Robinson Crusoé Daniel Defoe Nasci em 1632, na cidade de York, onde meu pai passara a viver, depois de ter

conseguido, com seus negócios, alguns meios de fortuna. Tinha dois irmãos mais velhos do que eu. Um, tenente-coronel, que faleceu na batalha de Dunquerque, na luta contra os espanhóis. Quanto ao outro, nada sabia do que lhe sucedera, coisa que nem meus pais podiam informarme, tanto o tempo que nos deixara. Como não tinha o que fazer, porque não aprendera ofício algum, dei de encher a cabeça com fantasias. Estudara numa excelente escola pública de York, meu pai desejava que eu seguisse a carreira de advogado, mas o desejo que me consumia era outro. Dedicar-me à vida do mar era coisa que me dominava inteiramente, pondo-me surdo às advert ências e às solicitações serenas e doces de minha boa mãe. Meu pai, homem grave e enérgico, deu-me ótimos conselhos, para que deixasse de lado aquelas fantasias, mas tudo foi em vão. O chamamento do mar era coisa poderosa, que me atraía e subjugava. Um dia, chamou-me ele ao seu quarto, porque acamado, e me falou, mais quente e mais seriamente, das minhas frioleiras, inquirindo-me sobre a razão de meu desejo de 5 deixar a casa paterna, onde tudo tinha para enriquecer, graças à minha aplicação, podendo levar vida agradável e tranqüila. Exortou-me, para que não cometesse loucuras, coisa de desmiolados, apontando-me, muito candentemente, as lágrimas vertidas por minha mãe. Para que sair doidamente pelo mundo, a lutar pelo ganha pão, quando tudo vinha fazendo por mim, para me garantir profissão honesta, suave e honrosa? Passou, depois, a advertir-me de que por mim não mais se responsabilizaria, se porventura algo errado viesse a fazer, depois de suas palavras. Resumindo, falou-me ele tão sabiamente, tão senhor de si e tão verdadeiramente, com tanto ardor, que, ao terminar, corriamlhe dos olhos as lágrimas abundantemente, principalmente

quando se referiu à morte de meu irmão. - Um dia - disse-me, - de olhos marejados, tu te arrepender ás, e, então, hás de ver, não terás ninguém que te console. Estarás sozinho. Sentia tanto o que dizia, que, nesse ponto, despediu-me do quarto, confessando-se sem forças para proferir o que quer que fosse. Tudo me comoveu sinceramente. A ternura, a segurança, as lágrimas, a voz sempre embargada, a figura meio soerguida na cama, sem forças para continuar aconselhandome - tudo me comoveu até o fundo do coração. Resolvi, então, não mais pensar em viagens ou aventuras. Todavia - ó meu Deus! - a minha boa disposição passou num instante. A tentação do mar, das viagens do desconhecido tanto aumentou, fez-se tão aguda, que, resolvido a deixar o lar, decidi partir sem me despedir do meu bom pai. Um dia, quando minha mãe parecia mais disposta e alegre 6 do que comumente, chamei-a e passei a expor-lhe toda a paixão de ver o mundo, que me ardia dentro do peito, coisa invencível. e que me subjugava e de que jamais poderia livrar-me. Disse-lhe, aos trancos e barrancos, de mãos frias e trêmulas, que ia partir, custasse o que custasse. Minha mãe fez-se muito séria, e, encolerizada, disse-me que não podia conceber como eu, depois de tudo aquilo que meu pai dissera, podia pensar em semelhante loucura. Estava brava, vermelha, e gesticulava, mas dos olhos brotavamlhe lágrimas sem-fim. Depois, repentinamente, branda, terna e serena, falou: - Meu filho: aqui, comigo e com teu pai, tens tudo, tudo para seres feliz. Não o serás longe de nós, em terras estranhas. Será a tua ruína. Deixa-te ficar. Ouve o que tua mãe te diz.

Verguei-me diante dela, figura inolvidável. e querida e, só depois dum ano, consegui safar-me. Por acaso, estando eu em Hull, encontrei um amigo, que ia embarcar para Londres, no navio do pai. Convidou-me. Aceitei. Não consultei meu pai nem minha mãe. Fui-me sem a bênção daqueles que se desvelavam por mim. Sequer implorei o auxílio do céu. Era a 1o de setembro de 1651 - o dia mais fatal de toda a minha vida. Primeira viagem Às vezes, macambúzio, ponho-me a pensar e perguntome se houve, por este mundo, aventureiro cujos infortúni7 os começassem mais cedo que os meus e durassem mais tempo. Assim que o navio deixou o rio, o Rio Humher, começou o vento a soprar e o mar a agitar-se loucamente. Enjoado com o jogo do barco, aterrorizado com a fúria do oceano, senti-me seriamente doente, do corpo e da alma, tomado duma angústia que jamais poderia descrever. E, desde logo, entrei a refletir sobre os meus atos e sobre a justiça divina. Não fora eu filho ingrato e desobediente? Surdo às palavras de meus pais? As lágrimas que verteram por mim, os salutares conselhos que me deram, as súplicas que me dirigiram, ansiosos e veementes - tudo, agora, me enchia de água os olhos, que me ardiam, abrasadores. A tempestade, mais terrível, uivava, e o mar, a cada passo, mais agitado e tremendo, dava-me a impressão de que iria engolir-me. Poderia haver coisa mais assombrosa do que uma tormenta no mar? Se julgava que a fúria dos elementos estava no seu clímax, pobre marinheiro de primeira viagem, estava muito enganado. Porque, assim que deixei de lado os pensamentos que me vinham torturando e me

Então. de céu negro e sem nuvens. muitas vezes ouvia exclamar. correndo. iria em busca de meus pais. em terra firme. não demoraria muito a ir para o fundo. a pouco e pouco. tivemos forte vento de novo. por sua graça. Completamente desvairado. vi que a tempestade redobrava de intensidade. Eu me embebedei pela primeira vez e tudo ficou para trás. corri para ele e me atirei ao chão. que era homem de extraordinário sangue frio e encorajador dos marujos que tinha sob o seu comando. Confuso. correu por toda a tripulação um bom grogue. e o barco. o mar embraveceu terrivelmente. olhando para o céu: Meu Deus. fiz muitas promessas. maravilhado diante de tanta beleza e pureza. tende piedade de nós! Estamos todos perdidos! Que será de nós! Meu beliche era próximo ao leme. dados ao navio todas as facilidades para enfrentar o mau tempo. no dia seguinte. uma noite encantadora.pus a atentar para feia e escura paisagem. então. me depositasse. afiançando-lhes que jamais tornaria a deixar a tranqüilidade do lar. todo picado de estrelas. angustiado. a jogar malucamente e a ranger. Para comemorar a bonança. bem para trás. à noite. a quem pediria perdão. Toda a tripulação recebeu ordem de abater os joanetes e de a tudo ter muito bem preparado para que fossem. afinal. a soluçar. a tremer. De olhos arregalados. foi-se amainando. a todos nos sepultando para sempre. No rosto daqueles que enfrentaram a borrasca anterior com serenidade. Sorri. pedindo a Deus que me salvasse e. e. envergonhado da minha dureza de coração. Oito dias depois. tudo era calma. encontrei o terror bem à mostra. esqueci-me das promessas que fizera. 8 A tormenta. livre de perigo. do meu medo. Ao comandante. do . Ali pelo meio-dia. caí de joelhos junto a um amontoado de cordas encharcadas e. de manhã. e.

devia servir para tocar a bomba e. fora. o imediato e outros mais tarimbados. acharam os marinheiros que eu. foi-se aproximando. a todo instante. e o velho lobo-do-mar. ia. o comandante. e a operação foi feita. sem interromper o funcionamento daquela peça salvadora. assim. apertadíssimo. e o nosso . pelo menos. para que não sobrássemos. O nosso navio fora-se. a elevar-se e depois a despencar sobre o navio. Nunca vi espetáculo mais terrível. Trabalhei com vigor. transido de medo. a pé. dali. que a embarcação que de nós se aproximara a muito custo conseguira enviar-nos. Inexperiente de tudo. a berrar.não cumprimento daquilo que prometera. um barco. a teimar. como o nosso ao sabor das águas. Por volta da meia-noite. onde pudemos descansar. e só por milagre ali estávamos. a chorar como jamais pensara pudesse assim chorar. num escaler. Depois duma grande luta. tremendo como jamais tremera por toda a vida. O temporal era tão violento que eu vi coisas que muito raramente são vistas. Tudo era horroroso. dar em Cromer e. largadamente. homens duros e curtidos. a nos rodear. um marinheiro que tinha ido ao porão apareceu aos berros. a dar a notícia de que ali um grande rombo fazia muita água. porém. tão perdida. deu-se por vencido. Vi o piloto a chorar. Quando dei por mim. com os companheiros. rogando ao comandante 9 que consentisse no corte do mastro de proa. chegamos até Yarmouth. Enquanto isto. por um tempo que me pareceu excessivamente longo. para o fundo. lá fui eu tocar a bomba. estava a observar o tempo. de vagas. duro. deixara o beliche e. a rezar e a implorar a Deus. em altos brados. certos de que iríamos a pique. fomos. mortificava-me e mortificava-me. À tarde. Quando tornei a mim. sem que o percebessem. inflexível. com a graça de Deus. como montanhas. que não. e de tamanha escuridão.

ninguém haveria de ter para consolar-me. fugir para bem longe.de homem livre a escravo . afinal. fomos assaltados. dei um pulo a Londres. temendo maiores males. meu patrão. passei a um segundo. mas eu. Outras viagens ESTABELECI que devia voltar para casa. na miséria. para que tomasse conta do barco. de madrugadinha. depois de duro e feio combate. nele embarquei. Como tinha algum dinheiro. Um dia. o demônio pôs-se a tecer artimanhas. ordenou que se disparasse um tiro. o qual. e desmaiei. julguei que o navio se despedaçara. padecendo física e moralmente.encheu-me do mais amargo desespero. nos aprisionou. vivi um vida horrorosa. por um pirata de Salé. Desde algum tempo. certa feita. todo atento ao meu duro labor. segundo as quais. e me vi. recuperar a liberdade. de fato. estranhamente. 10 A ordem foi imediatamente cumprida. onde estive alguns dias. A bordo. não pensava noutra coisa senão em 11 escapar. Regressar ao lar. Por dois anos. nos perseguiu e. para dar sinal de perigo. . sabendo dum navio que ia zarpar para as costas da África. me pôs a tratar da terra. coisas que competiam a mulheres. tendo-me levado para sua casa. turco sem entranhas. Que viagem! Navegando entre as Canárias e as costas africanas. mas. consegui. a todo pano. era a coisa mais acertada que poderia fazer. Dum primeiro senhor. dum jardim. que de nada sabia. com imensa vergonha de enfrentar meus pais e de ser objeto de falatório da vizinhança. e a fazer serviços de casa. que. saía várias vezes por dia a pescar.comandante. Tinha um navio e. até que. deu-lhe na veneta de mandarme dormir no seu camarote. logo. Lembrei-me das proféticas palavras de meu pai. por falta de dinheiro. Tal mudança . vendendo-nos como escravos.

que era precária. assim. e nelas fui plantando. Logo. A vida passou a correr gostosamente. Sei que posso confiar em ti. como um foragido. Em vista de minha situação. deram-me ótimas colheitas . para me propor um negócio. ora numa grota. Tendo conseguido cartas de naturalização. Terras ótimas.e o meu dinheirinho foi aumentando. que ainda não tinham proprietários. Quando chegamos. ora numa cova. estipularam-me um soldo. Após penosas marchas. por isso. Atirei-me às águas e me fui. depois da qual. com sede e todo alquebrado. por toda a vida. Em breve. . repentinamente. quando chegássemos ao destino. sem novidades. com outros dois proprietários de terras. que não era nada mau.disse-me Wells. os pés feridos.Tu sabes . dessa maneira podendo trazer de Londres algum dinheiro que lá ficara. levantou-se espessíssimo nevoeiro. passava o tempo escondido. não perdi a oportunidade. depois. mais depressa do que esperava. mas de pais ingleses. em troca de serviços que faria a bordo e. pusemo-nos a trabalhar em canaviais e a tratar do fabrico do açúcar.Passou a levar-me consigo e. num cerrado ou mata. verdadeiramente. e aos meus sócios. para . e os seus negócios iam na mesma toada dos meus. A viagem para o Brasil foi boa. A única. donde saía à noite. era nosso vizinho. em terra. Durante o dia. com várias escalas intermediárias. durante uma calmaria. veio procurar-me. fui. Tranqüila. cheio de medo e todo sobressaltado. o dos nossos amigos. Um dia. o meu. e encantar-me com as belezas e singularidades deste mundo. . com fome.o teu problema. associei-me a vários e retos cidadãos. encontrei homens generosos. que me deram lugar numa embarcação que demandava o Brasil. fui adquirindo terras. de que pude gozar um pouco. é a falta de braços. vim com estes companheiros. 12 Um português de Lisboa. aos poucos melhorando de vida. chamado Wells.

numa fria manhã. era possível levar a efeito. feito já todo o carregamento. conseguimos mudar de rumo. em alto mar. Um dos homens. tudo correu maravilhosamente. melhor iriam os negócios. zarpamos. apontando para a proa: . com um número maior de braços. para que pudéssemos alcançar algumas das ilhas habitadas por ingleses. estamos com idéia de armar um navio para tratar de conseguir escravos negros. na Guiné. acabou por fixar-se nordeste. a 1O de setembro de 1659. do governo. e afinal. O vento. Nos primeiros dias de viagem. O céu turbou-se. para minha desventura. como se fora noite. vindo de sudeste. muitos anos atrás. levantou-se violento temporal. Às escondidas. enegreceu-se todo. estávamos a sete graus e vinte e dois minutos de latitude setentrional. equipado o navio. por uns momentos. mais o capitão e um grumete. estava escrito que aquela viagem deveria terminar desastradamente. Os meus sócios ficaram a zelar pelos negócios. Depois de muita luta. e. O que avistávamos. No décimo-segundo dia. apavo13 rados. e lá fomos nor-noroeste. Todavia. data do meu embarque em HulI. assim. foi caindo. a calma voltou e pudemos. porém.um segredo. nem para que plagas fôramos levados. de volta. acabei concordando em aliarem a eles. outra coisa não fizemos. desembarcaremos secretamente. com o barco judiado e a fazer água. . aliviados. já que. por muitos dias. seis canhões e catorze homens. Não sabíamos onde estávamos. que. Pensei.Terra! Todos corremos a olhar. senão garrar e garrar. até que desapareceu. ali pelas duas horas da tarde. E assim. é claro. gritou. fazer os reparos que. o vento virou para noroeste. O navio que nos levava tinha cerca de cento e vinte toneladas. e tudo teremos triplicado. a pouco e pouco. Que me dizes? Será um achado para a nossa lavoura. obedecendo ao furor da ventania. com bom vento.

que lhe soergueu a proa. como se não bastassem os males todos. Consternados. transidos. era ilha? Era continente? Olhávamos. o barco. fazia-nos ver que tudo estava perdido. furiosos como estavam o vento e o mar. E. fomos separados. uma vasta vaga terrível quebrou-se à popa do escaler. . por demais enfiado na areia. ameaçando-nos a vida. na direção em que. quando um vento. misericordioso. rangendo. do fundo da alma. dentro de todo aquele pandemônio. eis que. e. pedindo socorro a Deus Nosso Senhor. A maneira como encalhou o navio. Então. para que tivesse piedade de nós. rezando e remando. Senão quando. em minutos iriam cobrir-nos. uns para os outros. foi encalhar num banco de areia. fez-se tão violento.aflitos. não íamos de encontro à morte? Sim. Pusemo-nos. aumentando sempre e sempre. com uma forte guinada. Depois de muito custo. fomo-nos aboletando por toda a sua extensão. remando e rezando. Tragados. para 14 safar-nos da embarcação condenada. a má sorte que. sempre que possível. a remar. Pobres dos homens. mudos. principiou a agitar as águas. As vagas. assim que chegássemos perto da costa. porque. a princípio muito fraco. despejavam-se de todos os lados. desabou por cima de todos. estivesse a terra que avistáramos e que o negror da tempestade encobria. nos desviara tanto. depois mais forte e morno. tudo se espedaçaria. na borrasca anterior. então. quando em desespero! Buscando a terra. Num instante. à tona. A ventania cresceu. que. a rogar a Deus que nos guiasse. era certo. como terríveis montanhas. conseguimos jogar o pesado escaler ao mar. com todas as forças. as vagas tão impetuosas. com grande dificuldade. Atirado por todos os lados. antes que fosse tarde. tratamos de lançar um escaler às águas. rogamos a Deus. e virou o barco. julgávamos. o que me restava fazer era suster a respiração e manter-me. nem nos dando tempo de gritar.

Esfomeado. girando e regirando. vivo. Felizmente. que comeria? Sem armas. percebi que a noite não tardaria. por certo.Deus piedoso! Como é possível estar eu aqui. porque. cambaleando. E à medida que ia o tempo passando. Praticamente sem nada. sob o peso da desgraça. reanimei-me. não o sei exatamente. que. Onde estariam? Viveriam? Percorri grande extensão da praia e não encontrei viva alma. sem saber onde poderia abrigar-me . como um louco. foi por um só instantezinho. tão selvagens se apresentavam? Apenas uma faca me viera presa à cinta. porque vivo. mas. até 15 que. agarrar-me a algo bem sólido. e tão desesperado me senti. levantei-me. até que. o sol escaldava. era um pouco de fumo. invadiu-me tal angústia. não mais me sustentando. aquelas plagas abrigariam. caí por terra e lá me deixei ficar. quase perdi os sentidos. Estava tonto e fraco. E os pensamentos voltaramse para os meus camaradas. Minha situação era terrível. a soluçar perdidamente. mas gritei: . como barata tonta. que trouxera numa caixa. Então. avancei mais para terra. tendo avistado um rochedo à minha frente e vendo que as águas para ele me levavam. quando mais calmo. desesperadamente. caí de bruços na areia encharcada e tudo ao meu redor se apagou. Quando as águas recuaram. criei alma nova. como defender-me de animais ferozes. dei de correr. num baque mais forte das águas. recobrei o fôlego pude. dum lado para outro.Eu ia e vinha. o que possuía. No navio encalhado QUANDO tornei a mim. sem saber o que fazer. que. fui-me compenetrando de que apenas eu sobrevivera à tormenta. em terra? Consolado pelo pensamento de que não devia lamuriarme. Quanto tempo assim permaneci. até que. A bem dizer.

toda a pólvora que trouxéramos. foi a descoberta do escaler. Com a maré cheia. Quando acordei. com muita água no porão. com calma.duma boa meia milha. então. fui saltar no castelo de proa. Seca toda a provis ão de boca. do qual bebi um copo. Com o corpo doloridíssimo. enquanto a tudo inventariava. 17 Morto de fome. Volteei o casco e descobri uma corda que pendia da proa. fora. claro e sereno. na sua maior parte. marinhando costado acima. mais ou menos perto da costa. acomodando-me o melhor possível numa forquilha. que o vento e a maré haviam lançado à praia. para. mas logo me encheu de calor e me reconfortou extremamente. espe16 rar o dia. Antes. que teve o condão de fazer-me sorrir. No camarote do capitão. coisa. brilhava já o sol e bandos e bandos de aves. tudo estava seco. de novo. Outra surpresa. Pus-me. grandes e miúdas. Uma grata surpresa aguardava-me.da escuridão e dos animais daquelas brenhas. onde se prendera. coisa que me entonteceu. de águas muito límpidas. numa alta árvore. e. tomei duma mala cheia de bolachas e. Exausto como estava. tendo garrado. na despensa. Como entre mim e ele surgia um vasto braço de mar. a estudar um meio de a tudo o que fosse útil levar para terra. de modo que não caísse. adormeci profundamente. porém. seca toda a rouparia. Agarrei-me a ela e. e. foi-me um sacrifício descer do meu poleiro. fixar-se perto do rochedo em que me salvara. nadando para o navio. pus-me à cata dalguma árvore. trepado nos seus galhos. grasnavam e cantavam no céu e na terra. nele matei a minha sede. despindo minhas roupas. procurei e encontrei um regato. o navio encalhado escapulira da prisão. da noite passada numa forquilha. Com a madeira que encontrei . encontrei vinho. ia comendo com deleite. se conseguisse dormir. e o mar tranqüilo. mas. Estava um dia lindo. O navio estava arrombado. e fui empoleirarme. atirei-me às águas. lá o deixei.

encontrei e pude operar bem. lancei uma vista de olhos ao horizonte. muito ao longe. com grande ruído de pios e grasnidos. vi um grande pássaro pousado no galho duma árvore. uma vez a boiar. resolvi fazer uma jangada. mastros de joanetes e mais peças. para levar a tiracolo. pão. três barris de pólvora. que jamais vira. e aquilo me tranqüilizava. Quando descia. nela fui metendo tudo aquilo que me seria sumamente precioso: tábuas. Exausto mais feliz. de várias espécies. desejoso de conhecer a ilha real situação. um ponto em que o desembarque me fosse propício. pedaços de carne seca. que não eram demasiadamente pesadas. que espécie de gente? Selvagem? Aflito. levantaram vôo. E tratei de alcançar. na praia. de todos os lados. e foram buscar o outro lado da ilha. graças a Deus. nela vivendo apenas animais e aves. jazia desabitada. garrafas de águas medicinais.a bordo. . um saco de chumbo. bandos e bandos infindos de passarinhos. o ferramentas do baú do carpinteiro. e iniciei a caminhada no rumo da elevação. quer idéia de outras terras afastadas. Aquela terra. Imediatamente. queijos. meti pólvora e chumbo em duas bolsas. que desse qual. o que era um tesouro mais valioso então do que um navio cheio de ouro ou de prata. E duas espingardas e duas pistolas. numa nuvem. ilhas ou ilhotas. ao longe. peguei duma das espingardas. pertencia a continente? Era ilha? Seria habitada? No caso afirmativo. tratei de pôr a salvo tudo aquilo que comigo trouxera e. várias bolsas. Quanto a feras. embora com muito trabalho. de rum. estava exausto. reconheci que estava numa ilha. Então. tendo avistado. muito. perguntava-me. girando vagarosamente e. Quando terminei. uma alta montanha. A ilha não era cultivada. 18 Quando. o que. suspirei. e disparei a espingarda. sequer vira uma única. a visão não alcançando nem sequer uma sombra. do topo. arroz. quão triste o meu destino. duas espadas meio enferrujadas. a tudo amontoei na jangada. e.

roupas. sem esporão nem garra. foi-se desmantelando pouco a pouco. Para passar aquela noite. ia já pensando numa segunda visita ao barco. nele encontrara navalhas. dois barris de balas. e. E ficava a pensar. 19 Havia já treze dias que me encontrava na ilha. Fiz inúmeras viagens ao navio. dele tirando quase tudo. espingardas de caça. um colchão e ótimos cobertores. fiz uma como cabana. para escapar dos selvagens que talvez habitassem a terra. Uma única preocupação me perseguia. e açúcar. hoje aqui. que cheirava fortemente e. tesouras.Para que me serves? Uma só destas facas é muitíssimo mais preciosa do que os tesouros todos do mundo! Contudo. mais pólvora e chumbo. alavancas de ferro. para terra. e farinha. ao barco encalhado. uma pedra de amolar. e aguardente. ao dinheiro.Ô metal impostor! . consegui pregos. mosquetes. Abrir uma cova? Levantar uma cabana? O lugar mais indicado era perto de água doce. verrumas. Estabelecimento na ilha O navio. foram na praia. num sítio que fosse seco e saudável. parafusando sobre que tipo de casa haveria de fazer. Com efeito. de bico adunco. de preferência com vistas para . levei-o comigo. agulhas. que muita coisa útil ainda lá havia. tendo ido. vários machados. um bom catre. e.exclamei. amanhã ali. não se prestava para a alimentação. . europ éias e brasileiras. . mais uma vez. Mais rum. agora. com o tempo. enquanto a ia levantando. de carne escura e dura. moedas de ouro e de prata. com a madeira que trouxera do navio. colheres. garfos e um bauzinho com muitas libras esterlinas. e os seus destroços. facas. e bolachas. dia e noite: viver em segurança. e de nada me serviram. pois.O que alvejara era uma espécie de gavião.

Levei para casa tudo o que tinha. quando. e ali. em verdade. suando e gemendo. num semi círculo. dormi o primeiro Sono sossegado. Quando seria esse dia? Optei por uma colina que me pareceu reunir todos os requisitos. levantei uma forte e alta paliçada. para o meu almoço ou jantar. seria a liberdade. . se Deus misericordioso assim o desejasse. adega e cozinha. sozinho. completava o círculo. naquela terra. para caçar e para melhor investigá-la. Durante a construção de minha casa. Foi um trabalho duro. passando-a para dentro. verdadeiramente. que me desgastou seriamente. saía somente pelas imediações. Quando pensava nisso. se levanta o que quer que seja.o mar. Sabia que estava seguro. abri um rombo bastante amplo. era como um princípio de caverna. de modo que o rochedo. construi a minha primei20 ra casa. Estabelecido. Perdoem-me os leitores se eu. e. que era como uma vasta muralha. tratei de fazer incursões pela ilha. mas estava satisfeito. o que passou a ser o meu celeiro. para abater uma ave 21 ou um coelho. chamo de casa o que. porque a obra me pareceu tão forte que não havia o que a deitasse por terra. tal o declive do terreno. Aos poucos. teria oportunidade de atrair-lhe a atenção. eu retirava. meio cavado. de modo que. e o que e pequeno se torna muito grande. um misto de doçura e amargara me invadia todo. então. ao pé dum rochedo. escada que. não passava dum barracão ou duma tenda ao lado dum buraco. subia-se por uma escada apoiada à paliçada. fui completando a minha obra. num certo ponto. onde se tinha a impressão de que havia uma entrada subterrânea. defendendome. no meu orgulho. e aquilo me deu uma idéia: escavando-o. À frente da casa que ergui. Para entrar na casa (não havia porta). mas. porque. a obra se nos afigura tão grande e tão sólida que não se pode conter o júbilo. e então. O rochedo. uma vez em cima da fortificação. surgindo um barco à minha frente.

mas não arredou pé. levando-o comigo. Perdida a mãe. e passando sete dias. mais a cabra abatida. Tão fácil então.Aqui aportei a 30 de setembro de 1659. penso que Deus. não me permitiram a aproximação. De mansinho. fulminado. mas. com um salto. pouco depois. deparei. que trouxe .. e. feito estava. E me perguntava. como criança. ficando firme ao lado da mãe.Que seria feito sem as armas e tudo o mais. acheguei-me do pequenino órfão. com um bando de cabritos monteses. ouvi-me a balbuciar: . bondoso. ao formular aquela pergunta. Um belo dia. de olhos a arder: . se espaventou. Quando pensava no tempo que ainda devia permanecer 22 naquela ilha coisa que só Deus sabia . o que fora feito. numa clara manh ã de céu muito azul. assim obtendo o meu calend ário. nem bem acabara de repetir aquela lamúria. Foi uma alegria. Só então percebi que. a seu lado.ao me aventurar para mais longe. Para não me perder em confusões. um outro maior ainda. com muita pena. O animal. O tempo foi coisa que me preocupou. Todos os primeiros dias do mês. porque os animais. e nos braços inscrevi: . agarrei-o.uma grande tristeza me invadia. a faca. naquele ermo. os meses e os anos. com as semanas. topei com uma cabra a pastar. E no poste mareava cada dia um risco. Selvagens e ligeiros. sem comer nem beber. Apontei a espingarda e disparei. Aquilo me encheu o coração de tristeza. um cabritinho. não titubeei. sem dificuldade. perdidamente. numa elevação. e então me punha a chorar. ariscos. tive que o matar. caiu. apiedouse de minha miséria.Que será de mim? Que será de mim? Um dia. de maneira que. fazia um risco maior. ficou o pobre tristonho. levantei perto da praia uma alta cruz. mas uma alegria que durou muito pouco. ainda de mama. para um tiro. Deu dois ou três pinotes. numa das depressões pelas quais passava. e. porém.

Apenas escurecia. ferramentas e tudo que possuía. que não me largava um só instante e ao qual me afeiçoei profundamente. com trabalho duro. tecida com fio de carretel. e comecei a pensar num diário. Terminada a minha casa. entre as coisas que trouxera do barco. sombria e fumacenta. luz não muito viva. e fiz muita coisa que me foi de inestimável utilidade. um dia. Aos dois bichanos. luz. Sem elas. mas. que levei avante enquanto me durou a tinta. assim. fiquei a pensar seriamente na resolução daquele problema. sem as espingardas. dono de móveis. cão que me foi um grande e fiel amigo. via-me obrigado a buscar a cama. e com uma comprida mecha. como escrever à vontade? Aplicadamente. . supri a minha necessidade de luz. Com efeito. tudo aquilo de que necessitava para viver? Devo observar que. armazenava-lhe o cebo. com relativa facilidade. contava com a minha Bíblia. Minha casa. dois gatos e um cão. vi que lhe faltava muita coisa. com pena. senti-me mais feliz. tinta e papel. e banquinhos. meti mãos à obra. Um dia. meio. e cabides. assim que fizera a primeira viagem com a jangada. e uma palmatória. de modo que. que fizera moldando um bom barro liguento. deixou o navio e veio ter comigo. Estabelecido. que me enriqueceram a casa e me deram muita satisfação. Mesa e cadeiras eram as mais necessárias. Encheu-me duma calma como havia tempos não experimentava.do navio? Isto me consolou profundamente. não estaria em piores condições? Não conseguia. ali pelas. foi melhorando. levei-os comigo para terra. com a madeira que comigo trou23 xera do navio que já se fora. Resolvi-o mais ou menos: quando matava uma cabra. E prateleiras. Quanto ao cão. sete horas. O tremor de terra Um candeeiro era coisa que me fazia grande falta. em todo caso.

como também pescava. Que se passava comigo? Percebi. suavemente. Como dele precisasse. baloiçando ao vento. quando maduros. se não estivesse chovendo. larguei o que . descobri. voltava a trabalhar. onde havia grãos que os ratos roeram. por duas ou três horas. percebi espigas.tinha nas mãos e entrei a correr. que. Qual não foi o meu espanto quando. dado por Deus. em direção da estacada. Meu tempo era dividido. o farelo que o enchia. abalava-se terrivelmente. com alguma caça. pelo chão. e. almoçava o que tivesse. escoras que pusera aqui e ali. receoso de que tudo viesse abaixo. certa manhã. até a tarde. economizando a bolacha do navio. para guardar pólvora. algumas hastezinhas. de mistura. com o tempo. saía com a espingarda. depois do quê ia deitar-me. De manhã. galgando a escada . De novo de pé. De volta. Pelo meio-dia. ao lado da casa. para pôr tudo em ordem. numa caixa. então. com o sol a pino. dirigi-lhe sentida prece de gratidão. quase sempre. Era pouco antes da estação chuvosa. Cheio de medo. 24 Colhidos. com o calor. Fiquei aterrorizado. salvo um dia menos feliz.vasculhando isto e aquilo. mais tarde. Assim. depois da sesta habitual. onde pudesse ter o mais necessário ao alcance da mão. Prescrevi-me uma rega que cumpria religiosamente. pus-me a trabalhar umas prateleiras. preparava-se e ia trabalhar no aperfeiçoamento de minha casa. até as duas horas. que a terra tremia. perto do rochedo. foram crescendo. de animais. pezinhos de arroz! Certo de que Deus era bom para mim. de modo que. tinha carne de aves. e assim vi-me grandemente enriquecido. fui sacudir. Uma tarde. sinto algo esquisito. viçosas. o trigo e o arroz. como se não me pudesse manter de pé. descobri um saco. que guardava muito bem fechada. Que satisfação! Era trigo! E ali. dormindo. Não só caçava. Senão quando. reservei-os para semear. ou de peixes à minha mesa. na estação própria.

exclamei. coberto de nuvens negras. sinistramente. O céu. e altos vagalhões foram-se sucedendo. a ventania arrancou árvores. refleti que. Por três horas. e o pavor que me ia invadindo a alma fazia com que o sangue se me gelasse nas veias. o terreno tremeu. até que se manifestou com toda a sua fúria. bramia. conseqüência natural do vento como a 26 chuva. Estava encharcado.gemi. levantando espessa nuvem de pó. sob a chuva. O mar. ia-me deixando . um pouco mais calmo. deixando escapar um grito de angústia. situado a mais ou menos meia milha de casa. e o eco. como outro nunca até então eu vira. temendo retornar para o meu abrigo. Duas escoras estalaram em minha casa. começou a soprar. e vinha encalhar a praia.Senhor . . . senti ainda a terra a tremer debaixo dos pés. com mais. Um furacão. fraco e morno. mas. como um feio trovão.Meu Deus! . grande tremor de terra que sucedera. e foi aumentando gradativamente. A queda do vento trouxe-me certo alívio. varreu a ilha. caíra de joelhos e dirigia-me ao Criador. depois do que.Que irá acontecer-me? 25 Por três vezes. molhado até os ossos. que tinha sido tão bondoso comigo. ali. . deslocou pedras.com grande rapidez. entrou a chover. Assim que alcancei o outro lado da paliçada. e. ruiu com grande estardalhaço. cada qual mais pavoroso. Um vento. Nunca. tendo amainado. branco de espuma. furor. ao ver todo o meu labor em perigo e a minha própria vida suspensa por um fio. mais me espantou e descontrolou o coração já bastante espinoteado. de acelerar-me o coração e de me encher a alma dos mais negros prenúncios. Um grande rochedo. . vira semelhante fenômeno. Quando percebi. O mar.tende piedade de mim! Escurecia. a pouco e pouco. em toda a minha vida. arrasou a vegetação. metia medo. literalmente. então. foi-se agitando. a princípio fraco.

ent ão. a temperatura desceu. melhorado o tempo. Continha o animal uma grande quantidade de ovos. era-me doloroso. durante a noite. A excursão Depois do temporal. À noite. casa. sem que pudesse contar com quem quer que fosse. muito fervorosamente. Em frio esquisito. os braços e as pernas. O terremoto e o furacão fizeram grandes estragos em casa e eu tive de trabalhar com muito tudo de novo estivesse em ordem. Comecei. como nada viesse a suceder. animei-me e corri para casa. Afinal. senti melhoras. Tendo percorrido. Cambaleando. alta febre assaltou-me e uma tre27 menda dor de cabeça me pôs alucinado.ficar. principiaram incômodos tremores e os dentes deram de castanholar. insistentemente. não pude dormir. levei-a para. sem cessar. Pela madrugada. Passei muito mal. e. a Primeira que via por aquelas rudes paragens. assim que cheguei à praia. Choveu durante toda a noite e uma grande parte do diante. meio anuviada. Como. tomado por um febrão que me . Encantado. para observar quais os estragos que lhe causara o temporal. não me largou por dois dias. Ao terceiro. a rezar. com dificuldade voltei para casa. encoberto o céu. Contudo nem bem dera quarenta ou cinqüenta passos e uma vertigem toldou-me a vista. sem saber que resolução tomar. havia muito. Dias mais tarde. tomei da espingarda e sai para caçar. dei com uma grande tartaruga. sem víveres que estava. coelhos e tartaruga pareceu-me a mais saborosa vara. parte da ilha. Saber-me doente. suplicando a Deus que fosse misericordioso e tivesse pena das minhas desventuras. com a cabeça pesada. que me gelava as costas. de pernas fracas e a suar frio. não saboreava outra carne senão a de cabias. pensando já em fazer uma maior exploração naquela terra e assim ter a oportunidade de descobrir em que ponto viviam. Senti-me doente e.

À idéia de que me curara pelas invocações que fizera a Deus. com alguns ovos de tartaruga. já que o meu alimento fora. arrastei para minha casa. A 15 de julho. Tal mudança de planos foi providencial. o mais freqüentemente possível. Tinha a intenção de seguir pela praia e percorrer. para a caminhada estabelecida. Completamente curado. tão somente.Senhor meu! Misericórdia! Vinde em meu socorro. então. Estava. curso acima. dei com a Bíblia. saí. as primeiras palavras que li foram as seguintes: . Quão aplicáveis eram à minha situação aquelas palavras! Impressionado. Mexendo nos meus guardados. punha-me a rezar e a implorar a Deus que tivesse piedade de mim. encontrei prados maravilhosos. lançando os olhos para o livro aberto. sem sossego. saindo de casa ainda pela madrugada. delirei e delirei. tão aprazíveis que me vi tentado a mudar de resid ência. a orla da ilha. abri o exemplar que tinha nas mãos e. recuperei a saúde. contudo.. ainda com o escuro da madrugada.. resolvi seguir o regato que passava perto de casa. Havia já dez meses que me encontrava na ilha deserta. Comecei. bolacha e água com uma dosezinha de rum. fui melhorando. Depois de ter caminhado uma longa extensão. Quando me senti com forças para sair. Depois. . de todo. durante toda a manhã. E dizia. e eu te livrarei e tu me glorificarás. que.consumia todo. subindo pela margem. muito fraco. decidi que. até que. comecei a alimentar-me melhor. a virar na cama. com dificuldade. nem bem iniciara a viagem. com lágrimas nos olhos: . cozidos na brasa. Todavia. resolvi levar avante o que estabelecera. porque sou muito desgraçado! A pouco e pouco.Invoca-me no dia da tua aflição. antes da doença: excursionar pela ilha em busca da região das tartarugas. a fazer os prepara28 tivos. peguei a espingarda e tive a sorte de abater uma cabra. faria da Bíblia leitura obrigatória. Nas horas de alívio.

No dia seguinte. por falta de cultura. . como um homem que tinha duas casas. comecei metodicamente. sob um peso tremendo. apliquei-me à sua leitura. a ler a Bíblia. em que chovia torrencialmente e eu me via preso. Foram descobertas maravilhosas. Nas estiadas.Encontrei muitos pés de fumo e uma grande quantidade de Plantas que me eram totalmente desconhecidas. Considerei-me. muitos limoeiros carregados. coisa que muito me valeu e com o que. saía por perto. Quando as chuvas vieram. Das uvas. Que alegria. voltei para casa. passei toda a estação chuvosa em minha casa. e melões e uvas. me deliciava. estas pendendo das parreiras em grandes cachos já maduros. gostosamente. Quantas consolações interiores eu tive. colhendo de tudo um pouco. .disse para mim mesmo. para que tudo me corresse bem. até então completamente desconhecidas! Que bem me fazia aquela incursão nas Escrituras! Assim. de vez em vez. Principiei pelo Novo Testamento e. de quando em quando. a que então 29 senti! Ali encerrei a minha excursão e. passava uma temporada. meio selvagem. obtive passas. tornei a voltar e acabei descobrindo.Assim que as chuvas cessarem . E canadeaçúcar. então. A grande excursão TINHA em mente . tranqüilamente. Tão encantado fiquei com aqueles prados que resolvi ali levantar uma casinha. à beira do fogo acolhedor.a idéia de conhecer toda a minha ilha deserta. com a ajuda de Deus. onde. a ver se conseguia alguma caça.coisa já de algum tempo . Durante o longo período.quem sabe. aqueles cobrindo o chão. farei uma grande excursão para conhecer . um pouco mais adiante. encontrava-me bem provido. aos meus pés o cão amigo. seriamente. os dois gatos a dormitar junto ao borralho. sempre ao meu lado. muito importante. no ponto de serem colhidos.

para domesticar e ensinar a falar. vi terra ao longe. Mas a grande excursão levou-me a vários lugares verdadeiramente admiráveis. pios e cantos de aves. já meio irado. grasnidos. tão distante estava e meio envolta num como nevoeiro. então. bem ao longe. as águas do mar muito calmas. que não a minha. pronunciou muito distintamente o meu nome. duma quantidade de pólvora e chumbo. Encontrei raposas. Tomei dum machado. até que. com aquele seu jeito de gingar. mais alegre e cheia de vida.Robinson! Robinson Crusoé! 31 Quão esquisito. que meti dentro dum saco. e o desejo de apanhar um deles. o único jeito que então se me deparou. chamei o meu cão e parti. Passei um tempão procurando acertar um meio. pareceu-me diferente. A casa. Era um dia lindo. fiquei a olhar aquelas lonjuras. lebres. vi recompensado o meu esforço: o papagaio. a cismar. que lhe incutira durante anos: . vira dali. chegou a vez de satisfazer aquele desejo. ensurdecedoramente. ouvir outra voz. Passou-se muito tempo sem que eu. Como o dia estava muito claro. muito diferente. descobri o mar. indo daqui para ali. Prepareime com alegria.uma boa parte desta terra? 30 Um dia. cobras (o que jamais vira pelas minhas bandas). levou-me a pensar na melhor maneira de fazê-lo. Por longo tempo. pudesse pô-lo a falar. que derrubei com uma bordoada. . embora me empenhasse. dalguns cachos de passas e dum punhado de bolachas. Depois de ter vencido uma alta montanha e ter atravessado todo um grande vale. mas. mas não sabia dizer se era continente ou outra ilha. a excogitar que lugar seria aquele. espingarda a tiracolo. afinal. um dia. durante alguns dias. consegui agarrar um filhote. com satisfação. Vi inúmeros papagaios. ali. ia uma algazarra de chilreios. de céu azul e ar puríssimo. vira daqui. enquanto ao meu redor.

que luta foi! . amassá-lo. padeiro. colher. na jornada de volta. e o tempo escoando-se. durante a qual pus-me a fabricar uma gaiola para o papagaio. cansado que estava de pousar no mato.. Só então percebi como escolhera mal o local da minha morada. Durante o mês de novembro colhi cevada e arroz. por mais encantador que fosse aquele lado e mais povoado de animais e aves. depois. porque. Corri e apanhei-o. Todavia. em pouco tempo tornou-se tão manso. debulhar. Ia. As espadas vindas do navio serviram-me de foices. a satisfação que senti ao rever a minha moradia. tendo. muito grande. Caminhei. não sem grandes canseiras. quando não mais dispusesse de pólvora e chumbo para caçar. ora numa caverna. cercado dos meus amiguinhos. com a intenção de levá-lo comigo. ao longo da costa. Com o correr dos dias. quando julguei conveniente voltar para casa. peneirá-lo. moer o grão. depois daquela ausência. onde podia descansar o corpo dolorido. moleiro. porque já me acostumara com a minha casa e a paisagem que a rodeava. oleiro. Grande. tão amigo. na paz do Senhor. e penso que tinha já percorrido doze milhas.topado com um cabritinho. saltou para ele e o agarrou. que nunca deixou de seguir-me. para que dele pudesse servir-me. O meu cão. cuja cultura defendera dos animais e das aves. Deixei-me ficar em casa por uma semana. como um cachorro segue o dono. não me mudaria. num grande cercado. cesteiro. fui-me aperfeiçoando naquilo que jamais pensara pudesse fazer: tornei-me bom carpinteiro. 32 Quanto ao cabritinho. levando a vida. .pombos e as célebres tartarugas. bem tratado e acariciado. desde algum tempo. ora sobre árvores. um razoável cultivador. um bom rebanho domesticado. ceifeiro. acariciava a idéia de formar. que já fazia parte da família. Que dificuldades encontrei para tudo! Semear. assim. repentinamente.

sem cessar. não muito distante de casa. Não podia queixar-me. vendome. Mais animado. ia vivendo alegremente. travessas. gastei para mais de uma semana. muito ao longe. Fiz algumas. completamente afeito àquela solitária vida na ilha deserta. não me saía da cabeça. Mas não desanimei. potes e bilhas. dos quais tinha grande necessidade. livre de tão miserável situação. virado de quilha para o ar. Se assim pensei. forno. que uma coisa me dizia ser povoada. aguilhoava-me sempre e sempre. procurei fazer algumas vasilhas. por ocasião da grande excursão que fizera pela ilha. sem falar nas coisas que me eram necessárias para o trabalho da terra. teria resolvido o meu problema. um instrumento deveras grosseiro. assim mesmo. assim. tigelas. por exemplo. de riquezas. de testa enrugada. desejara eu fabricar utensílios de barro. Tendo encontrado argila. Enxada. utensílios de barro. a solucionar os meus problemas. todo cheio de rombos. Fui vê-lo. sem ninguém que me auxiliasse. onde guardar o meu arroz. e para tê-la a meu serviço. Ciente de que habitava uma ilha deserta. cozidas ao fogo. O barco ÁQUELA terra que avistara. e o de que necessitava era de utilidade e não de beleza. Sozinho. Tive. Um grande desejo de visitá-la. e o encontrei mais afastado ainda. sem enxada? Foi muito trabalhoso consegui-la. o meu trigo e a minha cevada. Contudo. terrinas. fabriquei pratos. satisfeito. aos poucos.Tempos atrás. eram úteis. saindome. impossível movê-lo onde estava. que depois da borrasca e do naufrágio fora dar na praia. resolvido a construir . Minha casa. Possuía fogão. saí dali e rumei para as matas. melhor o fiz. Cocei a cabeça. assim. fora-se enchendo de coisas. E. Como cavar a 33 terra. Acostumado como estava. onde passei a escolher um bom tronco. mas tão grosseiras e desajeitadas me saíram que dava dó vê-las. Só então é que ocorreu dar uma vista de olhos no escaler do navio. se conseguisse alcançar aquela terra.

desanimado e cheio de amargor. Em terra a tora necessária. Como levar a pesadíssima canoa até o mar? Construída não longe da praia.Ô estúpido! Grande pedaço de asno! Por que não pensaste. ao levar . Tudo correra otimamente. tendo experimentado todos os meios para mover o meu barco. 34 Quando me assaltavam tristes pensamentos. bem grande. no triste mister. muito breve. como adiante se verá. como jamais igual tivera até então. animava-me a prosseguir. dos seus dez palmos de diâmetro. comprimindo as fontes que me latejavam. enterrei o rosto no côncavo das mãos. e bem triste. por longo tempo. estivesse a minha salvação. estivera bem longe de mim. não me ocorrera uma grande dificuldade. principiei a trabalhá-la a machado e a fogo. apresentava-se-me um problema de difícil solução. antes de te meteres a tão ingente trabalho? Sentei-me na borda da canoa. não o consegui nem mesmo a metade dum centímetro. Sim. à idéia de que ali. Áspero serviço. no afã de abater a árvore e trabalhar o barco. E gritava. De tanto matutar na maneira de deslocar a canoa. asperamente: . mas. repreendendo-me. aquele de derrubar a árvore escolhida. talvez. bastante espaçosa para levar vinte e tantos homens no seu interior. tremenda dor de cabeça me assaltou. Duas semanas lá se foram. triste. e ali me deixei ficar. porque. Uma alegria imensa me invadiu a alma. estar a quilômetros e quilômetros de distancia das águas. mas consegui uma ótima canoa. pensando na loucura que me tomara. sempre com grande entusiasmo. para afugentar o pessimismo: . agora. Na ânsia de construir o que pensava ser o meu salvador. alegria que. mas. coisa que. Suava em bicas.um barco. que me levasse para a civilização. se dissipou. dir-se-ia. um belo cedro. então.Vamos! Vamos! Nada de nuvens negras! Está chegando a hora da libertação! Para a frente! Foram três meses de rude batalhar. tão rude era trabalho. exclamava bem alto.

No Brasil. mas. 36 assim. e era o que mais me interessava. em primeiro lugar. Afinal. experimentei construir um deles. foi-mo deveras custosa. depois de muito trabalho. em lugar de me deixar levar pelo desespero. levava vida suave. que me defendesse do sol e do mau tempo. mas cumpria o seu papel. de modo que tinha necessidade de renovar o meu guarda. Passada a grande dor de cabeça. com ela também se foi o meu azedume. naquilo que me ia findando. isto sim. Não tinha nada a desejar. não passava dum remendão. para casa. Como alfaiate. abatido e todo pessimismo. começava a desfazer-se. sem que nenhum proveito daquilo me adviesse. A minha roupa. Afinal. se algo errado me sucedesse. consegui fabricar outro. Em seguida. que até ent ão me vinha provendo. de modo que devia trá-lo sempre aberto sobre a cabeça. ai! Era muito fácil tê-lo armado. Ao invés de agradecer a Deus. depois de muito custo.35 avante uma coisa antes de ter calculado todas as dificuldades. Então. muito mais amena e feliz do que no começo. Não possuía tudo? Não era o senhor da ilha? Se quisesse. deixei todo o labor de meses. Assim. porque uma empresa me saíra mal? Recriminara-me e me exaltara. onde era muito usado. não podia dar-me o título de rei ou de imperador? Quem mo contestaria? Não tinha rival. mas não havia meios de fechá-lo. Nada me faltava do que era necessário à minha conservação. e me fui. e dos piores. que fizera eu. e. que não ficou nada mau e que correspondia às . vira a sua fabricação. cosi dois casacos e algumas calças. Essa tarefa. roupa. Havia já algum tempo que vinha pensando em fazer um guarda-chuva. e só depois de muito tempo e muita paciência consegui terminar um. Fiz um gorro. e pensar. consegui roupas de peles. tão bondosamente. antes devia dar graças aos céus por ainda estar vivo. Não saiu nada bonito. nem competidor algum. por exemplo. dos animais que ia abatendo. contudo. Mas.

mas com ele faria a volta à ilha. cerca de duas léguas. admirando a ilha. voltando os olhos para trás. enorme e pesadão. foi. tudo pronto. jamais pude utilizálo. de ir em busca da distante terra vislumbrada ao longe. como um perfeito aristocrata. tranqüilizando-se o meu espírito. . ou. Não tinha pretensões. Quando navegava calmamente.escolha o leitor o que melhor lhe parecer. Um dia. cio que. Quanto ao primeiro. então. quando dele não precisava. uns elevando-se acima das águas. de guarda-chuva espetado à popa. Era a seis de novembro e estava no meu sexto ano de reinado.minhas necessidades. além de semear. então de pequenas proporções. não acreditava tê-las feito. A ilha não era muito grande. com grande orgulho. metiao debaixo do braço. ou de prisioneiro . com este pequeno barco. traiçoeiramente escondidos no seu seio. A leste havia uma série de rochedos que avançavam. outros. de secar as uvas e de ir à caça. tão fantásticas se me afiguravam. então. para viajar à sombra. construir um barco. abri um canal e fi-lo. Podia. para que pudesse movê-lo do lugar 37 em que se encontrava. ia floreandoo. deslizar até o mar. a passeio. icei as velas e lá me fui. Ia vivendo com método. nem mesmo um canal tão largo e tão profundo me fora possível levar avante. A minha principal ocupação. com muita calma e com tudo muito bem calculado. cinco anos transcorreram. assim. mar adentro. que a alegria de viver tomou conta da minha alma que cantava. Um passeio no mar Foi o tempo passando. com ademanes. Foi. no meu cruzeiro. e tantas coisas realizei que. Resignado à vontade de Deus. Quando o terminei. de modo que. Abria e fechava muito gostosamente. enfrentar o sol e as chuvas. bem provido de víveres. muito numerosos.

que se dirigia. estava a uma prodigiosa distância da ilha. que em pouco me levou para muito longe. a que já me referi. a fim de afastar-me de tão perigosos lugares. a todo o instante. e que me levou para a salvação. sem que coisa alguma pudesse fazer. em alto mar. da terra para o mar. encontrar-me entre duas correntes: uma. como louco. era. 38 Estava azul e muito límpido. de repente. poder estar na minha casa. após imensa canseira. que era a minha prisão. então. do mar para a costa. tão violenta. que me impelira da terra para o mar. Quando despertei. que me parecia bastante segura. ouvi que me chamavam com muita ênfase. Por longos momentos. Na angra. Senão quando. mais delicioso do mundo! Remando com todas as forças e sem desanimar. o sítio. tudo o que mais desejava. adormeci. quando percebi. num instante. consegui. em fiapos. tanta a minha fadiga. já quase a chegar. assaltado por terríveis pensamentos. consegui libertar-me da embaraçosa situação. que me arrepiavam o corpo todo. então. e outra.de surpresa. ficou a girar sobre si mesmo. reconheci o lugar em que fora parar. Fui. e entrei a remar desesperada e rapidamente. agora. me sobreviesse uma feia tormenta? Consultando o céu. deitei-me à sombra e. longe dela. porque morria de fome. Tendo chegado. com um bom vento que começou a soprar. fui colhido por uma forte corrente. porem. amarrado o barco numa angra oculta entre as árvores. julgava chegada a minha hora final. aqui e ali. deixei o barco. interminavelmente. velozmente. tendo depois comido alguma coisa. encetei a caminhada para casa. Como são os homens! A ilha. de joelhos beijei aquela terra com muita unção e. Passado muito tempo. em linha reta. E. Todavia. a pé. como se me apresentava maravilhosa! Toda a minha felicidade. sosseguei. tão afastado que mal podia distinguila. com grande insistência: . com algumas nuvens brancas. e. E se. lá se foi o barco. até que chegou num redemoinho onde.

nem sapatos. meio à maometana. e o seu aspecto. às vezes. que tecera. vestia uma esquisita roupa. não se esqueçam do meu guarda-chuva. perplexo. na província de York. como toda a minha indumentária. até as canelas. ocultava parte das calças. também confeccionada de pele de cabra. ora uma serra e um sabre. feito de pele de cabra. mas logo sorri. que se me escorregava até abaixo dos joelhos. com uns bigodes que. e assim mo terão os pacientes leitores. ou então. digo. e nos ombros as espichado. 39 Retrato de corpo inteiro QUEM. Robinson Crusoé! Quem diabo seria? Estaquei. era bastante assustador. encontrasse um homem que se vestisse qual me vestia agora. tendo na parte de trás a metade duma pele de bode. vejamos: usava um chapéu de copa altíssima. para cobrir as pernas. descobrindo o alegre taramelar do meu bom papagaio. um par de botas deveras escalafobético. como as calças. na Inglaterra. mas arranjara. Vivi mais um ano. tê-lo-ia na conta dos que possuem um parafuso de menos. pendiam sacolas de pólvora e de chumbo. de corpo inteiro. que descia pelo pescoço. desengon çado. não tinha meias. Quase nada me faltava para ser feliz na ilha . A medida que o tempo ia passando. levava um grande certo. tal o arranjo que lhes dei. Senão. julgando-o um triste palhaço. muito largas. muito grande. queimado do sol. teriam parecido bem terríveis. o que seria quase certo. no cinturão.. às costas. cortadas de peles de cabra e de bode. ora levava uma espada e uma arma tiracolo. largas. o casaco. e.quase. grande. o pêlo dessa roupagem toda era tão comprido que descia.Robinson! Robinson! Ó pobre Robinson Crusoé! Onde estiveste. porque a vontade de conversar com um ente humano era grande. sossegado e resignado. mais e mais aperfeiçoava- . ou morreria de rir. na minha ilha. e assim o defendia do forte queimar do sol.

quando me terminasse a pólvora. Num pote. e os gatos. coisas que. andando por toda a parte.. O cão ficava à minha direita. companheiro de todas as horas. dos meus gatos. manteiga e queijo para sempre.O meu rebanho. da minha horta. dos meus rebanhos. irrequieto. gostosa e sempre límpida. davam-me doze litros de leite por dia. cheguei a inventar uma roda.me nas artes às quais me dedicava. Ninguém. Trabalhando sem ferramentas apropriadas. depois dum sem-número de experiências e de malogros. . o que era uma grande despreocupa ção. do meu bom cão. em certas ocasiões. é para a vida toda. no curral. por sempre carne. ao almoço ou ao jantar. vira a fabricação de queijos ou manteiga. sem parada e tagarela. até que moldado com alguma arte. até então.estava o meu rebanhozinho de cabras. As cabras. a olhar-me com amor. dono de tudo: das coisas. e em minha casa havia cestos de todos os tamanhos. por mais circunspecto que fosse. consegui fazer queijos e preparar manteiga. obrigado pelas. Dizia. Nunca. a . com a qual dei a vários objetos muito rústicos uma forma mais agradável e cômoda para o uso. Tenho carne.. por debaixo da mesa. coisa deveras preciosa. rodeado da minha . necessidades.família.o meu curral . basta que não me descuide dos animais. O papagaio era o favorito. deixaria de rir 41 se me visse. também. já meio velho e quase sempre a dormitar. sempre muito orgulhoso: . bodes e cabritos. Um dia. sempre tive em grande abundância. leite. teria eu economizava sistematicamente. daí em diante. No entanto. 40 Fiz grandes progressos como cesteiro. que todos os meios. tinha água fresca. para guardar isto ou aquilo. seja-me ela de trinta. mungira vaca ou cabra. o senhor absoluto de toda a ilha. Nunca. tornei-me excelente oleiro. Eu era o rei. dos meus pastos. pois. Num apartado . quarenta anos.

calma e sã. em compensação. estavam sempre a enroscar-se pelas minhas pernas. Na ilha não havia lobos. daqui para diante. por me ter dado tantas coisas. procurei considerar mais o lado bom da minha condição do que o mau. Procurando alegrar-me com o que possuía e não me desesperar com o que não tinha. Levando. Dava. porque fiquei sabendo o momento exato em que se devia semear. eis a chave que me abriu a porta da salvação. relativamente às coisas que não temos. privado de todo intercâmbio com os meus semelhantes. nada tinha a temer. trabalhar. nem feras carniceiras ou canibais que me infernizassem a vida. cada ano. a regularidade das estações. humildes ações de graças a Deus Nosso Senhor. Estava. mais feliz do que no princípio. sempre. Assim. Isto me valia maravilhosamente. do que . os obstáculos não me desanimaram. uma vida mais suave. por me ter permitido conseguir alimento no meio do deserto. Trabalhar. Possuía as minhas vinhas. porque os desgostos que nos avassalam e mortificam. Assim. mas. à hora do almoço ou à do jantar. para conseguir duas colheitas. estando a mesa. fiquei sabendo que não se podia dividir as estações do ano como se fazia na Europa. alternadamente. então. mas eis que. ia passar a um gênero bem diferente de vida. Quantas vezes. Deste modo. 42 Distinguia. carinhosamente. o que sucedia duas vezes por ano. são todos frutos da falta de reconhecimento pelo que possuímos. em verão e em inverno. Delas eu tirava provisões de uvas para o refresco e delícia. Levava vida feliz. A necessidade de fazer tantas coisas e a falta tremenda de recursos me teriam feito perder a esperança não fora a certeza de que para tudo existe remédio. em verdade.miar. assim. mas sim em tempo de chuva e tempo de seca. coisa important íssima. Não me deixava surpreender pelas chuvas nem pelas secas. também. sentia-me empolgado.

Todos os familiares ruídos da ilha tornaram-se-me terrificantes e me bambeavam as pernas. por longo tempo. sentia que me perseguiam. ouvia barulhos de passos. conciliar o sono. o rasto dum pé humano. por todos os lados e a todo instante. quantos extravagantes pensamentos não me passaram pela imaginação. e a imaginação. Fiquei a olhá-las. enchendo-me o corpo de tremores. mas nada pude descobrir. Ali. muito bem impresso.até então descrevi. como naquele dia terror algum me assaltou mais vivamente. olhando para trás a cada passo. por um minuto sequer. enquanto voava para o meu abrigo! Via-me perdido. com muita cautela subi uma pequena elevação. Não me foi possível. meu Deus! Quantas idéias aloucadas. corri para casa. longe de casa. estive por longo tempo a vistoriar os meus domínios. como se não acreditasse no que via. Nunca. tudo em vão. descobri na areia. muito nitidamente. atentamente a escutar os ruídos todos da ilha. para ver se conseguia descobrir alguma coisa. Estaquei. Teria imaginado coisas? Tornei ao local em que vira as pegadas. Passei a noite em claro. tomando por vultos de gente as altas moitas que encontrava. Que criaturas haviam deixado impressos na areia da praia . As minhas idéias deixavam-me perturbado. aterrorizado. Um grande susto Um dia. a olhar em todas as direções. Não sabia o que pensar. Com o coração pulsando com violência. passeando pela praia. Aterrorizado. iluminava quadros terr íveis. e lá as encontrei. acesa. a tudo examinando. como um coelho assustado. como se estivesse diante dum horrendo fantasma Suando frio. 43 Desci e busquei a praia.

dava graças a Deus de. Era um grande alívio. Deus meus! Apenas dei com umas pegadas na areia. 44 pois costumeiramente.Pensa no Senhor. E como. Desesperava-me. e eu te livrarei. que. Então.. não me tivessem visto e encontrado.O motivo do meu receio . no instante em que na minha ilha estiveram.os sinais que eram o meu tormento? Decerto selvagens. E de mão postas. inomináveis comedores de gente. pelo ser que anelava. na areia da praia. e selvagens antropófagos. para mim. eram tristezas e sobressaltos.. . e tem bastante coragem. sozinho na minha ilha. um grande susto me gelou e me pôs muito tremulo: teriam descoberto o meu barco? Se assim fosse. ouvindo tais palavras da minha própria boca! Quão doces! Como os meus pensamentos se aquietaram! E a ponto de poder raciocinar: . feitas por meus próprios pés? . que seria de mim? Como é a natureza humana! Antes. . suspirava por um ser da minha espécie. fazia o meu passeio pela praia. vindos daquela distante terra que eu tanto desejava alcançar. só e miserável. quando uma passagem das Escrituras refrigerou-me. rodeado do oceano. aqui teriam aportado.não. que Ele te fortificará o coração. todos os dias. . tremo e me horrorizo. com o qual pudesse conversar e conviver. mergulhado na solidão e afastado do convívio da sociedade. como um bálsamo: . . 45 passa talvez duma quimera. saberiam da existência de alguém na terra e logo muitos deles viriam buscar-me. Que grande consolação senti.. não serão minhas mesmas.disse eu em altas vozes. à idéia de ser perseguido pelo homem. Deus meu9 Trazidos por ventos contrários? Pelas correntes? Tudo. e tu me glorificarás.disse para mim mesmo. Assim sendo. As pegadas. o medo tornava-me outro.no dia da desgra ça. para repartir a pesada solidão..Invoca-me.

Meu coração batia apressado, meu rosto queimava: - Sim, sim! - prossegui para mim mesmo. - Talvez! Assusteime com os meus próprios pés, com a minha própria sombra! Cheio de coragem, deixei o meu retiro, recriminando-me pela afoiteza com que julgara a coisa. Não era ridículo? Dirigi-me à praia. E o meu coração, de novo, ficou todo amargurado, porque as pegadas, que lá ainda estavam, depois de dois dias de reclusão em minha casa, eram bem menores do que as minhas. Estranhos, de fato, estiveram na ilha. Estiveram ou estavam? Senti-me febril. E arcado como um velho que nada mais pode, voltei para casa, persuadido de que, mais cedo ou mais tarde, haveriam de descobrir-me. E então, só Deus saberia do meu destino, do que seria a minha pobre vida. O medo levou-me a mais e mais fortificar a minha casa. Antes da triste e perturbadora descoberta na areia da praia, eu saía alegre e despreocupado, ou para o trabalho ou para os meus passeios. Agora, que tristeza vivia atemorizado e só deixava a minha pobre toca quando absolutamente necess ário, cheio dum terror mortal. Eu vivia excitado, a escutar coisas, a assustar-me com os ruídos produzidos pelo vento e pelo mar. Até o piado das aves, às vezes, fazia com que um arrepio me corresse pelo corpo todo e me estatelasse, de olhos arregalados. Depois de tanta paz, quanta inquietação! Como suspirava 46 pelos dias tranqüilos e doces! Não devia pensar assim, eu sei. Devia reagir, ser otimista. E, num esforço, cheio de coragem, deixei o meu retiro. Os meus animais precisavam de mim, principalmente as cabras, cujo leite, da maior parte delas, havia secado. Havia o que fazer, coisas para tratar. Todavia, estava excitado. Continuava temeroso. Um dia, tendo-me dirigido para o lado ocidental da ilha, pareceu-me ver, ao longe, uma chalupa no mar. Raras vezes saía com o meu óculo de alcance, de modo que, sem ele, naquela oportunidade, nada pude apurar, embora fatigasse

os olhos fixando-os tão distantemente, na grande claridade do dia. Assim, fiquei na incerteza se era ou não uma chalupa, o que me levou, desde aquele dia, a nunca mais sair sem o óculo de alcance que, havia anos, trouxera do navio naufragado, quando vinha do Brasil. Decorridas duas semanas, fiz uma descoberta perturbadora. Ao descer uma colina, encontrei-me num lugar onde nunca estivera, e, num fundão, dei com crânios, mãos pés e outras ossadas, que me encheram de espanto e mais ainda me aterrorizaram a aterrorizada vida. Perto, restos de fogueiras, recentes, eram o patente sinal da presença de antrop ófagos na ilha. Uma tontura, seguida de náuseas e dum frio suor, levoume para longe daquele macabro lugar, a dar graças a Deus, com os olhos cheios d.água, porque o Senhor me fizera nascer numa parte do mundo onde tais abominações não existiam. Era uma coisa horrorosa! Passara já dezoito anos sem que topasse viva alma naquela ilha. Quantos mais viveria, solitário? A encontrar-me com canibais, me1hor seria morrer. 47 De alcatéia Os mais loucos projetos vieram-me à imaginação, para exterminar os selvagens, num dos seus horrendos festins, ou pelo menos para incutir-lhes um grande medo, fazendo com que vissem que, na ilha, um poderoso vingador, afinal, resolvera punir-lhes a hediondez. No calor da revolta, tudo se me afigurava viável, mas, passada a onda que me avassalava, punha-me a pensar no que poderia fazer, sozinho, contra cinqüenta, sessenta ou mais homens armados de lanças e flechas, de arremessos e tiros tão certeiros como os das nossas armas de fogo. Arquitetara, duma feita, cavar uma boa mina no lugar em que acendiam as fogueiras e entupi-la com uma grande quantidade de pólvora, a qual, inflamando-se com o calor do fogo a todos os bandidos faria ir pelos ares. Mas qual!

Era desperdiçar muita pólvora, que me seria utilíssima e já se acabava. Estava, assim, tão obcecado com idéias de extermínio que, mesmo as mais absurdas, todas me pareciam ótimas o infalíveis. Afinal, acabei por fixar-me numa emboscada. Gastei dias à procura dum bom sítio, que encontrei e achei perfeito. Numa pequena eminência, uma árvore grossa e coque me abrigaria completamente, foi o lugar eleito. Resolvido a levar avante aquela empresa, preparei dois mosquetes e a espingarda de caça. Aprontei todas as pistola; tomei do machado e, levando mais munições, fui empoleirar-me na árvore escolhida, com um bom farnel. 48 Durante dois meses, todas as manhãs, permaneci de alcat éia na árvore, a perscrutar o mar com o óculos de alcance, sem que novidade alguma quebrasse aquelas solidões. E, com o tempo, fui mudando o modo de pensar, raciocinando: - Que autoridade tenho eu para tornar-me juiz e carrasco de miseráveis canibais? Que direito tenho de vingança sobre o sangue que derramaram? Que contas pessoais tenho a ajustar com eles? A pouco e pouco, a minha disposição foi-se esfriando, e, como nada de novo viesse transtornar a vida na ilha, pas. sei a tratar normalmente da minha vida. Um ano inteiro passou. Nunca mais voltei ao lugar dos festins. Se os selvagens voltaram à ilha, fizeram-no sem que eu o ficasse sabendo. Todavia, quando saía para a caça ou outras necessidades, ia bem armado, pronto para o que desse e viesse, para bem caro vender a minha vida. Mas já não era o mesmo de dantes, despreocupado. Tinha medo de fazer barulho, de pregar um prego, receoso de que tal pudesse atrair a atenção dos selvagens, então nalgum recanto da ilha. Um dia, temeroso da fumaça que me saía de casa, da cozinha resolvi tratar a lenha e dela obter carvão. Para isto, procurei e encontrei, guiado por Deus, uma caverna de entrada muito bem escondida, onde pude operar livremente.

muito silenciosamente. De repente. a voltar para casa. Comiam e palravam. cansado e cheio de impaciência. deixei. entraram nas 50 embarcações. crepitando. Os canibais. por duas longas horas. Com o coração aos trancos. nove selvagens. grandes e grosseiramente talhadas. estavam duas canoas. pouco distante de casa. coisa que me deu nova reviravolta no estômago. ansioso por saber o que ia pela praia. até que cheguei no meu vigésimo ano de solitário. e me aventurei a subir ao alto dum rochedo. estavam acocorados. e invocando o auxilio do Todo Poderoso. carne humana. Tendo retirado a escada para dentro. De fato. 49 Certa vez.Era uma gruta enorme. os óculos de alcance fincados na praia. e ainda estava longe de poder deixar o trabalho. vi luz na praia. tempo da minha colheita. puseram-se energicamente a remar e partiram. O medo de ser surpreendido levou-me. a comer e a conversar. e o fogo. de todo acostumado ao meu modo de vida. pareciam esperar a baixa-mar. nus. . mosquetes e espingardas e fiquei à espera dos selvagens. Carreguei todas as pistolas. assim tão perto. aguardei o inimigo. tratei de preparar-me para a defesa. para abandonar a minha ilha. Em torno duma fogueira. o meu refúgio. Precavendo-me sempre e sempre. onde me estiquei de bruços. assim que a maré começou a vasar. anoitecia. não deixariam de encontrar vestígios da minha existência naquelas paragens. com toda a certeza. O navio espanhol Para conhecer o que ia pela praia. que. a papagaiar. era em dezembro. causando-me grande náusea e muito arrepio pelo corpo todo. Perto. acendia-lhe as paredes de mil cores. a cabeça latejando. quando então era obrigado a passar quase o dia inteiro no campo. E comiam. foi o tempo passando. pousadas na areia.

e com a maior rapidez. poderia salvar-me a mim. trazendo-me abundantes lágrimas aos olhos. e os relâmpagos e o estrondo dos trovões metiam medo. salvá-lo? Nada! Todavia. chegara à ilha.Senhor meu! . alvoroçando-me todo e me arrepiando da cabeça aos pés. dirigi-me ao lugar em que estiveram a banquetear-se. se nada podia fazer por ele. apesar da ventania. e ali. dado no mar. ao longe. não tornaram a aparecer. sempre terrível. levantei-me dum salto. As visitas que os selvagens faziam à ilha deviam ser muito raras. certamente. trovões e relâmpagos. Que podia eu fazer. entrei a juntar quanto galho seco se esparramava por ali. porque novo tiro foi dado e . para socorrêlo. no mês de maio.Apenas vi os intrusos bem ao largo. violenta tempestade de vento. assim sucedeu. a minha Bíblia inseparável. de mãos postas. e. perdido no vendaval. decerto arrastado pela corrente e pelo vento. eis que. descobri macabros restos. durante quinze meses. ele. De lábios trêmulos. com muita cautela. . Ventava terrivelmente. tal surpresa foi a que mais me emocionou. A noite estava escuríssima. Nem bem firmara pé no rochedo. Num frenesi. meditando. no mar. toda a região. a ler. refugiado de tempo tão agressivo. pobre filho de Deus jogado naquela ilha de ninguém. estivera vigiando os selvagens. vi um clarão. sem chuvas. uma vez que. Em casa. busquei o alto do rochedo em que. fustigou. surpreendeu-me um ruído em tudo semelhante a um tiro de peça. consegui acender uma boa fogueira. Um dia. e ouvi um estampido: não havia dúvida de que um barco. meses atrás. Com efeito. horripilado e cheio de nojo. que se prolongou noite adentro. que não deixaria de ser vista do barco em perigo. Durante todos os anos passados naquela solidão. .exclamei.Um barco! 51 Um navio! Era um navio em perigo.

entre dois grandes rochedos. virado de borco. voar ao navio. Na praia. Quase um menino. que parecia espanhol. pôs-se a ganir. De que nacionalidade era. Bem jovem. na ponte. Nos bolsos. estirado. o pobre. . e eu. Estava. Afinal. evitando os rochedos. como a dizer que pelo fogo se norteariam. duas moedas de prata e um cachimbo. o mastro grande quebrado pela base. com ímpeto. remei com toda a energia e. a choramingar. Com maus pressentimentos. aos poucos. Dei-lhe um pedaço de pão. ao qual engoliu como um lobo que estivesse perdido na neve por muitos dias. como a suplicar que o recolhesse. Aquele encontro pareceu-me agourento. cheguei perto do barco. a julgar pela construção. mas como a cerração era tão espessa. vi um grande vulto a uma boa distância. alimentei a fogueira por toda a noite. Um cão. listada. tranqüilas as águas. Usava camisa de algodão. ao largo. a este da ilha. Ao ver-me. Uma vez no meu barco. saltou. enjoadamente. foi sossegando. fortemente. com um assobio e um estalar de dedos. morto de fome e de sede. a popa arrazada pela viol ência do mar. encontrei o cadáver 52 dum grumete afogado. certamente. a ladrar. amainara um pouco. aventurei-me.ecoou por todas as quebradas. quando principiou a clarear o dia. não podia distinguir movimentos nem sinal algum de vida Ventara toda a noite. Meu coração pulsava com violência e um grande amargor enchia-me a boca toda. Animadíssimo. num crescente desas8ossêgo. Era o navio. e calças de pano branco. e eu o recolhi. os dedos das mãos duramente entrelaçados: . mas. ardia por correr. Senhor! Por que não atiram mais? O mar. de madrugada. unicamente. surgiu. e. Estava meio esmagado. Quando o chamei. mas atirandome totalmente a Deus. exclamei.Deus permita que estejam todos salvos! Oh. Era jovem. para as águas. não pude averiguar. de pernas bambas. seguido doutro. que não me permitia vê-lo em toda a sua inteireza.

dei com dois homens afogados num dos camarotes. Percorrido todo o barco.e isto por meses e meses. não fora o espírito estar tristemente ocupado com os selvagens e todo cheio de mil o um projetos visando deixar a ilha. e quase toda a carga me pareceu perdida.No navio. boiões de doces. a trabalhar. Por uma boa temporada. que me vinha substituir o primeiro que morrera de velhice e jazia enterrado perto de casa. recolhi o que estava seco e me poderia ser útil. As armas e as munições eram excelentes . andava por demais saudoso. submersa. que deixara na minha embarcação. o 53 que mais me valeu foi a pólvora. muito alegre e carinhoso. moedas e moedas de prata. De tudo o que apanhei no navio espanhol naufragado. a minha Bíblia. Sexta-feira Não deixei. catando coisas aqui e ali. tornei ao meu barco e à ilha. ladrilhos de marmelada. a distrair-me. uma grelha e um belo bule de folha. pás de forno.e tudo novo. a ler. quase feliz. gozei de grande paz. de perscrutar o mar . Mas havia coisas valiosas: Muitas latas de biscoitos. Assim. tenazes. finas. ao invés de me cansar ou enervar. e. Queria. Vivia tranqüilo . vivi dois anos. um abraçado ao outro. não fez mais do que inflamar ainda mais o desejo de que estava possuído. mas queria tanto. de todo inúteis para mim. seguindo-me a toda parte. que atopetavam um velho baúzinho. sempre. inicialmente. encontrar um dos naturais daquela terra distante (porque estava convencido . dos quais. O cão. camisas ótimas. e lenços e calças e casacos. tornouse logo muito afeiçoado ao novo dono. tijolos de rapadura. um único dia.mas acautelado . belo amigo. com grande amargura. chorando. nada havia vivo no navio. Tristemente. dois pequeninos barris de rum e inúmeras garrafas de excelente licor. Tal coisa. caldeirões de cobre. a não ser o cão.

mil e um problemas me assaltaram. para fazê-los em pedaços. Estava. quanto. afinal. então. avançando diretamente para o meu lado. pois que.de que vinham daquelas bandas). momentaneamente. que ofereceu resistência. Sem demora. ao que tudo indicava. caiu logo por terra. tostar-lhe as carnes. De guarda.Geralmente. para despedaçá-la e. 54 Estava. cheio de medo. respirei fundo e decidi prepararme para o combate. vi. Estarrecido. desejara evitá-los. 55 prostrado por uma pancada de grosso porrete. olhando por sobre a pali çada. e passei vigiar as canoas a olhar pelas frestas que havia entre um outro pau da estacada. para que não fosse visto. seis canoas que. Quando os selvagens chegaram à praia. Um dia. então calmo e lindamente esverdeado. todas estiverem lotadas. tempos atrás. então. . no mar. ao fogo. na escada. por alguns momentos.para melhor pôr em prática o meu intento de abandonar aquela vida de solitário. vi-os arrancar. que tinha intenção de capturar dois ou três deles . ao longe. naquela altura. Um deles.imaginem os leitores! . Desci alguns degraus. a dois pobres diabos. com tanta confiança em mim mesmo. dando de ombros e erguendo a cabeça. trinta serão os canibais. mas depois. viuse um tanto em liberdade. Estava. Aproveitando-se daquilo. Fiquei de boca aberta. cada canoa carrega cinco homens. duma das canoas. buscavam a minha ilha. Que possibilidade teria eu? Poderia lutar contra aquele número tão elevado? Fiquei indeciso. quando. Suspirei. o outro prisioneiro entrou a correr com fúria. quatro desalmados lançaram-se sobre a vítima. pareceu-me que tudo iria realizar-se. Sem movimentos. Disse-me: .

passei rapidamente por cima da paliçada e dei um grande salto para fora. logo mais. com um berro. 56 de minha parte. aos poucos foi-me voltando a tranqüilidade e. . Avancei para eles. dei ao gatilho e derrubei-o. teria o meu companheiro. estacou. esperei. vagarosamente. derrubei-o com uma forte coronhada na cabeça. alcançou-me e foi postar-se às minhas costas. fui avançando. O segundo. Assim pensando. lançando-me bruscamente sobre o que vinha na frente. a excogitar sobre se o que tinha pela frente não representaria morte mais desgraçada. Calmamente. Recompus-me da queda e avancei. ao ver o companheiro por terra.então. prontas para entrar em ação. Antes que pudesse atirá-la. que ganhara considerável distância dos seus captores. Os captores. que me viram sozinho. no cinto duas pistolas. tornou para a praia. tornando-se realidade? Correria tudo como eu sonhara? Passada a surpresa. Em seguida. O pobre. e tudo fez como eu o desejava: redobrou a velocidade. para os corredores. empunhando a espingarda. por pouco tempo. de lanças erguidas. procurei acalmar-me. nada sofreria. Aturdiu-se. numa fuga atabalhoada. com ela. diminuíram o ímpeto da corrida apenas por um instante. o meu sonho. com resolução. fazendo meia-volta. O outro. na desfilada. como a pesar perigos. pareceu hesitar. Se o sonho tinha algum sentido sobrenatural. Sosseguei-me inteiramente. Sempre resolutamente. com gestos. o mesmo fazendo o terceiro. tudo sairia bem. a certeza de que. Compreendeu que. Quando percebi que era chegada a hora de agir. ajeitou a lança. procurei mostrar-me amistoso. porém. a passos. Três homens apenas deram caça ao fugitivo. Um dos selvagens movimentou o braço. Ao que fugia. incitando-o para que mais corresse e se pusesse atrás de mim.

procurando não fazer movimentos bruscos. . dos seus vinte e cinco anos. Que era ótimo corredor. O meu escravo. encontrando os corpos. O escravo. duas vezes. deitou-se aos meus pés. confiante. não se animando a levantar a cabeça. às vezes. emitia fundos suspiros. levantei-o. Imaginava. exausto. nelas enterrou os mortos. mas pensando melhor. cobriu a cabeça. que denunciava grande agilidade. tinha um físico privilegiado. Tinha cabelos pretos. Afinal. tomou um deles e o colocou sobre a cabeça. tendo feito.achando que naquele lugar estaríamos mais seguros. que ia ser preso outra vez e morto. como um cachorrinho. como escravo. logo adormeceu. e num abrir e fechar de olhos. ao qual acabava de salvar a vida. beijou o chão. todo músculos. como para me fazer ver que sua vida estava em minhas mãos e que me prestava homenagem. temeroso de que os seus camaradas. ao abrigo dos demais selvagens. com ambas as mãos. O tiro poderia ter despertado a atenção dos canibais. que jaziam esticados no chão. para animí4o mais e mais. E assim foi. fez-me sinal. de quatro. resolvi que nos esconder íamos na gruta que descobrira . dando a entender que ia enterrar os nossos dois atacantes. que saíssemos dali. correu para mim. muito . Urgia. em correr para casa. que estava com os nervos em frangalhos. 57 Sempre a sorrir-lhe. então. decerto. então. com as mãos .onde tratara a lenha para fazer carvão . Chamei-o uma. ficou tão aterrado com o fogo e com o estampido que se atirou por terra e. duas covas. Tremia e. de modo que a nossa situa ção poderia complicar-se. para não espantar ao pobre diabo. ajeitouse. como os seus dois inimigos. Pensei. deitou-se. ajeitou-se num canto e. fiz que sim. aventurou-se a olharme e. então mais à vontade. eu o sabia. pudessem descobrirnos.coisa surpreendente . contudo. Com a cabeça. Jovem.O pobre fugitivo. que lhes desse sepultura.

lisos. um casaco de pele de cabra e. foi aprendendo. Meu escravo ficou deslumbrado. tomoume dum dos pés e. Meia hora depois de ter adormecido. que desejava ser meu escravo para sempre. e ele. Quando deu comigo. Deus meu! Que encanto! Era o primeiro som de voz humana. os dentes muito brancos. pois trazia o coração verdadeiramente reconhecido. ensinei-lhe as palavras sim e não. sorriu-me com a brancura sem par dos belos dentes. um ser humano. subindo a paliçada por uni cipó. Logo. com o qual e. Depois. então. Logo. Sexta-Feira aprendeu a nomear-me. Arranjei-lhe calças de pano. o 58 rosto contraído. como me tornara um alfaiate nada desprezível. 59 Tratei. espremendose contra a parede. aplicadamente. Compreendi. Chamava-me Meu Senhor. gemendo. a boca firme. comecei a falar-lhe. Sexta-Feira! Sexta-Feira porque relembrava o dia em que velo para mim. não mais havia sinal dos selvagens. porque a escada ficara para o lado de dentro. mais do que a primeira vez. de muita felicidade. de novo. A primeira palavra que lhe ensinei foi o nome que lhe dei: Sexta-Feira. sempre ao meu lado. porém. certamente. então. os olhos arregalados. fiz-lhe . rodeado apenas de animais. de lábios finos. caiu em si. e despertou. a propósito disto ou daquilo. que não a minha. achegou-se para mim. E falou. Oh! Eu tinha. que estava a ouvir depois de vinte e tantos anos! Quando deixamos a gruta. para que pudesse responder-me. calcou-o sobre a cabeça. de modo que fomos para casa. de vesti-lo. Despertou assustado. escorridos.pretos. o nariz bem feito. Não estava mais sozinho. O rosto era arredondado. a pele acobreada. encolheu-se todo. virou-se. comigo. conviveria e conversaria. Quando o levantei. que encontrara no navio espanhol. Falou! Pronunciou algumas palavras que não entendi. Oh.

Eles eram muito mais. 60 Robinson: . . Sexta-Feira era moço de muita habilidade e diligência. Robinson: . em seguida. Um bom aluno TINHA agora duas bocas a sustentar. Os dias passavam. se os selvagens me deixassem em paz. Grande luta. Guerra.ainda um barrete de pele de lebre. Sempre lutamos e combatemos melhor.Estávamos sós. Pegaram-nos e meteram-nos nas canoas. com muita doçura.Sim. Quando começou a falar o inglês suficientemente. Mil deles. sorrindo: . verdadeiramente. Robinson: . foste aprisionado? Sexta-Feira: . Num instante. então. Sexta-Feira estava encantado. Aprendeu a bater o trigo e a debulhá-lo.Combatem melhor? Como. não me importaria de ali acabar os meus dias. fiz com que perdesse o gosto canibalesco. de maneira que logo entrou a auxiliar-me em tudo aquilo que se fazia necessário para nos entreter a vida. quis saber coisas da sua terra e da sua gente. sentiame muito feliz com a sua felicidade. trazendo-nos para ca já matamos muitos deles. fazendo com que visse quão terrível era alimentar-se de carne humana. para responderme a várias perguntas. A fazer pão e até cozinhar. o que aqui vai em forma de diálogo.Tua gente nunca sai vitoriosa dos combates que empreende? Sexta-Feira. dando-lhe a provar da minha comida e.E não vieram os teus socorrer-te? Sexta-Feira: . de modo que devia trabalhar com afinco. Foi de surpresa. e eu. e. então. com grande tranqüilidade.

As correntes ajudam. De tarde. aqui? Sexta-Feira: .Lá. Ele. pedindo-me para eu as contar.Robinson : .Não há perigo . onde o vento e as correntes eram diretamente opostos. Comidos. o que favorecia a ida e a volta das embarcações.tornou ele. que além.Sim. muitos.Um pouco ao largo. desviando o assunto: . 62 Fiquei assim sabendo onde estava. fomos para aqueles lados. na foz do qual se encontrava a minha ilha. Muitas vezes. e disse: .Sim. muitos. perguntei-lhe. a caçar. mas. quando. antes. então? Sexta-Feira: . Sexta-Feira reconheceu o lugar onde estivera. Inteiramente. Robinson: . 61 Robinson: . não sabia contar até vinte. Perguntei-lhe: . colhendo vintepedrinhas do chão. . Diante disto. havia homens como . Não muito longe. colocou-as todas na areia da praia. para lã. lá.Mataram muitos. depois.Que foram comidos? Sexta-Feira: . Sexta-Feira.Já estiveste. última vez. Apontou o noroeste. Um dia.Tua terra fica muito longe daqui? Respondeu-me: .Aqui. ajudei a comer vinte homens. censurei-o asperamente. bem além da sua terra. com irmãos de nação. Disse-me ainda. todas as manhãs. o vento sopra para cá. o que me excitava sobremaneira. mas.E as canoas? Não afundam? O mar é calmo? . arrependido. Aquele fenômeno era causado pelo grande Rio Orinoco.Sim.

Assim que Sexta-Feira passou a falar um inglês mais ou menos. Sexta-Feira ouvia com atenção. feito homem. é o Filho de Deus. que num barco tão grande como dois juntos.. sempre atento. que a alma de Nosso Senhor Jesus se reuniu a seu corpo morto. E. seria possível a travessia. pelas quais tudo formou. e parecia receber com alegria a Jesus Cristo. aos poucos. Revelei-lhe o mistério da pólvora e das balas. foi crucificado. E consegui instruí-lo no conhecimento do 63 verdadeiro Deus. . outro barco pequeno.disse-lhe. Senhor nosso. . nela assentando as bases da religião cristã. comecei a narrar-lhe as minhas aventuras. a esperança de. o criador do céu e da terra. enviado ao mundo para resgatar-nos. no caso. de novo voltou à vida. Queria ele dizer. e a tudo governa com o mesmo poder e a mesma sabedoria. glorioso e triunfante. em grande número. ajudado por gestos. perguntou: .Que é ressuscitar? . . ensinei ao meu servo.Ressuscitar quer dizer. até a terra habitada por civilizados. depois. A conversa causou-me grande satisfação e me alimentou.eu. .é o grande criador de tudo o que existe.em dois barcos? Explicou: . Enquanto ia o tempo passando. Sexta-Feira. para nunca mais morrer.Um barco pequeno. fui. .Jesus.Deus . com o qual podia expressar com maior desenvoltura o pensamento. um barco grande.Como poderia encontrá-los? Respondeu-me: . aplainando a alma do meu servo. deixar a ilha. grandemente. morto e sepultado para nos salvar. . em dois barcos.Saindo daqui. em futuro próximo. Perguntei-lhe: .Como . ressuscitou. Padeceu. Deilhe. brancos e barbados.retornei.

Perguntei-lhe: . carne de animal. falando-lhe mais demoradamente da Inglaterra. . fazia muitos anos. e comerias carne de gente? Uma sombra passou-lhe pelo semblante.Sim . Os olhos encheram-se-me de água. Contei-lhe. a tudo ia armazenando. muita! . depois de duro trabalho. o barco estava pronto. Agora só como pão. perto do mar. Sexta-Feira. porque não pude alijá-lo do lugar onde o construíra. fizemo-la entrar no mar. Homens. uma noção do continente europeu.Não. para derrubá-la.confessou-me. abracei-o. .Eu também . Só leite e água. Eu sorri.respondeu-me. e. e em vão. Senhor Jesus condena. da minha terra. se pudesse ver minha nação.Que faria lá. como tivesse boa memória.eu também. Replicou: . de madeira apropriada. Um mês mais tarde. então? Tornar-te-ias selvagem. fizera. as terras dos homens brancos? . Sexta-Feira reza todas as noites para Nosso Senhor Jesus.per64 guntou-me. com grandes canseiras. Sexta-Feira logo encontrou uma. Ficou triste. de novo. . Por meio de rolos de madeira. . não mais. Sexta-Feira quis vê-lo. depois. Deixamos o velho barco. vagarosamente.Que tal? Achas que com um desse tamanho poderemos alcançar o outro lado. que calhava ao nosso projeto.rabiscando na areia. Nem bebe sangue. Sexta-Feira era bom aluno. pedindo perdão por ter comido gente. já meio apodrecido. Ele o olhou demoradamente.Meu senhor tem saudade da terra em que nasceu? . considerando-o com interesse. minha pátria. Levei-o ao local em que jazia. da minha gente. Muito alegre. e fomos à 65 cata duma árvore. . A tudo ouvia com grande atenção. do grande barco que.Sim. dizendo-lhe estar muito satisfeito com o seu progresso e a sua mudança.

e tudo ia muito bem: o barco tinha sempre bastante água. estava perfeitamente ao abrigo das chuvas. Gastamos dois meses nesses particulares. plantara. ficou de boca aberta. que não nos pegou desprevenidos. aguardar o mês de dezembro. agora. O barco. E chegou a estação das chuvas. a mudar-lhe as velas e a enfuná-las para o lado que desejava.Eu estava satisfeito. porque contava com um ser da minha espécie. época . Procedera como se fora viver na ilha por toda a vida.à força de remos. mas não me descuidara das ocupações diárias.e fui adiando a hora de partir. colhera. numa pequena baía. Quando manobrei o barco à minha vontade. Entrava eu ent ão no vigésimo sétimo ano do meu isolamento na ilha. ao meu servo. 66 Contudo. sentia uma coisa esquisita. Desejava. contudo. um amor pela ilha. Meu servo preparara um pequeno estaleiro. .Sim. Restava-nos. Ia deixar a solidão.É bastante grande para que possamos fazer a travessia? perguntei. uma ancora e uni cabo. . embora soubesse com perfei ção manobrar um barco . Por algum tempo. Sexta-Feira estava interessantíssimo porque. exultante. . navegamos ao largo da praia. eu e Sexta-Feira pusemo-lo em segurança. Lavrara a terra. nada sabia do manejo de velas e leme. Meti senhor verá. a fim de que Sexta-Feira fosse tomando conhecimento de todas as manobras. ajuntar ao barco um mastro. Tudo ficou pronto para a grande travessia. ultimamente muito feliz.respondeu-me ele. secara as uvas. bem profundo. uma vela.Mesmo que o vento seja forte. que me dedicava sincera amizade e com o qual podia conversar e distrair-me. Abrigado com uma intrincada coberta de largas folhas e de ramos entrelaçados. . fosse como fosse. de modo que podia flutuar. sim .

sem nada compreender. sustos. tratei da preparação da viagem. sozinho.. ia deixando o tempo passar. e pensava: . Se ansiara por deixar a minha ilha deserta. que coisa mais sem nexo. O combate FINDA a estação chuvosa.Ó senhor! Ó senhor! Não boa coisa! Eu sei! Não boa coisa! Corri para ele. pedi ao meu servo que fosse à praia em busca dalguma tartaruga.O quê. Certa manhã. Uma saudade de tudo o que existia na ilha enchia-me o coração duma esquisita sensação. mal sabia eu por que aventuras ainda haveria de passar. abandonar o que tanto custou. agora que tudo estava pronto para a partida. doenças. quando não podia fazê-lo. tudo o que tenho. Sexta-Feira! . Marcado o dia da partida. meti senhor! . para gozar um pouco mais daquilo que fizera parte da minha vida por um tempo ver67 dadeiramente bem grande. seis minutos fizera que ele se fora. quando trabalhava nuns preparativos. e já regressava. a juntar as provisões necessárias.Ali! Logo ali. depois de ter construído.Barcos! Três barcos! Levei algum tempo para acalmá-lo. a correr desabaladamente. Sexta-Feira acertara que não mais me deixaria.Não há de ser nada . mil e uma coisa . .disse-lhe eu. porque vinha com as feições transtornadas. e a gritar: .Que foi? Que te aconteceu? . aflito. trabalheiras. pensava Sexta-Feira que era exclusivamente para capturá-lo e fazê-lo em pedaços. . procurando parecer . em canseiras. devo ir-me e a tudo abandonar. Nem bem cinco.Depois de tantos anos.perguntei-lhe. Se os canibais haviam voltado.que determinara para fazer a travessia. de tanta luta. . abaixo! Oh. fosse eu para onde fosse.

fez ele. sim! . trazendo dois prisioneiros. sim.Vou matá-los a todos . sob o efeito do rum. Coragem! Não sabes combater? 68 Sexta-Feira balançou a cabeça. dum saco de pólvora e outro de balas. . havia um bosque. veremos. Devemos ter calma. também eu não estou na mesma situação? Não adianta estar assim como tu. e bem armado.disse-lhe com voz firme. para fortalecer-lhe o ânimo. . carregadas com chumbo grosso. Nossas armas espatifálos-ão. .quando meu senhor ordenar que devo morrer. Adiante. tomei duma garrafa de rum.tranqüilo. seguindo minhas ordens ao pé da letra.Não vês que estou sossegado? Se corres perigo.Pois então! . descontrolado. mas pudéssemos observar todos os . . Tratamos. no qual entramos.Deves ajudar-me com decisão . . uma vez que me prometas fazer o mesmo.tornei-lhe. .disse a Sexta-Feira. do alto do rochedo. baixinho. mais três es69 pingardas ao ombro. e tudo sairá bem. . muito vivo e ágil. vi logo que os selvagens eram vinte e um.Sexta-Feira morrerá . fomos. descendo o rochedo. duas pistolas e três mosquetes. A SextaFeira dei uma pistola. muitos! . meu senhor. Além das armas que me tocaram.Nada farás .sem que eu o ordene. Ao meu servo dei um bom trago de rum. era um novo SextaFeira. Estou decidido a arriscar a minha vida por ti. . Com o óculo de alcance. . afirmativamente. O meu servo.Sim.Veremos.disse a Sexta-Feira. avançamos. Que me dizes? .tornou a repetir. para pôr à cintura. meu caro.respondeu-me. cheio de coragem. Armado também. mas são muitos. de agir.Procure não fazer ruído. Distribuí pelo rochedo todas as armas que trouxera. para que fic ássemos ocultos.Sim.Sim . cautelosamente. . então. e. depois meti-lho duas espingardas nas mãos. verificar o que se passava. entendeste? .

C. que é melhor lugar do que este. logo ali.O quê? . apenas o meu servo chegou. com o óculo. Foi e em breve retornou.perguntei ao meu índio. de olhos fincados no lugar que lhe indicara.Branco? Fiquei enfurecido. Fiz sinal a Sexta-Feira. . Sexta-Feira fez o mesmo. . . imitava-o. e eu . tudo aquilo que me vires fazer. não pude reconhecer. tornei ao meu servo: . pedi a SextaFeira que fosse até lá. mas meu senhor não sabe o que vi e. Deitado na areia da praia. Tomei do mosquete e apontei. a comer um dos prisioneiros. para nós.Sim . sentados muito juntos uns dos outros.Sexta-Feira. pouco distante donde est ávamos. Não havia tempo a perder. Sexta-Feira matou dois e feriu três.Pois. de grandes barbas negras. .movi. os pés e as mãos fortemente amarrados. vês aquela moita alta. uma árvore muito alta e copada.Estão todos a banquetear-se.Que fazem? . O meu servo obedeceu prontamente. estavam excelentemente dispostos. . estava um homem branco. é branco e barbado. deitado na praia. vamos lá. fogo! Demos ao gatilho ao mesmo tempo. meu senhor.Estás pronto? .o mestre! matei um e feri dois. e procurasse ver o que estavam fazendo os canibais. . Arrastei-me até a árvore e pude ver mui70 to bem que Sexta-Feira dizia a verdade. para atirarmos.Então.Prometo-te. decididamente. .respondeu-me ele.perguntei-lhe. mentos do inimigo. com cuidado. muito excitado. de longe. com cuidado e sem fazer barulho. naquela eleva ção? .respondeu-me ele.Um dos prisioneiros. .E então? . Os canibais. .Vejo . . para que viesse juntar-se a mim. disse-lhe: .Sexta-Feira. Vendo. Chegados que fomos.

O chumbo. . grosso. de novo. meio mortos. boquiaberto e de olhos. levantaram-se. as peias que prendiam o prisioneiro branco e barbado. de onde estava. com grande estardalhaço. desferi um grande berro.Fogo . e correndo para o meio dos selvagens. pois eu os vi cair uns sobre os outros. fez o seu estrago. na areia da praia. como pequenas balas. à espera de novas ordens: .exclamei. num salto. Os que não estavam feridos. Auxiliei-o a erguer-se e perguntei-lhe em portugu ês: . mas muitos. como mortos. Gritei para Sexta-Feira. muito de perto. para desamarrar o prisioneiro. mas o número de feridos parecia ser grande. muito menos para onde ir.esbugalhados. depois do que. toda gritos de terror. então. que caíram no fundo da canoa. mortos. Os canibais que puderam fugiram para as canoas. então. tomou-o e 72 descarregou a sua carga sobre os que debandavam. e tantos. Três. sem saber o que fazer. cobertos de sangue. chegava junto do prisioneiro. naquela aventura. porque os vimos correndo de um lado para outro. A princípio. caíram.Quem és tu? . seguido do meu bom servo. julguei que tivesse matado a quase todos. que aos canibais todos paralisou.em nome de Deus! Dois canibais apenas caíram por terra. logo adiante. vinham dar-nos vantagem. puseram-se de pé.Atira nos fujões! O meu servo foi rápido.71 O leitor não pode calcular o reboliço que foi pela praia. Tomando dum mosquete que eu deitara ao chão. que em tudo me imitava. Num instante. . Novos feridos. Sexta-Feira matara apenas dois. recompondo-se do susto. Fizemos pontaria. Cortei. mas estropiara alguns. porque se salvara por um milagre. Levantei-me. descarreguei as pistolas. que me encarava atentamente.

com quem Sexta-Feira lutava como leão. Os que se encontravam nos barcos faziam esforços para escapulir. dançava.Sim . em sinal afirmativo.Fala. Reanimou-se. e respondeu-me em latim: . Meteu-se dentro d. conseguiu exprimir-se. . homem! Sexta-Feira.Que tens? . que se afastava. dei-lhe um gole de rum. com vigor: . procurou impedi-los. caímos sobre o inimigo. Uma lança. Chorava.Comecemos? Imediatamente. a qual agarrou com mão firme. Afinal. que me deixou inquieto. e me disse: . pôs-se a esbordoar o inimigo. pouco depois. vendo-os a debandar. mas apenas emitia surdos grunhidos. grandes mãos muito maltratadas. Ora. destemidamente. de pernas tão bambas que tinha dificuldade em permanecer de pé. enlouquecera. via-se que queria falar. Graças a Deus que me apareceste na hora exata. mas pude dizer-lhe. fazendo esforços para falar. Tu me caíste do céu! Conhecia muito pouco o espanhol. Ele balançou a cabeça. e como louco. depois dum gole de rum.O pobre passou as costas das mãos. deixada por ali pelos selvagens. pela boca.água e se aproximou. dava tapas no rosto.Tens força para tanto? .Christianus. É preciso lutar. que trazia seca. Positivamente. desferiu um grande grito. com tal furor. Transtornados todos com as armas de fogo. não eram capazes de pensar noutra coisa senão na fuga. alucinadamente.respondeu73 me. com vagar: . Sexta-Feira correu para mim e o espanhol. assustados como coelhos. Disse-me. . assustado. perdera a voz. Abria a boca.perguntei-lhe. ria. duma das canoas. saltava. Teria enlouquecido.Sou espanhol. Perguntei-lhe: .Falaremos mais tarde. aconteceu que Sexta-Feira. dir-se-ia. depois de tanta comoção? Que lhe sucedera? Postos os selvagens todos fora de combate. . Ent ão. Vendo-o tão fraco.

Amarrado. Os meus hóspedes FINALMENTE. inesperadamente. juntos.. Pouco depois. cortei-lhe as cordas que o prendiam. seguiram novo caminho. ao seu clamor. por sua vez. que me trouxe a esta ilha. principalmente agora. meu caro amigo . Estava. dados os novos acontecimentos que sobrevieram. apenas a oportunidade se apresentasse. os quais. Ouvia vozes. meu bom hóspede. gostosamente. num estado de espírito todo especial. acabei por transformar os planos que assentara. . Vivo. E o desejo de voltar à terra natal.Ao ser feito prisioneiro. a um pensamento que me ocorrera o sempre me vinha à lembrança: tinha vassalos. passamos quase que toda a noite a conversar. 75 Contudo. rejuvenescido. interiormente. risos. Mais desenvolto e muitíssimo mais otimista.Na canoa. E sorria.. de modo que.. todos. de riso fácil. e queria. então. ao pé do fogo.Contei-te como. Ao pai de Sexta-Feira. Outro prisioneiro. Corri para a canoa. Vivia leve. vi que nele já se encontravam dois outros infelizes.. deviam-me a vida e eu me sentia como um grande monarca muito feliz. porque todos. Estava vivendo. seguido do espanhol. ouvindo a história do espanhol.. tinha a minha boa ilha povoada. .Contei-te a minha aventura.Entrecortadamente. e vivendo intensa. fomos para casa. metido no barco. atiçado pelas novas da Europa. muito comodamente.. trocar idéias. vindo do nordeste. e todos.. . alegres.. um vento terrível levantou-se. ali. Meu pai! 74 Lágrimas rolavam-lhe abundantemente pelas faces. que ia dizendo: . que éramos quatro. a todo transe. estariam prontos a arriscar-se por mim. mais adiante. saber de coisas da velha Europa. principiar a agir.disse ao espanhol. explicou-se: . sem exceção. conforme se verá. Podia conversar.

a garrar. que nos encheu de grande medo. Sobreveio. Viviam com falta de tudo. para negócios. que. Em dia em que. sozinho. sempre a garrar. Da Espanha. em seguida. também manietados: o infeliz que aqui devoraram e o pai do nosso valoroso Sexta-Feira. calmamente: .Minha história. a passear pela praia.sozinho. terrível tempestade. e passávamos fome. violenta como nunca havia visto outra. 76 Agarraram-me e amarraram-me de mãos e pés. e fomos apanhado-me. Era uma tribo pouco feroz e nos deixaram em paz. perto da tua. Conte-nos. a conversar com os meus bons hóspedes. Ele se ajeitou no banquinho em que se sentava e me disse. sendo milagrosamente salvos. naufragamos. com o navio a fazer água. deixamos Lisboa e fomos a Havana. não pode chamar-se história. De Havana. Perguntei ao espanhol. atirandome. a tua história. vinte e um deles entraram a confabular. numa das canoas. onde já dois prisioneiros jaziam. Depois dum sem número de vicissitudes. entraram em três barcos e aqui viemos parar. ent ão. onde permanecemos poucos dias. a caminho. com alguns compatriotas e comerciantes portugueses. graças à bondade e misericórdia de Deus. agora. longamente. fui surpreendido por canibais. sobrevivi para aqui estar. agora. por selvagens. depois de ter vivido vinte e tantos anos solitariamente.Que teria acontecido a teus companheiros? Teriam sido vítimas dos canibais? Respondeu-me. na praia onde fôramos dar. com um dar de ombro e um sorriso meio envergonhado: . levando boas coisas para comerciar e um bom dinheiro. zarpamos para o Rio da Prata. eu me afastara. levando mercadorias. que estou ansioso por conhecê-la. depois do que. no deserto. Enquanto o grosso dos canibais avançava terra adentro. em canoas. mas contarei aos amigos o que me sucedeu. vieram para fazer uma incursão na aldeia em que estávamos. apenas encerrara o relato das suas aventuras: .

mãos à obra! Sorri daquela afoiteza. que não a de trazê-los para cá. grande júbilo! Mas como seria possível? Isto me parece maravilhoso! 77 .expliquei-lhe. o espanhol. mas à outra.Como assim? . quais seriam os primeiros passos a dar.Com grande. e quis saber. pelo que vi. nem instrumentos necessários para construir um. os naturais desta parte do mando desconhecem as armas de fogo e se apavoram diante do seu estrondo. no sentido de libertá-los. e exclamou.Trazê-los para cá. como julgava seria recebida uma proposta da minha parte. Demais. com possibilidades de voltarem à civilização caso viessem à minha ilha. Ele saltou do banquinho.Pois então. mas. O meu hóspede ficou excitadíssimo. vermelho de contentamento. meu bom amigo. Poucas. ao espanhol. . por lá? Não desejam sair da terra? .Não creio. então. plantar toda a semente de que possamos . sem compreender. . como fazer? Perguntei. . ruidoso: . Disse-lhe: ..E que fazem eles.poderseia. Os anos passados na solidão apontavamme problemas que não ocorreriam ao meu hóspede. ao norte.Se todos se encontrassem aqui . precisaríamos duma boa quantidade de víveres. . para que se pudesse levar avante a minha idéia. O espanhol olhou-me. respondi-lhe: . O que aqui temos não daria para alimentar-nos a todos. porque possuíam armas. nestes próximos dias. todo na alegria de voltar ao seu país. Mas.desejam-no e muito.Oh! . Não é verdade? Pois de imediato. .Sim. . construir um barco bastante grande que nos levaria para o sul do Brasil ou para alguma ilha espanhola. Simplesmente. mãos à obra. o primeiro passo a dar é roçar os campos.fez. sem um grande barco. para abastecer o nosso barco.Com efeito.respondeu-me.Sim .

então. de quando em quando. e o arroz multiplicara-se proporcionalmente. e assim. os vinte e dois alqueires de trigo deram-nos duzentos e vinte. segundo o meu calendário. Nessa espera. que daria para encher mais de cinqüenta barris. Cada um deles se foi com uma espingarda. pão. pus a secar uma quantidade enorme de cachos. Com Sexta-Feira. semeamos aquilo que pudéramos poupar: vinte e dois alqueires de trigo e seis de arroz. enquanto eu e o meu servo ficaríamos trabalhando noutros preparativos. era chegada a hora da partida: o espanhol. Levando armas. ia à caça. com os instrumentos de que eu dispunha. na minha ilha. Terminada a colheita. tendo chegado o tempo do plantio. com bom vento. Foram estas as medidas que. muito fresco C constante. em ocasiões de grande necessidade. com o pai de Sexta-Feira. para armazenar os grãos. deviam economizar. E. nos ficou para viver. algumas cargas de pólvora e de chumbo grosso. para vários dias. e assim. após vinte e sete anos e alguns dias de permanência na ilha. deixaria a minha ilha. durante os seis meses que deviam decorrer antes da colheita. em busca dos amigos. recomendei-lhes. 78 O espanhol coçou a cabeça. com decisão. concordando inteiramente com a minha fala. com o pensamento no futuro. os quatro. tempo. segundo os meus cálculos pelo mês de . Quando chegou a época de colher as uvas. labutamos de sol a sol. Feita a colheita. de ânimo alegre. atrás de cabritos. principiamos a trabalhar a terra. que leva a semente para brotar. usando-os tão so79 mente. lá se foram os meus bons hóspedes. pólvora e chumbo que. não ficamos ociosos. Durante um mês.lançar mão e esperar a colheita antes da vinda dos teus amigos. passas e água. para aumentar o nosso rebanho. com grande afinco. tendo tudo corrido normalmente. Pouco. tínhamos já pronta boa quantidade de cestos. tomei para a minha liberdade.

não são os homens que estávamos espe80 rando. com o óculo de alcance vi. a país algum onde os meus com. muito bem. ao meu encontro: . porque o movimento brusco pode chamarlhes a atenção. que negócios podia ter um barco inglês. quando Sexta-Feira. Muitas suspeitas entraram a i pressionarme. provavelmente. Um navio. majestosa e ancorado a pouco calmamente. Vamos voltar bem devagar. nesta parte do globo? Fiquei confuso. que um navio. estava ancorado ao largo! Mas. muito interessadamente o satisfeito.outubro. que fora à praia em busca dalgumas tartarugas. com os europeus. Senhor! Eles estão aí! Estão chegando! Julgando tratar-se dos nossos amigos. um escaler. veio surpreender-nos e modificar todo o plano que anteriormente traçáramos. cheio do canto das aves. como outra igual não houve em história alguma. Fiquei numa louca alegria. mas logo fiquei deveras surpreendido ao ver. inglês por sua estrutura. Fica quieto. corri em direção do mar. que vinham de volta. cuja tripulação era. tinha a certeza de tantos e tantos anos. em busca de braços para a nossa salvação. aprazível e belo. tomemos o óculo de alcance e subamos ao nosso rochedo. dirigindo-se para o meu lado. a mais ou menos légua e meia de distancia.Senhor. Era pela manhã dum dia muito claro. Disse a Sexta-Feira: . Assim que trepei ao rochedo. Aquele Caminho não levava. toda composta de gente da minha pátria.Positivamente. veio precipitadamente a gritar. que me servia de observatório. estava mais de duas léguas e meia. Armemonos. para observá-los. quando uma inesperada aventura. Visitas inesperadas Havia oito dias que esperávamos a volta do espanhol do pai de Sexta-Feira. com uma vela triangular. patriotas . tocado por um vento muito favorável.

Senhor! Homens entraram no mato! Vão catar lenha 82 para fazer fogueira e cozinhar os prisioneiros! . que os tivesse arrastado para estas bandas? Não sabia de nenhuma. coisa que não poderia. . havida entre a tripulação. sossegaram. onze homens. bem lá para diante. E. Mais me valia. inquieto: . aqui.haviam estabelecido o seu comércio. Algo diz que teremos grosso contratempo. com toda a certeza. não vinham com boas intenções. que me pareceram amarrados.boa. a solidão. Logo depois. espalharamse pela ilha. pois. entretanto. Sexta-Feira exclamou: . senhor? . longe das rotas conhecidas.Precisar lutar? . Cinco ou seis. efetivamente. o escaler aproximou-se da praia. que se mo81 via vagarosamente: . Assim. tratei de acautelar-me. foram os outros. não. É possível. Davam patadas no chão. propositadamente. marosca. decerto. Haviam. no sítio em que mais me dava gosto passear. Perguntou-me. E que o bom Deus nos ajude.Sim. ao todo. como que a vistoriar a região em que se encontravam. Disse a Sexta-Feira. Eram ingleses. trouxera para a minha ilha o navio. do que cair entre assassinos e ladrões dos mares. Vários homens saltaram para terra. Depois de certo tempo. dentre eles.Oh. Contei. Enquanto eu estava a pensar no que realmente significava tudo aquilo que além. os demais estavam armados. comecei a matutar que alguma .Não sei. Então. afirmar. Teria havido alguma tempestade. e com muito ardor.Coisa não boa. A não ser três deles. que me pareceram holandeses.Não estou gostando nada do que vejo. assentado alguma coisa. Em seguida. menos os três manietados e dois marinheiros. Discutiam. na praia. Gesticulavam. com exceção duns dois ou três. que observava o escaler. meu caro. fossem quem fossem eles. se desenrolava.

O tempo foi passando. para perto do lugar em que os invasores da ilha estavam.Receio que os matem. baixinho: 83 . Disse-lhes: .Não. agora. Esperei algum tempo e resolvi mostrar-me aos três. meu caro Sexta-Feira! . escondemo-nos por detrás dumas pedras altas. quanto a comê-los. Cientes de que os prisioneiros não poderiam movê-lo. não pude deixar de sorrir: . Quando chegamos a uma boa distância. vazando. em que podíamos ouvi-los. que o espanhol e o pai de Sexta-Feira ali não estivessem. Pareceram acalmar-se. não. sob a sombra duma copada árvore. Empalideceram.Embora passássemos por sério perigo. Respondi-lhe: . com os quais não contáveis. certamente! Sim. e ali nos deixamos ficar. O escaler. muito quietos e atentos. Assim que eu e Sexta-Feira aparecemos. quando desembarcaram. Lamentava. assim. mas. para juntar-se aos outros. . e o mar. prontos para enfrentar o que se nos deparasse.Quem Bois? Assustaram-se. e nas nossas armas. Bem armados. a sangue frio. Disse-me um deles: .Viestes do céu. terríveis na nossa vestimenta. os dois marinheiros que os vigiavam também adentraram a ilha. estava em seco e irremissível do local em que estacionaram. caso fôssemos descobertos e atacados. A maré estava alta. Talvez tenhais aqui a dois amigos. eu e Sexta-Feira descemos do rochedo e fomos avançando.disse-lhe.Nada temais. perguntei-lhes. porque a nossa miséria está acima de toda ajuda humana. tenho a certeza de que não o farão! Por Deus! Não penses em semelhante coisa! Com toda a prudência. ent ão. porque seríamos quatro e melhor resistiríamos. veríamos o que ia suceder.

meu amigo. Tu o vi . Perguntei ao capitão do navio: Que é feito dos bandidos? Estão a descansar. eu o vi. com os fiéis amigos.Fui comandante do navio ancorado além. O pobre homem que me falava tremia.atarracado. e estou disposto a ajudar-vos. Luta Os três homens comeram alguma coisa e beberam.Sim.o contramestre ruivo e de largos ombros. dirigimonos à minha casa.Os meus homens revoltaram-se contra in me mataram até agora porque o bom Deus não o Mas pretendem abandonarme nesta terra. cegamente. renunciareis a toda autoridade. . Quero ver se consigo salvarvos. Vinde comigo.o piloto .Falo a um homem? Ou falo a um anjo? Sorri-lhe: . Desamarrei-os. Primeira: enquan85 to estiverdes nesta ilha. Com lágrimas nos olhos. a dormir na mata além. Sou inglês. e dos teus amigos aos olhos apareceria com melhores vestimentas armas. os vagabundos. . depois . enviasse um anjo em teu auxilio.Estão armados? . mas imponho-vos duas condições. moreno .Não tenhas dúvida alguma. Propus-lhes: .Oh. o meu contramestre e o meu piloto.Toda ajuda vem do céu. e mente..Muito parcamente. então. tenhamos novidades.Ofereço-vos a minha casa. ajudado por Sexta-Feira. senhor! Que Deus te abençoe! 84 . Apontou para o homem que lhe estava mais . replicou-me: . senhor. Podes confiar em mim e no meu servo. ouvi-me todos. Exclamou: . Deveis obedecer-me em tudo. Segunda: se . Bem.

à Inglaterra. Perguntei ao capitão. de bom grado. Contou-me. pólvora e chumbo grosso. .Não achas que devemos.conseguirmos recuperar o navio. entre os celerados. depois do que disse: . porque. se estiverem lá. . com calma.Pois muito bem! Armemo-nos e façamos. então. Jurais que assim será feito? O capitão.tornei-lhes. chegamos a um ponto que não nos era mais possível avançar. . Dei-lhes três espingardas. todos ao mesmo tempo. saímos. haveis de levar-me.Custa-me matá-los . Que achas? O capitão não pareceu gostar da idéia.Não. a dormir. ou faze-los prisioneiros.Então . e ao meu servo. dos quais não se devia esperar senão o mal. dois homens havia deveras perversos. A uma afirmativa de que estava bem.Não haverá outro meio de agirmos? O que não devemos permitir é que os dois cabeçudos . estaremos perdidos.Se pudermos capturar a esses dois. . não! Matá-los. fazer fogo contra eles? Se alguém. isto sim.capem. caso o consigam. Que ordenasse. e a tudo cumpririam. E acrescentou: . bem? Nada mais fácil do que matá-los. quiser render-se. atrás duma pedreira.disse-me. a todos.estão todos a descansar. São perversos. sem que chamássemos a atenção dos amotinados. que. ao pé da letra. o que tem que ser feito. voltemos à minha idéia. passamos a paliçada e nos dirigimos.Sendo assim. a caminho: . Hei de mostrarte. . em silêncio. o contramestre e o piloto juraram solenemente que me obedeceriam em tudo. sem que nos peçais por isso um único ceitil. Estacamos. Pensei uns minutos. poderíamos salvar-lhe a vida. escapan86 do da descarga. . o devemos sempre tê-los sob vigilância. não! Enquanto conversávamos. tenho quase certeza de que os demais voltarão ao seu dever. Jogarão toda a tripulação sobre nós. meu amigo. o capitão. para a mata. o consultei o capitão e os dois outros se estavam em condições de enfrentar a situação. quais são eles. preciosíssimos. .

São os dois cabeças da rebelião? . pôs-se 87 a gritar. é rogar a Deus que vos perdoe a traição! A luta principiou. tentando capturá-los. e fizeram fogo. . Mataram um. certeiramente.O que há a fazer. Resolveu-se. Os dois cabeças do motim. . entrou a berrar.e ficamos a observar a mata. sentiram os rebeldes que seria impossível resistir. apenas esboçada. atirando eu e atirando SextaFeira. um marinheiro que cochilava. Os prisioneiros deram todas as demonstrações de arrependimento que o capitão podia desejar. foram liqüidados. avançou para os dois.Pois muito bem! . estendido no mato. . de surpresa. pedindo socorro. de comum acordo. . todos. para chamar a atenção dos companheiros. em busca de vingança. deitou-o por terra. o capitão pôs fora de combate a dois rebeldes. ao capitão. malandros. vimos que dois homens. então. num repente.tornei. Ao ferido. o piloto. ansioso. Pilhados desprevenidos. saídos detrás dum mato alto. paciência! O capitão. ferozes. o capitão e os dois companheiros. . mas. baixinho. Apanhados assim. adiantaram-se. de calças pardas e camisas listadas. O contramestre e o piloto. bastante encorpados. ao capitão.Nada de socorro! . ent ão. desorganizados. Deus deve tê-los feito sair do ninho de lagartos para salvar-lhes a vida! Quanto aos outros. pressentindo o perigo. terminou. Com uma coronhada. Passados que foram alguns minutos. que a vida lhes seria poupada. com um bom murro. Fora de combate as . um pouco afastados.Não! apressou-se ele a dizer-me. E se ofereceram. a luta. apesar de gravemente ferido. apareceram. protegendo o capitão.Que escapem. a conversar. com a condição de que cooperassem fielmente para a recuperação do navio. perto. e o outro.gritei eu. que consentiu em tê-los de volta. apenas surgiram.perguntei. . se não se salvarem.

de olhos pregados em mim: . com muita atenção. Vendo. Ouviu-me com grande interesse. com tão poucos homens? .Foi um milagre! Verdadeiramente. terão a forca. com a demora dos que vieram para cá. repetia. refletindo sobre o que lhe ocorrera. . não querer ão render-se. 88 Assim foi feito. ido para o escaler. lançado à praia. Terminada a minha história disse-lhe: . para perguntar isto ou aquilo. ficou tão emocionado que se pôs a chorar.disse-lhe.É bem possível.Sim. . pude. com ordem de tirar-lhe as velas e os remos. que a providência não parecia ter-me conservado senão para salvarlhe a vida. em que 89 caiam. lancem outro escaler ao mar para ver o que aconteceu? . Disse ao capitão: . é verdade. desde que aqui viera ter. esperemos.infalivelmente. muito sério e muito convencido. Não sei que medi. tudo parecia correr normalmente. fazer ao capitão a narrativa das minhas aventuras na ilha. . porque sabem que.Agora. . em virtude da rebelião. a uma ordem minha. ou fazer este ou aquele comentário. tendo SextaFeira. meu bom amigo. uma vez chegados à Inglaterra. é quase certo. Como atacá-los. resta-nos pensar de que maneira recuperaremos o navio.pensar numa armadilha. de fato. Não achas que. . A bordo estão vinte e seis homens. e regressamos à minha casa. então. merecem ficar a ferros. interrompendome inúmeras vezes. para ver se assim de fato acontecerá. todos os nossos adversários fora de combate. das tomar. respondeu-me.Conservemos a todos atados de pés e mãos. irão colaborar conosco. com o contramestre. enquanto não chegarmos à conclusão de que. De vez em vez. com calma. Sabendo que.Então.Resta-nos .duas ovelhas negras. depois. um milagre! E quando lhe disse.

no caso de que partissem deixando-nos o escaler. no navio. se vierem do navio. então. algumas bolachas. ao mesmo tempo. isto sim. 90 Esse achado encantou-me.Creio que uma coisa que devíamos fazer era inutilizar o escaler que ficou na praia. de modo que. até o momento. para torná-lo inútil ao inimigo. assim. a fim de que nem mesmo a maré pudesse pô-lo a flutuar. uma barrica cheia de pólvora e um pão doce. não poderão levá-lo. ao capitão: . nele fizemos um grande buraco. enrolado num pedaço de pano. por qualquer motivo. que é o meu observatório. Assim. O que tinha em mente era. tinha as minhas dúvidas de que pudéssemos tomar o navio. não puderam regressar. devorei-o na hora. decerto conforme fora combinado entre os amotinados. para observarmos o movimento no navio. empurrá-lo bastante para o interior da ilha. para o rochedo. um sinal. com o óculo de alcance. mas que. que o espanhol e o pai de Sexta-Feira foram alcan çar. além ancorado. deitariam segundo escaler ao mar para ver o que sucedera. Depois de vazio o escaler. Voltamos. para que se levasse o escaler de volta. . naquele instante. concertálo e colocá-lo em estado de conduzir-nos até os nossos amigos. então. Pusemo-nos. Verdadeiramente. Não satisfeitos com isso. porque não o saboreava desde os meus tempos de rapazola. Estava certo de que não demoraria muito e os homens do navio. começamos por tirar do pesado barco o que nele ficara: uma garrafa de rum e outra de aguardente.Sexta-Feira ficará de sentinela. então. Ouvimos. E distinguimos. para bordo. desconfiados com a demora dos companheiros. uma vez chegados. com o consentimento do capitão. um tiro de peça. no rochedo. Disse. e receava que viessem bem armados e em grande número. em direção à praia e. com grande esforço. O capitão concordou. conseguimos. onde Sexta-Feira ficara de sentinela.

são os piores da tripulação. no momento. .Há. três rapazes valentes. sei. à força de remos.disse-lhe. E de olho nos dois. . distintamente. um dos homens deu um grande grito. que me olhou. Quando estavam ao alcance de nossas vistas.Bem . os homens vindos do navio correram ao primeiro escaler. por algum tempo. mais. meu bom amigo. para chamar a atenção daqueles que aqui aportaram. Não obtendo resposta. daqueles que se aproximam? .Com exceção de dois deles. depois do quê respondeume: . vendo-o furado no fundo e sem os seus acessórios.Que achas.Só veio. tornaram a reunir-se e de novo confabularam. a olhar pelo óculo. que foram arrastados à aventura à força. no escaler agora inutilizado. nele pudemos contar dez homens. que outro escaler era deitado ao mar. . preparemos para o que der e vier. para surpresa nossa. e que se dirigia à praia. dar-nos-ão imenso trabalho. entre eles. capitão. Toquei num dos ombros do capitão. Esses não desistirão da 91 empresa. . Quanto aos de.perguntei. confabularam. Logo que chegaram à praia. embarcaram e remaram para 92 . Percebemos perfeitamente que ficaram surpreendidos. bons e cordatos. Sorrilhe. Então. Pouco depois. creio nos demais.Nada de esmorecimento . desta vez mais demoradamente. e.Qual? Estarão os nossos prisioneiros prontos a ajudar-nos? O capitão pensou Por um momento. . todos armados. Aturdidos com o silêncio que se fez. depois. O capitão.tornei.então. uma coisa embaraçosa. respondeu-me: . em círculo e deram uma descarga com as armas. .A posse do navio Vimos. Puseram-se.

sempre escondidos. Por um momento. Então. quando já se achavam bem distanciados. porque 93 se assim fizermos. se derem segunda descarga. Dei ordem a Sexta-Feira e ao contramestre para que passassem à praia.disse-lhe. O capitão. aproveitar por estarem todos com as armas descarregadas e. então. Que fazer. Pensei por um instante. pelos amigos. até que tivessem plena certeza de que tinham sido ouvidos. ríamos fazer. mento. de tempo em tempo lançando gritos de chama.o navio. Nada de precipitações. marchando para o nosso lado.disse. antes de chegada a noite. amistosamente. então. e fossem ficar adiante deles. Com calma resolveremos tudo. naquela emergência? Lembrei-me. de olhos a brilhar. estacaram. vimos que os homens se levantaram e buscaram a praia. nada pode. Todavia. entrassem a gritar com todas as forças. no ombro. encafifados com a falta de resposta dos companheiros. Notamos. . uma vez chegados a um lugar onde pudessem ocultar-se. vendo que se iam. . cairmos sobre eles? O capitão sorriu. Depois de termos esperado um tempo enorme. ficando sempre a coberto. pelo oeste. Os sete logo adentraram a ilha. . e queria agir de qualquer maneira.Seria uma ótima coisa . Mas o que desejava não aconteceu. dessa maneira. Em seguida. recomendando-lhes que. voltassem em círculo. . para ver se conseguiriam fazer-se ouvir propus ao capitão: . dum estratagema. retrocederam e tornaram à praia. a tudo poremos por água abaixo. Sentaram-se no chão selvoso e entraram a conferenciar. julguei que iam dar segunda descarga.Não . e que ali se deixassem ficar. Sete deles desembarcaram e três ficaram no escaler. que estavam amedrontados com o silêncio. exasperou-se. Num certo ponto. Não devemos perder a cabeça. de surpresa. e percebi que.Que achas. colocando-me uma das mãos. Esperamos longo tempo.

que um deles. olhando uns para os outros. Sexta-Feira e o contramestre continuavam a gritar. cheios de medo. Aproximamo-nos como sombras. Puseram-se. até o cair da tarde.a soltar gritos de quando em quando. deitado no 94 fundo do barco. Sempre e sempre atraídos pelos chamados de nossos dois homens. temeroso da forca. com voz trêmula. resolveram regressar à praia.É chegada a hora . e em silêncio! Quando chegamos. descansava. Era justamente o que eu desejava. donde vinham os gritos. prometendo servir-nos com toda a fidelidade. tendo ficado dois deles de guarda ao escaler. um dos que ficaram a montar guarda ao escaler espichava-se na areia. sempre atraindo os outros homens. e logo capitulou e se aliou conosco. e o outro. não teve ele tempo sequer de saber o que lhe acontecia: com uma boa coronhada na cabeça. juntando-se aos três que ali haviam ficado. Alvoroçaram-se. Estavam os marinheiros entrando no escaler. em seguida.disse ao capitão e aos demais marinheiros. ouvimos. Ao outro.Juro-vos que isto é uma ilha encantada! Toda ela habitada por maus espíritos! Depressa.à praia. caímos sobre o que estava na praia. e quando. então. que dormitava dentro do escaler. dificilmente.Eu! Olá! Aqui! Os homens entrepararam. fizemo-lo prisioneiro. ter conosco. porque conhecia o fim dos amotinados na Inglaterra. a caminhar naquela direção. . vindo. penetraram todos na mata. dizia: . alcancemos o escaler e . sem sentidos. ficou estendido no lugar em que se achava. quando chegavam. Cansados e aturdidos. que circularam longamente pela mata. ambos despreocupadamente. . para atrair os homens para as matas. a um sinal meu. cerrados e pedreiras. depois para o oeste. quando Sexta-Feira e o contramestre principiaram a gritar. temerosos das sombras da noite que se avizinhava. Correndo. Entrementes. .

eu mesmo. não e assim. e. morto. que vos procuraram por horas a fio.Sim .Estão aqui! . . quem? A quem havemos. Johnson? . antes que sejamos todos devorados.William Frie aqui está.Mas. o silêncio imperou por uns momentos. . Novamente.E o chefe? Que é feito de William Frie? . se não vos renderdes. como fizeram aos nossos camaradas. Ouvimos que todos estacaram.Como assim? . Tomás! 95 Escurecera. aquele que fora chamado respondeu: . dar-nos-ão quartel? Se todos depusermos as armas? . conforme havíamos combinado: . bem alto.Vou falar ao capitão! Esperai! O capitão pôde a falar com Johnson.Olá. senão morrereis. Tomás. Houve um momento de silêncio.fez ele. fizeram-me prisioneiro de guerra. Resistiu. . Quanto a vós.Que há? . erguendo a voz. num instante.busquemos o navio. A mim. Ouvime e vivereis.És tu.Morrer? . gritou-lhes. então. com cinqüenta homens. instantes após. pouco depois. depondes as armas.Sim. por isso acabaram com ele.o capitão.respondeu o nosso aliado. de render? .Se nos rendermos todos. . depois. Tomás? .Johnson? . estareis todos perdidos. o marinheiro que havíamos capturado e que passara para o nosso lado. meio trêmula: .Por Deus.Estão aqui! Todos! . depois o cicio de cochichados. 96 a voz de Tomás se fez ouvir. Quando se avizinhavam. perguntando-lhe: . de modo que aos nossos inimigos era impossível saber quantos éramos.Conheces a minha voz. Logo. dirigiu-se a Tomás. Tomás perguntou: . .tornou Johnson. e rendeivos. vós todos.

como vos dei quartel. depois continuou. o capitão. e eu sorri. Todavia. sem condições . . lívidos e trêmulos. .Pois se depuserdes as armas! . que.O governador quer enforcar-vos já. tornou aos prisioneiros. capitão.Quartel? . até a última gota de sangue. fortemente amarrados. ficou bem claro? Os homens caíram de joelhos e juraram fidelidade ao capit ão. . eu a conheço. perdeu-se na escuridão. então. capitão! Dê-nos quartel! Livrai-nos da forca! . e depois dum certo tempo.Agora . Antes.O outro respondeu. consegui abrandá-lo. O governador sente um desejo imenso de enforcar-vos. Fez uma pausa. . . Afastou-se.tornou ele.Julgastes . porque o que fizestes foi tremendamente inominável. sem clemência. Vou comunicar ao governador as vossas promessas. Era a mim que o capitão se referia. depuseram as armas. tereis que esperar a clemência do governador da ilha.disse ele aos homens que havíamos capturado. . O meu navio. para os homens. para ver o que será feito de vós. . esperavam: .disse-lhes.Sim. . além.que.e esperar a decisão do governador. depois de algum tempo: . mas deveis jurar-me solenemente que nos ajudareis a reconquistar o meu navio. pedindo que lhes fos97 se concedida a graça da vida.Deveis. a todos.Nada posso afiançar-vos.repetiu o capitão. lisonjeado e divertido ao mesmo tempo.Pois muito bem! exclamou o capitão. . caíram todos na armadilha que lhes havíamos preparado. Todos. render-vos. Amarrados.falarei ao governador. tudo haveria de correr-vos bem? Não! Aprouve a Deus que os homens do governador desta terra me salvassem a vida. já. podia . Como não me conheciam na qualidade de governador.Pelo amor de Deus. abandonando-me nesta ilha deserta.

E estava tão alegre que outra coisa não fazia senão imaginarme em alto mar. com maior facilidade do que supúnhamos. principalmente. avesso ao derramamento de sangue. sempre falando com 98 muita lábia sobre o palácio do governador. Fiz com que os prisioneiros viessem à minha presença. daqueles que. a vós vos foi prometida a vida. e eu estou agarrado a palavra . Vejamos. sei dum meio para que levemos os celerados a pedir-te como uma graça a permissão de aqui em terra ficar. tomar o navio.Meu caro amigo. naquela mesma noite. Da pirataria que pretendias cometer com o navio que procurastes tomar. considerando-me livre da solidão em que por tão longos anos vivera. cuja malvadez era invencível. que fim devereis ter? Acabareis na ponta duma corda. quando chegardes à Inglaterra. Mas era tempo de tratar dos prisioneiros. com todas as forças da minha alma. Como o capitão era homem de bons sentimentos. e dos homens que tinha a seu serviço. rumo à Inglaterra. E. Robinson deixa a ilha deserta Com que alegria vimos o fim de toda a nossa aventura! Eu. E dava graças a Deus. Todavia. ria por qualquer motivo. que sempre e sempre me protegera.Sou o governador da ilha e sei perfeitamente da vossa conspiração contra o capitão. O caso era sério. dizendolhes: 99 . permaneceram firmes no erro. Assim sendo. presos. a ferros. conseguimos. sempre ajudados pelas nossas melhores aliadas . principalmente a respeito de dois ou três deles.a escurid ão e a surpresa.representar outra personagem. teimosos o de má índole. disse-lhe: .

Apenas um dos meus irmãos. por longos anos. achei-me tão estranho como se nunca ali estivera jamais. portanto. o meu guarda-chuva e o papagaio . não me ficara outra coisa senão o meu tesouro. Dei-lhes. de engordá-las. levei um gorro de pele de cabra. Foi assim que deixei a minha ilha. aqui. A viagem para a Ilha. que deviam chegar.dada. de recordação. de fazer manteiga e queijo. com lágrimas nos olhos. chegara a hora do adeus à ilha. Quando percebi a sua determinação.e o dinheiro que tinha guardado. com a grande e unta ajuda de Deus. de presente. a voltar à Inglaterra. segundo a folhinha do navio. o que consegui do capitão. dizendo-me: . Pareceram receber a minha proposta com grande reconhecimento. vinte e oito anos. levara a efeito. depois dama ausência de trinta e cinco anos. Deixei-lhes também as minhas armas e pólvora do navio em que se rebelaram. dois meses e dezenove dias. Falei-lhes ainda do velho pai de Sexta-Feira e de vários espanhóis.Preferimos viver aqu4 infinitamente o preferimos. sim. ou a vida. Tinha os olhos cheios d. na Inglaterra. um saco cheio de ervilhas. Ficara enterrado por tão longo tempo que estava muito oxidado ou enferrujado. aterra foi ótima. Era a 18 de dezembro de 1686. escolher: a forca. se as semeassem devidamente Afinal. secar as uvas e tudo aquilo que. e para os quais deixei uma carta. As.água. com o bom e fiel Sexta100 Feira. cumprindo o que vos foi assegurado. de mungi-las. que não me era suficiente para . passei a dar-lhes as mais completas informações sobre a ilha: como semear. Quando pus os pés no meu país natal. os seres que a mim se ligavam. Cheguei à pátria a 11 de junho de 1687. dizendo-lhes até que ponto se multiplicariam. Como há tanto tempo passava por morto. Fui a York. tendo ali vivido. Comigo. deixaram-me fora da partilha dos bens. Deveis. Ensinei-lhes a maneira de criar cabras. Meu pai e minha mãe não mais viviam.

a manutenção. sem que precisasse voltar ao Brasil. Segui com Sexta-Feira. depositando nos bancos tudo aquilo que mo pertencia. o capitão. do que muito me admirei: os meus sócios cuidaram dos meus interesses muito honestamente. Em Lisboa. Foi uma grande alegria. Então. tudo veio parar às minhas mãos. bastando que eu desse a conhecer os meus direitos. resolvi ir a Lisboa para informar-me do que sucedera com as terras que possuía no Brasil e de como estavam os meus negócios. ao qual salvara a vida e o navio. FIM . E logo. direitinho. que me acompanhava a toda parte e a quem queria como a um filho. Contudo. como recompensa. por intermédio dos meus sócios. fiquei sabendo que tudo estava em ordem. conseguiume dos grandes da companhia a que seria duzentos libras esterlinas.

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