You are on page 1of 16

MAURICIO LOIACONO

A Igreja Ortodoxa
no Brasil
MAURICIO LOIACONO
é professor da
Universidade Presbiteriana
Mackenzie.
Artigo elaborado a partir da disser-
tação de mestrado em realização
na Universidade Presbiteriana
Mackenzie em Ciências da Reli-
gião, sob a orientação do prof.
dr. João Baptista Borges Pereira,
dentro do projeto “Etnia e Religião
no Brasil”.

INTRODUÇÃO

Este artigo terá como objetivo maior forne-

cer ao leitor informações a respeito da Igreja

Ortodoxa, dividida ao longo do tempo em uma

diversidade de comunidades. Essas considerações

abrangem comentários sobre sua história, aspec-

tos doutrinários, diferenças e similaridades com

sua co-irmã, a Igreja Latina (Católica Apostólica

Romana), além de breve estudo relativo a uma

comunidade ortodoxa no município de São Paulo,

a Igreja Católica Apostólica Ortodoxa Russa no

Exílio. Essa igreja desvinculou-se do Patriarcado

de Moscou, quando no auge da Revolução de

1917, e se manteve sólida no aspecto doutrinário

ortodoxo, mesmo fora das fronteiras da antiga

União Soviética. É uma igreja voltada inicialmente

ao atendimento de imigrantes russos, distante de

qualquer prática ecumênica com outros segmen-

tos religiosos, mesmo com outras denominações

ortodoxas e que, paulatinamente, vai criando uma

abertura ao estrangeiro, porém sempre cautelosa

em não macular suas prédicas originais.


Novo testamento, centrada na pessoa de
O QUE É A IGREJA ORTODOXA? Jesus Cristo, confirmando em Deus seu
único inspirador, o qual veio à humanida-
A igreja constituída sobre a doutrina de para a transmissão das doutrinas e dos
de Cristo, a partir do ano 33, era toda ela mandamentos.
denominada ortodoxa. Entretanto, fatores Por Sagrada Tradição, pode-se entender
ligados a questões culturais, dogmáticas, tudo aquilo que faz referências à verda-
disciplinares, litúrgicas e políticas, entre as deira fé, em um plano harmonioso com
partes oriental e ocidental dessa comunida- as leis divinas, trazidas juntamente com
de até então considerada una, levam, entre os mistérios pelos ancestrais e crentes que
1054 e 1204, à ruptura definitiva entre as transmitiram aos seus filhos e estes a toda
duas metades, as quais serão assim reco- sua descendência. A Sagrada Tradição está
nhecidas até o momento contemporâneo: do de posse pela igreja, estruturada na assem-
lado ocidental, a Igreja Católica Apostólica bléia de seus fiéis: “a Igreja do Deus Vivo, a
Romana, submissa ao bispo de Roma, e do coluna e firmeza da Verdade” (Tim. 3: 15),
lado oriental, a Igreja Católica Apostólica sendo considerada o mais antigo meio de
Ortodoxa Grega, tendo como primaz o pa- divulgação sobre a Revelação Divina. Sobre
triarca de Constantinopla (atual cidade de esse assunto, o protodiácono ortodoxo Jerzy
Istambul – Turquia), localizada na antiga Berkman Karenin, em seu livro A Doutrina
colônia grega de Bizâncio, posteriormente Cristã Ortodoxa, escreve que:
incorporada a Roma.
Interroga-se, então, por que a Igreja do “O meio mais antigo de divulgação da
Oriente manteve a denominação ortodoxa. Revelação Divina foi a Sagrada Tradição,
Para responder a essa pergunta, deve-se dos tempos do primeiro homem, Adão,
compreender o termo grego orthodoxia. até Moisés, não havia Escritura Sagrada
Essa palavra traduz-se em “doutrina reta”, alguma. O próprio Salvador, nosso Senhor
ou seja, todo o ensinamento deixado por Jesus Cristo, transmitiu os seus Divinos
Cristo, sem acréscimos ou subtrações no ensinamentos aos Apóstolos por meio de
conteúdo da Sagrada Escritura, na tradição, palavras e de exemplos e não por intermédio
bem como nos primeiros sete concílios de livros. Da mesma forma procediam os
aceitos pela igreja. santos Apóstolos que divulgavam as Verda-
Referindo-se à questão da ruptura entre des verbalmente, firmando os alicerces da
as igrejas, Georges El Hajj, em sua obra A Santa Igreja” (Karenin, 1957, p. 23).
Igreja Ortodoxa no Mundo, faz a seguinte
reflexão: Essa passagem visa a demonstrar a rela-
ção entre Sagrada Tradição, Revelação Divi-
“[…] devemos evidenciar que a Igreja Or- na e Sagrada Escritura. E dela, em relação a
todoxa nunca se separou de nenhuma outra essa situação, retira-se a seguinte passagem
Igreja. Ela permanece em linha reta desde contida em uma epístola paulina: “Então
Nosso Senhor Jesus Cristo e seus Apóstolos. irmãos, estai firmes e retende as tradições
Jamais se afastou, através dos séculos, da que nos foram ensinadas, seja por palavras,
autêntica e verdadeira doutrina ensinada seja por Epístola nossa” (Tess 2:15).
pelo Divino Mestre. Dela separaram-se Sobre os concílios ecumênicos, a Igreja
outras Igrejas, mas ela não se apartou de Ortodoxa afirma estar neles a autoridade
ninguém ou da linha reta traçada por Jesus máxima, pois suas decisões abarcam toda
1 Insere-se aí uma crítica de Cristo. A Igreja Ortodoxa é uma, ontem, a Igreja de Cristo. El Hajj (1971, p. 141)
Georges El Hajj à Igreja Ca-
tólica Apostólica Romana ao
hoje e amanhã – é sempre a mesma” (El argumenta que: “[…] a infalibilidade está na
argumentar ser o papa dotado Hajj, 1971, p. 63). própria igreja representada em assembléia
da infalibilidade, ao passo
que os ortodoxos admitem a por todos os bispos em concílio” (1). Os
infalibilidade da igreja que se A Sagrada Escritura é entendida como ortodoxos, diferentemente dos católicos,
faz representar em concílios
através de seus bispos. a totalidade dos livros bíblicos, Antigo e observam as decisões dos sete primeiros

118 REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 116-131, setembro/novembro 2005


concílios, nos quais os bispos em assem- nas quais afirmava que Maria havia dado
bléia se insurgiram contrariamente às ideo- à luz o homem Jesus, e que este possuía
logias heréticas que visavam a desvirtuar uma ligação com Deus unicamente de
a tradição. Essas assembléias foram as ordem moral. Assim sendo, a Virgem não
seguintes: era a Theotokos (mãe de Deus), apenas
Christotokos (mãe de Cristo). O concílio
• Nicéia I (325) – Contra a heresia de reuniu-se na cidade de Éfeso, para onde
Ário, um monge líbio que por volta de Maria teria ido habitar com João, o Apóstolo
318 iniciou uma pregação afirmando que o Bem Amado, após a morte de seu filho na
Filho de Deus (Verbo, Logos) não é gerado cruz. Nessa assembléia foi condenada a tese
da substância do Pai, mas é uma criatura nestoriana, confirmando que Jesus Cristo
criada do nada, embora antes de qualquer é o verdadeiro Deus, portanto, o título de
outra criatura. Em verdade essa tese macu- Theotokos dado a Maria era plenamente
lava o centro doutrinário cristão, porque, se cabível, visto o fato de ela haver dado à
Jesus Cristo não fosse Deus, a Redenção luz a natureza humana de Jesus Cristo, que,
não teria valor e a Revelação Cristã cairia entretanto, é simultaneamente Deus, como
em um vazio. A excomunhão outorgada Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.
pelos bispos da Líbia e Egito não intimidou Após a condenação, Nestório seguiu em
o monge, que continuou com suas prega- exílio para a Mesopotâmia, localidade onde
ções, fato que levou o patriarca Alexandre, organizou a Igreja Nestoriana separada
de Alexandria, apoiado pelo imperador (Igreja Assírica – rito caldeu) que existe até
Constantino, o Grande, à convocação de os dias atuais congregando alguns milhares
um concílio para ratificar as excomunhões. de fiéis.
Em Nicéia reuniram-se então 318 bispos • Calcedônia (451) – Esse concílio mani-
das igrejas orientais e ocidentais entre os festou-se contra a tese de Eutiques, impor-
quais estavam os representantes do papa tante abade de um mosteiro em Constanti-
São Silvestre, que acabaram por condenar nopla, denominada heresia dos monofisitas.
a tese ariana. Procurando erradicar qualquer resquício da
• Constantinopla I (381) – Esse segundo heresia nestoriana, esse sacerdote, inimigo
concílio universal foi convocado com a declarado de Nestório, deflagra a idéia de a
finalidade de proceder ao julgamento da natureza humana de Cristo estar entranhada
heresia de Macedônio, que questionava a na natureza divina. A primeira simplesmente
divindade do Espírito Santo, atribuindo- deixava de existir, permanecendo no Salva-
lhe as nomenclaturas de “força ou poder”, dor apenas a última. Sobre essa heresia e sua
julgando-o na dependência do Deus Pai e condenação, afirma textualmente Karenin
do Deus Filho. Isso consistia em uma das (1957, p. 154):
ramificações da heresia ariana. Convocada
pelo imperador bizantino Teodósio I, contou “O concílio condenou a heresia dos Mono-
essa assembléia com importantes persona- fisitas e deliberou que Nosso Senhor Jesus
gens como: São Gregório, o Teólogo, São Cristo é um verdadeiro Deus e um verdadeiro
Gregório de Nissa e Melétio de Antióquia. homem; que a sua natureza divina foi gênita
Os conciliares condenaram a tese de Ma- do Pai antes de todos os séculos e que sua
cedônio, bem como outras ramificações natureza humana veio ao mundo por inter-
provenientes do arianismo que, apesar de médio de Nossa Senhora e sempre Virgem
haver sido condenado em Nicéia, ainda en- Maria, que foi escolhida para ser a mãe do
contrava grande força na região oriental. salvador pelo Eterno Pai. Desta forma, Jesus
• Éfeso (431) – Esse concílio foi convoca- Cristo Homem nasceu na terra em tudo igual
do no governo de Teodósio, o Moço, tendo a qualquer um dos homens fora o pecado”.
por escopo o julgamento da tese herética
lançada por Nestório, patriarca de Cons- O concílio de Calcedônia ocorreu na
tantinopla, que deu margem às pregações gestão imperial de Marquiano. Todavia,

REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 116-131, setembro/novembro 2005 119


algumas igrejas adotaram a tese eutiquiana, entendiam que pintar ou esculpir a imagem
seguindo com sua doutrina até o presente de Jesus Cristo equivalia separar-se dele a
momento, como no caso da Igreja Ortodoxa natureza humana da natureza divina, fo-
Armênia. mentando-se, conseqüentemente, a heresia
nestoriana” (Ribeiro Jr., 1989, p. 58).
• Constantinopla II (553) – Essa Assem-
bléia teve sua convocação por ordem do O sucessor de Leão III, Constantino
imperador Justiniano I, objetivando a re- V, o Sujo (741-775), manteve a proibição
solução dos litígios gerados em torno dos do culto, resultando disso uma série de
livros escritos por: Teodoro, Teodoreto e Iva, protestos por parte dos religiosos e, conse-
membros da Igreja Síria, que estava sob a qüentemente, perseguição das autoridades
jurisdição do Patriarcado de Antióquia. Tais de Estado em relação a estes. A paz so-
obras foram inspiradas nos ensinamentos mente é restaurada no reinado de Leão IV
heréticos de Nestório, comprovando que (775-780), após a imperatriz Irene haver
suas teses ainda eram respeitadas por convocado o concílio que iria condenar o
membros do corpo eclesiástico do Oriente, iconoclasmo como heresia e restaurar o culto
sendo portanto consideradas um perigo para dos ícones nas igrejas fiéis ao Concílio de
a alma dos fiéis. Os escritos de Teodoro Calcedônia (3).
foram condenados por essa razão, mas o A questão dos ícones como objetos de
autor não aceitou tal condenação e persistiu devoção centrais dos ortodoxos será foca-
2 Termo grego que se traduz por
“uma só vontade”. fiel às suas teses até a sua morte. lizada adiante.
3 Enfatiza-se que no Ocidente • Constantinopla III (680) – O imperador As heresias, há pouco destacadas, quan-
ocorreram controvérsias a res- Constantino Pogoniato ordenou a convoca- do se tratou dos primeiros sete concílios,
peito do culto das imagens,
uma vez que o termo grego ção desse concílio no intuito de questionar foram produtos e produtores de cisões
proskynesis, que se traduz por
e condenar a tese herética dos monotelistas, internas na Igreja Oriental. Todavia, essas
“veneração”, foi traduzido pelo
monge escocês Alcuíno como também reconhecida como monoenergismo discussões não foram suficientemente fortes
“adoração”. Isso levou o rei dos
francos, Carlos de Heristal (Car- ou Thelema (2). Em verdade essa tese fora para a desestruturação da unidade cristã, que
los Magno) (742 – 814), a não uma idealização do patriarca Sérgio de só sofrerá a forte ruptura nos anos citados
aceitar a decisão tomada no II
Concílio de Nicéia. Supunha o Constantinopla (610-638) que, procurando no início deste artigo.
monarca que o II Concílio Nicê-
nico ensinava a adoração das resgatar as igrejas que haviam adotado o
imagens, portanto era digno de monofisismo herético após sua condenação
repúdio da Igreja no Ocidente.
Essa suposição do maior entre em Calcedônia, a exemplo das igrejas Copta,
os governantes germânicos era
que os famosos “Quatro Livros
Armênia e Síria, cria um meio-termo entre O CISMA ENTRE A IGREJA
Carolíngios” tinham por preten- o monofisismo e o duofisismo ortodoxo,
são formular a doutrina oficial
do Ocidente em uma oposição enveredando por uma nova heresia. ORIENTAL E A IGREJA OCIDENTAL
à bizantina. Essa era a vontade • Nicéia II (787) – Esse concílio foi convo-
de Carlos Magno, sem haver
sido feita uma consulta prévia cado para derrubar a lei contra a veneração Se for feita uma análise sobre a ruptura
ao papa em Roma. Este se vê
então acuado, permitindo aos das santas imagens (ícones) nos templos, da Igreja Cristã, muitas serão as causas a
teólogos da casa real como promulgada pelo imperador bizantino Leão serem apontadas. Dentre essas situa-se um
ao próprio imperador o poder
de decisão sobre tão polêmico III, o Isáurico. Essa lei visava a combater a problema fundamentado no dogmatismo,
assunto. Posteriormente, o papa
Adriano I (772-795) indicou-lhe
influência excessiva que os monges tinham que se revela como elemento central para
a exata tradução da palavra sobre o povo. A esse respeito encontra-se, a quebra da unidade preconizada pelo
bem como as diferenças que
o concílio demonstrou entre na obra Pequena História das Heresias, de Deus que se fez Homem – uma ferida a
adoração e veneração, pondo João Ribeiro Jr., a seguinte descrição: qual nunca foi devidamente cicatrizada – o
fim a essa longa discussão.
Filioque (4).
4 Expressão latina que designa
que o Espírito Santo procede “Desde 717, reinava em Constantinopla o O problema pode ser assim resumido: “O
do Pai e do Filho. Acrescentada
ao Credo de Nicéia. O filioque
imperador Leão III, o Isáurico (717-741), Espírito Santo procede do Pai e do Filho”.
constitui um dos elementos de […] desejando combater a influência ex- Tal acréscimo foi incorporado no sínodo
litígio entre as igrejas de Roma,
que adotaram essa fórmula, e cessiva dos monges […] proibindo o culto de Toledo (século VI). O antigo texto do
a de Constantinopla, que a dos ícones, considerado como ato idólatra. I Concílio de Nicéia (325) afirmava que a
rejeitou, subtraindo-a de sua
confissão de fé. Leão III foi apoiado pelos Monofisitas, que origem do Espírito Santo está apenas no Pai.

120 REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 116-131, setembro/novembro 2005


A resolução de Toledo foi considerada grave personalidades no contexto patrístico,
ofensa à Igreja Oriental que, fiel às conside- onde se destacam Santo Antão do Egito,
rações nicênicas, julgou essa incorporação Orígenes, Pseudo-Dionísio, o Areopagita,
errônea pelos seguintes motivos: Máximo, o Confessor, Simeão, o Novo
Teólogo. Observa-se, no que se refere ao
1) para os padres do I Concílio de Nicéia, catolicismo romano, uma situação diversa,
favoráveis ao texto original no qual o Es- estabelecida no pragmatismo e numa ordem
pírito Santo tem sua procedência apenas mais legalista, o que acabou por encami-
do Pai, uma vez ter sido ELE, primeiro de nhar essa igreja a uma tendência para a
tudo, pessoal – Pai, Filho e Espírito Santo secularização. Isso se explica pelo motivo
– antes de ser Essência Divina Única. Esse de a igreja no Ocidente haver adequado a
acréscimo foi considerado uma divergên- doutrina cristã à legislação romana em vi-
cia doutrinária muito grave, no tocante à gência no império. Citando Losski, em sua
natureza de Deus; obra Oração e Santidade na Igreja Russa,
2) esses mesmos padres não concordavam Elisabeth Behr-Sigel afirma que:
com o fato de o sínodo de Toledo haver
se reunido e criado essa fórmula doutrinal “Se a Igreja não conheceu há vários séculos
sem levar em conta a opinião dos prelados grandes movimentos teológicos, compará-
orientais. Recorde-se que um concílio ecu- veis aos da Escolástica, da Reforma e da
mênico é a representação da igreja em seu Contra Reforma, é certo que nela os focos
universalismo, portanto um sínodo local não de vida santa nunca se extinguiram. A sua
poderia alterar uma decisão conciliar que imobilidade não foi entorpecida em fór-
havia congregado os dois lados da Igreja. mulas arcaicas, mas ao contrário, muitas
vezes foi sinal de contemplação ardente, de
No ano de 1014, o Filioque foi incor- espera, cheia de esperança e amor, da paru-
porado oficialmente à liturgia latina, fato sia do Senhor, de vida espiritual autêntica,
esse que apressaria ainda mais a cisão mas oculta aos olhos do mundo e de uma
entre as duas metades. No pontificado do sociedade que procuram só fins utilitários e
papa Leão IX, dirigiram-se a Constanti- temporais” (Losski, 1944, apud Behr-Sigel,
nopla delegados papais que entregaram 1993, p. 22).
ao patriarca Miguel Cerulário na Catedral
de Santa Sofia a bula de excomunhão que
acusava os orientais, entre outras coisas,
da não-adoção do celibato para clérigos A LITURGIA NA IGREJA CATÓLICA
e, principalmente, de haverem subtraído
o Filioque de sua profissão de fé. Após APOSTÓLICA ORTODOXA
receber essa bula, Cerulário fez outra,
excomungando os delegados papais. Era o A missa na Igreja Ortodoxa caracteri-
ano de 1054. A ruptura sacramenta-se quan- za-se pela força de sua liturgia, toda ela 5 Devemos destacar que a latini-
zação imposta pelos cruzados
do, em 1204, os cavaleiros da IV Cruzada feita em canto a capela, tentando levar o que invadiram Constantinopla
não colocou a termo a doutrina
invadem e saqueiam Constantinopla. Tal assistente a se inserir em uma aura plena em retidão. A ortodoxia sobre-
situação irá permanecer até 1261, quando de contemplação, no sentido de o crente ter viveu durante toda a ocupação
latina, evidentemente, não
esses cavaleiros são derrotados e expulsos uma percepção da presença de Cristo na na capital bizantina, mas no
exílio, em Nicéia. Em 1208,
da cidade. A ortodoxia proibida durante sublimidade daquele momento. Repleta de um sínodo confirmou como
esse período é restabelecida (5). manifestações simbólicas, a missa ortodoxa patriarca Miguel Autorianos,
que vinha chefiando a Igreja
A Igreja Ortodoxa, diferentemente da divide-se em quatro partes: Ortodoxa em solo niceniano
Igreja Católica Romana, tem sua atuação desde 1205. No momento
da invasão latina, o patriarca
inserida em um abstracionismo plenamente 1) o instante inicial é marcado pela preparação era João X Camaterus, que se
refugiou na Trácia, recusando
místico, voltada à contemplação, resgatan- da missa e inclui procissão do Evangelho. É o convite de fixar-se em Nicéia,
do atores da Igreja Primitiva que, além de o símbolo da vida oculta de Cristo; fato este que levou Autorianos
a assumir-se como primaz da
Cristo e seus Apóstolos, elenca grandes 2) o segundo momento vai da procissão do Igreja Ortodoxa exilada.

REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 116-131, setembro/novembro 2005 121


Evangelho até o ofertório; é a ritualização insígnias usadas pelas autoridades eclesi-
da vida pública de Cristo; ásticas, sacerdotes e auxiliares diretos do
3) a terceira parte envolve desde a procissão culto. Segundo as informações contidas
do ofertório até o instante pós-comunhão, em um pequeno missal bizantino com ex-
representação do padecimento de Jesus planações sobre a liturgia, organizado por
(paixão e morte); Mihail Sabatelli, que teve a preocupação em
4) a parte final compreende a comunhão citar e explicar minuciosamente as alfaias
até o encerramento do culto. É a expressão e as insígnias usadas na missa, tem-se o
simbólica da vida gloriosa de Cristo. seguinte quadro:

• estichárion: longa túnica correspondente


Os ritos à “alva” latina. O estichárion do sacerdote
tem mangas estreitas, em geral é de seda e
O rito bizantino é composto por três de cores claras. O estichárion usado pelo
liturgias: a de São Basílio Magno, a dos diácono e pelos ministros inferiores tem
pré-santificados e a de São João Crisósto- mangas curtas e amplas. O tecido costuma
mo, sendo o mais habitual o de Crisóstomo, ser igual, ou parecido, ao paramental usado
patriarca de Constantinopla. A liturgia de no dia; é ornado com galões;
São Basílio Magno tem sua celebração dez • epitrachílion: é a estola sacerdotal cujos
vezes ao todo em um ano, ou seja, nos cinco dois lados descem unidos no peito até quase
primeiros domingos da Quaresma, Quinta- os pés. É do mesmo tecido dos paramentos
Feira e Sábado Santos, e também na Festa de e está ornada com seis cruzinhas;
São Basílio, comemorada em 1o de janeiro, e • orárion: é a estola diaconal. Uma longa
nos dias precedentes às festas da Natividade faixa ornada com várias cruzes ou com
e Epifania, realizadas no dia 6 de janeiro. a palavra “santo” escrita três vezes. Fica
No tocante à liturgia dos pré-santificados, presa por um botão no ombro esquerdo do
salienta-se que não se trata de uma missa diácono, tem uma extremidade que desce
mas, sim, de um solene rito de comunhão livre pelas costas e a outra é habitualmente
que se une à celebração das Vésperas e que segurada pela mão direita do diácono;
ocorre durante o ano cerca de 19 vezes, • faixa: o estichárion e o epitrachílion
principalmente nas quartas e sextas-feiras são segurados e ajustados na cintura por
da Grande Quaresma. Na liturgia de João meio de uma faixa usada como cinto. É do
Crisóstomo (±404) (6), ganha destaque a mesmo tecido dos paramentos e no meio
epiclese, invocação do Espírito Santo sobre está ornada com uma cruz;
os dons eucarísticos. Pedro Arbex, no livro • epimaníkia: são duas sobremangas do
A Divina Liturgia Explicada e Meditada, mesmo tecido dos paramentos, ornadas com
revela o seguinte: uma cruz. Servem para segurar e prender
as mangas do estichárion;
“A Igreja Ortodoxa, baseada em certos • epigonátion ou hipogonátion: losango de
textos dos Santos Padres, afirma que a tecido bordado, usado pelos bispos e pelos
transubstanciação se efetua pela epíclese, sacerdotes revestidos de alguma dignidade
e não pela consagração. E para reforçar a eclesiástica. Usa-se a tiracolo, descendo li-
importância da primeira acrescentou no vre até a altura do joelho direito. Simboliza
século XIII, logo após a consagração, o a espada da Palavra;
tropário ao Espírito Santo: ‘Senhor que na • felônion: é a casula oriental que se coloca
hora terça enviastes…’ que se reza habitu- em cima do estichárion. O felônion tem nas
almente na quaresma na terceira hora do costas uma cruz grega como ornamento e,
6 A liturgia de São João Crisós- ofício” (Arbex, 2000, p. 82). mais embaixo, uma estrela de oito pontas.
tomo é praticamente igual à
de São Basílio Magno, sendo Ele simboliza a luz e a força com as quais
esta diferenciada nas orações
O ritual marca-se também pela ca- Deus envolve o sacerdote;
sacerdotais rezadas, que são
em voz baixa. racterística vistosa das vestes litúrgicas e • sakkos: os bispos, em lugar do felônion

122 REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 116-131, setembro/novembro 2005


sacerdotal, usam um paramento chamado os russos a cruz peitoral é usada por todos
sakkos, muito parecido com a dalmática os sacerdotes indistintamente.
usada pelos diáconos latinos; • panagia ou encólpion: medalhão com a
• mitra ou coroa: cobre a cabeça nas ce- efígie do Cristo Pantocrator ou da Virgem
lebrações pontificais. Tem forma esférica Mãe de Deus (Panagia). É usado pelos
ou ligeiramente quadrilobada; ricamente bispos e arcebispos em número de um ou
bordada, a coroa tem em cima uma peque- dois (Sabatelli, 1995, pp. 14-5).
na cruz. Entre os russos, além dos bispos,
também os sacerdotes insignados de alguma
honorificência usam a coroa. Sua origem Os ícones
deriva da coroa usada pelos imperadores
bizantinos; Um dos principais aspectos da devoção
• omofórion: larga faixa que o bispo leva ortodoxa encontra-se nas santas imagens,
em torno do pescoço. Ornamentada com conhecidas também como ícones. Diferen-
cruzes, leva bordada a figura de um cordeiro temente das igrejas latinas, que têm em seus
ou a imagem do Redentor. Quer simbolizar templos a presença de imagens esculpidas,
a ovelha tresmalhada que o Bom Pastor a Igreja Ortodoxa só admite imagens pinta-
(Jesus) traz para o aprisco (a igreja); das a partir de determinado padrão, que irá
• diquirotriquira (palavra composta de diferenciá-las das pinturas comuns, mesmo
dikirion e trikirion): são dois pequenos as de temática religiosa.
castiçais, um de duas velas e outro de três. Sobre o ícone ou imagens pintadas,
O primeiro simboliza as duas naturezas em Thomas Kala, no seu opúsculo Medita-
Jesus Cristo, o segundo as três pessoas da ções sobre os Ícones, fornece a seguinte
Santíssima Trindade. São usados pelo bispo informação:
em cerimônias pontificais;
• báculo pastoral: difere daquele latino “A palavra ícone (do grego eikon) significa
pois é mais curto e termina, no alto, com imagem. Embora às vezes os mundos da
dois braços formados por duas serpentes arte e da moda apoderem-se dela e a façam
que se defrontam, alusão à prudência com designar uma figura artística, a palavra ainda
que o pastor deve guiar o rebanho; significa pinturas religiosas em geral, quase
• rasson ou riassa: é um hábito de coral de sempre em retábulos de madeira no estilo
cor preta. Possui mangas amplas e os eclesi- bizantino, que são principalmente de origem
ásticos a usam também para celebrações em grega ou russa e têm lugar proeminente na
que não é exigido o uso do estichárion; vida e no culto religioso das igrejas orto-
• mandýas: ampla capa com a qual se re- doxas orientais. […] Na liturgia das igrejas
vestem os bispos em ocasião de uma entrada orientais, os ícones desempenham um papel
solene. Também os monges usam um tipo mais significativo do que o das estátuas no
de mandýas, mas é completamente preta; rito romano. Como se acredita que por seu
• skoufa kamilávchion, klobuk: é uma intermédio os santos exercem seus poderes
espécie de chapéu cilíndrico com diâmetro benéficos, os ícones governam todos os
superior ligeiramente maior do que o de acontecimentos importantes da vida humana
baixo. É usado pelo clero e pelos monges. e são considerados poderosos instrumentos
As diversas formas peculiares dão a cada de graça” (Kala, 1995, p. 9).
modelo um nome diferente. Os monges e
outros dignitários usam, por cima do chapéu, Para se pintar um ícone, existe toda uma
um longo véu preto que cai dobrado pelas preparação especial tanto por parte de quem
costas. Os metropolitas russos e alguns irá realizar o trabalho – no caso, o iconista
patriarcas de igrejas ortodoxas costumam – como do material que será empregado.
usar o véu de cor branca; Preconiza-se que o iconista deva ser reco-
• cruz peitoral: é usada pelos bispos e nhecidamente uma pessoa de caráter ilibado,
por outros dignitários eclesiásticos. Entre um ser pleno na fé. A maioria dos pintores

REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 116-131, setembro/novembro 2005 123


das santas imagens eram e são, em geral, Um iconista jamais assina seu trabalho,
monges, entretanto, não existe regra que visto tratar-se de uma obra inspirada, “uma
impeça que esse trabalho possa ser feito janela do Paraíso”, não devendo nunca ser
por um laico, desde que observadas certas entendida como algo estático . É uma obra
regras fundamentais para essa empresa con- que expressa vivo exemplo de conduta
siderada sagrada: dias de jejum alimentar, espiritual para o cristão que, frente a ela,
abstinência sexual e não ingestão de bebidas faz suas meditações, obrigando-se a com-
alcoólicas, entre outras imposições. No tra- preendê-la como a santidade do mundo
balho de Maria Donadeo, Ícones – Imagens futuro do qual ele será participante. No
do Invisível, no qual é citado L. Duchesne, livro A Senhora da Conceição Aparecida
encontra-se uma breve alusão de como deve – Padroeira do Brasil, em um capítulo que
ser o caráter de um iconista: faz referências às sagradas imagens, os
autores concluem:
“O pintor de ícones deve ser humilde, dó-
cil, piedoso, pouco falante, não zombador, “A imagem iconográfica, em sua concei-
não briguento, não invejoso, não beberrão tuação religiosa, atua como mediadora e
e não gatuno, deve conservar a pureza da auxiliadora, harmonizando o homem e sua
alma e do corpo” (Duchesne, 1920, apud permanência na terra, no sentido de ele fa-
Donadeo, 1996, p. 46). zer uma melhor escolha dos caminhos que
deve seguir por aqui, neste estágio da vida
O material a ser usado nessa pintura deve biológica, que será a luz que o conduzirá
ser de origens animal, mineral e vegetal, tais ao Pai Celestial após sua morte corporal”
como: madeira, água, argila, ovos e terra (Camino & Loiacono, 1996, p. 156).
colorida. Todos esses elementos devem ser
empregados em seu estado natural, após sua Nos templos ortodoxos os ícones ficam
elaboração e purificação. Existe, nesse caso, dispostos na iconostase (7), visíveis aos fiéis
uma interação da pureza do iconista com a e alvo de constante invocação à oração.
pureza do material a ser trabalhado, pois a Os fiéis ortodoxos têm uma ligação
pureza plena deve ser um elemento constante, bastante íntima com essas santas imagens,
uma vez que, ao se entregar à tarefa de pintar, sendo acostumados a isso desde a infância.
a pessoa estará em ligação direta com o Di- Dos padres e de seus familiares recebem
vino, transcendendo o mundo materializado. toda a informação reveladora dessas repre-
7 Parede divisória que separa
o santuário da nave do tem-
Ao empreender tal tarefa, a pessoa recebe sentações de vida exemplar. Ao adentrarem
plo. Essa parede possui três da Onipotência e dos Santos a inspiração em um templo, os ortodoxos não fazem a
aberturas para a passagem
dos celebrantes e dos outros para a conclusão de uma arte cuja origem tradicional genuflexão mas, ao se aproxima-
ministros. O ícone de Emaús, está nas dimensões paradisíacas. O ícone é rem dos ícones expostos, inclinam a cabeça,
ou da Santa Ceia, é colocado
sobre a abertura central. Do considerado uma das maiores manifestações fazendo o sinal-da-cruz sobre o peito uma
lado direito estão os ícones do
Salvador e do esquerdo, o da da tradição da Igreja Ortodoxa, tal qual as ou três vezes e tocando o chão com a mão
Mãe de Deus. Os ícones dos tradições escritas e orais. direita. Depois de orarem, dão um ósculo
apóstolos, doutores e mártires
da igreja ficam ao lado ou no Bernard Sartorius, na sua excelente obra respeitoso, inicialmente na imagem de
alto dessa divisória.
A Igreja Ortodoxa, menciona sobre essa Cristo, localizada sempre no lado direito,
8 Refere-se a um tecido no qual tradição o seguinte: e depois na da Virgem Maria, posicionada
Cristo teria enxugado seu rosto
e o enviado ao rei Abgar de no lado esquerdo da iconostase.
Edessa, que sofria de lepra.
Abgar teria enviado um emissá- “O ícone transmite o conteúdo da Sagrada Uma tradição diz que o primeiro iconista
rio de nome Ananias até Jesus Escritura não sob forma de um ensino teó- teria sido São Lucas e que o primeiro ícone
com uma carta relatando o seu
problema e pedindo a cura. rico, mas de maneira litúrgica, isto é, de um que este evangelista pintou foi o da Virgem
Jesus, ao ler a carta, pede que
se traga água para lavar seu
modo vivo, dirigindo-se a todas faculdades Maria, quando esta ainda vivia. Entretanto,
rosto e uma toalha; nela Cristo do homem. Transmite a verdade contida na existe também a versão do Mandýlion (8),
imprime a imagem de seu rosto
e a entrega para Ananias com Escritura à luz de toda a experiência espiri- o ícone de Cristo por Cristo.
outra carta, na qual louva a fé tual da Igreja, da sua tradição” (Sartorius, As representações iconográficas, para os
do rei, oferecendo-lhe a vida
restabelecida. 1982, p. 105). ortodoxos, podem ser compreendidas como

124 REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 116-131, setembro/novembro 2005


exemplos a serem seguidos em sua vida, e seguintes: ‘A Ela, a mais nobre das sau-
intensificam a intimidade respeitosa que dações’ ou ‘Em vós deposito toda minha
eles têm com a dimensão mística em seu esperança’, ou ‘Ó Santíssima Mãe de Deus,
cotidiano. Uma força que os leva a encarar salvai-nos’” (Arbex, 2001, p. 42).
a vida num estágio de maior esperança, e
principalmente a fazer com que procurem Como já se viu, a confirmação de Maria
exaltar em sua pessoa a Imago Dei, re- como Theotokos, deu-se no Concílio de Éfe-
cordando-lhes que, enquanto obra do Pai, so (431), contra a tese nestoriana que negava
receberam centelha da substância divina, essa condição em Maria, delegando-lhe o
a qual deverá cada vez mais intensificá-la papel de Christotokos, mãe de Cristo e não
em si, com o objetivo também de serem um mãe de Deus. A grande devoção mariana
ícone vivo de Jesus Cristo. pelos ortodoxos é visível na diversidade de
ícones confeccionados em sua homenagem,
“Quantos fiéis ortodoxos, ainda hoje, se chegando a ultrapassar os que são pintados
recolhem a orar junto com a um ícone, para representar a face de Cristo.
com a confiança de um encontro benéfico, Da Igreja Ortodoxa Russa, pode-se reti-
de uma realidade pessoal embora invisí- rar os mais belos exemplos da iconografia
vel! E quantos, através dos séculos, têm mariana, destacando a Virgem de Vladimir,
experimentado a eficácia de tais encontros pintada por Andrej Rublev (século XVI),
pela própria transformação pessoal! (‘Se considerado o maior dos iconistas russos.
esforça para imitá-los […]’)” (Donadeo, Ainda dentro desse contexto, deve ser citado
1996, p. 20). o hino sem título denominado a posteriori
de Akathistos (9), uma das mais singelas
homenagens direcionadas a Theotokos.
Um aspecto doutrinário: o culto à
mãe de Deus entre os ortodoxos
DESMEMBRAMENTO E DISPERSÃO
Um fenômeno muito importante na
Igreja Ortodoxa prende-se à devoção dos DAS IGREJAS
ortodoxos à Virgem Maria, consagrada
como Theotokos: junção dos vocábulos Conforme escrito anteriormente, mui-
gregos theós (deus) e tokos (mãe). Pode-se tas heresias marcaram a história do lado
afirmar que existe praticamente um culto à oriental da igreja (séculos IV-VII) que
Virgem paralelo ao do próprio Cristo. Ela levaram a um definhamento do prestígio
é considerada pelos fiéis o caminho seguro dos patriarcados de Jerusalém, Alexan-
para se chegar ao Salvador, a mulher extra- dria e Antioquia, que junto a Roma e
ordinária, mãe de Deus e dos homens que Constantinopla formavam a Pentarquia de
em constante estado de oração intercede por Patriarcados Apostólicos. Isso acabou por
seus filhos terrenos e por toda a humanidade elevar o prestígio de Constantinopla no que
junto a seu Filho. toca à defesa da ortodoxia cristã. Todavia,
Para maior compreensão dessa condição a história demonstrou que, nos períodos
que deixa a Theotokos próxima ao mesmo pós-cisão, o patriarca constantinopolitano
grau de importância dedicado ao Unigênito foi por sua vez perdendo seu poder com
de Deus-Pai, recorre-se novamente a Pedro as independências proclamadas e aceitas 9 Akathistos é o termo grego que
indica a postura corporal e
Arbex: de outras igrejas também reconhecidas espiritual dos fiéis que escutam
como ortodoxas, ficando com um número ou cantam o hino, que é, em
verdade, um longo poema
“Na igreja […] ao ouvir aqui o nome de bastante reduzido de igrejas dependentes de homenagem à vida da
Theotokos, que soube suportar
Maria, os fiéis costumam fazer uma inclina- diretamente de sua jurisdição canônica. com dignidade a missão que lhe
ção da cabeça em direção ao ícone da Mãe Essas igrejas autônomas são compostas pe- foi confiada pela Onipotência.
Sobre o autor dessa obra não
de Deus, dirigindo-lhe uma das saudações los seguintes patriarcados: Constantinopla, se tem nenhum conhecimento.

REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 116-131, setembro/novembro 2005 125


Alexandria, Antióquia, Jerusalém, Igreja esforços em prol da independência religiosa,
da Rússia, Igreja da Romênia, Igreja da também. Contudo, a eclosão da Primeira
Grécia, Igreja da Bulgária, Igreja de Chipre, Guerra Mundial naquele tempo não permitiu
Igreja da Polônia, Igreja da Albânia, Igreja a concretização desse anelo. Em 1926, po-
da Geórgia. Apesar de terem se tornado rém, o Patriarcado Ecumênico reconheceu
independentes, essas igrejas reconhecem o a independência da Igreja Albanesa; mas
patriarca de Constantinopla como Primus a Itália, que ocupou esse país pelas armas,
Inter Pares (título honorífico). impediu a proclamação oficial do alvará
Essas igrejas, que hoje se encontram religioso, enquanto instigava os albaneses
na condição de autonomia, foram, através a não aceitá-lo. Quando se restabeleceu a
dos tempos, tornando-se independentes da independência do país, o governo da Albâ-
jurisdição de Constantinopla por uma série nia enviou uma delegação oficial integrada
de motivos, contudo, não se demonstrou pelo arcebispo de Tirana e um ministro de
nessas separações qualquer situação que Estado, para solicitar essa graça ao Patriar-
evidenciasse atitudes forjadas em litígios. cado Ecumênico em Istambul. Após várias
Muitos foram os fatores que levaram a tais conferências que se prolongaram durante
separações que, sob aspecto algum, podem muito tempo, o Patriarcado expediu o
ser compreendidas como cismas. Como alvará, reconhecendo a independência da
exemplo desses fatores, cite-se a invasão Igreja Albanesa Ortodoxa sob a chefia do
turca de Constantinopla por Mohamed arcebispo de Tirana, no ano de 1937” (El
II, no ano de 1453. A partir dessa data, o Hajj, 1971, p. 137).
Império Bizantino, depois denominado
Otomano, passa a ter como principal forma De qualquer forma, não há como negar
de religiosidade o islamismo. A Catedral de que a expansão da Igreja Ortodoxa se deu
Santa Sofia, na época o maior monumento à quase sempre em termos da independência
Cristandade, foi transformado em mesquita das novas igrejas. O Patriarcado de Jerusa-
muçulmana por exigência daquele invasor. lém foi o primeiro a consegui-lo, ainda no
Evidentemente, isso levou ao enfraqueci- século IV, quando do Concílio de Nicéia,
mento do cristianismo ortodoxo, uma vez tendo sua confirmação no Concílio Calce-
que sua sede não é mais regida por um doniano, século V. Sobre a independência
governo cristão. desse patriarcado localizado no berço do
Outro exemplo nos é dado pela Igreja cristianismo, Roberto Khatlab, em seu livro
Ortodoxa da Grécia, país que ficou sob o As Igrejas Orientais – Católicas e Ortodo-
domínio do Império Otomano de 1821 a xas: Tradições Vivas, afirma:
1830. Nesse mesmo ano, um sínodo da
Igreja Ortodoxa daquele país solicitou sua “[…] a cidade de Jerusalém, por seu tamanho,
independência em relação ao Patriarcado constituía uma pequena diocese dependente
Constantinopolitano, que acabou reconhe- do Arcebispado de Cesaréia e este dependen-
cendo-a em 1850. O líder da Igreja Grega, te do Patriarcado de Antióquia, até que, em
todavia, não se assumiu como patriarca e 325, o Concílio de Nicéia declarou autonomia
sim como arcebispo de Atenas. da Igreja de Jerusalém e no Concílio de Cal-
Como se nota, muitos processos de cedônia (451) o seu bispo, Juvinélio, recebeu
independência das Igrejas Ortodoxas ocor- o título de Patriarca, passando assim ao quinto
reram por motivações de ordem política e lugar de precedência após o Patriarcado de
nacionalista, como foi o caso da Igreja da Antióquia (Roma, Constantinopla, Alexan-
Albânia, comentado por El Hajj: dria, Antióquia e Jerusalém). Com isso, o
Patriarcado de Jerusalém se desenvolveu
“A Igreja da Albânia […], vizinha da Grécia, rapidamente, adquirindo mais prestígio e
constituía uma diocese dependente do Pa- aumentando o número de Dioceses, igrejas,
triarcado Ecumênico. Com a Independência mosteiros, instituições religiosas[…]” (Kha-
adquirida em 1912, desenvolveram-se os tlab, 1997, p. 80).

126 REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 116-131, setembro/novembro 2005


No tópico que trata das independências importantíssimas: a Igreja Ortodoxa de
das Igrejas Ortodoxas em relação ao Pa- Antióquia, localizada no bairro do Paraíso, a
triarcado Ecumênico de Istambul (antiga Catedral de São Pedro e São Paulo, sede do
Constantinopla), deve-se refletir que o na- Arcebispado Metropolitano (Arquidiocese
cionalismo, embora tenha sido um elemento de São Paulo e todo o Brasil), que atende à
de peso para tais desmembramentos, não comunidade sírio-libanesa paulista, além de
pode obscurecer o fato de a sede ecumê- manter uma instituição de ensino e asilos
nica haver sido cerceada por um governo para idosos, um em Santo Amaro, Zona Sul
islâmico que ainda impõe rígidas regras ao e outro no bairro do Tatuapé, na Zona Leste.
cristianismo ortodoxo em suas jurisdições. Essa igreja tem templos na cidade de Santos
A Catedral de Santa Sofia pode ser tomada e interior paulista, além de outras paróquias
como exemplo: mesmo após ter deixado de distribuídas pelos estados brasileiros.
ser uma mesquita, a catedral não retornou Muito expressiva também é a presença
às mãos do Patriarcado, tendo sido trans- da Igreja Grega Ortodoxa, dependente
formada em museu nacional, enquanto o eclesiasticamente da Arquidiocese Grega da
Palácio de Fanar (O Farol), nas imediações América do Norte e Sul, que responde ao Pa-
da cidade, acabou sendo destinado como triarcado Ecumênico. Dessa denominação,
sede patriarcal. estão no município de São Paulo a Catedral
Em síntese, as igrejas que ainda têm de São Pedro, localizada à Rua Bresser, no
dependência canônica do Patriarcado Ecu- bairro do Brás, e a Paróquia Ortodoxa da
mênico são poucas, e as que se apartaram Dormição da Santa Mãe de Deus, no bairro
de seus patriarcados locais, jurídica e geo- do Cambuci. Contam-se templos também
graficamente, são as seguintes: no Sul do Brasil, destacando-se, em Floria-
nópolis, a Igreja de São Nicolau.
• Igreja Greco-Americana – Católica O bispado greco-ortodoxo responsável
Ortodoxa; pelas paróquias brasileiras e dos países sul-
• Carpático – Russa; americanos localiza-se na Argentina, mais
• Igreja Ucraniana da América e do Ca- precisamente em Buenos Aires.
nadá; A Igreja Ucraniana, ligada à Igreja
• Arquidiocese Russa na Europa Oci- Metropolitana de Nova York, iniciou suas
dental; atividades em terras brasileiras ainda no
• Diocese Albanesa da América; século XIX. É uma das igrejas ortodoxas
• Monte Athos (Grécia) (10); que conta com maior número de atividades
• Dodecanesso (11). em território nacional, no tocante a paróquias
e formação de seminaristas. Os primeiros
Convém registrar que, quando na diás- núcleos de ucranianos ortodoxos no Brasil
pora, essas igrejas autonomizadas voltaram se instalaram nas seguintes localidades do
à jurisdição do Patriarcado Ecumênico. estado do Paraná: Dorizon, Antônio Olinto,
Cruz Machado, Marco Cinco, Gonçalves
10 Monte Athos: reconhecido
Júnior, São Roque, Curitiba, Piraquara, Gua- pelo nome grego Aghion Oros
juvira, Iapó (Castro), Jo aquim Távora, Nova (“montanha santa”), localizado

A IGREJA ORTODOXA NO BRASIL


no litoral das três quase ilhas da
Ucrânia e Maringá e, após a Segunda Guerra Península de Calcídique (Gré-
cia), a 2.033 metros de altura,
Mundial, em Palmital e Ponta Grossa. Dessa com 336 km de extensão. Os
A Igreja Ortodoxa na América Latina, denominação, encontram-se ainda paróquias mosteiros lá instalados guar-
dam rico patrimônio cultural,
principalmente no Brasil, está presente em no estado de Santa Catarina, Rio Grande do incluindo originais de epístolas
paulinas. Politicamente está sob
numerosas paróquias oriundas de vários Sul e São Paulo. Neste último, as comuni- os auspícios do governo grego
patriarcados, bem como outras da imigra- dades ortodoxas ucranianas fixaram-se na e canonicamente responde
ao Patriarcado Ecumênico de
ção que estão canonicamante ligadas ao Grande São Paulo: Osasco e São Caetano do Constantinopla.
Patriarcado Ecumênico. Sul. No ano de 2002, os ucranianos ortodoxos 11 Conjunto de doze ilhas no Mar
No município de São Paulo por exemplo fundaram, em Curitiba, ao lado da Catedral Egeu, próximo à costa turca
da Ásia Menor, das quais a
existem na região central representações de São Demétrio, o Seminário Santos Cirilo principal é Rhodes.

REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 116-131, setembro/novembro 2005 127


e Metódio, para que os vocacionados não outros países. Parte deles veio estabelecer
precisem sair do Brasil para sua formação residência no Brasil. Deve, porém, ser
sacerdotal, como ocorre entre outras igrejas esclarecido que, antes dessa cisão no meio
ortodoxas aqui instaladas. Das igrejas aqui ortodoxo russo por ocasião da intervenção
apresentadas, todas são de rito bizantino (12), do Estado socialista na igreja, houve outra
sendo sua liturgia cantada na língua pátria, separação por parte de um grupo de fiéis
evidenciando-se a manutenção das tradições quando ainda vigorava o regime monárquico
da terra natal. São igrejas de imigração, vol- dos czares (13).
tadas ao atendimento de suas comunidades, Importante esclarecer que muitos russos
o que revela um certo fechamento, funda- ortodoxos (padres e fiéis), mesmo sem se-
mentado em um etnicismo peculiar a todas guirem para o exílio, não ficaram favoráveis
elas, apesar de pretenderem-se católicas e ao sergianismo e à normatização religiosa
12 Não foram incluídas as deno- apostólicas, isto é, universais. imposta pelo Estado. Isso os obrigou a levar
minações pré-calcedonianas, uma vida de clandestinidade religiosa dentro
ou seja, igrejas que não estão
em comunhão com as igrejas de sua própria pátria. Essa igreja rebelde e
favoráveis às decisões do
Concílio de Calcedônia, que
A Igreja Católica Apostólica perseguida foi denominada “Igreja das Ca-
refutou a tese monofisista de tacumbas”, numa analogia ao cristianismo
Eutiques: Ortodoxas e Católica
Romana. No Brasil, porém, Ortodoxa Russa no Exílio – São em sua fase primordial. A perseguição aos
existem representações relativas fiéis da Igreja das Catacumbas foi suspen-
a essa denominação monofisita
que também se autoproclama
ortodoxa, contando com um
Paulo (SP) sa quando o premier Mikhail Gorbatchev
número considerável de tem- implantou a perestroika, em 1990.
plos e fiéis no município de Essa igreja revela um caso exemplar de Esse ramo da Igreja Russa mantém no
São Paulo: Igreja Ortodoxa
Armênia de São Jorge, no religião universal etnicizada e reflete um município de São Paulo diversos templos,
bairro da Luz; Igreja Sírio-Jaco-
bita Santa Maria, no bairro de apelo radical aos preceitos ortodoxos, que fundados entre as décadas de 30 e 50 do sécu-
Mirandópolis; Igreja Ortodoxa eventualmente poderão ser descaracteriza- lo passado. Essas comunidades paroquiais
Sírio-Jacobita Santo Antônio,
na Vila Mariana; Igreja Copta dos pelo processo emigratório. na cidade estão localizadas nos seguintes
Ortodoxa São Marcos, na
Desvinculada do Patriarcado Ecumênico bairros: Vila Alpina; bairro da Liberdade
região de Jabaquara. No que
se refere ao rito dessas igrejas, de Constantinopla, bem como do Patriarca- (Catedral de São Nicolau), Pedreira – Santo
existe uma diferença em relação
ao bizantino, como por exemplo do de Moscou, essa igreja está subordinada Amaro, Vila Zelina e Moema (14). Res-
o rito de São Thiago. à Jurisdição Eclesiástica de Buenos Aires e salta-se, ainda, que a igreja mantém uma
13 O fato ocorreu no século XVII, a América do Sul, ligada à Metropolia (Ar- comunidade em Carapicuíba, na Grande
partir de uma reforma litúrgica
proposta pelo patriarca Nikon. cebispado) de Nova York, em Manhattan, São Paulo, e outra em Niterói, no estado
Contrário à reforma proposta,
um grupo separou-se para
sob a responsabilidade de Sua Ema. Revma. do Rio de Janeiro.
construir a Igreja dos Velhos Metropolita Lauro Skurla. Dados obtidos na pesquisa realizada
Crentes (Raskolniki). Por isso
foram excomungados pela Sua separação do Patriarcado de Mos- na Paróquia de São Sérgio de Radonej, em
Igreja Ortodoxa Russa em cou deu-se em 1927, após a deposição e Moema, deixam perceber a importância
1667. Os Raskolniki, todavia,
sobreviveram e mantêm ainda assassinato do patriarca Thicon, que se da Igreja Ortodoxa Russa no Exílio para
comunidades na própria Rússia
e na Diáspora, principalmente negou a submeter-se às regras impostas pelo os seus fiéis, pois ela preservou todo o
nos Estados Unidos e Canadá, Estado soviético à religiosidade ortodoxa. conjunto de tradições culturais sufocadas
divididos em duas organiza-
ções: Popovci (com sacerdo- Entretanto, um metropolita de nome Sérgio pela Revolução Socialista de 1917: lín-
tes), ou seja, o ato litúrgico
é celebrado por um padre; e
assumiu-se favorável às limitações impostas gua, calendário, folclore, dentre os demais
Bespopovci (sem sacerdotes), pelo Estado socialista ao clero ortodoxo elementos culturais de um povo que foi
para esse grupo o ato litúrgico
é celebrado por leigos. russo, tornando-se o homem de confiança obrigado a emigrar. Registra-se, portanto,
14 Essa igreja localizada no bairro do governo soviético no meio clerical. que a igreja se responsabiliza não só pela
de Moema (SP) foi erigida em Isso ficou conhecido como a “heresia do espiritualidade, mas também por aspectos
homenagem a São Sérgio de
Radonej. No dia 18 de julho sergianismo”. profanos que expressam tradições culturais
de 2005, ocasião em que se
comemorava o aniversário da Por considerar que o Patriarcado de do grupo que englobam e transcendem
paróquia, foi possível, através Moscou estava preso ao ateísmo do sistema a esfera religiosa. Na ausência de outras
da pessoa do Revmo. Padre Vla-
dimir Petrenko, pastor daquela soviético, um grupo de padres discordan- instituições associativas, tais como clubes,
comunidade, obter informações
tes daquela situação passou a acompanhar agremiações e centros culturais russos no
importantes e conclusivas para
este artigo. refugiados e outros imigrantes russos em Brasil, delegou-se à igreja essa respon-

128 REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 116-131, setembro/novembro 2005


sabilidade de manutenção da identidade Os padres que vão ingressar nesse ramo
desse povo. da doutrina ortodoxa têm suas ordenações
Para esses fiéis, a igreja tem vital impor- feitas por Sua Ema. Revma. Dom Alexandro
tância fora das fronteiras da pátria. É parte Mileante, bispo de Buenos Aires e de toda
integrante e norteadora da vida do emigrado a América do Sul. Infelizmente (conforme
para que não se desvaneçam suas estrutu- opinião dos padres), a Igreja não tem de-
ras morais, espirituais e todo seu contexto monstrado interesse pela educação formal.
cultural de origem. Além disso, propicia o Não possui escola voltada ao ensino funda-
contato entre seus pares étnicos. Em suma, mental e médio, fato este considerado pelos
a religiosidade fluindo pela igreja atua como próprios clérigos uma falha. Em compen-
elemento de interação entre essas pessoas sação, mantém escolas paroquiais onde se
que aqui escolheram para dar continuidade ministram cursos voltados ao ensino básico
a suas vidas, sem perder de vista a suas da língua russa para leigos, além de aulas de
origens. Contudo, ainda que se preservan- catecismo. No capítulo assistencial, a igreja
do, notam-se algumas mudanças na igreja, mantém, no bairro de Jardim Marajoara, em 15 A linguagem eslavônica é uma
relacionadas principalmente à liturgia, em São Paulo, um asilo para idosos de todas as linguagem ritual, tal qual o latim
era para a Igreja Católica
especial na questão da língua. Em geral as etnias – o Asilo de São Nicolau. Romana. Sobre ser o eslavônico
a língua oficial dos serviços
missas são cantadas em eslavônico (15), A Igreja Ortodoxa Russa no Exílio é litúrgicos na Igreja Russa, sa-
não em russo. O eslavônico não é uma totalmente contrária às práticas ecumênicas, liente-se que foi uma criação
do padre constantinopolitano
linguagem de domínio popular, mas sim portanto, não detém quaisquer relações Cirilo, também conhecida
como alfabeto cirílico. No
uma língua adotada pela igreja. Por isso, com outros patriarcados ortodoxos, o que século IX Cirilo recebeu do
para se tornar inteligível aos fiéis, alguns inclui, além do estabelecido em Moscou, patriarca Fócio a missão de
cristianizar o Leste Europeu
momentos nas celebrações são feitos em também o de Constantinopla, pois ambos junto a seu irmão Metódio.
português. Isso leva o fiel que não domina são favoráveis à política ecumênica. No Isso culmina com a deflagração
do cristianismo orientalizado
o eslavônico a procurar aprender a língua tocante às igrejas reformadas, o que há é um para regiões além do Oriente
e Grécia, uma vez que essa
portuguesa. respeito às igrejas históricas da Reforma, tentativa, já empreendida pelos
A Igreja Ortodoxa Russa no Exílio se mas nenhuma prática religiosa em conjunto padres latinos naquela região
geográfica, ainda muito presa
abre em relação aos brasileiros que, em é concretizada. Também os sacramentos do aos conceitos pagãos locais, re-
sultou em fracassos amargados
número considerável, têm procurado a catolicismo romano não são válidos entre pelos latinos.
“Doutrina em retidão”. Por esse motivo, os russos do exílio, o que indica uma ne- 16 No Brasil existiu um mosteiro
pelo menos uma vez no mês ocorre o cul- gação ao acordo entre o papa Paulo VI e o feminino no município de São
Paulo, localizado no bairro de
to em sua totalidade, celebrado na língua patriarca ecumênico Athenágoras I, firmado Vila Alpina, funcionando na
portuguesa. Evidentemente, a inserção do na década de 60, no século XX (17). década de 50 do século XX.
Todavia, a falta de vocações
português na liturgia causou um certo foco A opinião é de que se os russos ortodoxos levou a igreja a encerrar suas
atividades e, até o momento,
de descontentamento entre alguns fiéis ar- do exílio se abrissem para o ecumenismo, não houve interesse, por parte
raigados em um conservadorismo radical, como outras igrejas apostólicas o fizeram, dos dirigentes da Igreja Ortodo-
xa Russa no Exílio, na criação
mas isso não levou a qualquer espécie de estariam compactuando com religiosidades de outra instituição desse tipo.
ruptura da igreja. não-cristãs, como as religiões afro, o juda- 17 No ano de 1962, iniciou-
No capítulo referente ao “abrasileira- ísmo e as seitas que têm origem no Extremo se uma conversação para a
restituição da paz entre as
mento” é interessante registrar que não Oriente (budismo e xintoísmo) e que não duas igrejas, quando da visita
do papa Paulo VI ao patriarca
há qualquer impedimento à ordenação de reconhecem Jesus Cristo como Filho Uni- ecumênico de Constantinopla,
padres brasileiros que não tenham ascen- gênito de Deus e salvador da humanidade. Athenágoras I. Três anos mais
tarde, ocorre a reconciliação
dência eslava; contudo, a preparação do Para os russos ortodoxos no exílio, a prática entre as duas metades divididas
que, por mil anos, mantiveram-
candidato torna-se difícil, uma vez que todo ecumênica é uma heresia. se em silêncio profundo. Nessa
o procedimento no tocante aos estudos e Aspecto interessante refere-se às cano- reconciliação, ficou acordado
que as excomunhões das duas
aprendizado da língua, caso o vocaciona- nizações de santos na doutrina ortodoxa. partes não mais existiriam e
do não tenha o domínio da mesma, é feito Existe uma particularidade entre elas no que os sacramentos da Igreja
Ortodoxa seriam reconhecidos
fora do Brasil, em Jordanville (norte do que toca à devoção a essas personagens pela Igreja Latina e vice-versa.
Essa reconciliação, todavia,
estado de Nova York). No Brasil ainda não místicas. não unificou as duas igrejas
foi criado um seminário mantido por essa Ao lado dos santos “universais” (santos que, mesmo estabelecendo hoje
um diálogo de cordialidade,
instituição (16). apóstolos e mártires dos primeiros séculos), mantêm-se separadas.

REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 116-131, setembro/novembro 2005 129


há os santos locais. Os primeiros são vene- ferenciação nas datas. Dessas solenidades,
rados no universo global apostólico, já os são destacadas as seguintes: Nascimento da
locais das diversas denominações ortodoxas Virgem Maria, Apresentação da Virgem ao
não se inserem nesse universo. Assim sen- Templo, Festa da Anunciação, Dormição
do, exemplifica-se que os santos da Igreja da Mãe de Deus, Festa da Natividade de
Grega Ortodoxa não são reconhecidos no Jesus, Apresentação de Jesus ao Templo,
calendário da Igreja Russa do Patriarcado Festa do Domingo de Ramos, Festa da
Moscovita, dos russos no exílio, dos ciprio- Ressurreição de Cristo (a mais importante
tas ortodoxos, dos romenos, antioquenos e festa na Igreja Ortodoxa), Pentecostes,
demais tementes a essa confissão. Exaltação da Santa Cruz e Transfiguração
Quanto aos santos comuns a todas as igre- de Jesus Cristo.
jas ortodoxas e à Igreja Católica Apostólica A título de exemplos voltados para
Romana, são aqueles reverenciados até o as igrejas russas, citam-se as festas em
cisma, que teve seu princípio em 1054. Após louvor a São Sérgio de Radonej (1314-
essa data, houve um não-reconhecimento 1392) e a São Serafim de Sarov (1759-
recíproco das canonizações procedidas por 1833), que têm suas datas comemoradas
ambas as partes. Deve-se, porém, esclarecer pelas duas igrejas. Seguem-se também as
que os santos entronizados na Igreja Russa comemorações aos padroeiros, os quais
Ortodoxa, antes de sua cisão em 1927, dada são homenageados com seus nomes nas
a questão do sergianismo, eram comuns às paróquias, bem como celebrações do tempo
duas, visto o fato de ser a mesma igreja. Após de vida das mesmas, ou seja, as datas de
essa cisão russa, os santos reconhecidos pelo suas fundações.
Patriarcado de Moscou não são venerados
pelos exilados e vice-versa. Entretanto, um
aspecto polêmico e recente nesse campo das
santificações prende-se à canonização da CONCLUSÃO
família Romanov, que governou o Império
Russo até 1917, data em que ocorreu a Re- À guisa de conclusão deste artigo, deve
volução Socialista, quando toda a família foi ser esclarecido que a Igreja Católica Apos-
executada pelo governo soviético implantado tólica Ortodoxa Russa no Exílio, entre as
após a insurreição. demais, pode ser considerada a que mais
Ocorre que em 1997 a Igreja Ortodo- fidelidade guarda aos preceitos ortodoxos.
xa Russa no Exílio canonizou a família Ela não se permitiu mesclar-se com outras
Romanov, e no ano 2000, após o fim do igrejas, as quais reprova por deixar-se levar a
regime soviético na Rússia, o Patriarcado uma flexibilização exagerada da doutrina or-
de Moscou também procedeu à canoniza- todoxa, desviando-se da tradição. Manteve-
ção da família real. Ficou então a polêmica se fiel a seus rituais, à observação do antigo
interrogação: qual das duas canonizações calendário e aos jejuns necessários.
é válida, uma vez se tratar dos mesmos Mesmo em meio a algumas dificulda-
personagens? Os russos no exílio reivin- des, procura manter seu corpo de alguns
dicam para si essa legitimidade pois foram milhares de fiéis, sintonizando-os no
os primeiros a consagrar os Romanov. Há, conjunto de tradições não só religiosas
todavia, por parte de Moscou, uma réplica mas de todo o contexto cultural originário
em relação a tal canonização, que argumenta da pátria de seus ancestrais. Esse esforço
que a validade dessa canonização reside de preservação religiosa e cultural visa a
em sua igreja. evitar o que ocorreu com outros emigra-
Algumas festas comemoradas pelos dos instalados no Brasil e em países da
russos da igreja no exílio são comuns às América Latina, que, através dos tempos,
demais igrejas da doutrina ortodoxa e à deixaram-se aculturar, permitindo assim o
Igreja Católica Apostólica Romana, ainda desaparecimento de sua cultura de origem,
que exista em relação a esta última uma di- dessa forma, legando ao esquecimento

130 REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 116-131, setembro/novembro 2005


sua herança nacional, pondo fim às suas continuidade das lembranças culturais de 18 Um outro detalhe importante
da Igreja Ortodoxa Russa no
identidades originais (18). uma terra deixada por imposições políticas Exílio é em relação à imigração
Com os russos ortodoxos do exílio, radicais, sem alternativas de retorno. Em sérvia que, por não ter aqui
sua representação religiosa,
o processo aculturativo encontra grande síntese, a Igreja Ortodoxa Russa no Exílio esporadicamente é atendida
por essa igreja, mas não se deve
restrição, pois os fiéis têm nessa igreja cultua uma religião universal circunstancial- considerar a comunidade sérvia
uma instituição que, além de cuidar da mente étnica, isto é, uma religião universal como parte integrante dessa
denominação ortodoxa russa,
vida espiritual de seu povo, ainda luta pela etnicizada. por não manter a assiduidade
necessária nos ofícios religiosos
desenvolvidos em seu templo.

BIBLIOGRAFIA

ARBEX, Pedro. A Divina Liturgia Explicada e Meditada: Introdução à Liturgia Bizantina. 6a ed. Aparecida, Santuário, 2001.
ATTWATER, Donald. Dicionário de Santos. São Paulo, Art Editora, 1991.
BEHR-SIGEL, Elizabeth. Oração e Santidade na Igreja Russa. São Paulo, Paulinas, 1993.
CAMINO, Rizzardo da; LOIACONO, Mauricio. A Senhora da Conceição Aparecida – Padroeira do Brasil. Rio de Janeiro,
Aurora, 1996.
DONADEO, Maria. Ícones: Imagens do Invisível. São Paulo, Paulinas, 1996.
EL HAJJ, Georges. A Igreja Ortodoxa no Mundo. Rio de Janeiro, Aurora, 1971.
FRANGIOTTI, Roque. História das Heresias (Sécs. I-VIII) – Conflitos Ideológicos dentro do Cristianismo. 2a ed. São
Paulo, Paulus, 1995.
GHARIB, Georges. Os Ícones de Cristo: História e Culto. São Paulo, Paulus, 1997.
KALA, Thomas. Meditações sobre os Ícones. São Paulo, Paulus, 1995.
KARENIN, Jerzy Berkman. Doutrina Cristã Ortodoxa. São Paulo, Santa Igreja Grego-Ortodoxa do Brasil, 1957.
KHATLAB, Roberto. As Igrejas Orientais – Católicas e Ortodoxas: Tradições Vivas. São Paulo, Edições Ave Maria, 1997.
PASSARELI, Gaetano. O Ícone da Mãe de Deus. São Paulo, Edições Ave Maria, 1996.
RIBEIRO JR., João. Pequena História das Heresias. Campinas, Papirus, 1989.
RUNCIMAN, Steven. A Teocracia Bizantina. Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
SABATELLI, Mihail (org.). A Divina Liturgia no Rito Bizantino-Eslavo: Pequeno Missal da Liturgia Bizantina com as
Anáforas de São João Crisóstomo e de São Basílio o Grande. São Paulo, Escolas Profissionais Salesianas, 1995.
SARTORIUS, Bernard. A Igreja Ortodoxa. Lisboa, Verbo, 1982.

REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 116-131, setembro/novembro 2005 131