dentro do pensamento heideggeriano. Mário. Revista Controvérsia. 2 n° 1. na completa indiferença com o plurissignificante (Vieldeutigkeit). esta escuta passou muito longe do povo alemão. Talvez Caputo esteja saudoso da essentia medieval. mas sim da efetividade múltipla do aparecimento das diversas técnicas.

fundamentar historicamente uma das bases essenciais de sua estrutura filosófica: o esquecimento do sentido do ser. Tillich e Meister Eckhart: Apreciação Crítica. a uma comparação entre Heidegger e Bultmann ver MACQUARRIE. Caputo critica Heidegger por ter medo da animalidade do homem. por exemplo. Cf. sentido da poi/hsiv. New York: Harper. o cuidado. mas não de modo adequado. bem como a preocupação de Heidegger. La Dette impensée. O Caputo de Desmitificando Heidegger parece. a cura. para então podermos estar munidos de uma junção capaz de nos levar até a real dimensão do problema. ou ao menos escutar de modo mais tranqüilo as considerações de Bultmann ou Tillich31. já que a cura não significará Kampf. Caputo afirma que com CAPUTO. por negar a dimensão animal do homem. John. ou melhor. muito mais voluntarioso e heróico. já que o excesso de seu tom bíblico parece comprometer sua lucidez filosófica. 1990. O ressentimento de Caputo é justificado. Mas é apenas no domínio da elaboração. Paris: Seuil. ou seja. do elaborar (trachten) que a técnica pode ser motivo de um juízo ético. Acredito que o Caputo de The Mystical Element in Heidegger´s Thought e Heidegger and Aquina está muito mais centrado numa fenomenologia-hermenêutica bem feita que possibilita realmente interessantes leituras sobre Heidegger à luz de suas influências ditas e não ditas de Aquino e Mestre Eckhart. mas sim kardia30. 1965. Sua busca por uma kardia evangelizada só é possível de ser justificada se levarmos em conta sua abordagem extremamente negativa às considerações de Heidegger sobre a essência da técnica. a uma aproximação entre Eckhart e Tillich ver DOURLEYJ. J. por negá-lo enquanto animal rationale. já que Heidegger “escutou o Sorge em ‘sorgen um das ‘tägliche Brot’”29. Op. mas também sem perder de vista aquilo que lhe é essencial. Novamente parecemos escutar um eco francês nas idéias de Caputo. An Existentialist Theology: A Comparision of Heidegger and Bultmann. 100.esteja mais propenso a lhe dar com a técnica sem um distanciamento radical.br/correlatio>. 30 29 Se a técnica moderna é uma provocação (Herausfordern) e não mais uma produção no ambas as esferas citadas possam conviver em certa harmonia. assim como o próprio Heidegger que ele quer criticar. Na esfera do desencobrimento – portanto no universo ontológico – a crítica de Heidegger à técnica só poderia mesmo ter este caráter. Caputo reclama que falta em Heidegger uma devida compreensão da esfera do pão e da carne.seus usos e direcionamentos.metodista. John. 31 Cf. Disponível em: <http://www. portanto. Silesius e Boehme. A teoria é pura consideração (Betrachtung) daquilo que é o real. Cit. é entendida em Caputo de um modo a acentuar a facticidade greco-judaica. p. ver ZARADER. Caberia. Sorge. Heidegger et l’héritage hébraïque. pois é certo que o homem 9 . pensar cada esfera primeiramente de modo separado. O saudosismo medieval de Caputo deveria ser contrastado com a radicalidade da antropologia filosófica de Eckhart. Marlene. Cf. talvez sejamos levados a pensar a urgência de criarmos um campo em que contemporâneo – sobrevivente de duas Grandes Guerras .

série 3. suas lições sobre a História da Filosofia. Suas cartas neste período nos atemorizam ainda mais. Lutero e Kierkegaard. Z. sua dor física. 6. 1996. em cada uma de suas formas. v. Agostinho. Loparic parece conhecer esta querela e suas possibilidades. p. Cadernos de História e Filosofia da Ciência. O terrível endossamento de Heidegger – e seus esforços gigantescos para encobrí-lo nos anos seguintes – coloca nosso pensamento numa suspensão desconfortável em relação às suas idéias mais originais. sua sede. 32 10 . mas aponta num sentido completamente diverso. Ele afirma que “o instinto da animalidade e a ratio da humanidade tornam-se idênticos. ao próprio planejamento. Pascal. Não é aí que reside seu distanciamento da animalidade. Mas o confronto mesmo com suas idéias principais parece sempre conduzir a um distanciamento maior deste período nebuloso de sua vida. portanto. somos novamente levados a pensar a partir da essência. Heidegger aprendeu que o homem é concebido de forma adequada como temporalidade. Nada mais justo. numa questão também radical: é possível pensar Heidegger filósofo dissociado do homem Heidegger? E ainda mais: a hermenêutica da facticidade se desdobra mesmo no Mito do ser? É sempre neste sentido que realizamos. mas sim quando este não pensa aquilo que é próprio do homem enquanto animal: sua fome. 107-137. Dizer que o instinto é o caráter da humanidade significa dizer que a animalidade. por isso transcende também a sua animalidade. suas limitações corporais. A questão da técnica em Heidegger se transforma. São Paulo :UNICAMP. a saber: realizar sempre o passo de volta (Schritt züruck) pensando o impensado de seus dizeres. no pensamento mesmo de Heidegger. Heidegger e a pergunta pela técnica. LOPARIC. está totalmente submetida ao cálculo e ao planejamento”32. Loparic chega mesmo a equacionar o instinto da animalidade com a razão humana neste processo histórico de tecnificação. Mas que fique claro: todo pensamento da essência transcende ao próprio cálculo.Paulo. nº2. Invertidas as ordens.

2006. 6.Ensaios e conferências. Lisboa: Piaget. Mário.REFERÊNCIAS CAPUTO. ______. MACQUARRIE. ______.1986. New York: Harper. 1998. 2ª ed. Lisboa: Piaget. Fundamentalontologie oder Seinsmystik? Wort und Warheit. La Dette impensée. 1949. 2 n° 1. Heidegger e as palavras da origem. Marlene. Heidegger e a pergunta pela técnica. In:______. New York: Fordham University Press. São Paulo: Abril. PÖGGELER. ______. Petrópolis: Vozes. Lisboa: EA. Heidegger et l’héritage hébraïque. Sobre o “Humanismo”. A questão da técnica em Martin Heidegger. 8. Disponível em: <http://www. n. DOURLEYJ. ______. Otto. Man and Work. ______. 1965. (Os Pensadores). Tübingen: Niemeyer. 11 . 26. A questão da técnica. jan-jun 2006. Martin. Paris: Seuil. Lisboa: Piaget. Heidegger and Aquinas. John. 2002. ______. In:______. An Existentialist Theology: A Comparision of Heidegger and Bultmann.metodista. Einführung in die Metaphysik. John D. n. 1984. Tillich e Meister Eckhart: Apreciação Crítica. v. 19ª ed. 1988. Revista Perspectiva Filosófica. UNICAMP série 3. 1998. 1990. 1975.2. ______. John. LOPARIC.br/correlatio>. 2000. Zeljko. The Mystical Element in Heidegger´s Thought.4. ______. Metaphysics and Topology of Being in Heidegger. HANSEN-LOVE. Cadernos de História e Filosofia da Ciência. HEIDEGGER. 2007. ______. Vol II. 1953. O Princípio do Fundamento. COCCO. Heidegger e a teologia. Conferências e Escritos Filosóficos. Desmitificando Heidegger. Revista Controvérsia. ZARADER. Tübigen: Niemeyer. v. Ricardo e FLEIG. Sein und Zeit. 1990. O Banquete. 1999. Que é uma coisa? Rio de Janeiro: Edições 70. New York: Fordham University Press. São Paulo. PLATÃO.

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