MÉTODO (AUTO) BIOGRÁFICO: UMA ABORDAGEM HUMANA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS Waldeci Q.

Moraes-FAED/ICED/UFPA¹

Resumo
Este artigo apresenta uma breve revisão da literatura sobre o método (auto) biográfico e/ou as histórias de vida na pesquisa educacional, opção que se justifica, sobretudo, pela evidencia do grande emprego e acedência desse ponto de vista teórico-metodológico em análises relativas à formação docente. Este é um método que tem como base padrões de pesquisa qualitativa, baseado nos relatos orais, biografias e autobiografias de cunho pessoal ou coletivo. Para tanto procuramos definir as principais pesquisas, artigos e, sobretudo, abordagens sobre o tema, onde procuramos manter uma atualização do que se produziu e o que se consolidou sobre a temática na atualidade. Dessa forma, introduzimos interpretações de alguns conceituados estudiosos e experts no assunto como por exemplos, Bueno (2006), Bragança (2011), Sousa (2008) dentre outros que serão devidamente mencionados no decorrer desta pesquisa. Também procuramos evidenciar algumas importantes produções de cunho academicistas na área. Sendo este trabalho algo em torno de um levantamento baseado na produção dos últimos oito anos, não pretendemos esgotar o assunto em definitivo, mas evidenciar sua tendência e inovação na produção de alguns trabalhos acadêmicos na atualidade como algo inovador e de extrema utilidade nas ciências sociais.

Palavras-chave: Biografia. Memória Autobiográfica. História de Vida. Relatos Orais.

Introdução
A conceituação de um método que abordasse a elaboração de pesquisa que atendesse a autobiografia, biografia, histórico de vida no processo de produção de trabalhos científicos em um nível primário dentro da área educacional, constituiu uma oportunidade privilegiada para a discussão, a reflexão e para a troca e partilha das experiências sobre um tema que tem vindo a despertar ansiedade e interesse crescentes: as narrativas orais como um fator de
¹ Aluno do 7º bloco do Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia da ¹ Aluno do 7º bloco do Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia – FAED/ICED/UFPA. 2013. moraeswq@yahoo.com.br FAED/ICED/UFPA.moraeswq@yahoo.com.br

socialmente construída por seres humanos que vivenciam a experiência de modo holístico e integrado. Nesta tradição de pesquisa. suas perspectivas teóricas. reconhece-se tais fatores como dependente da memória. trabalhando antes com emoções e intuições do que com dados exatos e acabados. antes do que com o objetivo. onde se faz os seguintes questionamentos em torno dessa nova abordagem de pesquisa: Qual é de fato a contribuição real das narrativas orais dentro de uma visão puramente científica? De que forma essas narrativas devem ser abordadas e interpretadas dentro das pesquisas quantitativas? Qual sua credibilidade? Como o leitor pode perceber existem inúmeros fatores de suma importância a se discutir e a analisar sobre o tema em questão. as principais teses. em que as pessoas estão em constante processo de autoconhecimento.2 contribuição empírico. o que lhe pode até permitir uma generalização analítica. Por esta razão. tipos.Histórias de Vida. o que foi produzido. vídeos. onde procuraremos apresentar no decurso da nossa obra. fotos. assim como sua contribuição e os fatores que fazem das narrativas orais um aporte de credibilidade nas ciências sociais. com subjetividades. dissertações e artigos em torno do tema. sabe-se. Ao trabalhar com metodologia e fontes dessa natureza o pesquisador conscientemente adota uma tradição em pesquisa que reconhece ser a realidade social multifacetária. filmes. onde procuraremos abordar seus aspectos emergentes. Aspectos metodológicos envolventes no método biográfico A pesquisa autobiográfica . documentos em geral. portanto. história oral. Sendo que esta é o componente essencial na característica do narrador com que o pesquisador trabalha para poder (re)construir elementos de análise que possam auxiliá-lo na compreensão de determinado objeto de estudo.não obstante se utilize de diversas fontes. sim. qualitativo dentro de uma ótica e conceituação de novos paradigmas. o pesquisador não pretende estabelecer generalizações estatísticas. o que se sabe a respeito do assunto? Quais as propostas e conceitos abordados sobre a temática? Quais são suas produções mais recentes? Quem defende tal proposta? Para responder essas e outras questões é que fizemos esta pesquisa onde na qual faremos alguns levantamentos e análises em torno do assunto. diários. tais como narrativas. Mas. . Memoriais . desde o início. compreender o fenômeno em estudo. mas. Autobiografias. Biografias.

autobiografia. que não sua própria história. não é possível realizar um estudo sobre narrativas orais (biografia.27) que conceitua. interpretados e diagnosticados. “Mas é. Mas onde encontrar subsídios que dessem uma melhor compreensão do ser humano. situações e acontecimentos de uma determinada época. que é completado por Chartier (1988. Conforme Pesavento (2005. A História passou por um processo de mudanças. e dos grandes eventos para a vida cotidiana”. As mudanças epistemológicas que ocorreram com este novo olhar para a história. em particular pelas questões epistemológicas que encerravam”. Esse novo método se fundamenta na interpretação dos fatos e acontecimento advindo das memórias de alguém que conviveu. um novo paradigma surgiu no âmbito das pesquisas de cunho sociais.32) “foi. dos “grandes homens” para os atores anônimos. mas para tanto faltava compreender seu principal indutor e beneficiário.81) nos responde sucintamente quando diz: . ou vice-versa. a história cultural. dentro de uma subjetividade que nem um outro estudo o conseguiria.3 Contudo. vivenciou e testemunhou fatos. do micro ao macro. “é o estudo dos processos com os quais se constrói um sentido”. senão na vida corriqueira do próprio individuo. a meu ver. podem ser de grande valia para que se possa de certa forma compreender a ideologia do progresso sociológico.154): direciona a postura do historiador é o conceito de reprodução da socialização como uma rede interativa. reorientaram algumas posturas dos historiadores com relação a alguns conceitos. sendo que esta ideia está intimamente relacionada a uma nova forma de perceber e conceber a ciência e a natureza sociológica do ser humano. histórias de vida) sem de antemão falar sobre História. que assistimos a um deslocamento radical do campo da curiosidade. Esses fatos e acontecimentos quando analisados. do Estado para o parentesco. Trata-se de ir ao público para o privado. p. de discussão de paradigmas e pressupostos teóricos para interrogar o mundo. o ser humano. tecnológicas e naturais. p. na década de 1970 que algumas ideias revolucionaram o campo da história. efetivamente. Na contemporaneidade. a análise do histórico cultural do indivíduo. devido ao rápido avanço das ciências sociais. que podia ser compreendida de forma crescente. senão na análise das suas próprias ideias e atitudes? E onde obter uma visão em que tivéssemos expostos tais fatores. Deste período de questionamentos e debates entra em cena a História Cultural. mas como acessar tal conhecimento? A resposta para tal questão Abraão (2003. p. Nessa última década. p. sobretudo na história. Um destes conceitos que para Laplatine (1988. a natureza começou a ser entendida como uma somatória de partes.

na pesquisa retromencionada. estabelecer parâmetros em todos os níveis sejam no aspecto cultural. deixando de se tematizar o momento presente da enunciação. Bueno (2002) realça que o método caiu em desuso por conta da influencia das pesquisas empíricas entre os sociólogos americanos. portanto. as suas energias. afirmam que o método tem sim sua credibilidade. pois "põe em evidência o modo como cada pessoa mobiliza seus conhecimentos. são constantes os trabalhos envolvendo pesquisas autobiográficas. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto”. nesse sentido para SILVA (2009) há um grande interesse que antecede as abordagens de caráter científico originado no jornalismo e no interesse da vida de celebridades. desde que as Histórias de Vida são vistas como indício de um dado momento no tempo passado. o que obviamente ajudou a difundir o método em si. Mas. razão pela qual os estudos autobiográficos podem ser entendidos como referentes a vidas inseridas em um sistema em que a plural idade de expectativas e de memórias é o corolário da existência de uma pluralidade de mundos e de uma pluralidade de tempos sociais (Bourdieu. pelo fato de que o seu embasamento está justamente centralizado na memória. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. se necessita somente de sua objetividade e de sua precisão histórico e sociocultural dentro de . social e até no científico. não condizente com a natureza das tradicionais pesquisas científicas. outros estudiosos da questão. o que se questiona dentro de sua utilização como um método cientifico confiável é o fato de que suas bases são extensivas a memória humana. daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. que segundo alguns pesquisadores e algo impossível de comprovar. em que as Histórias de Vida são entendidas como um documento positivo em detrimento da reconstrução do processo de produção desse documento. Com base nesse entendimento.4 Comungamos com Moita (1995) que considera a pesquisa autobiográfica a metodologia com potencialidades de diálogo entre o individual e o sociocultural. para ir dando forma à sua identidade. num diálogo com os seus contextos". ressuscitando somente no começo da década de 80. algo que capacita o ser humano a instituir. conforme Tinoco (2002) e Bueno (2002) fora somente entre os anos de 1920 e 1930 que o procedimento autobiográfico teve sua evidencia na escola de Chicago. quando da sua utilização em estudos e análises de caracteres antropológicos. Na atualidade o método biográfico está tornando-se um fator constante nas pesquisas de cunho investigativo no referencial nos processos formativos e das práticas docentes. para tanto. deu suporte à produção de informações a corrente que ultrapassa a visão positivista. Por outro lado. propagando-se principalmente nas áreas da psicologia e da educação. 1987). Para tanto. Como que para autentica essa opinião Freire (1986. os seus valores.25) já há algum tempo atrás estabelecia: “A leitura do mundo precede a leitura da palavra. p.

passaram então. Cabe ressaltar que. dando-lhes novo significado. Para Sousa . em diferentes contextos e situações.. que busca significados nas teias das relações sociais. sobretudo. a cultura seria essa teia e sua análise. o quanto esta ideia influenciou o pensamento de alguns autores emblemáticos. Nessa linha de pensamento. como um instrumento de formação” . a (auto)biografia é uma abordagem que possibilita aprofundar a compreensão dos processos de formação. Este pesquisador elaborou as etapas da história pela qual o método autobiográfico passou. por exemplo. quer refletindo sobre seu processo de autoformação. ao fazê-lo. a ver que a simples vida cotidiana. relacionou em sua obra uma ordem histórica social do uso do método biográfico como metodologia de pesquisa. sua compreensão não poderia ser apoiada em regras. Deste modo. optamos por mostrar. A pessoa. aprendizagens. como em uma ciência experimental.. ressignifica experiências.. Destes autores influenciados por esta ideologia. embora de forma sucinta. narra-se e. Estumano (2004) nós expressa que “[. juntamente com as práxis humanas. começaram a partilhar desta ideia. vivências. Desde seu surgimento como um fenômeno do pós-guerra aos dias atuais. continham em suas infinitas singularidades. Declarando que neste sentido. O método biográfico como recurso de técnica de pesquisa confiável A fim de ilustrar o quão importante à ideologia do método autobiógrafo tornou-se para a formação da tradição do pensamento das ciências sociais. consequentemente. Do seu rápido apogeu (dos agitados anos 60) e queda. autobiografa-se. a sua revitalização (anos 80) como um corpo e expressão no estudo da formação de professores na atualidade. Sousa (2006).]”. para uma melhor compreensão e análise da questão. mas em uma ciência interpretativa. os teóricos sociais a partir do meado dos anos 80. algo de sumo importância dentro do contexto geral de civilidade.] a vida doméstica e a vida profissional são dimensões da vida cotidiana que agem e reagem a influencia de varias ordens [.198. quer narrando fatos de sua vida. mas também e. revelando-se como um “instrumento de investigação. antropológico. em sua grande parte. dando entendimento a essa ideia vertente Frison (2010) e Simão (2010) p.5 uma metodologia que forneça elementos subjetivos e que estabelece novos parâmetros de entendimento do cotidiano como um todo. ao narrar. por meio de um olhar interno.. afirmam com convicção plena de que: O centro da pesquisa autobiográfica encontra-se no ser humano que.

deveria ser bem-aceito pela razão científica. corresponde a uma dupla exigência. Bueno (2002) demonstra que o método autobiográfico pode e deve ser entendido como um avanço de ordem evolutivo no âmbito da forma de se fazer pesquisa científica. onde o sujeito do estudo também é o próprio sujeito declarante. os papéis de ator e investigador da sua própria história.6 (2006. A reflexão sobre a origem da história de vida enquanto método e técnica de pesquisa. A História Oral e seu imbricamento com a dinâmica da Escola dos Annales toma as fontes orais e a pesquisa com os excluídos da história como potencializadores de uma nova forma de compreender o cotidiano e as vozes dos atores negada por uma perspectiva histórica factual e centrada nos valores dos vencedores. numa perspectiva sociológica. simultaneamente.32). [. Para tanto. Ferrarotti (1988) instala um debate sobre a autonomia e consolidação da biografia como método autônomo de pesquisa no campo das Ciências Sociais. caracterizando-se inicialmente como uma “necessidade de renovação metodológica” como forma de rompimento com a metodologia clássica das Ciências Sociais centradas na objetividade e na intencionalidade nomotécnica (SOUZA. visto que permite reafirmar o sentido da história de vida como método e técnica de pesquisa.27).. p. por evidenciar-se como eixo aglutinador das argumentações e estar presente na base de todas as propostas. evoca a opinião de outro pesquisador no assunto. p. é formação porque parte do princípio de que o sujeito toma consciência de si e de suas aprendizagens experienciais quando vive. dessa forma onde antes havia lacunas. Para o referido autor. é a . me faz aproximar aspectos concernentes à Escola de Chicago e às influências gestadas no movimento de ruptura e reformulação de diferentes campos do conhecimento.. portanto. rompendo com os tradicionais e em muito dogmatizados métodos clássicos. que o torna único e confiável. que possibilita um novo olhar sobre os sujeitos em formação. centrada na abordagem biográfica. Essa perspectiva de trabalho. Por outro lado. quando se debruça por sobre os pormenores e detalhes que antes não tinham a menor importância. p.26). E que. (SOUSA. o método autobiográfico e apontado claramente como um método de investigação. Além de que este autor dá ao método biográfico um ar de jovialidade na maneira se fazer pesquisa científica. graças à subjetividade que o pesquisador obtém.] mas um ponto que deve ser ressaltado desde já. agora são preenchidas dentro de uma objetividade evidente. configura-se como investigação porque se vincula à produção de conhecimentos experienciais dos sujeitos adultos em formação. a utilização do método biográfico.

Não se trata aqui de reconstituir essa história. que traduziam a ambição de se constituir em cada campo uma ciência racional e objetiva. enfim. portanto. estava-se na verdade abdicando de um conceito de ciência em favor de outro. (grifo do autor) “a ciência faz parte do complexo de cultura a partir do qual. É fato notório na história das ciências humanas a influência exercida pelos métodos experimentais desenvolvidos no âmbito das ciências físicas e biológicas.13). na ideia nuclear. Em Ferrarotti (1988). (BUENO. ao abrir mão dos métodos experimentais e seus correlatos. capaz de dar conta da tarefa de descobrir as regularidades que ocorrem na natureza e as leis que regem tais fenômenos. pode constituir-se em um caminho inovador. os homens tentam encontrar uma forma de coerência intelectual”. mas simplesmente como uma nova forma de ver a pesquisa em suas diminutas e imperceptíveis particularidades. em cada geração. sobre as formas com que cada uma se conduziu para investigar os fenômenos sociais que lhes dizem respeito. saberes. Com isto. faltas. no próprio conceito articulador das novas formulações teóricas e das propostas que realimentam a área a partir dessa viragem (BUENO. sobretudo. Daí que para esse pesquisador. mas para somar ao todo. 2002. Entretanto. considerado um autor de grande importância nas ciências sociais e na sociologia em especial. assim. o método autobiográfico não veio para dividir águas. mas. e que por isso passou a se mostrar promissor para realimentar novos desenvolvimentos teóricos nessa área. Este é o aspecto que aos olhos dos pesquisadores se mostrou esquecido ou mesmo relegado nos tratamentos anteriores. 2002. Um embate entre o passado e futuro para questionar o presente. a um modo novo de conceber a própria ciência. pensar sobre a sua própria existencialidade. é possível ao próprio sujeito se questionar acerca de suas escolhas. mas de lembrar que este é um dos principais pontos que dão origem às insatisfações que vão surgindo no interior de cada uma dessas disciplinas e ensejam um movimento de rupturas e mudanças que se iniciou nas primeiras décadas do século passado e não cessou de se desenvolver até os dias de hoje. Ou seja.7 questão da subjetividade. já se fazia urgente romper com os padrões estabelecidos. pois para tanto Bueno (2002). p. p.13). dinâmicas. Além é claro que para Bueno (2002). Uma vez que descreve os processos que afetam nossa identidade e nossa subjetividade. vale dizer. um suporte para possíveis transformações.14. o que foi a princípio um verdadeiro fascínio – pois servir-se de tais métodos era a condição para se ter o reconhecimento como disciplina científica – veio a se tornar com o tempo uma verdadeira tirania. não como um modismo em voga. na forma (até tirânica) na maneira como se produzia ciência. Tais mudanças dizem respeito não somente à busca de novos métodos de investigação. É um aprender com a própria experiência. a ideologia do método biográfico pode ser vislumbrado . A subjetividade passa a se constituir. que se encontrava quase paralisados diante do acúmulo de problemas e do desgaste causado pela ineficácia dos instrumentos de que dispunha até então. p. tal como foi observado por Hayeck (1953) há bastante tempo.

Na primeira área o objeto sociológico em sua generalidade é a casta. para evidenciar sua singularidade. Nesse aspecto o autor define que nesse contexto o método biográfico se apresenta como o instrumento ideal para se fazer essa ação. as aprendizagens experienciais situam-se na particularidade dessas dimensões. Não é só a riqueza objetiva do material primário que nos interessa. trabalhar com esta metodologia de histórias de vida requer de cada um o aprendizado de desaprender (deixar de lado o convencional) e ao mesmo tempo reaprender algo novo (o método autobiográfico). A segunda área. a dinâmica. que evidentemente necessita de espaço de liberdade para se expressar. o equilíbrio e o progresso social. uma vez que. 25) Para este. Pois segundo o mesmo: Devemos voltar a trazer para o coração do método biográfico os materiais primários e a sua subjetividade explosiva. Enquanto a formação coloca-se como um processo global. causas e revelações. dentro do que se sabia ontem. as transformações que dão capilaridade à vida e que.8 quando este divide a ciência sociológica em duas amplas áreas de informação: ao nível macro e a subjetividade. principalmente através da leitura de algumas obras fundamentais.] . a própria narrativa coloca-se como outro desafio... seus princípios. como as destinadas ao estudo da formação docente ou nas perspectivas da psicologia. pois. 1988. o autor realça que antes de tudo. criando desta forma. Assim. envolvendo uma complexidade de dimensões. estágios. a concepção de avanço do método como lei científica depende somente de esclarecimentos a comunidade científica. em relação a uma crise generalizada dos instrumentos heurísticos da sociologia em si. articuladas. Além disso. ainda se precisa reconhecer a necessidade de renovação metodológica. são. Outro desafio no trabalho com esta abordagem é o de socializar aspectos de nossa vida interior. sobretudo a sua pregnância subjetiva no quadro de uma comunicação interpessoal complexa e recíproca entre o narrador e o observador. p. constituído ao longo da trajetória de vida. Mas. quando do entendimento da formação humana nas suas mais variadas performances. Para Bragança (2011) pode-se perceber a presença desta vertente metodológica quando atenta-se ao entendimento que se possui da história de vida de professores. uma nova antropologia. produzem formação. mas também e. [. seu autor precisa romper com as formas padronizadas de pensar e escrever. consiste no estudo dos pormenores propriamente dito. (FERRAROTTI. e o que se conhece na atualidade.

Uma das contribuições da abordagem (auto) biográfica.] Guardar é diferente de esconder. “[. destruído. Tanto os intelectuais da educação como os/as professores/as que atuam anonimamente na sala de aula reúnem documentos ao longo da vida. materializados nas narrativas e escritas autobiográficas. ou seja. pela passagem do tempo. Papéis escritos tidos como “ordinários”1 tais como cartas. onde suas narrativas tonam-se documentos vivos. CUNHA. entendidos como uma certa forma de escrita de si. deveria ser consumido. Esses papéis guardam histórias individuais e familiares.162). inventam a escola e a sala de aula.. 2006. é preservar e tornar vivo o que. virado lixo. p.” (FELGUEIRAS.. 2011.] tornam-se presentes como uma voz que nos interpela. narração e reconstrução identitária (BRAGANÇA. 41). 2004. ainda.. [. em contexto de formação de professores/as.9 O olhar para o passado e.. 40. Os seus arquivos pessoais. 110). pelo fato de que situa o objeto de estudo em seu contexto de tempo e lugar. a importância desses depoimentos. permitem pensar na importância de uma “memória de papel” para o reconhecimento de diferentes propostas e práticas que. vai muito além do uso ou não do método. Para Mignot (2006) e Cunha (2006). afirma os indivíduos como atores . com o objetivo de discutir a importância de preservação e análise destes documentos para a pesquisa em História da Educação. que se constrói a partir de imagens do passado e dos projetos de futuro que se abrem. a narrativa desse passado favorece a busca de coerência. envolve um legado histórico de valor inestimável. A identidade consiste também em uma narrativa de si. esquecido. cadernos de receitas. trazem marcas da escolarização e permitem pensar distintas interpretações da escola e da educação. em um movimento de formação que articula memória. p. cartões de felicitações e cartões-postais. diários. dedicatórias. até então escondidos dentro de gavetas. autobiografias. histórica e cotidianamente. Neste texto procurou-se inventariar as escritas ordinárias encontradas nestes arquivos. (MIGNOT. fortalecendo o sentimento de continuidade e de unidade. entre “identidade herdada” e “identidade visada”. armários e caixinhas. testemunhas oculares de fatos e momentos muito importantes para que sejam desprezados ou esquecidos. P. Guardar consiste em proteger um bem da corrosão temporal para melhor partilhar. Considerações finais Apesar de que o método biográfico em sua vertente ainda seja algo novo nas pesquisas educacionais tem na apropriação da própria história de vida e de seu poder de formação. SOARES. põe o próprio ser humano em contato com sua própria história. coloca-se justamente no sentido ontológico de construção de si.

BRAGANÇA. In: NÓVOA. analisaram e conceituaram através de uma visão objetiva todas as perspectivas do método biográfico aqui exposto. Nesse sentido. BUENO. sem precedentes. mas. p.1. Consideramos que o projeto existencial é constituído de pequenos e grandes projetos de vida (planos) e de trabalhos. histórico de vida. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. biografia e escrita autobiográfica materializadas em textos que trazem em si um caráter formador e relacional.).28. Porto Alegre. 1990. 2003. 1130. O método (auto)biográfico e a formação. Educação e Pesquisa. Sobre o conceito de formação na abordagem (auto)biográfica. Dissertação. são projetos em processo com um significado e sentido mais amplo. Evanildo Moraes. Lisboa: Ministério . Referências ABRAÃO. e seu poder agir sobre os projetos de descoberta e reinvenção de si e. evocamos pesquisadores que dentro de suas visões de homens e mulheres catalisadores e produtores de conhecimentos. n. da sua utilização e até mesmo do seu reconhecimento.10 responsáveis por sua formação. UFPA – Belém. duas vidas. Franco. FINGER. Na perspectiva metodológica que aqui abordamos. Uma vida. porque estabelecem as interligações e relações eu – outro de uma forma geral. 2004. jan. 2. Matthias (Orgs. 157-164. CHARTIER. p. A aventura autobiográfica: teoria e prática. n. Roger. v. mas dentro de um contexto de singularidade. encontrar o sentido e o significado dos projetos passados e futuros. Educação. António. Sobre a autonomia do método biográfico. São Paulo. a construção de todo o seu percurso. v. ao contrário dos últimos. PUCRS. maio/ago. reescrevendo sua história. Tradução Maria Manuela Galhardo. Maria Helena Menna Barreto./jun. 2011. ESTUMANO. Inês Ferreira de Souza. Curitiba – RS. não tem um fim e nem um tempo determinado. por meio da narrativa. procuramos e buscamos analisar. 34. A História Cultural: entre práticas e representações. FERRAROTTI. em uma perspectiva existencial. desde o início de sua história. 2002. muitas vidas: diferenciações de gênero no cotidiano familiar e profissional de camadas medias urbanas. Belmira Oliveira. PA. e não necessariamente instrumental. O método autobiográfico e os estudos com histórias de vida de professores: a questão da subjetividade.

Tradução: Lílian do Valle. v. 11. Abordagem (auto)biográfica – narrativas de formação e de autorregulação da aprendizagem reveladas em portfólios reflexivosEducação. Maria Teresa Santos. SIMÃO. História & história cultural. jan. 40-61. – 1º reimp. 198-206. 22-39. FREIRE. n. 2007. LIMA. Lourival da Silva. LOPES. B. 2ª Ed. maio/ago. MIGNOT. Revista Educação em Questão. Porto Alegre. 2006 PESAVENTO. 1988. Bárbara Maria M. Natal. Aprender antropologia./abr. 2. Paulo. François. Terezina – PI. 33º Ed. Revista Educação em Questão. n. 2005. jan.. p. 2010. Lourdes Maria Bragagnolo. São Paulo: Loyola. Ana Margarida da Veiga. 25. PUC – Rio. Maria da Glória S. v. – Belo Horizonte: Autêntica. Sandra Jatahy. 25. 34. 132p SILVA. O mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual. Ana Cristina Venâncio. Depart. v. MENDES. Marie-Agnès Chauvel. 2009. UFPI. 2006 Artigos . n./abr. da.Ed. Francisco das Chagas R. FRISON. Belo Horizonte: Autêntica. p.11 da Saúde. prefácio Maria Isaura P Queirós – São Paulo: Brasiliense. Natal. histórias de vida e reflexidade na formação de professores: narrativas de professores aposentados. de Recursos Humanos da Saúde/Centro de Formação e Aperfeiçoamento Profissional. 2011 RANCIÈRE. A importância do ato de ler. CUNHA. pesquisa e formação: aproximações epistemológicas. A arte de contar e trocar experiências: reflexões teóricometodológicas sobre história de vida em formação. 17-34. 2ª Edição. LAPLATINE. Eliseu Clentino de. 11. UFPI. p. Terezina – PI. Método autobiográfico. Razões para guardar: a escrita ordinária em arquivos de professores/as. trad. Jacques. SOUSA. p. 2007. 2002. (Auto) bibliografia.