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Juventude, trabalho e educação no Brasil

GAUDÊNCIO FRIGOTTO

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JUVENTUDE, TRABALHO E EDUCAÇÃO NO BRASIL: Mistificações e desafios de uma relação complexa Tomado por diferentes ângulos, o tema de que nos ocupamos nesta análise é, desde o início, complexo e controverso. Esta complexidade e esta controvérsia iniciam-se pela dificuldade de ter-se um conceito unívoco de juventude. Isto tanto por razões históricas, quanto sociais e culturais. Por esta razão, é necessário, de imediato, não tomá-lo de forma rígida. Mais adequado seria, talvez, falar, como vários autores indicam, em juventudes, especialmente se tomarmos um recorte de classe social2. Ao optarmos por essa compreensão, podemos levar em conta particularidades e até aspectos singulares, sem cair numa perspectiva atomizada. Os sujeitos jovens (ou as juventudes) teimam em ser uma unidade dentro do diverso mundo econômico, cultural, étnico, de gênero, de religião, etc. Não menos controvertidos e complexos são os temas do trabalho e do emprego. Em torno destes temas, há simplificações e mistificações de toda ordem. A mais elementar é reduzir o trabalho, de atividade humana vital, forma de o ser humano criar e recriar seus meios de vida, com emprego, forma específica que assume dominantemente o trabalho sob o capitalismo: venda e compra de força de trabalho. Os jovens a que nos referimos nesta análise têm “rosto definido”. Pertencem à classe, ou à fração de classe “filhos de trabalhadores assalariados”, ou que produzem a vida de forma por vezes precária, por conta própria, no campo e na cidade, em regiões diversas e com particularidades socioculturais e étnicas. Compõem este universo aproximadamente seis milhões de crianças e jovens que têm a inserção precoce no mundo do emprego ou do subemprego. Inserção esta que não é uma escolha, mas uma imposição de sua origem social e do tipo de sociedade que se construiu no Brasil. Aqui os recortes de classe e de forma, sobrepostos ao de cor ou, considerado mais adequado, como veremos adiante, de raça, evidenciam-se sem necessidade de muitas mediações. Mesmo na delimitação deste universo podemos encontrar diferentes particularidades. Assim, uma massa enorme de jovens trabalha com a família em minifúndios ou como arrendatários ou assalariados do campo. Outros milhares de jovens vivem nas centenas de acampamentos, de norte a sul, do movimento dos Sem-Terra. Mas, certamente, o número maior de jovens filhos de trabalhadores reside em bairros populares ou favelas das médias e grandes cidades do Brasil. Todos estes grupos de jovens têm suas especificidades mas, do ponto de vista psicossocial e cultural, tendem a sofrer um processo de adultização precoce. A inserção no mercado formal ou “informal” de trabalho3 é precária em termos de condições e níveis de remuneração. Uma situação, portanto, muito diversa da dos

no mundo da física. Em 1980. isto não impede que se implementem políticas redistributivas e de caráter emancipatório de grupos específicos mais violentados e. político e cultural. o Brasil ocupa o 3º lugar na América Latina. uma preocupação específica no âmbito das políticas públicas do Estado Brasileiro. Aplica-se. especialmente nas últimas décadas. A configuração acima esboçada nos indica que não é por acaso que o tema e a relação juventude. os homicídios de jovens entre 15 e 24 anos representavam 33. Isto nos remete a buscar entender esta realidade no âmbito das raízes estruturais no plano econômico. também. se correlacionam fortemente. que estendem a infância e juventude. aquilo que Vitor Frankel. em pesquisa feita pela UNESCO sobre o mapa da violência. no Rio de Janeiro. ou a ausência da mesma. trabalho e educação. Uma armadilha que tem sido imobilizadora na ação é a perspectiva da visão antinômica entre as políticas públicas estruturais e as políticas emergenciais e focalizadas. Trata-se de grupos de jovens que foram tão desumanizados e socialmente violentados que se tornaram presas fáceis do “mercado da prostituição infantojuvenil ou de gangs que nada têm a perder. ao mesmo tempo. que se enquadram numa situação que. Algumas indicações merecem ser destacadas sobre o tema juventude.. se reproduz em outras capitais. dos que viveram a experiência dos campos de concentração ou de quem vive em situação de desemprego. passaram de 900 casos em 2002. denominava de “vida provisória em suspenso”. em relação aos jovens nesta faixa etária. O agravamento das condições de vida destes jovens está ligado à recusa criminosa da elite brasileira em efetivar as reformas (agrária. de fato e comprovadamente. se denomina de ponto de não reversibilidade. Há. Conflito e Violência Urbana da Universidade Federal do Rio de Janeiro indicam que as mortes em confronto com a polícia. Nestes casos. 2004). A primeira destas indicações é a de que a mutilação de direitos elementares da infância e da juventude. a tendência tem sido de políticas focalizadas. como São Paulo. ou constituem um exército de soldados do tráfico ”. M. Salvador.195 em 2003. A situação das grandes capitais é dramática. A perplexidade situa-se no fato de que. para 1. que se busque atacar os problemas estruturais. de forma superficial. para um contingente enorme de jovens no Brasil. é uma constante ao longo de nossa história. ao referir-se à situação dos tuberculosos. a grande maioria inicia sua inserção no mundo do trabalho após os 25 anos e em postos de trabalhos ou atividades de melhor remuneração4. de cunho assistencialista. etc. Belo Horizonte. trabalho e educação assume.jovens de “classe média” ou filhos dos donos de meios de produção. Essa tendência. o neoliberalismo. passou a representar 53. Os dados do Núcleo de Estudos da Cidadania. no Rio de Janeiro. mas uma não explica a outra e também não podem. nos anos 40. um número significativo de jovens das grandes capitais que foram violentados em seu meio e nas suas condições de vida. tributária e social) e em romper com a relação de partilha subserviente com o capital especulativo. Se. No ano de 2000. que atacam. A mudança de rumo das políticas públicas para jovens da classe trabalhadora implica que sejam superadas algumas mistificações em voga dentro do credo do liberalismo conservador e de sua face atual.2%” ( Pereira. em relação aos filhos da classe trabalhadora. após um ano de governo composto por forças políticas que historicamente defenderam essas mudanças de rumo estrutural. os efeitos da desigualdade. Com efeito.2% das mortes totais da capital5. O trabalho precoce de crianças e jovens e a escolaridade precária. . não há sinais claros nesta direção.

das grandes fortunas e do capital especulativo. não se faz sem contrariar interesses dos ricos. Pelo tamanho do Produto Interno Bruto do Brasil. formal ou não-formal. numa espécie de ajuste de contas com uma dívida social. garantir a possibilidade de continuidade de escolaridade até completar o Ensino Médio. uma prioridade para os negros. sujeito autônomo e protagonista de cidadania ativa e não reduzido a um “cidadão-produtivo” explorado. Esta direção de política pública. Falsa porque a escola não tem. Os piores empregos e salários e a menor escolaridade não se devem precipuamente ao fato de os jovens serem negros. econômico e ético. Como vimos. serem tomadas uma como solução da outra. como sinalizou Pochmann. Ou seja.linearmente. dos seus algozes. O dramático é que estes “algozes” têm como “blindar sua segurança”. Para os que estão empregados. ou estão fora da escola. a questão fundamental não é racial. vergonhosamente concentradas. legalmente garantido. estão nesta condição por serem filhos de trabalhadores com condições de vida precárias. para o estudo e um apoio. as políticas contra a discriminação são. Para os desempregados. a decisão de implementá-las é política. capacidade de gerar nem garantir o emprego. seria. Do mesmo modo. implementar a política de primeiro emprego. político. Neste caso. Isso nos mostra que a tese de “empregabilidade” é falsa e cínica. Formação de um jovem “técnico-dirigente”. porque mascara a estrutura social geradora de desigualdade. Para jovens de 18 a 24 anos. como vimos. uma renda mínima e. os jovens que têm trabalho precoce. Mas isso também tem limites. Isto. Pela razão histórica. É a partir desta situação histórica que se desenvolve o preconceito racial. há a necessidade de estipular-se uma renda mínima para estas crianças e estes jovens. O que se deve ter presente é que milhares de jovens. O legado foi de serem jogados no grupo ou fração da classe trabalhadora com as menores condições de sobrevivência. Quem paga são os pobres ou a remediada classe média. que teria extraordinário efeito social. Certamente. na formação social brasileira. de baixa qualidade e remuneração. ou erguer guetos protegidos. mas não pode ser exclusiva. Ambas têm sua determinação fundamental na origem de classe. no caso brasileiro. Deve-se ao fato de que. . e os jovens que têm pouca escolaridade. como discutimos ao longo deste texto. obediente. para que isso seja viável. levando-se em conta as particularidades dos diferentes grupos de jovens. criar condições de tempo. os 400 anos de escravidão incidiram sobre os negros e a libertação legal não lhes devolveu o que lhes foi espoliado. a retirada do mercado de trabalho. de recessão. Cínica. ao mesmo tempo. de classe e de raça. estético e artístico. isto é inequívoco. não podem continuar pagando o preço da mutilação dos seus direitos. pode garantir uma educação básica que faculte aos jovens as bases dos conhecimentos que lhes permitem analisar e compreender o mundo da natureza. Ainda mais falsa num contexto de crise endêmica de desemprego e. despolitizado e que faça “bem feito” o que mercado determina. uma outra divisão da riqueza e da renda. está claramente provado que há viabilidade econômica para estas políticas e que. de todas as crianças e também dos jovens até a idade legal de conclusão do nível médio. ainda. cultural. das coisas e o mundo humano/social. que passa a ser um reforço e justificativa da desigualdade. Vai-se estabelecendo uma realidade em que a quantidade dos que se situam na linha dos que já não têm mais nada a perder pode se transformar num “direito” de se vingarem. concomitantemente. em termos de bolsa de estudo. política e ética. é possível justificar. sem o que também não têm condições de retornar à escola. porque culpa a vítima por ser pobre e por ter baixa escolaridade e. sem o que eles não podem abandonar sua luta pela sobrevivência. portanto. Uma política pública redistributiva e emancipatória de caráter mais universal. por diferentes formas de violência e delitos. do campo e da cidade.

Ver Sposito (1997. raça. pelo prof. São Paulo. M. Os jovens infelizes . pesquisa e educação. ANDERSON. Economia popular e cultura do trabalho: pedagogia (s) da produção associada. 2001. PASOLINI. coordenado. de imediato. Laboratório de Políticas Públicas da UERJ (LPP). POCHMANN. M. 1990. nos dá elementos valiosos sobre as juventudes existentes no Brasil. 7. Os sentidos do trabalho. São Paulo. 27/2/2004. ganham maior densidade analítica quando relacionadas à classe social. jornal O Globo. trabalho e educação no Brasil é o de situá-la no âmbito das classes e frações de classes sociais. M. O conceito ou noção de mercado ou mercado de trabalho é altamente banalizado pela ideologia do liberalismo econômico. P. SPOSITO. A elite joga fora uma oportunidade. É freqüente ouvirmos ou lermos. Trata-se de categorizações que. (coord. H. M. pesquisadores que se ocupam desta discussão. 2001. ANTUNES. uma advertência ao leitor. Brasília: MEC/INEP/ COMPED. p. e Sposito. SPOSITO. 3 Como ao longo deste texto utilizaremos os termos mercado. mercado formal e informal cabe. tenso ou deprimido”. Estudos sobre Juventude em educação. etc. o ponto de partida da análise que empreendemos sobre juventude. Boitempo. 24ª Reunião Anual da ANPED. In: Peralva. São Paulo. Nos campos da Antropologia. 1994. L. Juventude. punks e darks no espetáculo urbano. 1999. etnia. Número especial da Revista Brasileira de Educação. por outro lado. Conferência no Seminário Pós-neoliberalismo III. UNIJUÍ. Juventude e Contemporaneidade. Caderno Opinião. Um simples acesso ao Observatório sobre juventude. NOTAS: 1 Professor Titular Visitante da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Membro representante do Brasil no Conselho Diretivo do CLACSO (Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais) e do GT Trabalho e Educação da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Educação (ANPEd). gênero. 2 Como poderá depreender-se da leitura do texto. na UFF. dezembro de 2002. 2002) e Abramo (1994). O mercado é . SPOSITO. Scritta. Editora Brasiliense. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro.Referências Bibliográficas ABRAMO. Paulo Carrano. V. na imprensa. Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 2001. Egeu/RS.Antologia de ensaios corsários. ANPED. Píer P. W. M. R. que o “mercado está nervoso. Isto não elide e não inviabiliza que consideremos questões de gênero e raça. mercado de trabalho. 2002. A. Rio de Janeiro. Sociologia e Psicologia há uma ampla gama de pesquisas que podem subsidiar a compreensão das várias juventudes em seu recorte de classe. pelo contrário. TIRIBA.) Juventude e escolarização. Há. Caxambu: MG. maio/junho. Cenas juvenis.

TVEBRASIL. SALTO PARA O FUTURO / TV ESCOLA WWW. Jornal O Globo. Tomando-se a questão do futuro de jovens filhos de pais com altos salários – gerentes. (. relações de força e de poder vinculadas a interesses de grupos e frações das classes sociais. p. executivos de grandes empresas (funcionários do capital) – no contexto de crise do sistema capitalista encontramos problemas que. A análise de Píer Paolo Pasolini. Os jovens pobres sentem-se “infelizes” por não poderem fruir as promessas do consumismo. A dicotomia mercado formal e informal. na obra “Jovens infelizes”. embora de outra natureza em relação aos jovens de classe trabalhadora. última das ruínas.. e baleados. Elenice. e os filhos da burguesia por serem levados a um estado de permanente insatisfação com o que consomem. 1990).2004. Trata-se de mortes causadas por confrontos ou não com a polícia ou entre grupos rivais..) a nossa culpa de pais consistiria no seguinte: em crer que a história não seja e não possa ser senão a história da burguesia” (Pasolini..personificado. A notícia dá conta de que “os jovens voltavam para casa depois de um baile funk quando foram abordados por homens do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da PM.” (De Cássia. 2. ruína das ruínas”. Cristina e Bottari. Eles teriam sido levados para a Travessa Gregório. por outro lado. 13). 2000). caracterizados como provenientes da classe social que “vive da venda da sua força de trabalho” (Antunes. Economia popular. os tornam “infelizes”. Pasolini tem como contexto de sua análise o fascismo e “o poder do consumo. 5 Dificilmente passa um dia sem que os jornais de grande circulação não noticiem mortes de jovens em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. economia solidária são novos conceitos que buscam expressar essa complexidade. economia de sobrevivência.BR/SALTO . 1999). (Tiriba. próximo a um valão. Manchetes como estas se repetem “PM sobe a Rocinha e 3 adolescentes são mortos”.. não permite captar uma enorme diversidade de estratégias de sobrevivência dos contingentes excluídos do trabalho formal.02. P. não estamos sinalizando que os jovens da classe média ou do topo da pirâmide social não tenham problemas.COM. Esconde-se que o mercado de trabalho resulta de relações sociais.P. Um estudo indicativo a esse respeito é de Célia Ferreira Novaes sobre “As determinações sociais no problema da escolha profissional: contradições e angústias nas opções dos jovens das classes sociais de alta renda” (Novaes. R. 4 Ao definirmos como foco deste texto os jovens de classe trabalhadora que. nos mostra que a juventude parece estar condenada àquilo que é um dos temas misteriosos do teatro grego trágico: a predestinação dos filhos a pagar a culpa dos pais. 2003).