CULTURA

Visão, ? de Julho de 1999

SOPHIE CALLE JEFFWALL

Uma insólita natureza morta: An Octopus, fotografia de 1990

Le Stri{}tease, de 1989. Um dos episódios da série Autobiografias

FOTOGRAFIA

Os desafios da FundaçãoCartier
A mostra itinerante, patente no CCB, coloca vários

problemas plásticos e intelectuais
RUTH ROSENGARTEN .

A Fundação Cartier - que há uns meses apresentou, também no CCB, a notável mostra de fotografias de Francesca Woodman - está sediada, desde meados dos anos 90, no edifício com projecto de Jean Nouvelle, no Boulevard Raspail, em Paris. Antes da actual sede, funcionava a partir de Jouy-en-Josas nos arredores de Paris, o jardim escultórico e os ateliers proporcionando aos artistas a oportunidade de trabalharem in situ nos seus projectos individuais.
íCONES DE GRANDES NOMES

lashes é uma exposição que apresenta F as obras de 26 artistas da colecção da Fundação Cartier em França. Uma exposição deste tipo - a mostra de trabalhos da colecção de uma instituição - é necessariamente fragmentária, expondo as estratégias de compra e de mecenato prosseguidas pelo organismo promotor. A Fundação Cartier propõe-se fomentar estrei-

tas relações de trabalho com os artistas em que investe: um grupo eclético, ostensivamente não selecciónado em termos de «escolas» estilísticas, «períodos» da história de arte ou preferências regionais. Visto não existir um espaço físico em que toda a colecção se encontre reunida e exposta, a Fundação faz circular permanentemente as obras da colecção através de exposições internacionais como a que está patente no Centro Cultural de Belém.

A selecção especificameite feita para a mostra de Lisboa foi comissariada por Hervé Chandés, actual conservador da colecção, juntamente com Margarida Viegas, directora do Centro de Exposições do CCB. Centrando-se, sobretudo, em obras que são instalações ou que, de uma maneira ou outra, se apoiam nas tecnologias ligadas à fotografia, a mostra revela uma grelha solta de laços entre os artistas seleccionados. Se os resultados
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WOLFGANG T1LLMANS

Alonga série Chemistry Squares (1992). Retratos e fragmentos

não são necessariamente da mesma qualidade, no seu melhor (no conjunto grande de obras de Matthew Barney; na colecção idiossincrática de desenhos e esculturas de Marcus Raetz; na peça video de Bill Viola) a exposição, tanto do ponto de vista plástico como do ponto de vista intelectual, coloca desafios vários ao espectador. As ligações formais e conceptuais – por exemplo, entre as obras de Vija Celmins, Thomas Ruff e Tatsuo Miyajima, ou entre Jeff Wall, Yukio Nakagawa e Thomas Demand; ou entre Nan Goldin, Wolfgang Tillmans e Nobuyoshi Araki – são estabelecidas de forma solta e não impostas de forma pedagógica ao espectador. Em contrapartida, algumas das obras parecem servir apenas de “îcones” para uma colecção de grandes nomes – os casos mais notáveis são o da desapontante instalação de Tony Oursler, do enorme “submarino” em aço de Panamarenko, revelando-se também inexplicável a ênfase dada a Raymond Hains, aclamado no catálogo como sendo “um dos maiores artistas da actualidade”. Se Gabriel Orozco e Jeff Wall se encontram subrepresentados, as obras de Wolfgang Tillmans e Nobuyoshi Araki – cujas fotografias por vezes resvalam perigosamente para o domínio da moda – são perturbadoras e obcecantes. As três obras de Sophie Calle – explorando sempre o limiar ténue entre narcissismo e ficção – aguçam-nos o apetite para mais, o que também acontece com as três obras de David Hammons, jogando de forma irónica com a relação entre o modernismo e as comunidades marginalizadas afroamericanas.