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Histórica - A Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo, nº 56, nov. 2012 A REVISTA ONLINE DO ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo, nº 58, maio 2013

Editorial

Apesar de processos recentes, como os casos da Venezuela e do Paraguai, que vivenciaram disputas que culminaram em graves desestabilizações políticas em seu regime institucional, a América Latina tem conseguido avançar na consolidação da estabilização política após as ditaduras que assolaram o continente. Por conta desse cenário, as pesquisas realizadas nesse campo avançaram sensivelmente na última década, sendo possível analisar as múltiplas facetas do contexto repressivo vivido pelos países do Cone Sul, ultrapassando, assim, uma primeira geração de estudos que, por várias questões e, principalmente, pela proximidade de um período tão traumático, não se aproximava de questões mais polêmicas (como o colaboracionismo, as divergências dentro dos grupos de tendência política de esquerda na resistência, o tipo de repressão sofrida pela classe média e pelos pobres) ou tratava vários pontos através de uma perspectiva extremamente bidimensional. Esses estudos pioneiros foram importantes, sobretudo, na coleta de dados, e são, também, fontes históricas para entender como a sociedade e a academia vivenciaram o processo de abertura política desses países. Nesta edição, trazemos artigos que estão alinhados com as temáticas desse campo de pesquisa. Iniciamos a edição com as reflexões de Lidiana Justo acerca da organização da Guarda Nacional na província da Paraíba, que possibilita uma visão ampla da montagem do aparelho repressivo brasileiro desde o século XIX. Extrapolando as fronteiras nacionais, mas tratando de um período fundamental para compreender as estruturas políticas do século XX, Francisco Fagundes nos apresenta a Ação Católica e sua resistência ao fascismo na Itália no final da Segunda Guerra Mundial. Um eco das consequências políticas desse conflito pode ser apreendido no artigo de Daniela Ferreira, que apresenta os caminhos e descaminhos da revista Seiva, publicação do Partido Comunista da Bahia, em tempos de repressão do Estado Novo varguista. Também no campo da mídia, Aloysio Castelo apresenta um panorama sobre o programa de rádio Rede da Democracia e suas vinculações com os veículos impressos, propiciando uma reflexão sobre os últimos períodos do governo Goulart e com texto que culminou na sua deposição

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pelo golpe de 1964. O último artigo dessa edição, de Jaime Figueiroa e Antonio Cesso, apresenta um balanço historiográfico do campo da História do Trabalho, especialmente nos modos como este tem se relacionado contemporaneamente com as questões do controle e da repressão na produção acadêmica. Já o Imagens de uma Época traz a crônica visual do jornal Ultima Hora sobre os menores infratores do Rio de Janeiro na década de 1950.

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Sumário
A ORGANIZAÇÃO DA GUARDA NACIONAL NA PROVÍNCIA DA PARAÍBA (1831-1850): INSTITUIÇÃO DA ORDEM E DAS “MERCÊS” POLÍTICAS............................................................................... 5 Referências..........................................................................................................................................12 Fontes.................................................................................................................................................. 13 A AÇÃO CATÓLICA: A RESISTÊNCIA PIEMONTESA AO FASCISMO (1933-1944).................................14 Referências......................................................................................................................................... 20 CAMINHOS E DESCAMINHOS DA REVISTA SEIVA (1938-1943)..............................................................22 Surge a revista Seiva: um mensário de luta.................................................................................... 25 Referências......................................................................................................................................... 29 Periódicos........................................................................................................................................... 29 OS JORNAIS CARIOCAS DA REDE DA DEMOCRACIA NA QUEDA DO GOVERNO GOULART ................................................................................................................................................30 Referências......................................................................................................................................... 35 ASPECTOS DA HISTÓRIA DO TRABALHO: CONTROLE, REPRESSÃO E CONTRADIÇÕES.......................................................................................................................................................37 Introdução.......................................................................................................................................... 38 Contradições da introdução do trabalho no Brasil...................................................................... 39 Trabalho, indústria e profissionalização como formas de controle............................................ 41 Considerações Finais........................................................................................................................ 42 Referências......................................................................................................................................... 43

também. nas “mercês” concedidas aos aliados políticos para que ocupassem um cargo de destaque na Guarda Nacional ou recebessem isenções no que concerne ao alistamento nessa instituição. pela Lei de 18 de agosto de 1831. in the way were occupied positions of command in the militia. or receive exemptions regarding the enrollment at this institution. we see that the practices of this Political Culture. 1831 to maintain “order” in the Brazilian Empire. p. and above all. e. coordenadora do Grupo de Pesquisa “Sociedade e Cultura no Nordeste Oitocentista”. C. Militiamen.A A Revista Revista Eletrônica Eletrônica do do Arquivo Arquivo Público Público do do Estado Estado de de São São Paulo. Palavras-chave: Guarda Nacional. para manter a “ordem” no Império brasileiro. COSTA. opinions and praise the ruling elite about the social organization of the local National Guard. E-mail: leejusto@hotmail. n. nov. nº nº 56. Lidiana Justo da. São Paulo.H Histórica -. statements of support or opposition to ruling by the militia. analisar o papel exercido pela Guarda Nacional na província da Paraíba é. for example. Abstract: The study of the National Guard in the province of Parahyba do Norte (1831-1850) led us to realize practices of a Political Culture in this institution – which was established by law in the regency period of August 18. Paulo. na maneira como foram ocupados os cargos de comandos na milícia. 5 . que foi criada no período regencial. por exemplo. Thus. Ordem.com. nov. Order. nos pareceres e elogios da elite dirigente sobre a organização social local da Guarda Nacional. dialogar com os valores e comportamentos partilhados pela elite dirigente na condução da desejada ordem. 2012 2012 Histórica A REVISTA ONLINE DO ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo.ª Serioja R. Therefore. Keywords: National Guard. the complaints. maio 2013. 05-13. analyzing the role played by the National Guard in the province of Paraiba is also dialogue with the values ​​ and behaviors shared by the ruling elite in driving the desired order. ano 9. sobretudo. Milicianos. sob orientação da Prof. maio 2013 A ORGANIZAÇÃO DA GUARDA NACIONAL NA PROVÍNCIA DA PARAÍBA (1831-1850): INSTITUIÇÃO DA ORDEM E DAS “MERCÊS” POLÍTICAS Lidiana Justo da Costa1 Resumo: O estudo sobre a Guarda Nacional na província da Parahyba do Norte (1831-1850) levou-nos a perceber práticas de uma Cultura Política nessa instituição. the “favors” granted to political allies so that they occupy a position of prominence in the National Guard. 56. Portanto. nas reclamações. Mariano. Histórica. 1 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Paraíba.ª Dr. Dessa maneira. nas demonstrações de apoio ou rejeição aos governantes por parte dos milicianos. 58. A organização da Guarda Nacional na província da Paraíba (1831-1850): instituição da ordem e das “mercês” políticas. nº 58. percebemos as práticas dessa Cultura Política.

­­­­­­­­­­­­­URICOECHEA (1978). que viessem a exercer o cargo de comando da Guarda. COSTA. p. E. embora não especifique a categoria dos postos. 6 .4 Essa correspondência – enviada dois meses depois de criada oficialmente a Guarda Nacional no Brasil. por sua vez. fossem escolhidos pelo governo da província. Exa.Exº isenta deve estar dos reproches de V. ao presidente da província. afinada. serviços e mais circunstancias que creditem a cada um dos propostos”. Desta feita. Lidiana Justo da. 3 Utilizaremos a grafia “Paraíba” para nos referenciar à província. e da publica censura pelas razões que possa mostrar. de 14 de outubro de 1831. o Estado em que se acham os trabalhos desta Camara sobre a sua organização e as causas que tem feito [?] de ser esta a única capital de província que ainda não tem Guarda Nacional apesar dos esforços de V. dê pronta execução a Lei de 18 de agosto do corrente. conjecturamos que os escolhidos para os cargos de comando deveriam ser pertencentes de uma elite local. além de pedir que se “acelere” a criação da Guarda Nacional na província. NUNES (2005). profissão. Grifos nossos. ALMEIDA (1986).ª para poder lançar mão dos meios a seu alcance a fim de ver organizadas as mesmas guardas. mas merece ser descrita: Nesta sessão foi [apresentada] a esta Camara Municipal o oficio de V. 58. ordenando a execução da lei de criação da Guarda Nacional na respectiva província. Com relação à criação da Guarda na província. 05-13. São Paulo. o regente Feijó destacou que deveriam ser eleitos três cidadãos para os postos de comando da futura milícia. cuja nomeação pertence ao governo com declaração de suas idades.Exª nesta parte. Atentemo-nos para o que disse o regente: Manda a Regência em nome do Imperador que V. Nesse sentido.Exª. serviços e mais circunstancias que creditem a cada um dos propostos. fica evidente a morosidade em executar a lei. tomando como critério “suas idades. Cx: 010. CASTRO (1977 [1979]). RIBEIRO (2005). maio 2013 Uma das primeiras notícias a respeito da Guarda Nacional2 na província da Paraíba3 trata-se de uma correspondência do regente Diogo Antonio Feijó. Ano: 1830/1833. de 4 do corrente exigindo resposta de outro [datado] de 8 de agosto findo acerca d’organização das Guardas Nacionais. maio 2013. Arquivo Histórico Waldemar Bispo Duarte/PB. FARIA (1977). com o governo da província. n. a documentação nos indica que ela encontrou alguns obstáculos que puderam ser percebidos nos diálogos estabelecidos entre a elite dirigente através de ofícios.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. nº 58. A organização da Guarda Nacional na província da Paraíba (1831-1850): instituição da ordem e das “mercês” políticas. A citação é longa. ano 9. profissão. Francisco José Meira.Exc. 4 Correspondência do Regente Diogo Antonio Feijó enviada ao presidente da província da Paraíba Francisco José Meira. de 14 de outubro de 1831. Em sessão de 9 de novembro de 1831 [?] presente a Camara [?] o oficio desse Exmo governo de 8 do mesmo mês a que acompanhou a Lei de 18 de [agosto] de 1831 passando aquela Camara 2 Cf. e que proponha três cidadãos para cada posto. com tudo previne a V. Histórica. ALMEIDA (1998). correspondências e relatórios trocados entre si. ficando certo por brevidade se lhe remeterá o modelo dos uniformes dos mesmos Guardas. Observe que. Esta Camara Exmo Sr. analisando um ofício da Câmara Municipal da cidade da Paraíba. Ex. apesar de reconhecer a Justiça que assiste a V. acreditamos que a preocupação do regente era de que os respectivos cidadãos. SALDANHA (2006). pela Lei de 18 de agosto 1831 – nos mostra que a execução da ordem da criação da milícia em alguns municípios da província ainda não havia sido executada pelo poder local.

edu/brazil/provincial/para%C3%ADba>. Ou seja. Cx: 010. mandando-lhes livros. acreditamos que ele é concernente ao ano de 1832. oito anos depois de criada a milícia. p. no dia 16 de janeiro de 1839. fazerem o levantamento dos cidadãos ou procurarem entender a lei de criação da milícia. em 1839. Por oficio de 26 de janeiro do ano seguinte mandou responsabilizar ao Juiz de Paz suplente do [?] o mesmo fez em [?] de maio mandando responsabilizar ao de Santa Rita pela morosidade e apatia em que se achava [. relação de eleitores dos respectivos distritos.. ano 9. Acesso em: 24 ago. na abertura da segunda sessão da 2ª legislatura da Assembleia Legislativa da província.6 Portanto. que não vindo em numero suficiente necessário foi manda-los ver de [Pernambuco]. esse problema persistia. disse que o problema da desorganização da Guarda não era inerente apenas à província da Paraíba. houve conflitos envolvendo a própria elite local que estava incumbida de formar a milícia. Como percebemos através dos diálogos trocados pelos responsáveis pela criação da milícia. dizendo que “grandes esforços. Ano: 1830/1833. visando 5 Documento da Câmara Municipal da Paraíba expondo os motivos que retardaram a criação da Guarda Nacional na província. nenhuma menção a data ou ano. Na província do Espírito Santo.crl. maio 2013 a cumprir [?] [A] sessão resolveu. São Paulo. Não há. de Castro (1977 [1979]) também alertou para as dificuldades em se formar a milícia em todo território nacional. na sua arguição na 2ª legislatura da Assembleia Provincial da Paraíba. Em 18 do mesmo mes ativou a mesma Camara aos juízes de paz afim de adiantarem o alistamento. notamos que a Câmara Municipal da província da Paraíba tentava se justificar a respeito da morosidade da criação da Guarda Nacional na capital da província. Além disso. 05-13. 2012. por exemplo. nº 58. Pernambuco. os poderes locais tentaram “adaptar-se” à nova lei para. de Faria. Consideramos certo exagero nessa afirmação. passados oito anos. segundo ele. Lidiana Justo da.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. e até exemplares da lei.] aquela mesma Camara as dificuldades que suscitaram no distrito de Santa Rita pela repugnacia que apresentava o juiz de paz. em seguida. maio 2013. de M. não desanimou. através dessa fala. pois. Kamila Nunes de Deus Oliveira (2011) percebeu que a milícia vivia em “eterna organização”. já que sua organização dependia dos poderes provinciais e também da cooperação da elite dirigente patrimonial. pois a Guarda Nacional encontrou dificuldades para se formar em diversas províncias do Império. possivelmente essa advertência foi uma maneira de acelerar a execução da lei. ainda havia obstáculos. João José Moura Magalhães. João José Moura Magalhães. Tip. Jeanne B.5 Pelo teor do documento. O presidente da província. Histórica.. Grifos nossos. pelo contrário: aquela situação atingia as demais províncias do Império brasileiro. como vimos anteriormente no caso exposto pela Câmara Municipal. 58. Disponível em: <http://www. como bem atentou Fernando Uricoechea (1978). Arquivo Histórico Waldemar Bispo Duarte/PB. COSTA. vemos que a província da Paraíba não foi a única a sofrer com a desorganização ou atraso na organização da Guarda Nacional. 6 Fala do presidente da província da Paraíba. Pelo que podemos perceber na documentação dos anos de 1831 e 1832. nele. A organização da Guarda Nacional na província da Paraíba (1831-1850): instituição da ordem e das “mercês” políticas. e mandou oficiar aos juízes de Paz do município para executarem na parte correspondente. que dificultavam o progresso da instituição cívica na província. todavia. afinal fora advertida de que essa era “a única capital de província que ainda não tem Guarda Nacional”. 7 . n. Mesmo assim. p. E estava sendo cobrada por isso. 12. para fazer d’ela uma verdadeira ‘Milicia Nacional’”. F. 1839. a morosidade em se criar a Guarda Nacional foi seguida de várias “justificativas” por parte dos responsáveis pelo cumprimento da lei de criação da Guarda e também de “pressões” por parte do governo central para que se acelerasse o cumprimento da respectiva lei. e trabalhos é precizo empregar.

porteiro.edu/brazil/provincial/para%C3%ADba. no seu artigo 12. 9 e 10. houve a ampliação para 8 parágrafos relativos àqueles cidadãos que estariam excetuados dos alistamentos. carcereiros e seus ajudantes. 9 Alistamento dos Guardas Nacionais do serviço ordinário do Distrito do Batalhão de Alagoa Grande. ministros. Fonte: Arquivo Histórico Waldemar Bispo Duarte/PB. Pernambuco. 602. o respectivo cidadão deveria compor as fileiras da milícia. maio 2013. encontramos pistas na nossa documentação sobre as ocupações dos guardas nacionais que costumavam ser inseridos no serviço ativo da Guarda Nacional na província. foi mais criteriosa quanto às isenções. Art. Por outro lado. que abriu a segunda sessão da 2ª legislatura da Assembleia Legislativa da mesma província. os ofícios e correspondências oficiais apresentaram notificações do tipo: “que já estavam concluídos os alistamentos. indicamos: Lei n. em 16 de janeiro de 1839. encontramos um total de 227 cidadãos. por sua vez. 11 Fala do presidente da província da Paraíba do Norte. maio 2013 organizar os comandos nas áreas de suas jurisdições. Dentre os colocados na reserva. Ano: 1830-1833. de M. de 19 de setembro de 1850. de Faria. dentre algumas mudanças empreendidas pelos legisladores. Ano: 1830-1833.F. pedreiro e agricultor. Armada e corpos policiais pagos e a Imperial Guarda de arqueiros. só a partir de 1833. nº 58. oficiais. dividindo a renda de seus pais. São Paulo. parágrafos 1 e 2. ano 9.9 Os demais cidadãos postos no serviço ativo nesse Batalhão não tiveram suas ocupações destacadas pelo qualificador. Nela poderemos perceber que. Cx: 010. cabe mencionar que o presidente da província da Paraíba. Cx: 010.”7 Feita essa consideração. Lidiana Justo da. foi possível identificar o cidadão que foi inserido na reserva e aqueles que foram postos no serviço ativo. Disponível em: http://www. magistrados perpétuos. Ano: 1830-1833. 1 professor. havia algumas isenções para militares do Exército ou da Marinha. 8 Eles deveriam reunir o Conselho de qualificação composto pelos seis eleitores “idôneos” mais votados do distrito e que tivessem assentado praça na Guarda Nacional. A lei de criação da Guarda Nacional de 1831. lhe coubessem a quantia de 200 réis. em 1850. Cx: 010.10 Sobre essa última ocupação. cabia ao juiz de paz a escolha de outros cidadãos. 05-13. Dizemos isso após verificar na documentação que. oficiais da justiça e a polícia. praças do Exército. no ano de 1833. pescador. correspondências e informes oficiais ao longo do período estudado por nós (1831-1850). com idade de 21 até 60 anos. embora algumas listas de qualificações estejam destruídas pela ação do tempo e também sejam escassas. 182 foram designados para o serviço ordinário do Batalhão e apenas 45 foram inseridos na reserva. Ficando estabelecido no seu artigo 9. Se os mesmos cidadãos fossem filhos-famílias. 2 capitães de ordenança. 7 delegados. 2 alferes de milícia e 2 fiscais. Tip. sendo as ocupações mais frequentes as de ferreiro. esses juízes. sobre a quantidade de cidadãos qualificados. houve a alteração da idade para ingressar na milícia. João José de Moura Magalhaens. desde que fosse maior de 18 anos e menor de 60 anos. além dos clérigos e religiosos de todas as ordens. A organização da Guarda Nacional na província da Paraíba (1831-1850): instituição da ordem e das “mercês” políticas. E embora fosse obrigatório. que o cidadão votante poderia ingressar na milícia. ou seja.8 Na província da Paraíba. eleitos os oficiais. 8 . do município da Vila do Brejo de Areia. Por outro lado. Arquivo Histórico Waldemar Bispo Duarte/PB. Portanto. 10 Essas informações foram encontradas em ofícios. destes. dizia que o serviço na milícia era obrigatório para todo cidadão brasileiro com renda para ser eleitor ou votante. deveriam registrar tudo nos livros de matrículas. Histórica. 2012. é preciso notar que o alistamento para a Guarda Nacional coube aos juízes de paz de cada município. os senadores. alguns pareceres sobre as instruções dos guardas nacionais. o Dr. 1839. clérigos que não quisessem se alistar voluntariamente. n.11 sendo estes desviados de suas ocupações para realização do serviço de guarnição 7 Ver ofícios e correspondências dos juízes de paz aos presidentes da província da Paraíba. COSTA. mas que. No artigo 10 dessa lei. a lei de reforma da Guarda.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. encarregados das guardas das prisões. oficial de sapateiro. Ao analisar a lista da Guarda Nacional do “Batalhão de Alagoa Grande”. José de Moura Magalhaens. havia 7 juízes de paz.crl. p. conselheiros de Estado e presidentes de províncias. e indivíduos matriculados nas Capitanias dos Portos. sentiu-se incomodado com o fato de se ter “cidadãos industriozos e aplicados ao serviço da lavoura”. ficaram excluídos os cidadãos com “moléstias” (que os tornavam inabilitados para o serviço). sem renda. Arquivo Histórico do Estado da Paraíba Waldemar Bispo Duarte. em 1839. Para mais informações. Acesso em: 24 ago. ou mesmo pedidos de armamentos ao governo provincial. 58. Caso nas localidades não houvesse esse número de eleitores. carcereiros.

momento em que ocorreram mudanças estruturais. Essa Lei. o que acabava resultando em diversas tentativas. essas relações foram definidoras na escolha de quem deveria ocupar um cargo de comando dentro da milícia. e os do Estado maior. proprietário de engenho. Nesse período. Pela afirmação de Dolhnikoff (2005). A organização da Guarda Nacional na província da Paraíba (1831-1850): instituição da ordem e das “mercês” políticas. Ainda no que tange à ocupação dos guardas cidadãos. percebemos que interessava ao governo selecionar aqueles personagens que desfrutassem de certo prestígio social. Mariano (2006) destacou que as redes familiares na província da Paraíba se utilizaram dos partidos políticos – e. Daí a necessidade de se ter no comando da milícia pessoas que pertencessem a uma elite política ligada ao partido situacionista do momento. secretários e ajudantes.12 Nesse período. No entanto. ao mesmo tempo. como necessidade. não foi uma ruptura brusca com o estágio anterior. demissões e admissões foram bem acentuadas. Pelo que nos mostra a documentação. como cobrança de impostos. C. que fossem afinados com a política do governo provincial. de 1837 previu que os cidadãos que concorreriam para o posto de oficial deveriam ter uma renda líquida anual de 400 mil réis por “bens de raiz. filho de proprietário. o comandante do Batalhão deveria encaminhar ao presidente da província uma relação com os nomes dos guardas sugeridos por ele para o posto de oficial. haja vista que havia elementos do federalismo. entende-se que. vereador. percebemos que os comandantes costumavam indicar aqueles homens que estavam dentro de seu círculo de influência e. administrador e sócio de engenho. Convém salientar que essas sugestões seriam. com a indicação dos comandantes. Lidiana Justo da. Para mais esclarecimentos. criação e manutenção de uma força policial e controle dos empregos provinciais. 13 A década de 1840 foi o período conhecido como Regresso. de escaparem do alistamento ou do serviço cotidiano da milícia com pretextos diversos. 135): “A sobrevivência do sistema político dependia da manutenção de sua legitimidade”. no que tange às relações entre governo COSTA. a partir de 1837. 58. de 14 de março de 1837. Histórica. comércio ou emprego”. maio 2013. agricultura. que se colocassem ao lado dos nomes “observações” quanto a sua ocupação. essa conduta costumava se repetir com frequência. é preciso ressaltar. Cx: 014 (A). nº 58. diga-se de passagem. como a Lei de Interpretação do Ato Adicional. sejam os dos Batalhões ou outros corpos. negociante e criador. através de um decreto. de alguma maneira. Serioja R. deveria ser prestado pelo corpo de Primeira Linha da província. a menção sobre a ocupação dos oficiais só aparece precisamente e. Corroborando com essa perspectiva de análise. Portanto. 05-13. como bem atentou Richard Graham (1997. Convém salientar que a partir de 1840 o governo provincial intentou racionalizar ainda mais a instituição. latim e cirurgião) e doutor de medicina. juiz de paz. incluindo os promotores. embora o Ato Adicional tenha feito alterações institucionais. A partir desse decreto (1837). Logo. n. dos cargos públicos – como forma de se manterem no poder. p. percebemos que o mesmo ocorreu no processo de nomeações para o cargo de oficial da Guarda Nacional. Ano: 1837. ver Decreto nº 8 da Assembleia Legislativa da Parahyba. Arquivo Histórico Waldemar Bispo Duarte/PB. Afinal. professor (de letras. agricultor e negociante. consequentemente. foi declarado que os oficiais subalternos também seriam nomeados pelo presidente. alterou as regras concernentes às nomeações dos oficiais.13 Atentamos também que os motivos políticos para desligar um oficial 12 O Decreto número 8. dentre outras coisas. ano 9. 9 . por parte desses cidadãos. maio 2013 das Praças e Cidades – um serviço que. sob propostas de seus respectivos chefes. obras públicas. portanto. aprovadas pelo presidente da província. de modo a deixá-la nas mãos do governo. Foi nesse ano que o governo da província. São Paulo.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. chamamos a atenção para uma especificidade: na nossa documentação. ou não. exigindo. empregados públicos. p. Já no artigo 2º do referido Decreto. encontramos as ocupações dos oficiais especificadas da seguinte maneira: negociantes.

O mesmo ocorreu com relação ao alistamento para a Guarda Nacional na província da Paraíba. somente por espirito de partido integrando ao Capitão Gonçallo José da Costa homem este perseguidor dos inocentes que são afeitos ao sistema constitucional e a S. Histórica. com vistas a priorizar aqueles que fossem homens de “confiança” do governo (URICOECHEA. 125). a demissão era o meio mais eficaz para afastá-lo de um cargo que denotava status político. O mesmo se dava com as demissões: caso o oficial não fosse bem quisto pelo governo provincial. Ano: 1845. Atente que o Tenente Coronel Felis Rodrigues dos Santos fez questão de mencionar na sua mercê que o então presidente da província reintegrasse João Neiva. 2010). Para o autor.14 Pedidos ou “mercês”. Para ilustrar nossa argumentação. influenciando no processo de indicação para o oficialato da Guarda Nacional. maio 2013. Frederico Carneiro de Campos. que este fora demitido. Evidentemente que não estamos desacreditando de todas as justificativas. propomos a análise de um ofício do Tenente Coronel e Comandante do Batalhão de Pombal. COSTA. se “não um federalismo pleno. tratando-se de um subterfúgio para escapar do serviço. foram práticas políticas que remetem ao período colonial brasileiro (KRAUSE. n.I. Felis Rodrigues dos Santos. A organização da Guarda Nacional na província da Paraíba (1831-1850): instituição da ordem e das “mercês” políticas. ano 9. 05-13. Cx: 26. “Uma das principais responsabilidades dos presidentes provinciais.M. somente por espirito de partido”. São Paulo.. 10 . em 1845. pedindo para que o capitão João Neiva da Silva. ao menos um modelo de federação. na acepção da autora. as atribuições de ambos foram mantidas. Vejamos a situação exposta pelo comandante: Peço a V. João Neiva da Silva.ª [mercê] de mandar reintegrar o exercício do Capitão da 5ª Companhia. Muitos criaram subterfúgios para não prestarem serviço na Guarda Nacional e um dos recursos mais utilizados foi a desculpa de que estariam com “moléstias”. estes costumavam ser isentos do serviço ativo na Guarda. estamos apenas aventando a hipótese de que algumas dessas alegações eram falsas. que foi demitido pelo excelentissimo Presidente o Sr. Ele pediu a reintegração de um oficial ao presidente da província da Paraíba. como a que acabamos de expor. p. 1978). nessa teia de relacionamentos. consistia em influenciar nas nomeações para o corpo da Guarda Nacional” (p. “sem o mais pequeno motivo. ao presidente da província da Paraíba. Isso nos leva a perceber que os motes políticos que envolveram as facções políticas na província da Paraíba acabaram. e nem crime algum. E com relação àqueles que pertenciam à elite. E o que nos fez chegar a essa averiguação foi a preocupação do governo central central e provincial. por sua vez. portanto. Arquivo Histórico Waldemar Bispo Duarte/PB. a nomeação ou demissão. Ex. em 14 de janeiro de 1845. No entanto. Pedro Chaves. Lidiana Justo da. o alistamento não ocorreu sem protestos por parte desses milicianos das camadas populares. e nem crime algum. proteção política e os favores fizeram parte das relações sociais desenvolvidas no século XIX. fosse reintegrado ao Batalhão. que fora vítima de perseguição no governo anterior. como ele falou. 58. nº 58. “Coincidentemente” os serviços na milícia costumavam recair sobre os menos favorecidos socialmente. maio 2013 ou readmiti-lo foram comportamentos frequentes do poder provincial. Frederico Carneiro de Campos.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo.” 14 Correspondência enviada por Felis Rodrigues dos Santos. sendo isso. sem o mais pequeno motivo. Como bem refletiu Richard Graham (1997). Grifos nossos.

que muitas vezes desembocavam em embriaguez. elementos que são característicos de uma Cultura Política. 11 . O caso mostrado revela a “audácia” de milicianos querendo expulsar do Quartel o seu comandante. 142): 11 de Março – As praças da Guarda Nacional em serviço na Capital entram em desordens no respectivo Quartel. também foram personagens protagonistas de vários conflitos internos na Guarda Nacional na província. Esses milicianos. de 1837. foi um exemplo disso. no intuito de expelirem do seu recinto o comandante do destacamento. ano 9. Comparecendo o Prefeito e alguns officiaes do mesmo batalhão conseguiram em poucos momentos restabelecer a ordem. Nesse sentido. COSTA. às 9 horas da noute. podemos perceber que com o passar dos anos essa elite dirigente foi “desvirtuando” a ideia original da Guarda Nacional no que diz respeito à eletividade dos postos da milícia – o decreto provincial número 8. Contundentemente. no que tange à organização e direcionamento dessa instituição. ou até mesmo em suas diversões.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. entendemos que essas estratégias para escaparem do alistamento ou do serviço na Guarda são sintomáticas de que o serviço obrigatório e gratuito na milícia cidadã acabava sendo um ônus para esses milicianos. nº 58. que estudar a Guarda Nacional na província da Paraíba é dialogar constantemente com os valores e comportamentos partilhados pela elite dirigente. n. Esses guardas cidadãos (é preciso frisar) 15 As mudanças na Lei de criação da Guarda Nacional de 1831. ainda que isso resultasse em penalidades. Podemos inferir a partir do exposto que motins. através de decretos. maio 2013 em sempre alertar os responsáveis pelo alistamento e pela manutenção da ordem nas províncias a ficarem atentos para casos de alegações falsas de “moléstias”. desacatos e irreverências foram comportamentos que fizeram parte do cotidiano da Guarda Nacional na província da Paraíba. a rotina da milícia alterava o seu cotidiano: seja no trato da lavoura. Histórica. chamamos atenção para os comportamentos nada “patrióticos” de alguns milicianos ao criarem subterfúgios para escaparem do alistamento e do serviço da Guarda. A organização da Guarda Nacional na província da Paraíba (1831-1850): instituição da ordem e das “mercês” políticas. que tinham que lutar pela sua sobrevivência diária. no comércio. 1977 [1979]). Lidiana Justo da. levando-nos a perceber que os guardas cidadãos não foram personagens passivos diante da autoridade oficial. E não só isso. Pelo contrário. foram personagens que em determinados momentos fizeram valer suas vontades. E quanto à lei de reforma da milícia em 1850. Vimos. como o caso dos soldados que foram presos. p. é preciso ressaltar. nas feiras. não ocorreram apenas na província da Paraíba. sendo apenas presos quatro soldados que em seguida foram punidos. mas nas demais províncias do Império brasileiro (CASTRO.15 Por fim. maio 2013. São Paulo. 58. 05-13. ela apenas tornou legal uma prática que vinha sendo executada pelos governos provinciais do Império brasileiro. p. já que um dos requisitos salutares da lei de criação da milícia era de que seus milicianos fossem cidadãos patrióticos. portanto. A documentação nos mostra casos de protestos e insubordinação aos oficiais. Um dos atos de insubordinação foi relatado por Irineu Pinto (1908 [1977].

FARIA. Antonio Carlos Jucá de. O Pacto Imperial: origens do federalismo no Brasil do século XIX. DOLHNIKOFF. 1998. 2010. CASTRO. A milícia cidadoa: a Guarda Nacional de 1831 a 1850. GRAHAM./jun. Dissertação (Mestrado em História)–Universidade Federal do Paraná. 1986. 24.edu/brazil/provincial/para%C3%ADba>.br/saeculum/saeculum24. A organização da Guarda Nacional na província da Paraíba (1831-1850): instituição da ordem e das “mercês” políticas. Recife. Jeanne Berrance de. Rio de Janeiro: UFRJ. MARTINS. In: FRAGOSO. p. 1977. Culturas políticas. Revista de História Sæculum. 1998. Dissertação (Mestrado em História)–Universidade Federal Fluminense. ALMEIDA. MARIANO. séculos XVIII e XIX. Richard. 12 . Uniformes da Guarda Nacional (1831-1852): a indumentária na organização e funcionamento de uma associação armada. São Paulo: Globo. COSTA.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. ano 9. Clientelismo e Política no Brasil do Século XIX. poder e redes familiares no Brasil. Carla Maria C.cchla. Referências ALMEIDA. 05-13. 2011. 2010. KRAUSE. Rio de Janeiro. 2012. n. 1986. Maria Auxiliadora. Acesso em: 15 set.pdf>. 1977 [1979]. Nacional. 2012. maio 2013 não foram passivos e alheios ao que acontecia. CENTER FOR RESEARCH LIBRARIES. C. Maria das Graças Andrade de. 1641-1683). Curitiba. João Pessoa: Departamento de História/Programa de Pós-Graduação em História/UFPB. ALMEIDA. 2005. Adilson José de. A Guarda Nacional em Minas (1831-1873). p. Provincial Presidential Reports (1830-1930): Paraíba. Histórica. Os tempos de mudança: elites.. SAMPAIO. Dissertação (Mestrado em História)–Universidade Federal de Pernambuco.crl. Dissertação (Mestrado em História)– Universidade de São Paulo. Em Busca da Honra: a remuneração dos serviços da guerra holandesa e os hábitos das Ordens Militares (Bahia e Pernambuco. de. 1997. 58. João Luís R. jan. Thiago do Nascimento. São Paulo: Ed. Disponível em: <http://www. Conquistadores e negociantes: histórias de elites no Antigo Regime nos Trópicos.ufpb. Serioja R. n. nº 58. sendo uma prática comum entre eles protestos e insubordinações aos superiores. América Lusa XVI a XVIII. maio 2013. Maria Fernanda. ano 17. Disponível em: <http://www. Acesso em: 28 ago. 403-434. A Guarda Nacional em Pernambuco: a metamorfose de uma instituição. 1977. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. administração e redes familiares na Paraíba (1825-1840). São Paulo. Lidiana Justo da. 2007. Miriam.

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ano 9. Histórica. Antifascism. Segunda Guerra Mundial. Este artigo é parte das reflexões apontadas na nossa tese de doutorado. PAIVA NETO. maio 2013. dentre as quais o diário de D. sobretudo entre 1944 e 1945. maio 2013 A AÇÃO CATÓLICA: A RESISTÊNCIA PIEMONTESA AO FASCISMO (1933-1944) Francisco Fagundes de Paiva Neto1 Resumo: Analisamos neste artigo a participação da Ação Católica na região piemontesa italiana durante a resistência ao fascismo a partir da colaboração dos grupos políticos de caráter socialista e liberal. A contribuição da micro-história.com. nov. Palavras-chave: Ação Católica. 2012 Histórica . visualizamos a Ação Católica como um setor da Igreja Católica.A Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. quanto ao uso das escalas. which collaborated locally for mining the fascist regime political bases. Professor do Departamento de História/UEPB. As far as method of scales we used the contribution of the micro historic approach which allowed us to scrutinize the available sources. We used auto-bibliographical sources as well. p. São Paulo. E-mail: chicofagundes@gmail. which showed us the relation between Catholicism and political resistance against fascism.H Histórica . Luigi Grassi (bispo da Diocese de Alba). nov. nº 58. 14-21. 1 Doutor em Ciências Sociais/UFCG.A Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. nº 56. Antifascismo. que em âmbito local colaborou para o esgarçamento das bases políticas do regime fascista. n. Abstract: This article aims to analyze the engagement of Catholic Action in the Italian region of Piedmont during resistance against fascism through collaboration of socialist and liberal political groups. In this political process we see the Catholic Action as a sector of the Catholic Church. Nesse processo político. Second World War. que nos revelaram a relação do catolicismo com a resistência política ao fascismo. Francisco Fagundes de. 2012 A REVISTA ONLINE DO ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. 58. Keywords: Catholic Action. nos permitiu perscrutar as fontes disponíveis. such as D. especially during 1944 and 1945. A Ação Católica: a Resistência piemontesa ao fascismo. 14 . Utilizamos fontes bibliográficas. Luigi Grassi’s journal (the archbishop of Alba Diocese). nº 56.

cujo esforço se orientou pelo combate ao nazifascismo. que nos campos de guerra semeou coalizões de resistência. que tinham apoiado o seu governo até o fim. cujas filiações eram as mais diversas. 1995. O primeiro semestre de 1941 demonstrou o êxito dos países do Eixo (Alemanha. principalmente. p. não podiam colocar distância entre eles próprios e a era nazista de 1939-45 [. PAIVA NETO. e no primeiro semestre de 1940 marcharam sobre a Noruega. p.]. São Paulo. 144-177) e BOUTZOUVI (1994). ano 9. O aparecimento dos grupos da Resistência assumiu contornos mais definidos quando a Alemanha invadiu a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). liberais e socialistas. Cotidianamente ocorriam ataques surpresas por grupamentos. Iugoslávia. denominados genericamente de partisans (partidários). A Ação Católica: a Resistência piemontesa ao fascismo.. nº 58. a população civil também enfrentava a passagem de desertores (que lhe solicitava víveres) ou as violências sexuais cometidas pelas tropas.. p. na França. Hobsbawm (1995. Bulgária e Grécia). a Holanda e a Bélgica. destruições de equipamentos ou infiltrações para se obterem informações importantes para as tropas aliadas. Avaliando a atividade da Resistência italiana. 58. uma curiosa aliança entre o capitalismo dos Estados Unidos e o comunismo da URSS. A quebra do tratado de não agressão. roubos de material bélico. Em meio ao conflito. enquanto no Sul da Itália o caos era incrementado pelas ações de clãs mafiosos. através dos movimentos da chamada Resistência2. e dos demais partisans (Itália. que contaram com a participação de católicos. maio 2013 A Segunda Guerra Mundial foi combatida em duas grandes frentes: as convencionais (exércitos). ganhou um novo componente com a participação das tropas irregulares a partir do momento em que civis foram às armas.. 2 As Resistências foram constituídas por grupos civis e militares de várias tendências políticas. tendo para Hitler o caráter de estratagema pela neutralização de uma aliança dos russos com a França e a Inglaterra. 15 . a Alemanha e a URSS assinaram um acordo de não agressão. 2003). maio 2013. p. representou uma nova fase na guerra. Contudo. da Itália e do Japão. como carros de combate e armas automáticas leves (LEWIS. O mesmo não se deve esquecer. os alemães. Ver: HOBSBAWM (1995. 165). pois ganhou um componente político e militar inesperado (HOBSBAWM. os nazistas invadiram a Polônia. a invasão alemã na URSS fez despertar a resistência interna por grupamentos de civis. em âmbito internacional. pois a Europa estava quase toda dominada e apenas a Inglaterra resistia aos ataques aéreos alemães e da marinha italiana no Mediterrâneo.. Histórica.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. anarquistas. de um lado a outro. Tal experiência política esteve presente em diversos Estados europeus por meio dos “machis”. munidos de armamentos roubados. 165-166) considerou que: Enquanto os italianos podiam deixar a memória de Mussolini para trás com a consciência limpa. embora fossem predominantemente comunistas. A partir de 1939. No mês de agosto de 1939. a Dinamarca. embora a política da Igreja fosse demasiado complexa para ser classificada [. balizadas pelo aspecto de combater as forças da Alemanha.] como “colaboracionista” em qualquer parte. e as irregulares (guerrilhas). 14-21. Itália e Japão). com as suas metodologias de combates regulares (entre exércitos). Surgiu. responsáveis pela beligerância entre os Estados nacionais. firmado entre Hitler e Stalin com a invasão alemã ao território soviético (1941). A combinação dessas duas experiências de guerra. responsáveis pelo alastramento nos diversos países europeus. n. Francisco Fagundes de. fizeram os elementos profunda e intransigentemente anticomunistas na Igreja Católica e seus exércitos de religiosos convencionais.

n. 14-21. considerando as condições políticas de opressão e a forte presença do catolicismo nas áreas rurais. PAIVA NETO. visualizamos tensões entre a hierarquia da Igreja e os membros do Estado fascista. nazifascista ou comunista. 23). graças ao apoio de militares com o auxílio de homens ou equipamentos. Dessa forma. moral e civil entre os povos”. Histórica. 1994. D. Um dos primeiros grupos sociais católicos a sofrer as pressões políticas pré-fascistas foram os campônios do Piemonte. o movimento camponês foi contido enquanto era restaurado o monopólio do poder nas mãos dos grupos oligárquicos rurais (MOLA. que assumiu contornos de sustentação do fascismo em gestação. no caso dos Estados italiano e francês (MICHEL. em que os membros da AC foram convocados às forças armadas. 26). Maria Grassi. A tônica da AC era um projeto político com “o primado religioso. Francisco Fagundes de. ano 9. demarcando um espaço próprio entre os governos de inspiração liberal. tendo em conta que nessa região da Itália a oposição ao regime ganhou uma forte expressão devido à presença de um bispo abertamente antifascista. Com frequência ocorreram associações entre os Aliados e os partigiani. desde o ano de 1933. assumiu uma postura antagônica ao regime. A participação dos católicos na Resistência foi acentuada na Província de Cuneo. 1994. 2003. embora tenha instado os seus membros pelo jornal “Civilização Católica” a apoiar os fascistas contra os liberais. que. REVEL. cuja oposição foi manifestada desde a época em que foi padre. enfrentou alguns conflitos com o Estado. devido ao surgimento do Partido dos Camponeses (após o fim da IGM). p. a Ação Católica. ou no caso extremo. maio 2013 Essas considerações aguçam a nossa percepção sobre a existência de brechas na sociedade italiana. no Piemonte. a postura predominante entre os bispos era a de tentar acomodar a situação de oposição ao nazifascismo como forma de manter a unidade entre o rebanho católico ou de não comprometer a reinserção da Igreja. A base fascista não conseguiu conter o gotejamento das organizações clandestinas constituídas por militantes das variadas tendências políticas. 342). Avaliando o contexto da relação Estado/Igreja na Itália. p. 1977. A Ação Católica: a Resistência piemontesa ao fascismo. a exemplo da educação dos jovens (1929). os camponeses foram um grupo importante na oposição aos fascistas a partir de 1944. ao passo que no Piemonte o bispo de Alba. na Gazzetta d’Alba. (GRASSI. p. Depois.1988). A relação da Igreja no âmbito nacional manteve algumas tergiversações com o regime fascista. pôde dar uma demonstração de resistência política a partir de grupos de civis em armas. D. mesmo sob as coações do regime fascista. demonstrou a aprovação eclesiástica a Mussolini (SMITH. No caso da área do Piemonte. através das orientações dadas pelo então monsenhor Luigi Maria Grassi à AC em contraste explícito com o fascismo. COUTROT. em 1939. 513-555). 81. entre 1929 e 1942. Para os membros da AC. mas o próprio Papa Pio XII contornou a disputa e. p. em 1937. Grassi criticou abertamente o fascismo. 2000.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. a partir das escalas. entre 1941 e 1942. São Paulo. p. 58. No curso da Segunda Guerra Mundial. p. afirmando “se tratar de uma minoria não querida pelo sufrágio universal e não confortável ao aspecto eclesiástico ou em outros termos: uma ditadura reacionária de massa”. 1998. percebemos como a micro-história nos sugere uma diversidade de matizes (GRENDI. nº 58. Nessa fase. 16 . maio 2013.

a guerra civil tomou um corpo mais robusto no Piemonte. A Igreja na Itália estava dividida diante do fascismo. contando com pelo menos 17% dos habitantes da Diocese com uma posição política antifascista. sob a acusação de colaborar para uma emboscada partisan contra os alemães. sob a proximidade do comando Aliado e do bispo de Alba. que desde o mês de junho haviam ocupado Roma. ex-oficial do Estado Maior do Exército Italiano até 1943. Grassi em Alba3 ocorreu uma franca oposição ao regime fascista. cuja orientação ideológica era a distância dos diversos partidos. esteve profundamente envolvido com os jovens participantes da Resistência. p. Francisco Fagundes de. outros religiosos passaram por cárceres ou foram ameaçados pelos militares. tendo como capital livre para uma junta de governo a cidade de Alba. com mais dois homens. e. A partir de então. pelos nazistas. o Reino do Sul e os partigiani. Porém. 4 O padre Demetrio foi fuzilado no Castelo de Polenzzo (25/08/1944). revelaram-se na criação de uma zona composta por 400 comunas livres dos nazifascistas (1944) entre Langhe e Monferrato. “Mauri”. restringindo as atividades às missões militares contra os nazifascistas. Assumiu a diocese em 11 de junho de 1933. O então bispo de Alba. que se associou aos Aliados. por fim. A hierarquia clerical dava sinais de fissuras. os membros da Divisão Giustizia e Libertà (GL) avançaram cerca de 80 quilômetros em território nazifascista. No mês de setembro de 1945. No caso de Alba. 17 . e do padre Girotti. No mês de julho de 1944. por conta das identidades dos membros do clero ou pelas demandas dos fiéis. deparou-se com uma realidade de guerra marcada pela presença de três grupos: os aliados. No bispado de D. D. As estratégias de Mauri. ano 9. o levantamento do monsenhor Grassi apontava para uma presença sólida da AC em 97 paróquias do Piemonte. Grassi. que resultou em várias mortes. os seguidores do dissidente fascista Pietro Badoglio. sendo seguida pelos leigos. os religiosos faziam uma oposição por meio do trabalho nas paróquias. nº 58. morto no campo de concentração de Auschwitz (Polônia). A força guerrilheira mais expressiva na área esteve sob o comando de Enrico Martini. percebemos um franco conflito entre o regime e vários membros da Diocese de Alba. maio 2013. refugiou-se no Piemonte e organizou forças de resistência em Cuneo (área montanhosa nos Alpes). A AC (no Piemonte) e os grupos partisans eram unânimes quanto à necessidade da derrocada fascista. colaborando para o apoio dos católicos aos grupos armados. os conflitos se tornaram mais agudos devido à reação dos nazifascistas ao avanço das tropas aliadas. Histórica. politicamente monárquico. rumando para o Norte e Nordeste do país. como a do padre Demetrio Castelli4. O próprio bispo de Alba.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Pio XI nomeou-o bispo de Alba. 14-21. Langhe e Monferrato (ambas consideradas como áreas de colinas) por meio das Formações Autônomas. em relação à política. durante a experiência imperialista na África. demonstrando que não é fácil atribuir uma análise generalista sobre a hierarquia da Igreja. Dom Grassi. n. somadas às qualidades militares das formações partigiani sob o seu comando. maio 2013 No campo político. 58. Em 1944. A Criação do Corpo dos Voluntários da Liberda3 Em março de 1933. Assim. São Paulo. A Ação Católica: a Resistência piemontesa ao fascismo. esse número tendeu a crescer nos anos posteriores. Além disso. que foi fuzilado na área do Piemonte. Entre os anos de 1936 e 1937. as tropas alemãs e os partidários de Mussolini. os fascistas adquiriram um inimigo de grande envergadura: os seguidores das orientações da AC no Piemonte. PAIVA NETO.

como forma de enfraquecer as bases da Resistência entre o baixo clero católico. quando a minha diocese era partisan em pelo menos 90 entre 100”. Embora o bispo agisse de acordo com os princípios cristãos. Grassi com os militantes dos grupos da Resistência. Apesar dos vínculos entre o Estado italiano e o Vaticano. Por fim. A participação dos partigiani demonstra uma variedade de tendências políticas laicas e religiosas (católica) no enfrentamento aos grupos nazifascistas. Em meio à guerra civil em Cuneo. PAIVA NETO. “que foi a matriz orgânica de tantas partes dos quadros e da base dos grupos partisãos. e também quando constatou que entre os fascistas era raro ver um dos seus diocesanos enquanto tinha “quase todos os seus filhos mais jovens nos bosques. Grassi. sua predileção política pelos guerrilheiros ficou registrada pela sua própria pena quando afirmou “que não poderia me desinteressar pelos partigiani. O caráter mais acentuado do envolvimento da Diocese de Alba no confronto com o regime fascista ganhou evidência por meio da aproximação de D. p. pois D. enquanto a juventude partisan sofria influência especialmente de grupos socialistas e da AC. 18 . A Ação Católica: a Resistência piemontesa ao fascismo. 1994. p. A aproximação teve um aspecto politicamente esdrúxulo.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Diante das hostilidades aos nazifascistas na região do Piemonte.” (MOLA. o bispo ficou em uma situação complexa. maio 2013. tornou-se problemática a condição do bispo de Alba. Dessa forma. 1994. a exemplo das negociações pela troca e soltura de prisioneiros ou o contato com os nazifascistas ou com os partisans para a resolução de questões variadas. 14-21. ano 9. n. Dessa forma. 13-14). nº 58. ajudar quem os queria todos mortos?” (GRASSI. porque D. que capilarizava as ordens do bispo. do trágico verdadeiramente cotidiano”. 30). E assim. Francisco Fagundes de. São Paulo. Grassi. maio 2013 de (CVL) não indicou em nenhum momento uma unanimidade entre os partigiani. 58. até a derrota plena dos fascistas. pois cada um marchava conforme a sua bandeira (MOLA. Histórica. algumas vezes intermediadas por D. ficou claro para os nazifascistas que havia uma forte ligação entre os guerrilheiros e o bispo de Alba. 77). a estratégia dos nazifascistas foi a de fuzilar ou deportar alguns padres que cumpriam as orientações de D. ocorreram posicionamentos contrários às relações com a política tutelada pelos nazifascistas. 1994. considerar-lhes delinquentes. pois a prisão ou a morte poderia suscitar um processo ainda mais acentuado de comprometimento de setores católicos com a Resistência. com muitas mortes. Os debates e as práticas de dissidência dentro da Igreja tiveram um aspecto próprio com relação à permanência dos vínculos de bispos e padres bem como de leigos com a instituição. e de estabelecer a dissuasão entre os fiéis pelo recurso da violência. Grassi era monarquista. Grassi facilmente obtinha trocas e libertações de prisioneiros ao ponto de ser denunciado como o “bispo partigiano”. pois precisou realizar uma série de atividades que antes poderiam ser delegadas aos seus subordinados. p. entre rochas a servir a pátria em uma vida selvagem. ele se pergunta sobre os partigiani: “Como desinteressar-me (como pretendiam os fascistas). p. os combates foram intensos. aprisionamentos e troca de prisioneiros entre os beligerantes.

monarquia e catolicismo faziam parte de uma experiência específica de classe. importantes para o conhecimento das estratégias e objetivos visados pelos inimigos. mesmo pessoas devotas. ocorreu a divisão dos operários em uma diversidade de denominações cristãs. Porém. Essa questão desponta como um aspecto interessante sobre a religiosidade entre os militantes ou adeptos da esquerda associados ao catolicismo. entre outros) traziam as demandas das vítimas do nazifascismo pelo exercício de pacificar. Assim. Em alguns estudos realizados por Hobsbawm (2000. religiosos. 1987). destruídas ou transformadas pelo capitalismo moderno. No caso de Canale. Posteriormente. PAIVA NETO. alguns convictos e outros submetidos aos rigores do serviço militar. Ver: MOTTA (2009). maio 2013 Por sua vez. p. 19 . O Metodismo. enquanto se enfrentavam politicamente (THOMPSON. 58.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Histórica. por exemplo. Cerca de 40% das pessoas na Sicília e Sardenha. 6 Cultura política refere-se às ações e representações relacionadas ao fazer político. A Ação Católica: a Resistência piemontesa ao fascismo. percebe-se como em uma determinada região podemos constatar as variações do fenômeno político a partir de algumas memórias transmitidas por meio de gerações. Esse fator colaborou igualmente para o recrutamento da Resistência. nos polarizados anos 1950. p. São Paulo. reafirmamos a percepção de que muitos componentes das forças nazifascistas eram também católicos. Francisco Fagundes de. a experiência da luta dos católicos entre os partigiani demonstrou a sua importância na formação de uma área liberada da influência nazifascista. operários. por meio da sua doação aos combates contra exércitos bem treinados (o italiano e o alemão). as estruturas de autoridade e da comunidade não haviam sido rompidas. por sabotagens materiais ou ainda pelo trânsito de informações privilegiadas. 60). Durante a formação da classe operária inglesa no século XIX. que formaram alicerces de uma cultura política6 socialista em conflito com o liberalismo da fase pré-fascista pelos direitos dos trabalhadores. p. nº 58. Outro aspecto referente à população de Alba e à sua cultura política voltou-se para a presença de alguns trabalhadores socialistas que frequentavam missas. não excluindo a prática de Resistência pela deserção. envolvendo desde questões partidárias até sindicais e antifascistas. Logo. a vida em Alba se constituiu como nexo entre a experiência política de famílias camponesas e uma conjunção do catolicismo com a esquerda. enquanto nas pequenas cidades os trabalhadores cultivavam uma prática religiosa mais participativa entre fins do século XIX e primeiras décadas do século XX. 60) foi possível constatar que a secularização e as posturas antirreligiosas ou de indiferença religiosa eram mais comuns entre os operários das metrópoles. supersticiosas ou ortodoxas votavam na esquerda “ateia”. cuja tendência é substituir a sociedade pela comunidade e de fazer a religião perder o monopólio de formar e comunicar ideias entre a população5. Os membros da Resistência (anteriormente camponeses. maio 2013. ano 9. Percebemos pelas narrativas que os assuntos referentes às relações entre socialismo. regiões até então sob o domínio fascista. especificamente em relação às questões de ser praticado por patrões e trabalhadores. n. as questões em pauta se demarcaram por processos organizativos. professores. assemelhou-se bastante com a Igreja Católica na Itália. não viam incompatibilidade entre o catolicismo e o comunismo. 5 Segundo Hobsbawm (2000. Essa questão pode ser explicada pela permanência de aspectos comunitários associados às práticas religiosas. 14-21.

Rio de Janeiro: Editora FVG. 14-21. 2000. enquanto alguns efeitos da guerra se apresentavam irreversíveis. 2. LEWIS. 1977. Remond (Org. p. Luigi Maria. Tradução de Álvaro de Figueiredo. MICHEL. Aline. sendo estes divididos em sociais-democratas. 20 .). v. liberais e democratas-cristãos. socialistas. Os fascismos. Histórica. Por uma história política. 1995. PAIVA NETO. na década de 1940. A religião e a ascensão do socialismo. Historia y Fuente Oral. 3. In: ______. Jogos de escala. Rio de Janeiro: Editora FGV. Francisco Fagundes de. 3. região do Piemonte. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. As manobras políticas da burguesia do norte italiano não tardaram a limitar o poder político da monarquia e. GRENDI. 58. Individualidad. Era dos extremos: o breve século XX. 55-78. 11. Lisboa: Publicações Dom Quixote. Eric. D. São Paulo. Esse fato implicou inclusive a participação ativa do bispo da Diocese de Alba. a sociedade italiana precisou passar pelo desafio da reconstrução. n. após a queda fascista (MOLA. La tortura di Alba e dell’albense (1944-1945). Edoardo. p. In: RÉMOND. maio 2013. 14). sendo sepultado três dias depois. nº 58. 2003. HOBSBAWM. Apesar das relações políticas do Papa com o regime fascista. posteriormente a sua abolição. ano 9. 251-262. Repensar a micro-história. a presença do papado garantiu a formação de práticas políticas relacionadas ao catolicismo por meio de um vasto leque: monarquistas e republicanos. Jacques (Org. Grassi feneceu. 1998. 1994.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. com os guerrilheiros antifascistas. Henri. 1. Aleka. Religião e política. Alba: San Paolo. maio 2013 No caso italiano. Nápoles. Findo o conflito. fato que causou uma enorme comoção na Diocese de Alba. Podemos imaginar a dimensão dessas disputas grupais tendo em conta a ocorrência da própria guerra na Itália. Referências BOUTZOUVI. Norman. ed. Mundos do trabalho: novos estudos sobre história operária. o Nordeste italiano destacou-se por um movimento de resistência ao regime. Por fim. p. p. Grassi. São Paulo: Paz e Terra. Barcelona. ______. GRASSI. memoria y conciencia colectiva: la identidad de Diamando Gritzona. COUTROT. Inegavelmente o conflito colaborou para a debilidade física de D. ed.). em 5 de abril de 1948. Tradução de Dora Rocha. n. cuja oposição ao fascismo surgiu ainda antes da guerra e perdurou até o fim do conflito. p. In: REVEL. A Ação Católica: a Resistência piemontesa ao fascismo. 1994. 331-358. 1944. ed. São Paulo: Companhia das Letras. 1994. 2003.

Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. 2009.A maldição de Adão). Rodrigo Patto Sá. MOTTA. O poder transformador da cruz. Luigi M. 225-289. maio 2013. Storia d’Italia dal 1861 al 1997. v. Histórica. Rio de Janeiro: Editora FVG. São Paulo. 13-37. Edward P. Francisco Fagundes de. p. nº 58. THOMPSON. 21 . Rio de Janeiro: Paz e Terra. REVEL. 1994. 14-21. Aldo A. Alba: Società San Paolo. Desafios e possibilidades na apropriação de cultura política pela historiografia.). Editori Laterza: Bari. maio 2013 MOLA. 2000. Tradução de Denise Bottman. Denis Mack. Microanálise e construção social. SMITH. 2. Introduzione. p. p. 1998. In: ______ (Org. p. Formação da classe operária inglesa (II . Jogos de escala. Culturas políticas na história: novos estudos. A Ação Católica: a Resistência piemontesa ao fascismo. 11-32. PAIVA NETO. La tortura di Alba e dell’albese (Luglio 1944-Aprile 1945). 1987. ano 9. Belo Horizonte: Argumentvm. Jacques. In: ______. n. In: GRASSI. In: ______. III edizione. 58.

br. 2012 Histórica 2012 A REVISTA ONLINE DO ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Para driblar a censura que proibia e vistoriava toda e qualquer ação de oposição ao governo. a princípio. Keywords: Press. Intellectuals. Paulo. E-mail: danieladejesusferreira@ yahoo. quando foi proibida de circular pelo governo Getúlio Vargas. fev. Foram produzidas 18 edições ao longo da sua “primeira fase”. 56. Esta foi denominada Seiva.A A Revista Revista Eletrônica Eletrônica do do Arquivo Arquivo Público Público do do Estado Estado de de São São Paulo. Atualmente. The magazine was called Seiva. nº 58. contribuiu para que alguns comunistas baianos enveredassem pelo caminho das letras através da articulação e produção de uma revista. na área de concentração História. ano 9. Abstract: The survival of the Regional Committee of the Communist Party of Bahia after the strong repression of the Brazilian state in 1935 contributed to some communist of the state followed by the path of letters through the articulation and production of a magazine. Intelectuais. Palavras-chave: Imprensa. característica literária. que perdurou de 1938 a 1943. maio 2013 CAMINHOS E DESCAMINHOS DA REVISTA SEIVA (1938-1943) Daniela de Jesus Ferreira1 Resumo: A sobrevivência do Comitê Regional do Partido Comunista da Bahia. 2013 Histórica -. Caminhos e descaminhos da revista Seiva. Cultura e Poder. which lasted from 1938 to 1943. 58. após a forte repressão do Estado brasileiro em 1935. Produced 18 editions along its “first phase”. when was prohibited by government of Getulio Vargas. a revista teve.H 57. nov. and became the first newspaper circulating in the anti-fascist Estado Novo scenario. Censura. nov. pela Universidade Estadual de Feira de Santana-BA (2012). nº nº 56.com. 1 Mestre em História. FERREIRA. maio 2013. Censorship. p. To circumvent the censorship which prohibited and investigated any and all opposition to the government. the Journal had the characteristic literary principle. e tornou-se o primeiro periódico antifascista a circular no cenário do Estado Novo. atua na rede Estadual de Ensino do Estado da Bahia. 22-29. São Paulo. Daniela de Jesus. 22 . Histórica. n.

já que o debate de ideias foi fundamental para o desenvolvimento do PCB. torna-se uma importante fonte para o conhecimento dos homens. um homem de gosto. Essas ideias que os comunistas brasileiros produziram não estavam isoladas ou surgiram do nada. até os que eles mesmos produziam. com as diversas leituras realizadas do texto relacionadas ao contexto do sujeito que a produziu. foi um dos fatores que motivaram um maior interesse dos brasileiros pelo comunismo e por estudos associados à dinâmica da sociedade brasileira em grande efervescência. Para Gramsci. 22-29. estudá-lo. e seus efeitos ao longo dos anos. pelas reflexões que fizeram do seu tempo e que ficaram guardadas em materiais impressos. p. Gramsci concebe todos os homens como intelectuais. facilitadora da circulação das ideias políticas. Em síntese. e L. enquanto mecanismo de produção cultural. Caminhos e descaminhos da revista Seiva. não estavam isentos de intenções e motivações. João Falcão. os russos V. Lênin foi importante para sua formação e proposição da revista ao informar que FERREIRA. houve o apogeu tanto das lutas sociais quanto da produção de materiais teóricos e de propaganda pelos comunistas. formando milhares de seguidores. Um dos articulistas da revista baiana Seiva. Na década de 1930. Daniela de Jesus. é um filósofo. elas eram adequadas a uma época. 58. Essa história deve ainda se preocupar com a intertextualidade. ou seja. Engels. as relações sociais devem ser levadas em consideração.” (GRAMSCI. os baianos estiveram envolvidos em ações individuais e coletivas. o qual desde sua formação teve dificuldades em afirmar-se ideologicamente. os textos que chegavam às suas mãos. Lênin. fosse pelo seu “envolvimento com o marxismo”. não existe a possibilidade de qualquer atividade humana sem atividade intelectual. conquanto com características de classe.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Histórica. 1982. já que podemos entender os articulistas da Seiva como tais. como as revistas. fosse por sua “herança anarquista”. Essa forma de perceber o intelectual auxilia na análise dos integrantes do Partido Comunista do Brasil (PCB) e de suas ideias. reconhecer e compreender seus influxos teóricos que moldaram as formas de pensar e agir dos comunistas. com suas publicações e o conhecimento de suas ações. ano 9. Nesse processo. A concepção formulada pelo italiano Antonio Gramsci torna-se relevante nos nossos estudos sobre os intelectuais. aglutinadora de intelectuais. deve preocupar-se com a recepção do material exposto. maio 2013 A Revolução Russa de 1917. comentou como a leitura de V. São Paulo. Assim. Principalmente por acreditar que uma história preocupada com as ideias não pode perder de vista sua interlocução com a trajetória dos homens e das mulheres. Isto é. Dessa forma. atuando tanto no âmbito regional quanto nacional. Trotsky pudessem atrair muitas mentes. de suas trajetórias e dos grupos sociais. à sua temporalidade. 23 . o estudo da revista. um artista. nº 58. Por isso. O relacionamento com a teoria foi motivação para vários estudos e muitas polêmicas entre os integrantes do Partido e aqueles que se preocuparam em conhecê-lo. n. A divulgação e a leitura fizeram com que os materiais produzidos por sujeitos como os alemães Karl Marx e F. 7). maio 2013. todo ser humano “desenvolve uma atividade intelectual qualquer. p. divulgado e propagado. participa de uma concepção de mundo. é relevante conhecer os comunistas baianos por meio de suas produções. possui uma linha consciente de conduta moral.

p. (CHARTIER.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Em 1937. uma fogueira que lembrava a Inquisição foi acesa durante o governo do interino Antônio Fernandes Dantas. nos deparamos com os limites impostos pelos homens da República preocupados com a circulação de ideias ditas ‘revolucionárias’”. 7). nº 58. 24 . que investiram na criação de uma revista em pleno período da ditadura do Estado Novo (1937). despertam mentes adormecidas. A sobrevivência do Comitê Regional do Partido Comunista na Bahia após a forte repressão do Estado no governo Getúlio Vargas. As palavras voam e pousam. sozinhas elas não se “reproduzem”. 28). desde 1923. p. jornal ilegal do PCB que circulava a 13 anos. os censores. maio 2013 Concorreu bastante para essa ideia a leitura sobre a vida e a ação de Lênin na Rússia. esta história desencarnada instituiu um universo de abstrações onde o pensamento parece não ter limites já que não tem dependências. 2002. ano 9. Seria inocência acreditar que as ideias são neutras. 2008. de repressão e censura às ideias e textos comunistas. 15). São Paulo. obviamente. Elas estimulam atitudes e anseios. Sob a mais difícil clandestinidade e perseguição do regime czarista. Caminhos e descaminhos da revista Seiva. A repercussão das ideias sempre foi fundamental para a sua manutenção e reprodução. mas que foi de grande relevância para a afirmação dos comunistas baianos e como meio de divulgação de uma literatura considerada “subversiva”. o Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS). Histórica. n. Foram FERREIRA. mesmo que nem todos confirmem objetividade. “impunha seu poder” aos agentes considerados subversivos: “ao penetrarmos neste universo. por separá-las radicalmente das formas da vida social. p. 58. O exemplo do Classe Operária. tomando todas as precauções e despistando. 22-29. Daniela de Jesus. ele jamais deixou de debater e levantar os problemas teóricos da revolução Russa. mesmo no exílio. (CARNEIRO. propagando ideias concretas e abstratas com difícil imparcialidade. Dezenas de escritoras e escritores. Homens e mulheres refletiram sobre a necessidade de uma melhor atuação. Elas só passam a ser instigantes a partir do momento em que se espalham e se proliferam. pedem passagem. Na Bahia. enfrentando todos os percalços. a censura se manifestava em espetáculos públicos. posicionando-se em meio às truculências do período. p. estimulava o projeto fascinante. (FALCÃO. criado pelo governo brasileiro. Nesse contexto estão inseridos os comunistas. de revistas e jornais clandestinos. em 1935. Por isso. maio 2013. ao tratar dessa problemática Chartier faz um alerta para que não caiamos no erro de separar as ideias das vivências: Por isolar as ideias ou os sistemas de pensamento das condições que autorizavam sua produção. 1997. contribuiu para que alguns comunistas baianos enveredassem pelo caminho das letras através da articulação e produção de uma revista ainda pouco estudada. pois. valendo-se para isso. operárias e operários e intelectuais foram perseguidos por suas ideias nesse período. e que não oferecem diversos mecanismos de apropriação dependendo da forma que são divulgadas. Essa preocupação era justificada.

58. Segundo João Falcão. nascido do seio de uma juventude ávida por mudanças sociais e que atuava em células comunistas existentes no Estado. os comunistas Rui Facó (cearense). Armênio Guedes (baiano) e Diógenes Arruda Câmara (pernambucano). Por isso. quatro exemplares do Nacional Socialismo Germano. duzentos e catorze exemplares de País do Carnaval. p. maio 2013 queimados vários livros dos escritores Jorge Amado e José Lins do Rêgo em Salvador. como os escritores baianos que nela figuravam eram bastante conhecidos. n. maio 2013. 3). depois levada para os demais integrantes do grupo na Bahia. quatro exemplares de Moleque Ricardo. 25 . o efeito criado pela possibilidade e efetividade real da revista revigorou ânimos e motivou paixões. vinte e cinco exemplares de Dr. O projeto foi aprovado e colocado em prática e houve todo um empenho e estratégia para sua realização. o que favoreceu a sua circulação e condição para sua existência. foi um projeto coletivo. A revista apresentavase forte e livre demais para o gosto do regime. 1937. o periódico teve. vinte e seis exemplares de Pureza. Ideias. duzentos e vinte e três exemplares de Mar Morto. e que prevaleceu até o fim. oitenta e nove exemplares de Cacau. censor FERREIRA. pois essa seria uma boa oportunidade para intervirem de alguma forma e sem muitas suspeitas em meio à situação caótica do cenário brasileiro. Surge a revista Seiva: um mensário de luta A criação da revista Seiva foi motivada por João Falcão. durante as efervescências da década de 1930.] os livros apreendidos e julgados como simpatizantes do credo comunista. vinte e três exemplares de Educação para a Democracia. o Dr. Para driblar a censura que proibia e vistoriava toda e qualquer ação tida como contrária às posições do governo. Enéas Torreão Costa. Dentre eles. ano 9.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Caminhos e descaminhos da revista Seiva.. 22-29. O nome da revista foi sugerido por Armênio Guedes. seis exemplares de Ídolos Tombados. noventa e três exemplares de Suor. a saber: oitocentos e oito exemplares de Capitães de Areia. não poderiam ficar omissos. nº 58. duzentos e setenta exemplares de Jubiabá. Mas. treze exemplares de Banguê. A discussão dentro do Comitê Regional baiano foi produtiva em torno do desenvolvimento e enfoque da revista. um exemplar de Miséria através da Policia. quinze exemplares de Doidinho. A primeira edição da Seiva esgotou-se. que aprovara toda a matéria a ele submetida previamente. natural de Feira de Santana-BA e precursor da ideia. quatorze exemplares de Menino de Engenho. depois de vê-la impressa em letra de forma levou um susto. A Seiva tornou-se a primeira revista antifascista a circular no cenário do Estado Novo em 1938. Os comunistas. os estudantes de Direito. nas proximidades da Escola de Aprendizes Marinheiros: [. p. aspectos literários. Foi escrito por articulistas comunistas e não comunistas. Daniela de Jesus. a princípio. A célula da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais da Bahia foi o centro irradiador do periódico. tendo alcançado grande repercussão nos meios intelectuais e literários de Salvador e maior ainda nos círculos oficiais. (JORNAL ESTADO DA BAHIA. Histórica.. O chefe da censura local. Geraldo. São Paulo. Homens e Fatos.

Rio de Janeiro. 26 . mas as intempéries políticas e financeiras dificultavam a divulgação mensal da Seiva. maio 2013 do DIP. mensagem que é um reflexo de 2 A revista deveria circular mensalmente. portanto. O primeiro número lançado em 1938 chamava a atenção para isso. pelo trabalho sincero e desinteressado de seus homens de pensamento. seus articuladores utilizaram textos e reproduções de autores como Michael Golde.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. os artigos provinham de escritores. Alagoas. Muitos dos textos de autores estrangeiros eram reproduções. para nós. alguns textos não foram assinados. Pará e Rio Grande do Norte. O mensário2 contou com a colaboração de escritores dos seguintes estados: Sergipe. mas a predominância era de escritores baianos. Um excerto do editorial: Quando do outro lado do Atlântico o ódio e a discórdia cavam barreiras profundas entre os povos. Vários artigos foram escritos diretamente para o periódico. Daniela de Jesus. FERREIRA. (FALCÃO. É animada desse espírito que SEIVA dirige sua mensagem de simpatia. já que os russos eram apreciados principalmente por conta da luta dos bolcheviques. reduto invencível da paz. especialmente os da América. Convocou os intelectuais para cumprirem o papel de libertadores da América. a defesa do nacionalismo e o combate ao imperialismo. união que deve ser começada pelos seus intelectuais. Paraná. mesmo que não abertamente. Lima Barreto. maio 2013. com a “Mensagem aos intelectuais da América”. 2000. defensores natos da cultura e do progresso da humanidade. para onde se volve a cobiça dos imperialistas expansionistas. outros foram escritos e assinados por pseudônimos. as suas colunas abertas a todos os escritores da América que simpatizem com essa orientação e queiram contribuir com a sua inteligência e a sua boa vontade para a aproximação de todas as nações americanas. Pablo Neruda. 47). Upton Sinclair e Máximo Gorki. Comunistas baianos como Jacob Gorender. militantes comunistas e jornalistas que se interessavam em publicar ou eram convidados a redigir para a Seiva. p. nos aconselhou. Castro Alves. 58. Caminhos e descaminhos da revista Seiva. além disso. o sentido de luta. Ceará. Ao longo das 18 edições. Euclides da Cunha tiveram seu espaço garantido na revista. Pernambuco. Seiva surge com o propósito de unir a inteligência de toda a America em um largo abraço de amizade e compreensão. A mesma disposição de defender a dignidade do pensamento e a civilização contra a onda avassaladora do barbarismo solidariza todos os intelectuais honestos do universo. de admiração e de fraternidade a todos os escritores da America. recomendando que tivéssemos mais cuidado no próximo número. 22-29. SEIVA tem. contou com artigos escritos diretamente para Seiva. São Paulo. São Paulo. numa proporção assustadora. Para essa tarefa de tornar cada vez mais real a cordialidade entre os povos e resguardar o pensamento humanos que conta eles se vão preparando. n. urge a união de todos os homens da America. Autores como Victor Hugo. p. ano 9. Em suma. em uma espécie de intercâmbio cultural. A unidade americana e o coletivismo do seu povo libertariam o continente de todos os seus males. por latino-americanos. para não criar problemas para ele e. João Falcão e Jorge Amado apropriaram-se da imagem e dos poemas de Castro Alves para entender o Brasil e para ganhar fôlego nas lutas. nº 58. Histórica. até onde possa chegar. Paraíba. A revista reverberou. pior. mas que se levantará como um só homem contra o que ouse desrespeitar o solo de qualquer das suas livres nações.

tudo isso demandava tempo e dinheiro que os comunistas nem sempre possuíam. a qual ultrapassou as fronteiras do território nacional. Marques Rabêlo. Coutinho. A escolha dos textos. Esta é a conclusão que se pode retirar da observação cuidadosa de toda a sua luta no mundo [. 11). estavam as revistas Democráticas e antifascistas que circulavam no país como Problemas.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. 1940. do Rio de Janeiro. os artigos literários. 14). p. Segundo as fontes. a cultura e os conflitos internacionais de seu tempo. Em seus aspectos gerais. Esfera. 2229.. mas eram publicados. Histórica. 27 . antes de tudo. da admiração e da fraternidade com que olha e deseja sempre olhar os povos a que eles pertencem. Hebdomadário pelo que eram responsáveis Brício de Abreu. Alguns desses periódicos eram influenciados por comunistas. Aureo Ottoni e Frederico R. mas se consolidasse. nº 58. Em meio às conturbações políticas e sociais. Caminhos e descaminhos da revista Seiva. p. maio 2013. n. mesmo com as dificuldades e obstáculos políticos da repressão do governo Vargas. (REVISTA SEIVA. (FALCÃO. o preconceito racial. o materialismo dialético. Houve todo um investimento para que o periódico não só existisse. Dentre as anunciadas na Seiva. Daniela de Jesus. Promoveu e demonstrou certo grau de organização desse grupo ao realizar um empreendimento tão perigoso. a revista significou um importante instrumento na estrutura do movimento comunista baiano. Planejaram e colocaram em prática a revista Seiva. por Afrânio Melo. dirigida por Afonso Schmidt. O conteúdo da revista não sofreu perceptíveis modificações por conta desse evento. Alagoas. as matérias redacionais. ano 9.. a juventude baiana era dinâmica. de São Paulo. sendo conhecida em outros países da América Latina. de São Paulo. Investiram nela. atuando nas escolas ou nas faculdades. Joel Silveira e Danilo Basto. dirigida por Samuel Wainer e por sua mulher Bluma Wainer. Diretrizes. de Manoel Caetano Filho: FERREIRA. Sem contar que deveriam ainda se preocupar com a censura. tanto estrangeiras quanto nacionais. de Pernambuco. “No período da luta antifascista foi um instrumento pujante. por Maria Jacintha Silva de León Chalreo. (REVISTA SEIVA. p. Na Seiva. A juventude é. Às vezes os números demoravam meses para sair. a situação operária. 2008. 18). a tipografia. várias revistas foram divulgadas. Cultura. 58. 1938. A desigualdade social continuou “cantada” na Seiva. Considerada o futuro da nação. conclamaram uma participação mais ativa. Publicavam sempre textos provocativos. p. São Paulo.]”. por Murilo Miranda e Moacyr Werneck de Castro. a revista Seiva discutiu o negro na Bahia e no Brasil. a juventude era um dos alvos da Seiva. a situação feminina. Através da diversidade dos seus textos. uma força de paz. dirigida por Arnaldo Pedroso d`Horta e Arnaldo Serroni. e Dom Casmurro. como no poema “Agonia do Artista”. As prisões e a falta de dinheiro foram fatores que atrasavam a saída dos exemplares. Rodrigues de Miranda e Alfio Ponzi. maio 2013 simpatia. instigando a juventude a intervir na realidade. e a Revista Acadêmica.

Transformaram as leituras de Castro Alves. A prisão dos integrantes da Seiva não repercutiu apenas na Bahia. p. mas os ideais permaneceram propagados. crítico das ações praticadas pelo governo Vargas em relação à atuação brasileira na Segunda Guerra Mundial. Dessa forma conturbada terminou o primeiro ciclo da revista Seiva. a desoladora tristeza das almas esmagadas e as maravilhosas belezas da humana redenção. Inseridos em um processo histórico que demandava intervenção e conhecimento. maio 2013. O posicionamento da Seiva comungava com o pensamento do general. agora por outros veículos que não excluíam o textual. cada vez mais. p. general Manoel Rabelo. representantes de quase todos os Estados foram ao presidente da República. e não apenas observar. Caminhos e descaminhos da revista Seiva. os baianos que produziam a Seiva investiram em um aprofundamento da luta nas condições objetivas que possuíam. Sobreviveu a cinco edições (1950/51/52) e teve como subtítulo “Mensário de cultura nacional e popular”. mas milhares de crianças abriram para mim as suas bocas pequeninas/ Quis enxugar as lagrimas de uma mulher. os debates suscitados foram selados apenas parcialmente. Histórica. Mas estava morto no peito o coração dos homens! (REVISTA SEIVA. maio 2013 Quis matar a fome de uma criança.] e. solicitar a libertação dos diretores da revista. Teve como motivação principal para o empastelamento a entrevista realizada pelo comunista baiano Jacob Gorender com o general Manoel Rabelo.” (FALCÃO. esta parou de circular: “assim. No Rio de Janeiro acontecia o 6º Congresso Nacional dos Estudantes. O general culpava Vargas de isenção e despreocupação com a Guerra. de 1938 a 1943.” (CARONE. p. Com todas as dificuldades. Após a circulação da Seiva contendo a entrevista do líder da “Sociedade Amigos da América”. ano 9. 1941. No cenário baiano. Em julho de 1943. mas milhares de mulheres estavam chorando/ Quis erguer um homem que tombara vencido e milhares de homens encontrei mergulhados no pântano da vida/ Quis aos opressores que deixassem de esmagar as multidões. Sr. a revista apareceu como contraponto às políticas e ideais conservadores reinantes. enxergaram um Brasil dependente e explorado que poucos souberam cantá-lo e interpretá-lo como deveria. convocando os soldados para tarefas inúteis. São Paulo. a revista resistiu e publicou 18 edições em sua primeira fase.. O mensário reapareceu em novembro de 1950. 26). Daniela de Jesus. crescendo. e não refutaram as influências que receberam e as dificuldades que encontraram. ela foi censurada pelo Estado Novo. Através deles.. p. com a participação de Luis Henrique Dias Tavares. 58. Wilson Falcão e eu fomos presos e levados para o quartel da Guarda Civil no dia 15 de julho.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. 228). ao mesmo tempo em que éramos denunciados ao Tribunal de Segurança Nacional. a força das massas represadas/ Cantei bem alto para todos os seres da terra. gritei que estava crescendo. Wladimir Guimarães e Clóvis Moura. Getúlio Vargas. nº 58. Proibiu-se a reprodução e circulação dos textos. e FERREIRA. 28 . O Brasil tinha que atuar na Segunda Guerra Mundial. e alguns se mobilizaram contra as prisões “[. Jacob Gorender. incorporados. 2229. encerrando a segunda fase da revista. n. 2008. Lima Barreto e Euclides da Cunha em literatura subversiva e completa de incentivos e exemplos para a continuidade da luta. As letras. 10). 1982. o entretenimento.

Salvador. À beira da falésia: a história entre incertezas e inquietude. O Partido Comunista que eu conheci: 20 anos de clandestinidade. 1940. A Seiva e sua dinâmica foram responsáveis pelo amadurecimento e florescimento de um viver e ser comunista nas Terras de Todos os Santos. JORNAL ESTADO DA BAHIA. João.1997. São Paulo. 2000. n. que parecia distante. em que as aspirações e o sonho de um mundo justo eram as únicas coisas que não mudavam. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Maria Luiza Tucci. Roger. Salvador: Contexto & Arte Editorial. FALCÃO. passou a ter mais crédito e. tido como louco pelas autoridades. São Paulo: Estação Liberdade. Os intelectuais e a organização da cultura. Referências CARNEIRO. e o envolvimento com o socialismo. 2002. A história da revista Seiva: primeira revista do Partido Comunista do Brasil. nº 58.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Daniela de Jesus. São Paulo: Difel. Os Sertões de Cunha. Porto Alegre: UFRGS. os textos atraentes e fortes do funcionário público Lima Barreto. maio 2013. só cresciam. ed. Histórica. jun. maio 2013 como realmente existia. 7. os poemas de Alves. ______. 1982. 2229. Edgard. Arquivo do Estado/SEC. Um mostrar-se. ______.C. 9. 2008. Caminhos e descaminhos da revista Seiva. ser mais provável de ser realizado. Salvador. FERREIRA. n. ______. Salvador. 1982. 29 . ano 9. 17/12/1937. um refazer-se constante. foram leituras que proporcionaram e contribuíram para a formação política e intelectual dos comunistas. 4. CARONE. um fazer-se. n. dez. ideias malditas: o Deops e as minorias silenciadas. ed. possivelmente. 2. O P. 1. 1941.B (1922-1943). 58. Livros proibidos. n. p. em um momento de fechamento político. Salvador: Ponto e Vírgula. Periódicos REVISTA SEIVA. 1938. CHARTIER. set. Antonio. GRAMSCI.

n’O Globo e no Jornal do Brasil. Paulo. professores. Os jornais cariocas da Rede da Democracia na queda do governo Goulart. Autoritarismo. A Rede da Democracia deu voz aos políticos.H 57. 2010).A A Revista Revista Eletrônica Eletrônica do do Arquivo Arquivo Público Público do do Estado Estado de de São São Paulo. 56. Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo. 2013 Histórica -. a Rede da Democracia reagiu às forças que incentivavam a maior participação popular na vida política e estimulou mudanças na natureza do regime democrático. Os pronunciamentos eram publicados n’O Jornal. bem como as decisões do governo Goulart. Aloysio Castelo de. militares. 2 Professor do Departamento de Economia e da Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal Fluminense. jornalistas. ano 9. p. CARVALHO. IPES e IBAD. fev. 30 . nº nº 56. Palavras-chave: Imprensa. sindicalistas e estudantes. São Paulo. nº 58. 58. O Jornal e Jornal do Brasil na queda do governo Goulart (1961-64) (Niterói: EDUFF. que iam ao ar quase todos os dias e repercutiam pelo país através de emissoras afiliadas. principalmente com a UDN. empresários. Autor de A Rede da Democracia: O Globo. nov. maio 2013 OS JORNAIS CARIOCAS DA REDE DA DEMOCRACIA NA QUEDA DO GOVERNO GOULART1 Aloysio Castelo de Carvalho2 Resumo: O artigo debate a Rede da Democracia. 30-36. em 2012. 1 Versão modificada do trabalho apresentado na Associação Brasileira de Ciência Política. maio 2013. n. 2012 Histórica 2012 A REVISTA ONLINE DO ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Globo e Jornal do Brasil. NITPRESS. nov. Política. intelectuais. possibilitando a articulação no campo discursivo com a oposição. Programa que criticava as concepções nacionalistas e reformistas. programa criado no Rio de Janeiro em outubro de 1963 pelas rádios Tupi. Histórica.

Seu surgimento é uma forte evidência de que os representantes da imprensa liberal se colocaram como atores políticos no governo Goulart. Com base no diagnóstico de que estava em andamento a subversão das estruturas da sociedade brasileira. em especial os relacionados à liberdade e à propriedade. a maior organização na área das comunicações de massa. bem como as decisões do governo Goulart. reunindo jornais. passaram a pregar a antecipação do plebiscito com a volta do presidencialismo. Aloysio Castelo de. esse amplo sistema de comunicação nacional deu voz aos representantes políticos. num ambiente em que os militares estavam sendo chamados a intervir no Estado. O Globo e Jornal do Brasil.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. revistas. professores. O termo comunismo apareceu associado à revolução. p. sobretudo. nº 58. Os pronunciamentos difundidos pelas emissoras eram posteriormente publicados nos jornais O Jornal. Criada logo após o presidente solicitar ao Congresso o Estado de Sítio e denunciar que estava em andamento uma conspiração golpista. rádios e emissoras de televisão. a Rede da Democracia era um programa comandado pelas rádios cariocas Tupi. em seguida. Os jornais cariocas da Rede da Democracia na queda do governo Goulart. maio 2013. intelectuais. A criação da Rede da Democracia significou. militares. colocando-se. em 25 de outubro. 31 . uma aproximação entre as linhas editoriais de O Jornal. A Rede da Democracia foi idealizada por João Calmon. deixam claro que o eixo central se deu em torno do combate ao comunismo. jornalistas. os representantes da imprensa carioca construíram propósitos comuns com relação aos temas políticos que precederam o golpe de 1964. criada por Brizola em 1961. maio 2013 Criada no Rio de Janeiro em outubro de 1963. considerado uma ideologia totalitária que visava à desestruturação do regime representativo. portanto. voltados para a articulação de uma comunicação oposicionista que conferia funções políticas à imprensa. Globo e Jornal do Brasil. A rede era uma versão conservadora da Voz da Legalidade. com o fim dos mecanismos jurídicos que garantiam os direitos individuais. sindicalistas e estudantes. Ia ao ar quase todos os dias e repercutia pelo país através de outras centenas de emissoras afiliadas. em contraposição à ideia reformista aceita pelos jornais. 30-36. 58. empresários. deputado do Partido Social Democrático (PSD) e vice-presidente dos Diários Associados. Histórica. O Globo e Jornal do Brasil. em face dos desafios colocados pela crise política que envolveu o governo Goulart. n. amadureceu mudanças que deveriam ser efetivadas na natureza do regime democrático. o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD). a Rede da Democracia reagiu às forças que incentivavam a maior participação popular na vida política e. A Rede da Democracia simboliza no campo da imprensa a busca de novas formas de atuação. cujas emissoras haviam mobilizado a opinião pública pela posse de Goulart na crise após a renúncia de Jânio Quadros e. principalmente com a UDN. possibilitando a articulação no campo discursivo dessas emissoras e jornais do Rio de Janeiro com partidos e grupos de oposição ao governo. desse modo. São Paulo. ano 9. Os discursos apresentados pelos seus proprietários e representantes no dia da inauguração. que percebiam no governo omissão no combate a essa ideologia. em CARVALHO. que financiava as campanhas eleitorais dos candidatos anticomunistas. Programa radiofônico que criticava as concepções nacionalistas e reformistas.

manifestações de rua e ações políticas extrainstitucionais a fim de pressionar o Congresso a aprovar as reformas de base. Nascimento Brito prognosticou que forças políticas tentariam obter “o consentimento popular para fazerem do Brasil a experiência infeliz que o nazismo. num movimento de valorização da própria imprensa. passou a apostar na mobilização sindical com greves. pedindo a intervenção do Exército para conter a influência comunista no país. De fato. maio 2013. Apelos para intervenção militar tornaram-se constantes e foram acompanhados de um questionamento sobre os canais de representação da sociedade. Foi o próprio João Calmon. A partir daí. nesse momento de crise política. 32 . 3.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo.”4 E João Calmon. 26 out. 1963. p. CARVALHO. viu no rádio o instrumento político contra o comunismo para ganhar “a batalha da propaganda. que é o episódio mais importante da Guerra Fria. Os jornais cariocas da Rede da Democracia na queda do governo Goulart. uma coalizão de forças. 4 Ibid. 5 Ibid. n. 30-36. que justificou 3 OBJETIVOS da Rede da Democracia. 58. Predominava a percepção de que a ativação política das massas estava articulada ao projeto intervencionista do governo e de que este estimulava o confronto com as tradicionais instituições representativas. representando Assis Chateaubriand dos Diários Associados. Diante desse quadro. intencional por parte de uma minoria de demagogos e de comunistas empenhados em envenenar as nossas relações com os países do mundo ocidental. A Rede da Democracia não adquiriu um caráter de debate ou de confronto de opiniões para o esclarecimento da opinião pública. como forma de aferição da vontade das grandes maiorias. deputado pelo PSD e idealizador da Rede da Democracia. Portanto. surgiram impulsos para se repensarem os rumos do Estado. As lideranças mais expressivas do campo jornalístico carioca criaram um amplo sistema de comunicação para articular no campo discursivo os diversos setores sociais e o conjunto dos representantes da imprensa em todo o país como oposição ao governo. A missão de informar o público foi substituída pela propaganda política.”5 Os representantes da imprensa do Rio de Janeiro haviam perdido a convicção no regime representativo. p. desde ontem no ar: “Desmascarar a tentativa de eliminar a liberdade em nome da justiça social”. envolvendo trabalhistas e comunistas. com seus diversos instrumentos constitucionais de limitação dos poderes. sobretudo após o plebiscito ter decidido pelo retorno ao presidencialismo em janeiro de 1963. nº 58. São Paulo. assim como se exercia controle sobre a máquina sindical com fins políticos considerados antidemocráticos. cujas estruturas administrativas estariam sendo apropriadas pelas forças partidárias de apoio ao governo. ao mesmo tempo em que fecharam ideologicamente seus discursos. Aloysio Castelo de. O Jornal. maio 2013 confronto com a legalidade constitucional e com os tradicionais valores de liberdade da sociedade brasileira. 3. para quem os brasileiros estavam sendo “vítimas de uma deformação. ano 9. Com a criação da Rede da Democracia. alguns dos representantes da imprensa no Rio de Janeiro assumiram mais abertamente a postura de atores políticos. colocando na ordem do dia a construção de um tipo de democracia plebiscitária inspirada em Rousseau. p. p. Histórica. o fascismo e o comunismo impuseram a outros povos. Rio de Janeiro. em particular a reforma agrária.”3 Nessa linha discursiva também se expressou Roberto Marinho. encontram-se os elementos de uma nova forma de regime que então começava a nascer na consciência liberal. 3.

por ocasião de sua inauguração: 6 CALMON à Rede da Democracia: Desenvolvimento da RFA desmente falsos nacionalistas do Brasil. 3. sobre as estratégias de ação comunista. 2001.10 Nessa linha de argumentação. 9 CPDOC. militante internacional do anticomunismo. Acesso em: maio 2013. 135-136. Rio de Janeiro. gravado quando se encontrava na República Federal da Alemanha. 3. p. escreveu dezenas de livros e folhetos. 7 A francesa Suzanne Labin (1913-2001). brancos e negros – porque todos homens livres”. levado ao ar pela Rádio Globo do Rio de Janeiro entre 1950 e 1958. trechos de livros da autora foram lidos em vários programas da Rede da Democracia pelo deputado Raul Brunini. amarelos. traduzidos em vários idiomas. p. O Duelo Rússia x EUA. REDE da Democracia alertou contra “movimentos de recuo do martelo” o povo brasileiro. (Venício A..Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. 1963. Rio de Janeiro. 3. de Lima. que tiveram ampla distribuição como material da luta ideológica no tempo da Guerra Fria. n. ed. Aloysio Castelo de. p. Rio de Janeiro: Ed. de modo a “empolgar” todos os “adeptos da livre-iniciativa e os adeptos do socialismo. ano 9. ateus e cristãos. 1963. 30-36. 33 . 2. “não deve limitar-se à imprensa”. E chego à conclusão que devemos empenharnos cada vez mais na batalha da propaganda para combater os totalitários de direita ou de esquerda que manipulam tal arma com maior dinamismo e eficiência [. Suzanne. foram também publicados títulos como A Rússia de Stalin. No Brasil. maio 2013. proferida em agosto de 1963. além do Em cima da hora. p. lançado no Brasil7 no mesmo ano e com repercussão na imprensa.br/acervo/dhbb>.fgv. Consistia na “formação de uma rede de imprensa diária e periódica de tiragem suficiente ampla. panfletos e livros”. A rede ou liga. como integrante da delegação da Comissão de Relações Exteriores da Câmara Federal6: Não esqueçamos que Hitler ascendeu ao poder graças a utilização eficiente deste fabuloso instrumento que é o rádio. Histórica. seguem as palavras de Roberto Marinho sobre o caráter da Rede da Democracia. Em cima da hora. O Jornal. 10 LABIN. A Condição Humana na China e A Guerra Política.8 popularizado através de suas atividades no rádio e reconhecido como o primeiro profissional de comunicação a transmitir discursos parlamentares através do programa Parlamento em Ação. Disponível em: <http://cpdoc. O Jornal. Estamos convencidos de que a criação da Rede da Democracia em outubro de 1963 sofreu influência das ideias da escritora francesa Suzanne Labin.9 Uma das propostas de Suzanne Labin para combater a infiltração e propaganda comunista envolvia o que ela denominou de recuperação da imprensa. Os jornais cariocas da Rede da Democracia na queda do governo Goulart. Rio de Janeiro. num pronunciamento para a Rede da Democracia. maio 2013 o uso do rádio como instrumento de propaganda política anticomunista. 3 dez. conservadores e inovadores. da UDN.. Rio de Janeiro: Rio de Janeiro. 1964. p. nº 58. Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós-1930. São Paulo. Posteriormente. na luta contra o totalitarismo soviético. desenvolvidas no livro Em cima da Hora. tal como propunha Labin. 8 REDE da Democracia: Em marcha no Brasil conspiração de origem e comando estrangeiros. 4 jan. mas deve “utilizar todos os outros meios de expressão desde logo as revistas. expressamente dedicada à desintoxicação dos espíritos”. sobretudo em O Jornal. O Jornal. “Golpe de 1964: os jornais e a opinião pública”). Agência Carta Maior. Por fim. FGV. 05/04/211. 1963. CARVALHO. a liga ou rede deveria ser o catalisador de uma união suprapartidária e supranacional. do qual João Calmon era diretor. O Jornal noticiou a palestra de Suzanne Labin na Escola Superior de Guerra (ESG). 4 dez. 58.].

em que civis unidos aos militares ameaçados. ano 9. Austregésilo de Athayde. Aloysio Castelo de. maio 2013 A Rede da Democracia. Daniel Krieger. Josué Montelo. João Calmon. queiram participar da cruzada cívica em defesa da lei e da ordem. através da Rede da Democracia. Rio de Janeiro. sobretudo nos meses que antecederam o golpe. O Jornal. comungando dos mesmos sentimentos e propósitos. n. Histórica. não terá colorido políticopartidário e inspira-se nos mais puros sentimentos de patriotismo e na preocupação com os destinos nacionais em tão grave momento da vida brasileira. 13 Jean-Marie Domenach cita em seu livro uma frase de Goebbels que é bastante elucidativa do que é propaganda política: “Fazer propaganda é falar de uma idéia por toda a parte. apareceu vinculada à ameaça comunista. La propaganda política. Fillinto Müller. Os jornais cariocas da Rede da Democracia na queda do governo Goulart. Editorial Universitária de Buenos Aires. no final de 1963. 58. Domenach analisou a propaganda política do tipo leninista e hitlerista. DOMENACH. 12 Recolhemos todas as matérias sobre os pronunciamentos veiculados pela Rede da Democracia e publicados pel’O Jornal entre os dias 22 de outubro de 1963 e 22 de março de 1964.13 A luta anticomunista foi transformada numa questão de segurança nacional a partir do argumento de que uma guerra revolucionária se espalhava pelo país. compreendida em diversos pronunciamentos como um pretexto para se alterar a Constituição e o direito de propriedade. De fato. A oposição ao projeto de reforma agrária do governo. Buenos Aires. foi o da reforma agrária. 34 . Raimundo Padilha. Aureliano Chaves. o jornalista Roberto Marinho apelou. Eduardo Gomes. que revela registros de intensa atividade até meados de março de 1964. para que “as comemorações se transformassem numa demonstração de civismo. considerado a base do regime representativo. 26 out. Cordeiro de Farias. Rio de Janeiro. Desmascarar a tentativa de eliminar a liberdade em nome da justiça social. São Paulo. totalizando 204 pronunciamentos. Eurico Gaspar Dutra. 14 Roberto Marinho na Rede da Democracia: “Data da intentona não só lembra a traição. Armando Falcão. Isso explica a prioridade dada no campo discursivo às alianças com os militares e o apelo para que as Forças Armadas interviessem no Estado. Nascimento Brito. Bilac Pinto. p. Ildo Meneghetti. no âmbito das homenagens aos militares mortos na Intentona Comunista de 1935. O jornalista terminou o pronunciamento pedindo que o “povo brasileiro” “comparecesse às romarias e manifestações” em favor da liberdade e da democracia. 10 nov. Daniel Krieger. O Jornal. 1963. Mem de Sá. Pedro Aleixo.11 Um dos temas mais divulgados pela Rede da Democracia.14 Além de Roberto Marinho. ideia que esteve presente na grande maioria das matérias publicadas e nos pronunciamentos12 veiculados pela Rede da Democracia. nº 58. Aliomar Baleeiro e Plínio Salgado. 3. Dará guarida a todos aqueles que. agora também ou mais do que há 28 anos pela traição vermelha. Virgílio Távora. No âmbito da interpretação em que os representantes cariocas da imprensa liberal pretendiam ser reconhecidos como a principal expressão legítima da opinião pública. até nos bondes”. Obtivemos 72 matérias. 1963. Sandra Cavalcanti. João Mendes. p. Júlio de Mesquita. Magalhães Pinto. 1962. que vai ao ar pela primeira vez. Raul Brunini. Jean-Marie. CARVALHO. maio 2013. Herbert Levy. podemos avaliar a importância da Rede da Democracia por meio de outros personagens que se pronunciaram pela cadeia de rádios e tiveram seus discursos publicados nos jornais: Ruy Gomes de Almeida.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Amaury Kruel. porque mais comprometidos não só com a preservação das vigentes estruturas econômico-sociais capitalistas mas com a adoção de um modelo de desenvolvimento sem restrições à entrada dos investimentos 11 MARINHO. mas advertência e decisão”. 30-36. Pery Constant Bevilacqua. Roberto. Milton Campos. afirmem a sua devoção à pátria em perigo”.

São Paulo. cujos esforços se voltaram para articular ideologicamente os setores civis e militares oposicionistas ao governo. Jean-Marie. Isso nos leva a aceitar que a imprensa de natureza privada. Histórica. 30-36. quando ideais igualitários estimulavam as camadas populares a reivindicarem sua incorporação no processo decisório do país. entendido como uma forma de despotismo típica da contemporaneidade que ameaçava o ideal de liberdade sob o qual se desenvolveu a moderna civilização ocidental. Referências CPDOC. maio 2013. A Rede da Democracia colocou a imprensa no centro das mobilizações para a reorganização do poder político e pregou uma mentalidade de guerra para combater o comunismo.fgv. os jornais acabaram por reproduzir o papel ambíguo desse discurso na cultura política brasileira. 2. FGV.br/acervo/dhbb>. nº 58. Os representantes da imprensa se apropriaram desses discursos sociais e assim agiram para evocar dois tipos de legitimidade. 2001. Os jornais cariocas da Rede da Democracia na queda do governo Goulart. Aloysio Castelo de. ed. Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós-1930. CARVALHO. Disponível em: <http://cpdoc. Rio de Janeiro: Ed. mas também apelaram para a intervenção repressiva do Estado. mas evocaram a legitimidade da luta contra o comunismo e a necessidade de ordem interna como condição para a retomada do desenvolvimento econômico. La propaganda política. Ao resgatarem a tradição liberal. soube articular no momento de crise das instituições representativas os discursos liberal e autoritário. Os jornais defenderam a preservação das instituições representativas liberais. os jornais se organizaram politicamente através da Rede da Democracia e fomentaram a intervenção das Forças Armadas. defensora da economia de mercado. que preconizava um papel interventor para os militares na sociedade brasileira. encontra-se a explicação para o surgimento da Rede da Democracia. A Rede da Democracia é uma evidência de que os representantes da imprensa liberal assumiram formas de ação direta no cenário político. 58. Portanto. Acesso em: maio 2013. n. Vasto sistema de comunicação organizado por todo o país e comprometido com a propaganda política anticomunista.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Não só vocalizaram demandas por liberdade. maio 2013 do capital estrangeiro e favorável a um alinhamento internacional liderado pelos Estados Unidos. a rede sinalizou no campo discursivo a existência de uma coalizão conservadora disposta a lutar pela preservação da ordem social dominante e conter as investidas do Executivo contra os princípios que regem a propriedade privada. Ao mesmo tempo em que questionaram a credibilidade das instituições representativas e exaltaram a si próprios como representantes da opinião pública. DOMENACH. Buenos Aires: Editorial Universitária de Buenos Aires. Isso significa que os jornais compartilharam temas abordados pela Doutrina de Segurança Nacional desenvolvida pela Escola Superior de Guerra. 35 . p. os representantes da imprensa carioca não se restringiram às tradicionais funções de intermediação jornalística ao dar publicidade às decisões parlamentares e aos atos do governo. de modo a responder aos desafios colocados pela crise política. ano 9. 1962.

Rio de Janeiro: Rio de Janeiro. 4 jan. maio 2013 FERREIRA. 1978. 1963. 58. Rio de Janeiro: Rocco. São Paulo. Suzanne. n. v. 1963. LABIN. Lucilia de Almeida Neves. Aloysio Castelo de. ano 9. p. Jarbas. 3. Ideologia autoritária no Brasil (1930-1945). Décadas de espanto e uma apologia democrática. 1998. 1963. O Brasil republicano. 1963. nº 58. 26 out. O JORNAL. 1964 SANTOS. Wanderley Guilherme. Os jornais cariocas da Rede da Democracia na queda do governo Goulart. 36 . O tempo da experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. O governo Goulart e o golpe civil-militar de 1964. MEDEIROS. Em cima da hora. 30-36. Rio de Janeiro. 10 nov. 3 dez. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. maio 2013. Jorge. 1963. 2003. DELGADO. 4 dez. CARVALHO.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Histórica. In: ______.

nov. o trabalho foi e continua sendo responsável por imprimir valor às mercadorias. was the object of social control and repression focus your movements. repressão e contradições. Aspectos da História do Trabalho: controle. Sociedade e Educação no Brasil. maio 2013. It is characteristic of the process of capital maintenance. nov. São Paulo. SEPÚLVEDA. 37 . Bacharel em Administração de Empresas. Histórica. 2013 Histórica -. Antonio Ivan. Class Struggles. the contradictory condition of the workforce: the real producer of value has always been about getting the margin system. fev. the work was still responsible for printing value to goods. 2012 Histórica 2012 A REVISTA ONLINE DO ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. The study allowed us to understand how. foi objeto de controle social e foco de repressão de seus movimentos. Para tanto. Doutorando em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba (bolsa pelo Governo do Estado de São Paulo). nº nº 56. 1 Professor efetivo da Rede Pública do Governo do Estado de São Paulo e professor Universitário. com orientação do Sr. cujo jogo criado para tal fim permite reconhecer aspectos relacionados ao desenvolvimento do capitalismo. 56. allows to recognize aspects related to the development of capitalism. n. com orientação do Sr. Trata-se de realizar uma análise de como o trabalho tem sido foco de controle pelo capital. Constitui característica do processo de manutenção do capital a contraditória condição da força de trabalho: o verdadeiro produtor de valor esteve sempre prestes a ficar à margem do sistema. lança-se mão de uma revisão bibliográfica que torna possível reconhecer esse processo. whose game created for this purpose. 58. throws up the hand of a literature review that makes it possible to recognize this process. Keywords: Work.A A Revista Revista Eletrônica Eletrônica do do Arquivo Arquivo Público Público do do Estado Estado de de São São Paulo. Lutas de Classes. Jaime Figueiroa. ano 9. Controle e Repressão. Abstract: This article seeks to address the social relations of work from a historical perspective. e. Control and Repression. José Maria de Paiva. Dr. José Luis Sanfelice.H 57. It is carrying out an analysis of how the work has been the focus of control by capital. Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (bolsa pelo Governo do Estado de São Paulo). 37-44. para este fim. and to this end. nº 58. na linha de pesquisa em História e Filosofia da Educação. Dr. historicamente. REPRESSÃO E CONTRADIÇÕES Jaime Figueiroa Sepúlveda1 Antonio Ivan Cesso2 Resumo: O presente artigo pretende abordar as relações sociais do trabalho a partir de uma perspectiva histórica. maio 2013 ASPECTOS DA HISTÓRIA DO TRABALHO: CONTROLE. Therefore. CESSO. Paulo. O estudo permitiu compreender como. p. historically. 2 Professor efetivo da Rede Pública do Governo do Estado de São Paulo e professor Universitário. área de concentração em História. Palavras-chave: Trabalho.

Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. ficava a cargo da Igreja a ajuda espiritual. A primeira foi a Reforma Protestante. Sendo o clero e a nobreza as classes governantes (controlavam a terra e o poder por ela emanado). ela foi ganhando força. As cidades também crescem e a Idade Média se depara com um novo grupo que surge da prática mercantil3. O ano de 1789 bem pode ser considerado como o fim da Idade Média. Em lugar do feudalismo./jun. jan. os mercadores passam a procurar lugares para se proteger durante suas viagens e encontram nos “burgos” tal segurança. onde se constituía. em 1789. e cujos instrumentos de controle do trabalho desenvolvidos ao longo do tempo convergem para um lugar comum. p. Ao longo dessa discussão. e na França. guerreiros e trabalhadores. Uberlândia. Antonio Ivan. Cadernos de História da Educação. 140). assim. José Maria de. um sistema social diferente. através de pagamento às classes trabalhadoras pelo cultivo da terra. p. 58. marcada particularmente por três batalhas decisivas. 37-44. e da nobreza a proteção militar. a humanidade vem se transformando desde o período feudal. serão pontuadas as características gerais do desenvolvimento do capitalismo bem como os aspectos relacionados ao processo histórico de construção do trabalho no Brasil. Surge. v. Histórica. em 1689. destacando as contradições contidas na inserção de formas de controle sobre ele. a manutenção da dinâmica do capitalismo. O homem começa a lutar pela liberdade de escolha. 307-324. Sobre a Civilização Ocidental. tendo agora a posse do dinheiro como uma nova fonte de riqueza. (HUBERMAN. indo à luta quando preciso: Na Inglaterra. A esse sistema chamamos – capitalismo. cabendo ao que trabalhava produzir para as outras duas classes. p. a classe média. Dentro da estrutura da sociedade feudal de sacerdotes. maio 2013 Introdução O objetivo deste artigo é o de fazer uma revisão das transformações do trabalho a partir de um quadro amplo de referências. a luta pela liberdade do mercado resultou numa vitória da classe média. 2012. Lança-se mão do estabelecimento de uma caracterização introdutória a respeito de uma sociedade marcada pelos conflitos de interesses. uma vez que os interesses antagônicos correspondem às posições de opressores e oprimidos. Jaime Figueiroa. ano 9. Com a expansão do comércio. São Paulo. No fim do século XVIII era pelo menos bastante forte para destruir a velha ordem feudal. 3 Cf. n. maio 2013. baseado na livre troca de mercadorias com o objetivo primordial de obter lucro. e a terceira. o conflito entre as classes sociais constitui o motor do movimento da história. nº 58. 11. Aspectos da História do Trabalho: controle. em que pese o mecanismo de exploração dos verdadeiros produtores de valor. conforme Huberman (1986). 38 . 1986. repressão e contradições. Havia empreendido uma luta longa e dura contra o feudalismo. ou seja. Entre lutas e diversas formas de repressão. Na análise de Marx e Engels (1998). CESSO. Através dos anos. surgira um grupo da classe média. 1. n. a segunda foi a Gloriosa Revolução na Inglaterra. pois foi nele que a Revolução Francesa deu o golpe mortal no feudalismo. foi introduzido pela burguesia. PAIVA. a Revolução Francesa. de três classes – sacerdotes. SEPÚLVEDA. guerreiros e trabalhadores –.

Com a transferência do poder real para o Brasil em 1808. O latifúndio definia as relações sociais de produção. a criar cursos que garantissem ao Estado e ao capital a formação de burocratas. e ao ser subordinado ao senhor. foi internacionalmente comercializado. 58. tais como: [. Jaime Figueiroa. 39 . p.. ano 9. tanto do negro como do índio. Antonio Ivan. Trata-se. 47). previsão dos negócios. maio 2013 Contradições da introdução do trabalho no Brasil No Brasil colonial. 68). É. repressão e contradições. maio 2013. lucro. conforme Ianni (1987). n. emprestado. (IANNI. de renovar a orientação ideológica que “legitimava as relações de dominação mantidas e dissimuladas pelo aparato jurídico. como função dos fatores e da direção dos empreendimentos.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. a matéria-prima –. Histórica. pois privado de toda a capacidade civil. 1986. Cursos superiores como desenho. alugado. nesse limiar que constitui a passagem do regime imperial para o regime republicano. a tecnologia. nº 58. já que o trabalho escravo é uma atividade organizada segundo um padrão de racionalização do regime de produção mercantil. Essa contradição foi superada somente em meados do século XIX. história e música foram criados para desenvolverem “bens simbólicos” para consumo das classes dominantes. “não tem personalidade. São Paulo. 1987.] propriedade privada. como remuneração da mão-de-obra efetivamente utilizada na produção. e o trabalhador não era detentor do produto de seu árduo trabalho. em que o capital passa a ter novas aplicações lucrativas. na verdade. a Academia Militar e a Academia da Marinha foram destinadas. CESSO. Aspectos da História do Trabalho: controle. sendo ele um meio de produção entre outros – como a terra. Mas o fato de haver uma inversão mínima de capital na prática agrícola indica que as formas capitalistas de produção estavam pouco desenvolvidas. complementaridade das atividades econômicas. (BASBAUM. sendo moldada por um novo sistema internacional econômico. p. 1986). como forma concreta de capital. de acordo com a estrutura empreendida. SEPÚLVEDA. integração produtiva e ótima dos fatores da produção. manteve-se o convívio entre mercadoria e escravo. A sociedade brasileira vive a partir de meados do século XIX uma situação diferente do período colonial. constituído como propriedade. 46). tornando o escravo relativamente sem eficácia e constituindo novos valores para a cultura capitalista. dado de presente ou vendido” (p. Enquanto na Europa as transformações pelas quais passava a sociedade anunciavam ao mundo as profundas modificações que ocorreriam em função da Revolução Industrial. sendo que neste regime no Brasil o “escravo aparece na condição de meio de produção” (p. crise e flutuações específicas de cada setor ou ramo. Ele “é comprado. salário. o Brasil conservava formas rudimentares e primitivas de produção. estado. 46). sendo que durante todo esse período o produto final das atividades dos trabalhadores escravizados.” (p..” (CUNHA. 46). 37-44. para além das próprias atividades bélicas. p.

O autor afirma que há uma relação entre as representações da sociedade e a sua realidade efetiva. embora já fragilizado no velho mundo. Bosi escolhe refletir a respeito dos modos de pensar dominantes da classe política brasileira. equivalia à ideologia burguesa do trabalho livre. Trata-se do valor de troca. (IANNI. CESSO. sendo assim. tendo. SEPÚLVEDA. e entre a noção de igualdade dos homens perante Deus e a lei e a existência real do escravo dizem respeito a um componente essencial do sistema capitalista de produção. a separação entre Igreja e Estado.] Torna-se óbvio que é preferível operar com o trabalhador livre. mas que são dadas como se fossem do interesse geral. repressão e contradições. 49-50). cuja remuneração (ou margem de apropriação avaliada monetariamente) é função do produto da força do trabalho. é ampliar a margem de lucro possível. Bosi (2002). A contradição central que se impõe é a de que o liberalismo. começava a conquistar fiéis no Brasil. Antonio Ivan. a ideologia é composta por motivações particulares. É no processo de realização do produto do trabalho. A luta pelo fim da escravidão no país confundia-se com a luta por uma República idealizada. a transformação do escravo em trabalhador livre vai em direção dos que entendem que o trabalhador livre é também um consumidor em potencial ou efetivo. que se dá a realização do lucro. Histórica.. Dessa forma. que tiveram vigência após a independência e avançaram até depois da metade do século XIX. Aspectos da História do Trabalho: controle. Para tanto. nº 58. e. sugere uma abordagem materialista dialética do processo ideológico recorrente à história do Brasil. contrastada com a realidade da escravidão no Brasil do século XIX.. tornando também a escravidão moralmente condenada. 37-44. ano 9. 40 . não houve condições para a existência de um liberalismo escravocrata. 58. n.. A questão fundamental trazida por Bosi consiste em inquirir sobre qual a melhor forma de entender a articulação que se configurou entre a ideologia liberal. pois estas racionalizam as “aspirações difusas nos seus produtores e veiculadores” (p. São Paulo. O valor de troca é um alvo fundamental da produção mercantil. 1987. colono ou assalariado. 195). enquanto valor de troca.] as contradições entre mercadoria e o escravo. razões humanitárias que incentivaram o abolicionismo brasileiro. e o positivismo. p. proclamando as vantagens do regime republicano.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. em seu livro Dialética da Colonização. Nos discursos.. Para ele. diversos grupos. p. o binômio escravismo-liberalismo desenvolveu-se no país apenas na condição de um “paradoxo verbal” (p. e focaliza as práticas como sendo o “fermento” das ideias. ampliar a produção de mercadorias. 194). Por isso. sem contar os movimentos de grupos sociais que realizaram movimentos de opinião pública sobre a reorganização do ensino. e passa a considerar a análise das práticas sociais e culturais marcadas pelo tempo e pelo espaço. que é alvo do fazendeiro ou do empresário. maio 2013. Ao discutir a questão da escravidão no país. maio 2013 Ainda para Ianni. Jaime Figueiroa. em que: [. o interesse particular é expresso sob a forma de algum princípio. [. com base no trabalhador livre. em seu conteúdo político.

Em sua fase atual. na medida em que realiza apenas uma parte da produção de um determinado bem. 388). Henri Ford. Kurz (1992) expressa bem esse quadro de angústia das populações excluídas: SEPÚLVEDA. na intenção de superar a rigidez do esquema fordista de produção. sofisticam-se. que compromete o processo de acumulação capitalista. ano 9. As empresas. a educação profissionalizante atuou como disciplinadora da mão de obra. utilizando de uma metodologia que. Porém. na mesma época. 58. No final do século XIX. tratou de adestrar as massas urbanas para o trabalho. o taylorismo. São Paulo. O operário passa. de diminuir o individuo. Histórica. indústria e profissionalização como formas de controle Com a ampliação do mercado. n. uma relação de estranhamento com o produto final de seu ofício. 194). O trabalhador passa a viver. surgiu da utilização de princípios científicos aplicados à produção fabril. repressão e contradições. iniciada com a Revolução Industrial. aparece a indústria. tendendo a aumentar as necessidades da segunda classe devido às influências das grandes aglomerações. Segundo Enguita (1993. Aspectos da História do Trabalho: controle. fato que acaba fortalecendo a divisão do trabalho. então. uma nova forma de organização do trabalho. a ficar o dia todo longe de sua família e não tem mais contato com quem o emprega. definitivamente. segundo Durkheim (1999). nº 58. Antonio Ivan. começando também a criar um novo sistema de relação. cria a linha de montagem e a fragmentação do trabalho. Hoje. o que toda escola fordista tem como obsessão é eliminar o trabalho intelectual “para constituí-los em monopólios da direção.” (p. pode-se dizer. que “foi acusada com frequência. maio 2013. ou seja. a escola profissionalizante surgiu para dar suporte ao processo de reprodução do capital e tornou-se uma matriz produtora da mercadoria força de trabalho. o capitalismo transpõe as fronteiras nacionais e pulveriza a possibilidade de colapso das economias nacionais. p. Milhões de desempregados aumentam os bolsões de pobreza em todo o mundo. Negava mais uma vez ao trabalhador o direito à consciência do processo de concepção da produção. 41 . Assim. do capital e seus comparsas”. surgindo os interesses de conflitos que não se equilibram na mesma velocidade. maio 2013 Trabalho. avançando na eficiência e na agilidade da produção de suas mercadorias. a globalização da economia em curso coloca as forças produtoras diante do problema do desemprego. reduzindo-o ao papel de máquina. passando a máquina a substituir o homem. fazendo com que essa nova estrutura tenha um novo desenho e seja transformada com rapidez. CESSO. para Durkheim a divisão do trabalho leva à solidariedade. deixando clara a separação dos processos de concepção e de planejamento da produção do setor produtivo de mercadorias propriamente dito. Nesse contexto. p. pois se utilizam cada vez mais de modernas tecnologias com grande capacidade de simplificar o trabalho.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. que tem como efeito a transformação das relações entre patrões e operários. do qual ele faz parte apenas como força produtora. Jaime Figueiroa. pois cria entre os homens direitos e deveres que os unem por um modo durável de relacionamento. 37-44.

n. povos. denominado “modo de produção flexível”. e também pela desestruturação dos sindicatos. pois seu verdadeiro fundamento é o automovimento do dinheiro. Um gigantesco impulso do imaginário em direção ao real tende a propor mitos de auto-realização. 1992. lançarão. 58. que absorveu e assimilou todas as outras formas. fazendo com que o ser humano se individualize mais ainda. movimento que faz nascer suas leis históricas destrutivas e as executa mecanicamente até o terrível fim. não a liberdade no sentido político do termo. mas sim está destruindo sucessivamente para eles toda possibilidade de uma existência digna. Morin (1984) adverte sobre as modificações das condições de vida devido às novas tecnologias. mais cedo ou mais tarde. Jaime Figueiroa.. fazendo emergir novas necessidades dentro do espaço de produção: exige-se do trabalhador uma maior SEPÚLVEDA. hoje. da realização das necessidades ou instintos inibidos ou proibidos. regiões e Estados perceberem que nunca mais terão alguma chance de vencer e que as futuras derrotas inevitáveis os privarão de qualquer possibilidade de viver. ideais tornam-se modelos. Aspectos da História do Trabalho: controle. ano 9. por um lado. 1984. Antonio Ivan. a ação sem freio. por outro. o amor e a felicidade por outro lado. São Paulo. maio 2013. o que. p. uma ideologia e receitas práticas para a vida privada. Essas regras democráticas da “razão mundial” burguesa e iluminista são em sua essência abstratas e insensíveis. na medida em que desarticula toda uma rede historicamente criada. 186). e. repressão e contradições. dando condições para que surja uma cultura de massa que vai ao encontro dessa individualização que aflora em nossa sociedade: Ela vai fornecer à vida privada as imagens e os modelos que dão forma a suas aspirações.. Considerações Finais A análise das novas tecnologias que respondem pela reestruturação produtiva tem demonstrado seu efeito perverso. que incitam a uma certa práxis. 42 . o tabuleiro no chão e dispensarão todas as regras da chamada civilização mundial. Mas sobre um outro plano. o homem das sociedades ocidentais orienta cada vez mais suas preocupações para o bem-estar e o standing por um lado. o movimento. quando os trabalhadores tomaram ciência da sua legítima força de trabalho. as imagens se aproximam do real. Histórica. parece algo em processo de rarefação. mas a liberdade no sentido individual. CESSO. 37-44. nº 58. a cultura de massa fornece os mitos condutores das aspirações privadas da coletividade. 90). as quais influenciaram para o aumento do consumo. burocratizadas. O novo modo de produção industrial. íntimo. afetivo. p.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Algumas dessas aspirações não podem se satisfazer nas grandes cidades civilizadas. (MORIN. de hoje em diante. nesse caso a cultura resgata uma evasão por procuração em direção a um universo onde reinam a aventura. maio 2013 O jogo do mercado mundial. Se considerarmos que. eliminando postos de trabalho. heróis modelos. caracteriza-se pela busca de novos mercados e novas fontes de energia. p. (KURZ. já não permite que os perdedores voltem depois para a casa em sossego. Quando esses homens. a liberdade. abstrato e privado de sensibilidade.

São Paulo: Alfa-Omega. pois: Se na verdade não dá para negar que essas mudanças tecnológicas configuram uma nova qualidade. em texto intitulado “As mudanças tecnológicas e educação da classe trabalhadora: politecnia. Nesse ponto. Tradução de Eduardo Brandão. ed. 37-44. porém. 1994. Ricardo. nº 58. Jaime Figueiroa. São Paulo: Cortez. 62. ed. CUNHA. é preciso afirmar que elas não configuram um processo revolucionário. Trata-se de uma relação subordinada. Histórica. 2. Trabalho. (FRIGOTTO. Marx e a crítica da educação. nenhuma possibilidade de eliminação da classe-que-vive-do-trabalho. Leôncio. História Sincera da República. maio 2013 capacidade de abstração e de reflexão sobre os processos produtivos. Alfredo.” (p. Luiz Antônio. 1986. 2. 43 . BASBAUM. Rio de Janeiro: Francisco Alves. Aspectos da História do Trabalho: controle. A universidade temporã. ed. Referências ANTUNES. Dialética da colonização. o mesmo que produz valor é aquele que fica a mercê dos caprichos do capital. Por isso a forma de inserção no processo produtivo é bem diversa nos países subdesenvolvidos. não sem ser objeto de controle social e foco de repressão de seus movimentos. alerta que as transformações que suscitam uma demanda por maior e mais profunda qualificação profissional de um trabalhador não rompem com a lógica de exclusão social do capitalismo. é preciso reconhecer que não se pode acreditar que o trabalhador está por desaparecer. Dessa forma. pois. mais cedo ou mais tarde. Mariano F. ed. mas também é excludente no interior do capitalismo avançado. BOSI. 5. grifos do autor). 1999. Adeus ao trabalho?: ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. Émile. 58. São Paulo: Companhia das Letras. 1986. 2002. podendo. “não é possível perspectivar. Antonio Ivan. Da Divisão do Trabalho Social. Frigotto (1994). ano 9. São Paulo. também constitui característica desse processo uma contradição inerente: como numa corda bamba. 4. Escola e Ideologia. maio 2013. 48). 2002. 1993.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. ENGUITA. SEPÚLVEDA. repressão e contradições. na medida que se dão sob a lógica das relações sociais marcadas pela exclusão. Além disso. nem mesmo num universo distante. como aponta Antunes (2002). p. polivalência ou qualificação profissional?”. p. CESSO. Porto Alegre: Artes Médicas. n. pode-se dizer que o trabalho vem sendo historicamente responsável por imprimir valor às mercadorias. ficar à margem do sistema. DURKHEIM. São Paulo: Martins Fontes.

MORIN. Rio de Janeiro: Forense Universitária. et al. Cadernos de História da Educação. Karl. maio 2013. Uberlândia. José Maria de. Sobre a Civilização Ocidental. p. (Coletânea CBE) HUBERMAN. 37-44. As mudanças tecnológicas e educação da classe trabalhadora: politecnia. nº 58. Gaudêncio. MARX. Leo. Antonio Ivan. São Paulo: Brasiliense. 58. Campinas: Papirus. Friedrich. O colapso da modernização. 1998. 1986. n. repressão e contradições. Cultura de Massas no Século XX: O Espírito do Tempo – 1 – Neurose. Edgar. ed. Anped. ed. 1. maio 2013 FRIGOTTO. ed. p. IANNI. 3. 1992. Cedes. Raças e Classes Sociais no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra. PAIVA. São Paulo. Trabalho e educação. 1984. Rio de Janeiro: LTC Editora. v. O Manifesto Comunista. 2012. 307-324. ENGELS. 6. 1987./jun. ano 9. 1994. 5. São Paulo: Ande.). KURZ. 11. Robert. Histórica. jan. 44 . História da Riqueza do Homem. polivalência ou qualificação profissional? In: MACHADO. CESSO. 21. Lúcia R.Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo. ed. Tradução de Maura Ribeiro Sardinha. Aspectos da História do Trabalho: controle. Rio de Janeiro: Paz e Terra. SEPÚLVEDA. Jaime Figueiroa. n. (Org. Octavio.

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