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Artigo

Olhar o olhar do outro: será que primatas compreendem estados psicológicos?
Por César Ades
No prefácio do belo livro chamado Os grandes macacos: a humanidade no fundo dos olhos, o primatólogo Franz de Waal observa que “nada é comparável aos olhos dos grandes macacos quando encontramos o seu olhar. Eles nos observam com a mesma curiosidade... a mesma intensidade emocional que temos quando os olhamos”. O olhar dirigido ao olhar do outro parece um modo privilegiado de se ter acesso a aspectos do funcionamento psicológico desse outro. A cada momento de uma interação, sabemos, através da direção do seu olhar, a que aspectos do mundo alguém está prestando atenção. Podemos olhar na mesma direção e ver os mesmos objetos, mas também podemos conceber que a pessoa esteja vendo algo ao qual nós não temos acesso visual: atribuímos autonomia à sua maneira de perceber as coisas, sem desistir da possibilidade de interpretá-la. Os psicólogos às vezes se referem a esse conhecimento do modo de ver e pensar dos outros como teoria da mente.

Wattana, orangotango do Jardin des Plantes de Paris. Foto: Chris Herzfeld

A questão que tem interessado sobremaneira uma certa pesquisa com primatas é saber se possuem uma teoria da mente como parece que nós humanos temos, se são capazes de saber, olhando para os olhos ou para a face dos outros, que estes outros estão vendo mesmo e que coisas estão vendo. Parece difícil lidar com essa questão, uma vez que é muito subjetiva. No caso humano, ainda temos o recurso da pergunta: “você está vendo alguma coisa? que está vendo?”. Como primatas não respondem a perguntas, temos de usar indicações indiretas do quanto se dão conta da função do olhar dos outros. As pesquisas recentes sobre a compreensão do funcionamento cognitivo por animais têm feito uso de procedimentos muito engenhosos, com situações experimentais planejadas para que as opções dos sujeitos indiquem de maneira suficientemente clara se prestam atenção à atenção alheia e se a interpretam de modo apropriado. Não temos acesso direto à consciência dos animais, mas podemos reconstituir, a partir de indicadores cada vez mais confiáveis, aspectos de sua cognição social. Vou relatar alguns dos momentos da pesquisa sobre a compreensão que primatas (principalmente, por causa de seu parentesco com os humanos, primatas antropóides) têm do significado do olhar. Não pretendo cobrir a área, já muito complexa, mas sim mostrar como as concepções se corrigem e vão em direção a uma equilibração sempre reformulada. A maioria dos primatas estudados até o momento (com a exceção dos lêmures) olham onde um coespecífico (ou um ser humano) olha. Seguir o olhar é uma maneira de ver as mesmas coisas e se entende que um animal possa encontrar vantagem em investigar

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o que tornou o outro curioso ou muito atento: pode assim detectar-se fontes de alimento, predadores, parceiros reprodutivos ou outras coisas ainda. Mas será que o que segue o olhar sabe da percepção do outro? Pode-se ter a impressão forte de que sim quando se vê macacos olhando imediatamente para o local onde foi atraído (graças a uma porção de alimento) o olhar de outros indivíduos da mesma espécie. Um chimpanzé seguirá o olhar da tratadora para cima, para baixo, para o lado, até para pontos que se situam atrás dele ou atrás de um anteparo. Poder-se-ia pensar, de outro lado, que seguir o olhar é uma resposta pronta no repertório dos macacos, que se dá reflexamente, sem cognição subjacente. A explicação através do automatismo não é suficiente, mesmo que possa aplicar-se em certos casos. Num dos experimentos de Braüer, Call e Tomasello, do Max Planck Institut, orangotangos, bonobos, chimpanzés e gorilas foram testados numa situação em que um experimentador olhava de repente para algo que os animais não podiam ver (de onde estavam) por causa de uma barreira que impedia a visão. Se os animais reagissem automaticamente (como prevê a hipótese de uma reação reflexa de orientação) deveriam simplesmente fixar a barreira com os olhos. Não foi o que se observou: numa freqüência significativa de casos, os animais davam a volta à barreira, para se colocar na posição em que poderiam enxergar o que tinha possivelmente atraído a atenção do experimentador. Às vezes, quando não encontravam nada, voltavam a olhar para o experimentador e se orientavam novamente de acordo com o olhar dele. Não automatismo, mas “tomada de perspectiva” é a hipótese que os pesquisadores acreditam mais coerente com os seus resultados. Num estudo mais recente, notou-se diferenças entre as diversas espécies de macacos antropóides na capacidade de seguir o olhar e “tomar a pespectiva do outro”, uma indicação de uma evolução que tem por ápice o comportamento do ser humano. Em que medida sabe um macaco que um ser humano está olhando para ele? O pesquisador americano Povinelli, partindo de uma observação casual de que os chimpanzés de seu laboratório o atacavam mais quando ele estava com os olhos cobertos e da idéia de que talvez assim procedessem por achar que ele não poderia vêlos, montou uma série de experimentos em que os chimpanzés tinham de optar por dirigir-se a uma de duas pessoas para conseguir uma porção de alimento: uma pessoa que os via e uma pessoa que não poderia vê-los. A não-vidente tinha uma venda nos olhos, ou um balde na cabeça, ou estava de costas, a vidente tinha uma venda na boca, o balde no ombro ou estava de frente. Se os animais soubessem que quem vê atende, deveriam escolher o vidente para solicitar comida. Mas não, pediam tanto para um como para outro. Insistiam em gesticular diante da pessoa de olhos vendados ou de balde na cabeça, parecendo surpresos por nada acontecer. Iam preferencialmente para uma pessoa que estivesse de frente, mas não para uma pessoa que olhasse para eles por cima do ombro. Mesmo com treino explícito, não se tornava perfeita a distinção entre quem-me-vê e quem-não-me-vê. Parecia então necessário concluir que os chimpanzés não têm compreensão da função dos olhos e, menos ainda, de que há processos mentais de percepção por eles mediados, Segundo Povinelli, a compreensão da mente dos outros seria uma especialização do ser humano. Uma reviravolta surpreendente aconteceu com a publicação, em 2000, de outro trabalho do grupo do Max Plack Institut, com Hare, Call, Agentta e Tomasello, com o título “os chimpanzés sabem o que coespecíficos vêem e não vêem”. A incompetência manifestada pelos chimpanzés, em estudos anteriores talvez se devesse, segundo os autores, à situação artificial de treinamento e ao fato de ser pouco comum, na vida dos chimpanzés a situação “altruista” em que um indivíduo chama a atenção de outro para o alimento. É a competição por alimento e não a partilha de uma informação a respeito dos recursos que caracteriza a organização social dos primatas. Hare e seus colaboradores criaram, então, uma situação de competição entre chimpanzés, achando que seria mais propícia para revelar o uso da cognição social. Dois chimpanzés, um dominante e outro subordinado, eram mantidos cada um de um lado de um recinto no meio do qual podiam ser colocadas duas porções de alimento. É simples, no caso de chimpanzés, a diferença entre um animal dominante e um que lhe é subordinado: o primeiro inibe o outro e tem prioridade total sobre o alimento. Nas situações em que as porções de comida eram visíveis a ambos os animais, na hora da soltura, era o dominante que apanhava a maior quantidade de alimento. Mas quando uma porção era visível apenas ao subordinado (por estar atrás de um anteparo (Figura 1), este animal se tornava mais corajoso e conseguia uma parte razoável do alimento. Apanhava preferencialmente o alimento situado atrás do anteparo, por levar em conta o olhar do outro (assim vai a interpretação) e por saber que não seria visto. Várias explicações alternativas foram verificadas, em outros experimentos, especialmente a

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idéia de que o subordinado iria em direção à porção escondida simplesmente por ter visto o outro se dirigir à porção visível. O controle consistiu em soltar primeiro o subordinado: neste caso, mesmo sem dicas que proviessem do comportamento do dominante, o subordinado escolhia a comida que estava atrás do anteparo. Quando o anteparo era transparente (permitindo portanto inspeção por parte do dominante), o subordinado não mais se aventurava a lá ir pegar a comida.

Situação de competição alimentar (Hare et al., 2000). O chimpanzé dominante (branco) tem acesso visual a uma porção do alimento mas não à outra porção, situada atrás de um anteparo e que somente o chimpanzé subordinado (cinza) pode ver. A escolha desta última alternativa alimentar, pelo subordinado, indica que de certa maneira leva em conta o que o outro pode ou não pode ver.

O mais interessante é que quando testados numa situação em que eles fossem os subordinados (colocando-os em competição com animais acima deles na escala social) os chimpanzés antes dominantes passavam a optar pela comida “invisível”. “O fato de os mesmos indivíduos assumirem diferentes estratégias, dependendo do papel que desempenhavam no experimento – subordinados ou dominantes – sugere que não estavam seguindo uma tendência ou regra comportamental cega, mas que realmente entendiam algo a respeito da situação do ponto de vista sócio-cognitivo... isto é, do ponto de vista de sua ‘teoria da mente', definida de uma maneira limitada”, escrevem os pesquisadores. Segundo eles, chimpanzés têm a capacidade de aprender a relação entre a direção do olhar dos outros e o comportamento deles em relação aos objetos – visíveis e invisíveis – do ambiente: cria-se, assim, uma base de previsão do comportamento dos outros e tem-se a melhor estratégia para fazer um uso visual dos recursos presentes, dentro da prudência de ser subordinado ou a segurança de ser dominante. A pesquisa mais recente tem mostrado que o cão, um animal mais distante de nós, do ponto de vista filogenético, está por assim dizer sintonizado ao olhar humano. Cães levam em conta em muitas oportunidades a direção do olhar humano e, o que é notável, o fazem em situações cooperativas: são capazes de usar a direção dos olhos de uma pessoa para saber onde está escondida a comida (o contrário do jeito dos chimpanzés). Pesquisas do nosso laboratório, com as cadelas Sofia e Laila, têm nos dado evidências a respeito da cognição do olhar, adquirida pelos cães ao longo de sua longa convivência de domesticação com os seres humanos. Os experimentos de Hare e colaboradores com chimpanzés em contexto competitivo foram replicados com outros primatas. Macacos pregos, que são macacos do Novo Mundo, freqüentes em nossas matas, não evidenciaram um uso do olhar dos outros semelhante ao dos chimpanzés. Mas há sempre surpresas num campo como este: num estudo recentíssimo, Burkart e Heschlt mostraram que sagüis comuns, Callithrix jacchus, quando postos, em presença de um competidor dominante, diante de uma escolha entre duas porções de alimento, uma visível e outra invisível, sistematicamente escolhem a que não pode ser vista pelo outro. Seriam eles aptos à interpretar o olhar dos outros, como os chimpanzés? Os autores, baseados em testes suplementares – em que os sagüis não demonstraram possuir competência para usar o olhar humano como dica para localizar um alimento escondido – acreditam que não e acham que, na verdade, os sagüis têm “uma predisposição em tratar uma porção de alimento que tenha sido vista por outro indivíduo como pertencendo a este indivíduo e em evitá-la”. Nota-se aqui, novamente, uma medida de prudência: o que o outro viu (principalmente se for dominante) é dele. Mas esta prudência requer uma leitura do olhar (real ou potencial) do outro e uma previsão de seu comportamento que o sagüi realiza “apesar de seu cérebro pequeno e da limitação de suas capacidades gerais de processamento da informação”.

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Têm os primatas consciência da consciência dos outros? Talvez não seja esta a boa maneira de colocar a questão. Ao mesmo tempo em que a pesquisa nos indica que os primatas podem interpretar o olhar dos outros, ela mostra que essa capacidade assume aspectos diferentes de acordo com as exigências do contexto social, e que, embora não lhe seja igual, prenuncia a capacidade humana de conhecer a mente dos outros. César Ades é etólogo e professor do Instituto de Psicologia da USP, com bolsa de produtividade do CNPq

Referências bibliográficas
Picq, P., Lestel, D., Despret, V. e Herzfeld, C. "Les grands singes: l'humanité au fond des yeux". Odile Jacob, 2005. Tomasello, M., Call, J., & Hare, B. (1998). "Five primate species follow the visual gaze of conspecifics". Animal Behaviour, 55, 1063–1069. Braüer, J., Call, J., & Tomasello, M. (2005). "All great ape species follow gaze to distant locations and around barriers". Journal of Comparative Psychology, 119, 145–154. Okamoto-Barth, S., Call, J. & Tomasello, M. (2007). "Great apes 'understanding of other individuals' line of sight". Psychological Science, 18, 462-468. Hare, B., Call, J., Agnetta, B., Tomasello, M., 2000. "Chimpanzees know what cons-pecifics do or do not see". Animal Behaviour, 59, 771–785. Ilustração: Esquema modificado de Tomasello, M., Call, J. & Hare (2003). "Chimpanzees understando psychological states – the question is which one and to what extent". Trends in Cognitive Sciences, 7, 153-156. Hare, B., Addess, E., Call, J., Tomasello, & Visalberghi, E. (2003). "Do capuchin monkeys, Cebus apella, know what conspecifics do and do not see?" Animal Behaviour, 86, 131-142. Burkart, J.M., & Heschlt, A. (2007). "Understanding visual access in common marmosets, Callithrix jacchus: perspective taking or behaviour reading?", Animal Behaviour, 73, 457-469.

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