arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto

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ARQUITETURA E AMBIENTE: À GUIZA DE INTRODUÇÃO

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Este ensaio não pretende ser outra coisa senão um ponto de partida. Seu objetivo é iniciar a sistematização de um conjunto de referências históricas, teóricas, metodológicas e empíricas que vêm sendo discutidas e aplicadas nos exercícios do ateliê de projeto ambiental urbano. Conforme poderá ser facilmente verificado, a abordagem se apoia decisivamente no enfoque desenvolvido por Rubén Pesci e 1 Centro de Estudios y Proyectos del Ambiente em sua busca de alternativas projetuais para a construção da cidade sustentável, e nas investigações sobre morfologia urbana e percepção ambiental levadas a cabo por Lineu Castello e o Grupo de Pesquisa em 2 Percepção Ambiental e Desenho Urbano da UFRGS . Para tanto, o texto faz referências a variados autores, na busca de uma fundamentação teórica mais ampla. A disciplina de ateliê, em uma das ênfases que vem sendo experimentadas ao longo dos últimos quatro anos, orientada pelo autor e pelo professor arquiteto Paul Dieter Nygaard, privilegia trabalhar as ações de planejamento, desenho e gestão da cidade a partir de um enfoque ambiental. E ai começam as dúvidas, e os muitos problemas de método. A utilização da palavra ambiente, seja para caracterizar uma postura política ou técnica, tem se tornado um falacioso lugar comum. Para alguns, a perspectiva ambiental soa “romântica”: sugere um sentimento de terna nostalgia em relação a uma vida “descomplicada” no campo ou na pequena aldeia. Para outros, ambiente define uma dimensão política e ideológica: uma maneira de ver o mundo e interagir com ele no sentido da preservação, em seu estado mais puro, do espaço da natureza (no qual o homem, por definição ideológica, é o maior predador). A radicalidade de uma ou outra perspectiva, não é demais assinalar, gera preocupantes caricaturas e, com expressivo comparecimento, oferece à opinião pública uma janela nos meios de comunicação, enquanto os problemas efetivamente
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O trabalho de Pesci e Fundación CEPA inicia-se por volta de 1974/76, tratando, mais especificamente, do conceito de interfaces urbanas, e das metodologias de projetação no sentido da busca da cidade sustentável. A bibliografia é fartamente referida ao longo do corpus deste e dos capítulos seguintes. A trajetória de Castello e do Grupo de Pesquisa em Percepção Ambiental e Desenho Urbano da UFRGS (do qual este autor toma parte), que inicia-se em meados da década de oitenta, é assinalada ao longo deste e dos capítulos seguintes, quando o leitor encontrará referências bibliográficas específicas.

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ambientais, na cidade ou fora dela (se ainda for possível pensar em questões ambientais que não afetem de algum modo a vida humana/urbana) se avultam diante da inoperância consentida da política tradicional e da falência dos paradigmas científicos disciplinares. Na cidade - na dimensão sócio-espacial da cidade - é reveladora a perda de referenciais de urbanidade - a qualidade do que é o urbano - pelo avanço de problemas cruciais de marginalidade e miséria, pelo crescente anonimato, pelo esvaziamento do espaço público, pela perda de confiança nas instituições. E, para o arquiteto, amordaçado pelos interesses de mercado (e pela sua própria formação compartimentada de especialista), revela-se na falta um projeto que responda a profunda crise em seu papel social. Maurice Cerasi (1977), duas décadas atrás, já denunciava este vazio. E esboçava uma abordagem transdisciplinar para a construção de uma arquitetura no sentido da paisagem - das formas e da cultura - transformada pelo desejo e pela ação do homem. A este enfoque conceitual Cerasi chamou de arquitetura-ambiente. Este ensaio procura começar a entender esta lição, que não é outra que a de recuperar a responsabilidade compartilhada da Arquitetura e do Urbanismo, entre as vários campos disciplinares que debruçam-se sobre o espaço, na construção de um ambiente gerador de lugares social e culturalmente significativos, o que passa por uma reflexão projetual quanto aos métodos e as tecnologias com capacidade de resposta à dialética conservação-desenvolvimento. Nesta perspectiva, o texto se constrói como uma colagem de leituras, identificando, no amplo universo da literatura de temática urbana, aportes variados (e que revelam diferentes endereços científicos ou ideológicos) que possam contribuir em avançar na direção de uma abordagem ambiental - integral e integradora - do desenho urbano.

QUADRO TEÓRICO: REFERÊNCIAS PARA LEITURA

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iálogos imaginários entre Marco Polo, o navegador veneziano, e o imperador mongol Kublai Kahn servem de estrutura narrativa para que Italo Calvino (1991) construa os muitos e insinuantes cenários das suas “Cidades Invisíveis”. Instigante obra da literatura contemporânea, o livro do escritor italiano tem despertado a atenção de diferentes estudiosos da questão urbana, em distintos campos disciplinares, que se deixam seduzir com os variados relatos das viagens de Marco Polo, interpretando-os como descrições simbólicas de distintos estados da cidade atual (Canevacci, 1995; Del Rio, 1991; Pesci, 1985; entre outros).
A metáfora urbana de Italo Calvino

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De fato, a “multidão” de signos que se desvelam a cada relato, expressam, no sentido metafórico, os muitos aspectos de uma “cidade real”- a “Veneza” do século XIII - a qual Marco Polo nega-se a descrever em termos concretos. Por isso mesmo, para decodificar as metáforas criadas por seu interlocutor, o imperador constrói um sistema de explicação, ao mesmo tempo, modelo do qual declinar todas as cidades possíveis e uma espécie de “teoria geral”, através da qual se pode contemplar as diferentes interpretações clássicas que descrevem a cidade 3 em termos “cósmicos”, “mecânicos” ou “orgânicos” “ - Entretanto, construí na minha mente um modelo de cidade da qual extrair todas as cidades possíveis - disse Kublai. - Ele contém tudo o que vai de acordo com as normas. Uma vez que as cidades se afastam da norma em diferentes graus, basta prever as exceções à regra e calcular as combinações mais prováveis.” (Calvino,1991:67) Ainda que a resposta de Calvino, através do personagem Marco Polo, apele para a ironia - Marco reconstrói o modelo, mas partindo de uma cidade formada apenas pelas “exceções” - o que está subjacente é uma teoria geral da cidade, ao mesmo tempo descritiva e preditiva, na medida em que variando-se as exceções e aproximações ao modelo, poder-se-ia definir “todas as cidades possíveis”.

A tradução de Rubén Pesci

O arquiteto e ambientalista argentino Rubén Pesci, por exemplo, vale-se de uma perspectiva semelhante, elegendo três das metáforas de Calvino para emblematizar os distintos estados de conflitualidade ambiental que coexistem nas grandes cidades contemporâneas, tomando-as como imagens paradigmáticas da configuração urbana atual. Em seu livro La Ciudad In-Urbana (1985), Pesci detém-se em analisar as “denúncias 4 mais alucinantes e tangíveis de nossa cidade” (1985:5) , apoiando-se nas descrições de Calvino, investindo a si mesmo o papel de “comentarista técnico” que identifica e interpreta os rasgos desta conflitualidade, trazendo-os do “invisível” para o espaço real. Leonia (Calvino, 1991:105-107; Pesci,1985: 9-23) é a “cidade voraz”, caracterizada por fluxos entrópicos de matéria, energia e informação, onde tudo se consome e é transformado em dejeto, em um ciclo interminável e autofágico. É a crítica ao consumismo exacerbado, que coloca em risco a diversidade e a estabilidade dos sistemas urbanos. Zora (Calvino,1991:19-20; Pesci,1985:43-61) é a “cidade artificial”, materialização distante da abstrata cidade ideal, resultante do projeto urbanístico e ideológico disciplinar e totalitário. Mega-estrutura esquemática e mecanicista, a versão construída de Zora espalhou-se pelo mundo como símbolo de um urbanismo

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Sobre as abordagens teóricas clássicas da cidade, ver Lynch (1985). Tradução livre do autor, a partir da edição original em espanhol de 1985. As demais citações seguem a mesma sistemática. Grifo também do autor.

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ambiguamente revolucionário, ajudando a estabelecer a hegemonia da arquitetura moderna. Pentesilea (Calvino,1991:142-143; Pesci,1985:27-39), por sua vez, é a cidade “inurbana”, fragmentada, incompleta, vazia de imagem e significado, correspondendo ao cenário recorrente das grandes periferias metropolitanas. As estas três denúncias manifestas, Pesci soma um “apéndice in-conformista” (1985:65-90) que esboça uma interface propositiva, alternativa à crítica da cidade contemporânea, e que procura estabelecer um caminho projetual holístico, ou seja, integral e integrativo das condições sócio-históricas e naturais no processo de urbanização. Leonia, Zora e Pentesilea, em seu conjunto, traduzem um quadro recorrente e preocupante. Nos três casos, a complexidade e a hipertrofia na escala urbana apequena o indivíduo. Ao mesmo tempo, a sobreposição dos paradigmas permite visualizar a fragmentação do espaço e da vida urbana em diferentes escalas sócioespaciais que, antes, em termos de uma historicidade urbana, estavam interrelacionadas, coexistindo simbolicamente no espaço concreto.
A metáfora. a tradução, e a cidade real

Este quadro de sobreposições, que se poderia tentar traduzir com a noção de megapaisagem, na qual os valores da urbanidade cotidiana encontram-se submetidos à avassaladora lógica metropolitana, revela-se em situações típicas: estruturas urbanas que, dentro da estrutura global da cidade, se caracterizam, entre outros fatores, pela complexidade funcional, simbólica e perceptiva; pelo entrelaçamento de seus diferentes componentes morfológicos; pela sua excepcionalidade e/ou extensão; pela grande atratividade que geram em termos de fluxos urbanos; e na sintaxe complexa em relação ao tecido urbano nos quais se inserem ou se articulam, etc. 5 denotando seu caráter trouvé no interior do sistema urbano-metropolitano. Exemplos modelares de estruturas urbanas que respondem, em maior ou menor grau, a estas características são fáceis de intuir, como por exemplo: i. O core urbano-metropolitano - central business district, na tradição da sociologia urbana norte-americana - com sua variedade morfológica, excepcionalidade arquitetural, dinâmica urbana trepidante, congestão quase caótica de indivíduos, grupos e atividades, sobreposição de escalas, formas de apropriação, significados e territórios culturais; ii. Os grandes eixos de circulação e transportes intra-urbanos ou conectores regionais, configurando um sistema de canais que empresta acessibilidade ao território urbanizado, ao mesmo tempo em que contraditoriamente estabelece barreiras à apropriação cotidiana, caracterizando conflitos entre os grandes fluxos de tráfego urbano-regional e o sentido próprio de lugar, construindo ícones em uma paisagem seqüencial, ao longo dos eixos, marcada pela 6 velocidade ; iii. As concentrações industriais e de grandes infra-estruturas - fábricas, terminais de carga e transporte, ferrovias, aeroportos, estações de água, esgotos e energia, torres de rádio, TV e microondas, depósitos de dejetos, etc. - configurando um território perceptualmente fragmentado que, no entanto, revela-se muitas vezes visualmente fascinante; iv. As periferias metropolitanas, a não-cidade da falta de equipamento, infraestrutura e serviços, baixa qualidade do meio construído, transitoriedade, falta de arraigamento e sentido de pertencer, vazias de significado, partes da cidade “in-urbana”, em um contexto de exclusão.

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No sentido emprestado de Rowe e Koetter (1981:147). Na perspectiva de Virilio (1993,1996).

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Megaestrutura

E também a megapaisagem inventada, disciplinada pelo fazer arquitetônico, hipertrofiada em escala e pretensão, grandes edifícios desafiadores das lógicas 7 urbanas tradicionais ou imensas coleções mais ou menos estruturadas de máquinas de morar, de trabalhar, de recrear, de circular, em padrões que tendem à repetição: a 8 megaestrutura (Banham,1978 ) arquitetônica e urbana, fruto apoteótico e de vida curta, falácia moderna enquanto utopia, resultante da supremacia e desejo (desígnio?) do arquiteto e da ideologia tardia dos CIAMs. A noção a que se vai recorrer para amalgamar e identificar tão díspares recortes na configuração da cidade contemporânea se define no sentido de interface complexa. Ou seja, situações de interfaces urbanas/metropolitanas onde se possa identificar 9 fatos urbanos que se desenham e/ou refletem-se nos vários aspectos mencionados preliminarmente, provocando um contraponto à paisagem razoavelmente homogênea 10 característica da cidade tradicional figurativa .

Conceito de Interface

A noção de interface, aplicada a sistemas ambientais complexos, tomada da ecologia natural, da física, da comunicação e das ciências da informação, ressemantizada em termos de ambiente urbano, define-se como “ponto de sobreposição de subsistemas distintos, gerando (a interface) canais onde podem se dar fluxos de matéria, energia e informação” (Fundación CEPA,1897:8). A abordagem da projetação urbana através da avaliação sistêmica de interfaces vem sendo construída desde 1984 pela equipe do Centro de Estudios y Proyectos del 11 Ambiente (Fundación CEPA, dirigida pelo arquiteto Rubén Pesci) , de La Plata, Argentina, e revela o eixo teórico-metodológico preferencial adotado ao longo deste livro. Em termos da configuração sócio-espacial urbana, atuar através de interfaces demarca um novo ponto de vista para a leitura ambiental dos lugares urbanos, nos quais tais fluxos e trocas podem ser identificados e avaliados. Nesta perspectiva, a metodologia inicialmente desenvolvida pela Fundación CEPA no 12 escopo do programa Man and the Biosphere da UNESCO , faz denotar o reconhecimento de interfaces urbanas em situações de: i. ii. iii. iv. Máxima interação social entre indivíduos, atividades e grupos; Máxima centralidade social; Máxima contradição nas relações entre cidade e campo; Máxima conflitualidade nas relações entre centro e periferia.

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Refere-se a “maquina de morar” preconizada por Le Corbusier, emblematizada na Unidade de Habitação de Marselha e mitificada pela tradição moderna na arquitetura. Ver além do próprio Le Corbusier, entre outros, Benévolo(1980, 1981, 1983), Frampton (1991), Kopp (1990), etc. A temática “megaestrutural” é fascinante. Banhan (1978) apresenta um completo estudo teórico-histórico sobre o tema “megaestrutura” na arquitetura tradicional e moderna. Na acepção de Rossi (1982): situações sociais ou materiais que incidem sobre a estrutura urbana, caracterizadas por maior ou menor transitoriedade ou permanência. Na perspectiva ensaiada por Comas (1986a,1986b,1993): a cidade figurativa é representativa das relações tradicionais entre os elementos morfológicos da estrutura urbana: lote, edificação, rua, quarteirão, praça, etc., caracterizando um padrão fundo-figura específico, em oposição ao preconizado pelo urbanismo moderno de corte corbusiano. É importante mencionar, na construção da teoria e da metodologia de interfaces, além de Rubén Pesci, vários outros pesquisadores ligados a Fundación CEPA. Correndo o risco de omitir involuntariamente nomes importantes, cabe citar a Omar Accatolli, Jorge Perez, Mario Rabey, Mario Robirosa, Daniel Pini e Artenio Abba, entre outros. Entre os documentos bibliográficos disponíveis sobre o tema, destaquem-se os trabalhos da Fundación CEPA (1984;1987), de Rubén Pesci (1985), e de Jorge Perez,1995). Ver Fundación CEPA, 1987. O estudo originou-se em 1983, no âmbito do programa Man and the Biosphere, da UNESCO, como aporte metodológico ao Proyecto de Ecología Urbana Aplicada al Sistema Urbano Pampeano, na região de La Plata, Argentina.

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Explicitando o olhar metodológico sobre o objeto, os autores delimitam uma categorização analítica de interfaces urbanas e metropolitanas que permitem a desconstrução do objeto no sentido de apreender seus traços estruturais significativos. O método, neste sentido, evidencia as características dos elementos estruturais urbanos e permite interpretar os efeitos sócio-espaciais de sua sobreposição, seja em termos de configuração física, seja quanto ao que se refere à apropriação e fruição dos espaços coletivos da cidade. A classificação inicialmente adotada pode ser assim resumida:
INTERFACES SOCIAIS (ativas) cívicas positivas culturais ou não formais (espaços abertos) negativas produtivas (2árias ou 3árias) meios de comunicação INTERFACES FÍSICAS (passivas) naturais (produtivas ou não) positivas construídas ou jurisdicionais negativas normativas tecido com baixa consolidação de acessibilidade

classificação genérica de interfaces, extraída Fundación CEPA (1987) e PEREZ (1995)

Resumidamente, as interfaces sociais tem um papel ativo na estruturação sócioespacial da cidade, ou seja, funcionam como aglutinadoras entre indivíduos, grupos e atividades. Já as interfaces denominadas físicas funcionam como elementos de bordo, articuladores ou separadores entre zonas ativas ou entre porções indiferenciadas de tecido urbano. As interfaces assumem uma valoração positiva ou negativa, conforme o caso, na medida em que cumprem seu papel estrutural de elaborar e fazer circular informação. Contribuições conceituais e metodológicas que, em diferentes medidas, aproximamse e complementam a compreensão deste inovador enfoque, podem ser encontrados no endereçamento teórico dado por inúmeros autores. Sem a intenção de um exame mais exaustivo, a modo de um roteiro bibliográfico comentado, as páginas seguintes incluem um panorama incompleto destas distintas abordagens, na perspectiva de 13 abrir caminho para desejáveis leituras complementares . Evidentemente, as abordagens consagradas em distintos campos disciplinares, como 14 no urbanismo moderno - da Carta de Atenas à ruptura propiciada pelo Team X ; na 15 ecologia humana americana da primeira metade do século XX, com as contribuições 16 de Park, Wirth, Burgess, Hoyt e Harris e Ullman; no enfoque econômico neoclássico de Wingo e Alonso; nas diferentes abordagens - tradicionais e avançadas - sobre o 17 conceito de região, de Christaller, Lösch, Rofman, Coraggio, e Lipietz, entre outros , subjazem a qualquer construção teórica que pretenda apoiar metodologicamente o desenho urbano desde uma perspectiva integral. No entanto, a elas se fará somente esta rápida referência a modo de lembrança, uma vez que este conjunto amplo de teorias sobre o espaço urbano encontra-se, certamente, já bastante sistematizado na literatura específica.
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Abordagens consagradas da estrutura urbana no urbanismo, na sociologia e na economia

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A seqüência de autores não obedece qualquer critério cronológico, e sim um encadeamento de conceitos e pontos de vista, subjetivos na perspectiva do autor. Ver a Carta de Atenas (Le Corbusier,1989, ed. orig. 1943) e, em termos gerais, Frampton (1991) e Kopp (1990). Sobre as contribuições da sociologia urbana americana ver Park (1980), Cabral (1982), Delle Donne (1979) e Schnore (1976), entre outros. Sobre os modelos da economia urbana ver, por exemplo, Delle Donne (1979), De la Torre (1974) e Carrion (1981) Sobre o conceito de região, constitui-se em um bom roteiro para familiarizar-se ao tema, o trabalho de Breitbach (1988).

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Kevin Lynch

Os estudos levados a cabo por Kevin Lynch (destacadamente 1975, 1976, 1982, 1985) avançam significativamente na sistematização dos aportes teóricos e metodológicos aos processos ambientais, bem como das técnicas de investigação e projeto urbano. Para Lynch, “(...) as imagens do meio ambiente são o resultado de um processo bilateral entre o observador e o meio. O meio ambiente sugere distinções e relações, e o observador - com grande adaptação e à luz dos seus objetivos próprios seleciona, organiza e dota de sentido aquilo que vê.” (Lynch,1982:16) Neste sentido, uma de suas maiores contribuições concentra-se no lançamento das bases para uma leitura do ambiente baseada na percepção do usuário, definindo categorias de análise da forma visual da cidade. No clássico A Imagem da Cidade (editado originalmente em 1960, ed. bras. cit. 1982), clarifica os conceitos de imageabilidade e legibilidade da forma urbana e descreve um método de leitura ambiental - perceptiva e cognitiva - baseado em cinco categorias:

Elementos da estrutura visual

i. Os canais, elementos lineares a partir dos quais o observador se move e estabelece seu ponto de vista; ii. Os nós (ou cruzamentos), como intersecções entre canais ou pontos de convergência de fluxos ou atividades; iii. Os limites (bordos ou barreiras), definidos como elementos separadores ou articuladores entre áreas distintas; iv. Os distritos (ou bairros), como porções visualmente homogêneas do território, dotados de imagem e legibilidade particular; v. Os marcos referenciais (landmarks), elementos de pontuação e orientação urbana, excepcionais ao entorno (monumentos, por exemplo). Em termos de método, Lynch utiliza os cinco elementos descritos como categorias para estruturas a percepção visual que um determinado grupo de usuários tem do seu ambiente. Para isso, Lynch vale-se da elaboração de “mapas mentais” (mental maps), ou seja, descrições feitas pelos usuários de determinados lugares ou percursos urbanos. Estas descrições podem ser feitas preferencialmente através de desenhos simples feitos pelas pessoas entrevistadas, acompanhados de comentários e anotações por escrito. Um conjunto significativo de mapas mentais permite, pois, ao investigador esboçar um mapa estruturado do conjunto destas percepções individuais. O resultado é um mapa que destaca certos elementos da morfologia urbana como fortes indicadores da estrutura visual da cidade (ou bairro, ou percurso, etc.) que está sendo estudada.

Canais Nós Limites Distritos Marcos Referenciais Representação esquemática da estrutura visual se uma cidade, utilizando as categorias lyncheanas (baseado em Lynch, 1982)

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Categorias de rendimento da forma urbana

Em La Buena Forma de La Ciudad (1985), espécie de compêndio de teorias e modelos urbanos que abrangem um largo lapso de tempo e as mais variadas abordagens disciplinares do tema, esboça uma teoria interpretativa e preditiva sobre a forma dos assentamentos humanos, estruturada em categorias de performance, em uma perspectiva holística. Resumidamente, tais categorias podem ser descritas em termos de:

C a i. Vitalidade, ou seja, a capacidade ambiental de suporte à vida humana: C t aspectos climáticos, disponibilidade dos recursos hídricos, qualidade a e atmosférica, sustentabilidade econômica, facilidade de abastecimento, etc.; t g e ii. Acesso, tanto no sentido de acessibilidade físico-espacial (circulação, o g transportes, infra-estrutura, etc.) como sócio-cultural (acesso às facilidades da r o i vida urbana, possibilidade de escolhas, oportunidades sociais, etc.); r a iii. Sentido, em termos de orientação espacial, imagem coletiva e legibilidade i s a visual como características da forma das cidades; s iv. Controle, no sentido de regulação social - formal ou informal -, arraigamento d e territorial e legitimidade das instituições; d v. Adequação, no sentido de resposta global da urbanização às necessidades e r coletivas, de forma a garantir sua estabilidade, sustentabilidade e reprodução. e r n e d A valoração do rendimento da forma urbana avaliada a partir de tais categorias estaria nC i permeada por dois metacritérios (introduzindo assim, em sua teoria, parâmetros de da m t i julgamento): a eficácia, como parâmetro técnico-econômico de avaliação, em termos e m e custo-benefício, por exemplo; e a justiça, ou seja, o grau de homogeneidade e de n eg t ubiqüidade no acesso às facilidades e vantagens da vida urbana. no o t r d i o A importância da obra de Lynch pode ser medida pela grande influência de seu a a d trabalho na sistematização de uma nova abordagem do território urbano: o campo da as f percepção ambiental. o f d r e o No Brasil, muitos são os autores que retomam e ampliam o caminho inaugurado por m r Kevin Lynch. Entre outros, cabe ressaltar o trabalho pioneiro no âmbito da América a Grupo de mr Latina de Lineu Castello, a frente do Grupo de Pesquisa em Percepção Ambiental e Pesquisa em ae u Percepção n Desenho Urbano, vinculado a UFRGS, e na direção da Unidade de Estudos r Ambiental e d u Ambientais, que se constitui na representação brasileira do Foro Latinoamerticano de Desenho Urbano r b i Ciencias Ambientales (FLACAM). a bm n ae a n n Consonante com a abordagem teórica e metodológica sumariamente elencada acima, C t a o Grupo de Pesquisa em Percepção Ambiental e Desenho Urbano, sediado no a o Departamento de Urbanismo da UFRGS e liderado pelo professor Castello, tem se t d mantido dinâmico e atuante, desde a sua origem, em meados da década de oitenta, e a g junto ao PROPUR/UFRGS, e sendo fortemente alavancado pelos trabalhos de o f investigação aplicada desenvolvidos no âmbito do programa MAB - Man and the r o Biosphere da UNESCO. i r a m s Castello coordenou, ao longo de vários anos, o Projeto MAB-Porto Alegre (Castello et a

al,1984,1986,1989), gerando uma série de investigações fortemente ocupadas em d u entender as relações entre Porto Alegre o rio Guaíba, aperfeiçoando metodologias de e r análise urbana que utilizam-se de ferramentas da percepção ambiental. b
r a

e n É relevante citar, entre os trabalhos concluídos no marco do projeto MAB/UNESCO, a n a pesquisa intitulada Investigação de Diretrizes para um Projeto Ambiental (Castello et d al, 1986) que, objetivando articular estratégias para o re-estabelecimento de relações i entre a cidade e o Rio Guaíba, procurou investigar, através de técnicas de percepção, m e o centro de Porto Alegre, dos pontos de vista histórico, simbólico e morfológicon funcional, identificando seus limites, elementos referenciais significativos, t características do tecido urbano, além de áreas potenciais para a abordagem de o projetos urbanísticos contextualizados. d a f o r m a u r

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A pesquisa teve, ainda, uma continuidade junto a área de Navegantes (Castello et al, 1989), no sentido de validar e consolidar o quadro metodológico então em construção. Como coloca Castello, fundamentado em Cerasi (1977): A cidade (o ambiente) compreende fatos físicos (os espaços arquitetônicos, os espaços abertos, os espaços naturais modificados) e fatos comportamentais (o uso que grupos de indivíduos fazem desses espaços). Há, na cidade, um espaço topológico, ao qual se integra um espaço psicológico (…). (Castello,1986:67) Mais recentemente, o mesmo núcleo de pesquisadores, através da Unidade de Estudos Ambientais e por solicitação da EPHAC/Coordenação da Memória Cultural da Secretaria de Cultura da PMPA, retomou a questão da dimensão perceptiva na estruturação da área central da cidade, com ênfase na questão da memória cultural vis-a-vis à fruição espacial de diferentes grupos de usuários do centro de Porto Alegre (Repertório de Elementos da Área Central, Castello et al, 1995). Deve-se mencionar, também, como avanços brasileiros significativos na área da percepção, as importantes contribuições para a metodologia do desenho urbano de Vicente Del Rio (1985,1996), a continuada atividade de investigação de Maria Elaine Kohlsdorf (1982,1996), e a contribuição articulada à semiótica de Lucrécia Ferrara (1988,1993).
Aldo Rossi e a morfologia histórica

No campo da morfologia urbana, Aldo Rossi (1982), arquiteto e teórico italiano, aborda a estrutura urbana a partir de uma perspectiva fortemente apoiada na estudo histórico da configuração sócio-espacial da cidade tradicional italiana e da arquitetura resultante deste processo. Descreve, neste sentido, duas categorias elementares, caracterizando-as ao mesmo tempo em termos de oposição e complementariedade, quais sejam: i. Os elementos primários da estrutura urbana, essencialmente ligados à apropriação pública, à excepcionalidade arquitetural e urbana e à permanência, como praças, monumentos e edifícios institucionais; ii. A área de residência, caracterizada pela apropriação privada, pela habitação e funções urbanas de suporte, pela recorrência e transitoriedade, configurando o tecido urbano razoavelmente indiferenciado. A essência da abordagem de Rossi, que transfere o seu olhar teórico ao fazer 18 arquitetural como o principal nome do racionalismo italiano, trata de valorizar a dimensão cultural das formas urbanas históricas, em uma crítica aberta aos modelos preconizados pela arquitetura moderna.

Colin Rowe e a cidade collage

A posição crítica de Rossi é, em grande medida, consonante com o pensamento de Colin Rowe (secundado por Fred Koetter, 1981), no que diz respeito ao esvaziamento cultural imposto pela arquitetura moderna. Rowe, valendo-se de uma boa dose de ironia ao acionar elementos de distintas correntes de pensamento filosófico, artístico e literário (dai sua ênfase no conceito de collage) vai discutir a função simbólica da 19 cidade (ou sua perda) em termos dos teatros da memória e da profecia . Enquanto o teatro da memória vale-se de um retorno romântico ao passado e um sentimento nostálgico para com a cidade antiga (como em Sitte e Asplund, por exemplo), o teatro de profecia, de rasgos utópicos progressistas, lança os olhos sobre

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Sobre o racionalismo italiano, ou tendenza, ver, por exemplo, Framptom (1991) e Cejka (1995). Esta dualidade é marcante na construção do pensamento urbanístico moderno e está didaticamente detalhada na antologia O Urbanismo: Utopias e Realidade (Choay,1979).

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um futuro imediatamente promissor que rompe com a tradição urbana européia (e Le 20 Corbusier torna-se o personagem emblemático desta perspectiva) . Uma contribuição das mais importantes à abordagem integral do desenho urbano encontra-se, sem dúvida, na obra do arquiteto norte-americano Christopher Alexander, que caracteriza-se por romper as fronteiras disciplinares da arquitetura e do urbanismo, enfatizando o encadeamento sócio-histórico na produção e apropriação do espaço construído.
Christopher Alexander: ambiente como linguagem de padrões

Para Alexander, o espaço se explica e se constrói a partir de entidades denominadas padrões (patterns) que se consubstanciam em uma linguagem - ou modo - atemporal (Alexander,1981; Alexander et al.,1982). O encadeamento de um conjunto de padrões (dai a analogia com linguagem) define a estrutura do ambiente integral. Espaço natural e espaço antropizado estão intimamente relacionados e devem refletir-se, enquanto processo de projeto, em uma tradição, social e culturalmente, 21 conseqüente . Desde o ponto de vista do autor, as cadeias de patterns configuram estruturas ambientais que podem abranger desde a escala planetária até o detalhamento de espaços interiores, passando pelas distintas escalas de apropriação e fruição espacial, do edifício à cidade. A participação do usuário no processo de projeto (o arquiteto assumindo, portanto, o papel de mediador das aspirações individuais e coletivas do cliente/morador) é tratada com grande ênfase e exemplarmente demonstrada com a experiência concreta da ampliação do campus da Universidade do Oregon (Alexander,1978).

Árvore e semigrelha

Em um ensaio antológico muitas vezes republicado (1988), A City is Not a Tree, Alexander inscreve-se na crítica ao urbanismo moderno que concebe a estrutura da 22 cidade funcional em forma de árvore . Neste artigo, de grande repercussão nos meios acadêmicos, o autor demonstra que a cidade tradicional - atemporal em seu modelo de configuração e culturalmente contextualizada - estrutura-se através de relações sócio-espaciais bem mais complexas, à maneira de uma semi-grelha (semilatice). Esquematicamente, as diferentes relações de interação entre as distintas escalas e âmbitos sócio-espaciais, em cada modelo, podem ser verificadas na figura abaixo:

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Para elucidar as noções de memória e profecia, Rowe analisa os projetos contemporâneos da Chancelaria Real de Asplund e da cidade radiosa de Le Corbusier, ressaltando as relações de escala e composição (Rowe e Koetter,1991:) A teoria de Alexander, compilada em uma espécie de manifesto doutrinário, é exaustivamente desenvolvida em uma trilogia formada por El Modo Intemporal de Construir/A Timeless Way to Built (1981), Una Lenguage de Patrones/A Pattern Language (1982), e Urbanismo y Participación/The Oregon Experience (1978), tratando, respectivamente, da construção teórica, do método e da aplicação concreta.

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Entre os exemplos acionados está o caso de Brasília, projeto de Lúcio Costa (1956). Ver Costa (1995:283-95), que transcreve a íntegra da Memória Descritiva do Plano Piloto.

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Em um de seus ensaios mais recentes, Alexander e a equipe do Center for Enviromental Structure (Alexander, Neis, Anninou, King, 1987) voltam-se especificamente para a questão do desenho urbano, campo este entendido, no caso, como processo continuado e resultante da articulação de múltiplas ações, em diferentes escalas.
Regras para um crescimento integral

O conceito central desta “nova teoria do desenho urbano” pode ser traduzido na idéia de um processo de crescimento integral do conjunto (ou da totalidade: growing whole, no original) que, de maneira bastante coerente com seus estudos anteriores, se alicerça na aplicação mais ou menos informal de uma seqüência de sete regras para o crescimento e estruturação do espaço urbano, cada uma delas abarcando uma dimensão particular do processo: i. A regra do crescimento incremental (piecemeal growth), que denota, como condição necessária ao processo de crescimento integral, uma lógica de adição incremental de “pequenas peças” na estruturação de um conjunto coerente. Em grande medida, a operacionalização da norma baseia-se em uma prévia distribuição proporcional dos usos urbanos e a programação temporal de sua construção; ii. A regra do crescimento através de grandes intervenções ou conjuntos de pequenos projetos (growth of large wholes) resultantes de uma ação coordenada das ações projetuais individuais; iii. A regra da “visão” (vision) prévia dos efeitos de inserção dos novos incrementos através da “experimentação” do espaço antes da construção concreta, em uma espécie de prova de ensaio, através do envolvimento dos agentes afetados pelo processo e, adequando, a partir dai, formas e atividades às necessidades detectadas, de maneira a complementar e enriquecer a vida do conjunto; iv. A regra da produção de espaço urbano positivo (positive urban space), que trata especificamente das relações imediatas entre espaços públicos e privados, no sentido de que cada incremento privado que incida sobre a estrutura urbana deva gerar um novo espaço urbano correspondente que, por sua vez, articula-se à estrutura dos espaços de apropriação coletiva existentes; v. A regra da distribuição espacial em grandes edifícios (layout of large buildings), que são vistos como elementos que fazem parte do processo de geração do espaço público. Neste sentido, a regra procura garantir a coerência, a articulação e a complementariedade funcional entre os layouts interiores com os espaços exteriores da rua e do entorno; vi. A regra de regulação das construções (constructions), de forma complementar a que trata do layout das grandes edificações, que incide na regulamentação volumétrica edifício-entorno, na adequação tecnológica e na coerência na utilização dos detalhes arquitetônicos (por exemplo, relações entre cheios e vazios nas fachadas, gabaritos de alturas e alinhamentos, regramento na utilização de ornamento, etc.) em relação ao conjunto; vii. A regra de formação de centros (formation of centers) que busca garantir a diversidade funcional, sintática e geométrica aos espaços de apropriação coletiva, ao passo de uma certa hierarquia na atratividade gerada pelas múltiplas ações sobre a estrutura urbana.

O “experimento”

No sentido de demonstrar a validade de suas proposições teóricas e a capacidade de resposta do método desenvolvido, Alexander e sua equipe elaboram um intrincado experimento de simulação de um processo de crescimento urbano informado a partir dos condicionantes e da relações contidas nas regras propostas. Para promover o teste, selecionam uma área costeira de aproximadamente 75 hectares (30 acres), ao norte da Bay Bridge, em San Francisco (California) e, valendose do engajamento de um grupo de estudantes de graduação da University of California, que assumindo distintos papéis, como agentes do desenvolvimento urbano

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e comunitário, produzem um modelo tridimensional a partir de uma série de 23 pequenos, médios e grandes acréscimos seqüenciais (cerca de 90 incrementos) . Os projetos desenvolvidos pelos distintos atores variam desde pequenas intervenções, tais como o desenho de mobiliário urbano, de uma fonte ou do layout dos pavimentos de um espaço público, até edificações complexas como blocos de apartamentos e escritórios, biblioteca ou hotel, etc. O monitoramento e a aplicação normativa das regras fica a cargo de um comitê que administra a experiência, assumindo a função de “autoridade em planejamento urbano”. O resultado permite visualizar uma auspiciosa diversidade formal e funcional e a densa relação entre espaços abertos e construídos que remete, de forma inequívoca, às relações de figura-fundo representativas da cidade tradicional figurativa. Em que pese a complexidade do “jogo urbano” proposto, as dificuldades na apreensão conceitual da regras e a necessidade de “imbuir-se” do espírito das personagens/agentes, o modelo construído na forma de uma cuidadosa maquete deixa transparecer uma surpreendente unidade morfológica e a riqueza sintática do conjunto.
Maurice Cerasi

Outra contribuição imprescindível à abordagem integral que este ensaio procura construir pode ser reconhecida na interpretação esboçada por Maurice Cerasi (1977) à problemática ambiental e ao papel da arquitetura na geração do ambiente humano. A questão, segundo o autor, reside no enfoque projetual dado tradicionalmente ao problema de regulamentação do espaço físico da cidade, que no âmbito do que poder-se-ia chamar de “cidade moderna” parece desprezar a experiência da cultura popular cotidiana, preferindo apoiar-se em um esquematismo funcional que desconhece o indivíduo e o pequeno grupo, diluídos estes em uma sociedade (e em um uso social do espaço) homogênea. Como resposta, Cerasi trata pois de conferir aos fatos arquitetônicos e urbanos, um status de cultura-ambiente, indo além da discussão estilística, econômica ou tipológica que só passam a ter valor se referidas à experiência ambiental integral. Cerasi amplia a análise arquitetônica ao delinear uma metodologia de leitura comportamental do espaço, no caso, da arquitetura e da cidade, que situa a problemática ambiental em termos de interrelação entre percepção e experienciação, entre espaço topológico e espaço psicológico, entre o meio físico e os grupos sociais, o que se define em termos da construção de uma historicidade na qual o cotidiano e a memória desenham, em grande medida, as práticas sociais, na forma de um mosaico cultural, e permitem visualizar, no entrelaçamento dos espaços interrelacionados de cada grupo social, uma estrutura de atividades centrais

Michel Certeau

de

Remetendo ainda ao campo dos estudos da percepção do ambiente, o pensamento de Cerasi parece alinhado com a perspectiva desenvolvida por Michel de Certeau (1985). Trazendo importante contribuição ao campo da antropologia do espaço, este autor preocupa-se em entender os atos de prática de lugar, ou seja, os mecanismos de apropriação e percepção do espaço cotidiano, traduzíveis em valores culturalmente contextualizados. Numa recorrente analogia lingüística, compara lugar à linguagem que só passa a fazer sentido no ato de falar, no speech act do lugar. Assim como para Cerasi, só existe sentido na arquitetura (ou, mais especificamente, na arquitetura da cidade) quando esta é entendida como paisagem cultural que se reflete na apropriação individual do cotidiano e na memória coletiva dos espaços públicos e monumentos; para Certeau, a percepção do ambiente se orienta pelos mesmos mecanismos de valoração cultural: o objeto casa só se torna morada no ato

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Um exercício baseado no experimento de Alexander vêm sendo conduzido, com orientação do autor e dos professores Moema de Castro Debiagi, arquiteta, e Eber Pires Marzulo, sociólogo,, com os alunos da disciplina ARQ 02.001 - Teorias Sobre o Espaço Urbano, do Curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFRGS. Neste caso, as regras são definidas pelo coletivo dos estudantes a partir da hipótese fundacional de uma cidade imaginária. A atividade objetiva ampliar a compreensão das diferentes abordagens teóricas que fazem parte do escopo da disciplina.

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de morar, a rua só se completa como tal à medida em que as relações cotidianas preenchem de significados aquilo que, sem esta apropriação, não passaria de uma amorfa abstração funcionalista de canal circulatório. Ou, aplicando este ponto de vista aos diferentes espaços da cidade, o mercado vivifica no ato da troca; a praça e o largo, no ato do encontro; as instituições públicas, no ato cívico e na ação política. Em sua soma, o lugar deixa de ser apenas coleção de objetos arquitetônicos para se tornar cidade através do ato coletivo.
Herman Hertzberger

Abordagem que se aproxima bastante de Cerasi e Certeau, mas referida diretamente à prática da arquitetura, vem sendo postulada por Herman Hertzberger (1996). O arquiteto holandês, cuja produção profissional traz rasgos da citada corrente estruturalista e insere-se, conforme a classificação de Cejka (1995), na modernidade moderada, sustenta que é no “fazer arquitetônico”, ou seja, na ação projetual, que o arquiteto encontra elementos para uma teoria da arquitetura, da cidade e do ambiente. Longe de constituir-se em um jogo de obviedades, a construção teórica de Hertzberger concentra-se em uma lúcida abordagem das relações entre o público e o privado como instância privilegiada para apreender - e dai aprender a projetar - o espaço arquitetural/urbano.

O conceito de intervalo entre o público x privado

Público e privado, nesta perspectiva, não constituem-se em categorias em oposição, mas complementares e interdependentes, o que se compreende melhor no sentido de um gradiente de responsabilidades individuais e coletivas em relação ao espaço. Seu conceito de intervalo - o sentir-se “quase dentro ou quase fora” de um determinado ambiente - é ao mesmo tempo simples e profundamente aclarador das formas de apropriação social do espaço. Da maneira como foi formulado, intervalo corresponde à interface entre instâncias de responsabilidade: entre o público e o privado, entre o edifício e a rua, entre o território cotidiano e a cidade.

Vila do IAPI, em Porto Alegre: mapa de fundo e figura, mostrando a representação de espaços públicos (em branco) e privados (em negro).

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Comunicação e Semiótica: Eco, Canevacci, Davis, Virilio, Ferrara

As metodologias de análise do espaço arquitetural e urbano nutrem-se ainda de 24 importantes contribuições no âmbito de uma abordagem de corte semiológico . O pensamento estruturalista informa em ponderável medida os estudos de Umberto Eco (1976), no sentido das relações entre função utilitária e função comunicacional/simbólica da arquitetura. Trazendo esta perspectiva para o espaço da cidade real, o antropólogo italiano Massimo Canevacci (1993) e o double de professor de urbanismo do Southern California Institut of Architecture e motorista de caminhão Mike Davis (1993) trilham uma polêmica trajetória, trabalhando respectivamente sobre a lógica comunicacional metropolitana de São Paulo e o processo de formação, ideologia e apropriação social da região megassuburbana de Los Angeles. Levando ainda mais longe o papel da comunicação na estruturação simbólica do espaço, tem-se a perspectiva do francês Paul Virílio (1993,1996), onde a atenção recai sobre a instantaneidade da informação (traduzida em termos de velocidade) definidora de um território urbano virtualmente generalizado através das facilidades da telemática (configurando um megassuburbio sem fronteiras nacionais). A semiótica pierciana, por sua vez, comparece como arcabouço teórico-metodológico nos estudos recentes já citados de Ferrara (1988, 1993). Neste caso, a autora estabelece uma ponte entre a abordagem estruturalista e o campo da percepção ambiental, na relação observador/ambiente, roteirizando a leitura do espaço urbano público ou privado - desde as distintas formas de apropriação individual ou coletiva, e os distintos “olhares” - pontos de vista - do usuário/morador.

Robert Venturi e a crítica pós-moderna: a arquitetura do feio e do comum

No caso de Robert Venturi (1978; Venturi, Scott-Brown e Izenour, 1982), prolífico arquiteto americano considerado por muitos como principal teórico da pósmodernidade na arquitetura (Cejka,1995, por exemplo), as relações entre a forma arquitetônica, a resposta funcional e a dimensão simbólica servem de argumento para uma sólida crítica à tradição moderna na arquitetura e no urbanismo. Venturi utiliza-se de farta documentação histórica no sentido de fundamentar suas posições, ao mesmo tempo em que responde projetualmente à perspectiva crítica estabelecida por sua obra escrita. Isto resulta em uma produção arquitetônica absolutamente coerente em relação a postura teórica adotada, caracterizando-se por um resgate do imaginário popular americano que muitas vezes beira ao Kitsch. Termos como telheiro decorado (decorated shed, no original) e edifício-pato são utilizados para enfatizar a perda da dimensão simbólica da arquitetura, a partir da adoção dos postulados clássicos da arquitetura moderna, e a necessária retomada de uma arquitetura “do feio e do comum” como para resgatar o seu caráter trouvé - de duplo significado e dupla função - como é também preconizado pelo pensamento collage de Colin Rowe (Rowe e Koetter, 1981). Sem abrir mão da ironia e de uma eficiente estratégia de marketing na difusão de suas idéias, seu ensaio sobre a formação do strip de Las Vegas (e o espaço e a arquitetura dai resultantes) mostra a importância do ornamento e do pastiche histórico-popular na produção do conteúdo simbólico na arquitetura. Learning from Las Vegas/Aprendiendo de Las Vegas (Venturi, Scott-Brown e Izenour, 1982), é, e talvez ai resida sua principal contribuição, um rigoroso roteiro metodológico para uma 25 leitura ambiental urbana contextualizada e isenta de preconceitos academicistas .

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Sem querer aprofundar a polêmica há muito estabelecida sobre a adequação dos termos semiologia e semiótica, estes são empregados aqui no sentido apontado por Eco (1976:385-91), ou seja, semiologia enquanto teoria geral sobre o significado na comunicação, e semiótica como descrição de sistemas metodológicos particularizados, em especial, no caso presente, o exaustivo enfoque desenvolvido por Pierce. Venturi e Scott-Brown revistam Las Vegas, vinte e cinco anos depois do lançamento do já clássico Learning Fron Las Vegas (originalmente editado em 1972). Em Las Vegas After Its Classic Age (1996), apontam para as transformações e o desenvolvimento da cidade neste período, reconhecendo que a noção de strip abre caminho para a configuração de um boulevard; a sprawl city (ramificação urbana) torna-se densa; o simbolismo arquitetônico explicito transforma-se em cenografia.

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Rob Krier e o expressionismo historicista

Com objetivos muito próximos aos de Venturi, mas com uma argumentação francamente clássica e historicista, o alemão-luxemburguês Rob Krier (1981) procede uma sistemática catalogação tipológica da morfologia dos espaços públicos, a partir da desconstrução/transformação/combinação das categorias elementares rua e praça. Consonante com a crítica pós-moderna aos cânones funcionalistas, Krier destaca-se, enquanto teórico, na denúncia do esvaziamento simbólico do espaço urbano do século XX e, como desenhador urbano, em projetos de rasgos historicistas enriquecidos por uma postura individual que o aproxima de um expressionismo tardio (Cejka,1995:40). A questão dos significados da morfologia física da arquitetura e da cidade é, também, objeto na abordagem de Kenneth Frampton (1988), que aponta relações entre forma urbana e identidade cultural. Para denotar uma “arquitetura de resistência” em termos de coerência e significação cultural, vale-se de uma série de oposições, irreconciliáveis no seu entender, embora fugindo de uma interpretação maniqueista: i. ii. iii. iv. v. A oposição entre espaço e lugar; a oposição entre tipologia e topografia; a oposição entre espaço arquitetônico e espaço cenográfico; a oposição entre espaço artificial e espaço natural; a oposição entre espaço visual e espaço tátil.

Lugar como signo cultural: a abordagem de Kenneth Frampton

A abordagem da sintaxe espacial

Partindo de uma outra perspectiva conceitual, melhor vinculada à modelagem matemática dos sistemas urbanos, outro aporte importante à compreensão dos processos configuracionais urbanos é o da sintaxe espacial (Hillier e Hanson,1984; Holanda e Gobbi,1988, por exemplo) que avança na determinação de alguns fatores morfológicos relacionados à apropriação social do espaço. A abrangência dos estudos sintáticos situa a problemática em quatro níveis de análise: i. ii. iii. iv. A morfologia física das construções e da cidade; A categorização social do espaço; Os modos de sua apropriação; As implicações sociais referentes a indivíduos e grupos (Holanda,1988:4).

As medições proporcionadas pela aplicação do método sintático podem contribuir como elemento de um método projetual no sentido de estabelecer uma imprescindível categoria de controle, no caso, o próprio estado de configuração dos espaços urbanos que serão objeto de ensaio, em termos de atratividade, conectividade, permeabilidade, acessibilidade e integração entre os elementos de cada sistema. Também o campo da sintaxe espacial tem tido significativa acolhida entre pesquisadores brasileiros, com destaque para o trabalho de Frederico Holanda, da Universidade de Brasília, e de Benamy Turkienickz, Rômulo Krafta, Décio Rigatti e Marisa Leontina Wagner, todos vinculados a Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Sem a intenção de estender em demasiado esta resenha de aportes e autores, vale ainda assinalar algumas questões relevantes à definição de objeto e método, em uma perspectiva teórica da urbanidade, em trabalhos recentes de professores do Departamento de Urbanismo da UFRGS, onde o autor exerce sua atividade acadêmica, como, por exemplo, o depreendido do já citado trabalho de Castello (1986, 1989, 1996), onde a arquitetura do território se faz reconhecer como pauta projetual desde a interação entre percepção, fruição e apropriação, definidora de espaços potenciais de urbanidade; ou ainda no encaminhamento dado por Panizzi (1989, 1993), no que se refere a coexistência (ou sobreposição) entre as cidades legal e ilegal, na forma de um conflito ao mesmo tempo territorial e ideológico. Os diferentes pontos de vista examinados, ainda que originados em bases teóricas distintas, convergem na busca de respostas para um conjunto de questões compartilhadas.

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As relações entre ambiente e desenho da cidade; sua morfologia física e a apropriação social do espaço; a percepção do ambiente, as práticas cotidianas e a valoração cultural do espaço urbano definem esta problemática comum. E a noção de cidade como sistema de interfaces, que serve de eixo condutor para este esboço teórico, ao menos a priori parece capaz de desenhar a articulação das variadas abordagens. Por isso mesmo, é o ponto de partida à sistematização que este ensaio se impõe. O quadro da página seguinte procura roteirizar, a modo de síntese, * os principais conceitos trabalhados pelos principais autores citados .

Na abordagem de: Fundación CEPA

A problemática cidade e ambiente está referida quanto a(ao): • • • • • • • • • O conceito de interface, que se define por: máxima centralidade social; máxima interação entre grupos e atividades; conflitualidade entre centro e periferia; contradição entre campo e cidade. O conceito de interface se traduz em: Leonia, através de fluxos entrópicos de matéria, energia e informação; Zora, através da ruptura entre o tradicional e o moderno e o engessamento normativo do planejamento urbano; Pentesilea, através da baixa qualidade do meio construído, da falta de arraigamento e da ausênciai de imagem coletiva na periferia. Categorias da estrutura visual do espaço urbano: canais, nós, barreiras, distritos e marcos referenciais; performance da forma urbana, especialmente em termos de acesso, sentido e controle. elementos primários, em contraponto ao tecido residencial homogêneo. “collage” e colisão. encadeamento de padrões como estrutura ambiental; espaço urbano positivo e formação de centros. espaço “interrelacionado” entre grupos sociais; estrutura de atividades centrais; cidade-território e cultura-ambiente. Cotidiano e práticas de lugar. Gradiente de responsabilidades sobre o público e o privado; “intervalo”. Comunicação; estrutura. Arquitetura como símbolo: o “telheiro decorado” e o “edifíciopato”; valor comercial do espaço; o “strip”: colagem de formas historicamente reconhecíveis; ramificação urbana versus megaestrutura arquitetônica.

Pesci

Lynch

• • • • • • • • • • • • • • • • • • •

Rossi Rowe e Koetter Alexander Cerasi Certeau Hertzberger Eco Venturi

*

Em um amistoso contato via fax, datado de 20 de janeiro de 1997, já citado na apresentação deste livro, Rubén Pesci, ao comentar a versão preliminar de alguns dos capítulos, critica a eventual correspondência entre a noção de interface e os autores citados, considerando-a forçada e fazendo notar que “muitas semelhanças são somente isso (semelhanças)”. Devo concordar com alguma ressalva. É certo que as articulações entre o conceito de interface e as variadas noções referidas aos distintos autores não esgotam o tema e são apenas um artifício intelectual - totalmente subjetivo, no caso presente - na construção da abordagem. Reconheço, obviamente, que os endereços teóricos (e mesmo ideológicos) acionados são muitas vezes divergentes. Ainda assim, o vis-à-vis entre os vários enfoques, tendo como eixo de discussão a cidade como sistema de interfaces, tem se mostrado um interessante momento didático, tanto que novos autores e outras abordagens vem se somando à reflexão de ateliê, trazidos pelos estudantes, seja em função de investigação própria, seja por simples preferência pessoal em relação ao trabalho de arquitetos modernos e contemporâneos (nota do autor).

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Krier Frampton Hillier e Hanson Virilio Castello Panizzi

• • • • • • • • • • •

Praça; rua; combinações entre praças e/ou ruas. Oposição entre “espaço” e “lugar”. Categorização social do espaço; modos de apropriação do espaço. velocidade; instantaneidade. percepção, fruição e apropriação; arquitetura do território. tensão entre cidade “legal” versus cidade “ilegal”.
Aurores citados: principais conceitos e categorias

PONTOS INCONCLUSOS

3

“A

arquitetura funciona porque comunica” ensina Umberto Eco (1976). Talvez se pudesse precisar que a arquitetura se completa quando comunica, isto é, quando realiza sua função simbólica, dotando os espaços da cidade de significados particulares, tal qual as marcas de um roteiro às práticas sociais cotidianas. Afirma Stephen Carr (1978) que a construção de significados é resultado da experiência. No que tange aos espaços urbanos que, em seu conjunto ajudam a configurar a cidade como sistema de interfaces, isso pode ser estendido no sentido de “experiência popular do cotidiano da cidade” (Castello,1986:67): um espaço no qual se somam as experiências individuais de milhares de pessoas, um espaço que se vai “escrevendo” de forma polifônica, “como em um coro que canta com uma multiplicidade de vozes que se cruzam”, na perspectiva de Massimo Canevacci (1993:17). Como foi enfatizado, compreender este processo, que articula memória, percepção, fruição e uso do espaço, sugere a necessidade de uma estrutura de linguagem, passível, neste sentido, de uma leitura ambiental contextualizada. Poder-se-ia seguir adiante, agregando novos autores e pontos de vista, ou aprofundando o olhar sobre os enfoques já listados. Esta é uma tarefa exaustiva, mas que se impõe ao investigador iniciante frente à temática da arquitetura-ambiente. É o primeiro passo, necessário e intransferível, aos arquitetos preocupados com a construção de um método de investigaçãoação transdisciplinar. Quando se acredita que o caminho é projetual (isto é, utilizando-se do projeto como ferramenta para a superação de conflitos), às destrezas arquitetônicas devem somar-se outros saberes, no sentido do rompimento das fronteiras disciplinares. Em outras palavras, a busca é a da construção de uma nova interface epistemológica, um novo rol humanístico para a ação do arquiteto urbanista.

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Aos que se formaram dentro de um paradigma de crises verdadeiras e outras nem tanto - a crise do planejamento urbano e a falência da arquitetura moderna são exemplares na questão -, os caminhos postulados em um receituário de panacéias à granel soam ingenuamente anacrônicas. A onda pós-moderna, com sua pitoresca retomada de estilos, mostrou o quanto a instantaneidade da informação (particularmente para os desinformados) pode representar uma grosseira distorção ao se tentar buscar respostas para um urbanismo à brasileira, se, enquanto discute-se o pós, as condições de vida de uma parcela gigantesca da população - urbana, rural e periurbana - não alcançam parâmetros mínimos de uma proto-modernidade ainda que no atendimento das necessidades mais básicas. Este ensaio foi elaborado como um roteiro, propondo-se colecionar olhares sobre a cidade, maneiras de pensar este urbanismo. Assim, pode-se tomar cada uma das pequenas resenhas como chave para começar a conhecer o pensamento dos distintos autores listados. Neste sentido, vale reforçar a advertência de que não houve preocupação em construir uma seqüência cronológica de autores e obras, mas sim, a listagem obedece a uma ordem (que é, obviamente, subjetiva) de encadeamento de conceitos e pontos de vista. E, como advertência final, importa dizer que esta coleção de obras e autores foi acontecendo, ao longo do tempo, em função das demandas de ateliê e dos trabalhos de investigação desenvolvidos em um intervalo de, pelo menos, dez anos passados. E isso reflete muito claramente as preocupações acadêmicas, as opções teóricas e a não-neutralidade do seu autor frente a temática examinada. Pois, como sabiamente ensina Raymond Aron, “... nossa consciência política é e não pode deixar de ser consciência histórica”.