Riso no escuro

Vladimir Nabokov Tradução Brenno Silveira Boa Leitura Editora SA Título Original Laughter in the Dark Capa Luis Ortega Corton

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UM

Era uma vez um homem chamado Albinus, que vivia em Berlim, Alemanha. Era rico, respeitável, feliz. Um dia abandonou a esposa por uma amante jovem. Amava; não era amado — e sua vida terminou em desastre. Eis aí toda a história, e bem poderíamos abandoná-la neste ponto, se não houvesse vantagem e prazer em contá-la. Embora haja espaço mais do que suficiente numa pedra tumular para conter, encadernada em musgo, a versão resumida da vida de um homem, os pormenores são sempre bem recebidos. E aconteceu que, certa noite, Albinus teve uma bela idéia. Na verdade, tal idéia não era bem sua, pois que lhe fora sugerida por uma frase de Conrad (não o famoso polaco, mas Udo Conrad, autor das Memórias de Um Homem Esquecido e daquela outra história acerca do velho mágico que desapareceu, desmaterializado, em sua última exibição). De qualquer modo, ele a tornou sua, ao gostar dela, ao divertir-se com ela, ao permitir que ela se desenvolvesse sobre sua pessoa, e isso basta para tomar legal uma propriedade na cidade livre do espírito. Como crítico de arte e conhecedor de pintura, divertira-se, muitas vezes, fazendo com que este ou aquele Velho Mestre assinasse paisagens e rostos com que ele, Albinus, deparava na vida real. Convertia, assim, sua existência numa bela galeria de quadros — falsificações deliciosas, todas elas. Certa noite, em que estava dando umas férias ao seu espírito erudito e escrevendo um pequeno ensaio (nada de muito brilhante, pois que ele não era um homem particularmente bem dotado) sobre a arte do cinema, ocorreu-lhe aquela bela idéia. Dizia respeito aos desenhos animados coloridos — que, naquela época, tinham acabado de aparecer. Quão fascinante não seria, pensou, se se pudesse empregar esse método e fazer-se com que certos quadros famosos, de preferência da Escola Flamenga, fossem perfeitamente reproduzidos na tela em cores vívidas, dando-se-lhes, depois, vida: movimentos e gestos graficamente desenvolvidos em completa harmonia com seu estado estático no quadro — uma taverna, digamos, com criaturas modestas a beber avidamente em mesas de madeira, e uma visão ensolarada de um pátio com cavalos selados, tudo a adquirir, subitamente, vida. O homenzinho de vermelho a depor sua caneca sobre a mesa, aquela moça com a bandeja a desvencilhar-se dos convivas, e uma galinha começando a bicar no limiar da porta. Podia-se continuar fazendo com que as pequenas figuras saíssem da taverna e passassem para a paisagem do mesmo pintor, onde se vissem, talvez, um céu acastanhado e um canal congelado, bem como pessoas em patins esquisitos como os que então se usavam, a deslisar pelas curvas antiquadas sugeridas pelo quadro; ou um caminho molhado envolto em neblina, com um par de cavaleiros, voltando-se, finalmente, à mesma taverna e trazendo-se, pouco a pouco, as figuras e a luz para a mesma ordem em que estavam... Colocando-as em seus lugares, por assim dizer, e terminando tudo com o primeiro quadro. Podia-se, ainda, fazer uma tentativa com os pintores italianos: o cone azul de um monte à distância, um caminho branco e íngreme, pequenos peregrinos a galgar a estrada sinuosa. E talvez até mesmo temas religiosos, mas somente aquele em que aparecessem figuras pequenas. O desenhista teria de possuir não apenas conhecimento cabal do pintor em apreço e de sua época, mas ser dotado ainda de talento suficiente para evitar qualquer choque entre os movimentos produzidos e aqueles fixados pelo velho mestre: teria de tirar do quadro esses movimentos... Oh, isso poderia ser feito! E as cores!... Seriam, seguramente, muito mais requintadas do que as dos desenhos animados. Que história não se poderia

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contar! A história da visão de um artista, a feliz jornada dos olhos e do pincel, e um mundo em que o estilo do pintor se difundia nas tintas que ele próprio havia encontrado! Decorrido algum tempo, Albinus falou a respeito com um produtor cinematográfico, mas este não se mostrou nada entusiasmado: disse que um trabalho assim delicado exigiria novos aperfeiçoamentos no método dos desenhos animados, e que isso custaria muitíssimo dinheiro; disse que um tal filme, devido à sua trabalhosa execução na parte de desenho, não poderia, razoavelmente, estender-se por mais do que alguns minutos — e que, mesmo assim, seria mortalmente monótono para a maioria das pessoas, redundando, no fim, em decepção geral. Albinus, então, discutiu a questão com outro homem de cinema, e também este não levou a sério a idéia. — Poderíamos começar com algo bastante simples — disse-lhe Albinus. — Um vitral colorido que adquirisse vida... Uma heráldica animada, um ou dois santinhos. — Receio que não dê certo — respondeu o outro. — Não podemos arriscar dinheiro em filmes extravagantes. Mas Albinus ainda continuou agarrado à sua idéia. Ouviu falar, por acaso, num sujeito inteligente, Axel Rex, que era maravilhoso na execução de tais fantasias: havia, com efeito, desenhado um conto persa que deliciara os intelectuais de Paris e arruinara o homem que financiara tal aventura. Albinus procurou, pois, vê-lo, mas foi informado de que ele acabara de regressar aos Estados Unidos, onde se achava desenhando histórias em quadrinhos para um jornal ilustrado. Passado algum tempo, Albinus conseguiu entrar em contacto com ele — e Rex pareceu interessado. Certo dia, em março, Albinus recebeu dele uma longa carta, mas sua chegada coincidiu com uma súbita crise ocorrida na vida particular — muito particular — de Albinus, de modo que essa bela idéia, que talvez, de outro modo, encontrasse uma tela a que se agarrar e florescer, se dissipou e murchou estranhamente no decurso da última semana. Rex escreveu que era inútil prosseguir-se na tentativa de seduzir os produtores de Hollywood, e acabou, friamente, por sugerir que Albinus, sendo homem de posses, deveria ele próprio, financiar sua idéia. Nesse caso, ele, Rex, aceitaria a remuneração de... (uma quantia alarmante), metade da qual a ser paga adiantadamente, pelos desenhos, digamos, de um filme de Breughel... Os “Provérbios”, por exemplo, ou qualquer outra coisa que Albinus pudesse desejar que ele desenhasse. — Se eu fosse você — observou o cunhado de Albinus, Paul, homem corpulento e bem-humorado, com as presilhas de duas lapiseiras e duas canetas-tinteiro a aparecer sobre o bolso do paletó — arriscaria. Os filmes comuns custam mais... quero dizer, os de guerra e de edifícios que se desmoronam. — Oh, mas, depois, a gente recupera tudo, e eu não recuperaria. — Parece que me lembro — disse Paul, tirando baforadas de seu charuto (tinham acabado de jantar) — que você estava disposto a sacrificar uma soma considerável... nada inferior à remuneração que ele exige. Que é que se passa, agora, com você? Você não parece tão entusiasmado como ainda há pouco. Não está desistindo da idéia, pois não? — Bem, não sei. O que me preocupa é o lado prático da coisa; por outro lado, a idéia ainda me agrada. — Que idéia? — indagou Elisabeth. Aquele era um seu pequeno hábito — fazer perguntas a respeito de coisas que já haviam sido exaustivamente discutidas em sua presença. Era puro nervosismo de sua parte, não obtusidade ou falta de atenção; e, não raro, enquanto fazia a pergunta, escorregando irremediavelmente pela frase, ela já sabia de antemão qual seria a

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apaziguadora: — Oh. na escuridão. com pormenores. confusão. querida! Não coma tão depressa! — Acho — começou Paul. em todos os seus nove anos de casado.. pelo contrário. agora me lembro. ainda assim. voltando-se para a pequena Irma. numa letra irregular e ilegível.... Não se pode tomar de um revólver e meter uma bala numa moça simplesmente porque ela nos atrai. lhe enviava para o front pares de meias roxas. tirando baforadas do charuto — que toda invenção nova. as coisas românticas costumavam tornar-se insípidas.. sabendo muito bem (e até mesmo já esperando) que ela própria. como possuía espírito lento. que saltavam um pouco quando ele se concentrava em seus pensamentos (e. Finalmente.? Estou ficando maluco e ninguém o percebe. a suspirar. por alguma razão. ou consultar um psicanalista. que.. Mas. naquele determinado dia de março.. Era bela.. repetindo incessantemente todas aquelas mesmas e enfadonhas coisas. camisetas de lã que lhe causavam comichões e enormes e apaixonadas cartas.. infelicidade. Albinus se encontrava em tal estado de irritação. como um idiota. então. que conhecera no Reno.. “Na verdade — pensou — devo falar a Elisabeth. Não. Amanhã lá irei novamente e ficarei sentado.” Ou. Incrível!” Era incrível. mas não menos importante (pois que ele vivia num enfatuado mundo alemão). responderia à sua própria pergunta.resposta. sempre se refreara. que costumava aparecer todos os sábados à noite e que gostava de contar-lhe. Seu marido tinha consciência desse pequeno hábito e jamais se irritava. em papel pergaminho. de repente. que devorava. positivamente. Finalmente. tivera uma ligação tediosa. Era bom conversador. Não havia nunca. — Será que você acaba de cair da lua? — indagou... em Berlim. fosse bem parecido. Tanto mais que ele. certamente. com ar de cansaço. ele o comovia e divertia. É inútil tentar. depois. exclamou: — Não coma tão depressa. áspero. lambusando-se toda.. tinha havido aquele caso com a esposa de Herr Professor. todo o seu passado. Depois. pensou: “Que diabo tenho eu que ver com esse tal Rex. E nada posso fazer. DOIS Albinus jamais havia sido muito feliz em coisas do coração. Embora. em meio de seus abraços e a terminar sempre os seus comentários com a única frase que sabia em francês: “C’est la vie”. durante a guerra. com a máxima rapidez. enfadonha. algo bastante sedutor em seu sorriso agradável e em seus olhos azuis... um grande prato de creme de chocolate. E. qualquer benefício prático da sedução que exercia sobre as mulheres — pois que havia. Continuava calmamente a conversa. A esposa olhou as próprias unhas e respondeu. isso ocorria com mais freqüência do que seria desejável). de rosto caseiro. Em seu tempo de estudante. esta conversa idiota. que.. escritas. dominado por suas estranhas emoções. mas tão fria e pudica que ele logo a abandonara. sim. Albinus. com uma senhora triste e mais velha do que ele. 4 . o pai deixara-lhe sólida fortuna aplicada em investimentos. quando vista de determinado ângulo e sob certa luz. este creme de chocolate. de um modo tranqüilo e bem educado. pouco antes de seu casamento. nunca. ou ir viajar com ela durante algum tempo. quando se voltavam para o seu lado. possuindo aquela ligeiríssima hesitação no falar (aquela gaguez leve e simpática) que empresta novo encanto às frases mais sediças. seus nervos estouraram. jamais obtivera. tinha havido aquela mulher esguia e fatigante. de oito anos.

mas que jamais chegara a conhecer. E. ela não lhe proporcionara as emoções pelas quais cansara de ansiar. Odiava aquela palmeira. Não sabia o que fazer consigo mesmo. tudo está terminado. Elisabeth examinava. acrescentado como medida de segurança). flexível. Mas. à noite. acabou por deslocar um tornozelo em Pontresina. juntamente com esses romances medíocres. decepções. tinham existido centenas de môças com as quais sonhara. assaltava-o o receio de que a esposa o surpreendesse. com essas covinhas patéticas pouco acima daquela espécie de nariz pequeno que as novelistas inglesas chamam “retroussée” (note-se o segundo “e”. tentativas. Por fim. tão etéreo. irrompia em flamas e. o de que sua esposa podia morrer. mas. Um dos garçons do hotel sabia falar sete línguas. talvez pudesse encontrar uma jovem condescendente e trazê-la para o seu quarto vazio. e Albinus passou três semanas sozinho. Levava-a a longos e lentos passeios. em tais ocasiões. difícil de desaparecer. Quando ficou grávida. Seu amor era do tipo lirial. que viviam procurando afastá-lo do caminho. o de que. afinal. em Elisabeth — e possuía um riso tão bem-humorado! Contraíram matrimônio em Munique. Era filha de conhecido diretor teatral — uma jovem esbelta. aquela irremediável sensação de perda que faz da beleza o que ela realmente é: uma árvore distante e solitária tendo por fundo um céu dourado. Albinus se iludia. esmaltado corredor. como se estivesse a contemplar aquele seu novo mundo interior. Uma cigarreira de grande estimação foi perdida num jardim esquecido. Será que a criança. fazia com que ela se recolhesse cedo e tinha todo o cuidado para que as saliências dos móveis e dos objetos domésticos não lhe causassem dano algum. seu andar. e assomava-lhe aos lábios um sorriso satisfeito e misterioso. uma coisa inteiramente impossível de se aprender. Era uma dessas almas dóceis. Era torturado por dois pensamentos sombrios. sem dúvida. embora amasse Elisabeth de certa maneira. e costumava devorar avidamente punhados de neve. Casou com ela porque isso simplesmente aconteceu. graças a Deus. haviam apenas passado por ele. gentis. o seu corpo intumescido. seus olhos adquiriram uma vaga expressão de contentamento. Certo dia. caiado. em tom sombrio: — Bem. mas. cada qual sombrio à sua maneira: um. Tomava muito conhaque. loira. ondulações de luz na curva interior de uma ponte. deixando-lhe. descuidado. no espelho do guarda-roupa. sonhava que havia deparado com uma jovem estendida sobre uma praia cálida e solitária e. que. de vez em quando. Descobriu em Elisabeth uma pequena e leve cicatriz — resultado de uma operação de apendicite. foi levada para uma maternidade. durante um ou dois dias. Albinus cuidou dela da melhor maneira possível. odiava a irremediável brancura do edifício e as farfalhantes e coradas enfermeiras do hospital. ao andar pela casa. de olhos pálidos. Havia algo tão gracioso. foram os principais responsáveis pela sua união. que se agarram aos outros. o outro.Equívocos. com suas toucas brancas e aladas. O Cupido que o servia era. que apanhava depressa quando ninguém estava olhando. apareceu o cirurgiãoassistente e disse-lhe. com aquela palmeira de pesadelo num vaso colocado junto ao topo da escada. Sua pele era tão delicada que o menor toque deixava sobre ela uma mancha cor de rosa. pensando que não tinha necessidade de qualquer outra companheira. mais o seu gordo irmão e uma prima extraordinariamente atlética. em seu sonho. Casou. Pela manhã. Uma viagem às montanhas em sua companhia. a fim de fugir ao assalto de seus muitos conhecidos berlinenses. Os castanheiros estavam em flor. tíbio e sem imaginação. canhestro. se tivesse um pouco mais de fibra. nasceria? Albinus andava de um lado para outro pelo longo. 5 . converteu-se num bamboleio cuidadoso.

Elisabeth tinha dado à luz. Mal havia penetrado na veludosa escuridão. e ele sabia que era insensato ficar a pensar no episódio. normalmente. Albinus permaneceu fiel. e comprou uma entrada. Enquanto se metia em seu lugar. Ela afastou-se e perdeu-se na escuridão — e Albinus. hesitou. a caminho de um café onde ia tratar de negócios. começou a falar. Certa noite (uma semana antes da conversa sobre Axel Rex). no outro extremo da cidade. pois que não vira o começo.. aquele desejo intenso que abria uma brecha ardente em sua vida. uma filha. era muito menos volúvel. não menos ágil e suavemente. percebeu. tampouco. Logo. Apenas uma satisfação tranqüila ante sua própria existência. Sua alegria. revelando o contorno esvaecente de um rosto que parecia pintado por um grande artista sobre um fundo rico e escuro. Nada havia em tudo aquilo de muito incomum: tais coisas lhe haviam acontecido antes. seu rosto se alisou e. ergueu a cabeça e tornou a ver-lhe o brilho límpido dos olhos. ao lado de uma horrível cortina roxa que acabara de puxar. tampouco se sentia disposto a ficar lá à espera. tornou a vê-la. aquele seu sonho. pela passagem em declive. A princípio. sempre o perturbava. com pernas a mover-se muito depressa). Sentia que amava sincera. com a dualidade de seus sentimentos a perturbá-lo bastante. Chegara no fim de um filme: uma jovem recuava. se sentiu enfadado e triste. ternamente a esposa — tanto quanto lhe era possível amar uma criatura humana. Ela lia todas as cartas que o marido escrevia ou recebia. enquanto caminhava atrás dela. com os fios telefônicos e as chaminés como que traçados a tinta nanquim.. Albinus viu o rosto inclinado da môça e. Bem no momento em que a luz caiu sobre o bilhete que tinha em sua mão. tendo por fundo o pôr do sol — e ele pensava que era realmente mais feliz do que merecia. gostava de inteirar-se dos pormenores de seus negócios — principalmente aqueles que diziam respeito a antigas e sombrias telas. quando Albinus se sentava em companhia dela no balcão situado bem acima das ruas azuis. e as 6 . ante a ameaça de um homem mascarado empunhando um revólver. a primeira vez que aquilo acontecia) e que dispunha ainda de uma hora inteira. Era absurdo. notou vagamente sua figura muito esguia e a invariável agilidade de seus movimentos tranqüilos. No intervalo. com uma leve nota de cômica surpresa por achar-se viva. deparando com um pequeno cinema. como esses riscos que aparecem em filmes muito antigos (um vivo e saltitante funeral em 1910.. em que a luz incidiu por acaso. discreta. depois de um ano. também. ela se achava de pé junto à porta de saída. Durante todos aqueles anos. Não havia interesse algum em acompanhar na tela acontecimentos que ele não podia compreender. que seu relógio estava maluco (e não era. salvo quanto ao que se referia aquele seu secreto e insensato anseio. e o feixe de uma lanterna elétrica deslisou em sua direção (como habitualmente acontece) e o guiou. no meio de móveis derrubados. Pôs-se a caminhar sem rumo.Diante dos olhos de Albinus surgiu uma chuva escura e fina. eis aí o seu teor: uma alegria mortal. a criança era vermelha e enrugada como um balão de borracha que está murchando. depois. e era inteiramente franco com ela em tudo. porém. Agora. com suas companheiras. certamente. Enveredou pelo quarto a dentro. cujas luzes lançavam sobre a neve um brilho escarlate. Sim. logo que as luzes se acenderam. uma dádiva gratuita que podia ser usada de alguma maneira. aos oito anos de idade. Faziam encantadoras viagens ao estrangeiro e passavam em casa muitas noites suaves e encantadoras. Lançou um olhar ao cartaz (um homem a olhar para uma janela em que havia uma criança em camisola de dormir). sentado: a presença de outros homens. entre cujas ranhuras se pode perceber a alva garupa de um cavalo ou um sorriso melancólico. pois que herdara a natureza reservada da mãe. era como a da mãe: uma alegria singular. voltar para casa.. de repente.

. no dia seguinte. reparar a sua grosseria. Depois de três dias. penosamente belo. de lado. quando a sala quase se esvaziou e novos espectadores começaram a meter-se desajeitadamente. sofrera tremendo choque devido à. enquanto ela olhava camisolas e outras coisas numa revista feminina. mas vou dar mais uma olhada”. Havia. Voltou uma terceira vez. Ao sair. — Será que você acaba de cair da lua? — perguntou ele. procurou ver-lhe os olhos. procurando logo. Um automóvel descia veloz por uma estrada de curvas arrepiantes. Gostaria de apertar-lhe a bela garganta. sentindo-se quase apavorado. Sentia-se ridiculamente nervoso quando tornou a entrar no cinema — novamente no meio de uma fita qualquer. cuja mão 7 . Depois. sentou-se ao lado da esposa no amplo sofá. durante a guerra. Mas agora era tarde demais. o belo movimento de seu braço de mangas pretas. não conseguiu mais ignorar a lembrança dela. Não tivesse lá ido aquela segunda vez. a noite era úmida. amuado. e a tinha reflexos carrnezins. diversas vezes. “Qualquer homem normal saberia o que fazer”. “Argus” — bom nome para um cinema. e. os olhos rasgados das figuras de Luini. com um ligeiro retinir de argolas de madeira. Calculou que ela devia ter uns dezoito anos. E deixou a cortina cair. e seu vestido preto lhe cingia estreitamente os braços e os seios. com os diabos! De que mais necessito? Aquela criatura a deslisar pela escuridão. se ele o tivesse conseguido! Mas tal como ocorreu. fora. Albinus pisou numa poça d’água cor de sangue. de si para consigo: “Sou feliz. Tudo ocorreu exatamente como na primeira vez: a lanterna deslisante. Depois. Seu pai era um porteiro que. infeliz. a neve estava se derretendo. a pequena Irina devorou seu creme de chocolate e Elisabeth fez suas perguntas habituais. seu coração batia tanto que perdeu a oportunidade. os olhos salientes fixos na tela. Ele fitou-lhe o rosto. e talvez pudesse esquecer aquele fantasma de aventura. Era um rosto pálido. mas ele virou o rosto para o outro lado. ao descerrar a cortina.. mas já uni tanto acabada — mulher rude e insensível. bem junto dele. era tomado de violenta ira. mas não o conseguiu. Tinha uma das mãos enfiada no bolso de seu curto avental bordado. Ela afastou a cortina. E. Durante outra meia hora ficou sentado no escuro. obtusamente. Pareceu-lhe que os lábios da jovem se contraíram um pouco. e ele não podia deixar de lembrar-se das muitas vezes em que a beleza — ou o que ele chamava beleza — havia passado por ele e se dissipado.pessoas que saíam começavam a passar por perto dela. Paul apareceu para o jantar. seja lá como for. encheu-a de pequenos beijos. pois que lhe doía olhá-la. firmemente decidido a sorrir-lhe. pensou Albinus. ante a mais leve provocação. “Oh. um fluxo incessante calçada de gente. Bem. com um risinho reprimido. e que desesperado e lúbrico olhar não seria aquele. ela passou de um lado para outro. e disse. entre penhascos e abismos. levantou-se e saiu. explosão de uma bomba: sua cabeça grisalha tinha incessantes movimentos convulsivos. pensou Albinus. por entre as filas de cadeiras.. Sua mãe era ainda jovem.” TRÊS Chamava-se Margot Peters. com todas as cores vivas do letreiro luminoso da rua correndo e se dissipando. ela está morta. discutiram o assunto Rex.. o caminhar ágil pela escuridão. como se vivesse numa constante afirmação de mágoa e dor. Depois do jantar. pois não voltarei mais lá.

de ficar à porta a conversar. com os andares superiores das casas ainda mergulhados numa luz amarela. Noutra ocasião. Um ano mais tarde já se havia tornado extraordinariamente bonita. e era louca por cinema. usando uma bola de borracha do tamanho de uma laranja. tornou-se uma menina viva e bastante jovial. com efeito. beliscando-lhe os braços nus. para que o pó. de cordões. Aos doze. Esse era o seu princípio diretor — bastante sólido. o dela. o ruído das portas das casas comerciais. o pai escarranchado sobre a cadeira. Otto. A Escada era o ídolo principal de sua existência — não como símbolo de gloriosa ascensão. Veidt. lembrava-se esse período de sua vida com uma sensação estranha e opressiva: os crepúsculos suaves. de modo que o seu pior pesadelo (após uma refeição demasiado generosa de batatas e sauerkraut) era aquele em que lhe aparecia um lance de alvos degraus com sinais negros de sapatos. Aos dez. participava com prazer dos ruidosos e violentos jogos de futebol que os colegiais realizavam no meio da rua. com as mãos nos quadris. por meio de um aspirador elétrico ligado de maneira engenhosa ao elevador — vestia suas melhores roupas e saía a fazer visitas. durante o trabalho. do outro lado. depois parava. Com apenas oito anos. contendo um pedaço de sabão de amêndoa com um fio de cabelo enrolado e meia dúzia de fotografias bastante curiosas. e assim por diante. a mãe. com a filha do carvoeiro. Um deles tinha olhos como os do artista de cinema. Certa vez. em geral. em voz baixa. um lenço amarrado à cabeça. uma noite. até o patamar superior. Braços nus. Uma pobre mulher. a criada. jogavam cartas sentados num balcão. na calçada.. onde declarava. a cabeça a oscilar. tranqüilos. lhe deu um beijo na nuca. onde suas orelhas eram puxadas com menos freqüência do que em casa. seguido de vigorosa surra. foi para a escola. que não devia ser objeto de irrisão. e todas as suas risadas e batidas eram audíveis. não lhe sujasse os cabelos. Era a época em que gostava.avermelhada era uma perfeita cornucópia de tabefes. Apenas dois homens calvos. Posteriormente. o irmão de Margot. o rapazinho ruivo que. Devido à sua insolência e à maneira áspera com que ordenava aos outros limpassem os pés no capacho. costumava ir de encontro a ela. tomava-se muito silenciosa. mais do que tudo. Trabalhava numa fábrica de bicicletas. teve uma crise histérica. o ramo de lilás a pender sobre a grade. mas como uma coisa que devia ser conservada admiràvelmente reluzente. aprendeu a andar na bicicleta do irmão. curto. depois da limpeza completa efetuada aos sábados — feita. pelo que recebeu um banho frio.. a fim de proteger o rosto. ao serem fechadas. Seu irmão voltava para casa com dois amigos corpulentos que a cercavam e se chocavam contra ela. cálidos. pontificava em política no botequim das vizinhanças. principalmente. Anoitecia. Depois. encontrou na escada uma bolsa ensebada. era três anos mais velho do que ela. Apesar de tudo. Frau von Brock voltando para casa com suas compras na sacola verde. mas. Marta. era um brusco erguer de cotovelo. fumar seu cachimbo. A rua. com um pé apoiado na guia da calçada. desprezava o manso republicanismo do pai. quando brincavam. depois à esquerda. esperando para atravessar a rua com o galgo e os dois terriers de pêlo duro. depois novamente à direita. tornou-se menos expansiva. as tranças negras a esvoaçar ao vento. não gozava de popularidade entre os inquilinos do prédio. dando murros na mesa: “A primeira coisa que um homem deve ter é a barriga cheia”. 8 . O movimento mais comum nos gatinhos é um pequeno e suave salto. Usava. usava um vestido vermelho. Menina. por outra parte.. pensativa. que se repete em série. subia e descia a rua em disparada. à noite.. trocando impressões acerca das mulheres que visitavam um dos inquilinos e dos chapéus das jovens que passavam. primeiro à direita.

ia em companhia da balconista ao salão de danças “Paraíso”. por favor. de vez em quando. Quanto ao seu irmão. O jovem deu de ombros. Tinha cabelos loiros penteados para trás e a camisa enfunada nas costas. Tal conversão parecia-lhe bastante fácil: lá estava o céu. arranjou a saia e. Era uma tarde ensolarada e um enxame de mosquitos revoluteava incessantemente sobre certo lugar. ao som e aos gemidos do jazz band. dizendo-lhe que. a apertá-la. os pés dobrados sob o corpo. que a vira partir na motocicleta. sentou--se atrás. porém. Primeiro Margot posou numa classe de escola para môças. mas. enquanto estes erguiam e baixavam os olhos em meio a um leve chiar e raspar de crayons. aprendeu a dançar e. sozinha numa poça de luz. deu uns solavancos. do tamanho de uma mão. que compravam as filhas dos pobres. seguira. No inverno seguinte. De modo que Margot passou a sonhar em converter-se cio modelo e. depois. beijando-a tão violentamente que o desconforto que ela sentiu se transformou em mal-estar. montado numa motocicleta vermelha (e que ela já havia visto uma ou duas vezes) parou subitamente e convidou-a para um passeio. dobrou para um lado e desapareceu. Por puro fastio. sentavase num pequeno tapete. ainda cheia do vento que recebera. também. Quase ao mesmo tempo. dos capitalistas. levantava o rosto. deteve-se. trabalhando em Breslau. quando ela estava para nascer. Estava tudo muito quieto: quietude de pinheiros e de urzes. lábios entreabertos e testa contraída. depois. Jamais conseguia. no ano anterior. Ele a conduziu para fora da cidade e. em termos ameaçadores. partiu. em estréia de cinema. um sujeito. num atelier verdadeiro. ao imaginar-se sentada daquela maneira. julgava que aquilo fosse 9 . pôs a motocicleta em funcionamento.Quando mal contava dezesseis anos. modificar-lhe a atenção — e isso a aborrecia. até a Espanha. um dos quais se erguia até o rosto ardente) ligeiramente inclinadas para a frente. sempre que ele. por homens. felizmente. Voltou para casa a pé. sendo que seus pais deram graças a Deus por se verem livres dela. as costas esguias (com um belo brilho a descer-lhe por entre os ombros. de proporções avantajadas e maneiras gentis. agarrou-lhe o pescoço e beijou-a com arte. exposta a tantos olhares. em que estava parada à esquina. numa atitude de pensativa lassidão — e ficava a observar de soslaio os estudantes. onde era desenhada não apenas por mulheres. Ele desceu e sentou-se a seu lado junto de uma valeta. tornou-se amiga da môça que era caixeira da papelaria da esquina. Os cabelos lisos cortados elegantemente. uma vez lá. que gostava de falar. onde senhores mais velhos lhe faziam propostas extremamente francas. passou-lhe o braço em torno da cintura e pôs-se a apalpá-la. ao sombrear esta ou aquela curva. viajava a uma velocidade espantosa. apoiada sobre o braço de veias azuladas. mais tarde. Depois. a gravata do companheiro a esvoaçar-lhe junto ao rosto. posando como modelo para pintores. sem mais nem menos. senhora de certa idade. Antes. a irmã da môça da papelaria apresentou-a a Frau Levandovsky. embora prejudicada por uma certa dificuldade no falar e urna grande mancha roxa na face. achava-se. Otto. Desvencilhou-se e começou a chorar: — Pode me beijar — soluçou — mas não assim. Margot mudouse para um pequeno quarto de empregada existente em seu apartamento. costumava escolher o rapaz mais bem parecido e lançar-lhe um olhar escuro e tímido. nua em pêlo. ausente por algum tempo. ficara muito assustada com um incêndio. A Irmã mais môça dessa jovem já ganhava uma quantia decente. fazendo-a cair e machucar-se de encontro à máquina de costura. momentos depois. quase todos bastante jovens. tanto mais que consideravam que todo trabalho era santificado pelo dinheiro que produzia. Ela sorriu. pronto para receber sua estrela. Certo dia. deixando-a sentada sobre um marco da estrada. Costumava explicar essa mancha dizendo que sua mãe.

durante todo o caminho que ia de Bremen a Berlim. Assim. “Não vou me arriscar de modo algum. Muito astutamente. a dar um toque de baton nos bicos dos seios. Suas faces pareciam encovadas. se não. pensarei no assunto com mais vagar”. Tenho apenas dezesseis anos. Puxou as macias e sedosas orelhas do animal até fazer com que as pontas se unissem sobre a delicada cabeça (dentro. que faziam pensar num lince. A princípio. não tenho? E de que vale isso? O que é que a gente ganha? Conheço esses tipos. o cavalheiro a quem Frau Levandovsky se referia não era senão um jovem e acanhado provinciano. com um baque. penso eu — disse Margot. isso não”. — Você é tola — volveu. Frau Levandovsky comprou alguns bolinhos e preparou bastante café. — Você não pode ficar sem namorado — declarou. bem barbeado. certamente. Estava ainda a cogitar de que modo saltaria diretamente do desbotado tapete do atelier àquele mundo cintilante. com efeito. Antes de mais nada. vamos passear — disse Margot ao cão. — Você é uma pequena muito cheia de vida. pela primeira vez. certa vez. calmamente. que. — Tola — repetiu Frau Levandovsky. como se coberta por leve camada de pó de arroz. Mas ficava apenas entorpecida. Seus cabelos negros e sem brilho. recomendou a Margot usasse o seu velho vestido vermelho. — Vamos. já fossem bastante escuros — e chegou mesmo. a quem um vistoso porteiro de hotel. jamais permaneciam um momento tranqüilos — o que não acontecia com a parte 10 . Margot tinha ao colo o gordo e amarelo basset de Frau Levandovsky. embora o parecessem extraordinàriamente. não deixou de pensar em você. Ora. pensou Margot. saltitante. e Miller (esse foi o nome que deu) apenas fez um sinal de aquiescência com a cabeça. as orelhas assemelhavam-se a mata-borrão cor de rosa escuro. e a pele era de um branco opaco. uma peruca. — Ele tem trinta anos. mas a um cavalheiro generoso que a viu na rua e. quando Frau Levandovsky lhe falou. complacentemente. respondeu: — Oh. é distinto. preparava o rosto para posar. usa gravata de seda e piteira de ouro. descuidadamente penteados para trás. de um jovem apaixonado vindo da província. embora sempre tivesse presente a visão de si mesma como magnífica estréia de cinema. bem como suas engraçadas narinas de três pontas. tinha ele uma cara impressionante. sempre a piscar. Ali pelas seis horas a campainha tocou. escurecia os cujos — embora estes. enquanto tomava o seu café. “Se eu o detestar. — Não me refiro a qualquer tratante. Recebeu. pelo corredor. para ficar sem um companheiro. Os olhos penetrantes. beijando a verruga que havia no focinho do cão. Frau Levandovsky. desde então. os dias passavam e Margot tinha apenas uma vaga idéia daquilo a que realmente aspirava. pintava a boca quente e seca. não eram. um tanto longos e de estranho e seco aspecto. no trem. Ele a conhecera através de dois joviais caixeiros-viajantes com quem jogara pôquer. — Algum velho decrépito. tendo ao colo um cachorro. Para distrair-se. a referida senhora. sem erguer a cabeça.um tanto divertido. debaixo de enorme guarda-chuva. por isso. um bom pito de Frau Levandovsky. e esse modesto jovem está à procura de algo puro nesta cidade corrompida. nada mais. saltou de seu colo ao chão. dir-lhe-ei logo. não foi questão muito fácil decidir o que fazer com Miller. seguindo. Infelizmente. não preciso disso ainda. No dia marcado. nada se falou a respeito de preços: a alcoviteira mostrara-lhe simplesmente um instantâneo em que se via uma jovem sorridente com o sol a bater-lhe nos olhos. muito em uso na época) e. ajudava a descer de esplêndido automóvel. tão protuberantes eram os ossos malares.

quando Margot. que preferia ficar em casa. com o corpo um tanto enviesado.inferior do rosto. que estava de pé no meio da sala. minha cara senhora. Com voz roufenha. e seus ombros. às vezes. contou. resolveu agir. 11 . aquela camisa muito azul com uma gravata viva da mesma cor. A senhora certamente o apreciará. readquirindo suas maneiras delicadas. oh. perguntou-lhe o nome. aquele terno azul com calças enormemente amplas. ao entardecer. com dois sulcos imóveis nos cantos da boca. como vingança. eu também o pagarei. esperançoso. com frieza. e que desejava receber o resto. tomou-a nos braços. que a seguia. Era absurdo pagar o alto preço que se lhe exigia. um dia. Era alto e esguio. com certa dignidade. sobre aspectos de Berlim. levava o cão a passeio. que. uma história divertida acerca de um seu amigo. acercou-se de Frau Levandovsky. Seu trajo tinha certo ar estrangeiro. de repente. já que estava a ponto de obter o que desejava sem auxílio da mulher. num trecho de Lohengrin.. evidentemente aborrecido. quando caminhava por entre os móveis guarnecidos de pelúcia de Frau Levandovsky. Depois. Ela lho disse. fá-lo-ei. — Apanhe depressa suas coisas e vamo-nos daqui — disse ele. à espera de que um outro passasse. apressava os passos. a segurar a cabeça com ambas as mãos. e agora lá estava ela sentada de braços bem cruzados. E desempenhá-lo-ei de maneira muito mais cabal e perfeita do que ela supõe”. calou-se. — Tome um pouco mais de café — sugeriu. saltitante. contou a Frau Levandovsky e a Margot mais três histórias engraçadas — as histórias mais divertidas que elas já tinham ouvido — tomou mais três xícaras de café e. acendeu um cigarro e. das sombras e punha-se a caminhar a seu lado. até que Miller. entregou-se a um acesso de riso perfeitamente infantil. desde então. um tanto chocada e infeliz. mas seu grande busto apenas arfou de leve. esquecendo-se do cão. Frau Levandovsky soube desses encontros secretos e. Miller surgia. que recebera adiantadamente apenas uma pequena quantia.. certa vez. de repente. Tome um táxi. Frau Levandovsky também riu. durante uns cinco segundos. Depois. ficando. não deixava um momento sequer o par a sós. “Bem — pensou Miller — se essa cadela velha quer que eu faça papel de apaixonado. e no outro. Mas. a senhora. em tom tranqüilo. não proferiu um único som. A pobre mulher foi apanhada tão de surpresa que. e no dia imediato. E voltou no dia seguinte. — Posso dizer-lhe uma palavra em particular? — perguntou Miller. Mais de uma semana se passou assim. passou ela própria a levar o cachorro a passeio. tirando um pedacinho de papel que lhe ficara colado aos lábios muito cheios e vermelhos (onde estava a piteira de ouro?) disse: — Uma idéia. com bom humor.. santo Deus!. voltando-se para Margot.. involuntariamente. Frau Levandovsky. Miller abocanhou a isca e tornou a sentar-se. empurrou-a para o quarto de banho e girou destramente a chave. enquanto Miller quase a devorava com os olhos. Frau Levandovsky agradeceu-lhe. a princípio.. que ela. quadrados. mas respondeu. súbito. Tinham estado conversando. levantando-se da cadeira. Margot mordeu os lábios e. do lado de fora. sorriu e. Isso a deixava tão nervosa. Margot o imaginara inteiramente diferente. voltando-se bruscamente para o outro lado e reiniciando a conversa com Frau Levandovsky.. — E eu sou o pequeno Axel — apresentou-se ele com urna espécie de risinho. estando embriagado. não conseguiu agarrar-se ao cisne. Eis aqui uma entrada para aquele concerto de Wagner. Certa noite. depois. depois. moviam-se esplendidamente. mas. e ele zombava delicadamente dela. cantor de opera. de repente.

com freqüência. de um lado para outro pelo quarto. tentou revistar-lhe os bolsos. e virou o rosto para a parede. habituara-se tanto a Margot que. jogava o chapéu a um canto (diga-se aqui. recebeu tal pancada nos nós dos dedos. arfante. mas. Depois. certa feita. começando a vestir-se. Miller fitou-a. nem se vire. Margot cedeu com prazer e empenho ao destino que havia muito a aguar. O beijo ficou a cantar-lhe no ouvido por longo tempo. dava. Mas.Levou-a para um pequeno apartamento que alugara na véspera. em seu pijama roxo. acabando de calçar os sapatos. Miller olhou-o e ambos trocaram cumprimentos. Na manhã seguinte. pois que o quarto estava muito quente. nem sabia quem ele realmente era. “Santo Deus. Ela não tinha a menor idéia acerca do que estava ele fazendo em Berlim. Ela não se mexeu. como se as estivesse lavando. quanto ao mais. esperando pudessem viver ara sempre juntos. — Agora pode voltar-se — disse Miller. Saltou para junto da janela. a cinemas e. Tudo isso durou exatamente um mês. no momento em que se dispunha a partir. Durante uns dois minutos. Mas levava-a a bons restaurantes. a um café. Depois ela o ouviu fazer a mala e fechar a maleta em que transportava as quinquilharias que trouxera para o apartamento. empurrou com os pés as cobertas para fora da cama. o ombro nu. penso eu — respondeu. pondo-se a andar. escancarou-a e estava prestes a lançar-se à rua. Sempre que Miller saía. beijou-lhe a orelha e saiu depressa. que pareceu a Margot. ela receava que jamais voltasse. pó de arroz — nada muito caro. Ele acercou-se dela. punha-a no colo e ria baixinho. Ele quase não falava. ele se levantou mais cedo que de costume e disse-lhe que precisava partir. descobrira que Miller tinha estado em Nova York) e decidia ficar. ao examinar o interior do chapéu. parou. pensou em voz alta. fez-se silêncio. depois. Ficou tão interessada pelo incêndio. que esqueceu sua intenção. afinal. de certo modo. ao ver um famoso artista de cinema sentado duas mesas além. onde. a esfregar as mãos. De vez em quando. 12 . — Não se mova — repetiu ele. E gostou enormemente de Miller. — Para sempre. Margot pensou que ele talvez estivesse gracejando. Decorridos alguns minutos. mal cruzou a porta. familiar. certa vez. um carro de bombeiros. nuvens de fumo saíam em grossos rolos pela janela superior e pedaços de papel carbonizados flutuavam ao vento. no toque de seus lábios carnudos. Que estaria ele fazendo? Contraiu. sem olhála. — Pena não ter um retrato seu — disse ele. não raro. Tampouco conseguiu descobrir o hotel em que se hospedava — e quando. a pensar em alguma coisa desconhecida. recebeu um telegrama de Bremen: “Apartamento pago até julho adeus doce diabrete”. quebrado apenas por um débil ruído áspero. recomendou: — Não se mova. Mas ela permaneceu imóvel. era extraordinàriamente feliz. Ficou deitada o dia todo. que ela. ele lhe dava algo — meias de seda. involuntariamente. depois. Havia algo muitíssimo satisfatório no contacto de suas mãos. ela ficou boquiaberta. Ele. Mas ele era por demais precavido. nesse momento. que achou seria melhor agir com mais cautela. o que fez com que ela ficasse ainda mais docemente atônita. Ela perguntou-lhe quanto tempo estaria ausente. e. vermelho e dourado. defronte à casa oposta. Miller não voltou. certa manhã. de passagem. Logo se juntou uma multidão. de sua parte. que farei sem ele?”.

Ainda se lembra de como nos divertimos no último verão? Ela riu e respondeu-lhe que ele se equivocara. agindo de modo tão bestial. ele deixou de comparecer a um encontro e. Ousadamente. Ela deu-lhe o número de seu telefone. Tratava-se de um homem já de certa idade. Os cavalheiros japoneses deram-lhe cento e cinqüenta marcos em moedas miúdas e mandaram-na embora. pôs-lhe a mão enrugada sobre o joelho sedoso e disse-lhe. Alugou um quarto mais barato. cheia de maus pressentimentos. Resolveu. Que farei? . disseram-lhe que o velho havia morrido. ela permitiu que o velho passasse a noite em sua companhia. concordou em passar a noite em companhia de ambos. pensou. sendo que. a senhorita seguiria o caminho de muitas outras e jamais se converteria no fantasma prateado e romântico que pretende ser. Margot começou por asseverar-lhe que já havia trabalhado antes no cinema. conseguiu manter-se até a primavera. entrava de vez em quando no quarto e mantinha com ela conversas edificantes. Ele a seguiu e.. mergulhando no sono logo que acabava de arquejar. Outro. voltou para o táxi e. no futuro agir com mais cautela. Margot sorriu e. viu o irmão sair correndo da casa. com um suspiro. jamais imaginei! — exclamou. com o dinheiro. a fumar infindáveis cigarros. exigiu duzentos marcos. o rosto excitado. à procura de algo que pudesse empenhar. Margot lançou um olhar em torno. sem proferir palavra. levou-a para casa. dirigiu-se a um salão de danças. pelo menos quanto ao que se refere a essa espécie especial de romance com que lidamos. o que desejava beber.. O homem continuou mudo. um dia. com uma venda negra sobre o olho direito e um olhar penetrante no olho esquerdo. anelante: — Alegra-me tornar a encontrá-la. — Em que filme? — indagou o gerente. Dois dias antes dessa transação. Vendeu o casaco de peles e. O inverno parecia mais frio do que costumavam ser os invernos. um velho gordo.Ficara com pouquíssimo dinheiro. Depois que ele lhe pagou o quarto até novembro e lhe deu ainda dinheiro para comprar um casaco de peles. Depois.. Era ele um cômodo companheiro de cama. que ela saltou do carro. disse a Margot que um seu primo possuía um pequeno cinema e estava indo muito bem de vida. sentiu ardente desejo de exibir-se aos pais em todo o seu esplendor — e passou por sua casa num táxi. ficava sentada à beira da cama. de um filme. Dora. sentindo-se mais encorajada. Certa noite. Bem. num bar. Sua senhoria. os pequenos pés descalços. com um nariz que parecia uma pêra madura. se o outro olho fosse visível) e disse: — A senhorita teve sorte de deparar comigo. afinal. quando ela ligou para o seu escritório. quase em lágrimas. agitando no ar o punho cerrado. fitando -lhe com ar benevolente. Como 13 . Dois cavalheiro japoneses a abordaram. através do vidro de trás.. Meio despida. em meio à crescente obscuridade... Na manhã seguinte. O velho perguntou-lhe. e como ela havia tomado mais coquetéis do que lhe convinha. procurou uma companhia cinematográfica de nome promissor e conseguiu uma entrevista com o gerente em seu escritório. Era sábado e sua mãe estava polindo a maçaneta da rua. talvez se sentisse tentado pela sua. Um dia. no interior do automóvel. ela citou o nome de uma companhia. Certa manhã muito fria e azul. — Oh. criatura simpática. Ao deparar com a filha ficou perplexa. pintou o rosto de maneira impressionante. em meu lugar. Em seu infortúnio. rogoulhe que tornasse a encontrá-lo. Este gritou-lhe algo.. como as donzelas abandonadas fazem nos filmes.. Depois fechou o olho esquerdo (teria sido uma piscadela. e que fora bastante bem sucedida. Só se fosse aquele crepúsculo.

precisou parar. a boa senhora foi buscar um pouco de conhaque e dois cálices. apoiada à parede. permitindo que ela o alcançasse. Mas. Jamais caminhara ao lado de uma mulher tão pequena. houve uma mudança de programa. Margot bateu com a luva na beira da mesa. aquele êxtase molhado e tamborilante. Mas. — O senhor está encharcado — disse ela com um sorriso. sentando-se à desconjuntada mesa. e isso a animou. encheu-os com a mão trêmula. começou a afastar-se. Decorridos três dias. e o que já vi da vida é coisa que não vale a pena ver-se. Amanhã procurarei meu primo e conversarei com ele a seu respeito.pode observar. pela fita. apenas desapareceu. que era a mesma — ela experimentou leve e agradável excitação. por essa razão. minha querida. E. o rosto transtornado pela cólera. de modo que receou andar mais depressa e perdê-la. esperando que ele a seguisse. Mas como era tímido aquele sujeito! Ao voltar. enquanto os automóveis passavam sem cessar. porém. Lá estava ele de novo parado no outro lado da rua. Sabia que ela vinha atrás. Estava muito bem vestido e seus olhos azuis fitaram-na com avidez. para casa. A conversa com o primo teve grande êxito e. lá. voltou. sentiuse terrivelmente entediada. Na sexta-feira. certamente. voltou para casa. mas com os cantos dos olhos voltados para trás como as orelhas de uma lebre. Depois. — Brindemos sua boa sorte — disse ela. Depois. ela aconchegou-se ainda mais a ele. alguma coisa afrouxou deliciosamente nele. mas teve receio. percebeu que ele se achava postado do outro lado da rua. pensou Margot. receou que seu coração estourasse. A senhoria fez-lhe dois ovos cozidos e deu-lhe umas palmadinhas no ombro. deteve-se. Albinus sentiu-se estúpido e indisposto. pensou Albinus. Ela o alcançou. Ficou no escuro. quando ele viu que ela se aproximava. Volte para casa. A senhorita jamais foi atriz e é bem provável que jamais o seja. ajustando desajeitadamente seus passos aos dela. embora fosse um tanto humilhante. não foi sequer admitida. como se ele houvesse se ajustado àquele seu êxtase. Passou-se outra semana. a ver um filme de Greta Garbo. Albinus tirou-lhe o guarda-chuva da mão. a princípio. Albinus agarrou-lhe o cotovelo magro e atravessaram a rua juntos. quando ele voltou pela quarta e quinta vez — não o fazendo. uma noite. bastante interessante. Margot saiu para a rua. se é que está em bons termos com eles. Duas ou três noites depois. mas. quando tornou de novo a aparecer no “Argus”. Margot gostou de sua nova ocupação. creio eu. por certo. também. de diminui o passo. que batia de encontro à seda esticada do guarda- 14 . arrolhou cuidadosamente a garrafa e levou-a embora. começar a sua carreira no cinema daquela maneira. “Sujeito de aspecto bastante decente. “Agora a coisa começou”. zangadamente. o que duvido. e ela calmamente passou por ele. já se sentia como se não tivesse feito outra coisa na vida senão conduzir a seus lugares criaturas que andavam às cegas. levantou-se e saiu. Cheia de ódio. mórbido. de repente. é mais velha do que a senhorita. mas. havia nele algo de abatido. fale com seus pais. já não sou mais jovem. embora pareça um tanto chato”.. enquanto Margot comia vorazmente. Outra companhia tinha seus escritórios no mesmo edifício. Durante um instante.. Em seguida. gostaria de dizer-lhe uma coisa. Ao chegar à esquina. Ela continuou lentamente o seu caminho. indo de encontro a ele. Um homem que saía retardou os passos junto à porta e olhou-a com expressão tímida e desanimada. pense bem no assunto. depois de algum tempo. Mas ele não o fez. Minha filha. — Tudo sairá bem. quase foi atropelada por um triciclo e recuou de um salto. abriu o guarda-chuva. Terminado o seu trabalho. minha cara menina.

chuva. Agora suas palavras fluíam livremente, enquanto ele desfrutava aquela nova sensação de alívio. A chuva cessou, mas continuaram ainda a caminhar debaixo do guarda-chuva. Quando se detiveram à porta da casa de Margot, ele fechou aquele objeto molhado, brilhante, belo, e devolveu-lho. — Não se vá ainda — rogou Albinus (mantendo a mão dentro do bolso e procurando, com o polegar, tirar a aliança). — Não se vá — repetiu (e a aliança saiu-lhe do dedo). — Está ficando tarde — respondeu ela. — Minha tia ficará zangada. Albinus agarrou-a pelos pulsos e, com a violência da timidez, tentou beijá-la; mas ela desviou a cabeça e seus lábios encontraram apenas o gorro de veludo. — Largue-me — murmurou ela, cabisbaixa. — O senhor sabe que não devia ter feito isso. — Mas não vá embora! — exclamou ele. — A senhorita é a única pessoa que possuo no mundo. — Não posso, não posso — respondeu Margot e, girando a chave na fechadura, empurrou a grande porta com seus frágeis ombros. — Estarei amanhã de novo à sua espera — disse Albinus. Ela sorriu-lhe através da vidraça; depois, afastou--se, a correr, pelo corredor escuro, em direção ao fundo do prédio. Albinus respirou profundamente, apanhou no bolso, às apalpadelas, o lenço, assoou o nariz e, cuidadosamente, abotoou e tornou a desabotoar o sobretudo. Depois, sentindo quão leve e nua estava a sua mão esquerda, apressou-se a enfiar o anel no dedo. A aliança estava ainda bastante quente. QUATRO Em sua casa, nada mudara, e isso lhe pareceu extraordinário. Elisabeth, Irma, Paul, pertenciam, por assim dizer, a um outro período, a um período límpido e tranqüilo como o fundo das telas dos primitivos italianos. Paul, após trabalhar o dia todo em seu escritório, gostava de passar uma noite sossegada na casa da irmã. Tinha profundo respeito por Albinus, não só pela sua cultura e bom gosto, como pelas belas coisas que o cercavam — como, por exemplo, o Gobelin verde-espinafre da sala de jantar, representando uma caçada na floresta. Ao abrir a porta de seu apartamento, Albinus teve uma sensação de frio na boca do estômago, ante o pensamento de que, dentro de um momento, iria ver a esposa: acaso não poderia ela ler-lhe no rosto toda a sua perfídia? Pois aquela caminhada na chuva era uma traição; tudo o que acontecera antes não passava de pensamentos e de sonhos. Será que, por algum infortunado acaso, suas ações não tinham sido observadas e comunicadas? E o perfume barato que ela usava, não o denunciaria? Ao penetrar no vestíbulo, arquitetou depressa, mentalmente, uma história que talvez pudesse valer-lhe: uma jovem artista, pobre e talentosa, que ele estava procurando ajudar. Mas nada mudara: nem a porta branca, no fim do corredor, atrás da qual sua filha estava dormindo, nem o enorme sobretudo de seu cunhado, dependurado do cabide (um cabide especial, revestido de seda vermelha) tão calmamente e respeitável como sempre. Entrou na sala de estar. Lá estavam eles... Elisabeth em seu vestido familiar e axadrezado, Paul a tirar baforadas de seu charuto, e uma senhora idosa amiga da família, viúva de um barão empobrecido pela inflação e que agora se dedicava a um pequeno negócio de tapeçarias e quadros... Não importava o que estavam a conversar: o

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ritmo da vida cotidiana era tão confortador, que ele se sentiu tomado de estranha alegria. Não tinha sido descoberto. Mais tarde, deitado ao lado da esposa na alcova conjugal tênuamente iluminada, tranqüilamente mobiliada, com uma parte do aparelho de aquecimento central (pintado de branco) a refletir-se, como sempre, no espelho, Albinus sentiu-se maravilhado diante de sua própria e dividida natureza: seu afeto por Elisabeth, que em nada diminuira, era perfeitamente seguro, mas, ao mesmo tempo, ardia em sua mente a idéia de que talvez amanhã, ao mais tardar.., sim, amanhã, seguramente... Mas a coisa não foi assim tão fácil. Em seu encontro seguinte, Margot conseguiu habilmente evitar maiores intimidades.., e não houve a menor oportunidade de que ele pudesse levá-la a um hotel. Ela pouco lhe disse a respeito de sua pessoa: apenas, que era órfã, filha de um pintor (coincidência curiosa, essa) e que vivia com a tia; que sua situação financeira era difícil, mas que desejava ardentemente renunciar ao seu emprego, bastante exaustivo. Albinus apresentou-se sob o nome apressadamente suposto de Schiffermiller, e Margot pensou, com amargura: “já um outro Miller”, mas disse, apenas: — Oh, você está mentindo, claro. Março estava chuvoso. Aquelas caminhadas noturnas, debaixo de um guardachuva, torturavam Albinus. Não tardou, pois, em sugerir fossem a um café. Escolheu um lugar modesto, onde, tinha certeza, não encontraria conhecido algum. Era seu hábito, quando se sentava a uma mesa, colocar sobre ela sua cigarreira e isqueiro. Na cigarreira, Margot espreitou-lhe as iniciais. Nada lhe disse, mas, passado um momento, pediu-lhe fosse buscar a lista telefônica. Enquanto ele se dirigia, com seu andar lento e desajeitado, para a cabine, ela apanhou o chapéu de sobre a cadeira e examinou-lhe ràpidamente a carneira: lá estava o seu nome (ele o mandara gravar a fim de evitar que, nas festas, artistas distraídos o levassem). Pouco depois, Albinus voltou com a lista telefônica, segurando-a como se fosse uma Bíblia, a sorrir ternamente e, enquanto ele lhe fitava os longos cílios, Margot percorreu a letra R e lá encontrou o endereço e o número do telefone de seu cortejador. — Tire o casaco — sussurrou ele. Sem se dar ao trabalho de levantar-se, ela começou a desembaraçar-se das mangas, inclinando o belo pescoço e arremessando para a frente primeiro o ombro direito e, depois, o esquerdo. Enquanto a ajudava a despir o casaco, Albinus sentiu um cheiro de violetas, ao mesmo tempo em que lhe via o movimento das omoplatas e a pele amarelada que, entre elas, se enrugou e tornou a distender-se. Depois ela tirou o chapéu, olhou-se num espelhinho de bolso e, umedecendo o indicador, ajeitou o cabelo nas têmporas. Albinus sentou-se a seu lado e ficou a fitar aquele rosto em que tudo era encantador: as faces ardentes, os lábios cintilantes devido a licor de cerejas, a solenidade infantil dos olhos amendoados e a pintinha situada logo abaixo da curva suave da maçã esquerda. “Mesmo que soubesse que me enforcariam por isso — pensou ele — não deixaria de fitá-la”. Até mesmo a gíria vulgar de Berlim, que ela usava, não fazia outra coisa senão realçar o encanto de sua voz rouca e de seus dentes grandes e brancos. Quando ria, ela semicerrava os olhos, e uma covinha dançava-lhe no rosto. Albinus deu-lhe uma palmadinha na mão, mas ela a retirou vivamente. Você está me deixando louco — disse ele. Margot, por sua vez, bateu-lhe de leve no punho da camisa e respondeu: — Ora, seja um bom rapaz!

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O primeiro pensamento de Albinus, na manhã- seguinte, foi: isto não pode continuar assim. Não pode, absolutamente. Tenho de arranjar-lhe um quarto. Maldita seja a tia! Ainda estaremos a sós, inteiramente a sós. Um compêndio de amor para principiantes. Oh, as coisas que lhe ensinarei! Tão jovem, tão pura, tão enlouquecedora... — Você está dormindo? — indagou, baixinho, Elisabeth. Ele conseguiu simular um bocejo perfeito e abriu os olhos. Elisabeth estava entada, em sua camisola azul-pálido, na beira da cama dupla, a examinar a correspondência. — Alguma notícia interessante? — perguntou Albinus, fitando-lhe com estúpido assombro o alvo ombro. — Ach pede-lhe novamente dinheiro. Diz que a mulher e a sogra estiveram doentes e que os outros estão conspirando contra ele. Afirma que não dispõe de meios para comprar tintas. Temos de tornar a ajudá-lo, creio eu. — Naturalmente — disse Albinus, enquanto em seu espírito se formava uma imagem extraordinária, vívida, do falecido pai de Margot: também ele deveria ter sido um artista rabugento, mal-humorado, pouco talentoso, a quem a vida tratara àsperamente. — Há aqui, ainda, um convite do Clube dos Artistas. Esta vez, precisamos ir. Há também uma carta dos Estados Unidos. — Leia-a em voz alta. — “Meu caro senhor: Receio não ter muito o que contar-lhe, mas, não obstante, há algumas coisas que desejaria acrescentar à última e extensa carta que lhe escrevi, a qual, entre parênteses, não foi ainda respondida. Como talvez esteja aí no outono...“ Nesse momento, o telefone tocou ao lado da cama. — Silêncio, silêncio — exclamou Elisabeth, inclinando-se para atender. Absorto, Albinus seguiu-lhe os movimentos dos dedos delicados, enquanto estes apanhavam o alvo fone e, em seguida, ouviu o débil fantasma de uma voz que grunhia do outro lado da linha. — Oh, bom dia — exclamou Elisabeth, ao mesmo tempo que fazia uma careta para o marido, sinal de que era a Baronesa quem falava, e falava muito. Ele estendeu a mão para apanhar a carta e lançou um olhar à data. Estranho não ter ainda respondido a carta anterior. Irma entrou para ver os pais, como fazia todas as manhãs. Sem nada dizer, beijou o pai e, depois, a mãe, que ouvia de olhos fechados o que a outra lhe contava, lançando de vez em quando uns sons de assentimento ou de falsa surpresa. — Veja se se porta hoje como uma boa menina — sussurrou Albinus à filha. Com um sorriso, Irma mostrou-lhe um punhado de bolinhas de vidro. Não era, de modo algum, bonita; as sardas cobriam-lhe a testa pálida e saliente, os duos eram demasiado claros e o nariz longo demais para o rosto. — Sem dúvida! Perfeitamente. — disse Elisabeth, lançando, ao desligar, um suspiro de alívio. Albinus preparou-se para continuar a leitura da carta. Elisabeth segurou a filha pelos pulsos e estava lhe contando, a rir, algo engraçado, dando-lhe ligeiro empurrão após cada sentença. Irma continuava a sorrir recatadamente, arrastando o sapato no chão. O telefone tornou a tocar. Essa vez foi Albinus quem o atendeu. — Bom dia, querido Albert — disse uma voz feminina. — Quem... — balbuciou Albinus, tendo, de repente, a sensação que se sente num elevador que desce demasiado depressa.

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— E. perdido as pontas. minha filha. Terei prazer em vê-lo. Que asno era ele! Devia ter refreado a língua. colocando com força o fone no gancho. — Que foi? — perguntou ela. o que quiser. ela o merece.. Não fique zangada comigo. não teria sido tão grosseiro ao telefone. tirou de trás de umas garrafas vazias um baralho decrépito. que tinha agido mal. Inteiramente absurdo! É a décima ligação errada em dois dias. Escreve-me ele dizendo que talvez venha até aqui no fim do ano.. incontinenti. Queria apenas dizer-lhe. Por isso é que esconde a aliança no bolso de sua capa de chuva. por favor. um idiota — respondeu Margot (resumindo-o com certa precisão). atarantado. um covarde. Quando Margot saiu do “Argus”. — Quem escreve? — Santo Deus! Você nunca percebe o que a gente está dizendo! Aquele homem dos Estados Unidos.. Está tudo terminado entre nós — respondeu ela suavemente. — Oh. Oh. — Deixe-me em paz.— Não foi muito amável de sua parte dar-me um nome falso — prosseguiu a voz. — Desculpe-me. desinteressada. uma festa. SEIS — Gostaria que a senhora me lesse a sorte — disse Margot à sua senhoria. 18 . ele a recebeu. cujas cartas haviam. — E se eu for casado? — indagou ele. você é casado. ao seu encalço.. alcançou-a e pôs-se a caminhar a seu lado. — Vá para o diabo! — gritou ela.. complicações. Não posso viver sem você. apresse-se! Não fique assim irrequieta. — Ligação errada — disse. pare — gemeu Albinus. com uma advertência: — Olhe aqui. Um homem rico de cabelos escuros. apavorado de que ela pudesse tornar a telefonar. Aquele tal Rex. alcançando-a. minha filha.. quase todas. É verdade. Deixe seu emprego. refleti melhor. ela talvez percebesse. claro.. seu próprio apartamento. ficando para trás. Esta. Eu a proíbo que me telefone. apressado. — Você não tornará a encontrar-me? — E isso que me importa? Pode enganá-la à vontade. — Mas eu o perdôo. uma longa viagem. não vá embora! — exclamou. com voz rouca. agarrando-se à sua velha bolsa. mas. Se não lhe dei meu nome é porque tinha razão para fazê-lo. aquela noite. Ele permaneceu de pé na calçada. — Margot. foi tempestuoso. — Que Rex? — perguntou Elisabeth. Albinus ficou o dia todo em casa. está bem. Isso não está certo. — Você é um mentiroso. batendo-lhe a porta na cara. então. CINCO O encontro entre ambos. Oh. além disso. deixe de zombar disso. Margot.. Lançou-se. ouça-me. — Por que ficou tão vermelho? — Absurdo! Irma. Albinus. com o olhar. a segui-la. afastando-se. — Margot. é casado. Tenho família. Do contrário. Sou rico. de modo que pareciam quase circulares. Você pode ter seu próprio quarto. Olhe aqui.

estarei sozinho em casa. apenas urna mulher que trabalha. digamos. Prometo-lhe que me comportarei — ajuntou. E.. ( Isto esta melhor. — Em primeiro lugar. . não torne a fazê-lo. Albinus falou-lhe quase num sussurro.. Amanhã. das janelas abertas e entreabertas. ficou loucamente feliz por ter sido perdoado. pensou Margot. Irei vê-la esta noite e... isso é muito perigoso. — Oh.. — Por que? — Gostaria de passar um momento por aí. — De qualquer modo. dois ou três aposentos e cozinha. — Diga-me uma coisa: a que horas sua esposa sai de casa? — indagou ela. por você ter-me telefonado. se não puder possuí-la”. rindo. — Vamos tomar um táxi. Não — gaguejou. “Talvez ele não seja rico como diz e. Elisabeth estava no banho. exatamente à mesma hora. A obscuridade. e que lhe pareceu muito branco. uma porta abriu-se. conte-me como foi que descobriu meu nome. no interior do táxi. mas não sei — respondeu Albinus. passavam por ela. Ele permaneceu mudo. . “Morrerei ou ficarei louco. fitando-lhe amorosamente o rosto infantil. engulhos. por exemplo. poderia dar-lhe um beijo. . com um calafrio. — Ouça — principiou ele. que Albinus lhe sentia o jubiloso calor animal. desesperadamente. disse-lhe que ela estava enganada. pensou que sua mulher bem poderia voltar. dizendo que uma sua conhecida os vira juntos na rua. à luz da lâmpada da rua. – — Sinto muito.. imploro-lhe. 19 . com a condição de que me permita que a veja de vez em quando. Mas peçolhe. por lembrar-se. os cotovelos apoiados na mesa. quando se acomodaram no veículo. de tanto medo. . — Quem é ela? — indagou Albinus. minha querida. entre quatro e seis horas. mas ninguém sabe o que pode acontecer. Acho que uma de suas irmãs esteve. tomou a telefonar-lhe. Algures. uma mulher que também o conhecia. à medida que as luzes das casas. então. — Não posso continuar a falar — murmurou. pensou. Ou será que devo arriscar?” Na manhã seguinte. minha preciosa. nesse caso. voltado para ele. — Não creio que seja possível. quero dizer-lhe que não estou zangado. empregada em sua casa. “Creio que sou um covarde”. — E.“Devo verificar onde ele mora”.. — Você compreende. nós. — Minha querida — murmurou. Em segundo lugar. os olhos fixos na porta. do que lhe sugeri esta manhã? — Mas é muito arriscado — gemeu Albinus. Margot estava sentada tão junto dele. — Não. Albinus esforçou-se. não sei. — Minha querida. pensou Margot). — Um táxi aberto — sugeriu Margot. — disse em voz alta — veja se aluga um apartamento. Sou urna garota esperta. refletia ele. aterrorizado. — Se eu fosse vê-lo. Desligou e ficou um momento imóvel. ao dizer isso. não vale a pena que me preocupe com ele. isto é. quando se encontraram. deslizava e oscilava. — Você já esqueceu. ouvindo as batidas do próprio coração. sem necessidade alguma. a fim de apanhar alguma coisa que houvesse esquecido. Embora sentisse.. Ela.. em terceiro lugar. — Hoje. certa vez. mentiu-lhe. Albert. “Ela certamente ficará no banheiro durante mais meia hora — Um pequeno pedido — disse ele a Margot..

que parecia impossível que aquela sensação pudesse ser intensificada. Ela cruzou os pés e ficou a oscilar ligeiramente o corpo. entre estes. circunvagou o olhar pelo vestíbulo. fosse levar dois livros a um endereço muito distante. girou nos calcanhares e. como se morasse atrás da esquina. o velho Lampert. ajeitando os cabelos com a mão. Margot. não obstante. a umidade ainda formava grotescos e negros esqueletos. mas o da sala de jantar estava certo e. quando Elisabeth e Irma tinham ido tomar chá. explicar. De repente. em sua pele sedosa. daquelas horas monótonas passadas no atelier. os pés encolhidos sob o corpo. de meados de abril. Agora estava a sós. Albert nada suspeitava. Ela vinha atravessando a rua sem casaco nem chapéu. as sombras da fumaça de uma chaminé corriam rápidas para o lado. a visão do beijo prometido enchia-o de tal êxtase. – — Você é. — Oh! Albinus passou-lhe uma mão trêmula pela cintura e olhou o candelabro de cristal. ao invés de papel. — E. Mas. além disso. as formas nuas: o médico da família. E. sem que disso tivesse consciência. Agora. Dez minutos para as cinco. aqui e acolá. com seus grandes e ricos quadros. O asfalto da rua secava. assim. de certo modo. “Ainda é tempo de sair correndo e dizer-lhe que já é muito tarde”. podia ver o relógio da igreja. como se estes tivessem sido pintados sobre toda a largura da rua. murmurou de si para consigo. ofegante. apoiada sobre um braço hirto. voltando para trás as páginas e detendo-se na figura de um aleijado barbudo. Mas viu-o através de uma névoa ondulante. os braços nus. ao ouvir-lhe os passos infantis na escada. ao vestíbulo e. fechando o álbum. além daquilo. Albinus dirigiu-se na ponta dos pés. ao invés de fazê-lo. — Por aqui? — indagou ela. ele fez com que Frieda. restava-lhe ainda alcançar a forma vaga e branca de seu corpo. ao entrar no cômodo contíguo. o ombro a tocar-lhe o rosto. “Esperarei até às cinco... foi uma pena que ele tenha deixado a arte — acrescentou. abrindo uma porta e lançando uma exclamação. — Não. por um estranho truque do destino. seu vaso de porcelana a um canto e suas paredes revestidas de um tecido cor de creme. no contacto de suas mãos engraçadas e mal tratadas. Na parede ensolarada da casa oposta. felizmente). que tapetes! 20 . no dia seguinte. Ela já estava vinte minutos atrasada. comentou: — Você vive aqui em grande estilo! Radiante. Ela talvez chegasse a qualquer momento. em seu vestido vermelho. sem fazer ruído. Quatro e quinze. após um aguaceiro recente. acho que prefiro o corcunda — dissera ele. o de uma jovem de cabelos curtos sentada sobre um tapete. Seu relógio parara havia alguns minutos. já lhe houvesse visto. rico — disse ela. — Sim. esticando o pescoço para fora da janela. embora. você sabe que não existe coisa alguma no mundo que não se possa. como se também ele fosse um estranho. abriu. a porta. Era um dia claro e ventoso.— Mas eu disse a você que o beijaria — volveu. viu-a. os olhos a percorrer a sala. depois. de fato. Quatro e meia. sentia-se tomado de um desejo quase penoso. havia-lhe mostrado alguns desenhos a carvão feitos pelo filho uns dois anos antes e. docemente. E. curto. depois sairei”. Margot. mas. através de uma perspectiva de espelhos. Sempre que pensava no talhe esbelto e infantil de Margot. sorriu para a sua imagem no espelho. — Santo Deus. aquela mesma forma que os estudantes de arte haviam desenhado tão mal e conscienciosamente. a criada (era dia de folga da cozinheira.

“Que situação absurda!” Sentia-se assustado. — Sua filhinha tem tudo aqui. os braços abertos. acima delas. Albinus agarrou-o e jogou-o a um canto. afastando-se. movendo os ombros. — Abra — repetiu mais alto. — Abra já! Está ouvindo? Os passos aproximaram-se. Então. Afogueado. e depois me suicidarei”. (Oh. passou por ele e saiu do quarto. seria simples: uma jovem artista necessitada de ajuda. — Basta. como aquela pobre e gorda mulher havia batido com os punhos na porta. apanhou uma escova de cabo de prata e cheirou um frasco com tampa do mesmo metal. abriu a porta contígua. Margot bateu a porta e. — Largue-me — disse ela. Será que ela se fora mesmo? Não. puxou a meia como uma menina. abra já a porta! — disse Albinus. pensou Albinus. um músculo cálido e macio. Depois. ele sentiu estranha vontade de gritar-lhe: “Por favor.. “Que megerazinha”. depois. através do corredor. Depois. não faça isso! — exclamou Albinus. — E aquilo ali. caminhando ao lado de uma colegial em seu vestido domingueiro. Experimentou alguma chaves que tinha no bolso. Margot desviou-se dele com um movimento ágil. Somente um quarto de criança. sentou-se diante do espelho (os espelhos estavam tendo grande trabalho aquele dia). afastou-o para o lado. não poderemos ouvir a porta da frente. atrasado. É tremendamente perigoso.. viu ele um cavalheiro pálido e grave. agora. — Alô! O que é que há? — indagou uma voz inesperada. perdendo a calma. Aproximou-se dela. Agoniava-o aquele desejo frustrado. Ela.. Lá.. fez a liga estalar e mostroulhe a ponta da língua. Ouviu-lhe os passos saltitantes.Ficou tão maravilhada diante do aparador. ao seu encalço. com um chilreio de júbilo. Não estava acostumado a pular pelos quartos. a voz de Paul! — Você está aí trancado? Quer que eu abra? 21 . vacilante. esperneado. animada. pensou. Silêncio. a rir. se sua esposa voltasse mais cedo do que ele esperava. Cautelosamente. tocou-lhe o braço suave. Mas ela já tinha nas mãos um elefante de pelúcia. de repente. Não há nada para se ver. gritado!) — Margot. Não era Margot. Ao passarem por um espelho. — É apenas um quarto de criança. com um gesto de criança desobediente e. Albinus lançou-se. — Vamos continuar — disse ela. em voz baixa.. Ele desejava voltar e fazer com que ela entrasse em seu escritório. porém. — Vamos — disse Margot. Margot — suplicou ele. perdendo subitamente a cabeça. na sala de jantar. arquejante. minha querida. Albinus respirou fundo. Já vimos tudo. que Albinus pôde apalpar-lhe furtivamente as costelas e. Margot riu. girou a chave do lado de fora. Mas Margot entrou no aposento e. — Ë um quarto de criança. mas Margot deu um salto e. ‘. não toque em nada!”. e o espelho ficou turvo. correu para a cama de casados e sentou-se nela. pôs-se a agitar a porta com violência. o que é? — indagou ela. entrou no quarto. — Oh. — Estamo-nos afastando demais do vestíbulo.. alguém andava pelo apartamento.

— Oh. Mas não diga nada a Elisabeth. que um súbito sentimento de horror se apoderou de Albinus: ali. havia uma coleção de miniaturas. meu velho? — repetiu... Foi só no fim de suas investigações. Creio que pensou que não havia ninguém em casa. Por puro milagre. quando atravessavam a biblioteca. a pajem e uma das amiguinhas de sua filha — uma criança gorda que. Um homem grandalhão. De aspecto bastante vigoroso.. — Que foi que aconteceu. Estava em meu escritório e ouvi ruídos na porta da frente. aquilo tudo parecia um pesadelo. E quanto à polícia? Você não gostaria que eu. — fez Albinus. pelo menos.. Foi uma pena ter escapado. (Mas fora estupidamente perigoso ter-se esquecido de que Paul também possuía uma chave do apartamento!) — Imagine o que me aconteceu — disse.. — Não tinha a menor idéia do que havia acontecido. eu o afugentei. Paul — disse Albinus. animando-se. enquanto sorvia o conhaque. Quem o fechou aí? Espero que sua empregada não tenha enlouquecido. Vamos ver. — Não estou. Examinaram fechaduras. boquiaberto diante da escova de cabelos que jazia no chão. Andaram pelos quartos. cheguei. entre as estantes. absolutamente. Felizmente. — Como você está abalado! — exclamou Paul. Ouvi. ocupava-se em servir o conhaque. aparecia a barra de um vestido intensamente vermelho. travar sempre o ferrolho. e deparei com um homem a entrar sorrateiramente no quarto. num canto. — Que aspecto tinha ele? — Oh. — Não há razão para que prossigamos. — Mas ele pode ter roubado alguma coisa. — Um ladrão me entrou pela casa. — Psiu.. embora estivesse a examinar tudo meticulosamente. E precisamos também comunicar à polícia. Paul parecia alarmado. às vezes. Segui-o e procurei agarrá-lo. — Meu pobre rapaz! Olhe aqui: você precisa mandar trocar a fechadura ou. Albinus. seguida de Irma. — Tudo se passou num segundo. cheguei mais cedo. A 22 . Julguei que você talvez o pudesse ter visto. podia ser. — Você me deu um grande susto — volveu Paul.. mas ele conseguiu despistar-me e fechou-me no quarto. estupefato. Já está bastante claro que ele não levou nada. pensou Albinus. — Você está gracejando — disse Paul. — Basta. Saí de meu escritório para ver que ruído era aquele. uma coisa ridícula. Elisabeth me disse que estaria em casa ali pelas seis horas.A porta abriu-se. Na sala contígua. quando voltaram ao escritório. — Você encontrou alguém na escada? — indagou. quase turbulenta. bem atrás de uma banca de livros giratória. Paul não o viu. Tudo estava em ordem. “Estou salvo”.. — Oh. e ele inclinou-se sobre o vidro em declive.. com voz rouca. de costas para o cunhado. — Ele poderia ter ferido você. Por sorte.. Tomemos primeiro alguma coisa. um ruído estranho na porta da frente. procurando falar com clareza. precisamos examinar a casa. Já lhe contarei. Saí para ver o que era e.. de repente. apesar de seu ar tímido e apático. ele não teve tempo! — exclamou Albinus. — Subi pelo elevador — respondeu Paul. Para Albinus.. Aproximaram-se vozes e Elisabeth entrou. apenas um homem de boné. Que experiência desagradável! Vamos.

O pesadelo tomou-se pavoroso. parecia uma espécie de criatura vaga e tranqüila.presença de Margot na casa era uma coisa monstruosa. permanecesse em seu lugar e não se pusesse a andar de um lado para outro. Elisabeth estava prestes a apagar a luz. transbordaria. Paul. sonolenta. convertendo-se na viva e doce sensação de liberdade absoluta. peculiar aos sonhos pecaminosos. Tudo corria esplendidamente. Mas o pedaço de tecido que vira pertencia a uma almofada de seda. de expressão sombria e férreo aperto de mão. a tossir de vez em quando. claro. e ele não se atrevia a ir fechar a porta do escritório. Mas evitaria pensar em Miller. Albinus. O silêncio parecia estar subindo. Tremialhe o corpo todo. pelo corredor.. — Margot. pensou Albinus. Paul esteve o tempo todo a olhar em tomo. sua esposa não era de modo algum o que ela imaginara: uma mulherona imponente. em suas faces encovadas e brancas. de quem a gente podia desembaraçar-se sem muito trabalho. “Dentro de um momento. em lugar de permanecer juntos. enquanto seguia pelo corredor. continuou. porém. pelo contrário. — Durma você — disse Albinus. Graças a Deus. Ela sorriu. que comprara poucos dias antes para servir-lhe de apoio. seguia. — Quando voltar. O apartamento de Albinus convencera-a da solidez da fortuna -de seu admirador. ali pelas onze horas. Paul retirou-se. mas Elisabeth respondeu que estava cansada. agora. rompendo numa gargalhada.. ela será minha”. com efeito. agitado. Tudo estava quieto demais para ser normal. Foram para a cama. E Albinus agradava-lhe bastante: era um cavalheiro que cheirava a talco e a bom tabaco. A tensão. a amiguinha de Irma foi logo embora. e Irma foi levada para a cama.... Albinus sugeriu fossem ao teatro aquela noite. Estranho: todo o pavor desaparecera. Depois.. indiferente àquela incoerência. a julgar pela fotografia que vira sobre o criado-mudo. Isso poderia causar complicações inimagináveis. tinha essa intenção.. Ele deslisara para fora da cama e. roastbeef com pickles). enquanto consultava a Histórja da Arte de Nonnenmacher — dez volumes in-folio. Mas havia ainda outra terrível possibilidade: as crianças poderiam começar a correr pelas salas. que não percebeu o que estava comendo (na verdade. Frieda trancou a porta. insuportável. Toda a casa estava em silêncio. Tinha a impressão de que todos eles — Elisabeth. esperar uma repetição do êxtase que lhe proporcionara o seu primeiro caso de amor. a fim de dar a Margot uma oportunidade de sair furtivamente — se é que ela. em suas longas e hábeis mãos.. bocejando nervosamente. Se ao menos o idiota intrometido. dentro de um momento. vermelha. Durante o jantar. sem fazer ruído. não conseguia parar de bocejar. desabotoou a gola do pijama. SETE Margot informou sua senhoria de que logo se mudaria. O pesadelo se dissipara. ele se manteve de ouvidos tão atentos a qualquer farfalhar suspeito. não poderia sair! — Estou morrendo de sono — disse Albinus à esposa. de pijama é chinelos de feltro. a pajem e ele próprio — se espalhavam por todo o apartamento. — Acho que vou ler um pouco. não me acorde — sussurrou-lhe.. em seus cabelos negros e revoltos. febril. A criada voltou com os livros: não encontrara o endereço (o que não era de espantar). subindo: de repente. Finalmente. Como sempre. 23 . como deviam. Abriu com cuidado a porta da biblioteca e acendeu o abat-jour de luz suave.. pensou. “sua” coisinha louca — sussurrou. Margot. Além disso. Ela não poderia.

cedera lugar. ao entrar na casa e dirigir-se ao elevador. Ele não era apenas rico. Mas havia mais. caíam torrentes de chuva. risos e música vindos da habitação do zelador. como sempre. tão confortadoras quando aplicadas a um lugar inflamado. tão condoído de si mesmo. onde o rádio. ao entrar na alcova conjugal. uma colegial trajada de vermelho. As saídas noturnas do marido — que. não. certo dia. algum personagem suspeito. fazia calor. o ladrão devia ter descido pelas escadas. rumo ao Zoológico. como fez com o seu chapéu preto e. pensou que a esposa talvez percebesse aquele halo. — Oh. querida. Tinha ouvido e lido que maridos e mulheres viviam constantemente a trair uns aos outros. — Quanto a mim. Mas jamais ocorrera a Elisabeth — à plácida Elisabeth de trinta e cinco anos — que seu marido pudesse enganá-la. ocultos sob um pórtico. pensava ele. foi apenas uma idéia — volveu ela. E parecia-lhe que representava e sorria tão bem quanto qualquer estréia de cinema. — Que tal se fizéssemos uma viagem? — sugeriu ela. Mas ela estava simples e firmemente convencida de que o seu próprio casamento constituía um laço muito especial. — Tirol? Roma? — Vá você. o adultério. permitiu que ele a beijasse. A irritabilidade e nervosismo de Albinus. atrás da porta fechada de seu próprio quarto. mas apenas uma penugem que lhe corria por toda a extensão do dorso. O fogo daquele beijo ainda o envolvia como uma auréola colorida. Ademais. quando voltou para casa. Era muito observador. que. segundo ele lhe explicava. constituía a essência das bisbilhotices. pertencia. para ver o elefante recém-nascido. segundo constataram. a quem. da poesia romântica. Então Paul não podia esquecer a coisa! Este. em tom casual. Sim. em companhia de Irma. Muitas vezes. logo a segui. que é que o levava a pensar numa coisa assim tão vil? 24 . misturadas a saraivadas que saltitavam nos parapeitos das janelas como minúsculas bolas de tênis. enquanto ele subia pelo elevador. naquele mês de maio. que jamais poderia romper-se. a esse mundo que permitia fácil acesso ao palco e à tela. quando menina. das históricas cômicas e de óperas famosas. ainda. encontrou um apartamento bastante simpático. precioso e puro. Albinus sentia-se ainda tão transtornado pela visita que Margot lhe fizera. notara. Sabia que ele tivera algumas pequenas aventuras antes do casamento. por exemplo. não tinha ainda presas. Após porfiada e exaustiva busca. durante seu passeio noturno. ou se encolhia diante do cano de um revólver imaginário. num bairro elegante. estivera secretamente apaixonada por um velho ator que costumava visitar-lhe o pai e animar o jantar com belas imitações dos ruídos que se ouvem junto a uma casa de fazenda. e lembrava-se de que ela própria. Mas. ela ensaiava toda a espécie de maravilhosas expressões fisionômicas. Com Paul.Albinus poderia acalmá-la e dissipar-lhe a febre — como essas folhas frescas e emolientes. Albinus não só deixara de notificar a polícia. com efeito. estava ligado. como ainda se mostrava molestado quando Paul voltava ao assunto. um gato que saltara à sua passagem e se encolhera entre as grades do jardim. depois. a questão era diferente. procurava lembrar se não tinha visto. Não conseguiu deixá-lo de lado no vestíbulo. se mostrava bastante incomum: em alguns momentos. que não fez a menor objeção em meter-lhe na bolsa um maço de notas. segurando a porta. tenho muito que fazer aqui. eram motivadas pelo interesse de alguns artistas naquela sua idéia de cinema — jamais lhe despertou a mínima suspeita. saindo. talvez. que. se quiser — respondeu Albinus. diante do espelho. O episódio da porta fechada deixara-o tomado de estranha inquietude. ela os atribuía ao tempo.

pois que. verdadeiro inferno para ambos. “Bem. pior ainda. pois. como se. no bolso do colete. Seus olhos claros. estava lhe dando o dinheiro em confiança. não lhe sabia sequer o endereço. certamente. contando. — redargüia uma voz feminina. o que tem isso? Ele é homem. ao sentar-se em companhia da irmã e do cunhado. — Mas então você não vê. estar enganando Elisabeth? “Não. durante um segundo apenas. sob os quais se viam as leves sardas. sem pó de arroz. Albert. Quando. Com um calafrio. que. não! Deve haver algum equívoco. “Impossível! Aquele quarto fechado é que me pôs no espírito estas coisas. E. Paul colocou o fone no gancho. mudo. era como se ela estivesse falando russo... vulgar e caprichosa. Elisabeth chegou de um chá-bridge. Paul chegou. pensou Albinus. quando ela lhe enfiou o punho no estômago. a linha se cruzou e ele ouviu certas palavras (o método clássico do destino: palavras ouvidas por acaso). OITO Entrementes. eram tão cândidos como tinham sido os de sua mãe. Elisabeth não estava em casa. sem ter visto hora alguma. decorridos alguns dias. Como poderia alguém trair Elisabeth?” Ela estava aninhada num canto do sofá. Mas este apenas brilhava. Margot alugara o apartamento e dedicava-se à compra de numerosos objetos domésticos. algum mal-entendido idiota”. brilhava pateticamente. agora. lenta e minuciosamente. Tão absorto estava Paul. As palavras que ouvi admitem. Na segundafeira. A idéia do jantar e da longa noite que viria a seguir pareceu a Albinus mais do que ele poderia suportar. À noite. Súbito. o enredo de uma peça que vira. que lia um livro. Ela lhe dissera que seria muito mais interessante. Ficou apenas ali sentado. convenceu-se de que Margot o enganara — que desaparecera para sempre. o pau de fósforo com que estava palitando os dentes. a esfregar o queixo. Paul sentou-se no escritório diante de Albinus. deve compreender”.. consultou o relógio e tornou a colocá-lo. que ele amava e respeitava. Tomou-a no colo e emitiu um grunhidozinho engraçado. além de não ter visto ainda o apartamento.A felicidade doméstica de sua irmã era uma coisa sagrada para ele. Tinha até mesmo emagrecido. lançando olhares furtivos a Albinus.. de espanto. para ele. como essas criaturas sensíveis que coram culposamente quando alguma outra pessoa comete alguma falta. Depois. desolado. ao abrir as páginas com uma espátula de marfim. Embora Albinus pagasse tudo generosamente. Irma entrou e a fisionomia de Paul iluminou-se. — Não me pergunte. Poderia aquele homem. ao ajeitar-se. Não lhe ocorria coisa alguma sobre que pudesse falar. Se souber. tivesse apanhado uma cobra. a fisionomia impassível. constrangido e nervoso. Albinus julgou que ela lhe telefonaria no sábado. Quase engoliu. Aquelas visitas eram. ligou para a casa de Albinus. ultimamente. Esteve o dia todo a montar guarda ao telefone. e mesmo com urna certa emoção agradável. cruzou as gordas pernas. a pigarrear de vez em quando. 25 . e seu nariz. começando por urna geladeira. Aquela noite. surpreendeu os olhos de Albinus a fitá-lo por sobre o livro. se ele não o visse enquanto o mesmo não estivesse completo. compre o que quiser — dizia Albinus. a cruzar e a descruzar as pernas. “Ele sabe de tudo”. a fumar e a olhar a ponta de seu charuto. alguma explicação inocente. Anunciou. Passou-se uma semana. inadvertidamente. repetia de si para consigo.

nervoso. porta à esquerda. cansado. Tinha apenas um desejo: encontrar Margot imediatamente. — Não — acrescentou com certa veemência — ela não tem tia alguma. “Está bêbeda”. por que não o dissera antes. — Que é que posso fazer? — perguntou Albinus. ao ocultar-lhe a existência daquele seu amigo rico e de seu novo endereço. sem tirar a corrente de segurança. — Ouça — indagou — será que não pode me dizer para onde ela foi? — Eu aluguei-lhe um quarto — disse a mulher. Sobre um pedaço de papel de embrulho. Começavam a acender-se as luzes. Sentia-se tão desesperado. “Já arranjou uma cozinheira”. E para lá se dirigiu. pensou. Eram sete e meia. satisfeito. mas aquele cavalheiro grande. de olhos azuis. Interrogou-a. sacudindo a cabeça. estaria prestando ou não um serviço a Margot (preferia não estar). Ela a ajudara tanto e.. e três garrafas vazias de cerveja. uma jovem empregada a preparar uma cama. pesarosa. circulares. O céu estava ainda inteiramente azul. não sabia bem se. — Desejo saber o novo endereço de Fräulein Peters. A esposa perguntou-lhe. que tanto lhe prometera. com o seu nome. com um suspiro. pensava ele. um saquinho de papel. e seu suave brilho alaranjado tinha um aspecto encantador. 26 . rasgado. onde todos os objetos se balançavam e retiniam ao menor movimento. com braços que pareciam postas de carne crua. foi anunciar sua chegada. — Oh. Albinus. abrindo a porta. achava-se fixada à porta do apartamento. e perguntou-lhe o que desejava. Sabia o endereço de seu antigo quarto — e que ela lá morava em companhia da tia. Uma mulher enorme. Com um sorriso misterioso. — Oh. Três altos choupos erguiam-se defronte ao grande edifício de tijolos onde ela agora morava. Quinto andar. ela o convidou a sentar-se. O destino. contendo sal.. com uma única nuvem cor de salmão à distância. na ingratidão de Margot. enquanto o táxi corria sobre o asfalto sussurrante. conduziu-o a uma pequena sala de visitas. acho que ela se mudou. que ela. com manchas marrons. subitamente interessada. parecia tão infeliz. Margot fora tristemente ingrata. com bons modos. e todo aquele instável equilíbrio entre luz e sombra fazia com que Albinus se sentisse estonteado. Feito isso. não tinha agora o direito de enganá-lo. segurando o travesseiro que estava afofando. — Noutros tempos. enquanto lhe abria a porta. estarei no paraíso”. — Entre — disse a cozinheira. através de uma janela aberta do rés-do-chão. à luz pálida do crepúsculo. pensando. “Dentro de um momento. eles também costumavam me procurar — murmurou ela. voltando. — Será que a senhora não pode fazer-me alguma sugestão? Sim. agora. viu. havia um prato com purê de batatas. que resolveu dar um passo bastante ousado. Ela morava aqui com a tia. entreabriu uma porta. Mas é melhor o senhor mesmo verificar.que não jantaria em casa. piscando um olho — era bem provável que não soubesse o seu endereço. pensou. Uma placa de metal. morava? — disse a mulher. com amargura. — Fräulein Peters? — repetiu a môça. Uma mulher desmazelada. a qualquer custo. olhos injetados de sangue. lhe deu a informação desejada. nova em folha. — Oh. embora não lhe tivesse dado muito trabalho farejar este último. ao dar àquele senhor o seu endereço. se costumavam!. Ao entrar. Albinus alisou os cabelos escassos e entrou. — Se eu fosse tia dela — disse.

com um suspiro. As janelas de seu apartamento. a culpa não foi minha. de pernas arqueadas. mandando o endereço — respondeu Margot... Espero apenas que você não me aperte muito entre os braços. Sobre o estômago. no canto superior do envelope.Margot estava deitada. antes que tivesse tempo de recebê-la.. — Enviei a você o endereço. sentado na beira do ass&ito. — Eu lhe escrevi. mesmo. de modo bastante claro. — No canto superior? De modo claro? — repetiu Albinus. — Você não parece nada surpresa de me ver — disse ele. — Você não escreveu! — Claro que escrevi. — Você é rápido — comentou. — Alguma carta para mim? — indagou Albinus. — A coisa foi um tanto divertida — prosseguiu Albinus. Agora. ele não chega antes das sete e quarenta e cinco. contraindo. estendendo-lhe frouxamente a mão. Vinte para as oito. a capa voltada para cima. perplexo. de repente. — exclamou ele.. rouco. que foi que você fez? Saí de casa cedo. o rosto. o corpo recurvo e imóvel. em voz baixa. principalmente porque você esteve zombando de mim.. os braços cruzados sob a cabeça.. a plenos pulmões. e a avezinha acha-se à sua espera. pagando a corrida como os homens fazem nos filmes — lançando uma moeda no ar. todas elas. — Por que foi lá? — indagou Margot. deliciado apenas com a visão daqueles lábios pintados que. — Acabo de entregá-las — respondeu o carteiro. saltou do carro. Mais ou menos isso. Mas não terminou a frase. num horroroso sofá coberto de chita. exatamente o que escrevi: “Querido Albert: O pequeno ninho está preparado. de quimono.. — um tanto divertida. Margot fechou bruscamente o livro e sentou-se no sofá... apanhou o livro e entregou -lho Na página de rosto havia uma fotografia de Greta Garbo. — Esperava que você a recebesse pelo correio da tarde e viesse logo ver-me. você é um homem difícil de se contentar. assim. Saiu correndo.. Junto à grade do jardim. meteu-se num táxi e. Albinus viu-se a pensar: “Estranho! Acontece um desastre e a gente ainda presta atenção a uma fotografia”. — Então não recebeu minha carta? — Que carta? — perguntou Albinus. viu a figura familiar do carteiro magro. Chegou.. — Escrevi-lhe uma carta esta manhã — respondeu ela. — Bem. tornando a deitar-se e fitando-o com curiosidade.. Uma nuca inútil. Com tremendo esforço. Na verdade. — Margot — sussurrou Albinus. estavam vivamente iluminadas. subitamente zangada. Posso dizer-lhe. conversando com o porteiro. tornando a erguer ambos os cotovelos. tinha um livro aberto. dentro de um momento. são. inclinado para a frente (ganhando. baixo e corpulento.. levando. como um lagarto.. entrou no prédio e 27 . sem fôlego. — Margot. Margot ali estava. desceu às pressas a escada. com um sorriso amável. — Você destruiu. pois poderá virar ainda mais a cabeça de sua garotinha”. algumas polegadas). — Imagine como foi que descobri seu endereço. a mão à boca e arregalando os olhos. O carteiro. sem atentar naquelas palavras. Era uma carta tão doce! Ela deu de ombros. quanto ao que se refere àquela sua tia. coisa nada comum. Albinus olhou para o alto. permaneceu com os olhos fixos na nuca do chofer.

pensou.. Assim. estava de novo na sala em que entrara.. Uma jovem artista necessitada. por um milagre.. as primeiras suspeitas já tinham sido despertadas. — Beije-me — disse ela. Se. ‘Tanto melhor. talvez. e o caminho mostrava-se. Ela agora tem o meu endereço. girou. e isso facilitava as coisas. apenas esta vez.. — Bem. Dez minutos depois. de repente. — Eu o consolarei. de um só golpe.. Era um hábito. assoou o nariz e tornou a sentar-se na poltrona. — Quando? A qualquer momento.pôs-se a subir as escadas. um prazer. Como é que você pôde fazer isso? Não consigo imaginar o que ela fará. Eu a receberei sozinha. — Não faça isso — disse Margot. Era tempo de agir. pouco antes. na mesma posição. inteiramente impossível... creio eu. por fim. Mas.. Margot! — exclamou. Antes de chegar à porta. Espreguiçou-se... quando ela vier aqui. sentou-se à beira do sofá e abanou a cabeça. você devia proibir que ela fizesse isso.. pondo-se a andar de um lado para outro pelo quarto. “Deixe-me explicar. você não compreende. — murmurou. agora. súbito. havia séculos. as escadas.. por entre as grades de ferro. desimpedido.“ Tolice. pigarreando várias vezes. — Oh. um lagarto letárgico. ágil.. Às vezes. o acaso a ajudara. mas recomeçou pouco depois. Meio amalucada. tão alegre. Levantou-se. Ele aproximou-se. e disse. pensou Margot... não tem? Albinus ainda não conseguia entender. Deixou o livro cair ao chão e sorriu. a ponta do sapato. então é isso o que você quer dizer.. procurando ajustá-lo ao desenho trêmulo do tapete. ao fitar-lhe o rosto contraído. eufórica... deprimido.. — Tarde demais. sentiu um agradável formigamento em seu corpo esguio. no hall. fechando os olhos. Qualquer outra coisa.. tem um ataque de nervos. As cartas já estavam jogadas. Ao enviar a carta. então”. Talvez ela estivesse ocupada com alguma coisa. —‘ Como você é tola.. Costumava escrever cartas de amor a estranhos. tarde demais! — gritou com voz estridente.. ao segundo... — Ela lê todas as minhas cartas — disse ele.. Margot. O livro estava ainda aberto na mesma página.... imaginara conseqüências muito mais triviais: ele recusa-se a mostrá-la. — Margot. Não! — Procure não aparecer. menos isso. Ele deixou de fazê-lo. — Oh. lembrando-se vagamente da megera bêbeda que ele vi ra. Margot achava-se ainda enrolada no sofá. Acredite: isso é uma coisa impossível. Chegou ao primeiro patamar. fitando através de uma névoa úmida. Depois. e tornou a descer.. desolado. sem levantar a cabeça. sentindo-se. tal como acontecera. NOVE 28 . — Quem? Quando? — perguntou Albinus. elas se extraviavam. antes que eu as lesse. Havia uma porção de cartas divertidas. Albinus sentou-se um pouco longe dela e pôs-se a estalar os dedos. olhando o teto: — Venha cá. a esposa fica furiosa.. correndo.. nos calcanhares. bate o pé. Sempre goste disso. Um gato atravessou o jardim e passou.

Em geral. quando subiu no elevador em que.. vestiu-se. àquela hora da manhã. Depois. Como em seus devaneios mais arrojados. como num rústico jardim. Poderia dizer-lhe que tentara. Estava convencido de que. Homens de bonés brancos limpando as ruas. que deixou sobre o criado-mudo. No vestíbulo.mente. à escuta. deixar as coisas como estavam. Todas essas coisas rodeavam Albinus. como se tivesse deixado de falar no meio de uma frase. adejavam. A nudez de Margot era tão natural como se ela estivesse há muito acostumada a correr pelas praias de seus sonhos. naquele novo e livre mundo. quando ele lhe beijara as costas lanugentas. a pajem deveria estar falando em voz alta com Irma. desaparecer? Lembrou-se. meneando os quadris pubescentes e roendo uma rosca seca que sobrara do jantar. a empregada fazendo barulho 29 . Isso seria bastante plausível. Mas. Que veria ele? Não seria melhor. borboletas brancas. ele poderia. não se banhara nem fizera a barba. tinha de abrir a porta. em alguma parte. sobre um telhado em declive. quando saiu da casa em que passara a noite. Quando viu a casa em que vivera tanto tempo com Elisabeth. era-lhe exasperante. deveria estar correndo água. entrar. Depois.. Albinus sentiu-se quase disposto a renunciar a qualquer repetição da noite anterior. abandonar tudo.. . dera-lhe a certeza de que conseguiria exatamente o que desejava — e o que ele desejava não era bem o calafrio da inocência. Nos jardins da frente os lilases da Pérsia estavam em flor. Adormeceu quase que instantaneamente. compreendeu que estava prestes a começar a prestação de contas. apanhou. Manhã de maio. escreveu. quando parou diante da porta em que seu nome professoral brilhava tranqüilizadoramente. de repente. explicar sua ausência. Aquela tinha sido a noite com que sonhara havia anos. fumar ópio no apartamento de um artista japonês com quem jantara certa vez. por brincadeira. que dormia docemente. Batendo os dentes. estendeu um edredom sobre Margot. já. de como. quando deixava o abrigo. Um furgão elétrico de distribuição de leite. Sentia ele vago desconforto. durante a guerra.. acaso.. Havia algo deliciosamente acrobático em sua maneira de portar-se na cama. A própria maneira pela qual Margot unira as omoplatas. examinou o escorregadio sabonete cor de rosa e pensou que deveria dar umas instruções a Margot quanto a normas de limpeza. o apartamento estava cheio de ruídos. Tinha fome. enquanto caminhava sob o sol suave. não entrar. O sol a cintilar na janela de um sótão. Som algum. mas só conseguiu tirar da torneira algumas gotas de água cor de ferrugem. muito pálida e feliz.. beijou-lhe os cabelos cálidos e revoltos. Albinus dirigiu-se ao banheiro. o contacto da camisa da véspera. apanhava os sons e os transportava como algo frágil e precioso. obrigara a si mesmo a não se encolher demais. O próprio ar fresco e novo não estava ainda habituado ao ruído do tráfico distante: delicada. tudo era permitido.Zona oeste de Berlim. agora. ronronando como uma gata. e saiu na ponta dos pés. era menos conhecido.. Estava completamente exausto.. com dois dedos. ver. de algum modo. se Elisabeth não houvesse lido a carta. Apesar da frescura daquela primeira hora matinal. quando a luz elétrica já esmaecia num matiz de cela mortuária e a janela adquiria um tom fantasmagoricamente azul. deslisando cremosamente sobre pneumáticos macios. a lápis. de telhas verdes. ficou imóvel. Quem são esses que deixam as botas de borracha junto à sarjeta? Pardais agitandose em meio da hera. oito anos antes. um amor puritano. . Suspirou. havia subido a pajem com a criança nos braços e Elisabeth. um pedaço de sabonete no fundo da banheira. se acontecesse algum milagre. sobre a pele. deslisava para fora da cama e punha-se a pavonear-se pelo quarto. do que ursos brancos em Honolulu. e isso não era de espantar. um bilhete. cheio de reservas pudicas. Agora.

surpresa. vagamente.. Uma das gavetas da cômoda estava aberta. você é um patife. seu plebeu!. afinal.na sala de jantar. Você fez. como se tivessem de apanhar um trem. lá estava ela. A conta do dentista. Fitou-o. — Vim buscar algumas coisas — disse.. com os Dreyers. Paul. Gesto delicado. Paul apareceu. — “Seu” cafajeste! Acabo de vê-la. passando a língua pelos lábios. — É monstruoso! — gritou Paul. — Deixe-me dizer-lhe uma coisa — exclamou. Má ortografia. o cunhado... Albinus seguiu-o. Procurou encontrar algum consolo nisso.. má ortografia. o deles. Ah. um perfeito patife. — Eu lhe darei uma lição. Uma ponta do tapete estava virada. Paul entrou e ficou junto da janela.. num tom que não lhe era habitual. Depois. é. Albinus viu que ele se barbeara desajeitadamente. ao passar. No quarto de Fräulein. — Não esqueça de levar a sombrinha — disse Albinus. As camisolas de Elisabeth jaziam sobre a cama. Albinus desdobrou-a e dirigiu-se em silêncio para a biblioteca. Ela contou-lhe tudo. — Você mente! — trovejou Paul. — Para onde? — indagou Albinus. tornou a segui-los e a arrumação da mala se repetiu no quarto dos brinquedos. Nenhum ruído! No canto.. fitando. vinda do corredor. — Você não está sendo um tanto rude? — disse Albinus. — Isto é uma tragédia — disse Albinus. Mas Albinus. — Lembre-se de Frieda — murmurou Albinus. A desordem do quarto dizia tudo. — Onde foi que você a encontrou? Como foi que essa prostituta se atreveu a escrever-lhe? — Calma. num gemido. apenas uma palavra — murmurou Albinus e. calma — recomendou Albinus. Falava depressa e em voz alta. afastou-lhe a mão com um tapa. enquanto se encontrava ali de pé. entrou na biblioteca. Um convite para almoço.. E explodiu de uma vez. aquela caligrafia infantil. Esplêndido. de Rex. Eu sabia que você estava mentindo.. Você é. As cruzes de esparadrapo. olhando através da janela. e ficou a olhar. Frieda apareceu. subiam e desciam: — Ela está como morta. ao tomar-lhe o chapéu e a bengala. e disse-lhe. Na verdade.. que deveria estar num reformatório. sem avental. com um sorriso de asco. 30 . Súbito. Alguns esparadrapos pretos em cruz no rosto médio. Havia algumas cartas sobre a mesa.. Uma pequena meretriz. — Você é capaz de me responder uma coisa? — disse Paul. a sombrinha de Elisabeth.. — Será uma grande sorte se Elisabeth sobreviver a este choque. por assim dizer. em seu rosto. Ela. Uma carta. O retratinho de sua falecida sogra havia desaparecido da mesa. Paul. pela primeira vez. uma valise já estava pronta. Levaram também isso. — Recuso-me a ser interrogado — sussurrou. sem fitá-la. miserável: — Oh.. — Gostaria de tomar café? — perguntou ela. algumas moedas a tilintar no bolso da calça. procurando agarrarlhe a lapela do paletó. meu senhor! Foram todos embora ontem à noite. breve.. enquanto o cunhado e Frieda faziam apressadamente a mala.. juro que darei! — gritou. batendo com uma cadeira no chão. Duas horas mais tarde. Será que você não pode imaginar que houve um horrível mal-entendido? Suponhamos. procurando sorrir. Depois rompeu em lágrimas. — Paul. pigarreando. ainda mais alto. — Ela pode ouvir tudo. em silêncio.. Como pôde fazer tal coisa? Isso não é um simples vício. — Tudo isto é extremamente penoso..

— Basta — interrompeu Albinus. para ela. mas sua carta não tinha indicação alguma de que estava disposto a renunciar à amante. assegurou à esposa.. Saiu da biblioteca. devia apagar da memória a imagem de sua família e abandonar-se inteiramente à paixão violenta. ela concordou. comprando discos. poderia ocupar o quarto que pertencera à pajem. infeliz. — De qualquer modo. Devia ter sido terrível ouvi-la. gritava. para a Itália. de sua parte. No dia seguinte. que estava à procura de seu cunhado. O visitante dissera-lhe vários nomes ofensivos. se alguém telefonasse. e madame gritava. num tom inesperadamente calmo e melancólico. soluçando e murmurando coisas para si próprio. quase mórbida. na verdade. Ela é ainda minha esposa e eu a amo. “que destruiu a felicidade de nossa família como a faca de um louco que golpeia um quadro”..“ Estranho. pois Elisabeth jamais levantara a voz em toda a sua vida. parecia uma cigana. E. tudo era silêncio. fora importunada por um cavalheiro gordo e irado. continuou escrevendo. mas estou. ela saiu para comprar um gramofone. Foi horrível a descrição de Frieda: “. enquanto Margot estava ausente. se ela morrer por minha causa. Albinus fez sua mala e dirigiu-se. há uma porção de coisas que precisamos conversar. ela deveria dizer que Albinus partira com a família. Não fora nada fácil convencer Frieda de que devia ficar no apartamento vazio. lançando um olhar à mala de Albinus. que o alegre encanto de Margot lhe despertava. Depois do chá. Albert! — disse Paul. Aquela manhã. num estilo demasiado florido. que ele a adorava como antes. Não recebeu resposta. após o que se pôs a gritar. mulher particularmente robusta. com toda a sinceridade. naquela odiosa sala de estar. Os cabelos escuros caídos sobre a testa. Afinal. Depois. Compreendeu. um digno sargento de polícia. caminhando de um lado para outro pelo quarto em seu peignoir de seda vermelha. graças a Deus.. a tirar longas baforadas de um cigarro.. pusera-o para fora. Nela. que. quando ele propôs que o seu companheiro.. Inteiramente exausto e com uma dor de cabeça de rachar. as vidraças da janela retiniram ligeiramente. para o apartamento de Margot. se não quisesse continuar a atormentar-se. pensou. Frieda soluçava no vestíbulo. Lacrimoso. — Na verdade. DEZ Aquela tarde. — Oh. Ela. de táxi.. estava sempre pronta a corresponder aos seus carinhos. bastante calmo”. Passou pela rua um caminhão. atento aos ruídos. “O desmaio de Elisabeth durou vinte minutos. todo aqu&le tumulto. talvez. inesperadamente. Margot recebeu-o com frieza.. então. — Oh. Não tenho intenção alguma de ouvir insultos de seus parentes idiotas — ajuntou. Albinus deitou-se no sofá. “Algo inenarràvelmente terrível aconteceu. mas estou inteiramente calmo. A cozinheira. embora. com voz quase inaudível. por favor — murmurou ele. Pedia perdão à esposa. claro. mas darei um tiro na cabeça. era um 31 . Alguém apanhou a bagagem. — Quem poderia pensar. com receio de que Margot pudesse chegar. a mão direita enfiada sob a axila esquerda.. Gostaria de saber como foi que explicaram a Irma a mudança para o apartamento de Paul e toda aquela pressa. Por que um gramofone? E justamente num dia daqueles. este apartamento só tem espaço para uma pessoa — disse ela. Albinus escreveu uma longa carta. Aquilo. ape1 daquela pequena escapada.

somente durante a manhã.. de sua mãe. de seus trabalhos. que não precisava ter pressa. da fria lama das trincheiras. Surpreendia-o a falta de curiosidade de Margot: ela jamais lhe fazia perguntas acerca de sua vida passada.. e ela perguntou-lhe por que razão. lugares onde tocassem músicas negras. os quais convertiam em pó o verniz antigo. falando-lhe de sua infância. Tenho toda a espécie de planos. o seu trigo e o seu milho. a pé. Este. Circunvagava o olhar pela sala e espantava-se de que ele.. — Espere apenas que eu me refaça. Margot começou a entediar-se. enquanto os seus dois amigos.. estavam sempre limpas. de quem se lembrava apenas vagamente. suas unhas. que ele perdeu os últimos vestígios daquela timidez que sua pudica e delicada esposa exigia de seus abraços. — Na verdade. que ela jamais poderia ter filhos — e ela encarava aquilo como uma dádiva. em sua aventurosa caçada a meias de seda e roupas íntimas. claro. quase nunca saía de casa. Falou-lhe da paixão que sentira. Albinus ensinou-lhe a banhar-se diàriamente. que permitia que Margot saísse. alguém a agarrou pelo braço. com a ajuda de um pedaço de flanela umedecida com terebintina. onde um de seus hóspedes contava uma história obscena. tudo — disse-lhe Albinus. dois anos antes. uma bênção. contou-lhe de que modo uma tela podia ser restaurada por meio de alho e resina esmagados. mostrava-se jovial e despreocupada. restaurantes de luxo. porém. vermelhas e polidas. que sempre se orgulhara de não suportar coisa alguma que revelasse mau gosto. não conseguira ser transferido para algum lugar na retaguarda. em julho. acariciando-a. quando voltava. procurava fazer com que ela se interessasse pelo seu passado. condescendente. sendo ele rico. — Você terá tudo. Era com relutância e. acima do cotovelo. Tudo. e de seu pai. era embelezado pela sua paixão... ter-lhe-iam parecido grosseiras e vulgares. mas sabia. Queria ir a cinemas. As linhas infantis de seu corpo. não lhe parece. Ela voltou-se. Agora. desde cedo. Receoso de encontrar pessoas conhecidas. suas descobertas. seu despudor e o obscurecimento gradual de seus olhos (como se fossem se extinguindo lentamente. Às vezes. do cabeleireiro. sorriu-lhe de um modo desagradável. querida? Ela. pequenas coisas comoventes que. Sabia que tudo aquilo era apenas temporário: a lembrança do apartamento luxuoso de Albinus ficara-lhe gravada no espírito. vigoroso senhor rural. tanto dos pés como das mãos. Mas ele já a havia esquecido. Era o seu irmão Otto. e que morrera de modo inteiramente súbito — de um acesso de riso viril. como as luzes de um teatro) despertavam-lhe tal frenesi. à noite. — Como você é divertida. concordava. parados à pouca distância. Ele vivia a descobrir nela novos encantos. Certo dia. ao invés de lavar apenas as mãos e o pescoço. e já se aproximava de sua casa. 32 . num salão de bilhar. também sorriam. Falou-lhe a respeito da guerra. fazendo-se surgir toda a beleza original do quadro. instalamo-nos muito bem. interessava-se mais pelo valor comercial da tela. refletia ele. — Como era a história? Conte-me — pediu Margot. o médico dissera-lhe.refrigério. pudesse agüentar aquele aposento horroroso. se podia avivar as cores esfumaçadas ou grosseiras dos retoques. como até então fizera. que muito amava os seus cães e os seus cavalos. Iremos logo para alguma praia. Margot. pela pintura. em qualquer outra jovem. e como. querida! — exclamava Albinus.

Albinus poderia sair. Kurt tinha uma âncora tatuada no antebraço e um dragão no peito. Margot sentiu tal repugnância. — Não — gritou ela. Tinham-lhe ensinado a nadar e. com resmungos ameaçadores. Mas é melhor que caminhemos até um pouco mais longe. a -empurraram em direção da porta. Otto e aqueles dois rapazes queimados de sol. sob a água. e a berrar: “A água está gelada. abriu-a e encontrou em seu interior uma caixinha de pó de arroz. — Largue-me — sussurrou Margot. macia. ele indicou o outro lado da rua: — Vamos até àquele bar. a primeira coisa que fazia. Logo que ela se deitava. chaves. caminhando com ar malandro. que voltou o rosto para outro lado. como fazia quando criança. E o musculoso e loiro Kaspar. Pelo contrário. uma jovem senhora. — Olhe aqui — disse-lhe Otto. agarravam-lhe as coxas nuas. do tempo em que todos eles costumavam sair juntos e entregar-se a pândegas suburbanas — ela. as eleições que se aproximavam. fitando com aversão o boné ensebado do irmão e o cigarro que ele trazia atrás da orelha. quando saía da água. Na verdade. Ela lançou um leve “ai!”. Sei onde você mora.— Prazer em vê-la. neste canto — disse Otto. Estendiam-se na margem do lago e atiravam uns contra os outros punhados de areia pegajosa. Ambos observavam Margot com desdenhosa hostilidade. depois ela se deitava e eles a cobriam de areia. como se estivesse tremendo de frio. procurando afrouxar-lhe os dedos. Lembrou-se do jogo de bola a que se entregavam. Sentaram-se. Otto arrancou-lha da mão. 33 . por acaso. Um transeunte parou. olhando-os de soslaio. Seria um aborrecimento. era pentear o cabelo para trás e colocar cuidadosamente o boné na cabeça. em altos brados. aquele grupo alegre e ruidoso. deixando-lhe apenas o rosto de fora e pondo-lhe em cima uma cruz feita de seixos. Otto fê-la dobrar a esquina. Otto pôs ambas as mãos nos quadris. — Largue-me — disse Margot calmamente. Seu apartamento ficava muito perto. os amigos fizeram o mesmo. Kaspar e Kurt. — Que é que você quer? — perguntou ela. depois que quatro cervejas claras apareceram sobre a mesa em copos de bordas douradas. examinando-a de alto a baixo: — Excelente o seu aspecto! Parece. No bar. Com um gesto de cabeça. Depois. prevendo uma cena.. Quão divertido era tudo aquilo. — Vamos sentar aqui. — A coisa é muito diferente do que você pensa. Margot lembrou-se vividamente.. Margot fez meia volta e pôs-se a andar. s outros dois. Todos três romperam em gargalhadas. a agitar os braços. gelada!” Quando estava nadando. Tomou um gole de cerveja. davam-lhe palmadas no calção de banho molhado. — Você não sabe o que está dizendo — respondeu ela com sobranceria. baixando os cílios. um lencinho e três marcos e cinqüenta. Cedeu à pressão do irmão. deve pensar em nós. não há dúvida. na beira do lago. estamos noivos. Mas os outros dois se aproximaram e. à janela. uns poucos homens discutiam. — Você não precisa envergonhar-se de sua gente apenas porque arranjou um amigo rico. Mas Otto tornou a agarrar-lhe o braço. Este é o terceiro dia que a venho observando. magoando-a. mana. com uma espécie de espanto. dos quais se apoderou. Não foi muito amável de sua parte esquecer a sua gente. pondo-se a mexer no fecho da bolsa. mantinha a boca sob a água e gritava como uma foca. os seguiram. — Olhe aqui. Ela começou a sentir-se amedrontada.

“Bem. fingindo espanto. Tive uma infância dura. em voz alta. Em primeiro lugar. — Não.. Otto. — O que? Então não gosta de estar sentada em companhia de seu irmão e seus amigos? — perguntou Otto. bastante calmo: — O que que há. Você precisa saber tudo. mas dinheiro que você tirou de alguém que o surrupiou das classes trabalhadoras. Mas. para a família. com vivacidade. qualquer dia destes. pois não podia suportar a idéia de ser apenas sua amante. embora eu o 34 . — Agora você me abandonará — gemeu Margot. Depois tive um caso amoroso. Margot também tomou alguns goles. Uma velha terrível me explorou. tornou a perguntar... Ele era casado. pensou Albinus. Dominou-se e prosseguiu. Apertou a mão de todos e saiu. Minha mãe limpa escadas e meu irmão é um operário comum. ela cambaleou e fingiu que desmaiava. não é verdade? Mas Margot já se havia levantado e esvaziava o seu copo. de modo que o abandonei. e ela se sentiu de novo amedrontada. ameaçadores. Foi uma exibição feita com indiferença. meu pai não é artista: antes era ferreiro. precisamos nos ver um pouco mais. com uma pequena curvatura. E daí? — Gozaremos. Albinus sentiu estranho alivio.. colocou a bolsa diante da irmã. não me beije... Arranjarei o dinheiro. “Ela tem de morrer”. trouxe-lhe um copo d’água. agora é porteiro. Albinus engoliu em seco e imaginou logo o pior: ela lhe havia sido infiel.. sabemos tudo a seu respeito. agora? — indagou. seguido de um sentimento de viva piedade. Albert — prosseguiu. — Amanhã ao meio-dia.. de nossa doce vingança — respondeu. mas não queria que pensassem que ela estava fazendo fita. entendeu? — Suponhamos que eu não o faça. — Depois vamos passar o dia todo fora. torturada. de pé junto à mesa.. “sua”. Margot animou-se e sussurrou. Só isso? Posso ir. — Posso ir. então. áspero. — Oh. os olhos baixos: — Está bem. ajeitando o cabelo nas têmporas. hem? — Voltou-se para os amigos: — Que farra costumávamos fazer! Ela não precisa bancar assim a importante. Todos tornaram a resmungar.— Isto dá para a cerveja — observou e. com esforço: detestava cerveja. Uns cinqüenta marcos já servem. calmamente. pensou incontinenti. — O que se passa? Diga-me — repetia ele. Noiva! Essa é boa!. Fugi de casa. Albinus ficou alarmado. agora? — Boa menina! Por que tanta pressa? Além disso. agora posso ir embora. você aí! Veja se arranja com o seu amigo algum dinheiro para nós. — Enganei-o terrivelmente. Voltou para casa e. Pediu mais cerveja. e a esposa não queria conceder-lhe o divórcio. De acordo? — De acordo — respondeu Margot. Que tal um passeio até o lago. Ganhei dinheiro como modelo. — Isto não é seu dinheiro. De modo que é melhor você não falar em roubo.. quando Albinus largou o jornal e se ergueu para recebê-la. nesse caso eu a matarei”. muito dura. não tratamos ainda de negócios. Subitamente. mas deu resultado. na mesma esquina — disse Otto. Margot? — Eu o enganei — choramingou ela. mais calmo: — Ouça uma coisa. como você. — Você já roubou meu dinheiro. Fui espancada. alisando-lhe os cabelos. acomodou-a confortàvelmente no sofá. — Minha cara. você mudou muito! Mas. — Nada de falar em roubo — disso Otto.

depois prosseguiu. Quando voltaram.. — E você jura que não me despreza? — perguntou ela. eu era um marido modelo num mundo em que não existia Margot. Solfi. baixinho.. que Otto ficara muito magoado e que iria agir. se soubesse alguma. entre dentes.. insensatamente. — Alegra-me que você não me despreze. — Agora terei receio de deixar você sair sozinha. o terremoto está em pleno curso. não conseguia habituar-se à sua nova posição. sem dúvida. incidentalmente. não! Isso não! — exclamou Margot com extraordinária ênfase. Acha que devemos comunicar à polícia? — Oh. Rápido. pensava ele. Depois. eu sentia muita vergonha deles. maiôs. a escrever uma carta. tão confiante. Ele morreu de uma crise cardíaca.” 35 . mas não o mostrou a Albinus. Margot arrumava suas coisas numa mala nova. enquanto que. na verdade. aceitei aquele emprego no “Argus”. Encontrei-o.. pois pensa que você nada sabe. Agora. — Que é que devemos fazer? — indagou ele. mas. meu pobre. meu querido.. e quilos de cremes que ajudassem o sol a bronzear-lhe a pele. era um lugar quente e ensolarado. parecendo pensar clara e sensatamente. pela primeira vez.. Albinus tomou-a nos braços e pôs-se a embalá-la. preta e brilhante. o trabalho do destino! Outros homens podem conciliar uma vida feliz de família com pequenas infidelidades. Albinus a acompanhou. que ele havia sido o seu primeiro amante). na véspera de Ano Novo. no quarto contíguo. sorrindo-lhe através das lágrimas. está procurando fazer chantagem comigo. O cantarolar cessou por um momento. o que era difícil... Margot viu o irmão parado no outro lado da rua. vendo que não havia lágrimas através das quais sorrir. Você compreende.. e ele exige dinheiro. e pensei. Dois dias antes de sua partida.. a respeito do meu passado. “Seis meses atrás. dentro de poucos meses. Ele ouvia um ruído de papel de seda e uma pequena canção que Margot sussurrava para si mesma. deixara de pensar..amasse loucamente. “Se me dissessem. Quando o vi. recusei. se modificaria assim tão completamente. ONZE No dia seguinte.. Albinus achava-se sentado a uma mesa particularmente inconfortável. Quando iam entrando num táxi. havia muito. também. e só Deus sabe como se resolverão as coisas. agora.. teria cantado uma canção de ninar. “Como é estranho tudo isto”. pobre coelhinho perseguido — murmurou Albinus (que. Ofereceu-me toda a sua fortuna. Por que isso? E aqui estou eu sentado... era coisa que causava a Albinus vivo constrangimento. Margot supôs.. hoje. — Oh. Ela pôs-se a rir baixinho. Margot queria muitos vestidos leves. e como não tinha dito a você a verdade. que a minha vida. deixe-me contar a parte mais terrível disso tudo: meu irmão descobriu onde eu moro. porém.. Apresentar-se em público em companhia de Margot. naturalmente. mas eu. a estação balneária do Adriático que Albinus escolhera para a sua primeira viagem juntos. pensei que era uma desgraça ter um tal irmão. Otto havia desaparecido. Mas. quando ela saiu. não tinha a menor idéia de como era a minha família. tudo foi logo por água abaixo. no meu caso.” Margot derrubou alguma coisa no quarto contíguo. que você. Depois fui perseguida por um velho banqueiro.. acertadamente.

Otto tossiu e respondeu. A situação é muito. — E por que particularmente comigo. quando comparada à que mantivera com Paul (aquela terrível conversa!) dois meses antes.. um tanto aliviado por ver que o rapaz ignorava sua identidade. — O que desejo dizer-lhe é o seguinte. com efeito. bastante aristocrata.De repente. se senhor tivesse uma irmã querida e inocente que alguém houvesse comprado.. com toda frieza. — Bem. cada vez mais excitado. para o vestíbulo. poderia manter-se em seu terreno. Mamãe não dormiu uma única noite. pelo menos. — Certamente. ..? — Schiffermiller — disse Albinus.. mas por que ficarmos parados aqui à porta? Faça o favor de entrar. quer se tratasse de irmão ou não. — Sei perfeitamente em que pé estão as coisas. na verdade — prosseguiu. de ponta um pouco arrebitada. Otto entrou e tomou a tossir. a campainha tomou a tocar.. — É melhor que se cale! — ordenou. Herr Schiffermiller. Um pouco mais cuidado e menos orgulho.. — Ouça aqui.. De modo que pensei que talvez lhe interesse se eu. — Oh. que poderia tirar vantagem. Ela tem apenas dezesseis anos. pois que tinha tanto direito de interessar-se pelo bem-estar de Margot quanto Paul de se preocupar pela sua irmã. desde que a nossa pequena Margot saiu de casa.. um fino sabor de paródia naquela conversa. 36 . Adquirindo confiança. Herr Schiffermiller! Albinus examinou Otto com curiosidade. Otto quase começava a acreditar no que dizia. Agora. com uma rouquidão confidencial na voz: — Preciso falar com o senhor a respeito de minha irmã. Margot e a cozinheira correram. Sou irmão de Margot. ao mesmo tempo. pensando que aquele jovem rústico estava falando. Não acredite se ela lhe disser que é mais velha. não! — exclamou Otto.... cabelos lisos.? — começou Otto. se posso saber? — Estou falando com o Sr. de certo modo. em tom inquiridor. Era a môça da chapelaria. meu caro rapaz — interrompeu-o Albinus. bastante resoluto. Isso não é de sua conta. Herr Schiffermiller.. nariz reto.. À sua frente.. Mal esta se retirou. Albinus abriu novamente a porta. — Que deseja? — perguntou Albinus. Meu pai é um velho soldado. Usava suas roupas domingueiras e tinha a ponta da gravata enfiada entre os botões da camisa. também num sussurro. faça o favor de se retirar. — Apenas imagine. com efeito.. a primeira coisa que faz é falar com sua família. Minha irmã é jovem e inexperiente.. Albinus. Não sei o que se poderia fazer para remediá-la. Minha noiva me disse que sua família deu graças a Deus por ver-se livre dela. muito desagradável. Permita que lhe diga: somos gente decente. — Parece que há um equívoco nisto tudo. — Volte para o seu quarto — respondeu ele. a campainha tocou. aconteceu que vi o senhor em companhia de minha irmã. — Não sei.. por assim dizer.. estava um jovem de fisionomia grosseira e apalermada.. mas que se parecia surpreendentemente a Margot os mesmos olhos escuros. pestanejando. do fato de Otto não passar senão de um embusteiro e de um atrevido. E era-lhe agradável pensar que agora.. Tenho certeza de que é ele. Havia. — Albert — sussurrou Margot — tenha cuidado. Abriu a porta. — Saberei como lidar com ele. de maneira sensata. — Com o Sr. . se nós. Saindo de três aposentos diferentes. Herr Schiffermiller. — O senhor não irá fazer-me crer que casará com ela! Quando um homem quer casar com uma jovem de respeito.

a girar o boné nas mãos. “Não é muito”. Dotado daquela espécie de sentimentalismo superficial peculiar ao seu meio burguês. Otto estendeu-lhe a mão com o dinheiro. podia.” DOZE Desde o momento em que Elisabeth leu a carta lacônica de Margot. É engraçadíssimo ouvir o senhor dizer que ela é sua noiva. seria melhor que você consultasse Lampert.. gago. Eu a chamei inocente. refletiu. — Não quero suas gorjetas — murmurou.. Otto. abrindo a porta. sentindo-se terrivelmente constrangido. — Bem. resmungando. Minha irmãzinha não é exatamente o que o senhor julga que ela seja. de qualquer modo.. 37 . saia já — ajuntou. A porta fechou-se. examinou a nota.. olhando para o chão.. Otto retirou-se muito lentamente. um último toque de doçura à sua vitória). e tocou a campainha. — Como? De volta novamente? — exclamou Albinus. Antes de fechar a porta. pague caro por isso. esse idiota de olhos saltados. desceu a escada. tentou uma tecla diferente.. O senhor deixa-se enganar muito fàcilmente. realmente! — exclamou Otto. levando-a a pensar que ele a houvesse apenas abandonado. Otto deu de ombros: — Não aceito migalhas de ricaço algum! Os pobres também têm o seu orgulho. Albinus (ainda a saborear o seu triunfo) imaginou. súbito.— Oh. Ela não pode continuar a arranhar-se desse jeito”. — Saia ou eu o porei para fora a pontapés — bradou Albinus (acrescentando. sua vida se converteu num desses longos e grotescos enigmas que a gente se põe a solucionar na sala de aula de sonho do sombrio delírio. Otto saiu arrastando os pés. Herr Schiffermiller.. eu poderia dizer-lhe certas coisas. — O senhor se arrependerá — disse Otto. — Inteiramente supérfluo — respondeu Albinus.. Eu. — Mas.. A honra social estava satisfeita. agora. eu apenas queria. Por favor.. faça o favor de aceitá-la — disse Albinus. franzindo o sobreolho. Há muitos deles por aí. Uma criança infeliz a quem a família não podia proteger. é melhor do que nada. era como se o marido estivesse morto e as pessoas procurassem enganá-la. Ora. ficou um instante a meditar. A princípio.. dizendo-lhe. — Talvez que o senhor. — Ela própria já me contou tudo. enfiou soturnamente a nota no bolso e. Depois. E ele está com medo de mim. quando esta ficava emburrada. por assim dizer. Além disso. dar-se ao luxo de satisfazer necessidades mais humanas. mas isso foi compaixão de irmão. Herr Schiffermiller. quão pobre e triste deveria ser a vida daquele rapaz. ao inclinar-se: “De qualquer modo. Isso me faz rir. — Ë melhor que o senhor as dê aos desempregados. “Mas. quando menos esperar.. desajeitadamente. a sós no corredor. zangado. Lembrava-se de como — naquela noite que agora lhe parecia tão distante — ele a beijara na testa antes de sair. — Muito bem! Ficou um instante em silêncio. enrubescendo. ele se parecia com a irmã. tirou do bolso uma nota de dez marcos e meteu-a na mão de Otto.

rompendo em lágrimas. um sonhador. jamais voltará — murmurou Elisabeth. em que costumavam banhar a filha. coroada por um tufo de pêlos fofos e cinzentos. Seu dono procurou em vão fazê-lo descer. espiou um momento por entre as folhas verdes. Paul fazia todo o possível para distraí-la. como naquela noite de tempestade.Foram essas as últimas palavras que Albinus proferira neste mundo — palavras simples e caseiras. e lavar-se nela um gigante que se debatesse. fora-se para sempre. cloreto de zinco curara o arranhão em poucos dias — mas não havia pomada alguma no mundo que pudesse suavizar e apagar a lembrança da ampla e branca testa de Albinus e da maneira pela qual ele apalpara os bolsos. passava-a ela sentada num dos quartos ou. e um cinto fino de borracha a atenuar a negrura do maiô: um perfeito cartão-postal de estação balneária. usando. . o aguardava. viram um macaquinho que fugira de seu dono e subira a um alto olmo. Saberiam os cientistas qual a quantidade de água salgada capaz de fluir dos olhos de uma pessoa? E isso fez com que ela se lembrasse daquele verão passado na costa italiana. uma banheira muito maior. as roupas em farrapos. uma grande banana amarela e um espelhinho de bolso.. Certo dia quente de verão. com suas lágrimas. TREZE Tendo ao alto apenas o azul profundo. talvez pudesse encher-se. para isso. A maior parte do dia. em qualquer lugar em que a pesada névoa de seus pensamentos a assaltasse. Embora sentisse que não poderia jamais perdoá-lo (não por ele a ter humilhado — pois que ela era demasiado orgulhosa para sentir-se ferida com isso — mas por haver. Parecia-lhe que Albinus sempre lhe fora infiel. de um apito suave. a refletir sobre este ou aquele pormenor de sua vida de casada. Trazia revistas e livros para a irmã — e conversavam a respeito de sua infância. por exemplo. depois desapareceu e um galho farfalhou. Margot achava-se estendida sobre a areia cor de platina. E agora se lembrava e compreendia (como alguém que. Mas Elisabeth não queria sequer ouvir falar nisso. no próprio vestíbulo. referentes a um ligeiro arranhão que surgira no pescoço de Irma.. o fato de Albinus haver abandonado Irma parecia-lhe mais monstruoso do que ter abandonado a ela. então pequena. em que foram ao Parque. se rebaixado).. falecidos havia muito. mesmo. certo dia. Não se referia nunca a Albinus. Oh.. — Ele não voltará. numa banheira cheia de água do mar. Mudou alguns de seus hábitos prediletos — como. se abrisse e o marido entrasse. de seus pais. De certo modo. com o qual lhe fazia repetidos sinais. ele próprio. insistindo para que ela também fosse. às vezes. ao aprender uma nova língua. Com sua carinha negra. os olhos azuis inchados e úmidos.. ao sair da sala. no lenço do marido. Durante os primeiros dias. e daquele seu irmão que tinha sido morto no Somme: um músico. Elisabeth. disse Paul. a abrir os braços. Ou estaria ele tentando raptar a filha? Seria imprudente mandá-la para o campo sozinha com a pajem? Era-o.. é inútil. ainda assim. muito mais acima. o de passar as manhãs de domingo em banhos turcos. os membros bronzeados num rico tom de mel. pudesse lembrar-se de ter visto certa vez um livro escrito naquele idioma. Elisabeth chorou tanto que ela própria se surpreendeu diante da capacidade de suas glândulas lacrimais. Depois. A pomada de. esperando que a porta.. pálido como Lázaro. 38 . quando ainda não o conhecia) as manchas vermelhas — beijos rubros e pegajosos — que notara.

Não seja assim tão preguiçoso. — Como o mar está hoje azul! Estava. parou junto à água. realmente. quando a espuma se lançou de encontro à cidadela que ele construíra. E lá se foi a ondular os quadris. sobre o estômago retraído de Margot. procurou nadar. metendo-se na água até os joelhos. sorriu e tornou a cerrar as pálpebras. à maneira berlinense. como se se esvaísse de uma ampulheta. era demasiado exíguo para que pudesse parecer real. os braços estendidos. tão concentrado estava o seu olhar em Margot. rindo. piscou ante a luz intensa. Guarda-sóis de cores vivas e tendas listradas pareciam repetir em cores aquilo que os gritos dos banhistas eram para os ouvidos. — A água está molhada! — exclamou brejeira. a cintilação de um bracelete ainda a prolongar-se após o lançamento da bola. que se achava de cócoras sobre a areia: — Veja aquele alemão a brincar com a filha. Debruçou-se sobre ele e. pôs-se de pé e avançou ainda mais. Se se olhasse de muito perto. o brilho oleoso de suas pálpebras cerradas e da boca recém-retocada. lhe caísse. gorgolejou. e grãos de areia cintilavam-lhe nas pequenas orelhas. rindo por entre os dentes. cuspindo. Um garotinho gritou de alegria. parecia-lhe ela uma ilustração delicadamente colorida a adornar o primeiro capítulo de sua nova vida. A espuma desabava sobre as ondas. de chapéu branco. depois.Albinus ergueu o rosto e pôs-se a fitar. William! Apanhe as crianças e vão tomar um bom banho de mar. correndo para o mar. que a onda seguinte de novo inundava. Uma grande bola colorida. Margot apanhou-a. num deleite infindável. de calças cor de laranja. azul: azul-arroxeado. atrás dela. mais perto. a ler o Punch. corria. Decorridos alguns instantes. Albinus atirou-se n’água. Albinus tentou afundá-la. tirando-as. segurou-a pelo tornozelo. Um homem peludo. a limpar os óculos. Uma senhora inglesa. até que a espuma lhe chegou à cintura. depois. Passou-lhe de leve a mão pelas espáduas. Albinus podia ver-lhe as costas nuas até à cintura. onde a luz incidia sobre as ondas. azul-pavão. notava-se um brilho iridescente ao longo dos ombros trigueiros e reluzentes. pôs-se de pé de um salto e jogou-a de volta. Albinus. CATORZE 39 . e ela pôs-se a espernear e a gritar. O tecido que a cobria. deu-lhe um tapa no calção de banho. deixando um liso espelho sobre a areia molhada. sentou-se. azul-prateada. recuava. negro e justo como a pele de uma foca. por entre os dedos. Margot acercou-se dele e estendeu-se a seu lado (uma toalha sobre os ombros rosados e queimados de sol) a observar os movimentos de seus pequenos pés. afastando dos olhos os cabelos molhados. via-lhe a figura emoldurada na alegre paisagem da praia — uma paisagem que ele mal via. ao longe. passou os braços em torno dos joelhos e permaneceu imóvel. Os negros e úmidos cabelos de Margot estendiam-se para trás da testa redonda. Ela abriu os olhos. Margot voltou-se para ele. com grãos de areia a reluzir ao longo da curva da espinha. A pele era sedosa e quente. lançou-se sobre as ondas. que se achava refestelada numa espreguiçadeira. homem de rosto corado. azulbrilhante. os cabelos escuros. bronzeada de sol. — Santo Deus! — exclamou Margot. ia parando devagar e. lançada de algum lugar. depois. Esguia. Agora. saltou sobre a areia com um baque ressoante. agora. voltou-se para o marido. Albinus deixou que um punhado de areia.

como uma serpente. havia danças no cassino. um jovem austríaco. aconteceu que ela se meteu por acaso. ainda. para ela. penteada. Margot aparecia. Infelizmente. o indicador e o polegar. inquieto. deve-se admitir que ela tentava ao máximo ser-lhe inteiramente fiel. degradante. Ele não revelava seus receios.Depois.mente Margot se aconchegava ao seu par. mal lhe chegava ao ombro. Margot tentou apanhá-los Ficou de cócoras e estendeu. Ele a acariciava tão completamente. que lhe lembrava sempre coisas que ela teria preferido esquecer. por mais terno e atencioso que ele fosse no ato do amor. meio oculta em meio de giestas e ulex. dançava nos olhos da gente e desenhava. matracolejava o quarto de um lado para outro. desajeitada. enquanto as mãos hábeis do mesmo costumavam subir-lhe pelas pernas. livrou-se de sua pele negra e. batendo a ponta do cigarro na cigarreira. num pulo de três jardas. em suas vistosas roupas de banho. Mas conseguiu desvencilhar-se a tempo e correr para o terraço vivamente iluminado. onde a luz. ao longe. À noite. ao dançar. ao passo que o menor contacto de seu primeiro amante sempre lhe fora o exemplo de tudo. mas o grilo. que ela não usava meias. cujo aluguel era enorme. Albinus perdia-a de vista. Logo depois de sua chegada. O cheiro adocicado e insípido de uma figueira tornava o ar pesado. por baixo da mesa. cuja cabeça. Fazendo-se justiça a Margot. tocava-lhe. em sua companhia. traços brilhantes. — Não. coisa que costuma afetar as almas simples. alva como açúcar. saltou subitamente. O mar parecia mais pálido do que o céu escandescido. subiram por uma vereda pedregosa. com a angustiosa convicção de que ela o estava traindo. Levantava-se. que. e. Margot. de um lado para outro. Entrava no salão em que os hóspedes jogavam cartas. pensava Albinus — de alguma coisa (não muito engraçada) que seu último companheiro de dança lhe dizia. não — murmurou Margot. em forma de leque. em seus olhos sardônicos. No quarto fresco. cintilava. e andava. num recanto escuro do jardim do cassino. nos pés de ambos. esvoaçava em torno de um abat-jour cor de rosa — e Albinus dançava com Margot. — Você não devia fazer isso — sussurrou. voltava. Mas. era um tanto parecido com Miller. excelente jogador de pingue-pongue. de salto alto. Às vezes. Grandes e belos grilos arrastavam-se pelo cascalho. Havia algo em seus nós dos dedos vigorosos. distendidas. e as luzes de um navio que passava brilhavam festivamente. através das frestas das venezianas. os joelhos nus. Albinus tinha consciência de seu ciúme incessante. Mais além. lançando a cabeça para trás e retribuindo-lhe àvidamente o beijo. entre uma dança e outra. cautelosa. e havia uma mistura banal de luar e música distante. então. ficaram conhecendo várias pessoas. as asas azuis. De repente. vindo não se sabia de onde. de membros angulosos. Margot sentia. 40 . sem mais nada no corpo senão as chinelas pretas. uma pequena villa. o tempo todo. Certa noite de calor. sentavase a seu lado em seu belo e reluzente vestido e tomava longo sorvo de vinho. unidos um ao outro — e ela se recostava na cadeira e ria — um tanto histèricamente. comendo um pêssego sumarento — e as tiras de luz cruzavam e recruzavam-lhe o corpo. ia para o terraço. aquilo seria sempre amor menos alguma coisa. de piso de ladrinhos vermelhos. principalmente ao recordar que ela nada trazia sob o vestido leve: suas pernas estavam tão bronzeadas. mas nervosamente. desapareceu no lugar em que caiu. quando via quão estreita. o melhor dançarino que se encontrava em Solfi e. Uma mariposa. que Margot sentiu que as poucas forças que lhe restavam começavam a abandoná-la. ao sentir os lábios do companheiro no pescoço e no rosto. entre os negros ciprestes.

a sua característica principal — a confiança em si mesma. tinha ele agora de aprender a ocultarlhe as agonias que sofrera durante os primeiros dias de vida em comum no antigo apartamento em que vivera dez anos com a esposa. Ela lançou-se sobre o sofá e conseguiu romper em soluços. observando-o através dos dedos. — Se você não deixar de chorar — disse Albinus — eu também começarei a fazer o mesmo. ela os deixou. — Em sua própria casa. Albinus. no outono. Pode abandonar-me e voltar para a sua Lizzy. que não se atrevia a correr qualquer risco. a menos que. desdenhosamente. sem dúvida — comentou ela secamente. que se vestia para o jantar. porém. Albinus lia uma taciturna censura e. que dava um repelão cada vez que seus dedos se aproximavam. E conhecer pessoas. — Albert — disse em voz alta — vejo que você não compreende. Por toda a parte havia objetos que recordavam Elisabeth — presentes que recebera dela. — Suspirou profundamente e cobriu o rosto com as mãos. pensou ela. Margot? — Desejo viver abertamente em sua companhia — balbuciou ela. logo que tornaram a Berlim. chegou até a perder.. empurrando-o com o cotovelo. Readquiriu-a. assunto de que ela nada sabia e pelo qual não se interessava. os olhos cintilantes. Albert.. — Você se envergonha de mim — ajuntou. ao examinar o hotel de boa categoria em que se hospedaram — mas espero que você compreenda. QUINZE Assim como Albinus se acostumara a jamais falar de arte a Margot. eu já esteja em Hollywood.. ajoelhou-se e procurou tocar-lhe de leve o ombro. antes que transcorresse uma semana. pondo-se de pé e limpando os joelhos. As lágrimas contribuíam apenas para aumentar-lhe a beleza. mesmo. — Não diga isso. durante algum tempo. depois de ouvir. e uma grande lágrima tremeu-lhe do lado do nariz. “Será que ele pensa. — Muito bem — disse ele. — Não me toque! — gritou. Albinus procurou abraçá-la. (“E. Margot apaixonara-se tanto pela vida que Albinus podia oferecer-lhe — uma vida de encantamento de filme de primeira classe. Tinha o rosto afogueado. Nos olhos de Frieda. pensou Margot. querida rogou Albinus. dentro de um ano. — Que é que você deseja? — indagou Albinus. que se dirigiu a ela aos gritos. que não podemos continuar sempre assim. Alegremente. Margot sentou-se e sorriu com ar magoado. presentes que ele lhe dera. com vivo ressentimento.Essa cena jamais se repetiu. você estará casado comigo”. Na verdade. desolado. enquanto continuava a soluçar devidamente. Você é inteiramente livre. com palmeiras balouçantes e trêmulos roseirais (pois que faz sempre vento na filmelândia) — e receava tanto ver tudo aquilo dissipar-se. — Sei perfeitamente que você tem medo de ser visto na rua em minha companhia. “Você casará comigo. — Muito bonito. caso em que você poderá ir para o diabo que o carregue”). a essa altura. apressou-se em assegurar-lhe que já havia tomado providências no sentido de alugar um novo apartamento. que sou boba?”. uma segunda ou terceira explosão de Margot. — Que é que você deseja. com brandura.. Albinus puxou as calças para cima. 41 . Albinus jamais vira antes lágrimas assim tão grandes e brilhantes.

embora Albinus alimentasse ardentemente a esperança de que ninguém soubesse que sua amante vivia em sua companhia. onde poderia mostrar-lhe tudo e explicar-lhe o processo todo. já tarde. extinguindo-se a recordação. as coisas correram com bastante rapidez. distraidamente. essa vez. o apartamento já não tinha nada mais em comum com aquele outro em que vivera com a esposa. Ele ficou encantado com aquele interesse pelo cinema. Bastava apenas que ela mudasse a posição de algum objeto insignificante. ao lembrar-se de que. melancólico. Ele riu e respondeu. de indagar de sua esposa. perguntou a si mesmo Albinus certa manhã. de repente. a pisar sobre uma enorme esponja (as borbulhas subiam como numa taça de champanha). Isso o deprimiu e inibiu tanto.O quarto de dormir e o aposento em que Irma brincava parecia fitar Albinus com inocente e tocante reprovação — principalmente o quarto de dormir — pois que Margot removeu logo tudo o que havia na nursery. daquela inesperada reserva. Margot perguntou-lhe. Quando principiaram a promover reuniões. no momento. imediatamente. enquanto se retorcia diante do espelho a fim de examinar as costas. o espírito absorto por completo em outras coisas agradáveis: — Claro! Por que não? Poucos dias depois. na noite anterior. cujo bronzeado se convertera em dourado). Albinus prometeu levá-la a um estúdio. Notou. — Como é que a gente faz um filme? — interrompeu-o Margot. que alguns “facadistas” impenitentes. prometera financiar um filme que um produtor medíocre desejava fazer. a alma que o animava. — O som — disse ele — não tardará em matar o cinema. e se ela podia com sua esposa ir a um concerto. (“No momento!”. escolhendo. que as pessoas iam deixando. Embora belo... enquanto Albinus lhe ensaboava as costas. vivendo separados — disse Albinus. que Margot riu. transformando-a numa sala de pinguepongue. Albinus teve a impressão de que podia sentir a leve fragrância da água de Colônia da esposa. Depois disso. antes tão cheios de recordações. um momento em que Albinus tivesse a cabeça mais clara. que alguns outros — quase todos eruditos — estavam prontos a visitá-lo como antes. Logo se divulgou a notícia da mudança operada em sua vida. Um velho amigo telefonou-lhe. — Na verdade. entre as quais parecia estar grassando curiosa epidemia de enxaqueca. domingo pela manhã. num momento em que ela se divertia. de si para consigo. “Mas o que é que estou fazendo?”. perguntando se tinham se divertido muito na Itália. finalmente. pensou Margot zombeteiramente. estaria inteiramente morta. O primeiro chamado telefônico foi uma tortura. aos poucos. estamos. ele tinha a precaução de fazer com que Margot saísse com os convidados. com a condição de que se desse a Margot o papel feminino 42 . e voltasse dez minutos depois.. após um baile. e passou a expor-lhe uma de suas teorias favoritas acerca dos méritos comparativos entre o cinema mudo e as fitas faladas. que lhe pediam dinheiro emprestado. que os mais boêmios procuravam agir como se nada houvesse acontecido e. se ele não achava que ela podia tomar-se artista de cinema.. Certa noite. como estava passando Elisabeth. passada naqueles doze aposentos. Na primeira noite. mas sem que trouxessem jamais suas esposas. para que tal objeto perdesse. Mas o quarto. dentro de dois meses toda a sua vida anterior. Habituou-se à presença de Margot naqueles aposentos. era apenas uma questão de saber quanto tempo demoraria ela para tocar em tudo: se tivesse dedos ágeis. ela voltou ao assunto. se mostravam cada vez mais amigos e cordiais. que alguns amigos deixaram de visitá-lo. com esforço. de pé na grande banheira.

súbito. — Convidarei Dorianna para jantar. De repente. — Oh. Você sabe muito bem. — Evitá-los? Como? — Se você não entende. desastradamente. Quanto a mim. porém. Albinus. — Seja razoável — rogou Albinus. Margot insistiu em que ele não deveria estar presente durante a filmagem. Nos primeiros dois dias. minha gatinha. Ele. mas lembre-se. Dorianna Karenina. mas. para seu próprio bem. para ser mais preciso. e não a mim. um artista me telefonou. — Faço tudo o que você me pede. a esses malditos lugares em que se dança O contrato foi assinado e os ensaios começaram. sentiu-se amedrontado e afastou-se ràpidamente. pois era mais ou menos a hora em que ela costumava voltar da escola Ao dobrar a esquina. procurando agradá-la.. mas.secundário. pelas vizinhanças da casa em que Paul morava. Ontem. o rosto subitamente anuviado. de modo que resolveu dar um passeio.. — Você precisa compreender isso. acabando por passar.. Convidá-lo-ei também. foi informado de que o ensaio se estenderia por mais duas horas. um caricaturista. em companhia da pajem. esplendidamente — e logo o filme estaria terminado.. quero sentar-me perto de você — disse Margot. deixaremos de ir. tratava-a de maneira encantadora. por favor. aja. Justamente nesse dia aproximou-se dele afogueada e risonha: representara esplendidamente. Um dia. se tiver de levantar cedo. — Oh. Por outro lado — consolou-se — ela precisa de alguma espécie de ocupação que a distraia e. Além disso. o que fez com que Margot lhe atirasse uma almofada vermelha e ele se visse obrigado a jurar que nada vira. tinha grande prazer em observá-la secretamente a fazer poses dramáticas diante do grande espelho — mas uma tábua rangente do assoalho acabou por denunciá-lo. como você fez a última vez. minha gatinha.. e eu me tornarei ridículo se a acompanhar por toda a parte. 43 .mente magoada e ressentida. se Albinus visse tudo antes. — Sabe de uma coisa? — disse-lhe Albinus. — Muito bem.. numa posição falsa — ponderou Albinus.. de uma namorada abandonada. indo buscá-la à hora da saída.. que não quero que eles todos saibam que você vive comigo. — disse ela. um homem que faz desenhos engraçados e coisas assim. Acaba de voltar de Nova York e é um verdadeiro gênio em seu gênero. — Mas é tão estúpido. pois que isso a constrangia. Margot chegou em casa suma. Além disso. Teremos um grande jantar e alguns convidados interessantes. o filme não lhe causaria surpresa alguma — e Margot gostava de surpreender os outros. “Que tolice de minha parte! O estúdio estará cheio de jovens atores transbordantes de sex-appeal. que o diretor gritava com ela. sentiu vivo desejo de ver a sua pálida e inocente filhinha. Albinus costumava levá-la de automóvel ao estúdio. pensou Albinus). à distância. aos poucos. elogiandolhe a maneira de representar e profetizando que ela ainda faria maravilhas. conseguiu reunir um número bastante grande de tais expressões de carinho. há uma maneira de se evitar tais aborrecimentos. Tinha apenas uma consolação: a estrela do filme (bastante conhecida). Queixou-se de que era obrigada a repetir os mesmos movimentos centenas de vezes. — Mas isso a coloca. toda noite. “seu” tolo — respondeu Margot. (“Mau sinal!”. ou. isso pouco me importa. julgou vê-la. amuada. que as lâmpadas a cegavam. eles todos já sabem.

sente-se — convidou-o Albinus. sem cessar de esfregar as mãos. seu sorriso de Mona Lisa e sua voz rouca. pelo menos. para Margot. e seus olhos tinham aquela expressão muito especial de gamo novo. — Encantado por conhecê-lo. Axel Rex e Margot Peters. no vestíbulo. e pensou que o seu vestido de tule negro. o escritor. mulher já de certa idade. — Minha irmã está no céu — respondeu. De repente.. Na sala de estar já se encontravam cinco pessoas.. como ele julgava que devia ser chamado — magro. Olga Waldheim.. Lampert e Sonia Hirsch. como habitualmente fazia. de pé no meio da sala. Vestia um traje de passeio extraordinàriamente bem feito. olhando-o com simpatia) recebia os convivas com dignidade. como se ela não soubesse se estavam ou não a zombar dela. sentando-se perto de Margot. embora seu nome me lembrasse sempre um machado (axe). — Por favor. baixo. e que esfregava as mãos como se as estivesse ensaboando. que não sabia bem qual era o seu anfitrião. Chegou Ivanolh — von Ivanolh. — Oh. Margot assim pensava. com acentuadas tendências comunistas e uma renda apreciável. “Que tolice:. ele bem o sabia. num mundo de mal talhados dinner jackets alemães. afinal. que ela estava a ouvir coisas que não compreendia — naquele caso. certa vez. — Sabe que fazia uma idéia completamente diferente do senhor? Julgava-o gordo. sua irmã? — perguntou Dorianna.. Rex. de óculos de aro de tartaruga. com ar grave. Albinus foi ao encontro de Rex. Um mordomo imponente (recém-contratado). Dorianna abraçou e beijou Margot. A conversa já estava bastante animada. contava. cor de geléia de laranja. acompanhado da esposa. de granadeiro. os olhos a piscar. de modo que as pessoas pudessem saber logo junto de quem iriam sentar-se: Dr. olhou. Bons von Ivanolh e Olga Waldheim — e assim por diante. além de Margot. cantora de braços alvos e busto volumoso. as idéias de Lampert acerca da música de Hindemith. histórias engraçadas a respeito de seus seis gatos persas. — Não nasceu jamais — ajuntou Rex. com maus dentes e monóculo. Havia um sorriso levemente defensivo nos lábios de Margot. ruidoso. Por que se levantou?”. através do tufo de cabelos brancos de Lampert (excelente especialista em doenças da garganta e violinista medíocre). e uma gema de melodia em cada inflexão de sua voz. que significava. que. com cara de lorde inglês (ou. cujos olhos brilhavam tão intensamente como se ela tivesse acabado de chorar. Baum. de rosto vermelho. Senhoras e senhores: este é o homem que faz rir dois continentes. fez pequenas curvaturas. Dorianna era famosa pelos seus belos ombros. Rex. lhe assentava maravilhosamente bem. De cinco em cinco minutos a campainha tocava. Depois. Na bandeja laqueada. anguloso. pessoalmente — disse-lhe Albinus.DEZESSEIS Tudo estava como devia ser. “Que tolice. mas de figura ainda esplêndida. cartões tinham sido hàbilmente preparados com os nomes dos convidados formando pares. com aquela dália de veludo sobre o peito. indivíduo corpulento. sinto muito — disse Dorianna. em sua agitada juventude. com sua encantadora voz de baixo. Albinus. percebeu que ela corou vivamente e pôs-se de pé. a rir. Espero que ele fique na Alemanha para sempre. 44 . pensou Albinus. rastejar diante dessa atriz medíocre” tornou a pensar Albinus. enquanto novos convidados entravam — Dorianna Karenina. Alex Rex e dois poetas de segunda classe. nadara num tanque de vidro entre focas amestradas. — Acaso não conheci. cabelos ondulados.

de membros longos. Sonia Hirsch e Baum). a delicada sombra entre os seios. Margot pôs-se de pé de um salto e. Abriu-se a porta da sala de jantar. caçadas de tigres. com Sonia Hirsch. Sonia Hirsch mudou de lugar e voltou-se para Rex: — Que é que acha dos trabalhos de Cumming? Quero dizer. Os cavalheiros olharam em torno.. acerca dos meios de expressão artística. Albinus fitou-lhe a orelha pequena e afogueada. a do sujeito que escreve: “Antes de recolher-me. mas são sonetos muito ruins — respondeu Albinus... serpentes. Albinus.. ‘Hoje ela não está em suas melhores noites”. em tom tranqüilizador — este é o homem que faz dois continentes. que já havia dado o braço a Dorianna. os ombros um tanto arqueados. Albinus. naturalmente. de um modo que não lhe era habitual. cuja história se passava no 45 . realmente... sabem respirar de tal maneira que. Na altura em que foram servidas as lagostas. faquires. comentou. Viu-a logo à frente. a Índia torna-se viva para mim.. que acabara de publicar uma novela de quinhentas páginas. — Esses iogues fazem coisas maravilhosas — comentou Dorianna. excitado. onde jamais esteve. procurou Margot com o olhar. Mas foi uma pena não ter citado os seus sonetos. o escritor. pensou ele.. Margot esvaziara seu terceiro copo de vinho consecutivo. que erguera uma das sobrancelhas). à procura de suas damas. tranqüilamente: — Li por acaso.. Rex não prestava muita atenção nem a ela nem a Dorianna. junto à cabeceira da mesa (a seguinte fileira de nomes seria melhor colocada numa curva: Dorianna. Margot. voltando-se para Albinus. Mas a que monta tudo isso? A nada. o rosto ardente apoiado na mão: — Os criados do sexo masculino furtam muito menos. a olhar fixamente para a frente. cujo nome o irritava. todas essas delícias do Oriente não me causam senão um grande tédio. quando a gente vê uma porção de quadros. verifiquei que havia crescido sobre elas uma floresta espessa e azul ( cogumelos. — Ao que parece. — Exatamente. embora um tanto incoerente. na manhã seguinte. lançava febrilmente uma torrente de frases completamente tolas. Baum. passando a sua dama para Rex.. — Fräulein Peters — disse Albinus. mas discutia através da mesa com Baum. dirigiu-se à última convidada — uma mulher enrugada. com olhos úmidos e pálpebras palpitantes. a veia do pescoço.. Mas há ainda uma outra maneira. Rex ficou sozinho. Albinus pousou de novo os olhos nela. os olhos brilhantes. como.. por exemplo — dizia ele — fala a respeito da Índia. Margot teve um sobressalto e voltou-se: — Oh. a sua excelente biografia de Sebastiano dei Piombo. o fascínio do misterioso Oriente. a conversa.. Margot. mas. metida entre os pares que entravam na sala de jantar. e. no navio. ninguém possa carregar um quadro dos grandes. ia muito animada. Muito prazer em conhecê-lo. pus as minhas botas fora da porta da secar e. explicou. — Mas desculpe-me. falava depressa. madame . Rex fez uma reverência e. Isso é o que os torna tão encantadores.. imediatamente. por exemplo. — Oh. Margot recebera dela aulas de dicção. com passos quase saltitantes. em suma. satisfeito. os Patíbulos e as Fábricas? — Porcaria — respondeu Rex. Ao invés de ter uma visão da Índia. e discorre sobre bailarinas. Apressada. O resto é droga. e estava agora sentada muito ereta. pintora cubista de rosto simples e expressão maternal. noz de areca. as últimas séries. Antigamente eu adorava esses quadros grandes de homens a cavalo. que parecia uma águia arrepiada. — Um escritor. embora. voltando-se para Dorianna. Rex. meu caro senhor — exclamou.Rindo.

. pensou Albinus. um certo beco.. é lamentável e. Sim. O primeiro capítulo.. nada tinha a ver com a conversação. mas o problema que apresenta.. os convidados foram envoltos por aquela onda que. de repente. o que.. Herr Rex. Dando-lhe o cigarro que estava fumando. não estou em condições de dispor do capital. não foi uma reunião muito bem sucedida . pelo menos no momento. e que soluciona. nesta nossa época de agitações sociais... no meio de uma discussão com a pintora cubista acerca da última exposição de arte.. até que. senhores. — Eu não penso — disse Rex. E o fez tão bem. — É preciso que se ilumine inteiramente o quadro.mente pintada. lançou um olhar de soslaio à sua jovem amante. Rex. embora um tanto vacilante (“Se ele tornar a embriagar-se. Justamente no momento em que ele a olhou. mas. Conheci-o bem em meus tempos de estudante. com a presença de Albinus. em sua companhia. ela estava bebendo demais. um risinho entre dentes — e isso. um cravo ao velho Lampert. que talvez lhe agradasse. Margot tomava um sorvo de seu copo. que olhava fixamente para a frente. com um bocejo. através da mesa. Margot esvoaçava de um lado para outro — e um dos poetas medíocres a seguia como um cão felpudo. mas sorrindo. como se se tratasse de uma cidade pitoresca e longínqua. lançou. isto é. enquanto dobrava a esquina em companhia de Margot — perdeu uma abotoadura de brilhante num mar amplo e azul e. para ser-lhe franco... mas. Margot. até que. como pequeno herói que era. estou destinado a abordar o tema pelo seu ângulo mais importante.. o que pensam de Udo Conrad — disse Albinus. onde estivera. estava começando a fazê-lo. durante quinze dias.. começou a descrever-lhe certos aspectos de Berlim.. acabara por tornar-se grandemente grosseiro para com Baum. uma parede curiosa. Parece-me ser o tipo do autor dotado de uma visão delicada e de um estilo divino. é porque despreza os problemas sociais. O mordomo. bem. Findo o jantar. abriu a janela. suando em bicas. “De qualquer modo... num canto da biblioteca.. Albinus ficou a sós. a exploração e a crueldade do colonizador branco. ele o leu aqui nesta mesa. concordo com sua opinião. 46 . enquanto despia. Herr Baum: se ele não é um grande escritor. Albinus.. Quando se pensa nos milhões e milhões. depois. aqui. uma determinada ponte. que Albinus prometeu ver. Considero o seu primeiro livro.. eu o despedirei”). Tornou a sorrir e lançou. ela sugeriu que ele fizesse um buraco da palma da mão. a sua melhor obra. A questão não é o livro que se escreve. — Não sei. — Lamento muitíssimo que não possamos trabalhar juntos em minha idéia acerca daquele filme. e a noite clara e gelada entrou pela sala. Alguém derrubara algo sobre a mesa turca — que estava toda pegajosa. e o poeta.Ceilão.. Estou convencido de que o senhor já tem realizado maravilhas. quando estávamos juntos em Heidelberg. o dinner jacket. Se descrevo os trópicos. costumávamos encontrar-nos de vez em quando. começando por um pequeno murmúrio. entrando na discussão. — permitam-me acrescentar — condenável. de certo modo. numa mesa semelhante a esta.. Por fim. O Fim do Ardil. solene. com capacete de cortiça de proteção contra o sol. a fumar e tomar licores. para que qualquer leitor possa compreendê-lo. vai engrossando sem cessar. O ar estava azul e pesado de fumo de charuto. num espumoso redemoinho de adeuses. acaba por lançá-los fora da casa. quero dizer. DEZESSETE — Certa vez um homem — dizia Rex. refestelaram-se nas poltronas.

Como foi que você apareceu lá? Custou-me acreditar em meus olhos. com o rosto voltado para a parede. remexendo. o mês e o ano em que ele a abandonara. Margot seguiu às apalpadelas. deu-lhe uma bofetada no rosto. E chorava. “sua” tolinha — disse Rex. não pôde conter um soluço e virou-se para o lado. — Olhe. Para onde preferiria ir: para a minha casa ou para a sua? Que é que se passa com você? Ela desvencilhou-se dele e voltou depressa para a esquina. de repente. na carteira. — Por amor de Deus. Rex seguiu-a. mas você me agrada do mesmo jeito. Rex ficou parado um instante. brilhante algum. — Jamais esperei tornar a vê-la. tome isto aqui — tornou ele. uma sexta-feira. Eis aí o que me agrada nas coincidências. Margot caminhava depressa a seu lado. então esse é o novo jogo. também. dentro. prontamente. Em baixo havia uma data. e Margot se apoiou de novo na grade do elevador. como se o Paraíso estivesse à sua direita e o Inferno à esquerda. Isso fez com 47 . de repente. Fora por isso que ele lhe dissera para não se voltar. ríspido. seria perigoso conservá-lo. estava comendo um grande peixe. mas um desenho feito a lápis: uma garota vista por trás. durante o jantar.. — Oh.. A claridade acalmou-a um pouco.. sem se voltar. Margot. tirando a carteira do bolso. — Olhe. não lhe dissera quem realmente era. Não estou certo de que você tenha ficado mais bonita. Ficaram a girar no mesmo lugar. — Venha comigo. se sentiu tonta. chorava porque ele lhe ocultara o nome. do velho e de Albinus. por mais que aquilo tivesse significação para ela. como dizem os cegos. apalpou a parede no escuro e tornou a acender a luz. afastou-se. parece. Margot apressou ainda mais os passos. até o primeiro patamar. Margot. Apertou o comutador da luz e viu que o que tinha na mão não era dinheiro... mas.vinte anos mais tarde. Tornou a examinar o desenho. Ele puxou-a pela manga e ela se virou ainda mais. hem? — disse ele. ergueu os olhos. Rex lhe tocara o joelho direito e Albinus o esquerdo. mordeu o lábio inferior e.. com os diabos? — repetiu ele. mas não havia. Enxugou o nariz na manga do casaco. Sentou-se num degrau e soluçou como jamais o fizera antes. Ele tornou a alcançá-la. refletiu que. Sentiu uma coisa áspera de encontro ao pescoço e apanhou-a. Rex meteu-lhe o que tinha na mão dentro da ampla gola do casaco. porque poderia ter sido feliz com ele durante todo aquele tempo. Como ela não o fizesse. chorando outra vez. — Que é que se passa com você. nem mesmo na ocasião em que ele a abandonara. A porta teria sido fechada com violência. diga alguma coisa. porque.. porque a estava desenhando! Seria verdade que tinham passado apenas dois anos desde então? A luz apagou-se com um estalido. no poço do elevador. Margot. Rex tentou enfiar-lhe alguma coisa na mão. escancarou a porta. ao reconhecer a entrada do edifício do qual saíra pouco antes. de ombros nus. e ia prosseguir quando. calmamente. E continuou a segui-la. através da grade. perplexo. se não se tratasse de uma dessas relutantes portas de ar comprimido. em meio da escuridão. o dia.. apressado. súbita. no dia exato. depois coberta a tinta. primeiro a lápis. — Esse anel que você tem no dedo é muito duro — disse ele. Tenho aqui uma coisa — ajuntou. Rex segurou-lhe o braço e obrigou-a a deter-se.. Rasgou-o em pedaços e jogou-os. depois.. Chorava porque ele a abandonara naquela ocasião. o casaco de pele de foca a envolver-lhe estreitamente o corpo. Margot correu para a entrada da casa e abriu a porta. se ele houvesse ficado — e porque teria podido fugir dos dois japoneses. pernas nuas.

uma certa queda para o blefe (não era de estranhar. por exemplo. ele ainda poderia ter aquele dinheiro (ou. Às vezes. lhe trouxera. pensava. Engraçado aquilo: as pessoas apreciavam o seu trabalho e logo depois (uma ou duas vezes de maneira bastante bem sucedida) lhe lançavam um murro à cara. No sonho.. você não se aproximará de mim enquanto não me der uma resposta sensata. tirou da bolsa o espelho. — Por que tão tarde? — indagou Albinus. uma parte daquele dinheiro). não o compreendo. ultimamente. como um automóvel enguiçado. deixe-me a sós esta noite — respondeu. Ele já estava de pijama. que o seu jogo favorito fosse o pôquer!) Jogava sempre que conseguia encontrar parceiros — e fazia-o também em sonhos. De um modo geral. como sempre tinham estado. A fama — não tanto em escala mundial. — Muito bem — disse ele. que não gostara de sua última charge. ao menos. Depois. ou com pessoas que — novamente na vida real — ter-se-iam recusado terminantemente a permanecer na mesma sala que ele. onde as pessoas estavam. aquela discussão com o seu editor. precisamos pôr as coisas em seu próprio pé. em voz baixa. Primeiro quero saber uma coisa: você já fez alguma coisa a respeito do divórcio? — Divórcio? — repetiu ele. que lhe fora difícil livrar-se de von Ivanolh. por favor! — implorou Albinus. de qualquer maneira. se não fosse um jogador. com personagens históricos ou algum primo distante. pois. — Não.que se lembrasse de seus tempos de menina. numa fase de humorismo que agradava às sogras. os gonzos da sorte haviam emperrado — e ele a abandonara na lama. “seu” idiota! Não. Margot. — Como brilham os olhos de minha querida — murmurou ele. durante certa época. como aquele ligeiro idiota sugerira na véspera — mas. Albert. falecido havia -muito. Tivera certas complicações. era a sua situação financeira. ao fazê-lo. o lábio superior. que insistira em levá-la para casa de automóvel. tinha havido complicação em toda a parte. mas ele os perdoara prontamente. fechou a bolsa com um estalido resoluto e subiu as escadas a correr. Agora. Margot explicou-lhe. sem fôlego. O pior de tudo. Cultivara. desde os seus anos mais tenros. porém. não acha? Ou talvez você pretenda deixar-me depois de algum tempo e voltar para Lizzy? — Deixá-la? — Deixe de repetir minhas palavras. Afinal de contas. apanhado de surpresa. de quem ele jamais se lembrava na vida real. — Esperei-a tanto! — Espere um pouco mais. uma boa quantidade de dinheiro. A minha beleza esteve bebendo. — Segunda-feira falarei com o meu advogado. — Queridinha. Rex) e houve uma conversa um tanto unilateral com certas autoridades acerca de estrangeiros indesejáveis. repuxando. apanhava as 48 . a fama. cobriu o rosto de pó de arroz com movimentos rápidos e circulares. — E como vem cansada e afogueada!. — Falará mesmo? Promete? DEZOITO Axel Rex sentia-se alegre por estar de volta à sua bela terra natal. embora ela não se destinasse à publicidade. De certo modo. porém. Tinha sido injustos para com ele. quando se encontrava um tanto desorientado e confuso acerca de sua carreira de desenhista humorístico em Berlim. refletia Rex. Tinha havido. com tristeza. Uma solteirona rica tinha se metido numa transação financeira meio suspeita (“embora muito divertida”.

as crianças. fitava aquele seu rápido desenho a lápis sentindo algo que se assemelhava à melancolia. e como o tio não aparecesse. E aí está um silogismo hegeliano de humor. Eis aí o super-humor que Rex punha em seu trabalho — e isso. como meteoros flamejantes. quanto menor a complicação que isso acarretasse. Certo dia. via com prazer o coringa de gorro e sineta e. para se dizer o mínimo. Quando. era inteiramente novo. recebendo apenas. pensava. A gaze da janela parecia imunda. no dia seguinte ao de sua partida para Montevidéu. que não se tratava de nada mórbido com nome médico — oh. procurava. meio retardada mental e. incidentalmente. trabalhando num alto andaime. ao “filar” carta por carta. de maneira mais sutil. com satisfação. absolutamente! — mas apenas uma curiosidade fria. seria deixar que o mestre caísse no vácuo. Bem podiam ter-lhe dado. aquele. muito mais divertido. No decurso daqueles dois últimos anos. enquanto os espectadores. não. apenas algumas notas fornecidas pela vida à sua arte. um pequeno toque de sua parte. um quarto melhor (embora. síntese: era ainda o tio (zombando do leitor). Um tio. era. como um grito de advertência poderia ser-lhe fatal. os sobrinhos foram vê-lo e encontraram um homem mascarado metendo a prataria da casa num saco. ao desenvolver-se o seu talento artístico. Margot era uma exceção. Desprezava as piadas práticas: gostava que elas acontecessem por si mesmas. Divertia-o imensamente ver a vida tomar-se grotesca. esse perigoso homem era. à medida que deslisava irremediàvelmente para a caricatura. baseada (à parte sua burla dupla e sintética contra a natureza) no contraste entre a crueldade. pois. sem qualquer surpresa diante de sua pluralidade e. talvez jamais vissem a cor do seu dinheiro). não acham bom este meu disfarce?” indagou o tio. antítese: era de fato um ladrão (riso do leitor). excelente artista. titio!”. Rex lembrava-se de seus casos amorosos sem qualquer emoção particular. erguia até perto dos olhos as cinco cartas de que se servira. ele muitas vezes se surpreendera pensando nela — e. pela extremidade superior. em anos mais maduros. era. tal como Rex a entendia.. “Sim. um grande pintor. em sua juventude.cartas. que teve de acender a luz da cabeceira da cama. Gostava de enganar os outros — e. “repicava”. A arte da caricatura. dizia ele. “Excelente”. tirando a máscara. de um lado. despejava óleo em camundongos vivos. Despertava. saciar a sua curiosidade. Quando menino. de costas. ela caíra da escada e ficara gravemente ferida. sozinho na casa com os sobrinhos. não raro. e despencaria do andaime — e. à qual Henrique VIII (de Holbein). lembrou-se do curioso encontro da véspera. Após longa espera. pensou ele.. com um lápis na mão. de olhos bem abertos. disse-lhes que iria vestir uma roupa que os divertiria. começou a recuar. De repente. ainda com sua cara impassível de jogador de pôquer. tanto mais a brincadeira lhe agradava. o seu aprendiz teve a presença de espírito de lançar o conteúdo de um balde em sua obra-prima. um cínico. deixara pela primeira vez a Alemanha (bastante apressadamente. que tinha cinco coringas. exclamaram. a fim de evitar a guerra). erguendo-as cautelosamente. Depois. com o polegar. então. encantadas. notava. ao mesmo tempo. tranqüilamente. com um doce choque. estivessem à espera do balde. E é melhor não indagar o que ele costumava fazer com gatos. Mas. Mais um passo. “Oh. em troca de seu dinheiro. e a 49 . que tinha apenas quatro rainhas. Sentimento estranho. fazia a sua primeira aposta. que as fazia rodar montanha abaixo. ocasionalmente. a fim de apreciar melhor uma pintura que acabara de terminar. Via de regra. Muito divertido! Mas. A manhã estava tão enfarruscada e escura. pois que Axel Rex. Tese: o tio disfarçado de ladrão (gargalhada por parte das crianças). embaralhava-as. havia abandonado a sua pobre mãe. ateava-lhes fogo e ficava a observá-los enquanto corriam de um lado para outro durante alguns segundos.

E se. Perdôe-me se o escandalizo. quase surrealista. uma tela de Ruysdael? A propósito: posso examinar mais atentamente alguns de seus quadros? Aquele ali me parece soberbo. também. Albinus conduziu-o pelo apartamento. observara: “Há algo de repelentemente afetado naquele seu amigo artista. a bater pesadamente sua bengala. segurando o seu próprio punho. lábios grossos e cabelos negros e esquisitos. quando estavam a discutir a festa. como. não reconheceu a figura de seu convidado. com um São João de vestes cor de malva e a Virgem chorosa. Rex. aqui e acolá. Nos Estados Unidos. ele trabalhara como falsificador de quadros. tudo o que contribuía para darlhe um ar de fascinante fealdade. ergueu o rosto. Vestiu-se e dirigiu-se a pé à casa onde estivera na noite anterior. fizera-o apenas por receio de acabar gostando demasiado dela. Cada aposento continha algumas telas excelentes. e Albinus riu com cordialidade. Mas nada disso se aplicava aos sentimentos que Margot lhe inspirara. pelo seu extraordinário aspecto pessoal: faces pálidas. sem mover um dedo. Meio-dia. era-lhe agradável recordar que Margot. de algumas falsificações. e eu adquiri. Vazia. 50 . Consultou o relógio. antes de mais nada.. — Na verdade. seguiram pelo corredor. um vinho cor de rubi num copo e um cravo branco. No caso de Margot. lá. O século dezessete — eis o seu período. Depois. Albinus o recebeu de maneira bastante cordial. notara um velho amigo na sala de jantar — e agora tornava a examiná-lo com requintado deleite. Saiu correndo pelo corredor. — Bastante — respondeu Rex. tendo produzido algumas telas bastante boas. E o que Dorianna também dissera a respeito dele não deixava de ser interessante. onde havia um belo Linard: flores e uma mariposa mosqueada. Rex impressionara-o. Era moderno: ele o pintara havia apenas oito anos. era verdadeiramente autêntico. O próprio Albinus abriu a porta e. com ternura. no caminho... o hábito da maneira de agir sem cerimônia. encantado. Mas quando Rex. encovadas. se sentava num banco recém-pintado. a gente faz amigos com mais facilidade do que aqui. enquanto contemplava o quadro. Margot saiu do banheiro num roupão amarelo vivo. não só pelo seu espírito pronto e suas maneiras desembaraçadas. na vida real. quase perdendo. desejava descobrir se ela estava realmente vivendo com Albinus. bem acima dela. a princípio. mesmo no sentido artístico. Perguntou a si mesmo se aquele Lorenzo Lotto. Ali está um homem que eu não beijaria por preço algum”. mas o senhor acha realmente aconselhável conservar aquela boneca de pano no divã quando existe. Examinou sua carteira de dinheiro.credulidade. — Para dizer-lhe a verdade — disse Rex — o senhor é uma das poucas pessoas em Berlim que eu gostaria de conhecer mais intimamente. — Não parece moderno? — indagou Albinus. o pintor Rex triunfava do humorista. Agora. Na noite anterior. Por outro lado. se abandonara Margot. enquanto um mendigo cego. olhava tudo. parado à sua frente. é que estava apenas se inspirando para realizar o seu próximo e pequeno desenho. coberto de neve. Em certa época de sua aventurosa vida. A neve caía macia e ininterrupta. Rex ficava a olhar. na véspera. de outro.. Rex desculpou-se de sua visita tão pouco cerimoniosa. Sentia-se um tanto aborrecido por tê-la tornado a encontrar: na verdade. Justamente naquele momento. em meio. Era um quadro no melhor estilo de Baugin: um bandolim sobre um tabuleiro de xadrez. uma das chinelas. após esfregar os pés no capacho.

— Oh. sentiu-se como se fosse a atriz principal de um misterioso e apaixonante drama cinematográfico. rápido. ela baixava imediatamente o olhar para esta ou aquela parte do vestido em que os olhos dele haviam pousado por um momento. “Não. que estavam compartilhando de sua vida. agora. sentindo-se suma. pensou. colocar ternamente a mão sobre a manga de Albinus. de um certo modo sutil. No dia imediato. de repente. baixar os cílios. contou-lhes uma história engraçada acerca de um Lohengrin embriagado que perdera o cisne e ficara à espera. mas. Convidou Rex a que ficasse para o jantar. no mesmo nível. Margot fez um beicinho e deu-lhe uma palmadinha na mão. jantou no apartamento de Albinus. Uma seqüência de cartas do mesmo naipe (o que não lhe acontecia havia séculos) ajudou-o um tanto. ao pedir-lhe que lhe passasse as frutas. Enquanto os três se encaminhavam para os seus lugares. Mais cedo ou mais tarde. e passava inconscientemente a mão por ela. que ele escape novamente”. embora estivesse sempre à espera daquilo. sentindo um delicioso arrepio percorrer-lhe a espinha — um arrepio que perdera havia muito. sim? E posso perguntar-lhe em que filme irá aparecer? Ela respondeu sem olhá-lo. aquilo não era até um tanto elegante. Albinus notou os ombros de Paul e as tranças loiras de Irma. agir de acordo: sorrir com ar absorto. de si para consigo. bem. Estavam. e este não fez muita cerimônia para aceitar o convite. Albinus. Rex saiu logo após o jantar. pois. penetrando na biblioteca. que ele. 51 .— Por aqui — convidou Albinus. o destino apiedou-se dele. escolhendo. mal a olhava. agora. com um sorriso acanhado. Depois. tal encontro o apanhou de tal modo desprevenido. mas Rex sabia (e aí estava o ponto íntimo da anedota) que ele apenas compreendera a metade da piada. Quando Margot apareceu na mesa. Procurou. telefonou inesperadamente. sorrindo — aquela era Fräulein Peters. Albinus riu a bom rir. Rex principiava a aborrecer-se de todo. boêmio? — Minha jovem amante — respondeu.. — Ah. Rex seguiu-o. voltando-se desajeitadamente. Não permitirei.mente orgulhosa. Por fim. Ao sentar-se entre aqueles dois homens. lançar um fugidio e indiferente olhar ao seu antigo amante. de que ele de novo passasse por ele.. pensou no que deveria fazer a seguir. em algo que se assemelhava muito à felicidade. uma partida de hockey no gelo no Palácio dos Esportes. — Logo — disse Albinus. que já começava a gostar imensamente dele. — Veja o que está fazendo! — exclamou ela. No dia seguinte. mas calma: a agitação que ela mal pudera dominar na noite anterior se convertera. — Se não estou enganado — disse Rex. piscando o olho — veremos alguém na tela. algo assim teria de acontecer. de modo algum. Entre outras coisas divertidas. para agir em seu favor. Quando o fazia. Rex falou bastante. Ele era um artista famoso e ela uma estrela de cinema. e entrou num clube de jogo. Enquanto falava. se chocou violentamente com Margot. em tom rude. estava um tanto abatida. Seria impossível enganar uma criatura tão observadora e. disse. telefonou para Albinus e foram juntos a uma exposição de quadros acentuadamente modernos. mas Margot não estava em casa. e que a outra metade é que fizera Margot morder os lábios. É ela sua parente? “Para que fingir?”. e teve de manter uma longa conversa intelectual com Albinus. então é atriz? — indagou Rex. esperançoso.

— Por favor. A banda tocava uma ruidosa marcha de circo. logo além da barreira. Você compreende que escolheu uma ocasião deveras desastrada para se aproximar de mim? — Tolice. enquanto os ágeis bastões perseguiam o disco de borracha sobre o gelo. Margot. cintilantes. Achavam-se sentados lado a lado no compartimento caro. Seus lábios continuaram a mover-se. descreveu uma curva encantadora. Entre assobios. puxavam-no. Ela fincou os cotovelos na mesa e comprimiu as têmporas com as mãos. — Agora você compreende? — perguntou. Mas ele não notou o olhar estranho de Margot. 52 . apressado. atropelando-se em rápidas colisões. meu bem. você não passa de um mendigo. deserto.. agora sei que você irá estragar tudo. não vá — pediu Margot. nem como as suas faces se enrubesceram e a boca tremeu. — Por favor. para que não o vissem. Acredita. mas nova e estrondosa ovação encheu a casa. lampejavam como relâmpagos. sombrio. estendia-se o amplo espaço gelado. Ele não casará com você. em seu brilhante suéter. mas o barulho que havia em torno abafava aquela rápida discussão. desferiam-lhe golpes. — Enfin seuls — disse ele. — . os dedos frios. deslisou lentamente em direção do minúsculo goa!. quente e frio. Rex ia responder. não casará. Ao procurar. tendo à sua frente uma mesa de toalha muito branca. adquirindo impulso. depois os alemães. A multidão urrava de entusiasmo.— Estejam à vontade e peçam café — disse Albinus. uma onda de aplausos ecoou pelo edifício enorme. Albinus caminhava com os ombros encolhidos. Margot sentiu que lágrimas lhe subiam aos olhos. fique aqui — repetiu Margot. O gelo de novo se esvaziou. — E eu digo a você que casará. Comparado com ele. o goleiro juntava as -pernas.. aplausos e gritos. — Não. O goleiro visitante. (Será que Irma o vira?) Caso eu demore. Rex. subitamente Margot. muito calma. saltou. após o que Rex lançou profundo suspiro. justamente naquele momento. perdiam-no. Ele apertou-lhe. sob a mesa. mas. encolhendo-se tanto quanto possível. realmente. pondo-se de pé. Em baixo. — Você me deu o fora — balbuciou Margot. Houve um momento de silêncio. telefonar. não se preocupem. Seus patins. depois. surgiu correndo pelo gelo nas pontas dos patins e. mal sabendo o que estava perguntando. é horrível você ter voltado. cortando o gelo com um impacto dilacerante. de modo que as defesas de couro que as protegiam formavam uma única couraça. Desculpe-me. — Ele vai pedir que a esposa aceite o divórcio.. Movendo-se suavemente de um lado para outro em seu posto. enquanto ela fazia círculos e dançava. O ar era. O lençol de gelo. não voltei? Não chore. passavam-no adiante. e um saiote curto e armado. Faz tempo que você vive com ele? Margot tentou falar. com grandes defesas de couro que lhe subiam desde as canelas até aos quadris. que ele casará com você? — Se você atrapalhar tudo. girou o corpo e deslisou novamente. — Mas voltei correndo para você. os jogadores desusavam calmamente pelo gelo — primeiro os suecos. a saída. — É um tanto urgente — insistiu Albinus. — Eu preciso. mas não retirou a mão. tinha um brilho oleoso e azul. Tinha esquecido por completo. Uma jovem com uma malha branca e justa.. Santo Deus. ao mesmo tempo.

Vamos embora. Margot teve um sobressalto e franziu a testa. e pensou que seria intolerável se a criança. os largos e macios degraus da escada. rápido. desconfiada. — Espere um pouco. ele foi muito rude para comigo. o visse. — Quer levar-me para casa ou não? — indagou ela. Quando seguiam por trás dos compartimentos. lado a lado. Você deve ir. ele não teria se importado que alguém fizesse a Margot o que ela sugerira que lhe fizessem a ele. apenas acenou com a cabeça. Estou certa de que ele não voltará. tolice. em resposta às perguntas da mãe acerca do jogo. de modo que eu não me importaria se alguém lhe desse uma boa lição. pelo cérebro: “Deixarei que ele me beije no táxi”. convicto. que eu. uma garotinha acompanhava o jogo através de um binóculo. — Bem. fitava-a com aversão. com óculos de aro de tartaruga. isso acontecerá. — Olhe ali para o lado — disse Margot ao companheiro. ao desusar pela quadra. enquanto desciam. Você estará em sua casa dentro de uma hora. querida. mas você terá de pagar o táxi. — Ele jamais casará com você. Perguntou a si mesmo quem seria o seu companheiro e onde estaria Albinus. Certa vez. pois que. Irma parecia fatigada e. como um remo perdido. quase aos gritos. será uma boa lição. DEZENOVE Paul olhou-a ao passar. Sabe de uma coisa? Eu estou sem níquel. que lhe fora arrancado da mão. — Qual é? — indagou Margot. Uma última sugestão. Vamos embora. Vejo agora porque não me sentia bem aqui. o goleiro sueco estava estendido sobre o gelo. E um pensamento cruzou-lhe. em companhia de uma menina? É o cunhado de Albinus. o barulho atingiu o seu clímax: fora marcado um goa!. Um senhor gordo. — Mais uma palavra e voltarei para casa sozinha. — Estou ficando maluca. e o bastão. — É surpreendente como deslisam velozes sobre o gelo — comentou Paul. o que digo é o seguinte: é um desperdício de tempo adiar a coisa. Tenho uma sugestão a fazer-lhe. minha querida. Leve-me para longe desta algazarra. Teremos todo o cuidado. — Posso ver isso em seus olhos — respondeu Margot. — Está vendo aquele gorducho. se o fizer. tinha a certeza de que aquele senhor deveria estar por perto. Chegaram em casa. sorrindo daquela maneira um tanto misteriosa que constituía a sua mais encantadora peculiaridade. você ainda fala em casamento — foi o comentário de Rex. naquele instante. Sentiu grande alívio quando soou o apito e pôde escapar com Irma. Elisabeth fitou-o pensativamente e voltou-se para a filha: 53 . mas. Seremos rápidos. e as dobras de gordura que lhe caíam sobre o colarinho ficaram cor de beterraba. agora jogue tudo por água abaixo? — Ele não casará com você — disse Rex. Não seja tola. quando a veneziana está descida. Sentada ao seu lado. — Vamos para minha casa. creio eu. — Levá-la-ei até sua casa. tapando os ouvidos. Apesar da placidez de seu temperamento. sem dúvida. E você espera.— Tolice. — Cale-se. Descortina-se de minha janela uma bela vista. Pena não os ter visto antes. Não correrei risco algum. e agora ele está maduro. mesmo. Mais cedo ou mais tarde. rodopiava. Há meses que venho trabalhando para chegar a este ponto. de repente. sentado ao lado da filha dele. — Apesar de tudo. Olhe aqui.

Ele estava fazendo a barba e.— É hora de ir para a cama. — Está com trinta e nove graus febre. três. — Você não encontrou ninguém? — atreveu-se a perguntar. — Vivo receando que isso aconteça — sussurrou ela. Estava tão inquieta. Na manhã seguinte. e Elisabeth levantou a camisola da criança. ainda com os olhos voltados para o alto. disse-lhe que fizesse o mesmo. tomou-lhe o pulso. dois. Irma. dirigiu-se ao quarto de Irma. e. debruçou-se. Paul — disse Elisabeth. sonolenta. meu bem? — perguntou Elisabeth. sobre o rostinho comprido da criança. Irma. — E um. Elisabeth foi despertada pela pajem. baixando lentamente a cabeça. baixinho. quando ele se inclinou sobre ela. — Algo me diz que aconteceu alguma coisa. — Trinta e nove — repetiu Elisabeth. — Vou dar-lhe chá quente com limão e uma boa aspirina. madame — respondeu a pajem. pediu a Irma que se sentasse. já é quase meia-noite! Você nunca foi para a cama tão tarde. afastando da testa da filha os cabelos claros e finos. ao barbear-se. respirando profundamente. onde os raios de luz do abat-jour do criado-mudo formavam urna espécie de desenho. baixinho. sentou-se na beira da cama de Irma. um vivo filete de sangue escorria-lhe por entre a espuma do queixo. E. 54 . — Oh. Saltou da cama e disparou para o quarto da filha. não há necessidade disso. Depois. — Sua garganta está doendo. Depois. — Jura que não encontrou? — Quem lhe meteu essa idéia na cabeça? — murmurou Paul. como ela está com a testa quente! — exclamou. — Irma está doente. naquele momento. é hora de ir para a cama. — Bem — disse o médico. inteiramente desconcertado pela sensibilidade quase telepática que se desenvolveu em Elisabeth desde que se separara do marido. — Um pescador e um barco — disse a menina apontando para o teto. Paul. — Morangos com creme de Chantilly — dizia. não — protestou. — Oh. quatro caniços — murmurou. mesmo quando usava lâmina de segurança — e. com o rosto ainda ensaboado. Irma. Era ainda muito cedo e nevava. Irma estava deitada de costas. O corpo de Irma era muito branco e magro. com os olhos fixos num canto do quarto. que entrou no quarto com um termômetro na mão. O médico coloulhe o estetoscópio às costas e. — Santo Deus. cortava-se freqüentemente. O médico chegou já ao anoitecer. quando vocês estavam fora. pensou: “Por isso é que eu estava tão inquieta ontem”. com omoplatas salientes. Irma fitava os pêlos brancos existentes em sua grande e complicada orelha. ansiosa. madame — disse vivamente. — É melhor telefonar para o médico — disse Elisabeth. os olhos brilhantes fixos no teto. o rosto subitamente rubro. Conte-me. olhando-a por cima dos óculos. Paul! — Mas nada tenho a contar — respondeu ele. ainda a lutar com o peignoir. Elisabeth bateu na porta do quarto de Paul. — Diga-me uma coisa. — Santo Deus. Hoje todo o mundo está com gripe. de repente. quando Irma já se encontrava sob as cobertas. bem como a veia em forma de W que se desenhava em sua rosada têmpora.

Elisabeth ficou satisfeitíssima. perdendo a cartola — e ela também caiu. aconchegado e um tanto absurdo. mas sim o homem que. também. que estava vivendo com uma sua amiguinha. Por fim. como uma lagarta sinuosa. Irma piscava muito. Irma ficou muito tempo olhando o homem. Depois. Ao fazê-lo. Será que eles não me disseram de propósito que era um desconhecido?” Lançou para o lado as cobertas e aproximou-se. para seu grande desapontamento. alguém estava parado. nas últimas duas semanas. muito sensatamente. quando vinha para casa — apenas para que soubessem que dentro de um momento estaria com eles e que o jantar deveria ser servido. Logo Irma adormeceu. não conseguiu aquecer-se novamente. voltou o rosto para a parede. esbarrou numa cadeira. vinha visitando a senhora que morava no quarto andar: fora a filha do porteiro quem lhe dissera isso. porque tanto a cantora como o seu acompanhante estavam doentes. ao voltar para a cama. como habitualmente. desatarraxou a caneta-tinteiro e redigiu suas prescrições. Sabia. Irma sentiu pena dele. depois. Abriu a janela e uma deliciosa e gelada lufada de ar penetrou no quarto. por outro lado. vindo da rua.— Bem — repetiu. lavou as mãos. Ouviu de novo o assobio debaixo da janela. estava com a voz fanhosa. também. Ele. — É verdade — comentou. Estava com s&le. Irma sabia muito bem que não era ele. Na rua. escorregou e caiu sentado. Fräulein. onde ele se sentou confortàvelmente. Enquanto isso. voltou-se e afastou-se lentamente. olhando para a casa. mas. saindo de um sonho vagamente desagradável. E pensou: “Quem sabe se não será mesmo o papai?. Paul. Por fim. ficou à espera do ruído familiar do trem elétrico que saía do subterrâneo muito perto da casa. Estendeu o braço e apanhou o copo pegajoso de limonada que estava sobre o criado-mudo. O gelo estava horrível. passando de leve a língua pelos lábios. no escuro. esvaziando-o e. deu-lhe pancadinhas em diferentes partes do peito e apalpou-lhe o estômago com dedos gelados. estava ofegante e não cessava de assoar o nariz. e algo macio (o seu elefante) caiu com um baque e um grunhido. os olhos ofuscados pela claridade. Irma continuou deitada. O médico foi chamado imediatamente. Na manhã seguinte. Mas o trem não veio. depois. o seu bastão de hockey deslisou para longe. seu rosto estava lívido e queixou-se de uma dor do lado. Aquela tarde. da janela. não era o seu pai. mas Fräulein continuou a roncar. Ontem um recital teve de ser cancelado. acariciou-lhe a cabeça. um assobio de quatro notas. levantou-se. Talvez fosse muito tarde e os trens não estivessem circulando. que não devia falar em seu pai. mas ela não conseguia levantar-se. amanheceu muito indisposto. pô-lo de novo no lugar. desceu os punhos da camisa — e Elisabeth conduziu-o ao escrit&io. Na manhã seguinte. E ninguém o deixará entrar. Ela estava tão entorpecida de frio. pois que o mercúrio mal passava da risca vermelha que marcava febre. mostrando-lhe a língua quando ela observara. rindo. mas recusou-se terminantemente a ir para a cama. Era exatamente assim que o seu pai assobiava. tinha mais de quarenta graus de febre. a pajem roncava violentamente. O quarto tornou a escurecer. os olhos muito abertos. ouviu. indiferente. mas despertou no meio da noite. O quarto parecia-lhe mais escuro do que habitualmente. No aposento contíguo. — Há muita gripe por aí. na ponta dos pés. Em seguida. 55 . Tudo era quente. Irma pôs-se a escutá-la. que lhe parecia estúpido visitar os outros assim tão tarde. que mal pôde fechar a janela e. De repente. a temperatura de Irma baixou consideràvelmente. saindo mesmo para o escritório. com cuidado. Isso Irma ficou sabendo por ter ouvido a conversa de duas senhoras que desciam a escada à sua frente. O homem continuava parado. adormeceu e sonhou que estava jogando hockey com o pai. ao retirar o termômetro de baixo do braço da filha.

Dominou-se. rindo com desdém. — E ouvi dizer que gripe sem sintomas febris é particularmente perigoso. “Ele abandonou a família sem sentir qualquer remorso. Elisabeth sentiu. então. lentamente. depois de tudo o que acontecera. com esforço. Lampert. “Mas há nela algo de serpente”) Rex retirou-se. — Tem febre? — indagou Lampert. a cabeça inclinada. a fim de terminar um artigo sobre uma exposição muito discutida. batendo a porta. Albinus ficou por perto. Rex voltou para junto de Margot e continuou a desenhar preguiçosamente. preciso estar boa. (“Além do mais”. envolta num peignoir cheio de rendas. produzia. Lampert pôs-se a examinar a paciente. — Um tanto interessante. tratando-se de uma mulher vigorosa. pensou Lampert. O Dr. “Sempre a mesma coisa”. o destino não tinha o direito de torturá-la daquela maneira. no lugar da dor. e o estetoscópio revelava uma leve crepitação. graças a Deus — respondeu Margot. Aconteça o que acontecer. zangada: 56 . assobiando por entre os dentes. Antes de sair. irrelevantemente. “esta prostitutazinha irá arruiná-lo”) Quando o médico se foi. desenhando-lhe a encantadora cabeça nas costas’ de um maço de cigarros. que vestia sempre que trabalhava em seu escritório. — Seria melhor que ficasse dois ou três dias sem sair de casa — disse ele. Albinus recebeu-o com seu quente robe-de-chambre guarnecido de seda. — No mês que vem haverá uma exibição. dirigiu-se ao escritório. Por que deveria eu interferir nisso?”) — Bem — disse Lampert. ao toque dos dedos do médico. — Desde ontem ela não vem se sentindo bem — disse ele. Albinus ficou alguns momentos perto dele. Margot olhou-o e respondeu. achava-se sentado Rex. se quiserem. pensou o velho Lampert. um som surdo. — Não. nada mais. A seu lado. fechando. Depois. com um suspiro. Apenas isso. Um ligeiro resfriado. ao despedir-se do médico. de repente. ser o amigo da casa — comentou Rex. — Passarei hoje de novo por aqui — respondeu. para a sala contígua. preocupado. — Queixa-se de dores por todo o corpo. seguindo-lhe os movimentos rítmicos das mãos brancas e ossudas. o peignoir. — A propósito: como vai o filme? Terminado? — Sim. Cinco minutos depois entrava numa outra casa. que. o médico. Parece que não tem febre — respondeu Albinus. que enlouquecera. Paul acompanhou-o até o vestíbulo e perguntou--lhe com voz rouca — esforçando-se por sussurrar — se havia perigo. Consultou sua caderneta de notas e meteu-se atrás do volante de seu automóvel. (“Por que deveria eu dizer-lhe?”. sem dúvida”. em tom de alarma. pensou Lampert. que estava com febre alta. as pernas cruzadas. Eles lhe dirão. aquilo não era motivo de alarme. “Sempre as mesmas perguntas. fenacetin e um remédio para acalmar a dor. ao descer a escada. com gesto lânguido. Lampert examinou ràpidamente a pajem. refletiu. afogueada e com ar amuado. assobiando. pensando se deveria ou não dizer àquele amante ansioso que sua filha estava com pneumonia. o peito. (“Uma bela criatura. mas. — Vejamos a nossa encantadora inválida. Lampert recomendou a aplicação de ventosa. os mesmos olhares súplices”. Margot estava deitada no sofá.Tinha cento e vinte de pulso. o Dr.

Além disso. há ainda o filme. “seu” feioso. ficarei menos nervosa e mais livre para agir como quiser. minha querida: você terá. quando fiquei aqui emaranhado. Albinus. — Em primeiro lugar. Isso é claro. de repente.. dir-se-ia que ambos iam cair sobre ela. Precisamos esperar.. tirou do bolso um grosso canivete. ouviram o ruído de uma porta e os passos de Albinus. meu amor. Rex enrolou o maço de cigarros e jogou-o. trêmula. “Agora. alguma coisa arrebentou e ele se viu. e abriu uma delas. lembrando-se de uma evasiva que. por favor! Será que você não compreende? Uma vez casada com ele. por favor — pediu Albinus. — Sim. de novo. Nesse momento. girando. você verá. que era apenas uma pequena lima de unhas. Rex ia levantar-se. mas.. — Não. aflita. mas a renda recusou-se a ceder. diante da menor suspeita. — Matá-la? — zombou Rex. Estas minhas visitas são muito divertidas e tudo o mais.. não estou abraçando Fräulein Peters — disse.. notou que um botão de seu paletó se prendera na renda que Margot tinha sobre o ombro. bem. Rex deu um puxão final. — Sente-se. — Pelo amor de Deus. como vê. — Apenas um beijinho. Margot. Estou certa de que será um grande êxito. com uma dúzia de lâminas. À menor provocação. — Então um bem pequenininho — assentiu Margot.. algum dia. justamente naquele momento. — Ouça. com ar sombrio. o livrou de um rival idiota. de repente. friamente. não — disse ela. mas. Estava pensando que talvez o meu amigo pudesse ajudar-me. Uma esposa não é coisa de que um homem se livre assim tão fàcilmente. o sobreolho carregado. e Rex divertia-se muito com aquilo. Albinus. Durante um momento. A situação era sumamente grotesca. eu o amo. — O filme! — tornou a rir Rex.— Sim. para que ela se sentisse mais confortável. mas estou ficando enjoado desta espécie de divertimento. Tenho uma porção de planos. assoalho. assoalho. Margot resmungava. Rex debruçou-se sobre ela. que se aproximava: tapete. O grotesco continuava de maneira maravilhosa. extático. ele me matará ou me expulsará desta casa. estou terminando um artigo de responsabilidade e. pensou Rex. — O que desejo dizer-lhe é muito importante. Rex deu um puxão. livre. Albinus entrou na sala. Trata-se dessa exposição de Corvo Branco. Trato alguns dos expositores de maneira um tanto rude. Margot procurou vivamente desembaraçar o botão. Você não ficará satisfeito enquanto não fizer alguma coisa idiotamente imprudente. faça o favor de não gritar. 57 . tapete e. certa vez. Como vê.. enquanto metia no botão as unhas brilhantes e pontudas. sejamos espertos”. em cima da mesa. Rex. Tentou novamente e partiu a unha. um tanto sutil. Mas Margot gritou: — Não se atreva a cortar a renda! Arranque o botão. sem erguer os olhos. de vir a mim. não a apunhale — disse Rex. — Tirem as mãos — ordenou Albinus. sem proferir palavra. — Estava apenas ajeitando as almofadas. — Essa é boa! — Espere mais um pouco.. com voz suave. — Vamos até ao meu escritório — disse. Você bem sabe disso. Estou tão impaciente quanto você. tentava ainda desembaraçar a renda. mas nada feito. — Não. e nenhum de nós terá um níquel no bolso. Ele sentou-se à beira do sofá e passou-lhe o braço pelo ombro. já semicerrando os olhos.

tomado de uma ternura apaixonada. à falta de algo para fazer — já que a leitura não era o seu forte — distraía-se do modo que Rex lhe recomendara: estendida confortàvelmente em meio a um caos colorido de almofadas. lírios. o senhor deve estabelecer um preço pelos seus desenhos. Albinus riu. digamos. A angústia da inspiração. mas. môças.. Não obstante — ajuntou — posso assegurar-lhe que o meu amigo está perdendo uma grande coisa. O senhor sabe a que me refiro. — Não.. “Então era por isso que estava com um ar tão lúgubre! O ar sombrio dos eruditos. Karenina. isso me causaria aversão. môças... que se vangloriava de sua largueza de vistas. firmas comerciais e pessoas desconhecidas. que tinha a certeza de sua indiferença pelo sexo frágil. acentuando as coisas que critico.. Margot ainda tinha um pouco de tosse e. claro. os olhos a vagar de um lado para outro.. creio eu — comentou Albinus.. um tanto apertado. De qualquer modo. diga-me — indagou.. telefonava dez vezes seguidas para o mesmo número. Aquela artista de cinema. Num vendeiro. uns quinhentos marcos. tenho um pequeno pedido a fazer-lhe. — Estou inteiramente às suas ordens — respondeu Rex. permita-me que. para mim. pensou Rex. consultava a lista telefônica e ligava para lojas.. de um romantismo vindo de Roma. me disse. é inteiramente diferente. além de romântica. Recebia maravilhosas declarações de amor e palavrões ainda mais maravilhosos. môças com elefantíase. VINTE Passaram-se alguns dias.. Estou esperando algum dinheiro. enquanto ela encomendava um ataúde para uma tal Frau Kirchhof. isso é apenas uma questão de gosto. ao examinar as reproduções. e até mesmo uma coisa apreciável.. satirizando tanto a cor como as linhas.. já que se mostrou tão franco para comigo.. Estupendo!”) — Ora. às vezes. Isso é bastante comum. mas encontro-me. como costumava ficar muito nervosa com o que lhe acontecia. ou uma companheira agradável. 58 . Será que lhe seria possível adiantar-me alguma coisa? Uma quantia insignificante. — continuou. Albinus. — Isto aqui é um catálogo? — indagou Rex.. movendo com malicioso prazer os pesinhos. ela ouvia atentamente o que alguém lhe dizia. recomendando a suas esposas que não confiassem muito em seus maridos. receoso de aproximar-se. Albinus entrou e ficou a observá-la com um sorriso terno. — Mas certamente! Mais do que isso.(“Oh!”... permaneceu quieto a alguma distância. pensou Rex). penso eu. — Môças quadradas. também eu. se quiser... o que desejava que me fizesse — prosseguiu Albinus — era que ilustrasse o meu artigo com pequenas caricaturas. Encomendava carrinhos para crianças. — Eu não o condeno. logo que o viu. — Bem. Albinus — as mulheres o aborrecem tanto? Rex explicou-lhe com toda a franqueza. como fez certa vez com Barcelo. lhe confesse algo. dando endereços escolhidos ao acaso. — Posso vê-lo? Môças. O quimono aberto. Braum & Kãsebier. (“Oh. por minha vez. é apenas um mamífero inofensivo. — Bem. num pintor. môças oblíquas.. zombava de cidadãos dignos. maliciosamente. permaneceu em casa e. levando assim ao desespero os Srs.. muito obrigado! A mulher. entre homens dotados de temperamento artístico. em tom de vivo desagrado. — Mas. — Mas por que razão. receoso de estragar o prazer que ela sentia.. aparelhos de rádio.. Traum. no momento. então ela disse isso?”.

apanhou o seu sobretudo (gemendo e abafando os soluços) e foi à procura de Albinus. apressado. Grimm a história de sua vida. a cabeça de sua irmã. enquanto estendia um dedo longo e branco e tocava a campainha. estava doente e mergulhado numa tempestade de sofrimentos. com um suspiro — que este senhor gostaria. que estava escuro e — apesar da presença de várias pessoas — muito quieto. — Cale-se! — exclamou Paul. Viu. Cabisbaixo. Continuava. o pente que lhe prendia os cabelos e o xale de lã que lhe caía pelos ombros — e. de qualquer modo. o professor discutia penosa e ponderosamente consigo mesmo se aquele convite não seria uma farsa ou o resultado da sua fama como ictiólogo. dominou-se. — O senhor vem visitar Herr Albinus? — indagou. — Espere — disse ao chofer. mas Paul era teimoso: se não pudesse fazê-lo daquela maneira. por trás. como quando o disco de borracha foi lançado ao goal sueco. cada vez. precisava fazer aquilo — e aquilo seria feito. Sou o cunhado dele e trago-lhe notícias muito más. dirigiu-se ao vestíbulo. agora? O principal é resolver isso ràpidamente”. fê-los entrar. atrás dele. sentiu uma tontura e tornou a sentar-se pesadamente. voltou-se resoluta. na ponta dos pés. com ar sombrio. Entrou. a ligar. receoso de ser retardado pela sua asma. de pé no meio do vestíbulo. Trocaram um olhar — e houve uma grande explosão de ânimos. Não dormia há duas noites. pondo-se a gritar a plenos pulmões: — Albert! Albert! 59 . permita-me que lhe diga que ele. no entanto. Por fim. Rex. Ambos penetraram juntos no edifício. afàvelmente. mas não compreendo a sua insistência. ao descer diante da casa familiar. — A filhinha de minha irmã está agonizando. comunicar-se com Albinus. pensou Paul. “Devo esmurrá-lo?”. Paul sentiu uma onda de sangue subir-lhe à cabeça. havia já meia hora. manchado de lágrimas.. como um touro. Continuou a subir a escada e Rex o seguiu. — Diga ao seu patrão — disse Rex. em silêncio. olhou para Rex. não receberá ninguém. neste momento.. Em vista das travessuras telefônicas de Margot. — Oh. chamo-me Axel Rex e sinto-me perfeitamente à vontade aqui — respondeu. Deteve-se no primeiro patamar. que lhe retribuiu o olhar com ar curioso e expectante. O ruído persistente da linha ocupada parecia significar que o destino decidira frustrar sua intenção. — O senhor não preferiria confiar-me o seu recado? — perguntou. enquanto que. Ouvindo atrás de si os passos impertinentes. voltou-se de novo para Rex: — Não sei quem é o senhor. não era de estranhar que Paul estivesse tentando inutilmente. subitamente. implorando-lhe para que a encontrasse à meia-noite. Empurrava já a porta da frente. com brandura. mas. do outro lado do fio. de pequena estatura (o lorde inglês fora despedido). Rex sorriu e fez que sim com a cabeça. ao ver-lhe o rosto balofo. Paul sofria de falta de ar. Um criado grisalho. agiria de outro modo. Rex. “Mas que importa isso.Margot contava agora ao Prof. o impiedoso ruído da linha ocupada. respirando pesadamente. quando Rex entrou. — Então. — Sugiro-lhe que adie sua visita — disse Paul. mas ouvia. no quarto de Irma. Ao chegar ao andar em que ficava o apartamento. Paul. mas. levantou-se.

escorregou e parou à sua frente. piscou e. Paul continuava de pé no vestíbulo. Suave. na mesma postura. zangada. — Será que ela não está com sede? — sussurrou Elisabeth. Rex tirou do bolso uma caixinha esmaltada. — Vou vê-la imediatamente. Elisabeth alisava as cobertas: um gesto automático. depois. — Se você se atrever.. Uma colher caiu da mesa. A enfermeira do hospital tomou o pulso de Irma. com angustiante nitidez. — Eles estão à minha espera — gaguejou Albinus. a porta tornou a ranger.. Pouco depois. — É uma armadilha. Rex ofereceu a Paul uma pastilha para tosse. chegava até eles o ruído de vozes exaltadas. basta! Você deve compreender. o rosto de Irma — as suas pequenas e negras narinas e o brilho 60 . por um momento. ritmicamente.. empurrou-o com o cotovelo. Novamente. Seguiu-se breve silêncio. para a sala de estar. muito lentamente. Com as bochechas tremendo. Margot tinha os braços cruzados sobre o peito. Albinus correu desajeitadamente para ele. Uma porta rangeu. — Estão fazendo você de bobo. O homem que acabara de entrar ficou alguns passos longe da cama.. como se temesse magoá-la. — Minha filhinha está gravemente doente — disse-lhe Albinus. Os olhos.Ao ver o rosto alterado do cunhado. Paul riu. sem olhar. — Irma está gravemente doente — informou Paul. entreabertos. desceu depressa a escada. as vozes exaltadas. ouviuse a voz estridente de Margot. os olhos com a mão. — Margot. pelo amor de Deus! Ela apanhou-lhe a mão: — Que tal. preciso falar com você! — Um momento — balbuciou Albinus. Paul. pôs sua mãozinha sobre a coberta. apressado. vinda da sala de estar: — Albert. voltando. — É melhor que você vá vê-la imediatamente. os olhos arregalados. — Ele não virá — respondeu Paul. se eu fosse com você? — Margot. Alguém no quarto tossiu muito de leve. batendo com a bengala no chão. destituído de sentido. A enfermeira fez que não com a cabeça. entrou no quarto na ponta dos pés. batendo com a bengala no chão. Súbito. pigarreou e. quando ele chegou. Nada mudara ali. Não deixarei que você vá. como antes. Rex examinou-os a ambos àvidamente. Cobriu.. deixando o apartamento. — E então? — perguntou Fräulein num sussurro. Fräulein saiu do quarto e disse algo ao ouvido de Paul. Irma lançava a cabeça de um lado para outro. derrubando as pastilhas. para que você volte. Irma teve um movimento convulsivo. Da sala contígua. mas viu.. Podia apenas discernir vagamente os cabelos loiros e o xale da esposa. Margot. mas Elisabeth não voltou a cabeça. sobre o travesseiro. e seu retinir delicado permaneceu longo tempo no ouvido dos que estavam no quarto. levantou um pouco o joelho sob as cobertas e tomou a estender a perna. Onde está meu isqueiro? Onde está meu isqueiro? Ele está me esperando. — É medonho! — murmurou Paul. Paul fez um gesto com a cabeça e ela saiu do quarto.. — Eles estão mentindo — gritou.. de vez em quando um soluço lhe agitava o corpo. cautelosamente. eram vagos.

via Irma com surpreendente nitidez. que encolheu ligeiramente o ombro e o acompanhou ao quarto da doente. Albinus tinha uma vaga idéia de que tivera uma horrível discussão com ela. com todo o cuidado. em baixo. Rex. sem se dirigir a ninguém em particular. depois. usando um xale espanhol. Lampert entrou. abriu a porta e deixou entrar um homem coberto de neve. hirta. Franziu a testa. desceu. um som tilintante vinha do aparelho de aquecimento central. sem olhar para ninguém. achava-se de pé junto da janela a fumar e. No quarto. lembrou-se dos nomes das duas senhoras que se achavam sentadas no divã: Bianche e Rosa von Nacht. Albinus viu as costas da esposa. tudo mergulhou de novo em silêncio. macia. — Por que não me mandaram chamar antes? — murmurou Albinus. Em baixo.-se da cama. fumando àvidamente. brilhava uma fruteira de cristal. a pajem de Irma soluçava. Margot sentia-se. A porta da frente. VINTE E UM 61 . Lampert voltou-se para o senhor idoso e digno. um corpo fantasmal. teve um vago vislumbre de um rostinho morto e de uns lábios pálidos com os dentes da frente à mostra. De repente. enquanto esta se debruçava. Ouvia-se o tique-taque do relógio sobre o consolo da lareira. se erguia na ponta dos pés. alguém assobiou quatro notas (Siegfried). segurando-o pelas axilas. além da massa escura dos telhados. tensa. sob os postes de iluminação. vindo do quarto de Irma. erguendo o sobreolho. Mas. Era mais de meia-noite. o céu estava negro e. tudo estaria novamente bem. escancarou a boca e alguém (um seu primo distante) o amparou por trás. Ele teve a estranha sensação de que. As janelas estavam bastante escuras. Margot achava-se deitada de costas. a subir no colo de Paul ou a jogar uma pequena bola de encontro à parede — mas os táxis buzinavam como se nada tivesse acontecido. cujos nomes ele não conseguia lembrar. Albinus olhou o relógio. Paul entrou na sala e. como no Natal. Ela seguia-lhe os movimentos em silêncio. enquanto lá se achava parado. a neve brilhava. Albinus apanhou uma laranja e pôs-se a descascá-la lentamente. também feliz. a escuridão se dissolvia num clarão cor de tijolo. Permaneceu assim longo tempo. ainda segurando. de um lado para outro. com laranjas. sobre a cama. na direção do Gedãchtniskirche. voltou-se e. abanou a cabeça e estalou as juntas dos dedos. a um canto. E então? — indagou.amarelado da testa arredondada. procurando não esbarrar em nada nem em ninguém. Por um momento. com a falta de um dentinho de leite. onde se encontravam as grandes galerias de pintura. rouco. de vez em quando. conversando em voz baixa. Encontrou-se. De quando em quando. estava fechada. achavam-se sentadas num sofá. Encolhida numa poltrona. depois. havia saído pouco antes. deliciosamente satisfeita. Finalmente. se pudesse lembrar-se. na rua. caía a neve. enxugando o rosto molhado de neve. que estava muito azeda. Duas senhoras. Então estivera mesmo ali mais de cinco horas? Seguiu pela calçada branca. retirou-se. de aspecto digno e cabeça calva e trigueira. Mentalmente. rangente. uma senhora pintada. enquanto ele andava. pronunciou uma única palavra. sem poder acreditar bem no que acontecera. Albinus aproximou. ao que parecia. Fora. Albinus. Sobre a mesa.. Depois. A enfermeira do hospital passou-lhe o braço pelo ombro e conduziu-a para a escuridão. ninguém se dera ao trabalhos de descerrar as cortinas. somente à distância. chegou em casa. sentado no escritório de Paul. Silêncio. agora. mas isso agora não importava.. Albinus chupou lentamente a laranja. Passou muito tempo. e apenas ruídos abafados chegavam da rua. mudo. De repente. depois. Um senhor idoso.

não obstante. em seu futuro. Certas recordações daquela noite não lhe davam paz: lembrava-se de como Paul. ele teve perfeita consciência da tênue e pegajosa camada de torpeza que pousara sobre sua vida. vislumbrara um olhar da esposa.. mordeu nervosamente a unha e aproximou-se da janela. Dentro de alguns minutos. espadanando por entre as poças d’água. Era tempo de sair.Talvez pela primeira vez. Sim. Telefonou para Paul e a criada disse-lhe o lugar e a hora do sepultamento. estaria apoiando Elisabeth pelo braço. mas eles já se tornaram quase estranhos com relação a você. A neve começava a derreter. caprichosa. afastou o olhar da jovem adormecida. que era o tempo que já estava vivendo com Margot. escuros e empoeirados corredores. Tal futuro. virava-se para o lado e escorregava preso à trela. no fim dos quais a gente encontra um caixote fechado ou um carrinho de bebê vazio. com horror. em certo momento. em que havia uma expressão que cortava o coração — uma expressão lastimável. diante de uma sepultura aberta. Após tomar apressadamente uns goles de café. não é mesmo? Além disso. através do espelho. se voltasse agora para a companhia da esposa. se processaria quase que espontaneamente. se comparecesse ao enterro de sua filhinha. enquanto Margot se achava ainda dormindo.. Lembrava-se de como. depois. a fitar aquele rosto infantil. Uma grande e brilhante mancha de céu azul refletia-se na vidraça que uma criada de braços nus lavava vigorosamente. a reconciliação. Numa esquina. com a lucidez do sofrimento. Com esforço. — A parte alguma — respondeu ele. se Margot ainda estava dormindo.. mas. ao invés de pensar na filha. que. e você sente do mesmo modo. parecia-lhe. voltando o rosto para o outro lado. atormentada. Lançou a bola sobre a mesa e dirigiu-se rápido ao quarto. — Por que está de pé tão cedo? Aonde é que você vai? — perguntou Margot com voz arrastada. a rir. Refletiu sobre tudo isso com profunda emoção. de lábios suaves e rosados e faces afogueadas. apanhou uma bola de celulóide e fe-la saltar. ao lado de sua pálida e estiolada esposa. levantou-se. o fitara com um olhar úmido e súplice e. percebia a rara oportunidade que lhe estava sendo oferecida para reerguer sua vida ao nível anterior — e sabia. se assemelhava a um sorriso. Albinus lembrou-se da primeira noite que haviam passado juntos. o destino parecia estar insistindo com ele para que tornasse ao bom senso. um dos saltos dos sapatos erguido. Na manhã seguinte. é claro que fizeram 62 . o corpo inclinado sobre a mesa. um malandro esfarrapado vendia violetas. que rosnava. e ordenou ao criado que apanhasse seu fraque e sua cartola. viva. — Sei que tudo isso é muito triste. e pensou. Ouvia suas terrificantes advertências. a fim de ver. Distraidamente. querido — disse-lhe ela quinze dias depois. entrecortada por um bocejo. viu uma outra figura — uma jovem graciosa. lhe apertara ligeiramente o braço. onde havia agora uma mesa de pingue-pongue. Automóveis reluzentes abriam caminho. Agora. VINTE E DOIS Não fique assim tão deprimido. dirigiu-se ao antigo quarto de Irma. se assemelhava a um desses longos. continuaria com sua esposa para sempre. com uma redai verde atravessada sobre ela. no decurso de um ano. mas que.. que em circunstâncias ordinárias teria sido impossível. pela última vez. um aventuroso cão alsaciano seguia insistentemente um minúsculo pequinês. de um modo perturbadoramente nítido. a rebater uma bola. sem se voltar. Enquanto se achava parado junto à cama.

Certa vez. mas possuía espírito astuto e penetrante. um belo rapaz cheio de vida. Mesmo quando estava falando. prepararam duas malas de mão e dirigiram-se. — Hoje. Em minha opinião. Rex ouvia-o de modo tão amável. devemos estar de bom humor — prosseguiu Margot. inventando histórias de amigos não existentes e expendendo reflexões não demasiado profundas para o espírito de seu interlocutor — reflexões envoltas em roupagem falsamente brilhantes. escorregadios. mas a verdade é que. enquanto que ele. logo depois de seu casamento. Rex entrou. em que aquela amizade crescera e amadurecera. Quando é isso? Hoje. do autor do livro ou do pintor do quadro. já um tanto idosa e corcunda. em várias ocasiões. acerca de um livro ou de um quadro. Acredite que compreendo inteiramente os seus sentimentos. sua vida não teria sido tão perfeita. casou. com rosto de anjo e músculos de pantera. da ciência ou do sentimento. ele os visitava todos os dias e. preferiria um menino. Rex experimentava a agradável sensação de que participava de uma conspiração. tremendamente rude ou afirmativo. um simplório quanto às suas paixões e um conhecedor respeitável. com uma mulher feia. particularmente. Tive certa vez um querido amigo. encarada como uma obra de arte. Observava com interesse o sofrimento de Albinus (que era. por piedade. um artista deve ser guiado apenas pelo seu senso de beleza: isso jamais o enganará. lépido.. Serei famosa. — Você também é uma criança — respondeu Albinus. Rex podia falar infindàvelmente. devéras? Nesse momento. daquele Albinus que pensava — pobre homem! — que havia tocado o próprio fundo do sofrimento humano. passando-lhe a mão pelos cabelos. Rex. de septicemia. se ele tivesse tido a oportunidade de envelhecer. que o pouco tempo de seu conhecimento parecia a Albinus mero acidente. que se desfazem na boca e deslisam pela garganta. sim. embora eu. na sua opinião. ao mesmo tempo. porém subitamente. se acha incapaz de sobrepujar. A morte. — Oh. não? No entanto. quanto ao que dizia respeito a pintura).. quando seu interlocutor o irritava. presentemente. Um dia. mas. de modo bastante sério. — A morte — dissera ele noutra ocasião — parece ser simplesmente um mau hábito. um dia. A cultura de Rex era falha. longe de haver atingido o 63 .. Por mais importante que fosse o assunto que estivesse discutindo. Talvez a única coisa real existente nele fosse a sua convicção inata de que tudo o que já fora criado no domínio da arte. que a natureza. dizendo-lhe tudo o que não podia dizer a Margot. — Ninguém pode construir sua vida sobre a areia movediça do infortúnio — dissera-lhe Rex. íntimo. para o asilo de alienados mais próximo. — Hoje. poucos dias depois. sem relação alguma com o tempo espiritual. não passava de um truque mais ou menos inteligente. de modo especial! É o começo de minha carreira. embora pudesse ser. fazia-lhe comentários tão sensatos e demonstrava-lhe tal simpatia.. a pé. fornecendo exatamente aquilo que o cérebro ou o estado de espírito de seu interlocutor exigia. não raro.. Nos últimos tempos. Não sei exatamente o que aconteceu. essa espécie de pêssegos grandes. demasiado respeitável. incansavelmente. Morreu. se pudesse ter filhos. de que era cúmplice de um embusteiro de talento — isto é. Estúpido.com que a menina se voltasse contra você. tive um amigo escultor cuja apreciação infalível da forma era quase sobrenatural. e sua habilidade para fazer de tolos os seus semelhantes era quase genial.. suaves. refletia (com uma sensação de agradável antecipação) que. — Isso constitui um pecado contra a vida. Em tais ocasiões. é estranho. Cortou-se ao abrir uma lata de pêssegos em conserva. Albinus se desabafara com ele. sempre conseguia encontrar algo espirituoso ou brejeiro para dizer a respeito. é que dá sentido à piada da vida. é verdade! Eu tinha esquecido.

devia ao menos escolher uma mulher maior e mais gorda. Isso. no entanto. a procurou. enquanto desciam a escada. — Não o pergunte a mim. olhou-os com curiosidade. venerável e antiquado. pois que Albinus apalpava os bolsos do paletó apenas a alguns passos de distância. achando graça. O porteiro. hem. era o que Rex imaginava em seus raros momentos de meditação filosófica. envergonha-me que os outros inquilinos vejam isso. enfadonho como a chuva.limite do sofrimento. que conversava com o carteiro na calçada. Sua paixão mútua baseavase numa profunda afinidade de almas. generoso. onde algum pobre imbecil. sobre o pátio de uma prisão. Margot lançou-lhe um olhar irado. E. Algum amante adicional.. O diretor daquela peça não era nem Deus nem o diabo. ao amanhecer. mas ela não quer ir — disse ele alegremente a Albinus. Às cinco horas está bem. justamente naquele dia. era maçador para si próprio e para os demais. Quando Rex. O que sempre digo é o seguinte: já que ele quer ter uma amante. no epitélio de seus lábios. Albinus se encontrava na primeira fase da divertidíssima comédia em que ele. Para dizer-lhe a verdade. beliscando carinhosamente o rosto de Margot. na temperatura de seu corpo. triplo. creio eu. que ele alugara um quarto. embora Margot fosse uma jovem e vulgar berlinense — e ele um artista cosmopolita. pensativo. Margot sentiu um arrepio delicioso percorrer-lhe a espinha.. como a chuva que cai.. duplo. assoberbado com os pecados dos outros. — Estou convidando Margot para um encontro. é conduzido tranqüilamente à morte por haver assassinado a avó. — Agora vamos ver que espécie de artista você é — acrescentou. perdeu a calma. tinha um lugar reservado nó camarote especial do diretor de cena. — Gracejo idiota — disse entre dentes. e o único sentimento humano que já experimentara era aquela viva simpatia por Margot.. — Quem é o outro senhor? — indagou o carteiro. o segundo. mal baixando a voz. o fantasma de um prestidigitador numa cortina tremeluzente.. Margot? — disse Rex.. a sombra de bolas de vidro multicoloridas a voar numa curva. Rex riu entre dentes e acrescentou. — Ela terá tempo de sobra para fazer manhã. Ele levava a vida despreocupadamente. Os dois homens riram e trocaram olhares. Não muito 64 . que a esperaria lá todos os dias a determinada hora. — Amanhã as cinco. de repente. que procurava explicar para si mesmo atribuindo-a aos característicos físicos dela. — De modo que não poderá ir. O diretor de cena que Rex tinha em mente era o fantasma evanescente. a algo existente no cheiro de sua pele. ele isso pela Ou você é cavalheiro rico. enquanto a ajudava a vestir o casaco. a bocejar nervosamente. Margot? prefere às seis? Margot. quando passaram. VINTE E TRÊS Na pequena sala em que o filme devia ser visto por umas duas dezenas de atores e convidados. pelo menos. conseguiu dizer-lhe. O primeiro era demasiado velho. — O amor é cego — observou. onde podiam encontrar-se sem ser perturbados. — Ela que experimente! — sorriu Albinus. o carteiro. calçando as luvas. — Amanhã esta menina irá escolher um automóvel para ela — informou Albinus. de um Proteu que se refletia em espelhos. Rex.

suas costas pareciam gordas e desajeitadas. Margot sentiu-se vexada por ele não a haver reconhecido. pensou Margot. Margot apareceu em cena quase que imediatamente. desenrolaram-se com trmu1a hesitação. Logo depois.. pensou ela. com uma boca inchada. Não havia música. Rex. Seu namorado passava de automóvel pela rua. e comovia-o ainda o fato de Margot representar tão mal — embora o fizesse com delicioso zelo infantil. o que era bastante estranho. com o qual procurava mostrar-se muito amável. O título do filme e. maravilhoso. como um aspirador de pó distante. era aquela criatura medonha? Desajeitada e feia.longe. batendo com a mão na parede das casas e olhando por sobre o ombro (embora não causasse.. e sussurrou-lhe ternamente: — Estupendo. Ele dirigiu-se a Albinus. Lia um livro. embora a sala estivesse quente. com os diabos. quase abraçando Rex ao fazê-lo. como uma reação ante aquele malogro. Dorianna Karenina achava-se sentada envolta em seu suntuoso casaco de peles. Tudo aquilo era muito agradável. fechou-o bruscamente e dirigiu-se à janela. e apareceu uma mesinha de café. onde uma boa alma lhe havia dito que poderia encontrar o seu amante em companhia de uma vamp (Dorianna Karenina). a sua mãe. Quem. os nomes. Albinus inclinou-se para ela. Teve vontade de morder alguém. Eu não imaginei. daqui a pouco”. ou lançar-se ao chão e espernear. e Albinus apresentou . que estava sentado entre Margot e Albinus. infeliz. Estava realmente encantado. O projetor zunia suave e monotonamente. como uma menina de escola a recitar um poema natalício. Depois. Margot afastou a mão de Rex. “Talvez fique melhor. uma garrafa num balde de gelo e o herói oferecendo um cigarro a Dorianna e acendendo-o 65 . ela lhe deu violento beliscão.a Margot. Diante deles. De certo modo. na tela. sorrateiramente. na verdade. a cena se dissipou a tempo. a mulher do porteiro. olhou ansiosamente para rua e. ladeada pelo produtor e pelo homem do terçol da empresa cinematográfica. certa vez. ela o procuraria. Margot sentiu-se tão horrorizada. de repente. Felizmente. Sua mão tornou a procurar a de Margot — mas. que procurava a sua no escuro. “A qualquer momento lançarei um grito”. ela notou o gerente da empresa cinematográfica em cujo escritório se sentira. Logo que as luzes se apagaram. com um sorriso cortês. Jamais duvidara de que Margot seria um fracasso na tela. a môça. depois. estranhamente modificada. Margot tornou a aparecer: caminhava furtivamente por uma rua. Também Rex estava encantado. ridícula. Ao entrar. que retirou a mão que Rex segurava. — Tivemos uma conversa há uns dois anos — disse ela. astutamente. (Não se lembrava). debruçou-se sobre o parapeito da janela. as sobrancelhas fora do lugar e o vestido inesperadamente amarfanhado. com as nádegas voltadas para os espectadores. medonho! Parecia. e sabia que ela se vingaria de Albinus por tal fracasso. aquilo lhe recordava o cinema “Argus” em que se haviam conhecido. em seguida. Depois. de sanguessuga. — É verdade — respondeu ele. Aquele monstro da tela nada tinha em comum com ela: era simplesmente medonho. entrou num café. surpresa alguma aos transeuntes). No dia seguinte. procurou-lhe a mão e apertou-a. O homem tinha um grande terçol amarelo sobre a pálpebra direita. na fotografia tirada no dia de seu casamento. As cinco em ponto. — Lembro-me da senhora perfeitamente.

Rex. Margot não pôde agüentar mais e pôs-se a chorar baixinho. O drama ia chegando ao fim. ela se levantou e dirigiu-se ràpidamente para a saída. de repente. a julgar pela maneira como ele espiou por cima da cerca). — Vou contar-lhe um segredo: uma verdadeira atriz jamais se sente satisfeita. Albinus saiu em seu encalço. como jamais o fizera na vida real. mudarei de lugar. Ao lado dela. receava tanto o seu aparecimento na tela. A namorada abandonada voltou — e cada um de seus movimentos era um verdadeiro suplício para Margot. Essa era a melhor cena de Margot. os braços caídos ao longo do corpo. Com ar de apreensão. Dorianna riu. Dorianna tocou. Alguém na sala começou a aplaudir. desajeitados. a expressão de sua mãe. Este sentiu no rosto o hálito quente de Margot. tendo aquele homem corpulento a debruçar-se sobre ele. menina! — disse com sua voz rouca Margot teve vontade de arranhar-lhe o rosto. a quem os demônios estivessem exibindo uma lista inesperada de transgressões terrenas.. Sentia-se como uma alma no inferno. de arrancar mais dinheiro dele. Em seu rosto deformado ela reconhecia. alisa o vestido (num gesto nada intencional). o homem do terçol bocejava. angulosos. com curiosidade. a jovem. e. — Muito bem sucedida essa cena — murmurou Albinus. Margot abre a boca. dirige-se.. Mas. ruma para a sua fazenda nativa. entre galinhas e porcos. mas lembra-se de sua velha mãe e. quando ela gemeu. Rex ergueu-se e espreguiçou-se. Aqueles gestos duros. que a olha com desconfiança. cabisbaixa. Uma gargalhada ecoou pela sala. Margot apareceu e o aplauso cessou. Rex começava a entediar-se de estar ali sentado no escuro. 66 . Dorianna — a Dorianna verdadeira — que estava sentada na frente deles.para ela (gesto que. os olhos a brilhar amàvelmente na semi-obscuridade. sem farsas para afastar ou beliscar a mão insistente de Rex. inclinando-se de novo para ela. expele a fumaça e sorri com o canto da boca. Rex deu-lhe uma palmadinha no joelho e retirou a mão. a fim de comprar vene110. que se sentia fraca. vendo um mau filme e. viu mentalmente as pequenas caricaturas coloridas que estava fazendo ultimamente para Albinus e tornou a pensar no problema fascinante. Agora. quando esta procurava mostrar-se cortês diante de um inquilino influente. torna a sair para a rua. pestanejando. mudando de idéia. pare com isso. outros se juntaram ao aplauso. baixinho: — Por favor. Do contrário. ainda por cima. embora simples. constitui o símbolo de uma intimidade nascente). numa boa seqüência cinematográfica. segundo todos os produtores. Dorianna lança a cabeça para trás. voltou-se para trás. Lá. sua namorada original estava brincando com o filhinho ilegítimo de ambos (o qual não permaneceria ilegítimo durante muito tempo. O herói. a uma farmácia. — Pobre pequena! — E a senhora está satisfeita com o seu desempenho? — perguntou. Logo que as luzes se acenderam. abandonado pela vamp. de certo modo. — Bravo.-lhe no braço. quando a criancinha ergue os bracinhos para ela. — Um fracasso — comentou Dorianna. Fechou os olhos. como se estivesse afastando a mão da criança.

.) VINTE E QUATRO Em casa. em termos insultuosos. O mundo estava mergulhado em lágrimas. — Vamos. Em meio de tudo isso. — Cale-se! — berrou ela... porém mais baixo. naquela primeira cena.. Estou disposto a. embora ele nada tivesse a ver com o que acontecera. eu o queimarei. Por quê? (1) Dou’. querida.. — Não — soluçou Margot. Agora. ao acentuar. às vezes — replicou. afinal. quero dizer. isso não é de estranhar. finalmente.. Margot lançou sobre ele toda a sua raiva. vamos! Não chore mais. na verdade. não me parece que tenha sido um fracasso. a palavra «talvez”) eu o compre. do T. lhe pareciam vazias. por exemplo. usando de uma linguagem horrível — e. (N. Grossman. Margot? — No se trata disso — respondeu ela. Sabe o que? Uma grande coisa grande. ao homem do terçol. gemidos. conserva-lo-ei apenas como uma lembrança. — Mas ouça. Diga-me uma coisa: já leu Tolstoi? — Doll’s Toy? (1) — repetiu Dorianna Karenina. Receio que não. você representou. calmamente. apanhe um lenço limpo e enxugue de uma vez as lágrimas.. por exemplo. você tomará mais algumas lições de arte cinematográfica. voltou-se para o produtor. em muitas cenas. posso garantir-lhe. Já se esqueceu disso? Não será divertido? Você mo mostrará e. com ar pensativo.fazer tudo para tomar a minha querida feliz. sobre o chão. Mas. crises histéricas.. referiu-se. Seus olhos brilhavam de cólera. sobre a cama. minha gatinha. pôs-se a xingar Dorianna. Margot lançou-se sobre o sofá. inconscientemente. astutamente.— Nem tampouco o público. também. essa é uma longa história — respondeu ela. Você verá a primavera no sul. E você o será. minha cara: como foi que encontrou o seu nome de atriz? Ele me intriga um tanto. uma de suas meias caiu-lhe pela perna abaixo.. 67 .. Eu paguei por aquela porcaria. depois da morte de Irma.. Não permitirei que ele seja exibido em parte alguma. eu talvez lhe diga algo mais a respeito dele. E agora. Mas o que eu queria saber. Não.. Amanhã você irá escolher um presente para você. amuada. e estou certo de que descobrirei para você um produtor realmente inteligente. estamos satisfeitos? Ela continuou chorando. — Farei por você tudo o que puder. Albinus tentou consolá-la. — Se algum dia o senhor for tomar chá comigo. A princípio. beijando-lhe o lugar em que ela se machucara — palavras que agora.. pela porcaria em que Schwarz converteu o filme. Pelo contrário. sobre quatro rodas. depois. — Ah. — A propósito..... Viajaremos milhas e milhas.. O rapaz que me sugeriu esse nome se suicidou. Dorianna não ficará muito satisfeita com isso. talvez (Albinus sorriu e ergueu as sobrancelhas. — Está bem — disse Albinus. atirando contra ele uma laranja. usando. muito bem. — Oh. Rex. Onde está esse lenço? Voltaremos no outono. — Queime-o! — Muito bem. — Como não? Trata-se de que você deve ser feliz. em que você. ao pé da letra. Que tal lhe parece. as mesmas palavras com que consolara Irma certa vez. Toy Brinquedo de Boneca. houve cenas tempestuosas: soluços.

fitou a sua própria imagem. então um outro. — Oh. — Que é que você está dizendo? — exclamou Margot. então é assim? — perguntou Margot. Quero dizer. como uma boa menina.. enxugue as lágrimas. não se incomode comigo. Há advogados. passeios. langüidamente. os lábios grossos e rubros. ela não se divorciará de mim — disse. Oh. Albinus. Diga-me.. agora que me viu nesse filme medonho. assobiava fora de tom. “Ela vai agredir-me”.... — balbuciou Albinus. colando o rosto em sua gravata. enquanto desenhava. Por favor. ainda por cima. você já fez alguma coisa a respeito do divórcio? Ou já deixou tudo isso de lado? — Bem. como uma serpente que se prepara para o ataque. contraídos num círculo quando assobiava. “Divórcio?”. amanha: Vou fazer isso pela minha garota. cansado. — Mas.. e vamos jantar fora. — Ela ainda não sabe que você deseja o divórcio? — Não.. sei guiar bem um automóvel. no outono. — Mas estou com medo que você me abandone.... enquanto você não se divorciar — disse ela. por terem me tornado tão monstruosa! Não. nós acabamos.. tencionava tirar umas férias. receio afastá-lo de seu trabalho. — Jamais serei feliz.. O golpe por que acabamos de passar faz com que isso me seja um tanto difícil. Pretendemos viajar bastante. encontrava-o a trabalhar.. Faça alguma coisa a respeito. ela sabe. bem. — Não posso continuar sendo apenas sua amante — disse ela. “Não. Diga a você mesmo. nós. Margot foi crescendo cada vez mais. melhor. Agora. — Por que precisa contratar um chofer para a sua viagem? Como sabe. pensou Albinus. não quis dizer isso — respondeu. e uma velha calça de flanela.. Albinus. Como você compreende. Oh. Eu.. Ela suspirou baixinho. ele não — murmurou Margot. Ele. Tudo se poderá arranjar”.. você não me beijará. um tanto hesitante. pensou Albinus. — Está bem. — Para falar a verdade. claro. velhos e estranhos costumes. e sempre que ela lá ia. Sol maravilhoso. Rex usava uma camisa de seda. Margot. — É muita bondade sua — respondeu Albinus. avançando para ele. numa palavra. é que ela vive uma vida à parte. um outro homem. suspirando profundamente. e... em geral.... embora o automóvel já tivesse sido comprado e já fosse quase primavera. meu bem. e sentiu que aquele homem significava tudo para ela. eu o farei.. caminhou para o espelho e. — Não posso.. e Margot continuava a adiar o dia da partida. — Você. em seu lugar. de qualquer modo. pondo-se de pé.. Posso fazer uma sugestão? — disse Rex a Albinus... Ou.. pela primeira vez na vida dizendo uma mentira acerca de Elisabeth. — Oh. — Prometo-lhe que. com um estremecimento.— Não. 68 . os teria esbofeteado. Margot aproximou-se dele e passou-lhe lentamente o braço pelo pescoço. desajeitado. Estava realizando milagres com tinta nanquim. com o colarinho aberto. — Ela percebe.. a coisa é assim. não. campos de golfe... Encontravam-se assim quase todas as tardes. O que quero dizer. por fim. Margot fitou-lhe o rosto pálido. Isso está fora de cogitação VINTE E CINCO REX converteu em atelier o quarto que alugara para seus encontros com Margot. certo dia.

na verdade. (O passado estava seguro em sua jaula. um raio empoeirado de sol a atravessar obliquamente o quarto. e suspira. com a cabeça de um boi. — E o que é que dizem por aí a meu respeito? — perguntou ela. o buldogue pertencente à viúva do major do número 15. Ao voltar para casa. Sua mãe foi despejada da casa e não gosta do lugar onde agora está morando. sim. companheiro de seu irmão. Margot deu um pulo até o quarto de Rex. mas ele adquiriu o hábito de fazer--me confidências acerca de seus casos amorosos. Margot. preocupado. mas pertencia. como se se tratasse de uma coisa normal. uma porção de bobagens. 69 . e lá estava o açougue. eles são a sua família.. após breve hesitação. achavase sozinho. Mas a papelaria havia se transformado em cabeleireiro. Ele logo vai casar comigo. à procura de um táxi. o que Margot pensaria daquilo. — Por que está com tanta pressa? — perguntou-lhe. Deixe que ele vá. Não se interessou em aproximar-se mais. como tem passado. — Oh. Eu sempre disse que o direito de fazer o que quiser de sua Está se dando bem com o seu amigo? — Oh. — E eles se importaram comigo depois? Importaram-se em saber que fim eu havia levado? Kaspar tossiu e disse: — De qualquer modo.. em sua banca. Agora. tendo à porta. Margot. Isso ocorreu na véspera da partida. — Está bem. pensou: “Será que devo virar à direita. Rex. Você devia. Mas a rua. pouco além. ao falar deles. olhando-o. agora. ele foi embora. É um pouco tedioso. pois caminhava muito perto da guia. Lá estava a padaria. sorrindo um pouco timidamente. a uma organização. amarrado. Creio que está trabalhando em Bielefeld. estava a cervejaria que Otto costumava freqüentar — e. olhando para os pés. qualquer dia. — Nós dois somos espertos — respondeu ela. Ao voltar. — E você? — Oh. o aprecio bastante. carrancuda. — Bem. — Hoje é a última vez. preguiçosamente. Era Kaspar. Eu. coisas habituais. A caixa de tintas. então. atravessar o jardim e tornar a dobrar à direita?” Lá estava a rua em que morara quando criança. Margot — disse ele. a um grupo. tudo isso fez com que se lembrasse do tempo em que posava nua. Não sei se conseguiremos estar a sós durante a viagem. pintada de dourado. concordou com a sugestão. Empurrava uma bicicleta cor de violeta. Seu pai não durará muito. como sempre fazia quando vinha do quarto de Rex. — Você sabe muito bem quanto eles me amavam lá em casa — comentou Margot. após fazer compras. enquanto ela retocava os lábios. banhada de sol. Mas Margot. fazer-lhes uma visita. Sabe que sua família se mudou? Estão morando. era simplesmente um velho amigo. Saiu correndo para a rua. Kaspar havia se mostrado muito rude. Margot? — Esplendidamente — riu ela. à esquina. quase uma quadrilha.— Nesse caso. os lápis. a velha vendedora de jornais. na zona norte de Berlim. mais ou menos. estava deserta. apenas tocando a vida. Por que não dar uma olhada?) A rua não mudara. na tabuleta. sentir-nos-emos encantados — respondeu Albinus. Lá estava. — Alô. com um cesto sobre o guidão. — E onde está o meu querido irmão? — indagou — Oh. pondo-se a andar pela calçada a seu lado. uma voz familiar a chamou. perguntando a si próprio. A última vez que ela o vira. com um riso gutural. Chegou a uma praça e. a casa em que ela nascera: estava sendo reformada. a julgar pelo andaime.

— Talvez pudéssemos. quase sonhadora. estavam já quase envoltas pela escuridão. — Mas não. depois. “ VINTE E SEIS Estradas margeadas de macieiras e. Isto é fatigante. algum dia. depois. — É verdade. Margot recusou-se terminantemente a prosseguir viagem até a localidade seguinte. do qual eles se afastavam velozmente. Quando entraram em Rouginard. Dirigiam-se a um grande hotel e Albinus desceu. Ficou combinado que passariam a primavera na Riviera. é muito dura. “Ela irá dar com os burros n’água”. as células de aço do radiador estavam repletas de abelhas.. Estou trabalhando numa confeitaria. Depois. Rex dirigia admiràvelmente. Pouco antes de chegar à costa. sorrindo. as árvores.. se isto continuar por mais tempo — comentou ela. — Alegra-me muito. simples. seguindo. E. não a queria para mim. Dirigiram-se. o último lugar em que pararam foi Rouginard. deixe de sentimentalismo! Estava a ponto de romper em lágrimas. foram convidados a subir pelo 70 .. a três hotéis —e todos eles estavam repletos. sucessivamente. Margot murmurou. não. como sempre acontecia quando se aproximava a noite. — Dê-lhe uma pílula para dormir — sugeriu Rex. uma confeitaria minha. por você. e isso a deixava furiosa. porém. nos hotéis. enquanto Margot se sentava no automóvel. Margot. de ameixeiras. dizendo que as curvas da estrada a deixavam enjoada. No vidro de trás. no quinto hotel. Margot estava cansada e irritadiça.. sem olhar para Rex. querida. com a mesma velha igreja na mesma velha praça) — não pudera estar a sós com Rex. A vida pode ser dura — concordou Margot. algum dia. há quase três semanas (pois que viajavam sem pressa. — Mas não deu resultado. havia choupos à beira das estradas. sob os pneumáticos. Eles jamais irão nadar de novo no lago. — Você não arranjou uma namorada? — indagou Margot. as criadas. Albinus voltou. na França. desenrolavam-se. O tempo estava excelente e. a manejar o volante com uma leveza terna. através dos dentes cerrados: — Oh. — Já tentei — respondeu Margot.— Ótimo! — disse Kaspar. Uma grande pena. Uma nuvem de um alaranjado vivo desdobrava-se pelo céu verde pálido. A vida. Desde sua partida — isto é. Só que é uma pena a gente não poder mais se divertir como antigamente. achava-se dependurado um macaco de pelúcia. Por fim. um pouco aborrecido: — Nada. — Enlouquecerei. Gostaria de ter. libélulas e borboletas mortas. não compreendiam Margot. às vezes. para ver se havia acomodações. Chegaram ao pôr do sol. A gente nunca saberia a quantas andava. ao anoitecer. — começou Kaspar. — Eu a comprarei na farmácia. infindàvelmente. “Devia casar com algum homem bom. pensativa. Era tal o seu mau humor. e Albinus mergulhava em êxtases diante do contorno das colinas purpurejantes. a olhar para o norte... após pequena pausa. chamou um táxi. reclinado preguiçosamente no assento baixo. brilhavam luzes nos cafés acaçapados. para os lagos italianos. pensou ele. Eu. no boulevard. Desculpe-me. — No momento. detendo-se em numerosos lugarejos pitorescos. que Albinus tinha medo de olhá-la.

não cessava de repetir: — Não ficarei aqui. quando. — Querida. de repente. cutucando Albinus com o cotovelo. voltando-se para a criada. — Não precisa trancar-se aí — disse em voz tal. batendo de leve o salto no assoalho. — Não vou pô-la para fora. um rapazinho de tez cor de azeitona. que os conduziu. atrás da porta fechada. outra. que se comunicava com o quarto contíguo. correndo para a porta e batendo com força. — Garota desleixada — disse quanto ensaboava o queixo. rápida: — Tolice! Está bem assim. mas ela não via nem ouvia nada. que um lençol de água corria por baixo da porta do banheiro. as torneiras. — Bem — riu Rex... mas Margot. Margot voltou apressadamente para o banheiro. Mas Margot interveio. O ascensorista. 71 . — Não sei se você não se importa de compartilhar do banheiro conosco — disse Albinus. não ficarei aqui. — Enquanto isso. ficou com o seu belo perfil voltado para eles. em tom de súplica. com espanto. Albinus escanhou cuidadosamente o rosto com o seu aparelho Gilette. trocaram olhares. alegre. subitamente. — Nós haveremos de dar um jeito. — Pare com essas tolices! — exclamou. Já havia quase acabado de barbear-se e estava dando apenas mais algumas passadas em torno de seu caroço de Adão. Recuso-me a continuar andando de um lado para outro. — Tem certeza de que não há nenhum outro quarto de solteiro? — perguntou Albinus. Albinus começou a tirar da mala os objetos de toilette. — Margot! Margot! — gritou. rápida. — Muito bem — respondeu Albinus.elevador e ver se serviam os únicos dois quartos disponíveis. grilos cricrilavam. o ruído da fechadura e a água a correr. e fechou. ruidosa e incessante. O trovejar das torneiras adquirira agora uma nota triunfante. na verdade. rindo. você está bem? Você está inundando o quarto! Nenhuma resposta. A água corria. ruidosamente. — Mas. enquanto traziam a bagagem. Ouviu a porta fechar-se. Havia uma grande estréia num céu cor de ameixa. despindo-se apressadamente. A criada abriu uma porta interna. as copas negras das árvores estavam inteiramente imóveis. notou. que estava cheio de vapor e água quente.. Mas não demore muito. um par de roupas íntimas. — Não é possível que ela tenha se afogado — murmurou ele. subitamente. Através do espelho. entrou e abriu uma segunda porta. O quarto em que havia uma cama de casal não era de todo mau. — Margot costuma alagar tudo e ficar muito tempo no banho. inteiramente inconsciente do papel que as portas representavam na vida de Margot e dele. Rex e Margot. voarem pelo ar. farei a barba. enquanto esticava com o dedo a pele do rosto. Será que eles teriam. que dava para o banheiro. — Vou tomar primeiro um banho — disse Margot. tentando girar a maçaneta.. para se passar uma noite. Aproximou-se da janela. — Veja que cílios! — comentou Rex. Precisemos comer alguma coisa. onde havia sempre alguns pêlos relutantes. lagosta à l’Ame’ricaine? A água continuava a jorrar — e o barulho era cada vez mais alto. Margot. naquele hotel. não é nada mau — disse Albinus. Albinus saia.

muito tempo — disse Margot. por sua vez. sem nuvens. cada qual por seu turno. através da porta. Albinus não sentia ciúmes. Margot surgiu fresca e radiante. — Oh. necessitava apenas de um único homem: Rex.— Adormeci na banheira — gritou ela. Uma mariposa branca adejou em torno de uma lâmpada e caiu sobre a toalha da mesa. onde alguns homens jogavam boliche. Albinus. Comeram no terraço. a um bar que havia à esquina. Margot também estava feliz — o mesmo acontecendo com Rex. pondo-se a esfregar o corpo com talco. Durante o jantar. um inglês tranqüilo que colecionava besouros e alguns jovens. feliz. que não estava habituada a tais caminhadas. bateu no vidro entreaberto junto ao qual Margot se achava sentada e disse-lhe que iria beber ràpidamente alguma coisa. E dirigiu-se. E Rex era à sombra de Albinus. pois que nenhum deles era muito robusto. meu velho. de calça de flanela branca. Margot tinha muitos admiradores. que pagava apressado a sua conta. finalmente. — Este é um prazer inesperado! — Bastante inesperado — respondeu Udo Conrad. verificando que o motorista ainda não se achava em seu lugar e que iria demorar ainda um pouco. chegaram a uma aldeola banhada de sol. e por que se sentia tão seguro dela no momento? Ele não percebera uma pequena coisa: que ela. depois outra. já não tinha desejo algum de agradar aos outros. entre os quais um fabricante de sedas de Lyon. — Ficaremos aqui muito. os três saíram para uma longa caminhada pelas montanhas. não tenha pressa! — respondeu Rex. às pressas. se ele não se sentisse tão feliz. feriu muito um pé. — O banheiro estará livre dentro de um momento. — Não o farei esperar muito — gritou. — Você é maluca — disse Albinus. Cerca das duas horas da tarde. VINTE E SETE Passou-se uma semana. que escureciam o tapete cinza claro. fosse quem fosse que a fitasse ou dançasse com ela. — Este lugar me agrada tremendamente. Ao estender o braço para apanhar a cerveja. Montes cobertos de pinheirais cercavam o hotel em que estavam hospedados. esbarrou num homenzinho de constituição delicada. num enjoativo estilo mourisco que teria arrepiado a pele a Albinus. foi tomar um banho. seus companheiros de tênis. e os dois homens tiveram de carregá-la. diminuíram e deixaram de correr. — Você está um pouco mais calvo. — Você aqui. Bateu à porta de Rex. Margot e Rex entraram no veículo. em seu gênero um imponente edifício. em tom queixoso. Margot revelou excelente bom-humor. Um dia. Uma hora de viagem levava-os a uma bela praia encravada entre rochas de um vermelho escuro. Udo? — exclamou Albinus. perderam-se e. agora. Albinus voltou para o espelho e tornou a ensaboar o pescoço. bastante arqueados sob o seu fardo. não tenha pressa. que os conduziu a um lugar errado. Surpreendia-se muito ao recordar as angústias por que passara em Solfi: por que razão tudo então o inquietava. Mas. Os dias eram 1 claros. Albinus ia fazer o mesmo. tendo por fundo o azul profundo do mar. Olharam-se. desceram por um caminho difícil e pedregoso. Passados alguns minutos. Havia uma porção de flores e estrangeiros. O banheiro exalava umidade. Margot. encontrando o ônibus de Rouginard prestes a partir de uma praça revestida de paralelepípedos. mas. pois que estava ajudando um velho agricultor a colocar dois grandes engradados no ônibus. Está aqui com sua família? 72 . — Que susto me pregou! Os fios de água.

em francês cuidadoso. e permanecerá sentada muito quieta. à procura das enganadoras moedas francesas. — Dava até sábado último — volveu o velho. Um belo escritor. Detesta gatos e o tique-taque dos relógios. Albinus meteu a mão no bolso. — O ônibus dá a volta pela aldeia e. — Diga-me uma coisa: você notou. a pobrezinha. sentado numa mesa atrás de Albinus... o ônibus já está partindo! Depressa! — Já vou — disse Albinus. — Agora. com uma barba arruivada? — Eu notei — disse Rex. Então tomarei outra cerveja. Chegou. comendo cerejas. afinal. — Ah.. bem. Um quadro tranqüilo e feliz. não há pressa — disse o dono do bar. Pela porta aberta e ensolarada. que projetavam sombras mosqueadas. se achava sentado no parapeito branco... antes de partir. e a que. sorrindo.” — Este lugar parece ser muito grande. Que estará fazendo. — Tome o ônibus seguinte — respondeu. onde jamais estive antes.. viu o grande e comprido ônibus amarelo seguir por entre um labirinto de árvores umbrosas. enquanto Rex. Conrad saiu apressado em direção do ônibus e apanhou-o. Melhor não pensar nisso”.— Bem. judiciosamente. e ela rola.. detém-se. Estou passando uma temporada em Rouginard e. Quando foi que nos encontramos a última vez? Há seis anos. Sinto-me alegre por tê-lo encontrado? De modo algum. — Oh. depois. — Era de se esperar — respondeu Margot. frágil. Mas será que ela o fará? Não sei.. ao hotel e encontrou Margot refestelada numa espreguiçadeira no terraço. “Curioso. não. É apenas um homem que conheci antigamente. neste momento. entabular conversa com Margot e ela lhe disser tudo. Celibato. refletia Albinus. Excelente escritor. Julguei que ele estivesse vivendo em San Remo. Engraçado ele não ter a menor idéia de que a minha vida mudou. parecendo misturar-se e dissolver-se em meio delas.. segue direto. no ônibus. — Estava sentado atrás de nós. — Eu também estou morando em Rouginard. Um homem esquisito. desolado. Mas eles não terão muita oportunidade de conversar. o velho. “Não compreendo bem o que eles fazem com essas bolas de madeira. lançamna. no caminho. de shorts. — Ótimo — interrompeu-o Conrad. — Quanto tempo demora o ônibus para dar a volta pela aldeia? — indagou lentamente. — Uns poucos minutos. para compensar a minha perda de cabelos. a presença de um homenzinho de branco. de bigodes negros e caídos. — Bem — desculpou-se o homem do bar — isso não é minha culpa.. e não muito feliz. “Está com a barba um pouco amarelada. Elisabeth? Vestido preto. — Mas que farei agora? — indagou Albinus. De madeira? Ou será algum metal? Agarram-na primeiro na palma da mão. mãos ociosas. Desagradável se ele. provàvelmente. jamais voltarei. — Dá — disse o tendeiro melancólico. um tanto soturno. Ela estava se sentindo infeliz. Albinus. pára ainda de novo nesta esquina. 73 . — Perdi o maldito ônibus — disse Albinus. — Ele não dá volta alguma — informou um velho com um cachimbo de barro. depois. as costas bronzeadas e peludas voltadas para o sol. Santo Deus. encontro Udo”.. a julgar pelo tempo que o ônibus leva para dar a volta — observou ele. febre de feno. Que tem ele? — Nada. um homem melancólico. Engraçado eu estar aqui de pé neste lugarejo quente e sonolento.. O motorista tocou a buzina. engolindo sua cerveja.

aluguei esta casa há apenas alguns dias. se não o encontrar. — A verdade é que passei estes últimos dias à sua procura. que podava algo no pequeno e pedregoso jardim. — E como vai sua família? — perguntou Conrad. — Muito bem. vontade de dar o fora. Udo — disse Albinus ao aproximar-se. de repente. Ninguém parecia saber exatamente o seu paradeiro. Julguei que não lhe agradasse a perspectiva de conversas sobre os velhos tempos na prisão móvel de um ônibus. sua preguiçosa! — disse Albinus. sorriu para o céu suave e azul e para as verdes e doces colinas. — Até que enfim consigo encontrá-lo! — exclamou. — Isso acontece com freqüência: a gente encontra alguém após longa ausência e sente. Albinus. e começou a subir. Num bom passo. — Ë ainda tão cedo — disse ela. e ele agora sentia mórbido prazer em mostrar-se magoado. O outro voltou-se. — Vá você sozinho — murmurou ela. E. embora brumosas. Eram cerca de oito horas. e sentiu grande desejo de galgar a esmo aqueles montes. que serpenteava por entre muros cobertos de trepadeiras. — Oh. que se debruçava sonhadoramente sobre o caminho. Albinus sugeriu que deviam vestir-se sem perda de tempo e passar o dia todo fora — apenas os dois. A solidão o tornara sensível como uma solteirona. pintada de uma cor de rosa vivo. já luminosas. Cona. 74 . cortadas em sentido longitudinal pelo sol e pela sombra matinais. Quando passava por uma minúscula villa. “Afinal de contas. se ficarmos aqui mais tempo. aonde está hospedado? — No Britannia. o asfalto cinzento ainda não tocado pelo quente sol matinal. com ar duvidoso. não grande importância”. pensou. — Oh — disse em tom seco — não esperava tornar a ve-lo. — Deixe de ser tolo. E você. Albinus fez meticulosas investigações no Escritório de Turismo e na pensão alemã. Voltou dentro de um instante e começaram a subir por uma estrada fresca e umbrosa.VINTE E OITO Na manhã seguinte. — Sim. sonolenta. Margot despertou.. pouca coisa temos a dizer um ao outro”.. ele saiu das ruas estreitas. — Que tal se déssemos um pequeno passeio? — sugeriu. alegremente. Conrad abrandou um pouco. Albinus riu. mas não correspondeu ao sorriso. afastando delicadamente para o lado a folhagem frágil de uma mimosa. “É provável que eu ainda o torne a encontrar. —. Sim. Poucos dias depois. E você evitou perfeitamente de fazê-lo. escancarou as venezianas. Estou contentíssimo por tê-lo encontrado. voltando-se para o outro lado. Albinus acordou mais cedo do que habitualmente. mas ninguém soube dizer-lhe o endereço de Udo Conrad. ouviu um ruído de podadeira e deparou com Udo Conrad. respirando o ar que rescendia a tomilho. Udo. Julguei que ele circundasse a aldeia e voltasse novamente. — Não importa — respondeu. ele sempre gostara de jardinagem. Você precisa falar-me a seu respeito. Vou calçar um outro par de sapatos. Você bem sabe que eu não perdi o ônibus de propósito. tristemente.

. Mas receio que. de vez em quando.. mas não me sinto inclinado a renunciar à experiência e às riquezas acumuladas em tantos anos de manipulação de nosso idioma. Enfureceme ver os livros que estão sendo levados a serio.. neste último meio século. ignorados pelos seus graves e pomposos contemporâneos. baixinho. — Oh. Um regato corria sobre pedias lisas. os contornos dos golfos. Não sou de sua opinião.. para que eu seja apreciado devidamente. Se a nossa época se interessa por problemas sociais. Ultimamente. Fale-me de seu trabalho. Conrad. vamos! Uma porção de gente ama os seus livros. se você não se importar. Conrad. logo depois. aconteceram-me coisas terríveis. por favor. — Ah. em geral. Albinus perguntou a si próprio se não seria um tanto sedutor e excitante contar àquele seu velho companheiro acerca de seu apaixonado caso amoroso. você é sempre o mesmo — riu Albinus. — Não se assuste: não vou falar de política. a inquietude de após-guerra. do qual se exalava doce fragrância. e isso. quando uma literatura subsiste quase que exclusivamente baseada na Vida e na Biografia. justamente àquele homem que sempre o conhecera como um indivíduo tímido e pouco dado a aventuras. um século inteiro. o que importa. refletia que cometera um erro ao sugerir aquele passeio: preferia a companhia de pessoas descuidadas e felizes.. talvez. Isto é. — Vamos. Mas resolveu adiar aquela revelação até mais tarde. Você poderá argüir que não é a literatura. Ficaram ambos em silêncio. é lamentável tudo isso. em seu todo. costumava viver no país de Mussolini. com alguns compatriotas.. das lagoas e das enseadas azuis. com ar intrigado. Prefiro não falar nessas coisas. Notei. não há razão para que os escritores de talento não procurem colaborar. — Julgava que você. — Não como eu os amo — disse Conrad. a minha pequena Irma morreu de pneumonia. — Não sabia que você estava na França — disse Albinus. E. ela já esteja bastante esquecida na Alemanha.. por favor! — gemeu.. — Não. inteiramente esquecida. A guerra. — Bem. Sua ultima novela é estupenda. significa que está agonizante.. — Não. E não me interessam muito as novelas freudianas ou as novelas que tratam de uma tranqüila vida campestre. — Eu não poderia viver sempre no estrangeiro — disse Albinus. deparo. é bastante divertido. às vezes. — Receio — respondeu Udo — que a nossa Mãe Pátria não esteja perfeitamente em condições de apreciar os meus escritos. se a arte de escrever e de ler não estiver. — Tardará ainda muito. Calaram-se novamente. 75 . bem. Sentaram-se num gramado seco.. Eu de bom grado escreveria em francês.. De qualquer modo. Udo. que os turistas alemães se sentem inclinados a pensar que criatura alguma compreende sua linguagem. por entre os verdes ramos. seguindo sonhadoramente com o olhar. que pareciam estremecer sob a água. por exemplo. — Quem é Mussolini? — indagou Conrad. deitado de costas. às vezes. Elisabeth e eu nos separamos. — Como assim? — indagou Albinus. isso e exasperante. No ano passado. então. A estrada serpenteante os conduzira a um bosquete de pinheiros onde o canto das cigarras se assemelhava ao zumbido incessante de um brinquedo de corda. mas dois ou três escritores verdadeiros que permanecem isolados.Albinus hesitou um instante e respondeu: — É melhor não me perguntar. — Você não tem saudade do som de vozes alemãs? — Oh. por outro lado..

de Baum. nos últimos três dias. essa expressão que os franceses 76 . — Bela manhã. — A propósito: encontrei uma passagem bastante bela logo no começo do livro O Descobrimento de Taprobana. os mercadores com que deparo não contribuem muito para despertar saudade. “Devo falar-lhe a respeito dela? Não”). certo dia. — Eu também preciso voltar para o hotel. também se levantando.. também recostado. e. no ônibus. a julgar pela hilaridade que lhes causou o fato de você ter perdido o ônibus.. chamadas assim. ao entrar numa tabacaria. — Foi o que pensei. pois não? — Belíssima — concordou Albinus. Albinus. meu velho. Ao que parece. Conrad sentou-se e disse: — Sinto tremendamente. Estavam ambos novamente a sorrir. no hotel. sujeito cordial. Após contemplar por mais alguns minutos os pinheiros e o céu. — De modo algum — respondeu Albinus.. depois. tanto mais me convenço de que chega urna ocasião. dá de encontro. e — interrompeu-o Conrad — um súbito cansaço de seu longo exílio caiu sobre o viajante. pois não? — Sim. com um risinho. um viajante chinês. Albinus. Mas o que senti não foi bem saudade da pátria. Seja lá como for. — Bem. com o coronel francês aposentado. mas você se importaria muito se voltássemos? Preciso ainda escrever algo antes do meio-dia. a fim de comprar cigarros. um leque branco de seda. pensou. — E onde estão hoje os namorados? — Não entendo a que se refere.. um aperto de mão. num santuário situado sobre uma colina. não lhe parece? — respondeu o coronel. quando afastava com as costas da mão a cortina de pingentes feita de contas vermelhas. era seu vizinho de mesa. — Talvez pudesse haver algo em mim a ansiar pela frescura da água — disse Albinus. — Diverti-me muito escutando a conversa de ambos.. com aqueles seus dois amigos. ao dirigir-se de Gobi para a Índia. depois em terra seca. em geral. Desceram pelo caminho em silêncio e. que. pensou. ao chegar à porta de Conrad. ligeiramente — respondeu Albinus. acabou”. trocaram. com uma espécie de sonolenta cerebração. (“Menininha má”. com grande demonstração de cordialidade. Coisa estranha: quanto mais penso nisso. com uma grande imagem de jade de Buda. Ambos se sentiam bastante entediados. “Bem.— No dia em que nos encontramos — disse Conrad. com ternura. tendo nos olhos de porcelana azul. Conheço essa história. “Quero só ver se me pilham de novo a visitá-lo!” VINTE E NOVE De volta ao hotel. há muitos séculos. no Ceilão. na vida do artista. as pessoas que arrulham pelos cantos (qui se pelotent dans tous le coins) são. estriados de sangue. em que ele deixa de sentir falta de seu país natal.. embora jamais haja lido e jamais leia esse último e árido esforço de um tolo. Você os conhece. com os braços sob a cabeça — tive uma experiência fascinante. e viu um mercador chinês fazendo a oferta de um presente nativo chinês. com alívio. — Perdão! — exclamou o coronel. Como aquelas criaturas que viviam primeiro num estado aquático e. deparou. — .

subitamente.. Depois. numa espécie de vago e irremediável estupor. Teve a obscura sensação de que tudo. — Comment. meu caro senhor. quando pensam que ninguém os entende. — Esqueci de perguntar-lhe uma coisa. — Ouça aqui. — Que é que o senhor quer dizer? — indagou Albinus. Tratava-se simplesmente de algo escuro e agigantado... de certo. que tinha estado a escrever no jardim. e não causar medo. — Que tolice! — exclamou. — A respeito de que falaram aqueles dois no ônibus? Você me disse que tinha sido uma experiência fascinante. você poderia jurar que isso é verdade? — Como? — Você está inteiramente certo disso que está dizendo? — Ora essa! Estou. através da janela. 77 . Udo — disse Albinus. fitando a mulher que se achava atrás do balcão.chamam goguenard.modo. numa voz estranha. — Bom dia. se virava às avessas. Isso causa inveja aos velhos. É a isso que você se refere? Albinus fez um gesto afirmativo com a cabeça. subitamente. que já vou para o jardim. sentada num cavalete. — Udo. “Será que agora não irá mais deixar-me em paz? Onde já se viu espiar a gente desse jeito!”). dirigiu-se ao seu escritório. como se aquilo fosse um curioso fenômeno que não poderia causar-lhe mal algum. E um pensamento estranho. — Oh. Monsieur? — Que perfeita tolice! — repetiu ao parar na esquina. — Uma o que? — indagou Conrad. Sobre que conversaram eles no ônibus? — Perdão. — Impossível — disse. pensou ràpidamente. tinha de ler de trás para diante. tortuoso. foi fascinante. não consigo ouvir uma palavra. Era uma sensação destituída de qualquer sofrimento ou assombro. onde está você? — gritou. Albinus entrou na tabacaria. enquanto aquela letargia perdurasse. — Bem — disse Conrad — foi a conversa amorosa mais baixa. perturbando. as pessoas que passavam. o coronel. quase jogando ao chão uma garotinha de avental preto. a fim de apanhar um caderno de notas de que necessitava. e ia examiná-lo. bem em baixo de minha janela. lhe ocorreu — e ele acompanhou mentalmente o seu vôo adejante e irregular de morcego. embora macio e sem ruído. um Paraíso bastante indecente. Conrad. Bem. Que idéia! Espere um momento. para entender. sinto dizê-lo. agora compreendo. Apanhou o seu caderno e saiu. — Não me sinto capaz de dizer tudo isso de novo em alemão — disse. a testa franzida. rindo. Queria dar-lhe um exemplo de como os alemães agem. não entendo. que se aproximava dele — e lá se achava ele. mais alta e mais desavergonhada que já ouvi em minha vida. — Gostaria apenas — ajuntou — que não o fizessem no jardim. junto à janela. — Alô. rumou de novo para o lugar de onde acabara de vir. Aqueles seus dois amigos falavam tão livremente de seu amor como se estivessem sozinhos no Paraíso. apagada. rápido. Assim. em voz alta. sem procurar sequer evitar aquele choque espectral. quando deparou com o rosto de Albinus a fitá-lo de fora (“Que homem maçador”. Afastou-se.. de pé no meio da calçada. no rés do chão. voltou-se subitamente. como se de novo também aquilo fosse uma coisa que se devesse estudar. sim. e. de modo que.

por trás da porta.. seguia-lhe mentalmente os passos.. sorridente e saiu. Agora! Mas. Era tudo claro como a morte e. Agora. — Que é que você quer? — interpelou-o Margot.. deixou-se cair sobre uma cadeira junto à cama. — Você devia ter descido. depressa. Enquanto a esperava. Devia começar de novo. enquadrava-se no plano lógico das coisas. uma espécie de medonha suavidade. mas ficou a observar. o cordão do sapato. ao invés de me chamar de maneira tão grosseira. devia ter entrado no hotel. Não havia barulho algum de salto alto. para o quarto de ambos. — Poderia Madame permitir que apanhasse a bandeja? — perguntou. Depois. Mas sua imaginação fora mais rápida do que ela. astutamente. Estava vazio. Logo que a porta se abrisse.. Eles o vinham enganando incessantemente. ficou de cócoras e abriu sua maleta. baixou o pescoço queimado de sol e pôs-se a desatar. tal como ela o entendeu. Inconscientemente. soou o riso estridente de Margot. agora. Havia um pouco de café derramado e uma colherinha brilhava sobre o tapete branco. — Será — murmurou Conrad — será que não cometi nenhuma gaffe? TRINTA Albinus desceu para a cidade. Ficou atento ao ruído de seus sapatos pelo corredor. em direção dos oleandros que ladeavam a entrada do hotel. Examinou ràpidamente o revólver. com. ao ouvir o ruído leve de seus sapatos de sola de borracha. Segurava a pistola automática e ela lhe parecia uma extensão natural de sua mão. postou-se junto à porta. com um estremecimento de dor. enquanto a criada apanhava a bandeja e a colherinha que estava no chão. Não se daria ao trabalho de fazer-lhe pergunta alguma. fechando a porta atrás de si. que foi que aconteceu? Ele enfiou a mão no bolso.Mas Albinus havia desaparecido. Margot. Subiu para o seu quarto. enquanto palestrava.. Margot entrou junto com a criada de quarto. Ela ergueu a bandeja. uma voz francesa. Ele debruçou-se sobre a janela. Seu companheiro surpreendeu Albinus na janela do terceiro andar. e a raquete que ela brandia. indolentemente. Albinus moveu o braço como se agarrasse alguma coisa em seu peito. que estava tensa e ansiosa por disparar: havia um prazer quase sensual na idéia de apertar o gatilho recurvo. Margot olhou para cima e parou. naquele instante. Quase disparou a arma contra a porta branca e fechada. Nesse momento. num gesto que significava “suba”. Ela fez-lhe um aceno com a cabeça e seguiu. ficou a olhar aquele ponto brilhante. Albinus meteu a pistola no bolso.. a cama não tinha sido ainda feita. cintilava ao sol como ouro.. mas lembrouse de que aquilo que procurava estava em outro lugar. ouviu outros passos. atravessou o boulevard sem diminuir o passo e chegou ao hotel. Acercou-se do guarda-roupa e meteu a mão no bolso de seu sobretudo de peio de camelo. atiraria. Cabisbaixo. para ver se estava carregado. Albinus afastou-se da janela. mesmo. Albinus não respondeu. claro: ela usava sapatos de tênis. pelo caminho revestido de cascalho. estaria subindo pelo elevador. Ela devia morrer incontinenti. — Albert. Tudo continuava em silêncio. artisticamente. o homem tinha ido embora. vindo do jardim. cabisbaixo. Albinus fitou-lhe a cabeça de cabelos escuros e 78 . Conrad caminhou até o meio da estrada. Margot caminhava ao lado de um jovem de calção branco.. Sim. Nada.

batendo com a mão sobre os móveis. e.. costumava gracejar com ele desse jeito — disse. depois.. Seria exatamente como aquela peça que vimos. — É absurdo como firo o calcanhar todas as vezes — comentou ela. Ele a sacudiu com tal violência. desde o começo. — Era engraçadíssimo. Oh. — Sim. você tem de confessar. de vez em quando. friamente.“). — Antes de mais nada.. Impossível atirar enquanto ela estivesse desatando os sapatos. nós ambos sabíamos que aquilo não passava de uma piada.. — Você mente! — sussurrou Albinus. (“. de um embuste canalha! (“Se ele se puser a gritar — pensou Margot — não haverá perigo”). Veja como a meia ficou embebida de sangue. Vamos ver se eu não consigo fazer com que você esqueça os seus rapazes”. agarrando-a pelo punho. — Que é que eu deveria compreender? — gritou Albinus.. Seu lábio superior tremia. você sabe muito bem que ele não se interessa por mulheres. Margot. já que isso o 79 . e eu sou tão inocente quanto ela. não passa.. que lhe sou fiel. — Largue-me.. com a negra e o travesseiro. tirando a meia com a mão que estava livre. isso foi tudo. Ele sentou-se atrás de vocês naquele ônibus e viu que vocês procediam como amantes. Viu a arma na mão de Albinus. Nada senão embuste e traição. já pensei nisso — disse Margot.. — Oh. Oh. Mas. Conrad os viu. ele não se interessa mesmo por mulheres — prosseguiu ela — mas. Por favor. tudo:.brilhantes. Pelo amor de Deus. — Não poderei falar enquanto você estiver segurando isso.. Olhe. — Não brinque com isso. — Cale-se! — berrou Albinus.. — Por favor. que a cadeira saiu do lugar... Depois eu gritaria e acorreria gente. — Isso não passa de uma mentira vil. — Que é que há aí para explicar? — Em primeiro lugar. guarde essa arma.. ou será que eu poderia arrancá-la da mão?. detendo-se na sombra azulada do pescoço... querido.“). — Pode dizer o que tem a dizer.. mas eu. por brincadeira. erguendo a cabeça.. Sei de tudo. se eu corresse para a porta — pensou ela — talvez conseguisse fugir. andando de um lado para outro pelo quarto. largue isso! Não falarei enquanto você não largar essa arma. — Você e aquele canalha. você não precisa fazer isso.. Albert.. Só sei que lhe sou fiel. — Levante-se — murmurou Albinus. Mas tudo estaria arruinado. certa vez. querido. eu a matarei.. Isso foi tudo. sei de tudo. — Por favor. (“. eu lhe disse: “Olhe aqui. nem quero saber. — repetiu com voz entrecortada.. Aquele coronel francês os viu. Margot agarrou-se à cama e pôs-se a rir. Albert. Fale. Fui informado. com voz rouca. calmamente. guarde essa arma.. — Muito bem — disse Albinus. não atire. você morrerá — Você não precisa matar-me. Não sei o que aconteceu. — Mentira imunda! Não acredito.. — Não... no lugar em que os pêlos tinham sido rapados. — Não — respondeu Albinus. Só eu fui cego. — Não me levantarei — respondeu Margot.. não há dúvida. . Pouca acima do calcanhar. “seu” tolo — disse. — Sabia que você não compreenderia. Ele lutava contra a gaguez. havia uma mancha de sangue na meia branca. Mas não o farei mais. — Sei de tudo. — Continue.

atrás das magnólias. Albinus sentou-se numa poltrona. O porteiro veio apanhar a bagagem. manejar hàbilmente o baralho. fina mas firme. A porta do quarto de Albinus achava-se escancarada.. O quarto deserto. Algo fora destruído para sempre. e alegres vozes inglesas chegavam até eles. — Como você quiser — respondeu Margot. vazio. por mais convincentemente que Margot tentasse provar que não lhe fora infiel. — Então você me enganou apenas por brincadeira? Isso é imundo! — Claro que não o enganei. à medida que ia se acalmando. Ele lhe dirá exatamente o mesmo. algo. mesmo. de repente. aos poucos. Lançou-se sobre a cama com seu vestido branco de tênis. levante-se. ou talvez. sombrio.... aquela manhã.. Não porque creia que você me traiu com ele. dali por diante. sem olhar um para o outro. o armário de sobre a pia. fitou-lhe o calcanhar rosado.perturba tanto. lembre-se de que você me insultou a mim. onde se via um pedaço de esparadrapo preto (quando teria ela conseguido colocá-lo?). Vamos arrumar já as malas e partir deste lugar. Ràpidamente. quando fosse a sua vez de dar as cartas. Ela não se encontrava na quadra de tênis. em silêncio. bem. Por fim. e refletiu que poderia matá-la. A sorte estava contra ele. vindas das quadras de tênis. rogo-lhe. vazio. ele se levantou. tampouco. Ele nem sequer beija: mesmo isso seria repugnante para qualquer um de nós. no caminho junto à garage. o sol brilhava. 80 . Não me sinto fisicamente capaz de encontrá-lo agora. não conseguia mais agüentar aquilo e teve uma crise histérica. — Não.. perto da janela. Margot. e certamente o farei. da pior maneira possível. um jornal rasgado. Mas você deve levantar-se imediatamente e trocar de roupa.. no fim. amarfanhado. — E se eu o interrogasse. deteve o olhar na pele bronzeada da barriga da perna. o guarda-roupa aberto. claro. O automóvel fez uma curva desajeitada e desapareceu. Subiu ao andar em que estavam hospedados. entre eles. fizeram as malas. imediatamente. Imaginei tudo de maneira tão vívida. alguns eram tocados por aquela luz lívida que agora se estendia por toda a sua existência. Vamos. Mas. nem. o carro de Albinus. baixinho. quando. Continuaram a falar assim durante uma hora. se você não arranjar nossas malas já. Rex estava jogando pôquer com um casal americano e um russo. Só que você fará um papel ridículo. no jardim. Quero sair daqui o mais ràpidamente possível. — Muito bem.. Mentalmente. seria poluído pelo travo venenoso da dúvida.. não em sua presença? — Pois o interrogue. Quase atirei em você neste quarto.. não importa. não em sua presença.. usar o espelho que havia no interior da tampa de sua cigarreira (pequenos truques que não lhe agradavam e que só empregava quando jogava com principiantes).. — Beije-me — disse Margot. aproximou-se da cama. ia levando a melhor. Não responderia por mim mesmo.. e ao meu amor por você.. No chão. Creio que você compreenderá isso mais tarde. Margot — disse ele. Esperava poder. por favor. mas simplesmente porque não me é possível fazê-lo. — Que é isso? — murmurou Rex. — Acredito em você. não.. também.. que. — Mas. não é por isso.. No terraço. à sombra de um eucalipto gigantesco. viu. um dos pés nus e.. ele passou em revista os mínimos episódios desde que conhecera Rex e.. — Quem está dirigindo aquele carro? Pagou sua dívida e saiu à procura de Margot. começou a chorar com o rosto afundado no travesseiro. Como é que você se atreve a dizer tal coisa? Ele não seria capaz de me ajudar a enganar você.. agora não. mas que não poderia jamais afastar-se dela.

até o topo da montanha. cada vez mais. haviam pago o seu quarto. são capazes de pôr em ordem uma corrente elétrica. com freqüência. ele empurrava a máquina aleijada — rangendo como uma velha galocha — até a oficina de consertos mais próxima. e onde tivera necessidade. mais alta e mais desavergonhada. misteriosa ocorrência conhecida como “curto circuito”. jamais desmontou sua bicicleta. jamais construiu coisas como os outros meninos. 81 . acelerar um pouco. finalmente. distinguiu-se por uma surpreendente incapacidade de fazer o que quer que fosse com as mãos. pelo menos. Durante a guerra. com a ajuda de um canivete. se necessário. deter-se com solavancos e desviar desajeitadamente dos obstáculos. — Que é que você está fazendo. e afundar a outra metade. tirar o carro de Rouginard e. Não sabia dar o laço numa gravata borboleta. não escaparei deste sofrimento. Em vista de tudo isso. ao ver um ônibus surgir à distância. ou. depois. Pensou — um tanto vagamente — que talvez pudesse encontrar um bilhete com alguma explicação. sombrios e confusos. passou atroadoramente por eles. pelo cérebro: que a estrada subia. E.. de algum modo. fritar uma costeleta. fazer funcionar de novo um relógio — ou. Não havia nada.“ Eu ficarei maluco”. e que. Albinus tocou de novo o carro. e quando furava um pneumático. após essa. mas sim que conseguisse. não deve causar surpresa alguma que dirigisse mal um automóvel. Albert? Siga pela direita. seria melhor que tomássemos um trem ou contratássemos um chofer na garage mais próxima. senão montar na mesma. conserve a direita. “Vamos para onde for. Quando criança. — É indiferente para mim o lugar para aonde vamos — disse Margot — mas eu. ao estudar a restauração de quadros.Rex mordeu o lábio inferior e passou para o seu quarto. Agora. Se você não sabe guiar. que se achavam fora de Rouginard.” “A conversa amorosa mais baixa. negro-azulada. que deslisavam suavemente pela estrada. onde as ruas estreitas eram cheias de gente e de tráfico.. Albinus freiou bruscamente. Quando rapazinho. gostaria de saber. Mais tarde. e que jamais sentira o seu coração tão pesado e angustiado como então. — agora. cheio de turistas. A estrada começou a serpentear em torno da montanha. claro. que se estendia à sua frente. “Que importa o lugar para onde vamos?”. pensou ele. de tocar a buzina. começava a descer perigosamente. Margot. que o botão do paletó de Rex ficara preso à renda do vestido de Margot. dirigi-lo. TRINTA E UM Há muitíssimas pessoas que. cáustica. vários pensamentos lhe passavam. Estalou a língua e desceu para o saguão — a fim de verificar se. Lentamente e com dificuldade (e uma complicada discussão — cujo sentido não conseguiu apreender — com o policial que orientava o tráfico numa esquina). — Você não se importaria de dizer para onde vamos? — indagou. Albinus não era uma delas. mesmo. logo depois. sem que possuam quaisquer conhecimentos especializados. Ele deu de ombros e fitou a estrada brilhante. isso é tudo que você tem a fazer. aparar as unhas da mão direita ou fazer um pacote. por favor. não conseguia abrir uma garrafa sem fazer em pedaços pelo menos a metade da rolha. O ônibus. não sabia fazer outra coisa com ela. tinha sempre receio de tocar na tela pessoalmente. conseguiu. de qualquer maneira.

— Não. rodava mais fácil e obedientemente — e ele já não agarrava o volante tão nervosamente. O sol era escaldante. Ao lado esquerdo. Margot riu: — Que necessidade há de parar para isso? Oh. descia. — Você jura que não houve nada? — perguntou Albinus com voz débil. O ponteiro do velocímetro tremia e avançava. Talvez. eu estou melhorando — respondeu ele. Berlim — onde a temperatura também 82 . para aquele encontro inesperado. Bem acima da estrada. mas não estou bem certo. Que é que você está procurando fazer? Se soubesse como me dói a cabeça! Darei graças a Deus quando chegarmos a algum lugar. rápidos. não fique assim vacilante diante de cada curva. a sombra das asas a deslisar por sobre as encostas ensolaradas e duas aldeias distantes doze milhas uma da outra. como Margot movia os ombros e inclinava o pescoço encantador. erguia-se o rochedo íngreme. ao fazê-lo. a ravina. A propósito: estou com muito calor. erguia-se um mor?te rochoso avermelhado. mas não me torture mais. Albinus pisou com força no freio. um homem de óculos escuros estava sentado à beira da estrada. As curvas tornavam-se cada vez mais freqüentes. se subisse um pouco mais alto. — Você sabe que eu guio melhor do que você. querido! Ele ajudou-a despir o casaco e. ao tirar os braços de dentro das mangas. assoando o nariz. se quiser. lhe toldavam a visão. as montanhas da Provença e uma cidade distante de outro país — digamos. com pinheiros no topo. Bem no fundo. o piloto podia ver as curvas da estrada. Piscou e a estrada reapareceu. Agora. além da qual o terreno. O sol apunhalava-lhe os olhos. quentes. — Juro — respondeu Margot. podia-se ou vir o borbulhar de rápida torrente. as lágrimas deslisavam-lhe. quebrando pedras. à direita do rochedo. Margot passou-lhe o braço pela cintura e colou a fronte em sua cabeça inclinada. O carro estava parado perto da amurada. pudesse ver. sorrindo. querido. incontroláveis. num café miserável. — Mas já estou cansada de jurar. o pequeno carro azul avançar veloz em direção da curva. — Tanto! — Deixe-me dirigir agora — pediu Margot. que voava em direção da costa em meio da cintilante poeira azul do céu. Acho que vou tirar o casaco. Creio que mandei a bagagem para San Remo. mas não sei. agora.— Não tornarei a perguntar-lhe para onde vamos — disse Margot — mas. lembrou-se com extraordinária nitidez do dia distante — oh. simultaneamente. Aproximava-se uma curva fechada. TRINTA E DOIS A velha que apanhava ervas no monte viu o carro e os dois ciclistas no momento em que se aproximavam da curva fechada. Mate-me. atrás da qual. dois ciclistas debruçados sobre o guidão de suas bicicletas. — É curioso. precipitosa. sentindo que as lágrimas. para onde vamos. Um pouco adiante. É ridículo. vigorosa barreira de pedra de cerca de trinta centímetros de altura. coberto de espinheiros descia abruptamente. na verdade. arquejante. De bordo de um pequeno avião postal. uma mulher que apanhava ervas viu. — Eu a amo tanto — gemeu Albinus. pelo rosto. e Albinus propôs a si mesmo vencê-la com habilidade. Pôs o motor em funcionamento e prosseguiram. pelo amor de Deus. vindo de direções opostas. descendo em sentido contrário. Albinus teve a impressão de que o carro. De um lado. tão distante! — em que notara pela primeira vez. do outro. se aproximavam.

“Por que razão estou assim tão inquieta?» Do balcão. com estranho desalento.. muitos sorvetes foram vendidos. ou melhor. Se não fosse o poste telegráfico. ‘Que será isto?”. antes.. . a face da terra. a sua voz. pela primeira vez.. Acordara aquele dia sentindo-se muito inquieta. quando este enchia um copinho com aquela substância amarelada que. Mas a cabeça já estava descoberta e era estranho sentir com os dedos os novos fios eriçados dos cabelos. ao ser saboreada. como um slide colorido: a curva da estrada brilhante e azulada. Ainda tenho uma marca enorme em meus 83 . naquele determinado dia. bem diante dele. Sentia que estivera mergulhado em agradável modorra e que acabara de despertar. continuaria a contar aos outros como foi que vira.. O braço estendido de Margot atravessou rápido o quadro — e. O avião postal voava para St. o brilho úmido da sebe em torno da sepultura. O balcão parecia elevarse cada vez mais alto. estava banhada de sol. Pelo menos durante um ano. que.. Talvez eles logo as retirassem. o rochedo verde e vermelho à esquerda. Mas por que somente a sua voz? Por que passara tanto tempo sem vê-la? Ah. TRINTA E TRÊS Albinus não sabia bem quando e como tivera conhe1 1 cimento de tudo aquilo: do tempo decorrido desde que fizera alegremente aquela curva até aquele momento (duas semanas depois). um momento em que todos esses fragmentos de informação se converteram em apenas um: ele estava vivo. a fim de desviar-se deles. o que vira. e o carro lançou-se sobre um monte de pedras à direita — e. em outros tempos. No dia anterior ou. pensou ela. do lugar em que se achava (uma clínica em Grasse) e da operação a que fora submetido (uma trepanação). e os dentes da frente doer deliciosamente. Retinha na memória um quadro que era. Foi medonho. em que nada de especial acontecera: a visita habitual ao cemitério. Essa lembrança fora completada por Margot. Irma. desde Gibraltar até Estocolmo. Chegou. quando Elisabeth saía ao balcão e via um desses sorveteiros. aquelas ataduras!.. fazia a língua da gente dançar na boca. os ciclistas que se aproximavam — dois macacos empoeirados. quem sabe. Mas que lhe dissera a voz de Margot? — .. com a gravidade da avidez. Permaneceu um pouco no balcão e pensou no dia anterior. ela lhe contara. plenamente consciente e sabia que Margot e uma enfermeira do hospital se achavam junto dele. Um movimento rápido do volante.. no mesmo instante. . De modo que. teríamos saltado por cima da amurada e despencado no precipício. Cassien.. ele não o sabia. a amurada à direita e. Mas que horas eram. abelhas pousando sobre as flores.. A velha estava colhendo ervas numa encosta pedregosa. a lanterna mágica se apagou. os gestos do sorveteiro. em Bruxelas. agora.estava elevada. naquele dia. Em Berlim. porém. Tinha a testa e os olhos cobertos por grossa e macia atadura.. lhe parecia estranho que o homem estivesse todo vestido de branco e ela toda de preto. podia ver o sorveteiro com seu boné branco. e agora notava. numa fração de segundo.. para o sul. pois que. vestindo blusas de malha alaranjadas. em Paris e muito mais além. em seguida. costumava olhar. emergira daquele pesado torpor a que se habituara ultimamente. Talvez ainda fosse de manhã cedo. o silêncio e a terra macia. um poste telegráfico surgiu diante do pára-brisa. e não podia compreender porque razão se sentia tão estranhamente tensa. nem qual a razão de seu longo período de inconsciência (efusão de sangue no cérebro). O sol lançava sobre os telhados uma luz deslumbrante — em Berlim. em sua espaventosa intensidade..

sim.. le carro. de repente. Margot repetiu várias vezes a palavra. como se fosse demasiado pesada para se mover. às apalpadelas. procurando transformar os sons incoerentes em formas e cores correspondentes. riscou-o. ouviu um leve chiado... havia também o som de água a correr e o retinir de um balde. sentiu cheiro de enxofre. milie. Soucoupe. Procurou. encontrou uma caixa.... aquilo. (Isto era dito. durante todo o tempo. E o tempo? Seria manhã. beacoup milie marcos. Ela. Mas o quarto continuava inteiramente escuro. fora.. Albinus afastou cuidadosamente a atadura e espiou. O carro deu uma cambalhota e espatifou-se como um ovo... à enfermeira). thé nicht toufours.. Tolice.. Que horas seriam? Quando tirariam as ataduras? Quando poderia levantar-se? Teria a notícia saído nos jornais.. e não manhã. enquanto ele a ouvia mover-se rápida.. em meio da noite absoluta. muito menos. Ele com a pistola na mão. ouviu o riso de Margot e o da enfermeira. Mas não consegui encontrar minhas raquettes de tênis. Ele custou... Ao que parecia.-me a apanhar as coisas. aquele pesadelo em Rouginard. Raquettes de tênis? O sol a brilhar numa raquette de tênis. mas a escuridão continuava. nos jornais alemães? Virou a cabeça de um lado e de outro. e seus olhos nada viam. duas vezes. Mas nada mudou. Talvez a janela estivesse aberta. também. Não conseguia distinguir o tremeluzir azulado de uma janela. com efeito. fósforos e. Ou seriam as cortinas particularmente espessas? Do quarto contíguo. mas não viu a chama. e ambas riram baixinho. Talvez o fio estivesse desligado. nem o médico.. vinha um agradável ruído de louça: — Café aimé toujours. isso não importa. como se o mesmo tivesse se inflamado.. havia apenas um palito de fósforo. e. tudo estava bem... a discrepância existente entre os seus sentidos. Ele passara por um sono longo. o ruído de patas de cavalo. Não sabia como era o quarto.. acenda a luzi — Você é um mau menino — respondeu a voz de Margot. doce. Depois. Apertou o botão uma vez. se elas estavam tomando café lá? — Acenda a luz — disse ele. Ajudaram. pois ouvia. Albinus apalpou o criado-mudo até encontrar a pequena lâmpada elétrica. — Que é que você quer dizer? Parece que você está me vendo — gaguejou Albinus. demasiadas impressões.. Estranho. Jogou-o fora e. Albert. — Margot! Ruído de passos e de uma porta que se abria. nem a enfermeira. está ouvindo? Imediatamente! 84 . Preocupava-o. Você está viva! — Os ciclistas foram muito amáveis. — Você não devia ter tocado nessas ataduras. — Margot! — gritou subitamente. Permaneceu algum tempo imóvel.. nem aquelas leves manchas de luz que ficam nas paredes durante a noite.. Uma noite negra. Como os sons podiam ser enganosos!...quadris. Por que tinha sido aquilo tão desagradável? Oh. — Como é que você pode me ver? Acenda a luz. sem lua. aquelas ataduras o preocupavam. ao que parecia. Era o contrário de procurar imaginar como seriam as vozes dos anjos de Botticelli. como se diz vinte mil em francês? — Oh... manhã cedo. soucaupe. Dentro. Talvez houvesse um pátio com um poço e a fresca sombra matinal dos plátanos. A enfermeira estava ensinando Margot a pronunciar corretamente palavras francesas: —.. zangado. Como podia estar escuro do outro lado da porta. com segurança. estavam sentadas no quarto contíguo. Tudo tinha sido esclarecido. Por favor. De modo que era noite. Sentindo que estava fazendo uma coisa absolutamente proibida. Seus ouvidos absorviam. aproximando-se com sapatos de sola de borracha.

— Calmez-vous. Não se excite — disse a voz da enfermeira. Aqueles sons, aqueles passos e vozes pareciam mover-se num plano diferente. Ele estava ali, e elas em algum outro lugar, mas, não obstante, inexplicàvelmente, junto dele. Entre elas e a noite que o envolvia, erguia-se uma parede impenetrável. Ele esfregou as pálpebras, virou a cabeça para um lado e para outro, debateu-se convulsivamente, mas era impossível abrir caminho através daquela escuridão maciça, que era como uma parte de si próprio. — Não pode ser! — exclamou Albinus, no auge do desespero. — Estou ficando maluco! Abram a janela, façam alguma coisa!” — A janela está aberta — respondeu ela baixinho. — Talvez não haja sol... Margot, talvez eu pudesse enxergar alguma coisa, se houvesse bastante sol. Um vislumbre de luz, por mais frouxo que fosse. Talvez com o auxílio de óculos. — Fique deitado quietinho, querido. Há bastante sol; a manhã está belíssima. Albert, você me magoa. — Eu... eu... — balbuciou Albinus, enchendo profundamente o peito, que se transformou em vasto e monstruoso globo, cheio de um redemoinho estentóreo, que ele depois expeliu lenta, uniformemente... E quando tudo se dissipou, ele tornou a encher o peito. TRINTA E QUATRO Os cortes e equimoses cicatrizaram-se, seu cabelo tornou a crescer, mas aquela terrível sensação, de que uma sólida e negra parede o separava dos outros, persistia. Depois daqueles paroxismos de terror mortal, em que urrara, se debatera e procurara frenèticamente arrancar algo que tinha diante dos olhos, mergulhou num estado de semiconsciência. Depois, avolumava-se de novo aquela insuportável montanha de opressão, só comparável ao pânico de alguém que despertasse e se visse em seu túmulo. Aos poucos, porém, tais acessos foram se tornando menos freqüentes. Permanecia horas inteiras deitado de costas, mudo e imóvel, a ouvir os sons cotidianos, os quais pareciam ter-lhe voltado as costas, em sua alegre conversa com os outros. De repente, lembrava-se daquela manhã em Rouginard — que fora realmente o começo de tudo — e, então, tornava a gemer. Via mentalmente o céu, as distâncias azuis, luz e sombra, casas cor de rosa pontilhando uma encosta verde, brilhante, encantadoras paisagens de sonho que ele fitara tão pouco, tão pouco... Enquanto ele se achava ainda no hospital, Margot leu-lhe em voz alta uma carta de Rex, que dizia o seguinte: “Não sei, meu caro Albinus, o que mais me chocou: se o mal que você me fez com a sua partida inexplicável e bastante indelicada, ou se o infortúnio de que você foi vítima. Mas, embora você me haja magoado profundamente, compartilho de todo coração de seu infortúnio, principalmente quando penso em seu amor pela pintura e por todas essas belezas de formas e de cor que fazem da visão o mais importante de todos os nossos sentidos. Parto hoje de Paris para a Inglaterra e, de lá, para Nova York, e passará muito tempo antes que eu torne à Alemanha. Peço-lhe transmita os meus cordiais cumprimentos à sua companheira, cuja natureza caprichosa e mimada talvez tenha sido a causa de sua deslealdade para comigo. Ah, ela só é constante em relação a si própria; mas, como tantas outras mulheres, anseja por ser admirada pelos outros, o que se converte em despeito quando o homem em questão, devido à sua franqueza, seu

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repulsivo aspecto exterior e suas inclinações pouco naturais, não pode senão despertarlhe irrisão e repugnância. Creia, Albinus, que eu o apreciava muito — mais do que jamais o demonstrei; mas se você me houvesse dito francamente que minha presença se tornara desagradável a vocês ambos, eu teria apreciado muitíssimo sua franqueza, e as lembranças felizes de nossas conversas a respeito de pintura, de nossos passeios pelo mundo da cor, não teriam sido tão tristemente obscurecidas pela sombra de sua fuga desleal — Sim, não há dúvida: é uma carta de homossexual — disse Albinus. — Mas, de qualquer modo, alegra-me que ele tenha ido embora. Talvez Deus, Margot, me haja castigado por desconfiar de você, mas, ai de você, Margot, se... — Se o que, Albert? Continue. Termine a sua frase... — Não. Nada. Creio em você. Oh, creio em você. Calou-se, mas, de repente, começou a fazer aquele som abafado — meio gemido, meio rugido — que era sempre o seu começo de suas crises de terror diante da escuridão que o cercava. — O mais importante de todos os nossos sentidos — repetiu várias vezes, vacilante. — Ah, sim, o mais importante... Quando se acalmou, Margot disse-lhe que ia à agência de turismo. Beijou-lhe a face e, depois, seguiu, saltitante, pelo lado da rua em que não havia sol. Entrou num pequeno e fresco restaurante e sentou-se ao lado de Rex, que tomava vinho branco. — E então? — indagou ele. — Que foi que o pobre mendigo disse, quando você leu a carta? Acha que eu a redigi com habilidade? — Sim, ele engoliu tudo. Na quarta-feira, partimos para Zurique, a fim de consultar um especialista. Por favor, trate das passagens. Mas, peço-lhe, veja se você fica num outro vagão... É mais seguro. -— Duvido — respondeu Rex — que eles me dêem as passagens de graça. Margot sorriu ternamente e pôs-se a tirar as notas da bolsa. — De um modo geral, acho, além disso, que seria muito mais simples se eu fosse o caixa — ajuntou Rex. TRINTA E CINCO Albinus tivesse várias vezes — mergulhado na profundeza de uma noite que empregava as palavras vivas e corriqueiras da vida que se desenrolava à luz do dia — feito alguns passeios, com passos lamentavelmente hesitantes, pelas aléias do jardim do hospital, demonstrou estar muito mal preparado para a viagem a Zurique. Na estação ferroviária, sua cabeça pôs-se a rodar — e não existe sensação mais estranha nem mais perturbadora do que aquela que um cego experimenta quando sua cabeça se põe a rodar. Aturdiam-no todos aqueles sons, passos, vozes, rodas — coisas perversamente estrídulas e poderosas que pareciam, todas elas, correr de encontro a ele, de modo que cada segundo era cheio do medo de que pudesse bater contra alguma coisa, embora Margot o estivesse guiando. No trem, sentiu a garganta intumescer-se de náusea, pois que não podia harmonizar o barulho e o oscilar do vagão com qualquer movimento para a frente, por mais que se esforçasse por imaginar a paisagem que, certamente, passava veloz. E em Zurique, novamente, precisou abrir caminho entre pessoas e objetos invisíveis — obstáculos e ângulos que continham o fôlego antes de atingi-lo.

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— Oh, vamos, vamos, não tenha medo — disse Margot, irritada. — Eu o estou conduzindo. Agora, pare. Vamos entrar no táxi. Agora, era o pé. Será que você não pode ser um pouco menos tímido? Francamente! Você parece um menino de dois anos. O professor, oculista famoso, examinou detidamente os olhos de Albinus. Tinha voz suave e melíflua, de modo que Albinus o imaginou como sendo um velho de cara raspada e clerical, embora, na realidade, o médico ainda fosse bastante jovem e usasse um bigode eriçado. Repetiu o que Albinus, de um modo geral, já sabia: que os nervos ópticos tinham sido atingidos em seu ponto de interseção no cérebro. Que a contusão talvez pudesse advir completa atrofia — sendo iguais as possibilidades. Mas, de qualquer modo, dada a condição atual do paciente, a coisa mais importante seria um repouso completo. Um sanatório nas montanhas seria ótimo. — E depois veremos — ajuntou o professor.. — Veremos? — repetiu Albinus, com um sorriso melancólico. A idéia de sanatório não seduziu nada Margot. Um velho casal de irlandeses, que ficaram conhecendo no hotel, ofereceu-se para alugar-lhes um pequeno chalé situado bem acima de um lugar elegante de repouso nas montanhas. Ela consultou Rex e foram juntos (deixando Albinus entregue aos cuidados de uma enfermeira) ver como era o tal lugar. Aconteceu que o chalé era bastante simpático: uma casa de campo de dois andares, com quartos pequenos e asseados e um recipiente. de água benta preso a todas.as portas. Rex gostou de sua localização: isolado, bem no alto de uma encosta, em meio de abetos negros, apenas a um quarto de hora de distância, a pé, da aldeia e dos hotéis. Escolheu para si o quarto mais ensolarado do andar superior. Contrataram uma cozinheira na aldeia. Rex falou-lhe de maneira a impressioná-la: — Estamos lhe oferecendo um ordenado assim tão alto porque a senhora ficará a serviço de um homem que ficou cego em conseqüência de um violento choque mental. Eu sou o médico que está tratando dele, mas, em vista de seu estado de espírito, ele não deve saber que há um médico morando na casa, além de sua sobrinha. Se, por conseguinte, a senhora divulgar o mínimo que seja, direta ou indiretamente, a respeito de minha presença... dirigindo-se a mim, por exemplo, de modo que ele possa ouvir, a senhora será responsável, perante a lei, por todas as conseqüências que possam advir da interrupção de sua convalescença, e tal conduta, creio eu, é punida severamente na Suíça. Aconselho-a, ainda, a que não se aproxime de meu paciente, nem se entregue a qualquer espécie de conversa com ele. Ele é sujeito a violentos ataques de loucura. Talvez lhe interesse saber que ele já feriu gravemente uma mulher de certa idade (muito parecida com a senhora, sob muitos aspectos, embora não tão simpática), pisando-lhe o rosto. Eu não gostaria, de modo algum, que isso tornasse a acontecer. E, o que é ainda mais importante, se a senhora der com a língua nos dentes aí na aldeia, fazendo com que as pessoas fiquem curiosas, meu paciente bem poderá, na situação em que se encontra, quebrar tudo que existe na casa, a começar pela sua cabeça. Entendeu bem? A mulher ficou tão aterrorizada, que quase recusou o pagamento extraordinário que lhe era oferecido, e só decidiu aceitar o emprego quando Rex lhe assegurou que ela não veria o cego, o qual seria servido pela sobrinha, e que ele era bastante pacífico quando não o aborreciam. Também combinou com ela que nem o entregador de carne nem a lavadeira deveriam jamais penetrar na casa, Isso feito, Margot voltou ao sanatório, a fim de apanhar Albinus, enquanto Rex se instalava na casa. Trouxe consigo toda a bagagem, resolveu de que modo os quartos deviam ser distribuídos e fez com que todos os objetos supérfluos e quebráveis fossem removidos. Depois, dirigiu-se ao seu quarto e, assobiando desafinadamente, pregou na parede alguns desenhos a nanquim, bastante impróprios.

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naturalmente. Colidiu. é claro. era desnecessário. hoje é apenas uma exceção. como se fossem cabeças de crianças estranhas. Margot agitou o dedo em sua direção. onde a cozinheira. a contorcer-se de riso abafado. Albinus tocava nos móveis. depois. — Você vai acabar quebrando a cabeça. lhes foi ao encontro e. por fim. Albert! — Você bem sabe o que disse o médico. um pequeno escritório — explicava-lhe ela. bem em baixo da montanha. Na verdade. reapareceram. — Então a janela é ali — disse ele. — Este é o meu quarto — disse Margot. — Uma pequena sala de jantar. Ombros encovados. — Oh. Rex. ainda conduzindo Albinus pelo braço. — Conduza-me a todos os cômodos e descreva-me tudo — disse Albinus. sorriu como quem se desculpa. que subiu o resto do caminho segurando a bengala diante de si. procurando não olhar o lunático perigoso. não sei se andar assim de um lado para outro é bom para você. foi de encontro a uma parede. mas estava já tão confuso que julgou que havia saído do quarto de banho. tudo isso. 88 . esse é um quarto de despejo — disse-lhe Margot.Cerca das cinco horas. Margot abanou a cabeça. dava palmadinhas nos diversos objetos. — E este outro é o seu. mas pensou que isso daria prazer a Margot: ela adorava mudar de casa. lado a lado. debruçado sobre o parapeito da janela. Mas quase imediatamente perdeu o rumo. enquanto o guiava pelo andar térreo. um automóvel de aluguel que se aproximava. diga-se de passagem. que recuara até à porta de seu quarto. estava agindo como um colegial. desajeitado. Agora. — Cuidado. a escada de madeira. o quarto de Rex). logo a seguir. ele. quase quebrando. apanhou um binóculo e viu ao longe. comprimindo a boca com a mão. apenas para mostrar a Margot quão esplendidamente ela lhe permitira ver tudo. penosamente. Em cima. pudesse ter relinchado de maneira admirável. Margot sorriu-lhe e entrou na casa. numa blusa de um vermelho vivo. pois que a escada rangia ensurdecedora. numa exibição muda. Enquanto isso. zangada: brincadeira perigosa. saltou do carro e ajudou Albinus a descer. uma jarra. com a ponta da mesa e fingiu que o fizera propositalmente — apalpando-lhe a superfície. tornaram a sumir e. em circunstâncias mais favoráveis. — Por que não ocupamos apenas um? — indagou ele. Desapareceram atrás de uns abetos. apanhou a maleta que Margot trazia. Albinus tentou andar pela casa sozinho. O carro fez a volta e desapareceu atrás de um bosquete espesso. cautelosamente. como se quisesse tomar-lhe as medidas. Margot tomou pelo braço o homem humilde. uma saleta de estar. óculos escuros. e procurava orientar-se. Na verdade. pulando de um lado para outro. Não pense que eu deixarei que você continue a realizar essas explorações pela casa. rangente. Isso. apontando confiante para uma parede nua. Extraviou-se e por pouco não penetrou no quarto do fundo (do qual Rex se apropriara e no qual só se podia entrar vindo do corredor). já se achava de todo coração dedicada a Rex). abaixouse várias vezes. abriu bruscamente os braços (numa imitação de Punch). Rex. volte e procure dirigir-se diretamente para a cama. expectante. saudava Margot com gestos cômicos: levou a mão ao coração e. Margot. com ar sombrio (que. Ele. Depois de percorrer todos os cômodos (salvo. pôs-se de pé e recuou na ponta dos pés. na verdade.mente sob os passos do cego. surgiram no pequeno terraço do jardim. ele parecia uma coruja. Dobraram para o corredor. não estava interessado em conhecer a casa. Depois subiram. estava sentado Rex. no último degrau. embora.

do virtuoso que não é senão uma acessória extensão carnal de seu violino. E os movimentos tranqüilos. Como ainda não conheciam bem a acústica da casa. Cenas evocadas povoavam-lhe a galeria de quadros do espírito: Margot. novamente. As trevas o separavam de sua vida anterior. sua descoberta mais brilhante tinha sido Margot.. e sua vida com ela parecia agora ter mergulhado numa luz pálida e suave. Depois. nem sempre conseguia convencer-se de que a cegueira física era visão espiritual. uma única voz de pássaro. infundia-lhe uma certa austeridade e nobreza nos pensamentos e sentimentos. Aterrorizava-o pensar. exceto carvalhos e roseiras. na verdade. Margot quando se aconchegava ao peito do cego. Margot. bruma. Se. Irma a brincar com bolinhas de gude (um arco-íris em cada uma delas) e. prateado. em que só ocasionalmente algo emergia de sua bruma leitosa: os seus cabelos claros à luz de uma lâmpada.. um farfalhar de saias e um perfume. TRINTA E SEIS A negra e impenetrável mortalha em que Albinus agora vivia. de Elisabeth. a descerrar uma cortina roxa (como ansiava. aquela frieza angélica aquela voz que lhe pedia para que ele não se ex citasse Mas. falavam em sussurros. em seu maiô brilhante.. porém. Claro que era como vente claro que ela era melhor do que a esposa mais leal. Margot num vestido de noite. e seus contornos eram singularmente imprecisos. depois. quase flutuantes. aquela Margot invisível.Ele. num avental bordado. Mas. e mesmo estes se aproximavam mais da heráldica do que da natureza. agora. evocava uma paisagem em que antes vivera. a caminhar por entre poças d’água purpurinas. por aquela cor desbotada!). Mas nem sempre Albinus podia consolar-se com reflexões estéticas ou morais. Albinus tinha agora consciência de que. Tudo — mesmo o que havia de mais triste e de mais vergonhoso em sua vida passada — estava sobrecarregado com a sedução enganadora das cores. erguia os olhos ao céu comum ar cômico de resignação. agora. afastando-lhe o ombro com a mão. era como se ele houvesse voltado à escuridão daquele cineminha da qual a arrancara. logo que lhe segurava as mãos nas trevas logo que procurava exprimir-lhe sua gratidão. Rex gostava muito de sentar-se no quarto em companhia de Albinus e observarlhe os movimentos. ou mostrava a língua para Albinus — o que era particularmente divertido. tudo o que restava dela era apenas uma voz. A especialidade de Albinus tinha sido a sua paixão pela arte.. pois que o quarto de Albinus ficava bem distante. a claridade sobre a moldura de um quadro. desvencilhava-se com um 89 . em quão pouco usava os seus olhos — pois que aquelas cores se moviam num segundo plano demasiado vago. avivava-as subitamente nele um desejo intenso de vê-la. Margot nua diante do espelho do guarda-roupa. Margot meteu-o na cama e levou-lhe o jantar. a lançar uma bola. não conseguia citar o nome de uma única planta. não se extremara muito de certos especialistas de visão estreita dos quais costumava zombar: do operário que conhece apenas as suas ferramentas. Depois. já se sentia completamente exausto. com os ombros bronzeados de sol. mais profunda e mais pura — e concentrava-se em vão na idéia de sua comovente dedicação. debaixo de um guarda-chuva molhado. salvo pardais e corvos. roendo uma rosca amarela. subitamente extinta em sua curva mais acentuada. Mas bem podiam ter falado em voz alta. Margot. pensou em sua própria vida. agora. em contraste com a expressão terna e romântica do rosto do cego. por exemplo. e todas aquelas reflexões morais se dissipavam. juntou-se a Rex. Depois que ele adormeceu. em vão tentava ele enganar-se com a idéia de que sua vida com Margot era agora mais feliz.

o dorso e os pés. Albinus tinha quase a impressão de que podia ver os móveis e os vários objetos. qualquer coisa que pudesse restaurar-lhe a visão. Procurou aguçar o ouvido e adivinhar os movimentos pelos sons. Ou fingia que ia deixá-la cair. sentado no parapeito da janela. na ponta dos pés nus. Se ela agora continuar em minha companhia. embora se entregassem a vários gracejos inofensivos. com um bocejo silencioso. erguendo-se da poltrona e avançando. contraindo e distendendo os lábios. Tornou-se logo muito difícil para Rex aproximarse ou afastar-se sem ser notado. .. para caso de emergência. Rex e Margot eram bastante cautelosos. mudara todas as cores. Isso é bom. quando se achava sentado no jardim. estendendo os braços. refletia Albinus. e isso lhe dava uma sensação de segurança. de repente. — Leia alguma coisa para mim. se ele não fizesse como ela lhe dizia. Margot descrevera-lhe todas as cores — o papel azul das paredes. se sentava no parapeito da janela — pois que adorava queimar as costas ao sol. de dedos longos. pôs-se a soluçar alto. Albinus.. nus. que adorava correr perigo. Por mais silenciosamente que ele passasse. De vez em quando. ergueu as pernas. que. em direção dela. a um terceiro. significa que realmente me ama. vacilante. e Margot gritou com Albinus. após aquele seu primeiro passeio pela casa. Margot transpunha. O rosto coberto de pêlos eriçados.. de calças brancas. que dava para o corredor. — Está bem. Rex sentou-se cautelosamente no sofá e tomou Margot no colo. declarando que ela o deixaria imediatamente com uma enfermeira.. venha cá — gemeu Albinus. está bem —suspirou. porém. à noite. Ela abriu o jornal e. venha cá — implorou ele. Rex. a um quarto. Mas. “Sim. após dobrá-lo numa página e percorrer as notícias com os olhos. causava a este último requintado prazer. é mais puro e elevado. com um sorriso de culpa. Rex. de vez em quando. — Minha querida.movimento ágil e afastava-se para junto de Rex. O fato de o cego ser obrigado a imaginar o seu pequeno mundo segundo os matizes prescritos por Rex. Diante da porta de seu quarto..e na poltrona. enquanto Rex se afastava sem ruído de volta ao parapeito da janela — seu poleiro habitual. as venezianas amarelas — mas. — Margot. contorceu as mãos e suplicou que ela o levasse a outro especialista. acenava com a cabeça e. apanhou um punhado de cerejas na tigela que estava sobre a mesa e partiu para o jardim. Mas. querida? 90 . embora já pudesse orientar-se bastante bem em seu quarto e no escritório. O jornal. de pijama e robe-dechambre. de repente. demasiado inconsistente e cheio de sons. Albinus. Albinus voltava imediatamente a cabeça em sua direção e perguntava: — É você. Margot tornou a levantar os olhos para o céu. talvez seja melhor assim”. Albinus arrastou-se de volta à poltrona. agora. Rex imitava Margot. instigada por Rex. Em seus próprios aposentos. pôs-se a ler em voz alta. “Nosso amor. como ela fazia quando lia. e tocava no cego com a máxima delicadeza. Albinus lançava um som afetuoso e satisfeito e tentava abraçar a suposta Margot. para que lhe permitisse formar uma imagem daquilo que o rodeava. de modo que. cuspindo na mão os caroços invisíveis. lentamente. uma barricada de malas e caixotes — barricada essa que. sua voz falseava e ela precisava procurar o fim da frase interrompida. Rex. uma cicatriz cor de rosa e brilhante na fronte. sentia-se cercado por um vasto mundo desconhecido. tortura. isso é bom. Albinus reclinava. não estava mais interessado em sua topografia. aproximava-se bastante de Albinus. Rex erguera. pois tudo era demasiado grande. parecia um convicto barbudo. consumia cerejas invisíveis. Durante os primeiros dias de sua vida em comum. uma operação.

e que tinha o aspecto de um carneiro. Albinus voltou-se em sua cadeira: — O que é isso? Quem está aí? — Oh. secamente. apanhar as cartas e os jornais. Rex agora conseguia sentar-se à mesa com eles. ela. À tarde. saía a passeio em companhia de Rex. recoberto de convólvulos. Albinus. grande e cinzento. — Você ficará maluco. aos poucos. Ele assina tudo como uma máquina. ouviu subitamente. antes de dar o fora. Rex engasgou. pois. — Ontem. Com um pouco de astúcia. após alguns minutos. Ele não estaria interessado em quebrar essa determinada janela de igreja. como uma pequena prova de nossa gratidão. este inverno. esquisito. furtivamente. — Não fale assim tão alto — disse Margot. alto. Rex atirou uma pedra contra o animal. Eles estragam muito as árvores — murmurou Margot. — Bem. o livro de cheque atenderá admiràvelmente ao nosso propósito. Certa vez. se Margot lhe respondia de outro canto. assinalava o limite além do qual era perigoso falar. mas errou o alvo. mate-o. pois não? — Você precisa fazer com que ele venda os seus quadros e as terras que tem na Pomerânia — prosseguiu Rex. Esse marco de pedra.. e quanto mais Albinus se esforçava por apurar o ouvido. 91 .. bem abaixo do lugar em que moravam. Comia com silenciosa habilidade. por exemplo. Margot.. Precisamos apressar-nos. tanto mais ousados Rex e Margot se tornavam. de sua fortuna. só porque abandonou a esposa. Receio muito que ele. mas ele ergueu a mão: — O que foi isso? O que foi isso? Rex apanhara o seu prato e afastara-se na ponta dos pés. Margot pôs-se logo a falar. quando já se achavam no caminho que conduzia ao chalé. poderemos consegui-lo. que falava propositalmente muito alto. um som estranho. uma voz. se não tiver cuidado — disse. durante a sesta habitual de Albinus. mas. como fizera no começo. ao invés de tomar as refeições na cozinha. Por enquanto. Por que é que você está tão nervoso? — Mas ela nunca entra aqui. tenha passado a encará-la como a uma santa preciosa de vitral. O plano mais simples e melhor. a quem Margot estava servindo uma xi. Passavam os dias. foram até a um café situado na bela aldeiazinha. — Bem.. jamais tocando no prato com o garfo ou a faca. é nos apossarmos. mas nós já apanhamos uma grande fatia dela. derrubou um garfo. ou subiam até a cascata — e. Prosseguiram. ao voltar para casa. Rex disse: — Aconselho-a a que não insista em casamento. já se achavam perto do portão do jardim. — Oh. movendo as mandíbulas num ritmo perfeito com as de Albinus. Iam ou correio. — Quem estraga as árvores? — perguntou. em silêncio e. mas logo ficará sem fundos no banco. é apenas Emilia.. Mas. Margot riu subitamente e mostrou um esquilo. na outra extremidade da mesa. ou ao som da voz musical e animada de Margot. Certa vez.. nós lhe compraremos um cachorro. às vezes. tinham-se acostumado à cortina de segurança de sua cegueira e. então. por duas vezes. hoje entrou! — Julguei que eu estivesse começando a ter alucinações auditivas — disse Albinus. sob o olhar de adoração da velha Emilia. Seria bom que o abandonássemos. a mastigar como num jantar de filme mudo. enquanto os dois homens mastigavam e engoliam. — Já estamos quase chegando ao marco de pedra. uma de suas casas em Berlim. digamos. quando saia sorrateiramente pela porta entreaberta.cara de café. — Ou. tive a impressão exata de que alguém andava descalço. pelo corredor. o guardanapo colado à boca.E ficava aborrecido por ter-se enganado.

. Árvores. indo de seu quarto ao da empregada. Albinus se achava sentado em sua poltrona de couro. Achava-se tomado de estranha inquietude. pálida. ela está muito longe. Depois. subindo lentamente a escada. Margot falou-lhe de sua infância. De certo modo.. ela gostava de fazê-lo. No meio da noite. naquele tempo. ele estendeu os dedos e procurou limpá-las como o poderia ter feito uma criança. girou o trinco. segurando-o rudemente e ajudando-o a levantar-se. simplesmente para constatar que ela não estava dormindo sozinha. com quem você está falando aí em baixo? — prosseguiu ele. Colou o ouvido ao buraco da. você ficará fechado — disse Margot. até encontrar a posição dos ponteiros. quase em lágrimas. metendo-lhe a bengala na mão. ir embora. preso. a fumar. — Há muitos ruídos por aqui. A seu pedido. derrubou a bengala e sentou-se pesadamente no degrau. Deitado. Era cerca de uma e meia. poucos passos além. Ultimamente algo o impedia de concentrarse nos graves e belos pensamentos. — Quem está aí? — gritou. murmurou. vento. assim. — Eu queria apanhar um esquilo — disse Margot. para ouvir-lhe a respiração enquanto dormia. Albinus recolheu-se cedo. O que é. Mas nada ouviu. — Que é que você pensou que eu estava fazendo? — Julguei. — Não há ninguém aqui — informou Margot. ele era leve e ágil. levantou-se da cama e caminhou. De repente. não esquecera. — Leve-me para dentro — pediu ele. fechadura. pensou: “Que será isso? Elizabeth? Não. os únicos capazes de protegê-lo contra os horrores da cegueira. É tudo muito barulhento.. Mas. em algum lugar. a sentir os degraus com os pés e a ponta da bengala. quase perdendo de novo o equilíbrio ao lançar-se na direção de Rex. Estava de pé. triste. — Margot. esquilos e não sei o que mais. depois. deixando-o. até a porta do quarto de Margot (seu quarto não tinha outra saída). — Doravante. 92 . Não sei o que está acontecendo ao meu redor. o sol se pôs atrás da cordilheira próxima.. tropeçou. podia enxergar. Quieta como um camundongo . Este estado de coisas de irmão e irmã é apeias por enquanto. — Estou sozinha! Por que é que você está nesse estado? Sentia que estava perdendo a paciência. numa abafada noite de verão. Urna sombra querida. caminhara pela cornija de uma casa junto ao Reno. despertou e passou os dedos pelo mostrador de um despertador sem vidro. Se eu pudesse apenas acariciar-lhe a cabeça e. quando ele era apenas um rapazinho espinhento. Não.. às apalpadelas. fitando-os fixamente com seus olhos azuis e turvos. em meio a uns arbustos de silindra. que não deverei jamais perturbar. — começou Albinus. pensou Albinus com ternura. como sempre. arrastando-o para a casa. Ela sempre o fechava à noite. Como sempre. sobre um pequeno degrau de pedra que conduzia do caminho ao gramado. então?” Sem saber bem o que desejava. a oscilar ligeiramente.. lá em baixo. “Como ela é sensata”.. Está muito longe. Ficaram-lhe grudados às mãos alguns pedacinhos de cascalho. Talvez ela tivesse esquecido de fechar a porta Sem muita esperança.. Margot e Rex sentaram-se lado a lado no sofá. — Como é que você se atreve a andar tão longe sozinho? — exclamou ela. Margot? Não. que caminhava cautelosamente pelo gramado.Era Albinus. lembrou-se de como. naquele tempo. De repente.

sentiu que Margot estava despida. — Tolice. um som abafado — algo assim entre um rangido e sussurrar de vozes. já é manhã. Albinus saiu para o corredor (com muita dificuldade. A janela estava aberta e a vidraça retiniu. onde está você? — gritou.. É urna e meia da madrugada. — Margot. segurando-se ao que parecia ser um cano de água. calmamente. Mas diga-me uma coisa: como foi que você saiu de seu quarto? — Margot. Ao afastar a bengala. pensou. procurou a bengala.. Seu relógio deve estar errado. mas era a única maneira.. Tudo continuou em silêncio. caiu ruidosamente ao chão. depois. respirando pesadamente. frio e redondo. o rosto banhado de suor. às apalpadelas. nas pontas dos pés. Você mexe demais nos ponteiros. e agarrou-se de novo ao parapeito da janela do quarto contíguo. Eu apalpei os ponteiros do despertador. Margot? Você não se deitou? Albinus foi de encontro a ela no corredor escuro e.. ao qual foi de encontro. — Eu estava deitada ao sol — explicou Margot. — Alô. Albinus sentou-se nela e pôs-se a refletir. Agora. Margot — repetiu ele. — Não posso compreender. Julgou ouvir.“Ainda assim. Escorregou e quase caiu para trás. mesmo? Você está me dizendo a verdade? Subitamente. devido à ausência da bengala) e ficou a escutar. Albinus agarrou-se ao marco da janela. querida — exclamou alegremente. a voz de Margot. querido. que importa?”. subiu ao parapeito. pelo corredor. Seu coração batia violentamente. junto à janela do quarto contíguo. seguindo. Contorceu-se sobre o parapeito. Albinus já não podia mais perceber que o ar estava ainda frio e que nenhum pássaro cantava 93 . Passado um momento. escapou-lhe da mão e caiu ao chão. seria fácil compreender: Margot voltaria dentro de um momento. — Como sempre faço pela manhã. “Como foi simples!”. Encontrou a cama. como fazia em outros tempos. São seis e meia da manhã e está fazendo uma maravilhosa manhã de sol. ao tocar-lhe o corpo. Se a cama estivesse desarrumada e quente. quando ele a tocou com a bengala. na abstração de um jardim. — Que aconteceu. procurando meter-se pela janela aberta. se você quiser. “E se eu cair e quebrar o pescoço. — Mas agora é noite! — exclamou ele. algures. (Era a resina que transudava das taboas de pinho de que a casa era construída). e passou-lhe os braços pelo pescoço. Há alguma coisa errada. — Margot. sobre a qual se distendia uma coberta rendada. Ficou imóvel.. produzindo um ligeiro baque. “Deve ser exaustivo cuidar de mim o dia inteiro”. Silêncio. uma porta se abriu. Uma cama em que ninguém dormira. e um objeto pesado. refletiu. Primeiro. Como uma grande exceção. esta bateu em algo. sem orgulho. por que não tentar?”. — Embora seja dia — disse ela.muito fazê-lo. à esquerda. Ela não desejava . debruçou-se sobre a janela e apalpou a cornija. baixinho — se você quiser. Depois. caminhou para a esquerda ao longo da cornija. pensou com ousada melancolia.. “Como ela dorme profundamente!”. ela se aproximou muito dele. Margot! — disse baixinho. Sentiu na mão algo pegajoso. — Estou aqui — respondeu. Aquilo começava a ser misterioso. — Margot.

. Gosto de seus pudins. Albinus teve a impressão de que alguém — não Margot. mergulhou num sono profundo. poucos dias depois. Não podia ser Margot. Margot — perguntou ele. ouviu distintamente alguém tossir de leve. logo depois: — Sabe. — Quem está aí? — indagou. pôs-se a assobiar. e ele voltou imediatamente para casa. — Psiu.. ouvia. não há mais ninguém na casa? Você tem certeza? — Você está maluco! — respondeu ela. Ficava o dia todo sentado. compreendendo. — Além de Emília. mas alguém a seu lado — riu baixinho. na casa. — Impossível — disse. habilmente. que estampava breve descrição do acidente. Mas ela não o tinha feito. — Espante-o! — ordenou Albinus. Súbito. pensou. Nenhuma resposta. embora Margot lhe houvesse pedido que fosse mais prudente. sim. Albinus permaneceu sentado na sala de estar. E. Albinus ficou alguns minutos a meditar profundamente. de repente. como um papafigo. no escritório. Margot? Preciso muito fazer a barba. conseguiu entrar em contacto com o méd4co do hospital. uma vez despertada. Durante todo o dia. o Berliner Zeitung. eventualmente. os ouvidos atentos. curiosamente. nada — murmurou ele. telegrafou para a delegacia de polícia de Grasse e. Quando acordou. — O que é que é impossível. impetuosa alegria. Sim. depois. não dera atenção alguma à sua advertência. no mesmo dia. aquela suspeita não lhe dava repouso. pensando naquela manhã feliz e nos muitos dias que transcorreriam sem que aquela felicidade se repetisse. receoso de que Elizabeth também já houvesse lido. mesmo.pois que sentia apenas uma coisa — uma grande. Depois. eram os ruídos que ele. Margot teve de explicar que o pássaro pousara na janela e lá estava cantando. o que o preocupara tanto durante a noite. soturno. Certa vez. Diga ao barbeiro da aldeia que venha cá. Mas. quando se achava apenas a dois passos de Albinus. — Você fica muito bem de barba. quando Margot voltou. — Sabe de uma coisa? — disse Albinus. mais furiosa ainda ao ver-lhe o sorriso melancólico. — Ela é muito surda e tem um medo terrível de você. as vezes. embora um exemplar desse jornal (que eles não costumavam ler) se encontrasse. — Isso está absolutamente fora de cogitação — respondeu Margot.. cansado.. — Diga-me uma coisa. — Nada. Sabia que ela estava na cozinha. Albert? — Oh. TRINTA E SETE Um homem mostrou a Paul. profundo. — Eu gostaria de ter uma conversa com Emília. levando a mão aos lábios grossos de Rex. em voz alta. Margot repreendeu-o pela sua façanha e. ríspido. — fez Margot. deu-lhe um tapa no rosto.. psiu. — Isso é desnecessário — respondeu Margot. áspera. “Outra alucinação!”. e dormiu até o meio-dia. que o informou de que 94 . Rex divertia-se muito com aquilo e. Paul.. Albinus.

pensou. E. Mas. exatamente?” Imaginou Albinus sozinho em companhia de sua perigosa amante. na sala de estar.. “Sinto-o em meus ossos. vindo até aqui”. pois Elisabeth não precisava daquilo e não havia mais necessidade de se pensar em Irma). Perguntou a si mesmo se não seria o fato de o cego assinar tudo conforme lhe diziam. pensou Paul. Bem. e uma jovem funcionária muito loquaz lhe indicou o caminho que conduzia ao chalé.. embora fosse muito trêmula nas curvas e descaísse patèticamente. Paul rumou para lá incontinenti. descobriu o endereço de Albinus na Suiça. afinal de contas.. mostrou-lhe os cheques que de lá chegavam sem cessar. TRINTA E OITO No dia seguinte seguinte.. Paul partiu para a Suiça. sim. Mas a presença de um médico o surpreendeu. Albinus e Rex estavam sentados. Albinus estava sendo mais bem tratado do que se poderia supor. de certo modo. Paul deteve-se diante do edifício dos correios. um seu velho companheiro de negócios. foi informada de que um senhor corpulento acabara de perguntar por Albinus e rumado para o chalé.. Em Brigaud. informando-o de que Albinus lá se encontrava hospedado em companhia da sobrinha e de um médico. constrangido.. Paul transmitiu a notícia a Elisabeth. mas. — Você vai a algum lugar? — Você é quem vai — respondeu. e Albinus podia esbanjá-lo consciente ou inconscientemente. mas completamente cego. e não o que ele via. em voz baixa. Quem poderia imaginar. um ar de mistificação. . o dinheiro era dele. de traços nítidos e floreados. A assinatura estava em ordem. “Há alguma trapaça em tudo isto”. mas. o mais depressa possível. de qualquer modo. terei uma conversa com esse médico. completamente à sua mercê. o fato de Albinus se encontrar tão completamente desvalido em meio ao mundo perverso que ele permitira se erguesse em seu derredor. e havia em tudo aquilo. Paul encontrou Elisabeth arrumando uma mala de mão. — Que é isso? — indagou ele. Não se tratava apenas do fato de o pobre homem estar a assinar cheques que não podia ver (de qualquer forma. Mas o que será. uma vida destroçada. Certa tarde. “Talvez. Depois. mas as cifras estavam escritas numa outra caligrafia — uma caligrafia masculina e ousada.. ou alguma outra pessoa. o máximo de dinheiro. chegou um cheque sem fundos.“ Aquela manhã. Não notou o táxi de Paul. Pobre sujeito. que produzia aquela estranha impressão. agora que estou aqui.Albinus se achava fora de perigo. devido ao simples fato de que tanto ele como o cunhado tinham depósitos no mesmo banco. tomou um táxi e. Rex achava- 95 . Nesse momento. “Ele talvez esteja bastante satisfeito. com uma espécie de apressada regularidade. Elisabeth. um diante do outro. depois. Paul. Margot descera até à aldeia em companhia de Emilia. Paul sentia-se tremendamente inquieto. transcorrida pouco mais de uma hora. ao chegar à casa. Com muito tacto. Sabia quem era a tal sobrinha. eu tenha feito papel de bobo. na negra casa de sua cegueira. Ao que parecia. e o sol penetrava através da vidraça da porta que dava para o terraço. estivesse frenèticamente interessada em retirar. as grandes quantias retiradas — como se ele. e Paul ficou surpreso diante da quantia que Albinus já havia sacado. O gerente. no correio. Estranhas. também. Transcorreram alguns dias.. chegou à aldeiazinha junto à qual Albinus estava vivendo. .

Rex levou o dedo aos lábios e fez-lhe um sinal. através da vidraça. assombrado. mas. Depois Rex se inclinou lentamente para diante e tocou quase imperceptivelmente a testa de A1binu com o pedúnculo de relva que estivera a chupar. esguio mas robusto. que acabara de levar a mão à testa contraída. sem fôlego. Rex fez o mesmo e. alguém caiu por trás sobre Paul Era Albinus — agarrando-se a ele. e Albinus. acertando o alvo em cheio. tendo na mão um pesa-papéis. — Agora compreendo tudo. O amarelo? — perguntou Paul. Rex. ainda sorrindo. o pacífico e bem-humorado Paul. Rex roçou-lhe os lábios e Albinus tornou a fazer aquele movimento inútil. Estava atento. à medida que estes se refletiam na fisionomia de Albinus. não fazia outra coisa senão ouvir. — Paul. o rosto pousado sobre a mão (numa pose que se assemelhava um tanto ao Pensador de Rodin). — Qual deles?. acovardado junto da branca parede. Entrementes. tinha o dedo posto sobre os lábios. de boné axadrezado — cujo rosto reconheceu imediatamente — parado no terraço. Entre os lábios cheios e vermelhos. 96 . tinha uma longa haste de relva e. seu corpo. Aquilo era divertido. a choramingar. no guarda-roupa. e saiu correndo em direção da escada. começou a gritar e a falar confusamente — e só aos poucos as palavras se f oram formando em meio de todos aqueles sons entrecortados. o rosto contraído ainda num sorriso. como se aquele rosto se houvesse transformado num único olho. Albinus pusera-se de pé. a ouvir.. Albinus encontrou imediatamente no bolso o que desejava. Albinus suspirou de modo estranho e afastou com a mão a mosca imaginária. o braço erguido. Estava completamente nu. Mas o outro abriu a porta e entrou no quarto. Em conseqüência de seus banhos de sol diários. que.. a olhar. Paul apanhou a bengala do cego. que se voltou e levantou os braços para proteger-se — e Paul. Ultimamente. — Paul. Está pendurado ali. de repente. Imploro-lhe. Rex saltou para trás. que jamais em sua vida atacara uma criatura viva. fitava Albinus. Paul.. era intensamente bronzeado. o cego voltou abruptamente a cabeça para o lado. quando os seus olhos se apagaram. O sinal avermelhado de sua cicatriz parecia ter-se estendido por toda a sua testa. diga-me que estou sozinho! Aquele homem está nos Estados Unidos. — Paul — gemeu ele. por sua vez. De repente. e seu rosto barbudo exprimia angustiada tensão. algo extraordinário aconteceu: como Adão depois da Quéda. sem dúvida. cobriu com a mão a sua nudez. ficou petrificado. Rex sabia disso e observava-lhe os pensamentos. Paul! Acho-me completamente cego! — Foi uma pena o senhor ter estragado tudo — disse Rex. e deixou de lastimarse. para dentro. cor de rato. mas Rex desviou-se e subiu correndo a escada. com um sorriso exangue nos lábios. Ele não está aqui. Dê-me o meu paletó. sem dúvida! De repente. significando que iria recebê-lo dentro de um momento. Um ou dois pequenos testes poderiam tornar aquilo mais divertido: bateu. de dobrar. — Oh.se sentado num banquinho de lona. eu o conheço. viu um senhor corpulento. respirando profundamente e fitando aquele homem nu. O senhor se chama Rex — disse Paul.. estou aqui sozinho — gritou Albinus. Paul. O cego vestia um amplo robe-de-chambre. no joelho do cego. muito de leve. alcançou Rex. parecia olhá-lo intensamente. os pêlos escuros do peito em forma de uma águia de asas distendidas. desferiu violenta bengalada na cabeça de Rex. Nesse momento. que. depressa. Paul tomou a investir contra ele.

Correu na direção deles e gritou algo. vamos. ambos. bem de perto. usava óculos escuros e tinha uma cicatriz na testa pálida.. A princípio — enquanto se encontrava ainda na Suiça suplicou a Paul. Preciso. TRINTA E NOVE Na Terça-feira Elisabeth recebeu um telegrama e. de modo a adaptá-lo às necessidades do cego. no dia seguinte. Albinus nada disse. — Aqui está ele — disse Paul. — Venha comigo. Albert! Vamos embora! — Sim. Elisabeth pôs-se a soluçar. abriu os braços e caiu para trás. se você a vir. um carro puxado a cavalo parou junto ao portão e Margot saltou. — Preciso. Vamos. os três se sentaram à mesa e jantaram. Talvez a encontremos no caminho.. grande e silencioso ocupante. diga-me. ouviu a voz de Paul no vestíbulo e o toque-toque de uma bengala. Preciso falar com ela. Paul falava-lhe como se ele fosse uma criança.. Eu o ajudarei. Nesse momento. Albert. e cortou-lhe em pedacinhos o presunto no prato. A porta abriu-se e Paul entrou. mudando todos os móveis e objetos. de repente. depois. a espiar-nos da janela. custaria muito. Tenho aí um táxi à minha espera. cerca das oito horas da noite.— Vou levá-lo já daqui — disse Paul. Dê-me esse pesa-papéis. A melancólica gravidade de seus gestos lentos enchiam-na de uma tranqüila e enlevada piedade. — Dispa esse robe-dechambre e vista o paletó. Não demorará. — Preciso falar com ela — repetiu Albinus. Pelo amor de Deus. vamo-nos daqui. avançou para a frente e desapareceu numa curva do caminho. conduzindo-o lentamente pela sala. agarrá-la fortemente e despejar 97 . conduzindo o seu marido. — Espere um momento — respondeu Albinus. com petulante persistência. Albinus fez uma ligeira curvatura na direção dos soluços abafados. arquejante. acaso. Depois. A roupa de um marrom avermelhado (de uma cor que ele jamais teria escolhido) parecia um pouco larga para Albinus. primeiro. O chofer do táxi aproximou-se correndo e. Elisabeth tinha dificuldade em acostumar-se com o aspecto do marido. Bem de perto. Deram-lhe o quarto que fora de Irma.. que pedisse a Margot para que o fosse ver. Vamos lavar as mãos — disse Paul. A primeira coisa a fazer é tirar você desta câmara de tortura. (E. Surpreendeu a própria Elisabeth o fato de ela achar tão fácil perturbar o sono sagrado daquele quartinho em benefício daquele estranho. Vamo-nos daqui. apertando o lenço de encontro à boca. — Bem de perto. Somente aquele patife nu. Ela deve chegar dentro de um momento. em sua solidão habitual. Vamos. após alguns passos. Paul. mas. acalme-se. Não importa que você esteja de chinelos. Precisamos ir embora Não há ninguém aqui. mas o táxi já havia chegado à estrada — e quase a atropelou ao dar marcha a ré. Desceram pela aléia.. Quem sabe ela já está aqui. falar com ela. Mas Paul o empurrou para o jardim e gritou para o chofer. — Não. jurara-lhe que aquele último encontro não demoraria mais que um momento. Tome o meu boné. Mas. em voz baixa. Albinus estava bem barbeado. Albinus. Paul. avise-me. desmaiado. estender a mão. carregaram Albinus para o carro.. Um dos chinelos de Albinus ficou abandonado no jardim. Tinha a impressão de que ele lhe sentia o olhar.

. chegou em silêncio permaneceu durante os três primeiros dias. membros ágeis e longos olhares radiantes e oblíquos — a fazer as malas após sua partida. também tivesse ficado mudo. Mas o caminho sinuoso de ambos o queimava como a marca que uma taturana rastejante deixa na pele da gente.. ainda cedo. Mas não sei se. ao seu alcance. Uma ou duas vozes.contra ela toda a carga de sua pistola automática?) Paul recusou-se obstinada. perguntou por Herr Hochenwart — isto é. Durante algum tempo. de manhã. não dizia uma palavra. 98 . O contacto daquela chave na palma de sua mão. De modo que pensei que talvez pudesse encontrá-lo aí.. debaixo do travesseiro. no entanto. por Paul. deixei que ela entrasse em seu apartamento. mas ele ainda não chegou. — Bem. Que sorte ter entrado em contacto com o senhor. que passara a noite em claro. ademais. conseguiu transferi-lo para uma cômoda junto de sua cama. Acabo de ligar para o escritório de Herr Hochenwart. a criada estava num quarto dos fundos. que não poderia pronunciar aquele nome. Uma voz. No quarto dia. A vida real. Herr Albinus? — Sim. talvez tudo esteja em ordem. tesouro de sete mortes comprimidas. Guardava a chave no bolso do colete. Era como se. depois exclamou. apesar de tão curto. permanecia. O toque do telefone tornou-se cada vez mais insistente. ao chegar. Depois. e Elisabeth. A voz hesitou. Albinus dirigiu-se à mesa e apanhou o fone. — Ele saiu — respondeu Albinus. o telefone estivera a tocar na biblioteca. pareciam-lhe uma espécie de Sésamo que — que ele estava certo disso — lhe abriria algum dia a porta de sua cegueira. envolto num cachenê de seda. depois disso. Quem está falando? — Schiffermiller. Acontece que Fräulein Peters acaba de chegar aqui. um meio de obter certas informações: alguém talvez pudesse dizer-lhe se o ilustrador Rex havia tornado a Berlim.... notaram que ele apalpava ou segurava algo — mas ninguém fez comentário algum. Mas não conseguia lembrar-se de um único número de telefone e sabia. colocando-a.mente a atendê-lo e. E. onde? Nenhuma luz na escuridão. apalpando os móveis e as portas. via mentalmente Margot e Rex — ambos vivos e alertas. De modo que achei melhor. Herr Albinus! — De que se trata? — indagou Albinus. é senhor. ambos partiram.. no fundo do bolso de seu sobretudo. Albinus. Os dias silenciosos passaram. com vivacidade: — Oh. Viajou para Berlim em silêncio. andava de um lado para outro. aconteceu que Albinus ficou só. Margot a adular e a acariciar Rex em meio das malas abertas — e. à noite.. que lhe pareceu familiar.. Mas onde? Ele não o sabia. depois. Mas para onde. A presença de Elisabeth. Aquele objeto negro e pesado. flexível e forte como uma sucuri — e que ele desejava destruir sem demora — jazia algures. ainda estava dormindo. seus sussurros (ela agora sempre se dirigia às criadas e a Paul num sussurro. eram tão pálidos e vagos como a lembrança que ele tinha dela: uma lembrança quase muda a pairar indiferentemente em torno dele.. a fim de apanhar algumas coisas e. além de cego. mas julguei que devia certificar-me. como se houvesse uma grande doença na casa). Com extraordinária nitidez.. bem. tomado de angustiosa inquietude... seus passos leves. em meio de um leve rastro de água de Colônia.. Albinus nada mais disse. eis tudo. de modo que Elisabeth não tomou a ouvir-lhe a voz (ou talvez a tenha ouvido apenas uma vez). Paul fora à polícia (pois havia certas coisas que desejava elucidar). cruel. o seu ligeiro peso em seu bolso. e isso fez com que lhe ocorresse que ali tinha.

talvez alguma bicicleta de criança que estivesse sobre a calçada. abriu a cômoda sagrada e dirigiu-se.. “A primeira: esta deve ser Motzstrasse”.. Eu mesmo apertarei o botão. não. E. Mas isso demorou muito. Albinus desceu do táxi. — Que foi que disse. Passou a mão pelo assento. agora. por favor. Meus olhos. consiga-me um táxi — implorou Albinus. depois.. (Uma janela se abriu no quarto andar. à procura do chapéu e da bengala. desceu as escadas. dependurando o fone com mão trêmula. ergueu-se alegremente a mesma voz que ouvira pouco antes pelo telefone. Tremia tanto. (Não os sentia. pelo banco da frente e pelo chão. Algo frio pingou-lhe sobre a testa: chuva. caminhou reto e pôs um pé num abismo.— Está bem — disse Albinus. Não. Herr Albinus. — Está bem — repetiu claramente. e desistiu de apanhá-los. estava na calçada. Voltou. bateu no vidro e deu ao chofer o endereço. Novamente o ruído de pneumáticos que se aproximavam. Logo. diante dele. Outra volta Será Victória-Luisenplatz ou Pragerplatz? Dentro de um momento. Depressa. movendo os lábios com dificuldade. Ouviu. indiferente. estaria em Kaiserallee. mas o táxi passou. Por fim.. Schiffermiller. A jovem senhora está lá em cima.. Alguém o ajudou a subir ao veículo e fechou a porta. Herr Albinus? Albinus fez grande esforço para readquirir a voz. que teve de ficar parado um momento. Saiu do elevador. a porta pareceu dar um repelão de encontro às solas de seus chinelos de feltro. e ele sentiu-se um pouco tonto. atravessou o patamar. — Pelo amor de Deus. — Este é o número 56 — disse-lhe o chofer. com o braço estendido. saudou-o: — Muito prazer em tornar a vê-lo. Eu subirei sozinho. o porteiro. ao vestíbulo. enfiou a chave e girou-a. — Posso ajudá-lo a atravessar a rua? — perguntou-lhe uma voz jovem e agradável. pode ficar aqui.. não era nada — apenas a escada que conduzia para baixo. Deve haver pelo menos mais uns cinco minutos de caminho. E. No ar. Mas a porta se abriu. mas já era demasiado tarde).. Bateu com os joelhos de encontro a algo que oscilou e retiniu. silêncio — murmurou Albinus. O elevador produziu um som que se assemelhava a um gemido. para o quarto. Será que já cheguei? Não pode ser. Depois. O táxi parou. Deve ser apenas uma esquina. Não. toque para a frente — disse Albinus em voz baixa e. Instantes depois. em seu apartamento. às apalpadelas. à sua esquerda. com o sinal fechado. subitamente inquieto ante a idéia de que alguém talvez pudesse estar sentado a seu lado. pensou Albinus. conduza-me até o elevador.mente coisas para si mesmo. Apoiou-se à grade de ferro do jardim da frente e rogou desesperadamente a Deus lhe permitisse ouvir a buzina de um táxi. — Silêncio.. Gritou. como se estivessem sob efeito de cocaína). por favor. — É para a direita.. Ela.. o ruído estridente de um bonde. de pneumáticos. — Toque para a frente. 99 . — Pague o táxi. quando o táxi já se achava em movimento. — Dê-me a chave do apartamento. Tinha chegado. com passos arrastados. Cautelosamente. encontrou o buraco da fechadura. apalpando as paredes. “Contarei as esquinas”. mais para a direita — murmurou de si para consigo. lento. ouviu o chiar molhado. agarrando-se ao corrimão e murmurando febril.

ao centro. sem perder. a carregar isto para baixo. por um momento sequer. O silêncio de Margot. podia perceber claramente onde ela se encontrava. Bateu de encontro à mesa do centro e ficou imóvel.. como o que é produzido pelas juntas de uma pessoa que se abaixa. ali estava ele. Albinus estendeu o braço e moveu lentamente a arma de um lado para outro. Sim. uma estatueta de porcelana representando uma bailarina de ballet. Oh. não havia chave (as portas estavam sempre contra ele). mas o seu próprio corpo. muito tempo. agora ela estava mais para a esquerda. Mas.. E continuou. apalpava o marco da porta aberta. na pequena sala de estar. o sofá listrado junto à parede. de modo que a mesa ficasse atrás dele. por trás da mesa. tirando a pistola do bolso. bem à esquerda.. perto da janela. havia fechado. Não era a respiração nem o bater do coração de Margot. Sentia que ela estava em algum lugar perto das miniaturas. A voz cessou. ele podia sentir uma onda quase imperceptível de calor. sentia-se de novo mais livre e. Naquele canto. vivo.. muito lisa e brilhante. outra mesa grande... Diminuiu a curva ao longo da qual sua mão girava e. tenso. afinal. Margot lançou um resmungo de satisfação. a voz pareceu voltar-se para o seu lado —e calou-se subitamente. irritou-o. a direção para a qual se achava voltado. Era uma pequena mala. fecho a porta atrás de si e ficou com as costas voltadas para ela. diminuiu. fazia tanto barulho que ele não podia ouvi-la. Me ouviu o estalido de um fecho de valise. enquanto ele avançasse? “Melhor fechar a porta”. Podia ver mentalmente a sala com nitidez — quase como se a enxergasse com seus próprios olhos: à esquerda. Agarrou a beira da mesa com uma das mãos e. Devia atirar? Não.. numa casa campestre. embora bastante rígido. que trairia a posição exata em que ela se encontrava. no canto. à esquerda. junto à janela. pronto para atirar.. pensou. Sentiu que Margot passava furtivamente para outro lado. enquanto que. Afastou-a com o joelho e prosseguiu. Novamente o calor que ele percebia mudou de lugar. numa noite de inverno. se ela perdesse a cabeça. num tom cantante: — . Não. e se ela passasse por ele. puxou-a para junto da porta. mas.. agora. ouviu um leve farfalhar. num dia muito quente. Herr Schiffermiller — disse a voz tensa de Margot. com o cano da pistola. o mais silenciosamente possível. Avançou. isso seria divino: ele teria um belo alvo.. Albinus empunhava a pistola com a mão direita. recuando. Nudez de cego. abrisse a janela e se pusesse a gritar. ainda não. vindo daquela direção. Vindo da sala de estar. que apalpou com a mão. precisarei do senhor. Foi de encontro a algo duro.. nudez de cego. localizou algo trêmulo. pensou Albinus. com a esquerda. Precisava aproximarse muito mais dela. — Dentro de um minuto. — Precisa ajudar-me a carregar isto.. e que aquela sala tinha apenas uma saída — a porta que ele estava bloqueando. havia muito. misturada a um perfume chamado L’heure bleue. conduzindo para um canto imaginário a presa invisível que tinha diante de si. Aquilo. “Ela me viu”. procurando induzir Margot a fazer algum ruído. Tendo bloqueado a saída. Ou talvez o senhor pudesse vir. a fim de que pudesse perceber qualquer ruído. a princípio. algo tremia como o ar sobre a areia de uma praia. mas uma espécie de impressão 100 .. À palavra “vir”. de novo. de repente. encolheu. em meio da escuridão. o som por que ansiara havia dias. Depois entrou. o armário de vidro com suas preciosas miniaturas. Mas Albinus sabia que estava a sós com Margot naquela sala. então. Tudo permanecia em silêncio. o ruído de papel de embrulho e um estalido quase imperceptível..Ah.

pensou. com violento gemido. também se acha escancarada.. muito suavemente. depois. . que parecia vir de milhas de distância. De repente. Cadeira — caída junto do cadáver de um homem de roupa marrom-avermelhada e chinelos de feltro. depois. logo em seguida. Súbito. muda: porta — escancarada. azul.. Que bemaventurança há no azul! Nunca pensei que o azul pudesse ser assim tão azul! Que trapalhada foi a minha vida! Agora. luz.geral: a voz da própria vida de Margot. Armário onde tinham estado as miniaturas — vazio. Albinus agarrou algo vivo. que. de um outro mundo.. dentro de um minuto. ágil. mas tornou logo a encontrá-la. paz. depois. séculos atrás. caminhar muito devagar por essa praia cintilante de sofrimento. Invisível a pistola automática.. rastejou. inclinou-se lentamente para a frente e caiu como um boneco — um grande e macio boneco — para o lado. aproxima-se para afogar-me. na qual. juntamente com uma fraca detonação. negra por fora. A mão que ele estava agarrando lhe torceu o pulso e arrancou-lhe a pistola — e ele sentiu o cano de encontro ao próprio corpo. O tiro fendeu a escuridão e. percebeu uma respiração rápida. durante um segundo. no canto que tinha à sua frente. e. conheço tudo. com um rótulo vistoso ainda colado: “Rouginard. algo que lançou um grito tremendo. Como dói! Não posso respirar. sentiu um afrouxamento de tensão. fazendo-o cair.. Sobre o sofá listrado. uma pequena mala. viu-se embaraçado por uma cadeira lançada contra ele. branca por dentro. Aproxima-se. a cabeça caída sobre o peito.. Mesa — atirada para o lado. 101 . Instruções para a cena final... jaz uma luva de mulher. que lhe encheu os olhos de deslumbrante claridade. apertou o gatilho. Sobre a outra mesa (pequena). E. em direção daquela onda azul. um vago e doce perfume chegou-lhe às narinas. Acha-se sob o cadáver. procurou arrancar-lhe a arma. largou a pistola. Aí está ela. aquela presença pareceu inclinar-se como uma chama numa corrente de ar. e uma mão fria.“ Sentou-se no chão. havia uma estatueta de porcelana representando uma bailarina de ballet (transferida depois para uma outra sala). Tapete — um tanto levantado junto ao pé da mesa. numa ondulação gelada.. “Devo ficar quieto um momento e. algo lhe bateu de encontro aos joelhos. serenidade. sentiu uma dor dilacerante em seu flanco. A porta do vestíbulo. Ao cair. No mesmo instante. ia se aproximando de suas pernas. Hotel Britannia”. como se estivesse deitado em sua cama. depois. distendeu-se. ele destruiria. e obrigou a cálida presença de Margot a que recuasse de novo. Moveu a arma. que dá para o corredor. como se uma criatura de pesadelo estivesse sendo tocada por outra criatura de pesadelo. “Então isto é o fim”. Albinus não pôde mais dominar-se.

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