ÉTICA, COMPUTADORES E SOCIEDADE

ANO 2013

CURSO DE CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO PROF. RICARDO SIMÕES

Módulo 1

Ética e Cidadania

ÉTICA

1. O QUE É ÉTICA?

Se alguém perguntasse a você o que é Ética, você saberia responder de imediato? Não se preocupe, pois ética realmente é das coisas que todo mundo sabe o que são, mas que não são fáceis se explicar, sem se ter um tempo para pensar a respeito. Comumente, a ética é entendida com um estudo sobre os costumes ou ações humanas, com o auxílio de reflexões filosóficas, científicas ou até mesmo religiosas. A ética pode ser entendida como a própria vida, quando de acordo com os costumes considerados corretos. Pode ser também o estudo das ações ou dos costumes, podendo ser a realização de um tipo de comportamento.

Enquanto ciência, sua reflexão nos levaria a uma ciência normativa, em se tratando de comportamentos; em uma ciência descritiva, enquanto tratasse dos costumes das sociedades; uma ciência especulativa, quanto cuidasse, por exemplo, da questão fundamental da liberdade. Quando falamos em liberdade, é inevitável que suja o problema do bem e do mal, e o problema da consciência moral e da lei, e vários outros problemas deste tipo. Para sermos didáticos, dividiremos o problema da ética em dois campos: em um, os problemas gerais e fundamentais (liberdade, consciência, bem, valor, lei, etc.), e no outro campo os problemas específicos, com aplicação concreta (problemas de ética profissional, de ética política, de ética sexual, de ética matrimonial, de bioética, etc.). Vale ressaltar que esta divisão é meramente didática, pois na realidade ambos os campos aqui apresentados não se separam, assim como não se separam os problemas de nossas vidas diárias. Por exemplo: uma situação de suborno a um funcionário é um problema apenas econômico, ético, ou envolve os dois aspectos?

As questões da ética nos aparecem continuamente. E quando estes problemas acarretam “dor na consciência”, “sentimento de culpa”, com certeza se torna importante saber se estes sentimentos correspondem de fato a uma culpa real. Cabe ao campo da ética, perguntar e refletir se o homem pode realmente ser culpado, ou o que existe é apenas um sentimento de um mal-estar infundado.

Entretanto, as questões éticas, quando vistas pelo lado dos costumes, variam conforme o tempo histórico de uma sociedade, conforme as questões geográficas. Mas, sendo assim, a ética não seria então uma simples listagem das convenções sociais provisórias? Segundo este ponto de vista, o que seria, então, um comportamento

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Educação para a cidadania – Módulo 1

correto, em ética? Seria apenas um comportamento adequado aos costumes vigentes e enquanto atuais, ou seja, enquanto estes costumes tiverem força para coagir moralmente, ou seja, socialmente. Contudo, não são apenas os costumes que variam, mas também os valores que os acompanham, as normas concretas, os ideais, a sabedoria, de um povo a outro. Seno assim, não seria exagero dizer que o debate no campo ético também resvala na variação dos costumes.

2. A ÉTICA NA GRÉCIA ANTIGA

Os grandes pensadores éticos, sempre buscaram respostas para explicar, a partir de alguns princípios universais, tanto a igualdade do gênero humano, no que há de mais fundamental, quanto as próprias variações. Sócrates (470-399 a. C.) é considerado o “fundador da moral”, tendo em vista que sua ética não se baseava somente nos costumes do povo e seus ancestrais, como também nas leis, mas sim na convicção pessoal adquirida através de um processo de consulta aos seus instintos e sentimentos mais profundos e primitivos, na tentativa de compreender a justiça das leis. Por isso, para muitos, Sócrates é considerado o primeiro pensado da subjetividade.

O sistematizador entre os discípulos de Sócrates foi Platão (427 – 347 a. C). Em sua obra Diálogos, ele parte da idéia de que todos os homens buscam a felicidade. Em sua maioria, as doutrinas gregas colocavam a busca da felicidade no centro das preocupações éticas. Platão, ao pesquisar as noções de prazer, sabedoria prática e virtude, colocava-se sempre a grande questão: onde está o Sumo Bem? Para ele, os homens deveriam procurar, então, durante a vida, a contemplação das idéias, e principalmente da idéia mais importante, a idéia do Bem. A partir deste Bem superior, o homem deve procurar descobrir uma escala de bens, que o ajudem a chegar ao absoluto. Segundo Valls (2008, p. 27), nas pesquisas efetuadas dialeticamente nos diversos Diálogos, Platão vai estruturando um quadro geral das diferentes virtudes, que são:
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Justiça (dike): é a virtude geral, que ordena e harmoniza, e assim nos assemelha ao invisível, divino, imoral e sábio.

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Ele também parte da correlação entre o Ser e o Bem. o que caracteriza a ética platônica é a idéia do Sumo Bem. cada ser deve haver um bem. e daí conclui que os bens (no plural. A dimensão anímica ou psíquica ( psique=alma) dos seres humanos foi concebida pelo filósofo como um conjunto de duas partes: uma racional e a outra privada de razão. Para ele. conforme a natureza ou a essência do respectivo ser. Assim. Aristóteles insiste sobre a variedade dos seres. para Platão. Grande filósofo especulativo e profundo psicólogo levava muito mais a sério que Platão. em Aristóteles. à pesquisa sobre os bens em concreto para o homem. Podemos dizer. Para ele. Em suas aulas.). 2. à harmonia individual. Fortaleza ou valor (andreia): é a que faz com que as paixões mais nobres predominem. C. pois a vida prática se assemelha muito à prática teórica. a distância entre as virtudes intelectuais e morais é pequena. em Aristóteles) também devem necessariamente variar. da vida divina. e que o prazer se subordine ao dever. é aquela que põe ordem. O filósofo ensinava que todo o conhecimento e todo trabalho visa a algum bem. da equivalência de contemplação filosófica e virtude.2 – Racionalidade e Liberdade O mesmo Aristóteles caracterizou os humanos como seres racionais que falam. A busca do bem é o diferente é o que difere a ação humana da de todos os outros animais. Aristóteles fez uma análise do agir humano que marcou decisivamente o modo de pensar ocidental. Temperança (sofrosine): é a virtude da serenidade. o Sumo Bem em Platão dá lugar. e da virtude como ordem e harmonia universal. Aristóteles possuía depoimentos sobre a vida das pessoas e das diferentes cidades gregas. O bem é a finalidade de toda ação. nos nossos pensamentos. o que mostra seu esforço analítico e comparativo. A 4 Educação para a cidadania – Módulo 1 . foi Aristóteles (384 – 322 a.Prudência ou sabedoria (frônesis ou Sofia): é a virtude da alma racional. Outro grande filósofo. que se tornou tão importante quanto o seu mestre. a observação empírica. equivalente ao autodomínio. Desta forma. Mais do que Platão. a racionalidade como o divino homem: orientar-se para os bens divinos. portanto. que a ética aristotélica é marcada pelos fins que devem ser alcançados para que o homem atinja a felicidade (eudaimonía). também. Enquanto Platão desenvolvia uma especulação mais teórica. Esta virtude.

determinando seu valor. É a escolha que define o caráter de um ser humano. O critério das escolhas é sempre racional. Mas o que nos diferencia dos outros animais? Segundo Aristóteles. A Segunda. A razão guia. a capacidade racional de realizar escolhas permite-nos afirmar nossa condição de liberdade. mesmo quando julgamos mal nossas ações. razão e desejo. isto é. trabalhar e amar. conduz o desejo ao encontro de seu objetivo. Pela Segunda parte da alma. Assim. com todo o reino da natureza. O exercício da liberdade é a capacidade de escolher. de água para saciar a sede: dormir para perpetuar a espécie. Quando olhamos um filhote de cachorro. Todos os seres humanos têm em comum um problema único a resolver: como sobreviver. mas não participam da ação. impulsionados pelo desejo movemonos em direção aos objetos. sede. Aqui se apresentam algumas questões éticas de grande relevância. o que determina a justiça e a bondade? O que é ser justo? O que é ser bom? 5 Educação para a cidadania – Módulo 1 . Mas. Nisso os seres humanos podem se desviar do determinismo pelo padrão genético de suas espécies. A ação é um movimento deliberativo. por seus elementos vegetativos e apetitivos. somos capazes de dizer seu comportamento futuro. Quais os critérios que norteiam as escolhas que um homem faz em sua vida? Quais são os valores que pautam suas ações? Quais objetivos pretende atingir com quais meios efetivará sua realização? Afirma-se que toda ação deve ser justa e boa. A primeira não é princípio para julgar ação. somos iguais a todos os outros animais. Nesse sentido. Necessitamos de alimentos para aplacar nossa fome. a origem da ação é a escolha.primeira expressa-se pela atividade filosófica e matemática. reprodução ). o desejo é a força motriz. Ao olhar para um bebê é impossível prever seu comportamento. Suas virtudes se manifestam nas escolhas que realiza no curso de sua condição mortal. O motivo é sempre emocional. falar. Movidos pelos instintos primários (fome. Mas esta força motriz deve seguir o curso traçado pela razão. O desejo está na raiz dessas escolhas: a razão é o seu guia. Nós somos capazes de planejar nossas ações. é a racionalidade. Para Aristóteles. Os seres humanos definem-se pela capacidade de pensar. Os homens diferem dos demais animais porque são capazes de realizar escolhas. Agimos acreditando que estamos fazendo o bem e. Isso permitiu a hierarquização dos seres humanos. é sempre o bem que estabelece o critério de tal julgamento. pois também os outros animais possuem sensação. ou seja. podemos identificar três coisas que controlam a ação: sensação. de realizar escolhas e julgá-las. Ainda com Aristóteles. suas ações e suas intenções. Realizar escolhas é eleger objetos para o desejo. somos guiados pela necessidade de sobrevivência. por conseguinte. por exemplo. o impulso gerador de todas as nossas ações. os seres humanos identificam-se como tais pelas distinções que são capazes de estabelecer com os outros animais e. sono.

as palavras ética e moral tem a mesma base etimológica ( origem da palavra ). Usadas alternadamente com o mesmo significado. de acordo com o que a coletividade espera deles. mas pode instrumentalizá-los para que decidam conseqüentemente. pode ser conceituada como o conjunto de normas que. Os filósofos referem-se à ética para denotar o estudo teórico dos padrões de julgamentos morais. certo ou errado. A expressão ética profissional serve como indicativo de conjunto de normas que baliza a conduta dos integrantes de determinada profissão. Uso popular do termo ética: Ética diz respeito aos princípios de conduta que norteiam um indivíduo ou grupo de indivíduos. A ética representa. A moral. numa rápida olhada em qualquer jornal. No entanto. A sociedade é uma construção histórica pautada numa lei fundamental: é proibido matar o semelhante. assaltos. descobrimos que o assassinato é praticado das mais diferentes formas: guerras.. em determinado meio. fome. por exemplo. como sinônimo de ética. definir o termo ética como sendo um ramo da filosofia que lida com o que é moralmente bom ou mau. terroristas. (exemplo: O caso da bomba atômica). ambas significando hábitos e costumes. de forma simplificada. atentados. Mas como. inerentes às decisões de cunho moral. Vez ou outra ouvimos dizer que essas ações são desumanas.No exercício da liberdade. Chamamos sociais nossas relações com os outros no mundo. uma tomada de posição ideológico-filosófica que remete aos interesses sociais envolvidos. pois. 6 Educação para a cidadania – Módulo 1 . granjeiam a aprovação para o comportamento dos homens.. animais racionais? 3 – CONCEITO DA ÉTICA Pode-se. se foram praticadas por seres da mesma espécie. A reflexão ética não pode pretender converter os agentes sociais em “indivíduos “éticos. cada um de nos se relaciona com outros indivíduos e dessas relações emerge a realidade social. A expressão ética pessoal é normalmente aplicada em referência aos princípios de conduta das pessoas em geral. A palavra grega ethos e a palavra latina mores.

Educação para a cidadania – Módulo 1 . como expressão única do pensamento correto.) 3. o caso de uma pessoa que entra em uma loja com o objetivo de adquirir um aparelho de eletrodoméstico... conduz à idéia da universalidade moral. a igreja católica.OBJETO E OBJETIVO DA ÉTICA Convivência em Sociedade  Relacionamentos  Objetivos  Natureza Individual (particular)  Coletiva (Toda a sociedade ou parte da mesma) Comportamento Humano  Influência Ambiente  Crenças   Valores Conflitos Exemplo: 7 Tome-se.A ética. (exemplo: Na Idade Média. por exemplo. ou ainda. à forma ideal universal do comportamento humano. expressa em princípios válidos para todo o pensamento normal e sadio. na loja encontrará alguém com o objetivo de vender eletrodomésticos.1 . Certamente.

DESAFIO: Ponto de Entendimento. condições de pagamento. “relacionamento comercial”. Os teleologistas ( do grego teléios : “no fim”. “final”(causa).. “’útil”) acham que certas ações são corretas por causa do valor da bondade que eles inerentemente contêm.3 – O CAMPO DA ÉTICA Os dilemas morais surgem como conseqüência do comportamento (refletido nas ações) dos indivíduos. é comum pessoas diferentes enxergarem determinado fato através de óticas diferenciadas. a Ética a influenciou e foi por ela influenciada. * A Ética constitui uma relação social que pode ser visualizada como uma relação de poder. e assumem que as definições de moral derivam desses conceitos fundamentais. Os deontologistas ( do grego déontos. Os teleologistas têm na bondade e valor os conceitos axiológicos básicos que detectam de onde vem a preponderância da bondade intrínseca. 3.O relacionamento envolverá pessoas com objetivos opostos. No seio de uma mesma sociedade. Na ética normativa. uma objetiva comprar. e 2. Enfatizam o cálculo das conseqüências de cada ação. distinguem-se dois grupos principais de filósofos: 1. muitas vezes conflitantes. enquanto a outra deseja vender.2 – RELAÇÃO COM A FILOSOFIA Como um ramo da Filosofia. É a razão pela qual não se pode falar unicamente em “ética em geral”. Os axiologistas ( do grego axíos. pertencentes a sociedades históricas determinadas. 3. prazo de entrega. mas de morais específicas. Os deontologistas têm como conceitos básicos o direito e o dever. (exemplo: Homem nu na rua e os indígenas na tribo). como a alegria ou prazer. de “de obrigação” ) . 8 Educação para a cidadania – Módulo 1 . Questões que podem surgir: marca e preço do produto.. “digno”.

esta vinculada aos valores de cada pessoa.A existência de um dilema moral implica que a ação de determinado indivíduo. modificando o rumo até então dado à mesma. Quanto à guerra. qual o caminho a seguir e em qual momento a rota deve ser alterada. encontrará uma “moral “defendida por parte dos envolvidos. O ser humano. a qual permite ao ser humano escolher. com base em sua própria experiência de vida. Educação para a cidadania – Módulo 1 9 . A capacidade de imprimir alterações no curso da própria vida está relacionada com capacidade de raciocinar. ou a ascensão ao poder de um nova vertente de pensamento. Ambos os fatores. ao mesmo tempo em que se mostra racional. ( exemplo : Hobin Hood ). De outra forma. racionalidade e sentimento. tais como: a) Defesa própria. contrariou aquilo que genericamente a maioria da sociedade acredita ser o comportamento adequado para aquela situação. uma nova descoberta tecnológica. entre ele. que podem conduzi-lo a irracionalidade. Essas alterações são o resultado de vários fatores. Deve ser ressaltado que os problemas relativos ao comportamento humano acham-se sempre atrelados a uma “moral “específica. é certo que caberá sempre uma discussão a respeito da validade dos valores que sustentam esses motivos. (exemplo: guerra) – O envolvimento de um país em uma guerra pode ocorrer em virtude de várias razões. ou mesmo de um grupo de indivíduos. ele carrega uma carga muito grande de sentimentos. a ponto de refletir sobre sua vida. nos valores que todas as pessoas trazem consigo. uma epidemia de largas proporções. De outra maneira. provocam alterações nas crenças e.3 – FUNÇÕES DA ÉTICA A história da humanidade nada mais é que o retrato das ações das pessoas através do tempo. 3. por conseguinte. b) Agressão fundamentada em um motivo qualquer c) Defesa de terceiros. por que as pessoas assumiram esse comportamento? (exemplo: Collor) Uma investigação detalhada de qualquer caso rumoroso. caberá sempre a Pergunta: por que o país segue este rumo. certamente. pode-se afirmar que as pessoas mudam de comportamento ao longo de suas vidas.

E o que seria. anteriores à civilização. dizia que a norma grega de buscar o belo e bom se resumiria. pela autoridade clerical. em todas as ocasiões. de tudo que era agradável. em seu sentido restrito. não nos diz o que fazer com esta liberdade. grande filósofo e teólogo medieval. Agir conforme a palavra divina está fora de questão. o retorno às condições naturais. à busca da beleza. contudo livre. Com o fortalecimento desses mesmos Estados Nacionais. Para ele. nos fazendo livres. afinal. Educação para a cidadania – Módulo 1 10 . uma vez que os comportamentos eram orientados pelos mandamentos divinos. podemos dizer que a ética medieval na cristandade era mais um comportamento religioso do que ético. essa consciência moral? Segundo Valls (iB. explicando também a dificuldade grega diante do Cristianismo. Desse modo. A preocupação do campo ético passa a ser a autonomia moral dos indivíduos. Rousseau. nesse caso. id. a difusão cultural e o enriquecimento de uma nova classe (burguesia). Surgem os estudos de Maquiavel. que procuram agir conforme sua razão natural. no fundo. contendo uma exterioridade à consciência moral dos indivíduos. contudo. surgem os Estados Nacionais. não tinha nada de racional. contudo que Tomás de Aquino. devemos alcançar esta liberdade por meio da mediação de nossa capacidade racional. Para ele. grande admirador dos gregos. Não queremos negar. Spinoza e Kant. precisamos consultar nossa consciência individual.Quando nos referimos aos problemas de comportamento humano. obrigatoriamente. Como não nos diz como agir. estamos falando de moral. Kierkergaard (1813 – 1855). estamos discutindo problemas éticos.) é “aquela voz interior que nos diz que devemos fazer. o bem e evitar o mal”. busca descobrir em cada homem (antiaristocrataeantiburguês)umanatureza fundamentalmente igual. a natureza humana é racional. Com o período da Renascença. surgem novos estudos sobre moral em vários aspectos: individuais. surgiram a imprensa e o reestudo do Mundo Clássico. Kant em seus estudos. onde a morte na cruz não tinha nada de belo e o Sermão da Montanha. sociais e estatais. desse grande importância à consciência moral. 4 – ÉTICA X MORAL O pensador dinamarquês S. especialmente de Sócrates. trazendo o ideal de uma vida melhor. por exemplo. adentrando o campo da ética. do prazer. de valores morais e. ou seja. Podemos encontrar em Rousseau (1712 – 1778).

Para evitar que cada um aja conforme sua própria consciência individual. algumas noções sobre a ética continuam imutáveis e firmes. mas o que levava alguém a excluir uma das duas opções. moralmente. afirmando que sua ética não possuía valor histórico consolidado. Hegel. uma disjunção. E quem não vive fazendo essas escolhas. a história e a política. onde a liberdade individual seria vivida concretamente. os critérios de bondade e justiça não são cumpridos. Dessa forma. lembrando que essa estrutura igualitária entre os homens não leva em consideração as tradições e valores de cada povo. na medida em que o agir ético do homem precisa tornar-se concreto dentro de determinada política e de um momento histórico variável. Para ele. Os assassinatos revelam o conflito irremediável entre a liberdade e a Educação para a cidadania – Módulo 1 . Agir eticamente é agir conforme o bem. Kant parte do pressuposto que todos os homens são estruturalmente iguais. os homens de hoje ainda se sentem em condições de agir individualmente. mas a escolha entre o bem e o mal continua válida. É proibido matar! Se existem práticas homicidas. Ainda que variem os enfoques filosóficos ou condições históricas. é saber se mesmo tendo consciência desse fato.1 – CIVILIZAÇÃO E VALORES 11 A civilização parece não respeitar a lei fundamental que criou para que pudesse existir. tomando atitudes válidas para todos os indivíduos conscientes. todo agir é político. no entanto. como a distinção entre o bem e o mal. chegou a dizer que não se preocupava exatamente pela escolha entre o bem e o mal. abstratas. é a pessoa que decidiu pautar seu comportamento segundo determinada opção. faz uma ligação entre a ética. racionais e livres. A definição do que vem a ser esse bem é outro problema. A questão principal. agindo refletidamente. ainda que abstratas. quando afirma que suas afirmações são meras conjecturas. não vive eticamente. ignorando a historicidade concreta de cada sociedade. ou seja. em seus estudos. devendo agir conforme sua consciência. organizando-se em um Estado. Parece-nos que os homens da atualidade estão mais conscientes que não são meros espectadores. 5 – O QUE É ÉTICO NA SOCIEDADE MODERNA 5. educada da melhor forma possível. poderíamos continuar definindo uma pessoa ética como aquela que age sempre dentro da opção bem/ mal. mas sujeitos de suas próprias escolhas. ou seja. caindo a sociedade num subjetivismo irracional. Kierkegaard. em uma de suas obras. inclusive e principalmente o agir ético. Hegel surge como contraponto de Kant.

como sujeitos de nossa vida. o animal racional teve de enfrentar três grandes desafios: o poder superior da natureza. o Estado aparece como o grande gerenciador desse conflito. que nos ameaça com forças de destruição. Mas por que os pobres são condenados à prisão? Por que os chamados “crimes de colarinho-branco” não são punidos com a prisão? Observe que essas questões remetem ao chamado da reflexão ética. Há outra forma também de pensarmos a ética: como exercício estético. por exemplo). acaso deveríamos julgar livres os indivíduos que praticam crimes? Seriam eles livres em suas ações ou não? O critério de justiça determina a prisão (perda da liberdade) para quem cometer homicídio. Finalmente. O mármore ou a tela seriam as imposições/restrições impostas pela civilização e das quais podemos escapar. regras) para ajustar as relações dos homens uns com os outros. A tarefa da civilização é humanizar esse animal racional chamado homem. Os conhecimentos científicos e tecnológicos procuram responder a esses desafios. a fragilidade de seu próprio corpo. 12 Educação para a cidadania – Módulo 1 . As teorias filosóficas e as produções artísticas inserem-se nessa tarefa de encontrar caminhos para esses desafios humanos. leva-nos à conclusão que ao obter a posse dos meios de poder e coersão. Os humanos são seres da cultura. A cultura é a morada do homem. por meio de seu sistema de leis e práticas de coersão (prisão. No entanto. Em meio a esse conflito irreconciliável entre as exigências individuais por liberdade e as restrições impostas pelo regulamento social. os sistemas de crenças também. uma minoria impõe seus valores à grande maioria que resiste. A lei foi constituída para garantir o exercício da liberdade. O homem é um animal cujo maior desejo é tornar-se humano. mas. Mas esta conclusão nos permite pensar o poder também como resistência por parte da maioria. A vida humana difere da vida dos animais em dois aspectos: os conhecimentos e as capacidades adquiridas para controlar as forças da natureza. podemos esculpir/pintar com o formão e o pincel de nossa liberdade.lei. e as leis que regulam suas ações sociais. criar condições para que cada um produza sua própria vida como quem esculpe o mármore ou pinta uma tela. A civilização é concebida como tudo aquilo por meio do que a vida humana se elevou acima de sua condição animal. Na luta pela sobrevivência em um mundo sombrio e assustador. O acesso aos bens culturais produzidos em toda a história é o que define nossa condição humana. pensada no campo da lei. As práticas religiosas. condenado à dissolução. normas. Nesse caso. podemos criar condições para instaurar uma ética da beleza: fazer da vida uma obra de arte. como relacionar a ética ( instância individual ) e civilização ( instância coletiva )? A ética. e os regulamentos (leis.

3 . sirva a todos enquanto sociedade. Sociedade por escolha própria: torcedor de um time Sociedade relacionado à natureza: família Sociedade caráter legal: Forças Armadas 5. mesmo não servindo a cada uma em particular. lazer.. Formam relacionamentos primários: Pais e filhos e Outros relacionamentos: na escola. tornando-se necessário que seus conflitos de interesses sejam ultrapassados e que seja estabelecido um estilo de comportamento que. buscando suas razões. Sociedade militar. Sociedade religiosa. no trabalho.SOCIEDADE E ÉTICA As pessoas são obrigadas a conviver em sociedade.. isso a despeito das diferenças de crenças e valores que cada uma atribui às coisas e aos fatos da vida e. na religião. Sociedade de lazer.O HOMEM EM SOCIEDADE SOCIEDADE: Integração verificada entre duas ou mais pessoas. da mesma forma. Sociedade profissional. saúde. “Busca de Objetivos Específicos” Tipos de sociedades: sociedade matrimonial. independentemente dos conflitos de interesses que tais diferenças venham a causar.2 . e com base nisto estabelecer tipos de comportamentos que permitam a convivência em sociedade.. 13 * É o objetivo da ética – entender os conflitos existentes entre as pessoas. Educação para a cidadania – Módulo 1 . como resultado direto de suas crenças e valores. que somam para que determinado objetivo seja alcançado. Considerando-se que cada pessoa não pode viver sem as demais..5. Integração entre pessoas / Viver em sociedade Manutenção de relacionamentos entre os membros que a compõem.

É dotada de sanção. a busca de interesses distintos intra e intersociedades conduzem ao surgimento de conflitos de interesses. muitos estudiosos aplicam-lhes o princípio – típico das normas jurídicas – da possibilidade de não atendimento sem violação dos princípios. mas que também não contraria a regra ética. Pode ser aplicado pela simples determinação do ser humano. o que significa que em determinado momento as pessoas precisam decidir qual interesse atender em primeiro plano. a sua desobediência gera uma penalidade. A lei é uma norma aprovada pelo povo de um país. Como os preceitos éticos são regras.ÉTICA E LEI O conceito ou preceito ético é uma regra aplicável à conduta humana. ou de outro modo. 14 Educação para a cidadania – Módulo 1 . o que significa que cada direito outorgado a alguém impõe um dever. tais pensadores utilizam a palavra aético. outras entre o indivíduo e a sociedade. ou seja. do qual a sociedade participa diretamente ou através de seus representantes. que é um comportamento que não é ético. Por essa razão.4 . O preceito possui duas características essenciais: Destina-se a adequar a ação humana ao conceito do bem e da moral. que possui as seguintes características fundamentais: Resulta de um processo formal de elaboração.5. Não concordamos com tal corrente de pensamento.PROBLEMAS MORAIS E ÉTICOS A perseguição de objetivos diferentes por parte de pessoas que se comportam de maneira desigual. algumas vezes entre indivíduos. o que é bom. decidir sobre o que é justo o que é certo. para nós os comportamentos valorados à luz das regras ética só podem ser éticos ou antiéticos.1 . isto é. - 6 – ÉTICA NO DIA-A-DIA 6. Essa corrente de pensamento aceita a idéia de que um comportamento pode não ser exatamente de conformidade com a regra ética. o que é errado. mas mesmo assim pode não contrariar esse preceito. independentemente de qualquer coação externa. e o que é ruim. para a mesma ou para outra pessoa. qual comportamento adotar. Para qualificar esse comportamento. É sempre atribuída.

Já o segundo comportamento. o prazer do educador é coletiva. naquilo que diz respeito à preparação de pessoas para a sociedade. funcionário que aceita um suborno. no ato de educar para a vida. da mesma forma.Exemplo: Um aluno que procura “colar” de seu colega ao lado. pode trazer prejuízo tanto para o aluno que solicita a “cola”. aprender a se tornar sujeito exige persistência. uma vez que está atrelada na aprendizagem de valores possíveis. O primeiro comportamento. o que é direito quando o interesse de determinada pessoa contraria o de outra. Não haveria lugar para um educador que pensasse somente em si mesmo. ainda que contrariando o objetivo do professor (preparar o aluno). o segundo. para todas as pessoas? Estes problemas são ligados à ÉTICA. Educação para a cidadania – Módulo 1 15 . isto é. O comportamento do aluno que “cola” finda por prejudicar o objetivo da própria escola. Contudo. Assim. Educa-se durante toda uma vida. o objetivo do professor ( avaliar o grau de preparação do aluno). como para o aluno que passa a mesma. nos leva a refletir quanto ao ato de conduzir o outro a novos caminhos possíveis no exercício de sua liberdade. o ato de educar pode se tornar em algo prazeroso. A questão que se coloca é . proibição de pessoas de determinada raça ou cor de freqüentar um local. justo ou injusto. traz prejuízo tão somente para o aluno que não busca uma preparação adequada.. carro que avança um farol vermelho. e ao educar. A articulação entre essas áreas . desde que assim o faça. Outras situações do cotidiano. De tal situação podemos destacar dois comportamentos distintos do aluno: o primeiro. a escolha de ser educador transforma-se num ato de generosidade e solidariedade para com aqueles que não são escolhidos. Nesse sentido. durante um exame. 7 – ÉTICA E DOCÊNCIA Entendemos que a docência deve estar intimamente atrelada à ética e à política. prejudicando a própria sociedade. que diz respeito ao fato de que o mesmo não se ter preparado adequadamente para o exame. que se refere ao ato de solicitar “cola” ao colega. uma vez que o formar-se para a vida é processo de longo prazo. marginal que realiza um assalto. bom ou ruim. o que é certo ou errado. corre-se o risco de errar e o erro faz parte da condição humana.. Ao se deixar levar pelo prazer de ensinar. que contraria.

A aprendizagem de valores na escola depende do cultivo de princípios que reconheça no outro a humanidade e daí o exercício do cuidado de se educar para a vida. ao interiorizar as normas morais. ao escolher ser justo. decide sobre sua aceitação ou recusa. devemos cultivar o exercício da reflexão. onde o conflito está intrínseco ao processo de ensino e de aprendizagem. Quando há escolhas. Ao se pensar a educação como um exercício de liberdade. é preciso compromisso com o outro. escolhe em relação ao outro. Pelo fato de a lei moral ser algo necessário à vida em sociedade. despertando no outro o respeito mútuo. Educação para a cidadania – Módulo 1 16 . que demanda a formação de valores. implica em um processo radical de valores. e não para algumas instituições. passa a ser qualificada como o lugar de realização do ser humano. deve procurar ser um profissional sem certezas. existe o grande desafio do exercício da prática da liberdade no espaço escolar. instaura dentro de si o que representa um processo de avaliar a decisão a ser tomada. Recusar normas impostas e procurar novas possibilidades de se estar bem no mundo consigo mesmo e com o outro. uma vez que somos o que pensamos e vivemos. Se se respeita a natureza do ser humano. Ao se escolher esta profissão. é o ideal da ação ética. O educando. o lugar do educador expressa uma dialética possível da interioridade ética e de sua exterioridade política. há possibilidades de erros e acertos. Educar é substantivamente formar”. devendo ser entendido com um conflito de valores. pois a convivência com o outro implica reciprocidade. mediante um diálogo em face da presença do mistério que é o outro. p. Esse exercício pressupõe a liberdade. Para que ocorra esse prazer. Conflitos podem possibilitar o surgimento de uma nova ética que valorize o ser humano e expresse o respeito às diferenças. a mudança da mesma só pode ocorrer quando a transgressão ao que está posto. 33): “É por isso que transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador. torna-se preciso estar aberto a valores novos e à prática da reflexão. e não uma revolta contra as leis. Escolhe-se mediante um objetivo que ultrapasse a realização individual. Contudo. que só se concretiza no exercício de sua ação ética. a recusa da norma instituída pode criar situações de conflito. é preciso cuidar da interioridade e de sua extensão. Nesse sentido. alunos. Citando Freire (1996.Não se escolhe filhos. A escola. Ao se pensar a ética como algo inerente ao ato de educar. no espaço escolar. Nesse processo. a procura incessante pela justiça. o ensino dos conteúdos não pode dar-se alheio à formação moral do educando. nesse ponto. colegas. a solidariedade. O educador. tomando por fundamento o que significa ser um sujeito autônomo: aquele que.

Portanto. as atuais formas de relacionamento entre os homens. portanto. pois poluir rios causa problemas de doenças em quem depende de suas águas. estudar também é exercício da cidadania: é por meio dos diversos saberes que se participa do mundo do trabalho. mas também pelo respeito pela vida alheia. os diversos conhecimentos científicos. É. Questões éticas encontram-se a todo o momento em todas as disciplinas. quando. deve-se considerar que a linguagem é o veículo da cultura do país onde é falada. não há razão para que sejam tratadas em paralelo. as diversas formas de poder político. Pelo contrário. na verdade. O ato de estudar também envolve questões valorativas. uma vez que se refere a relações entre pessoas — e as doenças sexualmente transmissíveis. suas possibilidades objetivas de fazê-lo. que carrega os valores. passar ao lado de tais questões seria. O mesmo raciocínio pode ser feito em relação às Ciências Naturais e aos Temas Transversais. como a AIDS. comparar a chamada “norma culta” às outras formas de falar não é apenas comparar duas formas de se comunicar seguindo o critério do “certo” e do “errado”. etc. Por exemplo. em horário específico de aula. Vale dizer que questões relativas a valores humanos permeiam todos os conteúdos curriculares. Ou seja. sobretudo. desrespeitar a natureza significa desrespeitar as pessoas que dela dependem. É. Para que e a quem servem o saber. verifica-se que questões relacionadas à Ética permeiam todo o currículo.8 – ÉTICA E TRANSVERSALIDADE DE 1º AO 5º ANO A proposta parte de observações e princípios relativamente simples de serem explicitados. porém. os valores contemporâneos. pode-se abordar a questão do respeito pelo outro: preservar-se dessas doenças não se justifica apenas pelo zelo pela própria saúde e sobrevivência. entre as comunidades. as revoluções industriais e econômicas. pensar sobre as diversas formas de o homem se apoderar da cultura. ela diz respeito a todas as atividades humanas. Por exemplo. É fácil verificar esse fato em História: as guerras. uma vez que o parceiro pode ser contaminado. E mais ainda: o passado histórico é de extrema importância para se compreender o presente. sabe-se que um conhecimento totalmente neutro não existe. dizem diretamente respeito às relações entre os homens. entre os países. para que se estuda? Apenas na perspectiva de se garantir certo nível material de vida? Tal objetivo realmente existe. A própria função da escola — transmissão do saber — levanta questões éticas. temas como a preservação da natureza dizem respeito diretamente à vida humana. Em relação à Língua Portuguesa. das variadas 17 Educação para a cidadania – Módulo 1 . ao se abordar a sexualidade — tema que suscita discussões éticas. portanto necessário pensar sobre sua produção e divulgação. Além do mais. as colonizações. Em resumo. Afinal. prestar um desserviço à formação moral do aluno: Induzi-lo a pensar que ética é uma “especialidade”. Em relação ao Meio Ambiente.. as várias tecnologias? É necessário refletir sobre essa pergunta. justamente.

dentre as quais se destacam três. Como já apontado. Infelizmente. Ela ocupa lugar importante nas diversas comunidades. As relações da escola com a comunidade também levantam questões éticas. equivalerão a uma bela experiência de respeito mútuo. Em suma. inspiram as ações. Como devo agir com meu aluno. 18 Educação para a cidadania – Módulo 1 . a escola não é uma ilha isolada do mundo. Ao ancorar a educação moral na vivência social. Algumas das atividades de professores e alunos estão relacionadas com questões e problemas do lugar onde está a escola. de como se toma responsabilidade. A segunda: a problemática moral está presente em todas as experiências humanas e. Associar a educação moral a discursos sobre o Bem e Mal nada mais faz do que reforçar o divórcio entre discurso e prática. Do contrário. Se forem democráticas. portanto. de como se dialoga com aquele que tem idéias diferentes das nossas. As relações sociais internas à escola são pautadas em valores morais. reatam-se os laços entre falar e agir. A proposta de transversalidade aparece como justificada por várias razões. Cada lugar tem especificidades que devem ser respeitadas e contempladas. A terceira: ajuda o aluno a não dividir a moral num duplo sistema de valores. da cidade ou do bairro. o tema Ética diz respeito a praticamente todos os outros temas tratados pela escola. que partia do pressuposto que a formação moral corresponde a uma “especialidade” e deveria ser isolada no currículo por meio de aulas específicas. no sentido de os alunos poderem participar de decisões a serem tomadas pela escola. deve ser enfocada em cada uma dessas experiências que ocorrem tanto durante o convívio na escola como no embate com as diversas matérias. A prática dessas relações forma moralmente os alunos. pois envolve as famílias.instituições. aqueles que se falam e aqueles que. corre-se o risco de transmitir aos alunos a idéia de que as relações sociais em geral são e devem ser violentas e autoritárias. da vida cotidiana. com meu professor. A primeira: não refazer o erro da má experiência da Moral e Cívica. equivalerão a uma bela experiência de como se convive democraticamente. E mais ainda: diz respeito às relações humanas presentes no interior da escola e àquelas dos membros da escola com a comunidade. se as relações forem respeitosas. De fato. tal duplo sistema existe em nossa sociedade. articulando-se o bem-estar próprio com o bemestar de todos. Como participar da vida da comunidade? Como articular conhecimentos com as necessidades de um bairro ou de uma região? Eis questões que envolvem decisões pautadas em valores que devem ser explicitados e refletidos. com meu colega? Eis questões básicas do cotidiano escolar. de fato.

cujo zelo é dever de todos. por exemplo. capacidades.1. • O respeito às manifestações culturais. • A valorização do patrimônio cultural e o zelo por sua conservação. em função de sua idade. • O respeito a todo ser humano independentemente de sua origem social. por exemplo. opiniões ou religiões. • O contrato como acordo firmado por ambas as partes. algumas regras diferenciadas para ascrianças menores.8. as regras de funcionamento da classe. valores. altura. repúdio à injustiça. cultura. • A identificação de situações em que a injustiça se faz presente. • A utilização das normas da escola como forma de lutar contra o preconceito.1 – CONTEÚDOS DE ÉTICA PREVISTOS NOS PCN PARA 1º AO 5º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL 8.1 – RESPEITO MÚTUO • As diferenças entre as pessoas. • O conhecimento da importância e da função da Constituição brasileira. derivadas de sexo. Educação para a cidadania – Módulo 1 19 .1. das séries iniciais. etc. • O repúdio a toda forma de humilhação ou violência na relação com o outro. • O reconhecimento de situações em que a igualdade represente justiça (como. sexo. • O respeito ao direito seu e dos outros ao dissenso. etnia. etnia. por meio do trabalho em grupo. • O respeito à privacidade como direito de cada pessoa. • O zelo pelo bom estado das dependências da escola. • A identificação de situações em que é ferida a dignidade do ser humano. étnicas e religiosas. • A compreensão de lugar público como patrimônio de todos. o cumprimento de horários).2 – JUSTIÇA • O reconhecimento de situações em que a eqüidade represente justiça (como. • O respeito mútuo como condição necessária para o convívio social democrático: respeito ao outro e exigência de igual respeito para si.). • As formas legais de lutar contra o preconceito. 8. opinião e cultura. religião. • A coordenação das próprias ações com as dos outros.

1.• A compreensão da necessidade de leis que definem direitos e deveres. • A coordenação das ações entre os alunos. 20 Educação para a cidadania – Módulo 1 . opiniões e argumentos.3 – DIÁLOGO • O uso e valorização do diálogo como instrumento para esclarecer conflitos. na comunidade local) e em situações especiais (calamidades públicas. mediante o trabalho em grupo. quando isso for possível e desejável. por meio do esforço de compreensão do sentido preciso da fala do outro. • A expressão clara e precisa de idéias. e formas de acesso a eles. opiniões e argumentos alheios e rever pontos de vista quando necessário. por exemplo). • O conhecimento dos próprios direitos de aluno e os respectivos deveres. por meio de variadas formas de ajuda mútua. • A resolução de problemas presentes na comunidade local. • O conhecimento e compreensão da necessidade das normas escolares que definem deveres e direitos dos agentes da instituição. • A sensibilidade e a disposição para ajudar as outras pessoas. • As formas de atuação solidária em situações cotidianas (em casa. corpo de bombeiros e polícia. • A disposição para ouvir idéias. • O conhecimento da possibilidade de uso dos serviços públicos existentes. na escola. 8. como alguns procedimentos de primeiros socorros. • A atitude de justiça para com todas as pessoas e respeito aos seus legítimos direitos.4 – SOLIDARIEDADE • Identificação de situações em que a solidariedade se faz necessária. como postos de saúde. • O ato de escutar o outro. para problemas que necessitam de ajuda específica. • A formulação de perguntas que ajudem a referida compreensão.1. • A identificação de formas de ação diante de situações em que os direitos do aluno não estiverem sendo respeitados. • As providências corretas. de forma a ser corretamente compreendido pelas outras pessoas. 8.

deve-se considerar que a língua é um dos veículos da cultura do país onde é falada e que. na qual se busca invariavelmente amenizar escolhas de caráter político ou moral pela suposta Educação para a cidadania – Módulo 1 21 . Para que e a quem servem o saber. estudar também é exercício da cidadania: é por meio dos diversos saberes que se participa do mundo do trabalho. O ato de estudar também envolve questões valorativas. Veja-se. da vida cotidiana. pois. Mais ainda. os diversos conhecimentos científicos. revela-se de extrema importância.9 – ÉTICA E TRANSVERSALIDADE DE 6º AO 9º ANO A própria função da escola — socialização do saber — levanta questões éticas. econômicas e sociais construídas pelos e entre os povos. O estudo das transformações das diversas sociedades no tempo e na construção de seus espaços remete inevitavelmente à questão dos valores. Veja-se. a linguagem. Por exemplo. É. é também uma situação de comunicação que aproxima pessoas. Afinal. suas possibilidades objetivas de fazê-lo. nelas marcam sua presença. carrega os valores dessa cultura. porém. para que se estuda? Apenas na perspectiva de se garantir certo nível material de vida? Tal objetivo realmente existe. portanto. Tomar a própria língua com objeto de estudo significa pensar também na qualidade dessa interação que a linguagem pode propiciar tematizar os usos dessa língua e de que forma tais usos refletem um respeito mútuo. História e Geografia. Explicitar esses valores que norteiam ou nortearam as diversas sociedades estudadas. os usos que se fazem do seu conhecimento expressam valores. os conflitos que se estabeleceram ou ainda se estabelecem entre valores diversos na trama social. pensar sobre as diversas formas de o homem se apoderar da cultura. coloca-as em interação. articulando-se o bem-estar próprio com o bem-estar de todos. Questões relativas a valores humanos permeiam também os conteúdos curriculares. • Em Matemática. tratam-se essencialmente das relações humanas. as várias tecnologias? É necessário refletir sobre essa pergunta. sobretudo. além de permitir uma melhor compreensão dos valores e conflitos do mundo contemporâneo. realizar procedimentos de um diálogo efetivo. sabe-se que um conhecimento totalmente neutro não existe. Ainda que não sejam o elemento central ou explicativo das mudanças. seja as das sociedades com seu meio. a realidade econômica. por exemplo. comparar a chamada norma culta às outras formas de falar não é apenas comparar duas formas de se comunicar seguindo o critério do “certo” e do “errado”. em Língua Portuguesa. seja aquelas que se dão nas instituições políticas. • Em Língua Portuguesa e Língua Estrangeira. fornece referências culturais necessárias para o trabalho reflexivo de formação moral autônoma. É. a forma como foram gerados ou afirmados socialmente. necessário pensar sobre sua produção e divulgação. uma consideração pelo outro. Além do mais. define os lugares de onde se fala e de com quem se fala. oral ou escrita. A tradução da realidade vivida em relações numéricas e em formas não é isenta de opções valorativas. por exemplo: • Nas chamadas Ciências Humanas. das variadas instituições. portanto.

neutralidade dos números. Além disso. com os seus valores inclusive. uma vez que o parceiro pode ser contaminado. por exemplo. ao aprendizado e respeito a regras (no caso dos jogos). de vivência de situações cooperativas (no caso de produções coletivas). apreciar ou realizar (ainda que com as características de uma produção escolar) uma produção artística é um excelente espaço de veiculação e reflexão sobre valores e sentimentos. as relações entre esse conhecimento e as técnicas e tecnologias. são questões que colocam em jogo os valores e as noções de sociabilidade que cada um carrega consigo. Ao se abordar. dos dados. No âmbito da produção do conhecimento científico ou de novas técnicas e tecnologias. a própria constituição da Matemática como ciência ou área do conhecimento traz consigo uma visão de mundo permeada por valores. como a AIDS. Cabe não esquecer também do momento de contextualização das produções. a sexualidade — tema que suscita discussões éticas. expressa valores. as transformações sociais causadas pelas transformações tecnológicas. revelam-se também visões de mundo e de valores. Contextualizá-lo e discutir seus usos contribui para uma formação moral e ética. • Em Ciências Naturais. como um momento em que se está tratando de relações e valores. temas como a preservação da natureza dizem respeito diretamente à vida humana. ou sobre a clonagem de seres humanos e a formulação de uma bioética no campo da Biologia. Para citar apenas alguns exemplos. uma vez que se refere a relações entre pessoas — e as doenças sexualmente transmissíveis. questões como a neutralidade ou não do conhecimento científico. as questões relativas à competição e cooperação. revelando-se também um excelente espaço de formação moral. Assim. pois poluir rios 22 Educação para a cidadania – Módulo 1 . um ensino e aprendizagem que se faça de forma contextualizada. ao conhecimento dos limites e possibilidades do próprio corpo e sua aceitação. formam um “pano de fundo” no qual os conteúdos da área se desenvolvem. as questões referentes às relações entre os seres humanos e seus valores também estão presentes. debates sobre o uso da energia atômica ou subatômica no campo da Física. Portanto. A contestação desses dados se faz também com base no mesmo conhecimento matemático. mas também pelo respeito à vida alheia. ao lado das questões técnicas da produção. o autor e a sociedade em que vive ou viveu. • Em Educação Física. • Em Arte. Em relação ao Meio Ambiente. nas diversas formas de manifestação artística da humanidade. a autodisciplina. Obviamente os exemplos aqui citados não têm muita proximidade com os conteúdos propostos para esta etapa escolar. mostram como o tratamento das Ciências Naturais estão impregnados de questões valorativas e éticas. • Nos temas transversais. Tratar esse conhecimento de forma neutra ou absoluta. pode-se levantar a questão do respeito pelo outro: preservar-se dessas doenças não se justifica apenas pelo zelo da própria saúde e sobrevivência. mas mostram como o uso e a produção do conhecimento científico estão indissociados de uma discussão e opções por valores. A produção artística guarda um diálogo com a sociedade onde é produzida. certamente trarão consigo questões relativas a opções de valores. lançando mão de situações concretas e problemáticas dos seus usos. questões éticas vêm sendo debatidas. à participação na construção em comum acordo de novas regras (transformação ou adaptação de jogos).

1 – CONTEÚDOS DE ÉTICA PREVISTOS NOS PCN PARA 6º AO 9º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL 9. formulação e discussão de critérios de justiça para analisar situações na escola e na sociedade. produzir e legitimar regras. de como se toma responsabilidade.1. • As relações da escola com a comunidade também levantam questões éticas. a escola não é uma ilha isolada do mundo.2 – JUSTIÇA 23 • Identificação. com o colega? Eis questões básicas do cotidiano escolar. • As relações sociais internas à escola são pautadas em valores morais. pois envolve as famílias. relações formais e relações indiretas. Educação para a cidadania – Módulo 1 .1 – RESPEITO MÚTUO • Compreensão de que todas as pessoas precisam sentir-se respeitadas e sentir que delas se exige respeito. Ou seja. equivalerão a uma bela experiência de respeito mútuo. Algumas das atividades de professores e alunos estão relacionadas com questões e problemas do lugar onde está a escola. com o professor. equivalerão a uma bela experiência de como se convive democraticamente. Como participar da vida da comunidade? Como articular conhecimentos com as necessidades de um bairro ou de uma região? Eis questões que envolvem decisões pautadas em valores que devem ser explicitados e refletidos. • Consideração de critérios de justiça para compreender. Como agir na relação com o aluno. A prática dessas relações forma moralmente os alunos. De fato. corre-se o risco de transmitir aos alunos a idéia de que as relações sociais em geral são e devem ser violentas e autoritárias. • Reconhecimento dos limites e possibilidades pessoais e alheias. • Identificação e repúdio de situações de desrespeito. Se as relações forem respeitosas. da cidade ou do bairro. • Identificação de diferentes formas de se demonstrar respeitos correspondentes a diferentes esferas de sociabilidade e convívio: relações pessoais. Ela ocupa lugar importante nas diversas comunidades.1. 9. Se forem democráticas. desrespeitar a natureza significa desrespeitar as pessoas que dela dependem. 9. Do contrário. Cada lugar tem especificidades que devem ser respeitadas e contempladas. de como se dialoga com aquele que tem idéias diferentes. se os alunos puderem participar de decisões a serem tomadas pela escola.causa problemas de doenças em quem depende de suas águas.

para as quais não há respostas fáceis. • Participação dialógica na tomada de decisões coletivas. de desrespeito. •Atuação compreensiva nas situações cotidianas. 9. • Conhecimento de ações necessárias em situações específicas. disponibilidade para ouvir idéias e argumentos do outro e reconhecimento da necessidade de rever pontos de vista. o discurso filosófico émarcadomaispelo levantamento das questões que nos afligem. vamos colher os frutos de nossas reflexões filosóficas. apontandoosverdadeiros problemas ético-filosóficos que inerem a idéia de fiscalidade.1.3 – SOLIDARIEDADE • Reconhecimento e valorização da existência de diversas formas de atuação solidária no âmbito político e comunitário. 9.1. violência e omissão. • Transformação e enriquecimento do saber pessoal pelo diálogo. Nosso primeiro problema será: 24 Educação para a cidadania – Módulo 1 .4 – DIÁLOGO • Valorização do diálogo nas relações sociais. 10 – ÉTICA E EDUCAÇÃO FISCAL Como vimos.• Identificação e repúdio de atitudes que violentam os direitos do ser humano. • Valorização das próprias idéias. do que pela busca apressada ou imediata de soluções. • Utilização do diálogo como instrumento de cooperação. Portanto. • Repúdio a atitudes desleais.

autoritários. apressadas e definitivas a esses três paradoxos da Educação Fiscal. Ora. é possível uma Educação Fiscal estética? Cada um de nós deve ter muita clareza do papel da Filosofia. portanto. o que dizer da relação educação-fiscalidade? Eis nosso segundo problema: b) Dado que a idéia de educação é fundada na ética – e. que não constitua sansão de ato ilícito. pela compulsoriedade da vontade e não pela idéia de autonomia. acrescentamos um terceiro: c) Dado que as idéias de sensibilidade e criatividade são incompatíveis como juízos abstratos. é possível uma ética fiscal? Conforme nosso Código Tributário Nacional. Vejamos como o Programa Nacional de Educação Fiscal tem respondido a essas questões: 25 Educação para a cidadania – Módulo 1 . se a expressão ética fiscal nos indica uma contradição em sua definição. a situação se complica ainda mais. “tributo é toda prestação pecuniária compulsória em moeda ou cujo valor possa se exprimir. Logo observamos que as categorias da ética não se coadunam com o comando normativo: TRIBUTO Prestação pecuniária Compulsoriedade Instituído em lei Cobrado pelo Estado ÉTICA Atributo do espírito Autonomia Instituída pela consciência Cobrada pela comunidade Se somarmos a esse paradoxo lógico-filosófico as determinações históricas vivenciadas por nosso povo. na idéia de autonomia e formação integral da pessoa – e a idéia de fiscalidade é essencialmente heterônima – ou seja. pois a violência fiscal foi uma constante em nossa história política desde a colonização portuguesa. que não é o de dar respostas prontas. universais e dedutivos. independentemente do caráter pessoal -. instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada”.a) Dado que a idéia de fiscalidade é marcada em nosso ordenamento jurídico. baseada na submissão da vontade e na prestação pecuniária. é possível a Educação Fiscal? A esses paradoxos.

honestidade e eficiência” (ib. p. Sem esse componente estético – melhor estésico – da razão nenhuma educação para a autonomia e responsabilidade é possível. pois estas têm por base a especificidade de um público-alvo. de modo a edificar uma sociedade livre. 2004. 26 Educação para a cidadania – Módulo 1 . se o indivíduo não sentir o mundo real. 37). Isso porque. toda vez que os recursos públicos forem mal utilizados. o é muito mais para a educação fiscal. justiça e solidariedade. fundada na proximidade e na proximidade e na aproximação permanente do outro. a particularidade de uma ação e a urgência de satisfação de uma carência real. Se isso é verdade para a educação em geral. p. Caderno 1.8. dificilmente saberá onde o sofrimento se apresenta. roubados ou não arrecadados. Com efeito. justa e solidária” (PNEF. com justiça. o PNEF conceitua educação fiscal como “a abordagem didático-pedagógica capaz de interpretar as vertentes financeiras da arrecadação e dos gastos públicos. Ora. só saberemos construir graus cada vez mais satisfatórios de liberdade.. pois esta é voltada para o controle ético do Estado no manejo dos recursos comunitários. 36). id. as políticas sociais sofrerão as conseqüências. se nossa razão for sensível. Vê-se nesse conceito um componente muito forte de relacionamento criativo do indivíduo com a realidade social. dotando-o de conhecimento e habilidades que o tornem capaz de compreender o mundo e intervir conscientemente para modificar a realidade em que vivemos. educação é um “processo de formação do ser humano que objetiva prepará-lo para a vida. de modo a estimular o contribuinte a garantir a arrecadação e o acompanhamento de aplicação dos recursos arrecadados. Nessa medida. desperdiçados. em benefício da sociedade. transparência. desviados.1 – O CONCEITO DE EDUCAÇÃO FISCAL Para o Programa Nacional de Educação Fiscal (PNEF). do diferente.

de participação social e política. O cidadão. p. se indagarmos a respeito do tema. Dessa forma. porém. Desta forma. reeducação da população como um todo. 27 Educação para a cidadania – Módulo 1 . Gentili e Alencar afirmam que “a cidadania deve ser pensada como um conjunto de valores e práticas cujo exercício não somente se fundamenta no reconhecimento formal dos direitos e deveres que a constituem na vida cotidiana dos indivíduos”. É neste ponto que a escola precisa também ser repensada. 87). de deveres. o cumprimento dos mesmos por parte da sociedade. alguns autores tentam dar a este respeito algum esclarecimento. tanto o reconhecimento quanto o cumprimento destes direitos e deveres. Ou seja. certamente encontraremos uma diversidade de opiniões e nenhuma definição que possa contemplar de forma plena o conceito de cidadania. Igualdade. E é na determinação destes direitos e deveres que se encontra o grande problema relacionado a esta questão complexa que é a cidadania. de oportunidades. enfim. Por outro lado. principalmente os professores. Igualdade de direitos. além do reconhecimento dos direitos e deveres dos cidadãos. não basta que se defina um conceito formalmente. na realidade em que vivemos atualmente. inclusive no que se refere à cidadania. Entre estes autores. isto é. Cidadania significa. ao direito e ao dever de votar e ser votado. Podemos afirmar que ser cidadão é ter direitos e deveres. É aquele que está interessado no que acontece em sua comunidade. Um outro aspecto importante é que a cidadania tem na igualdade uma condição de existência. Mais importante que isso é a prática dessa definição. é necessário que valores e a forma de disseminá-los sejam repensados.CIDADANIA 1 – O QUE É CIDADANIA? Cidadania vem do latim civitas. 2001. cidade. o que vemos hoje é que a rapidez das transformações sociais provoca igualmente transformações individuais exigindo readaptação. é mais do que apenas o habitante. Contudo. No entanto. em todas as camadas sociais. não devem se restringir à esfera política. responsáveis diretos por promover essa readaptação exigida pelas transformações tecnológicas e sociais. (Gentili e Alencar.

seus deveres são transformadores sociais e individuais. mesmo contraditórios – se considerarmos que a ideologia é a expressão de embate entre várias formas de pensar e agir dos grupos que formam a sociedade. aquilo que mais se aproxima dos conceitos de ideologia e cidadania que trabalharemos neste estudo. em seu sentido mais amplo. Trata-se de um direito que precisa ser construído coletivamente. política. mas de acesso a todos os níveis de existência. no mínimo equivocado. encontramos em Manzini-Covre (2007). a autora diz que cidadania é o próprio direito à vida no sentido pleno. é agente de mudanças internas e 28 Educação para a cidadania – Módulo 1 . cultural. porque corre-se o risco da vulgarização do termo cidadania. cidadania se expressa pelo direito de votar. segundo Barbosa. No tocante à concepção de cidadania. pois se o indivíduo for participante. os direitos e deveres do cidadão devem ser colocados no mesmo plano constitucional e integrar seus direitos fundamentais. Para muitos. E que ideologia. econômica e outros aspectos que apenas reforçam a imprecisão de uma definição”. “esta perspectiva não satisfaz se não for possível exercer certo controle sobre a prática política. se vê uma distorção dos direitos do cidadão através de um discurso político. a social. expressão cultural de uma época cujo interior pode ser formado por muitos veios. contudo. Neste ponto. que na realidade prega a submissão do cidadão a um determinado modelo econômico. não apenas a jurídica. E ainda nos chama a atenção para que fiquemos alerta. segundo a autora. Sendo assim. Para Barbosa (2005) “há várias percepções da cidadania.2 – CIDADANIA E SEUS DIFERENTES ASPECTOS Inicialmente. Da mesma forma. as promessas de campanha e o condicionamento do voto a determinada ideologia”. uma vez que. não raro. pode ser compreendida como uma concepção de mundo. para não se dizer intencionalmente tendencioso. não só em termos do atendimento às necessidades básicas. poderíamos dizer que cidadania é o conjunto de deveres e direitos da pessoa diante do poder estatal. uma vez que seus direitos muitas vezes não passam de normas escritas na Constituição e que não se consolidam nem por meio de regulamentação nem como fato social.

tanto os chamados Direitos Humanos quanto os chamados Direitos Civis foram sendo progressivamente realizados nos países capitalistas desenvolvidos. Mesmo que freqüentemente apareçam propostas para melhoria na qualidade da educação oferecida à população de baixa renda. é a qualidade da educação a eles oferecida. Para Chauí (1986. numa tentativa de fazer valer os direitos básicos a que tem direito são tratados com cinismo e descaso ora pela opinião pública. 2007. quando deixa o papel passivo de receptor de direitos e passa à ação. os mesmos inexistem.psicológicas importantes. uma vez que Não existem para a elite. muitas vezes não passam de programas assistencialistas. Segundo a autora. Assim. Outro fator que revela o abismo existente entre os cidadãos de uma mesma nação. pois suas tentativas de consegui-los são sempre encaradas como problemas de polícia e tratadas com todo o rigor do aparato repressor de um Estado quase onipotente. lêem. e mesmo que funcionem em todos os horários possíveis não atendem à demanda de crianças em idade escolar. país igualmente capitalista como os que propuseram tais direitos. de vez que ela não precisa de direitos porque tem privilégios. Não existem para a imensa maioria da população – os despossuídos –. portanto. pertencendo como parte de um universo mais amplo. 3 – BRASIL: UM PAÍS SEM CIDADÃOS? De acordo com Buffa (2007) os direitos do cidadão. ou seja: desenham palavras. ora pelo próprio Estado. Enquanto isso. assume o papel de transformador do mundo social. diz respeito de forma inversamente proporcional à extrema repressão com que é tratada a grande maioria do povo. mas não compreendem o que lêem. apud BUFFA. Compreendemos. o Brasil. Educação para a cidadania – Módulo 1 . sendo reafirmados pela ONU pós 2ª Guerra Mundial. o problema do analfabetismo no Brasil continua insolúvel. pois. Está. Contudo. como proposição da democracia burguesa. sabemos que o Brasil é um país capitalista com um setor industrial forte e competitivo internacionalmente. a educação que se oferece à maioria da população é uma rede escolar precária em todos os sentidos. 29 Se formos analisar a situação pelo viés econômico. através da internacionalização dos direitos humanos que. a partir do século XVIII. que a liberalidade com que é tratada a pequena elite brasileira. p. não só reforça como torna eficaz esse mesmo direito. principalmente quando. acima deles. sendo grande parte desses analfabetos os ditos funcionais. 28). no caso o Brasil. ser cidadão é ser parte de um todo maior.

e nos curtos momentos de abertura. portanto. A participação fora dos espaços até físicos definidos pelas autoridades competentes continua sendo. 32): Não estaremos a revelar nenhum segredo dizendo que a grande maioria dos nossos atuais círculos governamentais e parlamentares não acredita no povo brasileiro como entidade consciente. De acordo com Lamounier (1981 apud ARROYO. até hoje.igualmente sabemos que o capitalismo não se realiza aqui como nos moldes dos demais países europeus. o afastamento da população brasileira das deliberações políticas na sociedade se deve exatamente à tese da imaturidade e despreparo das camadas populares para a cidadania. se justificam pelo fato de o povo brasileiro ainda não estar educado para a cidadania responsável. não é fácil afastar e menos ainda defender as formas sinuosas e sutis através das quais a vinculação entre educação e cidadania. e a legitimação da repressão e desarticulação das forças populares por teimarem em agir politicamente fora das cercas definidas pelas elites civilizadas como o espaço da liberdade e da participação racional e ordeira. como precondição para a participação. nos fazendo refletir sobre a questão levantada por Buffa: “como conseguir que. Arroyo cita a importância do papel da educação no processo. a condenação das camadas populares à condição de incivilizados. Tal argumento nos leva à diferenciação das elites autoritárias das elites chamadas libertárias. porém. reprimida como o vandalaço. os longos períodos de negação à participação popular nas decisões políticas. os brasileiros se tornem cidadãos?”. Segundo Arroyo. no limiar do século XXI. a tônica passa a ser a “educação para a cidadania”. Seguindo a análise da negação ao direito das camadas populares ao exercício de sua própria cidadania. 30 Educação para a cidadania – Módulo 1 . Ou seja. intelectuais e educadores. nossos dirigentes políticos têm justificado a exclusão da cidadania do povo brasileiro. quando toma partido em campos ideológicos: Podemos criticar e afastar o fantasma da ‘domesticação ideológica’. de não-aptos como sujeitos de história e de política. nenhuma capacidade de discernimento e de liberação. vem agindo durante séculos para justificar a exclusão da cidadania. O autor nos revela o pensamento desses mesmos dirigentes sobre o ovo brasileiro. 2007 p. por meio do argumento de sua imaturidade política. Aqui. tanto nos curtos períodos de abertura. o exercício da cidadania não é permitido pelo despreparo da população. sendo o tema reforçado pelos “iluminados” da nação: políticos. recorrente na história e na prática política do país. quanto nos períodos de negação. a realização do capital se faz à custa da exclusão de grande parte da população brasileira. não lhe reconhecendo. Para Arroyo (2007). Assim. uma vez que estas últimas são favoráveis à educação das camadas populares para um dia participarem das decisões sociais: o dia em que forem julgadas capazes.

é com base no pensamento de que mudar é difícil.Arroyo deixa claro que a educação passa ao papel de “redentora” no processo de preparação da massa populacional de baixa renda ao exercício de sua cidadania. sendo precondição para que o homem comum seja aceito como cidadão. se não há cuidado com o que deve ser ensinado. 4 – O EDUCADOR COMO AGENTE NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DA PARTICIPAÇÃO SOCIAL Para Freire (1996). que a ação político-pedagógica do educador torna-se ferramenta primordial na superação dos obstáculos impostos pelas elites dominantes à negação do exercício da cidadania por parte das camadas populares. O professor não deve ser a favor apenas da beleza pedagógica de sua prática. mas não impossível. Dessa forma. Segundo o autor. se o professor 31 Educação para a cidadania – Módulo 1 . o educador precisa ter em mente. de forma clara. a mudança da realidade atual colocada no mundo. uma tomada de posição. ruptura. Beleza que se esvai se não há empatia entre professor e aluno. em determinado momento de suas relações com o seu contexto e com as classes dominantes por se acharem nesta ou naquela situação desvantajosa. Daí a culpa que sentem eles. não é possível que haja uma neutralidade no campo ideológico por parte do professor. Nesse sentido. se não há luta por esse saber. que faz parte do poder ideológico dominante a inculcação nos dominados da responsabilidade por sua situação. decisão. implica na dialética entre a denúncia da situação desumanizante e o anúncio de sua superação. Sua prática exige uma definição. se não há luta pelas condições materiais necessárias para que esse fazer pedagógico se realize. beleza essa que se esvai.

Segundo ele “a educação não vira política por causa da decisão deste ou daquele educador. etc. funcionamento de colegiado e de assembléias escolares. tais como: eleições para direção e vice-direção. É preciso que saia de seu comodismo e comece a procurar formas de participar ativamente das decisões sociais. para que o educador forme cidadãos. escreve e faz. passou a ser depositária de sonhos que talvez nunca vão se concretizar.”. sabemos que as políticas dirigidas à educação para que sejam concretizadas. a participação social. É preciso que seja realizada uma mudança interna em si mesmo. Para Freire. além da de seus alunos”. como nos fala Capdeville (2007): “Precisamos de políticas públicas de formação continuada que atendam às novas necessidades dos professores e lhes dêem suporte na construção de todas as cidadanias: da sua própria.não enxerga a realidade gritante de seus alunos. “para que a educação fosse neutra. era preciso que não houvesse discordância nenhuma entre as pessoas com relação aos modos de vida individual e social com relação ao estilo político a ser posto em prática.” O que podemos observar é que. é impossível que haja neutralidade na educação. no cenário atual. inacabado e consciente de seu inacabamento. é preciso que haja adesão e participação de atores dispostos a colocá-las em prática e por Educação para a cidadania – Módulo 1 . mas que precisam existir. uma vez que de acordo com a autora. a escola tornou-se alvo de um imaginário social no qual se projetam ideais de renovação. próprios da gestão democrática. porque alimentam as práticas e as esperanças de uma cidadania que precisa ser conquistada para assegurar a base democrática da sociedade e a universalidade de seus princípios. é no espaço escolar que a população das camadas populares possui a oportunidade de ingressar em processos de decisão participativa. ao invés de envaidecer-se com seu saber acadêmico. tornaram-se cada vez mais presentes por meio de práticas escolares. Ela é política. Mesmo nas pequenas atitudes. 32 Dessa forma. antes de qualquer coisa. aos valores a serem encarnados. os princípios de participação. Segundo o autor. como forma de dar um testemunho vivo à sua comunidade escolar. Como incentivar a cidadania. expectativas e investimento social para que um novo homem e uma nova ordem sejam construídos. proposição e decisão. se não se despe de sua arrogância intelectual. está a coerência do educador na classe. Segundo ela a escola. é preciso que ele próprio se forme como cidadão. onde são ancoradas esperanças. Para a autora. se há acomodação e vaidade por conta de quem deveria incentivá-las? Tão importante quanto os conteúdos a serem lecionados. E essa politicidade da educação se funda na educabilidade do ser humano. Coerência entre o diz. enquanto ser histórico. Contudo.

pais. 5 – CONTROLE SOCIAL. e como atores principais precisam ser estimulados a participar em seus respectivos fóruns. 2005). pois participação social pressupõe liberdade e autonomia. respeitando seus valores. que “com suas redes de informações e troca de dados. Educação para a cidadania – Módulo 1 . constituem ameaça. “principalmente porque os direitos políticos. uma vez que é muito mais fácil manter a grande massa populacional ocupada com consumo exagerado. pois são nestes espaços de discussões e conflitos onde há o aprendizado da convivência com o outro. como atores sociopolíticos. Para a autora. são estes direitos os mais freqüentemente alijados nos regimes discricionários. se o exercício das instituições de formação tem sido o de provocar atitudes autoritárias? Como exigir o exercício da crítica.”. com o objetivo de juntos chegarem ao bem comum. proporciona hoje uma ameaça à concepção de cidadania plena e que se retrai em direção a um esvaziamento calcado no consumo que leva a certo ‘imobilismo’” (BARBOSA. os Conselhos Populares se tornaram novidade no cenário político nacional. do que fazê-la despertar para a conquista da efetivação de seus direitos fundamentais básicos. tensões. representações sociais.isso contemplam diversas e ambíguas concepções. professores. Assim os principais atores nesta formação cidadã são aqueles que sustentam as práticas. princípios e normas. a existência de conselhos comunitários e durante a década de 1980. segundo Gohn (apud CURY e TOSTA. isto é. no Brasil.”. com instrumental para tanto. temos a escola como lócus privilegiado para a formação de educadores e alunos cidadãos. p. entretanto. ainda durante o regime militar. Dessa forma podemos encontrar nas décadas de 1960 e 1970. Capdeville indaga. CONSCIÊNCIA FISCAL E O PROGRAMA NACIONAL DE EDUCAÇÃO FISCAL Apesar de todas as dificuldades impostas às camadas populares para que exercessem seus direitos políticos e civis. há um histórico de lutas populares em colegiados e conselhos populares para a exigência de políticas públicas que atendessem às suas necessidades. devido ao fato de que vários anseios que foram tema de mobilização popular nos anos 70 e 80 foram contemplados na Carta Magna. com a exigência de participação popular. Aqui nos cabe a reflexão sobre a necessidade de se educar para a liberdade. advindos da sociedade civil e política. então: como aprender posturas democráticas. A recém elaborada constituição de 1988 (chamada de cidadã) colocou nos anos 90. conflitos e ações. se o cuidado que se tem tido é a manutenção do poder soberano a qualquer custo? Se de um lado. de outro temos o mundo moderno. 33 De acordo com a autora. alunos. civis e políticos. 128) “a necessidade de se qualificar as formas de participação dos diferentes atores sociais. 2007.

exigiu-se também a qualificação dessa participação em formas democráticas descentralizadas. de acordo com a autora.A operacionalização desses direitos impôs não apenas leis complementares e específicas. havendo muitas lacunas em suas estruturas e formas de funcionamento. é necessário que se retomem utopias. dependendo de como são implementados e operacionalizados. a gestão compartilhada em suas diferentes formas de conselhos. Para tanto. grifo nosso). contudo são ainda bastante incipientes. foram criados os Conselhos Gestores interinstitucionais. transformando antigas culturas políticas arraigadas em políticas transformadoras e emancipatórias. mas também saberes que orientem as práticas sociais que construam valores. para que operacionalizassem os novos formatos da participação. não garante nada. conquanto exigência da lei. Dentro desse processo. especialmente aquelas relativas a formas deliberativas (ib. id. nos diferentes níveis da estrutura administrativa da Federação. o papel das instituições gestoras é de fundamental importância. onde possam ser alterados os valores. porque. possibilitando à população o acesso aos espaços onde se tomam decisões políticas e são criadas condições para um sistema de vigilância sobre as gestões públicas. especialmente por parte da população organizada sobre os órgãos públicos na gestão de bens e políticas públicas. E para que se formem cidadãos éticos. segundo Gohn. e que essa maioria produza não só legislações sobre aplicação de verbas. necessitamos de um despertar social para movimentos ativos. “são desafios e tarefas gigantescas” (ib. nem permanecer na inércia diante de espaços já dominados pela ordem vigente. reivindicativos e propositivos ao mesmo tempo e para chegarmos a isso. “o conselho em si. 141). pois a mediação entre o governo e a população é realizada por meio delas. id. p.) Para isso foram criados novos fóruns de discussões para que a população pudesse expressar suas opiniões e interesses. Esses. a forma de concepção da gestão pública em nome dos direitos da maioria. Dessa forma. precisa desenvolver uma nova cultura de participação. Para isso. Não se pode contar apenas com os poucos “heróis” que têm consciência do sentimento e do sentido do que deve ser uma gestão pública. Eles podem imprimir novo formato às políticas públicas desde que implementados e operacionalizados com a efetiva participação cidadã” (GOHN. ou como nos diz a autora: 34 Educação para a cidadania – Módulo 1 . p. necessitamos de uma nova educação que forme o cidadão para atuar nos dias de hoje. Esses Conselhos passaram a ser novos instrumentos dotados de potencial de transformação política. para explicitação das diferenças entre os envolvidos e negociação dessas diferenças assim como a busca de consensos para que fossem desenvolvidas formas de controle social. claro. id. no plano institucionalizado. ib. 129.

assegurando seus efeitos externos. Desta forma. para que não nos tornemos uma república de técnicos. se democracia e participação andam juntas no Estado de Direito democrático. O Programa Nacional de Educação Fiscal surge então neste cenário. concordamos com a autora quando ela nos diz que o espírito cívico é carente da consciência clara de como o Estado exerce suas funções de alocar recursos. A moralidade administrativa torna-se concreta com a legalidade de seus atos. especialistas e competentes no gerenciamento das diretrizes do FMI. é político. id. envolvendo.) Mas quando falamos em politizar cidadãos. passam a ser profissionais mais críticos e livres de qualquer neutralidade. (ib. Barbosa (2005) nos diz então que esse conhecimento “é indispensável tanto na proteção dos direitos individuais. têm a oportunidade de rever seus conceitos acerca de sua própria cidadania. e da função estabilizadora da economia. e não de fechamento do poder. a revolução interna falada por Freire torna-se inevitável. Ora. contudo. segundo Barbosa “a participação é condição que não se pode deixar de lado no processo de aperfeiçoamento da democracia”. Entendemos. a legitimidade e transparência. tornando-os públicos e acessíveis a qualquer pessoa que deseje conhecê-los. dessa forma a probidade administrativa. como ferramenta multiuso para que a sociedade desperte para essa consciência fiscal e a partir daí possa despir-se da inércia e comodismo em que se encontra.Temos de voltar a politizar o político no sentido de socialização do poder. o Programa possui grande capilaridade em esfera nacional. de como se dá a distribuição desses recursos e pagamento de despesas que são indispensáveis ao funcionamento do Estado. o que Barbosa chama de “consciência fiscal”. além de pedagógico. 35 Educação para a cidadania – Módulo 1 . uma vez que sua divulgação proporciona o controle da legitimidade do agente público que o pratica. que a premissa para que o cidadão participe de decisões envolvendo a coletividade. Com suas raízes fincadas na educação. Ao serem confrontados com a realidade fiscal do país. os atos administrativos devem ser divulgados de forma mais ampla possível. quanto no interesse dos direitos coletivos. do Banco Mundial etc. Para a autora. Ao tomarem consciência de que seu papel na escola. os educadores que entram em contato com o Programa. estamos falando também em tornar transparentes os atos públicos. E passam a ter clara visão de quanto seu papel na formação cidadã de seus alunos é importante. Ao entrarem em contato com sua própria inércia enquanto cidadãos. com o objetivo de se exercer o controle sobre os atos administrativos”. de forma colegiada e participativa é ter conhecimento de quanto paga e qual seu sacrifício para a manutenção dos serviços públicos. É um caminho sem volta.

É preocupar-se com a distribuição dos recursos. É não tolerar que a carga tributária seja suportada apenas pelos trabalhadores. ser ético e cidadão. É exigir que todo o circuito de circulação do capital seja duramente tributado. no âmbito da educação fiscal. crenças e culturas do indivíduo. é ter um cuidado rigoroso com os aportes financeiros que a sociedade. É não ter medo de ir à raiz dos problemas e de refletir sobre seus contextos.6 – ÉTICA E CIDADANIA FISCAL Exercer a ética e a cidadania. bem como a firme convicção de que integridade não combina com a mentira e a covardia. na perspectiva da formação de um ser humano integral. É não aceitar que o capital financeiro destrua a vida das pessoas. p. que se dá toda vez que o dinheiro público não se transforma em vida melhor para todos. não para adaptar-se a eles. dentro ou fora do país. É defender de modo intransigente os direitos sociais contra as ameaças do neoliberalismo.seseusprodutossão desrespeitados. não mede a solidariedade de um sistema financeiro. É envergonhar-se com os paraísos fiscais. 2004. a missão da Educação Fiscal é “Estimular a mudança de valores. E você. caro professor ou cara professora. E se essa maneira é destruidora da natureza. por isso. que nem a renda per capita. como meio de possibilitar o pleno exercício da cidadania e propiciar a transformação social” (PNEF. arrancando-lhes a autonomia com as dívidas absurdas. como responderia a esse desafio? 36 Educação para a cidadania – Módulo 1 . é ser inteiro. é não tolerar a corrupção. Ser ético e cidadão é igualmente preocupar-se com o modo atual de produção dos recursos. pois arrecadação. através do trabalho. pois a arrecadação é apenas resultado da maneira que os homens escolheram para gerar riquezas. para superálos. Caderno 1. destina ao Estado. Ou seja. pois o ser ético é aquele que tem coragem e transparência. o sujeito ético deve rejeitá-la e buscar formas criativas de produção da vida. 38). Pois não há dignidade possível do trabalhohumano. Ser ético e cidadão nesse plano. segundo o PNEF.

Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2001. Paulo. Cidadania Fiscal. Secretaria de Educação Fundamental. Educação e cidadania.Ijuí: Unijuí. 37 FREIRE. Secretaria da Educação Fundamental.Referências VALLS. 250). Miguel e NOSELLA. Darcísio. Curitiba: Juruá. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 3ed. PROGRAMA NACIONAL DE EDUCAÇÃO FISCAL: Curso on line de Disseminadores de Educação Fiscal.. 4 ed.). 177). Belo Horizonte: PUC Minas/ Autêntica. DF: ESAF. 2006. Simon. 3). O que é cidadania. 2007. BRASIL. 13 ed. Pablo. Secretaria de Educação Fundamental. Centro Gráfico. (Coleção Primeiros Passos. (Coleção Direito.Maria de Lourdes. 2007..). PARÂMETROS Curriculares Nacionais: apresentação dos temas transversais: ética. CONSTITUIÇÃO: República Federativa Senado Federal. Ester. Vozes. São Paulo: Paz e Terra. Brasília. 1988. Alice Mouzinho. Sandra de Fátima Pereira (org.CidadeeCidadania:experiências socioeducativas. 2005. Al. 1996 (Coleção Leitura). Ministério da Educação. Brasília: CORRÊA. CURY. (volume 1). Educação para a cidadania – Módulo 1 . A Construção da Cidadania: reflexões históricopolíticas. 19). Política e Cidadania. 1997. 2007 (Coleção Questões da Nossa Época. O que é ética. BARBOSA. 2001. Educar na esperança em tempos de desencanto. Álvaro L. Brasília: A secretaria. ALENCAR. BUFFA. Carlos Roberto Jamil e TOSTA. (Coleção Primeiros Passos. Dicionário Oxford de Filosofia (Tradução Desidério Murcho et. v. ARROYO. M. São Paulo: Cortez. Brasília: MEC/ SEF. São Paulo: Brasiliense. Rio de Janeiro: Petrópolis. Paolo. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos: apresentação dos temas transversais. 2008.Educação. São Paulo: Brasiliense. do Brasil. BLACKBURN. Chico e GENTILI. 1998. MANZINI-COVRE.