A 1a Conferência dos Partidos Comunistas da América Latina e o problema das raças1

Fábio da Silva Sousa Doutorando em História e Sociedade Faculdade de Ciências e Letras, UNESP - Univ. Estadual Paulista

Resumo: Em junho de 1929, ocorreu na Argentina, a Primeira Conferência dos Partidos Comunistas da América Latina. Com representantes de diversos países latinoamericanos, esse congresso aconteceu com o objetivo de sintonizar as estratégias políticas dos comunistas do continente com as diretrizes da Internacional Comunista, IC, de Moscou. Foram discutidos oito pontos nesse congresso, e a presente comunicação objetiva discorrer sobre um deles: “El problema de Las Razas en América Latina”. As discussões em torno dessa temática foram polêmicas e ao trazer para a luz tais divergências, pretende-se discutir nesse texto alguns pontos da construção do Comunismo na América Latina e do esforço dos militantes desses Partidos, em trilhar o mesmo caminho do Comunismo soviético e da Revolução Mundial.

Na primeira quinzena de junho de 1929, foi realizada em Buenos Aires, a Primeira (e única) Conferência dos Partidos Comunistas da América Latina. Esse congresso contou com representantes do movimento comunista da Argentina, Cuba, Uruguai, Bolívia, Guatemala, Peru, Colômbia, Equador, México, Brasil, etc. O primeiro ponto de destaque desse evento foi à inclusão do Brasil no conceito de América Latina, que, do Séc. XIX até os dias atuais, ainda suscita calorosas discussões entre os círculos intelectuais que se debruçam sobre o tema. No entendimento dos comunistas, a colonização ibérica criou uma identidade em comum para todos os países do continente latino-americano. Essa conferência também foi resultado da atenção que a América Latina passou a exercer sobre a Internacional Comunista, IC, quando, um ano antes, em 1928, foi realizado o seu IV Congresso, no

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Esse texto é parte da pesquisa de doutorado em andamento “Cultura Comunista, Revoluções e América Latina nas páginas de El Machete e A Classe Operária: O PCM e o PCB nas décadas de 1920 e 1930 (México e Brasil)”, orientada pelo Prof. Dr. Carlos Alberto Sampaio Barbosa e financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo/FAPESP.

presidida pelo membro do Partido Comunista do Brasil. pela primeira vez. Tal material encontrasse no CEMOS – Centro de Estudios del Movimiento Obrero Socialista. 2 ª ed. localizado na Cidade do México e no CEDEM – Centro de Documentação e Memória da UNESP. referido apenas como Gabrinetti. Para o presente trabalho. foram traduzidos em dez temas. “Cuestión Sindical”. Os temas debatidos foram os seguintes: “La situación internacional de América latina y los peligros de guerra”. e o informe foi apresentado pelo membro do PC peruano. . versiones de la Primera Conferencia Comunista Latino Americana. editado pela revista La Correspondencia Sudamericana. o caráter da revolução na América Latina e de suas forças motrizes foi definido à luz dos ensinamentos do marxismoleninismo. “La lucha anti-imperialista y los problemas de táctica de los Partidos Comunistas de la América Latina”. Uma antologia de 1909 aos dias atuais. ampl. 2006. “El Problema de la Razas en América Latina”. 431. e. Cláudia Schilling & Luís Carlos Borges. Trad. será apresentado e discutido um dos temas que foi discorrido nessa conferência: “El Problema de las Razas en America Latina”. “Trabajo de la Liga AntiImperialista”. seus êxitos e suas fraquezas. In: O marxismo na América Latina. História do Marxismo na América Latina. “Trabajo del Secretariado Sudamericano” e “Informe sobre la Solución de la Crisis del Partido Comunista de la Argentina”. “Movimiento de la Juventud Comunista”. cujo documento identifica apenas como Saco. foram discutidos os problemas dos países “coloniais” e “semicoloniais”. A discussão do documento foi apresentada por Saco. debatidos nos doze dias que seguiram a Conferência em Buenos Aires. pelo membro do PC 2 CODOVILLA. tanto do ponto de vista ideológico quanto do organizativo.qual. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo. “Cuestiones de Organización”. p. assim como uma delegação do Partido Comunista dos Estados Unidos) analisou a experiência acumulada pelos comunistas latino-americanos há uma década.2 Esses ensinamentos do marxismo-leninismo apontado por Codovilla. PCB. Vittorio. Segundo Vittorio Codovilla: A conferência dos partidos comunistas que se reuniu em Buenos Aires em julho de 1929 desempenhou um papel grande na vida dos partidos marxistasleninistas. Esse tópico foi apresentado e discorrido no dia 08 de junho. Esse material foi transcrito e publicado no livro El Movimiento Revolucionario Latino Americano. localizado na Cidade de São Paulo. “Cuestión Campesina”. Esta conferência (da qual participaram representantes de 15 partidos comunistas e operários da América Latina.

S.mexicano Suarez. “Carácter de La Lucha Sostenida por Los Indigenas Y Los Negros” e “Conclusiones Y Tareas Fundamentales”. que fica evidente no seguinte trecho abaixo: El problema de las razas sirve. en la América latina. el de la liquidación del feudalismo. para la especulación intelectual burguesa.C. el problema do las razas es. Em outros trechos. O documento sobre a o problema das raças na América Latina está dividido em nove tópicos. p. tanto que o documento afirma que os escravos negros tiveram um papel passivo na exploração colonial e que somente a união de todos os escravos poderia fomentar uma ruptura a esse círculo de dominação. No início.3 Influenciados pela leitura que a IC realizou da América Latina. S. social o políticamente. de la I. La Crítica marxista tiene la obligación impostergable de plantearlo en sus términos reales. entre otras cosas. . versiones de la Primera Conferencia Comunista Latino Americana. deprendiéndose de toda tergiversación ensuista o pedante. e. para os delegados comunistas presentes nessa seção. “Situación Economica Politica De La Población Negra”. mais a conclusão. e a queda desses dois pilares de dominação deveria ser um dos principais objetivos dos Partidos Comunistas latino-americanos. “Situación Economica-Social De La Población Indigena Del Peru”. en su base. Em um trecho polêmico. o documento enfatiza a importância da Internacional Comunista para a questão das raças no continente latino-americano. 263. também contou com a presença de Leôncio Basbaum. para encubrir o ignorar los verdaderos problemas del Continente. A saber: “Planteamiento de la Cuestion”. é teorizado que os negros estariam dentro de uma ideologia de dominação que os impediam de se rebelar. o continente estava sob um regime feudal e imperialista. “Situación Economica Y Social De Los Mestizos Y Mulatos”.: Buenos Aires. e. junio de 1929. In: El Movimiento Revolucionario Latino Americano. No primeiro caso. Aos índios. “Importancia del Problema Racial”. “Desarrollo Economico-Politico Indigena Desde La Epoca Incaica Hasta La Actualidad”. que esse “problema” deveria ser teorizado pela crítica marxista. “Situación Economica-Social De La Población Indigena De Los Demas Paises”. importante membro do PCB. 3 El Problema de las Razas en America Latina. é exaltada uma superioridade em comparação aos mestiços. “Política Colonial Burgueza e Imperialista Frente a Las Razas”. é afirmado que os escravos negros foram colocados na América Latina para aumentar o poder dos colonizadores sobre os indígenas. o documento procura traçar um quadro histórico da exploração colonial negra e indígena. Económica.A.

os negros. Com esse objetivo. houve até um esforço dos redatores comunistas do documento. se apropian de la ciencia occidental y se adaptan al uso de su técnica de producción.4 Ou seja. p. em comparar os índios com os japoneses: “Hace tempo que la experiência japonesa demonstró la facilidade com que los pueblos de raza y tradición distintas de las europeas.Segundo trechos do documento. Ibid. o documento apresenta algumas afirmações polêmicas. Nessa relação bilateral. 4 5 Ibid. Esse tópico se encerra com a seguinte sentença: Compañeros: El realismo de una política revolucionária. de uma realidade capitalista e industrial. En las minas y en las fábricas de la Sierra del Perú. é afirmado que os indígenas possuem uma facilidade de assimilação do progresso. 267. los emancipará verdaderamente. un carácter neto de lucha de clases. 266. Eles são superiores. os comunistas latino-americanos responsáveis por essa discussão. Para ressaltar essa afirmação. e não em suas próprias especificidades. puede y debe convertir el factor raza en un factor revolucionario. segura y precisa. agrícola e industrial. A realidade distinta dos escravos negros de cada região é anulada por uma leitura clássica do conceito de luta de classes da literatura marxista. Em suma. essa “superioridade” tão frisada dos indígenas destacada no documento. Esse foi o fio condutor que perpassa cada tópico tratado no documento em questão. en la apreciación y utilización de los hechos sobre los cuales le toca actuar en estos países. el indio campesino confirma esta experiencia”. . realizaram uma fusão dos índios com os camponeses e dos negros com os trabalhadores fabris. principalmente na leitura do materialismo histórico. Essa leitura apresentada defende uma uniformidade da práxis e da individualidade de cada tribo. os índios estariam sob o domínio de um regime de características feudais e. “Hay que dar a las poblaciones indígenas o negras esclavizadas – dijo un compañero del Brasil – la certidumbre de que solamente un gobierno de obreros y campesinos de todas las razas que habitan el territorio. en que la población indígena o negra tiene proporciones y rol importantes. ya que éste solamente podrá extinguir el régimen de los latifundios y el régimen industrial capitalista y librarlos definitivamente de la opresión imperialista’”. Es imprescindible dar al movimiento de proletariado indígena o negro.5 Para enquadrar as especificidades dos indígenas e negros na estrutura conceitual das doutrinas marxista. porque trabalham melhor. por meio do seu dia-a-dia. está centrada em sua assimilação dos meios de produção do mundo do trabalho. p. todos seriam agora camponeses e operários.

existem inumeráveis negros e mulatos ocupando importantes cargos no seio da burguesia nacional: En el Brasil. de preconcepto de razas. Se deduce de allí que no se podrá hablar en rigor. “país de negros”. 3a ed. . nos deparamos com a análise de que é muito raro encontrar no país um negro puro. en fiestas nacionales. Es claro que el Partido debe combatirlo en cualquier circunstancia siempre que él aparezca. tais práticas. pero los negros-mulatos que constituyen un 30% de la población. Los mulatos “claros” también son muy numerosos. Ao tratar da questão do negro do Brasil. Eric J. No caso da classe operária. Se traduce en el hecho de que. Introdução: A invenção das tradições. El cruzamiento se hace cada día más intensamente. Nesse caso. segundo o documento. que hay innumerables negros y mulatos ocupando cargos de relieve en el seno de la burguesía nacional. 9. Celina Cardim Cavalcante. muchas veces se refieren al país iluminándolo con una evidente intención peyorativa. Se debe notar aún. recordamos o conceito de tradição inventada formulada por Eric Hobsbawm. está compuesta por mulatos. el tipo del negro puro. exaltando el valor de sus ascendientes africanos. Esto viene a excitar la vanidad patriótica del pequeño burgués. son numerosos en todo el litoral y se encuentran especialmente concentrados en algunas regiones. Pero es necesaria una acción permanente y sistemática por cuanto muy raramente se manifiesta. de que o Brasil é considerado um “país de negros”. como um “conjunto de práticas. se ve con simpatía la influencia del negro. esforzándose en demostrar lo contrario. muy raro. en el extranjero. El preconcepto contra el negro asume reducidas proporciones. Trad. en el Brasil. Pero es común ver a ese mismo pequeño burgués. sino del hecho de que. p. éste no existe. el negro puro es relativamente escaso. entre tanto. Há também uma crítica a uma suposta crença. como uma tradição inventada.No tópico “importancia del problema racial” foi dedicada uma seção aos negros. e que essa afirmação é utilizada como uma espécie de vaidade patriótica pela burguesia. En la burguesía. inmigrantes negros. visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição. de natureza ritual ou simbólica. en ciertas capas de la pequeña burguesía. 6 HOBSBAWM. normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas. en esas esferas. Tal actitud no previene. como en Pará. En el seno del proletariado. 2002. uma continuidade em relação ao passado”. automaticamente. este mal se deja percibir. In: A invenção das tradições. He aquí lo que se refiere al respecto el compañero del Brasil: “Gran parte de la población del litoral brasileño. hoy. que a maioria é composta por mulatos. es. de un verdadero odio de razas.6 Para finalizar esse tópico. como en los Estados Unidos. o que implica. que protesta. Rio de Janeiro: Paz e Terra. ela seria composta apenas por mulatos. produciendo tipos cada vez más claros desde que no vienen al país desde hace cerca de medio siglo.

C. quais os subsídios teóricos que validam a afirmação de que as lutas dos indígenas poderiam resultar em um Estado “burguês”? Torna-se desnecessário apontar as falhas e os pontos fracos dessa afirmação. senão a constituição de um Estado índio burguês com todas as contradições internas e externas dos estados burgueses da atualidade.S. o documento traça um quadro histórico dessas campanhas. contudo. a constituição da raça indígena em um estado autónomo. como alguns poderiam crer. 271. expropriação sem indenização.8 Uma análise semelhante também encontrasse na avaliação dos indígenas. nunca están aislados.7 Com essa base argumentativa.La situación de los negros. qual seria a base desse “estado autónomo” mencionado pelos comunistas? E. p. In: El Movimiento Revolucionario Latino Americano. evidenciado pelo uso do conceito Estado. 7 El Problema de las Razas en America Latina. 8 Ibid. no es de naturaleza tal como para exigir que nuestro Partido organice campañas reivindicatorias para los negros. Para todos se plantean las reivindicaciones propias de su clase. nos quais os Partidos Comunistas da América Latina deveriam colocar em prática ao tratar da questão entre índios e negros: 1-) Luta pela terra para os que trabalham nela. junio de 1929. de la I.A. Novamente. para designar e criticar ao mesmo tempo a autonomia das aspirações indígenas. En su rol de explotados. Afinal. não conduziria com uma ditadura do proletariado índio e nem muito menos. encontramos nessa avaliação. Ao tratar dos pontos de luta e reivindicação dos indígenas em alguns países latinoamericanos. que não estivessem enquadradas nas doutrinas marxistas-leninistas. contudo. um olhar da realidade indígena pelos valores do outro. para los países que incluyen grandes masas de negros. con palabras de orden especiales”. .: Buenos Aires. percebe-se que houve a sobreposição de uma realidade sobre a outra. versiones de la Primera Conferencia Comunista Latino Americana. crítica o objetivo que os movem em sua oposição ao status quo. Para os comunistas presentes nessa conferência. O documento se encerra com três tipos de reivindicações. en el Brasil. sino que se encuentran al lado de explotados de otros colores. como Bolívia e Peru. com a formação de um estado índio sem classes. o relator concluiu a sua linha de pensamento com a seguinte sentença: En general. S. su situación es um factor social y económico importante.

como elementos de una misma clase productora y explotada. No fim. orientándolo en un sentido exclusivamente racial. e. p. camponeses e negros. O problema racial é convertido em uma questão social. com a afirmação de que essa pluralidade limita o trabalho de propaganda e conscientização do socialismo entre as tribos. uma salva de palmas encerra a exposição. na defesa de um marxismo peruano e indígena. 288. demonstram o esforço empregado pelos Partidos Comunistas da América Latina de entrar em sintonia com as diretrizes da III IC de Moscou. realiza uma comparação da URSS com o Peru: 9 Ibid. inclusive. como sindicatos. se plantea con toda claridad el carácter fundamentalmente económico y social del problema de las razas en la América latina y el deber que todos los Partidos Comunistas tienen de impedir las desviaciones interesadas que las burguesías pretenden imprimir a la solución de este problema.2-) Organização de organismos específicos. destruyendo los prejuicios raciales. blocos operários e camponeses. os exemplos mencionados no documento analisado. A parte cultural é totalmente posta de lado. Ao confrontar com esse documento.9 Depois de apresentado todos esses argumentos. orientándolas a sus reivindicaciones concretas y revolucionarias. ficam mais claro as razões de repulsa as teses de José Carlos Mariátegui. . e um contato desses organismos com os operários urbanos. e. asimismo como tienen el deber de acentuar el carácter económico-social de las luchas de las masas indígenas o negras explotadas. José Aricó. 3-) Abolição de leis onerosas para o índio e para os negros. como fica bem explicito nesse trecho abaixo: Habiendo llegado a este ponto las consideraciones. dando a estas mismas masas una clara conciencia de clase. Armamento de operários e camponeses para conquistar e defender suas reivindicações. Como já colocado no inicio desse texto. em uma aliança estreita com o operariado mestiço e branco contra o regime feudal e capitalista. operários. os indígenas convertidos em camponeses e os negros em trabalhadores fabris. ligas campesinas. a variedade dos idiomas das diversas comunidades indígenas da América Latina é critica. denomina o pensamento Mariátegui como um “marxismo latinoamericano”. em outra passagem do documento. esses objetivos só poderiam ser alcançados com a luta de índios. alejándolas de soluciones utópicas y evidenciando su identidad con los proletarios mestizos y blancos.

José. sob o estrito controle do Partido Comunista soviético. Enquanto a década seguinte. 1987. e por conseguinte a teoria de revolução por etapas. 11 LÖWY. Stálin subiu ao poder em 1922 e inaugurou uma política de controle não apenas sobre a União Soviética. ao destacar o controle que Stálin procurou exercer sobre os outros países comunistas e os que poderiam vir a seguis os passos da União Soviética: No fim. Introdução. ampl. Cláudia Schilling e Luís Carlos Borges. Henriques e Amélia Rosa Coutinho. 9. opera-se um mesmo processo de reapropriação crítica do marxismo. o decênio de 1920. dissolvendo e reformando seus componentes à vontade. Essa linha de raciocínio também estava ligada a situação da União Soviética nesse período. Luiz Sérgio N. de meados da década de 1930 até 1959. . 1930. tanto de negros e índios. que Stalin reduziu a um instrumento da política de Estado soviético. Carlos Nelson Coutinho. Uma antologia de 1909 aos dias atuais. o internacionalismo do movimento comunista assumiu nesse momento características de um eurocentrismo conceitual.11 Eric Hobsbawm compartilha da análise de Löwy e a expande. que buscou sepultar os pontos distintos. Rio de Janeiro: Paz e Terra. p. 448. definindo a etapa presente na América Latina como nacional-democrática”. de Stalin. O Peru pôde ser a Rússia da América Latina talvez porque não existisse um outro país em que mais abertamente contraditória se mostrava a experiência histórica do socialismo em face das condições de atraso econômico e social. como também. expurgando. O marxismo na América Latina. mas dilacerado por uma crise cultural e de consciência idêntica.10 Apesar dessa teoria interessante elaborada por Aricó. 2006. (Org.). é considerada o período de grande influência do estalinismo: “o período stalinista. In: História do marxismo. Pontos de referência para uma história do marxismo na América Latina. de crise intelectual e moral que pesava sobre a nação. Trad. p. representou um período de originalidade na formação das estratégias políticas dos Partidos Comunistas. Michel. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo. o imperialismo.O fato curioso é que na América Latina. 2 ª ed. Para Michel Löwy a historiografia do Comunismo na América Latina. In: _____. que leva a pôr em discussão o paradigma excêntrico de que sofria gravemente o socialismo latino-americano. O marxismo latino-americano nos anos da Terceira Internacional. sobre o significado da Revolução Russa e de sua influência ao redor do mundo. o marxismo na época da Terceira Internacional: o novo capitalismo. A revolução mundial pertencia à retórica do passado. e num país diverso da Rússia. Trad. o terceiro mundo. e na verdade qualquer 10 ARICÓ. os interesses de Estado a União Soviética prevaleceram sobre os interesses revolucionários mundiais da Internacional Comunista. durante o qual a interpretação soviética de marxismo foi hegemônica.

esse olhar de Moscou para os outros adeptos do comunismo além das fronteiras soviéticas. e b) pudesse ser posta sob controle soviético direto. Não devemos nos esquecer. Mundial. as diretrizes de Moscou. a figura e a imagem da própria Revolução Russa. Trad. sepultaria o regime capitalista. Por isso. que não era apenas da União Soviética e nacional. essa questão não é tão simples. não ficaram aquém dessa grande influência exercida por Stálin. Em grande medida. salvo o exemplo de Mariátegui. 1995. Houve um esforço intelectual e dialético em pensar a realidade latino-americana pelo prisma da ideologia marxista da IC soviética. uma vez que a Revolução Russa era o exemplo a ser seguido. no qual. a União Soviética havia demonstrado em dez dias. possuem a mesma linha de raciocínio. que passaram a vida lutando contra o capitalismo em prol de uma sociedade mais igualitária. esse anseio tão grande em fazer parte desse processo revolucionário. ao discorrer sobre o comunismo na América Latina. que. . Como demonstrado nessa Conferência. foi decisivo na formulação de diversas diretrizes os Partido Comunistas. a Revolução Russa era um exemplo de como chegar a esse objetivo. Contudo. Era dos Extremos. no caso do PC brasileiro. Como exemplo.12 É digno de nota. tanto na América Latina. O breve século XX.revolução só era tolerada se a) não conflitasse com o interesse do Estado soviético. E Stálin soube como se tornar praticamente o “dono” desse projeto revolucionário. por fim. fica a dúvida de que até que ponto poderia existir um comunismo. José Aricó aponta os limites em se pensar apenas nos pontos divergentes e nas singularidades históricas 12 HOBSBAWM. Marcos Santarrita. foi adotada a política obrerista. ou comunismos genuinamente originários. com destaque ao México e ao Brasil. o que eles passaram décadas tentando transformar em realidade. Então. Por fim. Não foi apenas a figura de Stálin responsável por isso. e. as agremiações vermelhas da América Latina. Eric J. os comunistas latino-americanos não adotaram passivamente. Nos olhos desses revolucionários. Foi também. como os dois intelectuais esquerdistas de posições políticas divergentes. São Paulo: Companhia das Letras. que muitos comunistas das décadas de 1920 e 1930. eram oriundos dos movimentos socialistas e anarquistas. em todos os casos. Para esses militantes. acusados de terem atitudes burguesas suspeitas e substituídos por trabalhadores. e sim. no qual o estalinismo é considerado o culpado no sepultamento de um possível comunismo original. 1ª ed. 1914-1991. A tão almejada Revolução Mundial. como no restante do mundo. intelectuais foram afastados da direção do Partido.

dos países latino-americanos. 1995. Celina Cardim Cavalcante. . Rio de Janeiro: Paz e Terra. Pontos de referência para uma história do marxismo na América Latina. 1ª ed. o terceiro mundo. (Org.430-435. o imperialismo. Cláudia Schilling e Luís Carlos Borges. 1987. no primeiro encontro dos Partidos Comunista latino-americano. Introdução: A invenção das tradições.). pp. Luiz Sérgio N.: Buenos Aires. pp. LÖWY. CODOVILLA. S. Marcos Santarrita. José. esse sentimento apontado por Aricó ficou encoberto. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo. Eric J.9-74. Trad. Trad. de algo mais forte do que um simples dado da geografia ou da história”. Referências bibliográficas ARICÓ. Uma antologia de 1909 aos dias atuais. o marxismo na época da Terceira Internacional: o novo capitalismo. _____. Introdução.9-23. Vittorio. ampl. Cláudia Schilling & Luís Carlos Borges. In: A invenção das tradições. O marxismo na América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Contudo. Carlos Nelson Coutinho. Henriques e Amélia Rosa Coutinho. O breve século XX. quando esses comunistas abriram mão de suas singularidades. Trad. junio de 1929. 1914-1991. In: _____. Trad.419-459. Era dos Extremos. HOBSBAWM. Em suas palavras. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo. Michel. São Paulo: Companhia das Letras. Fonte El Problema de las Razas en America Latina. pp. Trad. 2 ª ed. 2006. 3a ed. a existência de um sentimento latino-americano em estado virtual ou latente nos fala. In: El Movimiento Revolucionario Latino Americano. ampl. pp. versiones de la Primera Conferencia Comunista Latino Americana. In: História do marxismo. de la I.A. História do Marxismo na América Latina. In: O marxismo na América Latina.C. para entrarem no caminho da Revolução Mundial que vinha de Moscou e era empunhada pela bandeira vermelha. O marxismo latino-americano nos anos da Terceira Internacional. indubitavelmente.S. 2 ª ed. 2002. Uma antologia de 1909 aos dias atuais. 2006. “De um modo ou de outro.