Levanta-te, caminha e vive! Jo.

5,1-19
Guido e Américo eram dois dos tantos jovens moçambicanos, que durante a guerra civil naquele país, sonhavam paz e justiça para a sua terra e a possibilidade de poderem preparar-se para reconstruir o seu país. Foram, por isso, presa fácil de falsas promessas de estudos superiores, fora do país. Quando se viram na base militar, enganados, onde a única alternativa era pegar em armas, juraram a si mesmos que nunca o fariam. Sempre acreditaram que as armas nunca levam à vida. Era preciso fugir, caminhar muito... Depois do ruído ensurdecedor e da poeira se ter diluído um pouco, Américo pôde ver Guido por terra, sem o pé esquerdo, que a mina ao rebentar, lhe levou para longe e ouviu-o dizer: “ Deixa-me, salva-te tu, já não posso caminhar, sou um estorvo para ti, foge!” _” Não te vou deixar. Levanta-te, eu levo-te às costas, vamos caminhar, temos que viver! ” Foi a resposta de Américo É sempre a Palavra do Senhor que faz caminhar, mesmo àqueles que pela sua situação de paralisia se vêm excluídos da festa da Vida. Há sempre um modo de fazer festa na vida, de maneira convencional, como dita a lógica vigente dos que defendem a lei para justificar o poder e o domínio sobre os que nunca podem fazer festa de nenhum tipo. Como os judeus (aqui representam os que se retêm cumpridores e garantes da lei), que fazem festa, indiferentes aos “numerosos doentes” e excluindo-os, também nós facilmente entramos nesta lógica. Vivemos a “nossa vida”, procuramos sempre o que mais nos satisfaz, encontramos sempre justificação para os nossos comodismos e nem reparamos que há sempre um homem doente que não tem ninguém... preso na sua solidão. Um homem doente, deitado, “ há trinta e oito anos”, quase quarenta, muito tempo! Na Bíblia, um tempo longo mas não para sempre! Um tempo depois do qual, Deus intervém, cumpre a sua promessa de vida nova Aquele homem são todos os povos, todas as pessoas, que jazem paralisadas numa exclusão que sempre mais os oprime e os atira para uma resignação que conduz à morte. Mas podemos ser também cada um/a de nós, paralisados há muito tempo diante de apelos de uma vida com mais qualidade e sabor de Evangelho, paralisados talvez em desejos de mais vida. Porém a lei que impera, do “salva-te a ti mesmo “ é muito forte e mantém-nos deitados, por terra. Temos medo de nos deixar tocar pela Palavra da Vida, de fazer o que Jesus manda e como Ele faz: ocupar-se do irmão mais débil. No contexto de festa, ao sábado, dia do Senhor naquele tempo, Jesus, faz a diferença; a verdadeira festa, faz como seu Pai: cura e liberta. Com a sua palavra faz com que este homem fique de pé e caminhe. Este é o trabalho de Deus Pai: fazer com que os seus filhos fiquem de pé na vida, caminhem; dar vida, a sua vida aos seus filhos. E nesta comunhão de vida está a alegria do Pai (e a nossa, “para que a nossa alegra seja completa” diz 1ª Jo. 1,3-4). Este é o seu repouso: a vida em plenitude para todos. “Queres ficar curado?” A cura é dom gratuito de Jesus, através da sua palavra: “Levanta-te, toma o teu leito e anda” mas o desejo é a mão para receber esse dom, ele mesmo deve querer levantar-se e fazer o seu caminho. Missão é: querer deixar-se tocar pela Palavra e deixar-se envolver neste projecto do Pai: a construção da pessoa de pé, liberta, a caminhar na festa da vida. Escolher a Vida, levantar-se, fazer o próprio caminho, reparar nos outros que há muito tempo esperam por alguém para se poderem levantar, não é a lei que vigora, não é fácil.

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