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INSTITUIÇÃO FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CURSO DE TECNOLOGIA EM PRODUÇÃO CULTURAL

INGRYD CALAZANS AFFONSO

VIDA SIMPLES, PENSAMENTO ELEVADO: GOURA VRINDÁVANA E AS RELAÇÕES DA ECOSOFIA

IFRJ – CAMPUS NILÓPOLIS 2012

INGRYD CALAZANS AFFONSO

VIDA SIMPLES, PENSAMENTO ELEVADO: GOURA VRINDÁVANA E AS RELAÇÕES DA ECOSOFIA

Monografia apresentada à coordenação do Curso de Tecnologia em Produção cultural, como cumprimento parcial das exigências para conclusão do curso. Orientador: Prof. Dr. Manoel Ricardo Simões

IFRJ – CAMPUS NILÓPOLIS 1º SEMESTRE/2012

também dedico este trabalho. O resultado desse trabalho é seu. Desde sempre a senhora me disse “Eu só quero seu progresso!”. À minha Vó Té. sinônimo de felicidade ( in memoriam). . Muito obrigada. personificação do amor incondicional. não cabem palavras nesse papel para lhe agradecer. Muito obrigada. Vó Zilda. mais doce que as tapiocas de cocos frescas inesquecíveis. da alegria e da força.Dedicatórias Gratidão certamente é uma das qualidades mais preciosas desse mundo e aos poucos ainda estou aprendendo com ela. Gratidões eternas a ti que parece um anjinho. homem inteligente. À meu bisavô Antônio. eternamente.

Sueli. na qual me deu toda liberdade e me conduziu com seriedade. aos quéridos da EAV do Parque Lage. Grazielle.Agradecimentos Agradeço aos meus pais. ninguém pode fazer nenhum avanço. para que eu produzisse este trabalho. Rafael Fernandes. dos projetos Território em Transe e Ecomuseu de Manguinhos. Louise. Ao meu querido orientador Breguelé. Aline e Glória. Portanto. Pelo menos três vezes ao dia devo oferecer minhas respeitosas reverências aos pés de lótus de meu mestre espiritual”. Ana Beatriz. E por último. por me receber muito bem e aos amigos cultivados com carinho e naturalidade. aos amigos do Cineclube Ankito: Géssica Santiago. Vanessa Rocha. na qual aprendi a dividir amor desde cedo. muito obrigada pela confiança. Renata. Agradeço também aos amigos de trabalho dos estágios que passei. Fernanda. e aos meus atuais e maravilhosos amigos e companheiros. pois certamente estão além) da FIOCRUZ. Fabiana Villar. Rafael Vitor. Agora sim. a quem dedico também esta missão. amigo e irmão Lilashuka. Margareth. sempre muito amigos e carinhosos que me deram a oportunidade da primeira experiência. Priscila Manfredini. a pessoa recebe a benção de Krishna. em especial a Regiane. Tabita. Yuri Chamusca e Léo (também amigos de Espaço do Rock). que me apoiou muito durante a pesquisa. devo sempre lembrar e louvar o mestre espiritual. em especial: Letícia Suevo. Obrigada por vocês estarem ao meu lado e sempre confiando em mim. Andréa Falcão e Charles. Victor Iotte. Aos queridíssimos professores e orientadores Suéle. Tiago. a Suprema Personalidade de Deus. A todos meus amigos de curso. me deram novos rumos e uma boa asa. Ao meu companheiro. como a CGP de Mesquita. Radharani Ki jay! Maharani Ki Jay! . Zanna. meu mestre espiritual Purushatraya Swami: “Pela misericórdia do mestre espiritual. ótima experiência. Sem a graça do mestre espiritual. que com todo amor me trouxeram até aqui e ao meu irmão. obrigada a Krshna. Brunna. incríveis personalidades (não devem ser chamados de simples colegas de trabalho. ao Camarim das Artes. muito obrigada! A comunidade Goura Vrindávana.

com amor e devoção. e por conceder a percepção direta do eu. o mais secreto de todos os segredos. É o conhecimento mais puro. Como Ele É . é a perfeição da religião.(9:26)” Bhagavad-Gita. Eu as aceitarei. flores.“Este conhecimento é o rei da educação.(9:2) Se alguém Me oferecer. Ele é eterno e é agradável praticá-lo. frutas ou água. folhas.

cultura de massa.Resumo Através desta pesquisa será estudada a cultura pelas linha de análise ecosófica. localizado na cidade de Paraty. Palavra-chave: Ecosofia. com a introdução da filosofia Vaishnava. sustentabilidade. O capitalismo e a sustentabilidade serão discutidas ao longo desta relação entre as ecologias. que se estabelece como um terreno fértil para ideias e práticas sustentáveis. permitindo enxergar um movimento cíclico entre natureza. permacultura. estudei um grupo específico. A fazenda se chama Goura Vrindávana e lá se situa uma relação cultural singular. A cultura de massa e universalização da cultura também compartilham dessa análise do capitalismo. de origem indiana. A fim de obter resultados mais concisos. . filosofia vaishnava. além de vias alternativas como a permacultura. no estado do Rio de Janeiro. sociedade e mente. das três ecologias. mas na qual veremos não ser completamente dissociada com a cultura brasileira.

sustainability.Abstract Through this research will be studied the culture in analysis line of ecosofy studies of three ecologies. The capitalism and sustainability are discussed throughout this relationship between the ecologies. permaculture. The mass culture and the culture universalization also share this capitalism analysis. The farm is Goura Vrindávana and there is an unique cultural relationship. vaishnava philosophy. that is established as a fertile ground for ideas and sustainable practices. In order to obtain more concise results. plus the alternative routes as permaculture. localized in Paraty. allowing a view of a cyclical moviment between nature. with the introduction of Vaishnava philosophy. Key-words: Ecosophy. I studied a specif group. from India. . that we will notice don´t be completely dissociated with Brazilian culture. a city inside Rio de Janeiro state. mass culture. society and mind.

.2 – Bezerro nomeado de Balarama mamando................................... Bhaktivedanta Swami Parabhupada (Srila Prabhupada) …........ enquanto se retira leite para o consumo humano.............................33 Figura 3.................................45 Figura 3.......Lista de figuras Figura 2.....52 Figura 3.........................................1 – Sua Divina Graça A...................3 – Horta no verão de 2012 …........................1 – Flor da Permacultura.................................. C.....................................................55 ..............................................

.................68 Referências.16 1.....................25 2............5 – Goura Vrindávana – Ecologia mental.....................................4 – Goura Vrindávana – Ecologia social.................1 – Sustentabilidade social e ambiental no capitalismo....................................................1 – No princípio.....................................................................................................................................................2 – Ecovilas......... à margem não............................16 1....10 Justificativa..............................................................25 2..................................................................44 3..............44 3..........................................................2 – Sustentabilidade.........41 Capítulo 3 – Sustentabilidade e sua relação com a filosofia Vaishnava..........................................................................49 3........................................10 Problema.............13 Capítulo 1 – Cultura...........2 – A subjetividade das relações no capitalismo.................................................................14 Referencial Teórico.....21 1...........................................................70 ........ capitalismo e desenvolvimento sustentável............................................................................22 Capítulo 2 – Movimentos culturais alternativos e comunidades intencionais............................................................................................................................3 – Contracultura............................................63 Considerações Finais.....15 Etapas do desenvolvimento.3 – Goura Vrindávana – Ecologia ambiental................48 3................13 Objetivo.................................................................................................................59 3.................Sumário Introdução................1 – Alternativo sim.. princípios de vida auto-sustentável e permacultura..............30 2............................... uma prática diária.......................................................13 Hipótese.....................3 – Cultura de massa e universalização estéticas culturais.................................................................................

no Campus Nilópolis. juntamente com outros de 1 2 3 A palavra Arshram significa lugar ou refúgio apropriado à pratica de uma vida espiritual. através de um olhar lançado sobre a comunidade rural e Arshram 1 de Bhakti-yoga2 Goura Vrindávana. onde é o único curso de ciências humanas. Além disso. Yoga ou prática que busca relacionamento com o Senhor Supremo através do serviço devocional. com seu estilo de vida mais simples e considerada pelos homens moderno ocidental como rústicas e ultrapassadas. Realação entre a ecologia ambiental. Essa pesquisa foi realizada por mim. Fevereiro de 2012 e em Março de 2012. dentro do ocidente. especificamente em Junho de 2011. a relação entre os indivíduos será vista com o propósito de estabelecer uma relação com a sustentabilidade. que concentra a segunda maior metrópole nacional. há 261 Km da capital Fluminense. A pesquisa será guiada através da análise da ecosofia3. aplicada no mundo globalizado e capitalista. social e mental. será visto como a comunidade não perde o contato com o desenvolvimento técnico-científico e informacional. analisando como essa filosofia é colocada em prática. Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. econômico. que envolvem indivíduos que visam levar uma vida sustentável. social. . aliada a Filosofia Vaishnava. no estado do Rio de Janeiro. no Parque Nacional da Serra da Bocaina. Será analisada como essa comunidade lida com as dificuldades e os desafios para estabelecer um padrão de vida sustentável. constatando a interdependência da relação entre indivíduo x meio ambiente. a cidade do Rio de Janeiro. indivíduo x sociedade e indivíduo x mente. Esta relação será estabelecida no campo cultural.10 Introdução Esta monografia visa retratar a relação do modo de vida sustentável com práticas culturais. que fica em Paraty. ecológico e político e foi realizada através de visitas pessoais. o estabelecimento de uma cultura oriental. Justificativa Esta monografia foi realizada no curso de Produção Cultural. no Instituto Federal de Educação. E no que tange ao desenvolvimento desse ideal.

Durante o curso. foram vistos diversos estudos sobre grupos culturais específicos. Com base nesse percurso. sujeitos e objetos culturais. mesmo universal. foram analisadas o meio ambiente e as interferências realizadas em cada sistema cultural. é atraente” (Holmegren. é que podemos enxergar nela um modelo a ser discutido. afim de extrair mais dados culturais que possam futuramente não só servir como meio de pesquisa. Lá é proposto outro tipo de relacionamento social e a cultura terá outro tipo de lógica. principalmente se ainda é vista como um campo de curiosidade. a multidisciplinaridade. destaco as relações culturais particulares vividas na ecovila. que não deve ser mais visto com um olhar cartesiano. Visão essa que deve ser comum quando tiramos conceitos românticos de uma cultura homogênea e pura. entre essas ciências. 2007. em determinadas disciplinas. e eu vejo como oportunidade de nos encontramos incentivados a compartilhar conhecimentos. p.7). resolvi fazer a análise sobre a comunidade. além disso. gostaria de sublinhar que. mas formalizar Goura Vrindávana como mais um campo produtor de cultura. “nesse contexto histórico. a partir disso ela deve ser estudada. incentivados a “explorar” e explorar. avaliando também como está baseada as relações dentro das ecovilas. tal como produtores culturais.7) e é justamente após avaliar nos capítulos anteriores os moldes sociais e as relações capitalísticas. mantidas pelo Campus. A intenção é apresentar novos paradigmas culturais que surge paralelo aos que já estamos acostumados e na qual somos. “O processo de prover as necessidades das pessoas dentro de limites ecológicos requer uma revolução cultural”(Holmegren. podendo ser cooperativa ou competitiva com a natureza. tudo deveria ser sempre . entre outras análises. O que há de novo no mesmo? “Insistindo nos paradigmas estéticos. a ideia de se ter um conjunto simples de princípios orientadores que possuam aplicação ampla. e fazendo valer as multivisões. que culminam em novos polos de existências e singularidades. derivados da produção dessa cultura. como qualquer outro polo que apresente singularidades mais aparentes. analisando seu cotidiano.11 ciências exatas. observando fragmentações territoriais. que parecem reger a cultura por completo. 2007. na qual o conhecimento se torna verdadeiramente transformador e enriquecedor. a relação. inexplorado e singular. especialmente no registro das práticas “psi”. p. onde o multiconhecimento é uma ferramenta de articulação com o mundo. Por este motivo.

como dito acima por Guattari. incomuns a cultura nacional. que beneficia a todos seres e estruturas de relacionamentos do ambiente. de educação. mas sim um guia para a expansão do conhecimento.” (Guattari. para convergir nessa perspectiva com o mundo da arte. ideia abraçada pelo movimento hippie. e cabe a alunos e ex-alunos. além de uma fôrma de mãos de obra. de assistência. na qual se . com um nome estranho. e arriscarmos para que a nossa busca seja verdadeira e nos tornarmos responsáveis pelo investimento que a sociedade fez em nós. se vê intimado a se desfazer de seus aventais brancos. 1991. isto quando ainda dentro dela há alguma semente plantada para o progresso das mentalidades. retomado do zero. na qual é aplicada. 23) Fazer evoluir essa prática. Devemos um retorno a nós e a eles. Estabeleço uma relação com o surgimento da contra-cultura. chamado Goura Vrindávana?”. cada tratamento individual deveria ter como preocupação permanente fazer evoluir sua prática tanto quanto suas bases teóricas. cada instituição de atendimento médico. Desse modo. no Processo de Kafka. com base nos seus princípios e como está relacionada com o contexto do mundo técnicocientífico informacional capitalista e suas peculiaridades. aqui tratada na questão do retorno ao campo e formação de comunidades rurais. A monografia em questão visa relacionar as práticas culturais e sua relação com a natureza.12 reinventado. A justificativa para tal ação dá-se no ponto de um interesse pessoal e uma resposta a todos amigos que pensaram: “Mas o que produzir cultura tem a ver com o processo de sustentabilidade desse lugar. em sua linguagem e em suas maneiras de ser (um pintor não tem por ideal repetir indefinidamente a mesma obra – com exceção da personagem Titorelli. Da mesma maneira. realizadas na Comunidade Goura Vrindávana. tratarei também do processo de transculturalidade. onde mesmo a comunidade em questão apresenta outros princípios de vida. fazermos valer anos teoria e receitas. mas sem perder o princípio ativo de permacultura. nos anos 1970. p. que pinta sempre identicamente o mesmo juiz!). do contrário os processos se congelam numa mortífera repetição. que ainda está preso nas universidades. a começar por aqueles invisíveis que carrega na cabeça. no curso de Produção Cultural é ser mais que um executivo cultural de eventos. (…) O povo “psi”. O “começar agir” individual pode ser o ponto de partida. mas que agora apresenta conceitos aliados ao uso da tecnologia.

estabelecidas no mundo globalizado. estabelecidas pela ecosofia. só que com outra conduta. Problema Como Goura Vrindávana mantém suas propostas de sustentabilidade. Analisando através de um contexto político e social. ou seja. que não está a margem do desenvolvimento da sociedade moderna. a comunidade realiza as mesmas atividades tidas como capitalistas.13 é possível verificar na aplicabilidade da filosofia Vaishnava fora de seu território original. que surgiu desta monografia. estando contextualizadas num mundo globalizado. torna-se melhor analisada em seu cotidiano. e o bibliográfico. da cultura permanente. já que a cultura local. verificando sua relação contínua ou não com o processo de sustentabilidade na análise da ecosofia. da comunidade em questão. que consequentemente geram outros resultados em cima da práxis. é relacionar modo de vida sustentável com as práticas culturais da comunidade Goura Vrindávana. sendo continuamente vivida por pequenos grupos de cidadãos brasileiros. Objetivo O objetivo da pesquisa. Goura Vrindávana se estabelece como uma comunidade que propicia o uso da permacultura. para respaldo teórico dos conceitos tratados aqui. através da discussão sobre o modelo de vida alternativa. capitalista e competitivo? Hipótese Através da proposta de uma filosofia que é eminentemente ecológica. O método utilizado foi o etnográfico. em todos os âmbitos de relações. .

por um lado. Não poderia haver tais afirmações coerentes sobre o assunto. . como em outros assuntos aqui tratados. 2008. tratadas durante o curso de Produção Cultural. “Além de sua função legitimadora. na qual a sociedade escorre com seus conceitos rasos de ecologia. faz-se real. da reivindicação de autonomia. Sua visão é primordial para esta pesquisa. da postura de dominação da natureza. quando apresentamos como a cultura e a ciência não são independentes. através de disciplinas multidisciplinares. Oliveira(2008) retrata a posição da ciência e a questão do auto-controle como uma ferramenta alternativa do controle da natureza. senão já travestidas com os resultados previstos por ele nesse texto. de tal forma que qualquer cultura que não a incorpora é ipso facto considerada inferior à cultura ocidental. Holmgren(2007) é uma referência básica para aqueles que pretendem tratar de permacultura ou ecologia. sem que ele seja consultado. já que as bases sociais permanecem as mesmas. a pesquisa visou relacionar temáticas da área de ciências humanas. que também foi levado em discussão. a tese da neutralidade serve também – como indicamos no início – para colocar a ciência fora do alcance de questionamentos em termos de valores sociais e para atribuir-lhe um valor universal. onde foi bem respaldada em todos os níveis.113) Boff(1999) foi uma das minhas principais bases para uma análise psicológica mais precisa sobre as relações ecosóficas.” (OLIVEIRA. me apresentando cada passo para analise dos três níveis de relação da ecosofia que o indivíduo pode ter. pleo indivíduo. p. Diegues (1992) faz um panorama dos assuntos discutidos na eco 92. por outro. Referencial Teórico Como principal referência e como base desta pesquisa Félix Guattari(1991) no livro “As três ecologias” fez-se presente como um todo no trabalho. O livro “Micropolítica : Cartografias do desejo” de Félix Guattari e Suely Rolnik (1996) apresenta um aprofundamento das questões de singularidade. sociedade e ciência. Usar esta referência faz perceber que a ladeira. identidade cultural e cultura de massa. onde a crítica sobre sustentabilidade ainda permanece atual.14 Além disso.

se adaptando culturalmente. que ela permeia. Visto essa lógica. e o desenvolvimento sustentável. Esse modelo será visto nos exemplos existentes no território brasileiro e pontualizando com o modo de vida específico de Goura Vrindávana. abordados a partir de conceitos modernos e visualizada no mundo globalizado. no segundo capítulo. Em seguida. No terceiro capítulo será analisada as questões da interação dos princípios da comunidade de Goura Vrindávana. no nível ambiental. se estabeleceu aqui. primeiramente analisei um campo macro de problematização. de origem indiana. Será abordada a criação de comunidades intencionais. Essa relação estará ligada aos conceitos de cultura de massa e universalização das identidades culturais. será colocada a questão do modo de vida alternativo e o processo histórico-cultural que esse conceito sofreu. contidos dentre desse mesmo conjunto. e de que modo é seguido os princípios de vida sustentável. Estes estarão correlacionados com o estudo analítico da ecosofia. relacionando o modo de vida sustentável com as práticas culturais da comunidade. Será visto como a filosofia. as ecovilas. a sociedade capitalista moderna e a relação entre a natureza e o indivíduo. onde as mesmas são ferramentas e também resultados desse processo de globalização. desmistificando e pontualizando os seus conceitos. no mundo capitalista. nas relações sociais e psicológicas. o primeiro capítulo apresentará a dialética entre desenvolvimento técnico-científico e informacional. realçando suas contradições no que tange a sua verdadeira aplicabilidade.15 Etapas do desenvolvimento Para nortear a discussão. . que se relacionará em todos os outros micro campos.

Conservar-se firme. A partir desses dados. Servir de alimento espiritual a”. o verbo sustentar. por que tanta angústia? Mantenha seu orgulho e vamos cantar. Tr. A questão da sustentabilidade veio permeando as discussões sobre o rumo das consequências que o meio ambiente vem sofrendo com o desequilíbrio. promovido pelo sistema vigente hegemônico. dentro da dialética da questão de desenvolvimento técnico-científico e informacional. palavra primaria da derivação sustentabilidade. dir. nutrir. 8. progresso significa tecnologia. visto como predador. Tr. Prover ao sustento de. relatando a questão do domínio sobre a natureza. As relações culturais como a cultura de massa e universalização cultural serão abordados em seu aspecto subjetivo.1 – Sustentabilidade social e ambiental no capitalismo Segundo o dicionário Michaelis. que enxerga a . se estamos no auge dos tempos. Alimentar. nesse caso de potencial energético que pode ser desenvolvido de forma circular para as entidades vivas que habitam um determinado local. Tr.16 Capítulo 1 – Cultura. Tr. das relações do indivíduo com ele mesmo e o seu processo de homogeneização. no uso da natureza. dir. dir. capitalismo e desenvolvimento sustentável “Ser racional é ter um ego enorme. o ser humano. 1. 7. equilibrar-se. já estamos condenados e pra que se preocupar? Pois nossa atitude é biodegradável. encaminhando a uma unificação de desejos particulares. não cair. No caso. dir. afirma-se que o termo sustentabilidade pode ser aplicado quando é encontrada uma atividade que promova o equilíbrio e a nutrição. suster-se. a história não poupará em nos condenar” (Dead Fish) Este capítulo propõe a discussão da subjetiva relação do sistema capitalista e sua relação atual com o conceito de sustentabilidade ambiental e social. 6. significa: “3.

os países ditos do socialismo real e as Novas Potências Industriais do Terceiro Mundo – fabricam hoje em dia. mas ainda mais crucialmente pela sociedade. cuja superação demonstra a necessidade da adoção do auto-controle. destrincha seus significados. os indivíduos que guiam este ideal de vida. Oliveira (2008.” O modo como a sociedade lida com o conceito de sustentabilidade tem permeado discussões. integrada pelas revoluções científicas. três tipos de subjetividade: uma subjetividade serial correspondendo às classes salariais. enfim. onde todos ficam condenados a sua formatação e ordenação. veem outras formas de ordenação social como alienadas e fardadas ao fracasso. 46) ao tratar dessa relação dual de classes. apenas o resto do corpo. Será impossível estagnar a máquina que vem mantido a sociedade global. detentores do conhecimento científico.17 natureza a nossa disposição eterna. como parte integrante da grande máquina: uma pequena parte aglomera os poucos que fazem parte da cabeça. uma outra imensa em massa dos “não-garantidos” e. apenas aproveita o que o meio oferece. direcionando um movimento único de desenvolvimento técnico-científico e informacional (Guattari. ao lado das potências do Oeste e do Japão. não reaproveitáveis. na qual a natureza tem correspondido. que faz de cada território e seu diferencial econômico. 97) completa afirmando que: “A supervalorização do controle da natureza característica da modernidade.” O capitalismo e sua hegemonia monopoliza toda a cadeia produtiva da sociedade. para colocá-las a seu serviço. desde a Primeira Revolução Industrial. As sociedades capitalísticas – expressão sob o qual agrupo. é vista como parte das causas dos problemas ecológicos. uma subjetividade elitista correspondendo às camadas dirigentes. não apenas pelos indivíduos. gerando um esgotamento. p. a fim de diminuir os resultados negativos. já que não compartilham do mesmo processo cartesiano de evolução. Um exemplo de que irei tratar é a constituição de uma comunidade auto- . no seguinte trecho: “Uma multidão pode estar habitada por grupos desempenhando a função de líder de opinião. Guattari (1991. sendo o auto-controle social incompatível com a dinâmica do sistema capitalista. e grupos-sujeito podem recair no estado amorfo alienante. Diretamente falando. p. 1991). devolvendo com subprodutos da sua matéria. Esse movimento menospreza todo e qualquer outro que não esteja de acordo com seus moldes. simples operadores de máquinas. por sua vez. e a outra.

proverá como uma determinada sociedade lida com o ímpeto de coordenação e direcionamento. na qual o indivíduo deve estar ciente de que dependerá. medidas que promovem resultados a curto prazo. p. mas sim porque precisa preencher de valores humanitários e obter uma relação com a natureza em níveis de cooperação. afirmando que “ela não só legitima a postura de dominação. A dominação da natureza. p. que oferece conforto e segurança financeira. a natureza como objeto. mas a longo prazo são portadores de enriquecimento processual para o conjunto da humanidade. 99).18 sustentável. diferentemente da vida em comunidades rurais alternativas.” Poderíamos citar neste caso. que artificialmente só existe nos centros urbanos. Ela pode estar estampada tanto quanto na sua relação dominante exploratória. mas também fornece. e um dos fatores observados na comunidade de Goura Vrindávana foi a falta de pessoas que se engajem em projetos alternativos vem da perspectiva de que nesse ambiente se estaria perdendo o progresso. ou seja. que os indivíduos detém sobre a natureza. não necessariamente por divergir dos ideais capitalistas. nesse sentido. Essa relação vem da emergência que as grandes cidades tem de estar sempre em constante movimento para o progresso material. e não de exploração. a estruturação de comunidades autosustentáveis. Sobre essa urgência. quanto na dominação direcionada para trocas. mas com a naturalidade de uma vida em contato com a natureza. porém contrapondo com o processo de naturalidade. os meios para ampliar e tornar a dominação mais . 51) afirma que: “A noção de interesse coletivo deveria ser ampliada a empreendimentos que a curto prazo não trazem “proveito” a ninguém. fica evidente que o “desencantamento” da natureza. do próprio esforço e do seu desempenho em ter um bom relacionamento com a comunidade. É o conjunto do futuro da pesquisa fundamental e da arte que está aqui em causa. em grande parte. que prevê resultados a longo prazo. Guattari (1991. onde a natureza torna-se um objeto. como vivido pelo capitalismo. que está apenas disponível para servir ao indivíduo. através da tecnologia. próativamente cooperando para um ambiente organicamente fluído e constante. como tratada por Oliveira (2008. onde as trocas sociais se diferem do sistema predominante. No sistema capitalista. no seu enfoque sobre. está intrinsecamente ligada a sua dominação efetivamente exploratória. sem a urgência dos centros urbanos.

Ao tratar do assunto sustentabilidade. a ciência está diretamente ligada a seu direcionamento pelo capitalismo. Atualmente. mesmo que a consciência do indivíduo esteja direcionada para um movimento de extração dos frutos da terra. a globalização e o emblema de progresso que ela carrega. O homem estando situado em um ambiente com natureza não poderia reproduzir a mesma dominação sobre a natureza que o homem urbano o faz. que está respaldada pela necessidade das indústrias. contudo podemos ver que o contato mais intimo com os processos pelo qual a natureza passa. no mundo globalizado técnico-científico-informacional e capitalista. Não estou querendo criar uma romântica relação do homem do campo com a natureza. entram nessa nova “onda”. p. Neste caso. . a ciência e a tecnologia apresentam valores da minoria. colocando em pauta a soberania sob a natureza. mas com a “preocupação” ambiental. como a ciência. mesmo os produtos ecologicamente corretos e aceitáveis. sem menor relação a nível sentimental ou espiritual. girando a roda do sistema. o valor econômico. podemos afirmar que. permite-nos ver uma relação mais vivenciada pelo respeito de ciclos. 90% das pesquisas no mundo beneficiam somente 10% da população. criando uma consciência coletiva falsaria. de permanecerem sempre produzindo. enxergando-a apenas como um meio em que se pode extrair produtos. provenientes da FINEP(Financiadora de Estudos e Projetos). por traz dessas torcas e o avanço tecnológico. degradando e explorando. tão alarmada. com seus selos verdes. Guattari (1991. em suma. não é sinônimo de distribuição dos bens que o homem produz. O sistema de economia capitalista rege as regras de quem pode consumir e a civilização ocidental rege esses comandos sob os demais.19 eficiente”. que utilizam para controlar a população em massa e a natureza: excluindo.37) versa sobre esse assunto que “a conotação da ecologia deveria deixar de ser vinculada à imagem de uma pequena minoria de amantes da natureza ou de especialistas diplomados”. Analisando esses dados. vemos aqui as contradições e equívocos que são gerados: os meios de comunicação de massa continuam panfletando a necessidade de consumo. na qual o próprio homem os processa e transforma em objeto utilitário para o seu cotidiano. Segundo dados.

destrincha essa relação da seguinte maneira: “Essas são as mesmas forças que se utilizaram do método técnicocientífico como instrumento de dominação do homem sobre a natureza. 24): “O controle estatal dos meios de produção não oferece garantia contra o desperdício de recursos gerado pela anarquia do modo de produção capitalista. 1992). terá sucesso na relação sustentável com o meio ambiente e todas as suas coleções de relações entre seres vivos. Na medida em que os países socialistas se inserem cada vez mais no universo do mercado do capitalismo mundial. transformando a tecnologia na grande racionalização da falta de liberdade e da impossibilidade técnico de ser autônomo e de terminar os destinos da vida humana. reconhecendo sua subjetividade como interlocutora e não como objetivo. p. pelo contrário.” Visando esse domínio.31). e que há uma auto-afirmação em prol de outro sistema político socialista. p. p. (…) também proporcionou meios para a dominação do homem sobre o homem. Diegues (1992) afirma que “O conceito de “progresso” herdado do positivismo está na base dos enfoques tradicionais de “desenvolvimento” existentes no mundo moderno. podemos observar que o modo de produção capitalista incentivando o esbanjamento de energias não-renováveis. Fica aqui então salvaguardo a posição de que não seria através. sob a lógica do sistema capitalista. A ideia implícita é de que as sociedades podem progredir indefinidamente para níveis cada vez mais elevados de riqueza material. onde a questão do crescimento do consumo e a dominação da natureza seja uma bandeira. 2002. 23). a degradação ambiental. Visto essa afirmação. e nem . Casagrande Jr e Agudelo (2006.28).20 Sobre as questões do domínio da tecnologia e seu uso restrito a camadas minoritárias. mas sim ver a fiel relação dos indivíduos com a natureza. convém citar Deleage (apud Diegues.” Os regimes econômicos e políticos pelos quais passaram as sosciedades. prescreve os desajustes ambientais que já vivemos e os que virão (Diegues. não nos remete a uma lembrança salvacionista. Sobre isto. A intenção aqui não é afirmar que o capitalismo está destruindo o mundo. (…) É preciso se comunicar com a natureza.”(p. nenhum desses moldes. exploração dos recursos naturais dos países de terceiro mundo e a marginalização de grupos sociais. afirma Guattari (1991. as contradições semelhantes àquelas do modo capitalista de produção tendem a aumentar. “pois elas também não eram isentas dessa propensão a capitalizar o objetivo do poder”.

2 – A subjetividade das relações no capitalismo O problema em questão não é o núcleo ideal do capitalismo. p.” Não existem estímulos suficientes que façam a maioria pensar e como poderiam? A dominação da informação está nas mãos dos poucos e se compartilhada. de acordo com seus próprios desejos (Boff. sempre inclui a todos como participantes e jamais como mero espectadores. Guattari (1991. p. analisa o realismo materialista da seguinte maneira que “Há a unidade sagrada da realidade que. não será somente perdida. na qual poderíamos obter resultados satisfatórios com relação a um novo paradigma na relação com a natureza.26) a “urgência de um novo ethos civilizacional que nos permitirá dar um salto de qualidade na direção de formas mais cooperativas de convivência”. 28) faz a seguinte objeção. tão trabalhada nas mãos dos tecnocratas. na urgência de novos rumos ou como defendido por Boff (1999. terá a tendência a desviar todo o trabalho evolutivo dessa sociedade progressista. 23). vemos que as relações humanas mais justas poderão modificar essa inclinação. de acumular riquezas e explorar a maioria em benefício de poucos. Boff (1999. não detendo o conhecimento. p. Se analisarmos a ecologia dessas interações. pois há a tendência em olhar para a floresta e não enxergar as diversas árvores contidas nelas. 1999). pois isto acontece em níveis básicos de relação de interesses. 1. De onde poderia vir essa mudança? Somente de cada um dos indivíduos. mas como também “descarrilhada”. que não estão relacionados independentemente dos objetos que observam e não podem reger a natureza. mas sim a conduta dos que governam a máquina do sistema. o retorno de um sistema econômico que retomasse um sistema de produção rústico. Essa relação se dá na revalorização dos objetos que dialogam com nossos sentidos.21 poderia ocorrer. que promove trocas de mercadorias entre diversos territórios. como num jogo. pois a massa. diante do processo que irei . que ainda permanece em nível subjetivamente não explorado. se ambas as partes estiverem de acordo com o valor dos seus produtos.

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explicar em seguida:
“É aí que se encontra o coração de todas as práxis ecológicas: as rupturas a-significantes, os catalisadores existenciais estão ao alcance das mãos, mas, na ausência de um Agenciamento de enunciação que lhes dê um suporte expressivo, eles permanecem passivos e correm o risco de perder a sua consistência.”

Na verdade, jamais poderíamos voltar atrás e reacender processos antigos de molde de vida, mas é necessário que seja criada uma responsabilidade coletiva, para que a realidade, heterogenia dos habitantes da terra, oriente as técnicas científicas, afim de gerar uma administração mais humanitária (Guattari, 1991). 1.3 – Cultura de massa e universalização estéticas culturais Convém pensar nos conceitos de cultura de massa e nos processo de universalização das identidades culturais, promovida pela atual conjuntura da globalização, guiado pelo sistema capitalista, dentro de um âmbito menos técnico e matemático e mais subjetivo. Esses conceitos nos permite ver a propensão social e psicológica, na qual os indivíduos inseridos nessa prática desenvolvem. Guattari e Rolnik (1996, p. 16) fazem a seguinte colocação sobre a cultura de massa:
“A cultura de massa como elemento fundamental da "produção de subjetividade capitalística". Essa cultura de massa produz, exatamente, indivíduos; indivíduos normalizados, articulados uns aos outros segundo sistemas hierárquicos, sistemas de valores, sistemas de submissão - não sistemas de submissão visíveis e explícitos, como na etologia animal, ou como nas sociedades arcaicas ou précapitalistas, mas sistemas de submissão muito mais dissimulados.”

Transcendendo um entendimento curto de que é somente a mídia e a indústria cultural, que produz a cultura de massa, podemos submeter a um nível de subjetividade a que essa categoria se encontra, no que tange sua produção, Guattari e Rolnik(1996, p.19) afirma que “Cultura aqui não é fazer teoria, mas produzir e difundir mercadorias culturais, em princípio sem levar em consideração os sistemas de valor distintivos”. Os indivíduos inseridos na cultura capitalista, uma cultura de mercado, que afirma a nós “somos o que consumimos”, agregam valores em nível subjetivo de produção social, internalizando o gosto do querer, que não está tão explícito quando tratamos o produto da cultura de massa apenas

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como algo que vem a nós, sem questionamentos. Ele está em outro nível de relação, Guattari e Rolnik(1996) conferem um nível mais amplo de relação entre o que é produzido pela cultura de massa com o indivíduo, sem colocá-lo a nível passivo e inocente, ao afirmar que:
“Não somente uma produção da subjetividade individuada – subjetividade dos indivíduos – mas uma produção de subjetividade social, uma produção da subjetividade que se pode encontrar em todos os níveis da produção e do consumo. E mais ainda: uma produção da subjetividade inconsciente. A meu ver, essa grande fabrica, essa grande maquina capitalística produz inclusive aquilo que acontece conosco quando sonhamos, quando devaneamos, quando fantasiamos, quando nos apaixonamos e assim por diante. Em todo caso, ela pretende garantir uma função hegemônica em todos esses campos.” (GUATTARI E ROLNIK, 1996, p.16)

A partir dessas colocações, podemos ver a produção da cultura de massa em um contexto muito mais complexo de referência, apresentando a profundidade com que a cultura de mercado atinge a níveis psicológico dos indivíduos, submissos a sonhos coletivos, mesmo em aspectos particulares. O capitalismo investe na cultura de massa como uma maneira de dominar até os subconscientes coletivos, o processo de universalização da cultura dará conta por tornar tudo, de uma maneira dualista e convergente, mais unitária, como um gosto tomado a priori pelo conjunto de estímulos vividos pela contemporaneidade e suas pós e mais pós-pós-modernidades. Rouanet (2000, p. 12) irá orientar a discussão da seguinte maneira:
“A cultura mundial é ambígua. De um lado, ela é composta de bens culturais de massa, desprendidos do seu país de origem, oferecendo uma gama estonteante de mercadorias expatriadas, cosmopolitas, que vão desde Mickey Mouse até Madonna.”

Mas como é dado o processo de universalização da cultura? Dentro do mesmo campo mercadológico, podemos ver a uniformidade dos signos produzidos, em qualquer parte do mundo, e que também onde pode ser compreendido todo o seu significante e significado. Casagrande Jr. (2006, p.29) faz sua colocação sobre o assunto:
“Hoje, nas estratégias das grandes corporações está o desenvolvimento de “produtos universais”, que visam ser consumidos em qualquer parte do mundo, independente de suas tradições e de seus valores culturais ou mesmo espirituais.”

“A globalização tende a nivelar todas as particularidades, porque sua força motriz é a otimização do ganho, através de uma racionalidade de mercado que

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supõe a criação de espaços homogêneos” (Rouanet, 2000) e são esses espaços homogêneos que deterioraram os resíduos de desejos individuais ou até mesmo de um grupo de indivíduos, potencializados a criar alternativas singulares dentro do sistema, mas a margem dos seus processos hegemônicos. Esse conceito está intrinsecamente ligado ao processo de cultura de massa que, de acordo com Guattari e Rolnik(1996, p. 19) “a produção dos meios de comunicação de massa, a produção da subjetividade capitalística gera uma cultura com vocação universal”.

indicada nas relações de trabalho. Hoje. 2. mas também a relação humanitária. local e circunstâncias.1 – Alternativo sim. questionando antigos modelos e propondo novas práticas. da seguinte maneira: “A relação do ser humano sobre o instrumento se tornou uma relação do instrumento sobre o ser humano. Quando incentiva a criatividade.123-124). O conceito não se limita apenas a produção de bens. é em vista da qualidade total do produto que beneficia mais a empresa do que o trabalhador.25 Capítulo 2 – Movimentos culturais alternativos e comunidades intencionais “E você ainda acredita Que é um doutor Padre ou policial Que está contribuindo Com sua parte Para o nosso belo Quadro social.” No entanto. mas sem alma. o sistema econômico e político vigente é o capitalismo. uma vez que essas parecem se reduzir à “o que você tem a me proporcionar é o quanto de valor que eu posso te dar”. Deles só quer utilizar a força de trabalho. o instrumento tecnológico acabou por escravizar o ser humano ao visar a produção em massa. mesmo que dentro do sistema. p. muscular ou intelectual. à margem não Primeiramente: tempo. Boff (1999. Criado para substituir o escravo. A permacultura e as ecovilas serão analisadas como uma das alternativas mais consistentes na atualidade. poderíamos dizer que procurar novas alternativas de modo de vida seria reduzir o consumismo dos produtos derivados desse sistema e produzir manufaturados. Fez surgir uma sociedade de aparatos. sendo assim. apresenta essa tendência das relações humanas. " (Raul Seixas) Neste capítulo será abordada o surgimentos de movimentos alternativos.. buscar uma alternativa não se baseia somente em negar o que . de um modo generalizador. A produção industrial vigente não combina com a fantasia e a criatividade dos trabalhadores.. que é a principal interação social vivida na contemporaneidade. e também analisando-os como um modelos do movimento da contracultura. que se apresentam como ideias sustentáveis.

mas sim rever novos modos de relação e reaplicá-lo dentro do sistema vigente.) trata aqui desse processo de criação de novos polos. Se há uma circunstância para esse ambiente ser criado é o da percepção pessoal do coletivo. Certamente aqueles que chegarão a esse questionamento se aglutinarão e discutirão um modo coletivo de viver e os “porquês” de cada um. estar desgastado do modelo ou para que uma “Revolução Molecular”. esse novo protótipo se revelava como uma saída emergente e não apenas como um impulso frívolo. 45-66) como uma revolução que “consiste em produzir as condições não só de uma vida coletiva. de um tempo em que negar ao capitalismo e suas relações frias eram simplesmente um ato de rebeldia de jovens dos anos setenta. se tornou o filho mais maduro e prodígio. caracterizada por Guattari e Rolnik (1999. ela precisa estar a margem. Mas não basta só um. o social e comportamento pessoal. quanto no campo subjetivo” aconteça.26 já lhe é imposto. processos de singularização subjetiva. sendo os três dinamizados e interligados entre si. . dentre milhares. mas também da encarnação da vida para si próprio. mas também a tentativa de produzir modos de subjetividade originais e singulares. Ela será alternativa. que podemos desenhar uma comunidade e o que fará dela a “alternativa” será o destaque das relações com o meio ambiente. p. tanto no campo material. com novos hábitos. se estabelecer novos princípios dentro de um campo espacialmente comuns e não. Guattari e Rolnik (1996. quando a formação de comunidades intencionais. não-passivo as condições que o sistema impõe. Vejamos o quanto que esse desejo de singularização influenciou movimentos alternativos. também chamadas de ecovilas. o que decerto facilitaria a condução de um ideal diferenciado. necessariamente. p. que conduzirão outros paradigmas de estilo de vida: “O que caracteriza os novos movimentos sociais não é somente uma resistência contra esse processo geral de serialização da subjetividade. onde a vida coletiva está apoiada em desejos materiais e imateriais. podendo deliberadamente assumir relações de trocas com o campo macro político e externo.” E é a partir de um espaço revalorizado. contemplando um bom senso pré-estabelecido entre os componentes. mesmo que seja estabelecido um novo território com regras particulares de conduta. Esse é um dos caminhos que se pode chegar a uma mobilização para formação de uma comunidade alternativa.

arquitetura ecológica e design de produtos. envolvendo fatores sociais. países e continentes. Essa rede. SUSTAINABLE COMMUNITY DEVELOPMENT PROGRAMME. "este movimento já existe em mais de 15 mil localidades em diversos países. rede de comunidades sustentáveis e iniciativas. 16). muito além da simples noção de respeito ao verde. segundo Braun (2001). Segundo Braun(2001). UNDP (UNEP/96/G81)."(p. dois australianos David Holmgren e Bill Mollison. ela. congregando uma série de condomínios ecológicos no mundo todo. entre as três ecologias aqui tratadas e baseadas na teoria de Guattari (1991). realizada na Fundação Findhorn. congregando mais de um milhão de pessoas. África do Sul e mais recentemente na América do Sul. nele estão contidos noções de relação sustentável. que tem como objetivo expandir e aperfeiçoar o número desses assentamentos em diversos países. No Brasil. que se iniciou na produção de alimentos e atualmente diversifica-se em diferentes áreas como paisagismo. Austrália. desenvolveram o conceito de ecovila. p. existem mais de 30 comunidades na rede de Ecovilas vinculada à global. dentro do atual plano capitalista. transformando os produtos e conhecimentos técnicos fornecidos pelo sistema.27 Junto com as ecovilas. que conecta diferentes culturas. A ideia de Ecovilas foi incorporada pelas Nações Unidas no Programa de Desenvolvimento de Comunidades Sustentáveis (SCDP). principalmente na Europa. Soares(1998. mas que na verdade apresentam novas maneiras de se viver. foi criada em 1995 por ocasião da Conferência sobre as Ecovilas e Comunidades Sustentáveis Modelos para o século XXI. veio o conceito de permacultura. de acordo com Braun(2005). econômicos e sanitários para desenvolver uma verdadeira disciplina holística de organização de sistemas” A partir dessas iniciativas surgiu a Rede Global de Ecovilas (GEN).4) discursa o seguinte sobre o pós surgimento do conceito: “Desde então. América do Norte. uma solução viável não somente para a Austrália. Mas como surgiu a ideia de uma ecovila? Nos anos 70. Os conceitos de agricultura permanente começaram a ser expandidos como uma cultura permanente. como para todo o Planeta. A formação de redes de ecovilas apresenta-se aqui como uma demonstração de comunidades que não negaram o grande sistema e se estabelecendo a margem para viver uma nova ideologia. Um diálogo . os inúmeros casos de sucesso na aplicação da Permacultura têm provado ser. de acordo com a conduta sustentável vivida dentro dessas comunidades.

diremos que se trata de um empreendimento completamente recuperado. quando surgiu o movimento hippie. divergindo para uma outra finalidade. autoritarista. tornando-o viáveis para qualquer parte do planeta. para eIes. apesar de serem prisioneiros de numerosos sistemas de modelização. uma importância absolutamente vital. encarnam seu desejo em empreendimentos coletivos como o rock e o punk. onde muitos voltaram o olhar sob essa questão.ainda que. não querem ser partes integrantes dele. Começaram a aparecer o sinônimo de retorno ao campo – consequentemente de comunidades alternativas rurais . que é criar uma nova perspectiva sob o que já existe. Não quero deixar de afirmar que ao ponto que a finalidade dos produtos criados no sistema capitalista forem divergindo do grande sistema. num certo níveI inconsciente .” Utilizei-me deste exemplo afim de mostrar a questão e a não simplesmente marginalização dos indivíduos que renegam os produtos do sistema vigente. ela poderá cair à margem. utilizando os mesmo elementos disponíveis para todos. onde é apropriado um artefato produzido pelo sistema dominante. Apesar de veicularem elementos de significação da ideologia dominante. mas em contra ponto as propostas da ecovila é de explanar as correntes de ideias que ocorrem naquele território. . ou também. que ao ser transferido e utilizado em outro microcosmo. eles exprimem. correndo o risco de cair em microfascismos. recria um novo significado na sua utilidade é retratada por Guattari e Rolnik(1996. Centenas de grupos vivem. apesar de todo esse caráter heterogêneo e serial de seus componentes (onde tudo parece estar sendo tornado de empréstimo aos sistemas opressivos dominantes). onde os indivíduos ficam a parte de tudo que é produzido no núcleo do sistema e não podem. No entanto. Essa tênue linha entre a marginalidade e o estilo de vida alternativo pode ser revista nos anos 60. que o lema seja: “ser marginal é ser herói!”. que se encontra em implosão. quando fala do movimento punk e a apropriação dos seus componentes do sistema: “Se considerarmos todos esses elementos juntos. p. o qual pode subverter a modelização da subjetividade. dentro de uma nova lógica política e social. tais componentes podem se constituir em elementos de um processo de singularização.e de práticas menos agressivas ao meio ambiente. tenhamos que nos entender quanto ao sentido que damos a esse termo . Ainda sim se forem classificados como marginal. para isso. Essa relação fica bem clara quando falamos da questão da vida alternativa. A ideia era de viver em um ambiente natural. que podem ter.28 com esse tipo de relação. 54). onde se poderia subverter a ordem daquela sociedade.aquila que chamo de "vetor de revolução molecular". o que contradiz a ideia de marginalidade.

essa ideia não passou de experiência para muito jovens da época. No entanto. e também de um outro novo sistema. que podem até mesmo ter uma ideologia teórica particular. até suas . Pontuo aqui também o processo de singularização consciente. afim de reviver o natural. produção de alimentos orgânicos. 1996. capaz de contribuir para a harmonia e a paz mundial. O que deve ser visto é a relação de um grupo que empreende um projeto. tudo isso experimentado na vida artificial das metrópoles. sofrendo “as mesmas atitudes falocráticas. Isso ocorre em todos os níveis: desde a roupa que você usa. pois ele apresenta uma dialética muito mais complexa. mas esse processo não é necessariamente dualista e concreto. à qual cada um deve se conformar.29 voltada somente para o progresso material. vivida às ordens das classes dominantes e suas vontades e da dominação imperialista vista tão claramente no período pós-guerra. portanto. classificado em pequenas prateleiras. como o de uma ecovila. a ideia de uma sociedade justa e participativa. na qual Guattari e Rolnik (1996. entre outras. a cultura no seu aspecto macro. em espaços particulares. O que viria a florescer nesses novos campos de experiências seriam as novas regras e algumas experiências lúdicas. de autonomia”(Guattari e Rolnik. os poucos que conseguiram se manter.123) ou um célula que viva completamente à margem. através da prática de yoga. biológica. p. e outro na qual o grupo por se utilizar de sistema de signos. no entanto. o mesmo desconhecimento total dos desejos que. tão idealizada naquele período.122) destrincham da seguinte maneira: “No fundo. onde se é possível aplicar e descobrir diversas técnicas. Diante deste fato corrente. na qual um grupo pretende ser marginal. com um território diversificado em questão cultural. Há. difundiram o ideal que encontrou terrenos férteis também no Brasil. só poderão se construir e ser vividos em determinados vetores de singularidade. p. muitas vezes de forma radical. sem estabelecer conscientemente nenhum tipo de relação com o meio externo. meios mais simples de moradia e uma vida mais desapegada àqueles valores que eram negados. são colocados a margem. seguindo a mesma problemática da dominação. tudo o que não entra nas normas dominantes é enquadrado. que não são aprovados pelo sistema. e isso para definir um certo tipo de subjetividade dominante. processos de marginalização social à medida que a sociedade se torna mais totalitária. onde deve permanecer o cuidado de não ser somente mais uma mola propulsora do sistema capitalista.

com finalidades ecológicas. 2. somando a finalidade ecológica.). por exemplo. a natureza. suas possibilidades subjetivas práticas.. e se o grupo estiver marginalizado será impossível que essa cultura seja apresentada como modelo concreto de uma possível alternativa ao sistema. da seguinte maneira: “Num sentido mais limitado. no sentido de que você pode estar numa minoria querendo estar nessa minoria (. princípios de vida auto-sustentável e permacultura As ecovilas funcionam como um condomínio. a permacultura não se resume apenas à paisagem. criar. mas que também seja favorável a natureza que o cerca. ou mesmo às técnicas da agricultura orgânica. como da natureza.” (p. administrar e aprimorar esses todos outros esforços feitos por pessoas. 3) 4 Nota de Both(1999. podemos incluir que tal território fique entorno não só do conforto e do bem-estar comum entre os indivíduos. a casa. ou às formas de produção sustentáveis. às construções eficientes quanto ao uso da energia. . conceito que está intrinsecamente ligado a vivência em uma ecovila e que irei tratar adiante. conceito estritamente ligado a concretização de uma ecovila. ou ao desenvolvimento das ecovilas. e o que se pode falar sobre essa classificação? A noção de condomínios está baseada em uma propriedade comum. famílias e comunidades em busca de um futuro sustentável. 195): “Em grego significa a toca do animal ou a casa humana.. E aí teremos um conjunto dialético entre minoria e marginalidade. Neste ponto a ecovila se diferenciará pelo seu princípio de harmonia entre tanto as necessidades de seus moradores. que é dividida proporcionalmente entre seus moradores. o ethos constrói pessoal e socialmente o habitat humano. livre e responsável. conjunto de princípios que regem. mas ela pode ser usada para projetar. na qual o objetivo é que sejam utilizados recursos do próprio ambiente. transculturalmente. Holmgren (2007) fala da permacultura. o comportamento humano para que seja realmente humano no sentido de ser consciente.” O conceito de vida alternativa deve ser regada de um senso que direcione um propósito de um bem-estar comum. mas também importante. sem detrimento.Ecovilas. Podemos imaginar uma minoria que seja tratada como marginal ou um grupo marginal que queira ter a consistência subjetiva e o reconhecimento de uma minoria. e que eles sejam retornáveis ao mesmo.2 . A ideia do alternativo é “sair pela tangente” de um sistema dominador e reger novas regras onde seja abolida esta tendência dominadora.30 ambições. que é o cuidado com o ethos4. As minorias são outra coisa. criando uma permacultura. p.

gerando uma rotatividade de energia permanente. econômica. na qual todo o ambiente se torna autosustentável. assim como o incentivo pessoal. desde que pautadas pelos princípios básicos da sustentabilidade ecológica. 28) Boff(1999) também irá explanar sobre o conceito de sociedade sustentável da seguinte maneira: “Sustentável é a sociedade ou o planeta que produz o suficiente para si e para os seres do ecossistema onde ela se situa. de acordo com cada ideologia de vida pessoal. educação. em benefício da qualidade de vida para todos que vivem nela. ao preservar para as sociedades futuras . na qual nós vivemos junto com as outras classes de seres vivos. que não condizem com a orientação na qual pretendo apresentar aqui. que leva cada indivíduo a desapegar da vida facilitada pela tecnologia moderna e ir morar em uma comunidade estão intrinsecamente ligadas. Sobre a utilização desse conceito e sua aplicação. higiene. saúde e todas outras ações que podem interferir de maneira positiva na natureza. a filosofia por traz destas comunidades. que mostra um sentido de solidariedade generacional. as ecovilas. Diegues (1992) descreve como pode ser orientada essa discussão: “O conceito de "sociedades sustentáveis" parece ser mais adequado que o de "desenvolvimento sustentável" na medida em que possibilita a cada uma delas definir seus padrões de produção e consumo.31 Analizando o que é vida auto-sustentável. saneamento. Além disso. sendo essa identificação com a filosofia a base para que haja esse empreendimento pessoal. pois estou direcionando a discussão para a leitura de um determinado modelo de comunidade com propósitos sustentáveis. Dentro de uma ecovila esse conceito é o que permeia todas as suas atividades. mas sim ao ecossistema. de seu desenvolvimento histórico e de seu ambiente natural. A discussão sobre sustentabilidade pode acarretar em uma série de significados e valores em diversos ambientes. alimentação. deixa-se de lado o padrão das sociedades sustentáveis. vê-se basicamente que ela está baseada no equilíbrio entre necessidade e preservação. bem como o de bem-estar a partir de sua cultura. Além disso. isso inclui não só o que diz respeito aos indivíduos. pois elas oferecem soluções inteligentes e sustentáveis. As ecovilas não podem ser confundidas com qualquer comunidade alternativa. social e política. que toma da natureza somente o que ela pode repor.” (p. ou seja orgânico e cíclico. onde os moradores são levados a pensar em técnicas de moradia.

O projeto permacultural envolve o planejamento. faço necessária a citação de Soares(1998): “Em poucas palavras. Ele resulta na integração harmoniosa entre as pessoas e a paisagem. proporciona o desenvolvimento integrado da propriedade rural de forma viável e segura para o agricultor familiar. Para clarear mais esse conceito. gera novos frutos com uma rotatividade permanente. 137) Como disse anteriormente. onde cada pétala. a estabilidade e a resistência dos ecossistemas naturais. a aplicação de conceito de permacultura é o principal meio pelo qual a auto-sustentabilidade pode ser vivida como um todo. A permacultura acontece quando o homem não se utiliza completamente um determinado material. ou seja. proveniente da natureza. que "as pessoas. a implantação e a manutenção conscientes de ecossistemas produtivos que tenham a diversidade. Unindo o conhecimento secular às descobertas da ciência moderna. provendo alimentação. Permacultura é uma síntese das práticas agrícolas tradicionais com ideias inovadoras. Holmgreen(2007) fundador do conceito de permacultura. entre outras necessidades materiais e não -materiais. são importantes para o sustento da flor e. de forma sustentável. devolve para a mesma como um combustível.32 os recursos naturais de que elas precisarão. Assim. um desenho que representa todos os ciclos de atividades que envolvem essa prática. que contém os 7 passos fundamentais. gera rotatividade do potencial energético das matérias da natureza. cada um dos processos que compõem as pétalas. benéfica e sustentável para ambos. cultura permanente. A interação do homem com a natureza deve estar respaldada em ética e princípios de design. também. suas edificações e a forma como se organizam são questões centrais para a permacultura.” Apresento aqui a flor da permacultura. na qual a natureza reaproveitando. a visão da permacultura de uma agricultura permanente ou sustentável evoluiu para uma visão de uma cultura permanente sustentável". pois ela deve ser antes estruturada para que em seguida ela siga organicamente: .” (p. declara sobre um dos conceitos básicos da permacultura. estabelecendo uma relação de cooperatividade entre humano x natureza. A utilização da permacultura. energia e habitação. juntamente com Bill Mollison. não pode ser pulada.

e também a análise de Félix Guattari. na qual faço referência à Leonardo Boff e seu destrinchamento sobre a ética do humano e os pormenores sobre a tarefa do cuidar.1 – Flor da Permacultura Os três pontos mais importantes para que essa ética. em todas as esferas. atento para o cuidado da Terra. que se encontra no centro da flor. apoiada nessas três esferas dos princípios éticos. nossa casa. vivência e fim deste corpo. na qual deveríamos agir como uma célula benéfica. entre a sociedade e com si mesmo. com seus devir para o funcionamento constante deste imenso corpo. o egoísmo que rege as relações humanas no sistema capitalista. No entanto. por mãos divinas. sobre as três ecologias. Partindo de um ponto macro. que já vem viciado desde a Idade Média e seu poder de concentrar as decisões nas mãos de um homem escolhido.33 Figura 2. teoricamente. local de nossa natalidade. seja efetiva são o cuidado com a Terra. .

como água potável e energia. 1991. que só os indivíduos possuem. Boff. Boff (1999) explica que “Parca é a consciência coletiva que pesa sobre o nosso planeta. 1999) trata desse cuidado com o planeta. que tem uma funcionalidade em cada organismo. em prol do desenvolvimento técnico-científico. que as relações cooperativas promovem e que só a cultura. acabamos de ver as células cancerígenas. afirmando que “o que está em questão é a maneira de viver daqui em diante sobre este planeta.135). todos lucrarão com a sustentabilidade mundial e todos estarão ameaçados se não conseguirmos atingila” (p.133). Guattari(1991) também chamará atenção para o caso. está acarretando no futuro do planeta. para camadas minoritárias e dominadoras.34 vem há séculos nos afastando de uma noção da organicidade. na qual é dito que “a ética de cuidados se aplica tanto a nível internacional como a níveis nacional e individual. nenhuma nação é auto-suficiente. na qual recursos naturais em abundância. pode emergir.” (p. que recebe este real benefício. Diante dessa afirmação. Neste ponto. afirmando que: . apud. O cuidado da Terra é colocado a parte. desse grande corpo que é a Terra. sem o comando de camadas autoritárias. e também do estilo de vida esbanjador. Guattari discerne a discussão e coloca em questão de como essa polêmica deve ser direcionada. que rege essa cadeia de valores. no contexto da aceleração das mutações técnico-científicas e do considerável crescimento demográfico” (1991. Sobre esta contínua prática cega de usufruir e esbanjar mais e mais da capacidade do planeta. dito como progressista. Se todos somos células. 8). ainda são colocados em detrimento no mercado. A mudança só poderá ocorrer quando todo as células tornarem-se conscientes do corpo e seu conjunto de organismos e não se ver como parte de um órgão independente. o que se vê é a constante falta de ética no cuidado da casa onde vivemos. Os que poderiam conscientizar a humanidade desfrutam gaiamente a viagem em seu Titanic de ilusões. No documento Caring for the Earth (Cuidando do planeta Terra. vendo como única saída a conscientização universal. sublinhando o fator decrescente de sua disponibilidade. p. Podemos ver as problematizações que este modelo. para quase uma extinção ou falsa ética. alimentadas por essa consciência desfrutadora.

das mesmas fontes de nutrientes. pois não se poderá operar uma relação de cuidado. Esta revolução deverá concernir. apesar do capitalismo ser um campo infértil para se implantar uma sociedade sustentável. sem antes conhecer o objeto no qual se dedicará a tal atividade piedosa. seja em sua dimensão de cultura. surte como polos de defesa desse eco. seja em seu aspecto de natureza. onde o propósito do comum terá a ver com o cuidado com o outro. devem estar baseada no princípio mútuo de ouvir e atender desejos que visam a melhoria de uma qualidade de vida. afim de estabelecer um alto grau de consenso nas relações. p. ou seja.135) explana e prossegue a explicação da seguinte maneira: “Para isso cada pessoa precisa descobrir-se como parte do ecossistema local e da comunidade biótica. se esses conceitos forem disseminados. mas além disso. e que ele pode se expandir e alcançar campos graduais e seguros. Desta forma Boff (1999. que hoje faz não só o efeito de bálsamo dos pesares realizados pela grande massa ou como brio de esperança da humanidade. As relações humanas que perpassam dentro de uma ecovila. Boff (1999) colocará a questão do conhecer o meio em que vivemos e todos os seres como primordiais para uma relação sustentável. quanto parece. A ideia é de que a natureza dessa relação seja singular. com o nicho ecológico e com a sociedade. social e cultural reorientando os objetivos da produção de bens materiais e imateriais. uma nova ordem poderá fazer progressos mais relevantes e vitais no mundo. Precisa conhecer os irmãos e irmãs que compartem da mesma atmosfera. 9) Fazendo a ligação com o surgimento das ecovilas. de inteligência e de desejo. vejo que o crescimento de um bloco de indivíduos que empreende todo esse conceito de cuidado com a Terra. precisa conhecer o tipo de plantas.35 “Não haverá verdadeira resposta à crise ecológica a não ser em escala planetária e com a condição de que se opere uma autêntica revolução política. uma forma cooperativa de organização que pode atender a todas as vozes. torna-se um campo de experimentação de que estes ideais não são tão utópicos. visitar aquelas rios e . não só às relações de forças visíveis em grande escala. que abriga o indivíduo num ambiente.” (p. precisa conhecer a história daquelas paisagens. cumprindo o dever de uma práxis ecológica sustentável. animais e micro-organismos que convivem naquele nicho ecológico comum. portanto. dentro do grande sistema dominador cruel e esquizofrênico. do mesmo solo. mas também aos domínios moleculares de sensibilidade. dos mesmos mananciais. sem repetir modelos desgastados de hierarquização estabelecida no sistema capitalista. da mesma paisagem.

esta análise se equivale a falta de cuidado com o meio social que se observa nesse sistema. que parece ter sido estratificado nas relações dentro do sistema capitalista.34). dentro do sistema. O controle dessa subjetividade humana. tudo que a prática da permacultura visa fundamentar. econômica e cultural do planeta – e em “intenção” – infiltrando-se no seio dos mais inconscientes estratos subjetivos”. como a conservaram ou a depredaram. santos e santas. se desterritorializou.” A noção de sustentabilidade traz essa sensibilidade da reeducação.33-34). Nas ecovilas. a de cultivar o dissenso e a produção singular de existência” (Guattari. no seio da vida cotidiana individual.36 montanhas. o meio e os acontecimentos. em detrimento do direito de todos em compreender como funciona o mundo em que vivemos. contemplando minorias influentes. a questão será. frequentar aquelas cascatas e cavernas. o ponto que orienta as relações sociais conectam os laços afetivos. dentro das cadeias profissionalizantes do sistema. precisa conhecer a história das populações que aí viveram sua saga e construíram seu habitat. os país/mães fundadores de civilização local. de ver. e como ele opera essa relação: “A ecologia social deverá trabalhar na reconstrução das relações humanas em todos os níveis. diluída e assim direcionada friamente. de criação e de ética pessoal” (Guattari. fortalecendo a noção de interdependência entre os seres vivos e os produtos. que direcionam esse conhecimento como bem quer suas satisfações pessoais. de maneira clara. no futuro. doméstica. p. 1991. onde envolve a questão das escolhas pessoais e desejos individuais são desorientados. por um sistema que rege uma dinâmica impessoal e homogênea de valores. “Longe de buscar um consenso cretinizante e infantilizante. Singularidade essa que é . quem são seus poetas e sábios. ao mesmo tempo em extensão – ampliando seu domínio sobre o conjunto da vida social. que são incapazes de enxergar o próximo. “Tornou-se igualmente imperativo encarar seus efeitos no domínio da ecologia mental. contemplar. 1991. como trabalharam a natureza. Guattari (1991) apresenta esse processo. 33) Avaliando as relações sociais capitalistas. (p. Ela jamais deverá perder de vista que o poder capitalista se deslocou. do socius. que poderia enriquecer essa compreensão foi sistematizada. A troca de saberes. p. direcionando como deverá ser trabalhada a ecologia social. heróis e heroínas. no que tange as relações sociais. que derivam deles. compreender e servir a todo esse cosmo. conjugal de vizinhança. fragmentada. onde o interesse egoísta guiam corpos sociais cegos.

144) “São aspectos inconsciente do indivíduo. se tornam cada vez mais fortalecidas quando todos se enxergam tal como família. formando um social participativo e de respeito. mas sem imposições de superioridade ou inferioridades. foram desfragmentadas nesse novo território. sem o sobrepujar uma classe de indivíduos sobre a outra. mas na direção de escolhas de relações. onde a relação de alta cultura e baixa cultura. ganhando um corpo mais equânime. exercendo também o cuidado com si mesmo e com o seu meio. girando em “torno de si mesmo”. como a diferença dos sexos. uma nova suavidade juntamente com novas práticas estéticas e novas práticas analíticas das formações do inconsciente”. tornarão essas pequenas singularidades efetivas. sem perder o princípio de heterogeneidade. afirmando que “parece-me essencial que se organizem assim novas práticas micro-políticas e micro-sociais. Existe diferenças que são essenciais em qualquer sociedade que se estabeleça. e esta não pode ser anulada a fim de criar um ambiente falsamente equânime. Essas novas práticas que estão constituídas dentro de uma ecovila.” . Boff(1999) dirige esse discurso da seguinte forma: “Cuidar do outro animus-anima5 implica um esforço ingente de superar a dominação dos sexos. reforçando o estado de cuidado. estabelecendo relações justas e ditadas nos limites que um ou outro apresenta. fortalecida através de conflitos que geram da vontade de gerir melhor os rumos da ecovila. p. mesmo que seja uma prática realizada em um ambiente. na qual todos exercem o cuidado com cada um dos membros. p. além da noção de família natal. “para que elas trabalhem para a humanidade e não mais para um simples reequilíbrio permanente do Universo das semióticas capitalísticas” (Guattari. onde as relações humanas com o meio são modificadas. na verdade o cuidado entre estes irá sobressaltar as diferenças. através da educação e as relações culturais transformaram-se.37 vivida nesse micro campo da ecovila. É através dessa nova lógica social. p. mas na qual podemos ver esforços desse coletivo em seu micro território. novas solidariedades. 1991. 35) fala sobre a necessidade desse processos.35) Guattari(1991. desmontar o patriarcalismo e o 5 Nota de Boff(1999. inverso a personalidade. em beneficiar a todos que fazem parte da grande aldeia global. não como um movimento egoísta.

1999. as tarefas que desempenha diariamente na sociedade. sem que ele perpasse pelo cuidado das relações sociais. “Pertencemos à espécie homo. assim vamos vivendo e consumindo na sociedade capitalista.38 machismo. através da promessa de um sucesso material como meio de obtenção do tão desejado “sossego mental”. e os passos dos cidadãos estão sim conectados com o caos vivido. 143) Hoje. e o matriarcalismo e o feminismo excludente. está manufaturada de modo a premunir a existência contra toda intrusão de acontecimentos . que pertence ao sistema galáctico e ao sistema cósmico” (Boff. por outro. sem ter estimulado o conhecimento primordial para que todos esses laços estejam fortalecidos. a sua relação com o meio em que vive e com a natureza. soterrando qualquer expectativa de questionamento sobre seus reais desejos. livres de qualquer influência. Que fique claro que seria alucinada a ideia de que um indivíduo poderia fazer suas escolhas. mas como riqueza da única e complexa substância humana. que também não poderá obter um estado natural de participação efetiva de todos os membros. certo de que falta algo.” Não haverá uma prática de cuidado da natureza. Essa convergência na diversidade cria espaço para uma experiência mais global e integrada de nossa própria humanidade. uma maneira mais cuidada de ser. Exige inventar relações que propiciem a manifestação das diferenças não mais entendidas como desigualdades. por um lado. tal como é engendrada por operadores de qualquer natureza ou tamanho. que também como muitas instituições religiosas. onde há uma harmonia sensibilizada entre outros tipos de seres vivos. prometem o fim do sofrimento. exercido na lógica capistalista. que pertence ao sistema Terra. Guattari(1991) desdobra da seguinte maneira: “A subjetividade capitalística. soterrados desses desejos alienáveis. de doenças psicológicas ou qualquer outro problema de ordem mais profunda. tão longe de nós mesmos. o autoconhecimento. na qual a propaganda do “você precisa” está acima do “você realmente necessita”. p. seja no meio rural. Quanto a esse controle de desejos sobre o indivíduos. afinal somos seres culturais e respondemos aos estímulos e estamos vivendo em meio cultural. se não feitas superficialmente pela cultura da auto-ajuda. Muito se fala na preservação ambiental e nas lutas sociais. mas o que vemos sobre a luta por melhores condições mentais são quase nulas. prometido pelos produtos da cultura de massa. Estes vão corrompendo o interesse por um desejo mais profundo do cuidado com si. seja ele no meio urbano.

surge o seguinte conceito “princípio de design”. toda singularidade deveria ou ser evitada. convém então analisar as pessoas que vivem dentro da ecovila e as possibilidades em se expressar dentro desse contexto. que estará em jogo a saída das crises maiores de nossa época” (p. mas consciente do seu estado de dependência mútua. frutos da criatividade. que leve o conceito de permacultura. Sem entrar em aspectos profundos sobre a questão do design. onde a ideia era casar a arte e a indústria. que vivem de acordo com o sistema capitalista resulta na ordem em que estamos vivendo. nos permitiu ver como eles se articulam nos dois campos distintos: no jogo de relações do capitalismo e dentro de uma ecovila.39 suscetíveis de atrapalhar e perturbar a opinião. Para esse tipo de subjetividade. invocarão uma razão de ser autônoma. sem tomar decisões que não estejam baseadas neste domínio de ação. A ética dentro do conceito da permacultura tomará conta disso ao direcionar atividades de auto-reflexão. na Alemanha. Assim. ou passar pelo crivo de aparelhos e quadros de referência especializados” (p. a partir dos meios os mais minúsculos” (p. parte da subjetividade humana.34) Se as escolhas dos indivíduos. Casagrande Jr e Agudelo(2006) explica: “O processo de globalização desvirtuou a forma como o design havia sido concebido na Escola de Bauhaus. aprimorando a criatividade e a liberdade de expressão. a mente e o espírito. promovendo uma harmoniosa relação entre os fundamentos estéticos do design e . Guattari(1991) e sua pesquisa sobre as três ecologias. vou aqui dar um breve parecer dos rumos que o design pretende direcionar a permacultura. no início do século XX. toda um catálise da retomada de confiança da humanidade em si mesma está para ser forjada passo a passo e. Explanando mais sobre a relação do indivíduo. onde a arte. a natureza e os objetos produzidos.55). e como isso auxilia na concretização desse ideal. do socius em estado mutante. como a yoga. Guattari(1991) afirma que: “A reconquista de um grau de autonomia criativa num campo particular invoca outras reconquistas em outros campos. diga-se por passagem caos. às vezes. diz que “é exatamente na articulação: da subjetividade em estado nascente. do meio ambiente no ponto em que pode ser reinventado. e atividades corporais que conectam o corpo.56) Esta análise sobre as três naturezas que permeia essa discussão.

tanto para os que forneceram a matéria-prima. podemos observar em prateleiras de mercados e também nos produtos culturais. por exemplo. onde a energia de todos os seres que cooperam estão em constante rotatividade. a cultura e a ecologia. a fim de restabelecer um desenho orgânico. no processo produtivo. A ideia da permacultura deve permanecer em todos os âmbitos da cadeia construtiva de uma sociedade alternativa. tendo em vista as características principais de circularidade. desprovido de valores e expressões culturais.29) quando afirma que o design foi “convertendo-se não num elemento de sensibilidade dos consumidores. Papaneck (1995. apud Casagrande Jr. Assim reforça Duarte Jr. intervindo nos seis ciclos de emissão de poluição referentes à sua atividade profissional” e essas escolhas estão listadas da seguinte forma por Papaneck (1995. ela nunca será descartada e sempre estará beneficiando a todos que fazem parte.” Este padrão é o que a sociedade moderna está cercada e na qual os “princípios de design” estabelecidos dentro de um projeto de permacultura divergirá. e sim num fator de deseducação sensível.. pode derivar em mudanças positivas e significativas. . na medida em que se impõe um padrão esteticamente neutro. (apud Casagrande Jr e Agudelo. 31) afirma que “o design deve ser a ponte entre as necessidades humanas. p. 2006. sem danos durante o processo para nenhum dos ambientes e seres envolvidos. 29) abre discurso para a visão otimista das mudanças que um design conduzido para uma realidade mais orgânica e menos artificial. na embalagem. Tudo isso dá a noção da circularidade consciente que envolve a permacultura. quanto da natureza.” Tudo isto fará com que o produto final seja sustentável no ambiente para qual foi produzido. como os desenhos animados. 2006. 31): “Na escolha do material.29) O tipo de design que contradiz toda essa ideia formulada acima na Escola de Bauhaus é o chamado design industrial onde. na busca de sustentabilidade. p. apud Casagrande Jr e Agudelo. 2006. p. tanto dos indivíduos. no transporte do produto. no produto final.40 da arquitetura moderna com a linha de montagem industrial” (p. Manzini (1992.. observando os princípios éticos. p. apud Casagrande Jr. no seu descarte. 2006. para os usuários finais e também para o processo de degradação natural e o descarte final do produto. personalizado para cada tipo de ambiente.

34): “Mas a época contemporânea. mas ainda na esfera de produção e consumo. crescimentos extraordinário dos grandes centros urbanos e consumismo altamente desregrado. e projetá-los em novas soluções.3 – Contracultura Começo aqui com a citação de Leary(apud Goffman e Joy.” 2. acelerar positivamente a mudança de processos de produção em consumo. nadavam contra a corrente. na qual o conceito de ecovila foi criado. As pessoas que não compartilhavam destes ideais.41 através da seguinte afirmação: “O design é um instrumento para a conexão daquilo que é possível no campo das tecnologias limpas com aquilo que é culturalmente desejável no campo da crescente preocupação com o meio ambiente.9) A afirmação acima se torna clara na prática quando pegamos o período dos anos 70. que pontuará a constante relação entre as naturezas que compõe o cenário proposto. na sua maioria de origem oriental.” Neste ponto lidamos com a relação dos objetos produzidos por indivíduos e como ele atua na natureza. 2007) onde é colocado a primeira definição de contracultura: "A contracultura floresce sempre e onde quer que alguns membros de uma sociedade escolham estilos de vida. absorvido de outras culturas. revendo o conceito de auto-sustentabilidade. por conseguinte. Com essa capacidade de perceber e interpretar potenciais técnicos e expectativas sociais. criando novos hábitos. exacerbando a produção de bens materiais e imateriais em detrimento da consciência de Territórios existenciais individuais e de grupo. boicotando muito do que era oferecido pelo sistema e reinventando novas práticas culturais. sendo que a análise desta intervenção deve estar pontuada na relação da ecosofia. no caso do . p. o design pode. Partindo para a questão do uso de tecnologias sociais. em sua maioria participantes de movimentos como o hippie e punk. o uso e a transferência de valores que regem essa técnica. articularei aqui ao processo transformador. momento esse em que se questionava a cultura de massa. Desta forma. engendrou um imenso vazio na subjetividade que tende a se tornar cada vez mais absurda e sem recursos. visando os processos da criação. expressões artísticas e formas de pensamento e comportamento que sinceramente incorporam o antigo axioma segundo o qual a única verdadeira constante é a própria mudança" (p. que faz parte do cenário bastante autônomo de uma ecovila. faz-se necessário citar Guattari(1991.

individualidades . fora do que o sistema imponha. alimenta-se de fluxos de singularidade para produzir. que pretendem dar um novo rumo a história social. fabricado por essa maquina cuja função e exatamente inversa: produzir indivíduos deslocáveis ao sabor do mercado e. mais do que aceitar os ditames das autoridades sociais e convenções circundantes. enquanto produtora de cultura de massa. Gerar mudanças era um fator primordial para que fossem incorporadas novas lógicas. que fortalecidos aderem signos. contra corrente. que surge de pequenos grupos questionadores. formam novas lógicas.39) Essa afirmação do poder individual. que a cultura capitalística promove e uma nova ordem. é melhor deixar que isso corra. Sobre a questão da negação da cultura de massa e a singularidade. sejam elas dominantes ou subculturais. dia a dia." (p. e essa mudança era regida por esse caráter de subversão. p. afirmam o seguinte: “De fato. para isso. do que experimentar uma nova ordem.42 movimento hippie. pois os eixos vão se modificando de acordo com o a necessidade de interação de cada indivíduo. que poderia tirar todos do seu lar confortável. que se tornam identidades de uma cultura subterrânea ou uma contracultura e seus novos significados. singularizar é luxo nos tempos que correm! Ainda mais no mundo das páginas diárias. que agrupado. como primeiro passo para o questionamento da cultura vigente fica clara quando vemos a dominação dos desejos da massa. através do seguinte trecho: "Nossa definição é a de que a essência da contracultura como um fenômeno histórico perene é caracterizado pela afirmação do poder individual de criar sua própria vida. precisando interceptar seu acesso aos processos de singularização” Aqueles que comandam o país detém o poder da locução e sabem como exercê-lo de modo convincente. que dizem saber o que está fazendo e que será o melhor para nós. 39). Goffman e Joy(2007) destrincham o que é o conceito de contracultura e a base para sua afirmação. pois é mais fácil se deixar ser regido por tutores. tão mal visto pela minoria controladora e marginalizados pela grande massa e seus olhares tortuosos para uma nova ordem. Guattari e Rolnik(1996) afirma o seguinte: “A imprensa. Isso afirma na cultura um movimento de total circularidade. provinda de uma atitude individual e podendo ser abraçada por minorias. Guattari e Rolnik (1996.

tecnologias apropriadas e planejamento de comunidades intencionais” (p. saindo dos centros urbanos e estabelecendo um novo estilo de vida no campo. ela "amassa" os processos de vida social. remanescentes do desejo de fazer diferente tem muito a ver com que foi descrito por Holmegren(2007) ao falar do processo que as ecovilas passam: “Embora não seja em grande parte reconhecida pelo meio acadêmico e ou apoiada pelo poder público ou pelo setor empresarial. desligandose do processo de formação de cultura de massa. É preciso citar a cultura de massa para fazer referência ao diálogo que a contracultura faz. autoafirmando a sociedade como heterogênea e produtora de cultura. indivíduos iguais e processos empobrecidos” (p. Democraticamente. Dessa forma. Aqui fica clara essa ligação entre o processo de surgimento e manutenção social. os permacultores vêm contribuindo para um futuro mais sustentável através da reorganização de suas vidas e do seu trabalho em consonância com os princípios de design e permacultura. 4). 39). ainda crescente nos dias de hoje. A ideia de contracultura. na qual as ecovilas passam e as suas características contraculturais. respaldada em respeito e cuidado. . com isso produz. naquele período. entre aqueles que desviaram e seguiram um caminho menos óbvio. com a questão do surgimento das ecovilas fica clara quando vemos um movimento contrário dos moldes tomando força. o êxodo rural. que revê um novo fluxo de ideias. afim de estabelecer uma nova lógica centrada em uma visão cooperativa da sociedade com a natureza. Esse novo campo. agricultura orgânica. contrapondo ideias e subvertendo as grandes massas. fazendo um movimento contrário do que estava ocorrendo no mundo e principalmente no Brasil. a cada fornada. sem dominação e hegemonia.43 serializadas. por justamente quebrar as barreiras das relações capitalísticas. estão criando pequenas mudanças locais que influenciam direta e indiretamente ações nos campos do desenvolvimento sustentável. em sua riqueza e diferenciação e.

para seu desencadeamento. apresentarei uma breve história do início do movimento. fora de um relacionamento conjugal). Os 4 principais são: a austeridade (a não intoxicação. original da Índia. com outros indivíduos e com ele . Em seguida utilizando a entrevista realizada com os atuais moradores da comunidade Goura Vrindávana. podem. 3. vou assim dizer. trouxe consigo valores culturais. durante o processo de auto-realização. pelo principal dissipador dessa filosofia no ocidente. ou seja. conduzindo este trabalho na qual sou apenas uma divulgadora. conhecido como “Hare Krishna”. enunciando o assunto que será tratado. baseados em costumes culturais ou valores. além disso. aves. trazidos da Índia. Srila Prabhupada. Por que falar desses princípios? Podemos analisar o quão de valores estão carregados nesses comportamentos.44 3 . deixarei que eles mesmos apresentem o seu ideal de vida através das suas falas. ser um fio condutor de práticas espirituais? Esses costumes culturais. focada nos novos costumes que ele trouxe aos praticantes ocidentais.1 – No princípio Como princípios materiais. pureza (a não prática de sexo ilícito. a não violência (não consumir carne vermelha. fazendo com que o leitor faça uma ligação com todos os discursos dos capítulos anteriores e a prática de uma cultura sustentável. e a veracidade (não se envolver com jogos de azar). peixes e ovos). valores implicados na concepção de relação sustentável do indivíduo com a natureza. Esses valores fazem parte de regras e regulações – ou princípios – que é visto como meio para que as práticas espirituais sejam mais facilmente conduzidas e encontrem terreno fértil. que é a meta dessa filosofia. pretendo descrever de forma transparente.Sustentabilidade e sua relação com a filosofia Vaishnava Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare No decorrer deste capítulo. Desta maneira. continuarei realizando referências com autores que poderão explicitar o conteúdo tratado. no caso da cultura vaishnava. evitando todo tipo de droga).

” Figura 3. C. em suma. Bhaktivedanta Swami Parabhupada (Srila Prabhupada) O ocidente. que nos guiará para os parágrafos seguintes: “Essa promoção de valores existenciais e de valores de desejo não se apresentará . sublinho. na vida e no ambiente de todos os seres que as cercam. 52). e a vida nas grandes cidades estavam travestidas de princípios opostos a estes. p. Ela resultará de um deslocamento generalizado dos atuais sistemas de valor e da aparição de novos polos de valorização. constituída de uma vez por todas. analisado por Guattari (1991. período em que Srila Prabhupada chegou nos Estados Unidos. de modo positivo. grifo uma fala sobre esse aspecto de interação.45 mesmo. como uma alternativa global. A partir do momento que essas regulações deixam de ser regras e se tornam um comportamento natural. elas passam a interagir. Essa .1 – Sua Divina Graça A. Sobre isto. desconhecia muito desses princípios no final dos anos 60.

e era isso que mais atraía esse público espontaneamente. oferecendo apenas alimentos. por Srila Prabhupada. especialmente os jovens. foi o objeto da atração dos jovens hippies americanos. sem ao menos obrigá-los a seguir um caminho ou induzindo a tratamentos rigorosos. do mundo capitalista ocidental. traziam todos os argumentos que eles necessitavam para lutar no seu contexto.56) O público hippie se sentiu mais atraído pela filosofia do que os demais grupos sociais. 2002. porque dentro dessa cultura alternativa. o olhar sob o oriente era um ponto de apoio para contradizer a cultura materialista. como a questão da imposição de valores culturais. O consenso geral era que ninguém podia fazer. a introdução das regras e regulações parecia um terreno infértil. e eles faziam. pode abranger diversas discussões. sejam elas políticas ou religiosas. Srila Prabhupada. idoso e com o propósito de apresentar a filosofia vaishnava. feito por um homem só. pois eles estavam totalmente fora do controle por causa das drogas e assim por diante. E todos apreciavam. onde práticas espirituais. a negação de instituições. que viviam uma cultura alternativa. chamado Srila Prabhupada-lilamrta: “Numerosos cidadãos responsáveis em São Francisco ficaram muito felizes com o que Swami Bhaktivedanta estava fazendo entre os jovens.46 ideia de estabelecer valores de uma cultura estrangeira em um outro contexto cultural. que viam jovens drogados nas ruas e gastavam dinheiro público para tratá-los. ele mudou o comportamento daqueles jovens. que ao chegar no ocidente sozinho. mas não devem fazer aquilo”. nos faz . emblema que nos remete justamente a esse período. Porém. o Swamiji dizia-lhes o que fazer. e que dentro desse cenário. volume 3. Mas podemos analisar particularmente o caso do processo da introdução da filosofia vaishnava. Os jovens daquela época andavam numa busca e necessitavam de alguém de gabarito muito elevado que se interessasse por eles e lhes dissesse: “Vocês devem fazer isso. A busca pela “paz e amor”. em detrimento da outra. a libertação sexual eram suas principais bandeiras. Toda esta história foi relatada durante o convívio com os praticantes da filosofia vaishnava e os livros aqui citados sobre sua vida. onde a intoxicação. Mas apesar de esteticamente fazer o mesmo que um poder público estava fazendo e investindo. na qual pregava o desapego material.” (Goswami. Isto fica bem claro nesta passagem da biografia autorizada de Prabhupada. foi considerado como um bálsamo para os dirigentes públicos americanos. p. música devocional e aula sobre filosofia vaishnava.

Alguns foram iniciados sem . a cosmopolização. na acolhida das complementaridades e na convergência construída a partir da diversidade de cultura. parecia ser um remédio para retirar os ideais territorialista. afim de adquirir um novo paradigma. No trecho abaixo que grifo da biografia de Srila Prabhupada. de pouco em pouco. Goswami(2002) relata da seguinte forma a conduta de Prabhupada. que mesmo indo contra ao que estava sendo seguido por eles. agregaram valores e transformaram uma nova cultura que estava nascendo no ocidente. introduzindo os novos conceitos da tradição vaishnava. vivida pelos jovens hippies. muitos desses jovens abandonaram seus hábitos e introduziram em suas vidas os quatro princípios. as regras e regulações não poderiam ser modificadas para nenhuma cultura. repressão e ditaduras eclodiam pelo mundo. tanto no âmbito étnico. aos poucos. onde jovens hippies. do seguinte modo: “Por toda parte se formulam ânsias por uma nova aliança de paz perene com as demais espécies e com a Terra. certamente. traz um relato de como isso era vivenciado. Mas até que ponto os princípios trazidos por Srila Prabhupada modificaram-se? Pelo que analisei. p. de tradições e de sentidos de vida. perder o interesse pelas atividades julgadas como prejudiciais para o avanço espiritual. Como que através de um novo comportamento e a introdução de uma nova educação se poderia estabelecer essa filosofia no ocidente? A reinvenção de valores acaba sendo um processo natural que será vivido naquele contexto. Esse novo contrato social se assenta na participação respeitosa do maior número possíveis na valorização das diferenças. de modos de produção.47 recorrer ao contexto histórico de pós-guerra. que visse todos como iguais. sexual. mas sim aplicadas de maneira natural para cada ambiente. a noção de um mundo uno. Boff (1999. diante da situação: “Alguns chegavam a dar uma fumadinha após o kirtana. justo do lado de fora da porta do templo. onde guerras sistemáticas de dominação. como por exemplo quando Srila Prabhupada aceitou muitos seguidores. Sobre este novo paradigma de um novo mundo de paz e amor. mesmo eles não seguindo algum dos princípios estabelecidos. de certo modo propiciou a simpatia pelos ideais trazidos por Srila Prabhupada.” Essa busca na cultura oriental. Seu argumento era de que o Maha-Mantra Hare Krishna fariam eles. financeiro ou político. 26) analisa essa condição da busca do novo.

mas que queriam espalhar a consciência de Krishna tão amplamente quanto possível. Os devotos gostavam de ir à esquina e tomar o seu café com biscoitos. analisando a existência de competitividade ou cooperatividade. sociabilidade. que podemos revelar as significativas mudanças. do mundo da matéria e das atividades que são realizadas em torno delas. Foi necessário fazer esse panorama para que seja entendido em todos os contextos. o que se tem em abundância ou escassez.48 conhecer precisamente os princípios que haviam concordado em praticar. havia dois grupos: aqueles que seguiam estritamente as regras e regulações e enfatizavam a pureza e aqueles que não estavam tão preocupados com restrições. como ele se comporta e quais são os . que começam no dia a dia de quem pratica. de uma cultura de minoria. uma prática diária O conceito de sustentabilidade pode ser generalizado. já enraizados. Kirtananda: “A onda em São Francisco era bem mais relaxada. e que posteriormente farão prática da vida cotidiana. permite ver os pormenores de uma cultura. p. se não visto pelos seguintes pontos de vista: natureza. que são vividos diariamente pelos Vaishnavas e que não é a finalidade da filosofia. 46) Essas atividades fazem parte de uma prática diária e é somente através dessa análise. dentro de uma determinada sociedade. em contraponto a essa configuração apresentada. 3. Porém. Com isso. no cotidiano brasileiro. Essa análise. digo a cultura das relações humanas. consumo. Mas Prabhupada adorava a maneira pela qual tantas pessoas estavam vindo. relações humanas. através de uma análise da cultura material.2 – Sustentabilidade. onde ideias e novas influências vão surgindo. O Swamiji era tão generoso que acolheu ambos os grupos”. que para quem o vive não é perceptível (Burke. venho tratar de valores que podem ser modificados e que a cultura nunca será rígida. como é conduzida. 1995). Tratei dessas questões dos princípios para retratar da onde iniciou esses costumes. as relações de poder. é o que vai reger as práticas e a conduta na interação do indivíduo com o seu exterior. como dos objetos utilizados diariamente ou modos. pressupondo uma pré-avaliação de uma cultura macro e de maioria. (volume 3. em um determinado ambiente. relação do indivíduo com ele mesmo. E adorou o programa no Estádio Avalon.

em particular. após anos de hábitos da sua cultura. Assim. no bairro Graúna. Goura Vrindávana.3 – Goura Vrindávana – Ecologia ambiental Começando pelo aspecto de maior aparência. e atuam de maneira sustentável.49 conhecimentos. fazenda localizada na cidade de Paraty. diariamente e naturalmente. pelas declarações das entrevistas. a natureza. 3. se analisarmos as vias em que esse paradigma de vida está caminhando. pelos praticantes e moradores. em cada indivíduo. que se faz presente em sua beleza infindável. foi visto como essas interações são realizadas. apesar da tendência de universalização sociocultural. divisa com o Parque Nacional da Bocaina. Com esse propósito. A tendência é enxergar os pequenos blocos sociais. estabeleci um local para essa análise. baseada em “uma filosofia eminentemente ecológica”. massificadores e homogenizadores (Diegues. desenvolvimento e sustentabilidade não está calcada somente em uma linha. aplicada e revalorizada. a relação de grupo. conceito esse contestador. A relação ecológica foi muito enriquecida por esta troca. veremos o quanto a questão de sociedade. como dito pelo líder espiritual da comunidade. que pode ressignificar a sua relação com a natureza. que por menores que sejam seu campo de atuação ou polarizados com o contexto. que causam estranhamento para a maioria da população brasileira. está baseada em critérios de experiência sobre o meio. de coberturas de variadas espécies de . cheio de signos e seus significados. através desta análise etnográfica. relacionando seu aspecto histórico e cultural. que ele tem sobre ele mesmo. Abro essa discussão para um território diferente. Eles ainda permanecem singulares. local de natureza exuberante. e assim poder interagir com as duas relações ditadas acima. e a filosofia se apresenta como fonte na busca de auto-conhecimento. O que vemos na comunidade rural Goura Vrindávana são aspectos da filosofia vaishnava. 1992). integrante da Mata Atlântica. por estar sendo dinamizada em outro campo e por pessoas. regida por modelos do mundo capitalista ocidental e progressista. guiada pelos moldes capitalistas. que até então também incluíram suas práticas na vida. Feito isto. original da cultura Indiana.

nesse mundo. mas sem a mentalidade de exploração e dar tempo pra natureza se recompor. Para revelar este processo. da presença de Deus em todos os seres vivos. que trata dessa contínua relação de crescimento baseada em um ciclo natural. Aproximadamente no ano de 1989. então. Então. pois o princípio de vida de quem começou e dos que permanecem ali. Ed. cito aqui trecho de um entrevista.. como isto ocorreu. tem os conceitos do desenvolvimento sustentável. podemos ter uma ideia do propósito e princípios. com o líder espiritual da comunidade. A filosofia Vaishnava nos dá essa noção muito clara da presença de Deus da natureza. e sua esposa nas terras adquiridas. No ano de 1986 Ev. realizada por mim. que residiam na cidade do Rio de Janeiro. Então a natureza tem essa natureza de se recompor.” A partir desta enunciação. que é usar os recursos naturais. eles se mantiveram firmes no propósito de conseguir tirar suas subsistências vivendo da forma mais natural possível. foi morar sozinho na propriedade. que analisou a comunidade em questão. a preservação da natureza.. em conjunto com a natureza e indivíduo: “O conhecimento védico com a Filosofia Vaishnava é eminentemente ecológico. convergem para um propósito de relação do comum com a natureza. mas é o que temos em mãos para viver aqui. animais.50 vegetais. Para conectarmos e vermos o quanto isto ainda está presente. tratando do seu processo de formação: “A história da constituição de GV começou com dois irmãos. visto essa relação cooperativa com a natureza e a vontade de viver “mais naturalmente possível”. Passando alguns dias em Paraty. 47). mas vejo que é necessário ao menos citar os primeiros momentos da comunidade. abandonou seu emprego e foi morar com Ev. somado a isso. porque sempre se procura pensar que ele está consciente que tudo que existe são energias de Deus. conheceram algumas terras que pertenciam a antigos monocultores de banana e resolveram adquirí-las com o propósito de viverem lá. Eles passaram. na qual a comunidade se iniciou e que ainda está acalcada.” Gauttari (1991) afirma que a natureza nunca poderá ser separada da . cito Teixeira (2010. dos seus integrantes. p. a produzir bananaspassa que eram vendidas em Paraty para se manterem. o respeito por tudo que é vivo. apesar de todas as dificuldades naturais que eles encontraram para se estabelecerem no local. Segundo Ed. mas tem que dar tempo pra isso. de 55 anos e Ev. Minha intenção não é entrar profundamente no aspecto histórico de fundação da comunidade. de uma forma digna e produtiva. e o estilo de vida proposto para a permanência e contínuo sustento deste meio ambiente. Não foi a toa que a comunidade se instalou em um local de tanta variedade. E depois. Ed. É usar os recursos naturais não com a mentalidade de exploração.

encontra-se na seguinte citação de Lacey (apud Oliveira. o controle humano do ambiente natural é contrabalançado por seu sustento e manutenção. gerando alimentos orgânicos e variados para toda a comunidade.” Como isso se concretiza? Nos projetos que são realizados. nem os corpos vivos que interagem. presente neste campo de estudo: “O controle contrasta com posturas como a reciprocidade. meio e fim das relações. apoiado no princípio de sustentabilidade. Ela pode. que bem utiliza a terra fértil. vemos as explanações acima como um exemplo deste fato. pois a cultura vaishnava se fez presente neste ambiente. mantendo um ciclo de vida sempre renovável. 101). de forma tal que o valor do objeto com o qual se interage reflete certa medida de integridade atribuída a ele. por exemplo. atendendo a grande parte dos moradores. Quando se discursa sobre a relação do homem com o meio ambiente. que a Filosofiia . que ali são criadas.. e dos restos de alimentos orgânicos. pois está sempre interagindo em todos os campos. a mutualidade e o respeito. e por uma concepção particular de florescimento humano. exceto em circunstâncias inesperadas. o conceito que mais evidencia a relação com a natureza. dar-se de acordo com os ritmos naturais. elas não comprometem o início. e com ele. que através do potencial energético da cachoeira. fornecendo energia elétrica dia e noite. [. só é necessário que analisemos “transversalmente”. uma relação harmoniosa e recíproca com a natureza. como os animais e por isto inicio a fala sobre os projetos que existem em Goura Vrindávana com o projeto de proteção as vacas – Surabhi Seva – que é uma das ligações mais clarividentes dessa relação sustentável e de respeito vital entre os seres vivos. percorre toda o território. juntamente com a reutilização da fezes das vacas protegidas. devemos incluir a relação com os outros seres vivos. p.. de modo a propiciar uma troca comum e natural. A partir desta relação sustentável. ou seja. como a horta. de maneira tal que as relações humanas dentro dele. e a preservação do ambiente impõe limites aos fins aceitáveis. sem prejudicar e sem modificar o meio e os seres vivos do seu habitat natural. podem ser permanentes. Relações sustentáveis são aquelas na qual a ação está baseada em linhas cooperativas. a qual garante. Assim. Também há o gerador de energia. Deste modo.] A interação com a natureza pode ser circunscrita por seu ajuste com uma ordem social. com um conjunto limitado de meios e fins definidos pela tradição. não se reduzindo ao valor instrumental para o agente. do social ao ecossistema. ecológica ou cósmica.51 cultura. em uma dada cultura.

o ghee.” Figura 3. que usa os cinco elementos dos subprodutos da vaca.52 Vaishnava propõe. a coalhada. devemos cuidar e proteger as outras entidades vivas que interagem conosco. chamada panca-gavya. pois a relação com os seres vivos. Uma das moradoras que participa do projeto. em entrevistada explica o valor do cuidado as vacas. As vacas tem duas características muito importante que todas as pessoas que seguem a vidam espiritual almejam ter: a primeira características é que elas são bem querentes de todos os seres vivos. que é a manteiga purificada. uma medicina indiana. enquanto se retira leite para o consumo .2: Bezerro nomeado de Balarama mamando. o esterco e a urina da vaca. Tem uma medicina védica. trocada ou servida de alimento. elas dão o leite e do leite a gente faz os laticínios e todos os subprodutos da vaca eles são benéficos pra humanidade. o esterco e até a urina. elas estão sempre oferecendo e doando pra o bem estar da humanidade. quer dizer. O fator importante também. recebendo os mesmos tratamentos que antes recebiam. vivenciados pela filosofia. afirma que todos são parcelas de Krishna e entendesse que nós. as vacas depois que param de dar leite permanecem na fazenda. do tipo que é utilizado nas industrias de alimentos. as vacas recebem tratamentos da medicina ayurvédica. sem produtos químicos artificiais. seres humanos. que diferentemente do trato de objeto utilizável e descartável. que possuímos inteligência e somos mais avançados no entendimento espiritual e material. Através desse projeto. Ela não é vendida. de forma medicinal que é o leite. dentro da filosofia védica: “As vacas dentro da cultura védica são o símbolo da espiritualidade da religiosidade. A outra característica é que as vacas são incapazes de fazer mal a qualquer ser humano a qualquer entidade viva.

Agora vejamos o que é dito quando se fala do acoplamento espontâneo: “O seres interagem sem razões de sobrevivência. Boff(1999) discursa sobre este assunto de maneira clara e dialoga com o assunto “cuidar” em um parâmetro de relação amorosa. pois além das vacas serem parte do ciclo de auto sustentabilidade da fazenda. É um evento original da vida em sua pura gratuidade. sendo o necessário e o espontâneo. 110) Certamente o Surabhi-Seva apresenta as duas configurações. que foi baseada na pesquisa realizada pelo Biólogo Humberto Maturana ao analisar dois tipos de acoplamentos dos seres com seu meio. revelando assim uma relação de cooperação e inter-dependência. onde os mais fortes e sábios cuidam e ensinam os mais novos. que não está fundada em contos românticos. como dito na citação acima. Até mesmo o fato dos animais possuírem nomes pode ser referido a relação de proximidade e familiaridade que os residentes possuem com as vacas. remetemos a um grupo familiar. Não há justificativas para eles. e quando falamos de familiaridade na sociedade humana. não é um projeto . surge o amor como fenômeno biológico. que é apresentado pelo projeto em questão. A análise do necessário dá-se quando “todos os seres estejam interconectados uns aos outros e acoplados aos respectivos ecossistemas como garantia para a sobrevivência” (p. o projeto apresenta a seguinte configuração quanto ao seu sustento. Ele tende a expandir-se e a ganhar formas mais complexas. Uma dessas formas é a humana.53 humano. Quando a relação do homem com o meio ambiente está calcada em cooperação na nossa sociedade. que cooperam entre si para a sobrevivência. como apresentada pela moradora entrevistada: “Ele é um projeto mantido por todos os projetos. onde os objetos e até mesmo os seres vivos tem um valor determinado de mercado. verificamos uma transformação na relação e uma re-significação de valores. Dentro da comunidade. no fluir de seu viver. Trata-se de encaixes dinâmicos e recíprocos entre os seres vivos e os sistemas orgânicos. Quando um acolhe o outro e assim se realiza a co-existência. 1999. elas são tidas como símbolo sagrado da filosofia e assim recebem um tratamento baseado em cuidado e a co-existência. é feita projeto da liberdade que acolhe conscientemente o outro e cria condições para que o amor se instaure como o mais alto valor da vida” (Boff. 110). Acontecem porque acontecem. p. mas sim em uma ciência humana e real. Ela é mais que simplesmente espontânea como nos demais seres vivos. por puro prazer.

cria uma rotatividade de energia que permite a co-existência de ambos os seres vivos inclusos na troca mútua. que alimenta a horta. então dizem as escrituras védicas que o serviço as vacas é como se fosse uma realização de toda a essência da vida espiritual. ajuda a manter toda comunidade. Ao entrevistar um dos moradores. ou seja. Então. 111). foi dito que: “E o intuito da horta é justamente esse. onde todos os moradores se alimentam lá. que produz insumos para a comunidade e faz parte do ciclo de energia entre a natureza e os animais. 1999. os restos de comida. tentar não explorar a natureza e sim viver junto da natureza e assim também fornecer alimento dessa maneira. sob esse olhar espiritual o serviço as vacas está no centro. a horta abastece toda essa cozinha com verduras e com legumes e toda a cultura que é cultivada aqui na horta e isso ajuda a tornar a comunidade ainda mais auto sustentável e a tendência é só crescer ainda e cada vez mais” . várias vezes são presente pras vaquinhas. que vira humus. então ele precisa de cuidado e de atenção de todos os projetos de goura e de muitos voluntários. pra poder sustentar a comunidade. servindo ao nosso mestre. pra que ele consiga prosperar e acontecer e além de financeiramente. está servindo a Deus. poder gerar a própria cultura dentro da própria horta e assim manter. porque a comunidade tem um âmbito e uma ideia de tentar ser sempre auto sustentável. pra toda comunidade. produzidos aqui mesmo pra ser consumido aqui e o banco de sementes vai ajudar a se tornar ainda mais auto sustentável. os projetos que tem alguma renda mantém o projeto das vacas. um exemplo. por produzir alimentos orgânicos. por mais que ainda esteja só na raiz. E na horta é onde se aplica mais isso assim. hoje e outrora. E o um dos intuitos da horta é que ajuda também a se relacionar com todos os outros projetos da comunidade. de cascas de vegetais da cozinha. e com grande variedade de alimentos.” Esse serviço baseado em trocas de valores cooperativos. que nós temos aqui. sem uso de agrotóxico. p. como por exemplo a cozinha comunitária.54 comercial. ainda existe isso. ainda não perdeu essa raiz. em algum momento. pra uma alimentação delas. “A competição. em geral. enfatiza Maturana. por mais que hoje em dia seja muito difícil. da nossa fazenda. que estava a frente do projeto até o momento da entrevista. na espiritualidade. porque servindo as vacas a gente tá servindo a terra sagrada. dentro do templo. não é um projeto que gera renda. no coração. pra poder produzir as próprias sementes. que visa manter e criar uma horta que cultive alimentos orgânicos. Outra atividade que está bem conectada com a relação do meio ambiente em Goura Vrindávana é a horta. porque implica a negação do outro. todo o esterco da vaca vai pro minhocário. a recusa da partilha e do amor” (BOFF. como também. é anti-social.

como esse estudo que vai tratar de uma ecologia mental. O que foi analisado por mim. Por isto. nos meses de Junho de 2011. de acordo com nível de energia. Analisar esses aspectos da comunidade. se manifesta na práxis. assim chamada por Guattari(1991). para que a horta cresça proporcionalmente e gradualmente. entre outros grãos. a cada um dos entrevistados. dependendo ainda de alimentos externos. feijão. a fala deste morador faz menção a criação de um projeto base. através dessas visitas pausadas. fevereiro de 2012 e em Março de 2012. sendo no último mês citado a realização das entrevistas. .55 Figura 3. a horta não produzia insumos suficientes para sobreviver somente dela.3 – Horta no verão de 2012 Pelo analisado durante o período de visitação. como arroz. foi o movimento de enxergar resultados efetivos a longo prazo e que o tempo de trabalho é movido por uma transformação lenta e segura. na qual se pode aplicar para o crescimento da mesma. e alguns vegetais que não são produzidos. como a filosofia vaishnava é aplicada na comunidade. que será analisado por fim deste capítulo. permite-nos ver culturalmente como os indivíduos se comportam ao se relacionar com a natureza. trigo.

da seguinte maneira: “Novas “bolsas” de valores. o jovem ele tá mais interessado na realidade virtual do que na realidade natural.” (p. […] Ela resultará de um deslocamento generalizado dos atuais sistemas de valor e da aparição de novos polos de valorização. Aproveitarei este gancho e apresento aqui uma afirmação de Guattari(1991). buscam uma fuga para a natureza. a realidade natural é assim tudo paradinho. todas essas coisas. que relata o assunto de um novo surgimento de valores singulares. Então assim é buscar o nosso verdadeiro interesse. Então. tem mosquito. mas a longo prazo são portadoras de enriquecimento processual para o conjunto da humanidade. a pessoa vai no mercado compra frutas. alienando-se a hegemonia capitalística. são convocados a emergir – se apoiando. video game. que cada vez mais. tem lama e é mais interessante a movimentação. que vem pra cá com uma experiencia somente urbana. e tudo relacionado a ele. em meios de concertamento telemáticos e informáticos. É o conjunto da pesquisa fundamental e da arte que está aqui em causa. que mesmo ainda enraizadas nos centros urbanos. respeitando a interdependência. os mais singulares. afim de atender a demanda de um grupo de pessoas. A noção de interesses coletivo deveria ser ampliada a empreendimentos que a curto prazo não trazem “proveito” a ninguém. foi se moldando um projeto . verduras e cereais. Sobre o movimento de se associar novamente com a natureza e rever esses novos valores. […] Cabe aos novos componentes ecológicos polarizá-los e afirmar seus respectivos pesos nas relações de forças políticas e sociais. isso sim é vida natural” Dentro desse retorno do olhar pra uma vida natural. 52) Foi necessário citar isto. nós temos a experiencia aqui de principalmente jovens. adquirindo um novo comportamento. o líder da comunidade disserta da seguinte maneira: “Hoje em dia o meio urbano a vida é artificial. Por exemplo. onde tudo corre a prazos velozes em busca de resultados espontâneos. é mais excitante a movimentação da tela virtual. mas com o tempo ele vai descobrindo o que é realmente vida natural e assim podemos conviver com a natureza. novas deliberações coletivas dando chance aos empreendimentos os mais individuais. para que não seja perdido em nenhum momento a ideia de que estas atividades relatadas aqui estão vivenciado justamente o movimento que Guattari(1991) descreveu. internet. Hoje em dia o jovens de uns tempos pra cá. mas não tem nenhuma ideia de como aquilo foi produzido. os mais dissensuais. com o aparecimento do computador. menosprezados pela vida moderna. particularmente. de quem pretende estar em harmonia com a natureza. mesmo em contraponto dos valores da sociedade. então muitas pessoas perderam essa capacidade de se relacionar com a natureza e a gente vê. Então a pessoa não pode apreciar o milagre da natureza. as pessoas estão mais dissociadas com a natureza.56 que é justamente a bandeira do movimento.

que vem crescendo no mundo todo é possível ver a forte tendência do olhar sobre a natureza. a gente tá iniciando um projeto de Spa holístico. junto com instituto Madhava. interesses e as relações da pousada com a comunidade e com o público externo. retiros de meditação. A pousada é dirigida por um casal de devotos vaishnava. A pousada também é alimentada com os produtos da horta e do leite que é produzido pelas vacas. em suma de classe média e alta. então assim. me concedeu entrevistas sobre as atividades. além disso. obtive a seguinte resposta: “O local já tem uma vocação ecoturística muito forte. onde se busca equilíbrio entre o meio. que é necessário para se fazer investimentos nestas áreas. na qual A. proporcionando um contato mais confortável para quem ainda pretende somente apreciar uma vida natural e equilibrada. mas analisando essa atividade. então foi só uma consequência estabelecer um programa de hospedagem aqui em goura e estrutura mais aperfeiçoada de hospedagem e turismo. onde a pousada retorna com o dinheiro. então é natural que a gente estabelecesse algo nesse sentido aqui. A ecovila goura tem vários sub-projetos dentro e a pousada Dharma-shalla é o plano diretor da parte de hospedagem. retiros de yoga. ou ainda sim levada a um modismo moderno de sustentabilidade. que a parte de medicina ayurvédica e tratamentos terapêuticos. voltada para este público visitante e apreciador deste estilo de vida. A pousada Dharma-Shala apresenta propostas de interação com o meio natural para quem visita a comunidade. A pousada Dharma-shalla está dentro do contexto da ecovila Goura Vrindávana. retiros de filosofia oriental. as atividades que são saudáveis para o corpo e para a mente. muito calmo. buscados principalmente por aqueles que ainda estão submersos no mundo das grandes cidades. a ideia é que trabalhamos com grupos de turismo e com grupos de turismo espiritual. A pousada foi idealizada para receber esse publico. afim de manter o contínuo . onde as pessoas querem restabelecer essa relação.57 ecoturístico em Goura Vrindávana.” Não vou entrar em especificações sobre o ecoturismo. A proposta da pousada é fazer com que o visitante externo imerja em um estado de espírito que condiz com o local. o local é muito pacífico. propício a receber grupos que estão nessa vibração e meditação. mesmo que não profundamente. produto final das atividades de hospedagem de turistas. que eles recebem. quanto a parte de terapias. tá sendo também estabelecido aqui agora. Já tinha essa vocação pro ecoturismo e um demanda natural pro ecoturismo. mas gradualmente esses contatos vão se concretizando e trazendo uma nova apreciação desse estilo de vida. Em pergunta sobre a atividade e o objetivo de se estabelecer um projeto de ecoturismo no local. então a gente faz tanto a parte de hospedagem.

“Novas práticas sociais. mas oferecer um novo enfoque para o futuro comum. Essa rotatividade vem do princípio de sustentabilidade. com o estrangeiro.58 fornecimento dos produtos e a rotatividade de investimento de energia dos projetos internos da fazenda. do meio ambiente no ponto em que pode ser reinventado. com invólucro romântico de pureza cultural. por fazerem parte de um ciclo.” (p. Neste caso.” (Guattari. Vê-se claramente que este caminho é o mais difícil de seguir. Não se trata simplesmente de não consumir. pelo fato da comunidade estar aberta a trocas com outros grupos sociais. sendo as atividades cíclicas. as sobras e faltas de um dos projetos são supridos por outros. Apesar da análise das três ecologias estar sendo feitas em subtítulos separados. com o meio em que ele vive. Boff(1999) discursa sobre isto. não há excedentes e não há faltas. colocando-os a margem e destorcendo o ideal de lugar comum. que pode denigrir a ideia de realidade e troca social deste grupo. 1991. eles jamais poderão ser analisadas separadamente. p. no entanto. do socius em estado mutante. e no caso da comunidade. 55) . como o estranho: todo um programa que parecerá bem distante das urgências do momento! E. que estará em jogo a saída das crises maiores da nossa época. Não significa voltar no passado. onde somente é produzido o que é suficiente para os que consomem.137) A partir destas análises. construídas pela abertura social e capacidade de enxergar a heterogeneidade. podemos ver como é estabelecida a relação dos moradores com o meio ambiente e como a filosofia se apresenta materializada no campo das relações do indivíduo. onde trocas culturais enriquecem e fazem florescer novas formas de singularidade. novas práticas estéticas. mas de consumir responsavelmente. de acordo com um sistema de interdependência entre todos os projetos e o meio ambiente. da seguinte forma: “Na prática a sociedade deve demonstrar-se capaz de assumir novos hábitos e de projetar um tipo de desenvolvimento que cultive o cuidado com os equilíbrios ecológicos e funcione dentro dos limites impostos pela natureza. abre-se uma porta para um ambiente que é comum a todos. é exatamente na articulação: da subjetividade em estado nascente. por conter armadilhas da extrema singularidade. novas práticas de si na relação com o outro. A comunidade continua em ascensão gradual e orgânica. próprio de quem espera respostas da natureza.

59 3. ainda em formulações pela comunidade.Goura Vrindávana – Ecologia social Esta é área mais sensível da comunidade.na própria expectativas da comunidade. que precisam ser realizadas. pressupondo que a natureza vai lhes dar o fruto. dias atrás. Então tem que tá sempre mantendo aquilo que já se conquistou e gradualmente a gente vai ampliando a nossa atuação aqui.45). aqui a natureza é muito exuberante e o mato toma conta assim rapidamente dos diferentes ambientes. Este é o principal problema. Nós estamos aqui numa zona limítrofe. sem esforços. todas as conquistas são conquistadas devagar. Temos que estar sempre atentos. Um desenvolvimento orgânico. que tratou justamente dessa problemática: da falta de pessoas que possam encarar esse estilo de vida. sem causar nenhum impacto ambiental. apagam a luz. Vieram aqui um grupo do IBAMA e eles disseram que o final do vale nosso aqui é o mais bem preservado de toda essa área. e obstruem os caminhos. então não se pode esperar um desenvolvimento muito rápido e também nem queremos esse tipo de desenvolvimento. A comunidade apresenta um grande potencial de crescimento social. com o meio ambiente” .que pudessem contribuir para a grande demanda de atividades.4 . O tempo em que estive fazendo a pesquisa na comunidade foi muito enfatizado e visto também que para se ter uma vida alternativa é necessário trabalhar muito. teve uma ventania muito forte. Tem que saber bem como lidar com as atividade produtivas. um lugar muito sensível em termos ambientais. para que as coisas fluam naturalmente. afim de manter um ambiente social harmônico e funcional e que os novos futuros moradores também possam se encaixar. e nos fios. em um progresso constante. apresento aqui a fala do líder da comunidade. pois até o presente momento da pesquisa. que dependemos de recursos econômicos pra desenvolver. Para esclarecer o fato. 1991. caem. aqui do município de Paraty. Tudo assim que precisa tá com disposição pra harmonizar a natureza. a comunidade apresentavam poucos moradores efetivos . hoje em dia cada vez mais raro e o desafio é assim. sem os confortos e facilidades urgentes fornecidas pelo meio ambiente urbano: “Para dominar a natureza tem que se ter disposição. mas tem que ser mantidas. E o desafio é encontrar pessoas que tenham vocação para a vida natural. em atender os projetos existentes . mas para isso os poucos que estão presentes trabalham em dobro. sem desvirtuar um padrão social sustentável. agora mesmo. “O princípio particular à ecologia social diz respeito à promoção de um investimento afetivo e pragmático em grupo humanos de diversos tamanhos” (Guattari. pois é justamente o desafio que esses ambientes apresentam para a maioria que chegam ali. p. tem árvores que tombam. do parque nacional.

que fundamentam a pessoa. em relação ao tamanho da fazenda. abandonando a perspectiva antropocêntrica e enfatizando um ideal de ecologia mais profunda. apesar de conter um contingente defasado de recursos humanos. de Roberto da Matta. Aqui estamos falando de organismos. observando a “natureza constituída de seres vivos. p. Assim. promovendo “preferidos” pelo sistema. que se não estiverem bem encaixados. quem tem mais conhecimento sobre o território pode direcionar os que ainda estão começando a se desenvolver. como uma lei de “quantos tens. As regras estabelecidas neste território singular não estarão acima das leis macros do Estado. em relação as atividades dos indivíduos. e as secundárias são as produções excedentes da horta e leite. é quantos vale”.60 O desenvolvimento econômico da fazenda está circulando dentro das principais atividades: as que atraem em grande escala são o ecoturismo e a vivência espiritual. que possui suas leis orgânicas claras no papel. Não se pode impor uma lógica social para todos os ambientes. Todas essas atividades estão crescendo de acordo com as repostas que a natureza e que a comunidade externa dá. guiada pela desigualdade. dono de “algo” . mas com exceções suficientes para causar distúrbios sociais. com regras de funcionamentos bem claras e harmônicas. cada um apresentará uma particularidade. o cuidado com a terra e com as pessoas. Malandros e Heróis”. O quanto a comunidade estará identificada com esse padrão é que vai direcionar os moldes: “iremos repetir as relações humanas autoritaristas ou pretendemos formar estruturas democráticas?”. a comunidade Goura Vrindávana. poderão dificultar o funcionamento de todo o corpo social. onde poderiam ser formuladas melhores maneiras organizacionais. mas é possível criar regras que alinharão a um comportamento ecológico sustentável. 1992. com existência independente de seu valor de uso” (Diegues. onde ele analisa a sociedade brasileira. Guattari e Rolnik(1992) tecem um comentário sobre o livro “Carnavais. que perpassa pelas relações humanas e dominação sobre a natureza. descentralizada e participativa.27). Esta foi a linha de organograma apresentado até o presente momento das entrevistas. assegura uma administração centralizada na experiência. temos o meio urbano brasileiro. obstante a uma sociedade vivida em um ambiente natural.

como revela o dito: "quem tem sapato se conhece".59) Cabe fazer esta análise dos padrões brasileiros de relações sociais. a nível macro a comunidade está situada. agindo de modo a cuidar do sócio. já que a grande rotatividade de indivíduos parece desestruturar uma possível base. do terreno da impessoalidade das relações capitalistas para o sistema hierárquico e autoritário das relações pessoais. esperando resultados a médio e longo prazo. como superior ao indivíduo. A análise segue abaixo: “A frase "você sabe com quem esta falando?" permite precisamente a passagem do indivíduo a pessoa. etc. as relações ainda estão sendo construídas. então. aqueles que estão entrando. Todos tem a oportunidade de se desenvolver e conquistar os espaços. Para o líder da comunidade. o que torna alguém pessoa. com seus figurões. então esses tem muita experiencia do projeto. de acordo com a natureza de cada um. do prestigio. mais tempo no projeto podem orientar. então todos aqueles que tem mais experiencias. não se pergunta "você sabe com quem esta falando? ". observei que há uma nova “geração” de moradores. estão fazendo experiencia tem que levar isso em consideração. Nós temos visto aqui que o jovem principalmente vai descobrir aquilo que ele vai atuar melhor dentro desse contexto” Dentre os mandamentos da permacultura. seus pistolões. E entre quem se conhece. Isto e. as práticas de uma sociedade sustentável está ligada diretamente com o caminho que o líder apresentou. e sobretudo. seus padrinhos. mas também. pois tem muitas atividades a serem desenvolvidas aqui. Não posso tecer aqui comentários que afirmam que a comunidade está em plena harmonia. cia consideração. que tem planos ou já estão se fixando na comunidade. como uma dualidade brasileira real da “casa grande e senzala” ou “apartamentos luxuosos e favela”. isto está requirindo um maior embasamento de regras claras. na . que é um projeto muito complexo. do respeito. resultados esses que dependem justamente das pessoas que estão ali presente. A ideia da comunidade é agir organicamente. seus medaIhões. que condiz com a realidade atual e papéis de líderes mais delineados. como um novo estatuto. Nesse sentido. pais todo mundo já conhece a seu lugar” (p. Neste ínterim. para o território do favor. pois é onde. as relações pessoais.61 e poderoso hierarquicamente. que seria um “Zé Ninguém”. começando. e observar as devidas passagens e repetições de padrões nas relações hierárquicas desiguais. pois observando no aspecto micro. a lógica social funciona da seguinte maneira: “Aqui tem pessoa que já estão há vários anos ou décadas. São pessoas aqueles que contam. o que lhe da identidade social não é apenas o critério econômica. dirigido por aqueles que são mais pró-ativos e experientes.

do livro Fundamentos da Permacultura. mas essa durabilidade paradoxalmente depende em grande parte de certo grau de flexibilidade e mudança. mas geralmente há necessidade de que líderes mais influentes e mais respeitados assumam a inovação para que ela seja vista como apropriada e desejável. Muitas estórias e tradições trazem o tema. mas se não analisar seus pormenores. no nível celular e atômico. é preciso uma geração inteira para que ideias radicais sejam adotadas. (. Vivemos e agimos num contexto histórico de rotatividade e mudanças em sistemas de múltiplas e grandes escalas. as mudanças rápidas. averiguando como as três ecologias estão ciclicamente interligadas . Um sentido sistêmico e contextual do equilíbrio dinâmico entre estabilidade e mudança contribui para o design que é evolucionário mais do que acidental. sem qualquer possibilidade de estabilidade ou sustentabilidade. para uma estabilidade de ordem mais elevada do próprio sistema. permanência e sustentabilidade se resolve pelo reconhecimento de que a natureza das mudanças depende da escala. de pequena escala e duração dos seus elementos contribuem. esta análise em camadas de relações não podem ser analisadas de modo a estratificar. Pessoas visionárias e com ideias fixas muitas vezes são pioneiros em propor soluções. Os passos estão apontando para um ideal permacultural e o caminho ainda é longo. que diz que dentro da maior estabilidade estão as sementes da mudança. analogamente às descrições decertas tradições espirituais. O provérbio "A verdadeira visão não é enxergar as coisas como elas são hoje.sobre todos os desafios que Goura Vrindávana tem passado e passará ao longo do projeto. mas como serão no futuro" enfatiza que entender mudança é muito mais que a projeção de gráficos estatísticos mostrando tendências. Às vezes. 25-26) Como afirmei no item anterior. Segue um trecho que complementa esta minha afirmação ao longo deste tópico . embora isso possa ser acelerado por meio da influência da educação escolar no ambiente doméstico. A borboleta. uma furiosa massa de energia e mudanças.. desafios esses inerentes a quem pretende seguir um caminho alternativo . Embora seja importante integrar esse entendimento de fluidez e mudanças contínuas na nossa consciência do dia-a-dia. A ciência nos mostrou que o que é aparentemente sólido e permanente pode ser. por Holmgren(2007): “A adoção de inovação satisfatória em comunidades frequentemente seguem um padrão similar ao da sucessão ecológica na natureza. mesmo que poucos. mas se faz valer pela aplicabilidade constante dos residentes. na realidade. a aparente ilusão de estabilidade. Quando se considera qualquer sistema em particular. Também estabelece uma ligação cíclica entre este último princípio de design e o primeiro sobre observação” (p. é o símbolo da ideia de mudança adaptativa que é mais estimuladora do que ameaçadora. isso gera uma nova ilusão de mudanças sem fim.. que é a transformação de uma lagarta.62 qual a comunidade pretende andar.) A permacultura diz respeito à durabilidade de sistemas vivos naturais e da cultura humana.

Assim. como prédios. poderíamos analisar qualquer ecovila que obteríamos resultados estrategicamente similares. já entender essas interligações se torna bem antagônico no meio urbano. onde suas naturezas estão conectadas. nos princípios das relações sustentáveis das três ecologias retratadas. pois se fosse para falar somente das ecologias ambientais e sociais. se instaura ao mesmo tempo no mundo do meio ambiente.63 e as constantes das relações dependem uma das outras. vem pressentida de uma avaliação mental. a partir dos meios os mais minúsculos. toda uma catálise da retomada de confiança da humanidade em si mesma está para ser forjada passo a passo e. sobre cultura e ecologia em Goura Vrindávana. dentro da filosofia vaishnava.” (Guattari. a princípio. queira dominar a natureza. no seio das paisagens e dos fantasmas que habitam as mais íntimas esferas do indivíduo. para se conseguir um ambiente ecologicamente equilibrado. 56) Este é o item que faz toda diferença para o entendimento dessa pesquisa específica. onde a natureza. mas aqui será visto a pré-ação dos indivíduos. mas tão infeliz é a resposta que tomamos sobre essa tentativa e mesmo assim não enxergamos as respostas reacionárias de um conjunto de seres vivos.5 . dos grandes Agenciamentos sociais e institucionais e. são ilhas no meio de tanto mar de natureza artificial. às vezes. como ela realmente é. automóveis. aparentemente sem vida. p. A reconquista de um grau de autonomia criativa num campo particular invoca outras reconquistas em outros campos. por sua clara tolerância diante do destrato espontâneo.Goura Vrindávana – Ecologia mental “A subjetividade. esta constatação fica evidente de modo positivo em um ambiente onde esses três estejam claros em seus papéis. através de chaves transversais. como robôs e tão modeláveis e sem vidas como cimento. alimentos prontos e fáceis e aparelhos eletrônicos. 3. esta filosofia compreendida pelo indivíduo tornará os rumos da suas atividades e . as construções das ideias e qual a trilha que está sendo seguida. Como toda ação. Por isto. asfalto. De certo. simetricamente. no entanto tão fatal a sua falta como uma criança que mata o pai que está cuidando dele. 1991. como em Goura Vrindávana. que ele criou. não é de se esperar que o homem e a supremacia no meio ambiente.

” Goura Vrindávana se torna um campo onde é mais fácil perceber como essa filosofia está sendo colocada em prática pelos seus integrantes-moradores. relacionados a ecosofia. estes aplicarão seus aprendizados de maneiras diferentes. Durante as visitas a Goura Vrindávana. a maioria dos praticantes da filosofia vaishnava não vivem em um ambiente natural. praticar um processo espiritual. que trouxe o movimento Hare Krshna para o ocidente. Por exemplo. mas com certos critérios e assim ter a cabeça pronta para estudar a filosofia. que dizia assim: "Vida simples e pensamento elevado". pois ela se tornou um comportamento tão natural. nas suas instruções. onde a fazenda está localizada. O ponto que foi tocado pelo líder da comunidade sobre utilizar recursos tecnológicos. Quando o . que gira em torno de si não é conduzida nas suas práticas. essas duas coisas tem que estar sempre caminhando juntas. utilizar assim os recursos de tecnologias. pode ser pensado sobre a forma com que é levada a filosofia e como é a utilização de objetos comuns a sociedade. a violência urbana e muitos outros problemas que são irreversíveis. a questão dos quatro princípios morais. Srila Prabhupada. não excluindo interações com visitantes e outras pessoas que trabalham para fazenda ou moradores do bairro Graúna. Então manter esse padrão de vida simples. coerente com o seu estudo e possíveis aplicabilidades na sua realidade. “Uma coisa que Srila Prabhupada deu muita enfase. Então. chamada aqui. que se tornou bem emblemático de Srila Prabhupada. ecologia mental para que caminhasse a uma prática singular de sustentabilidade. ele queria muito esse modelo de comunidades rurais. na qual o campo para sua atuação é claramente delimitada. O líder da comunidade revela uma das instruções que recebeu de seu mestre espiritual.64 relações. Outra coisa que ele deu muita enfase foi um lema. com relação a vida sustentável. mas certamente poderão ter uma propensão e facilidade para outros pontos da filosofia. e que o estigma romântico de uma cultura fechada. Faz-se visível nesta fala como a filosofia alinhou a. Então ele via isso como alternativa. não tão focados com a natureza em si. foram observadas como uma das coisas mais naturais de serem praticadas. meditar em Deus. não complicar a vida. que esse assunto nem sequer é tocado. como goura Vrindávana. A gente vê as grandes cidades como está o transito. ele dizia que as cidades são meio insustentável. ele deu muita ênfase pra que se organizasse esse tipo de projeto. na qual dei ênfase no primeiro item deste capítulo. e apesar da filosofia se apresentar como “eminentemente ecológica”.

esses comportamentos. 39). de da em os E é justamente isso que acontece quando falamos desses princípios. mas se organiza em sistemas ou “espírito” (minds) cuja fronteiras não mais coincidem com indivíduos que deles participam” (p. Dentro da fazenda. pelo seu alto grau de compreensão filosófica. modo de falar. isso deve ser destacado – a prática – ele vai crescendo e se tornando respeitável. que significa “aquele que segue a ordem de vida renunciada”. Assim como os princípios se tornaram parte de um devoto. ou também Sannyasa. E é assim como o líder espiritual da comunidade é reconhecido a nível internacional. na qual é chamado de Acarya. Avançando em outros pontos. aquilo deixam de ser regras e passam a fazer parte essencial do mesmo. palavra em sânscrito que significa “mestre espiritual que ensina através do exemplo”. por ele se tornar um apto praticante. mas principalmente pelo exemplo que ele apresenta ao colocar a filosofia em prática. que pode está até no início da sua vida na filosofia. Guattari(1991) afirma: “Gregory Bateson deixou bem claro que o que ele chama “ecologia das idéias” não pode ser circunscrito ao domínio psicologia dos indivíduos. passando os conhecimentos e demonstrando como deve se comportar alguém que se diz um Vaishnava. como analisar que a filosofia está agindo no indivíduo? Dentro do Vaishnavismo. dentro do meio e também por quem tem conhecimento sobre a filosofia. em dois aspectos: “1) sua capacidade de circunscrever as cadeias discursivas em ruptura de sentido. tudo fica muito natural a quem é considerado um Acarya. o indivíduo se torna parte da filosofia conjuntamente que a filosofia se torna parte dele.65 princípio se torna parte integrante e praticamente um cotidiano comportamental de um indivíduo. que já fazem parte do comportamento. Guattari(1991) fala sobre como deve ser vista a ecologia mental. Neste contexto. Essa compreensão não reside somente no conhecimento da literatura. que foi construído durante a práxis. existe uma pessoa. Ele é que orienta a todos os outros que estão iniciando o processo de auto-realização. isso demonstra que esse comportamento ultrapassa as barreiras da fazenda e se apresenta como um traço da personalidade. 2) sua possibilidade de operar conceitos autorizando uma . Desta forma ele é considerado um autêntico Vaishnava por todos os praticantes. como ele se relaciona com outros e com a matéria. existem aparentes diferentes graus de compreensão que um praticante pode ter.

em qualquer outra comunidade. como a nível ambiental. este comportamento não fica cercado pelas linhas limítrofes da fazenda. dentro da linha Vaishnava. A ecologia mental vai tratar do cuidado com a casa/eco a um nível individual e o resultado desse cuidado transpassará ao nível comportamental. como afirma Guattari(1991): “A pura auto-referência criativa é insustentável pela apreensão da existência ordinária. reapreciar a finalidade do trabalho e das atividades humanas em função de critérios diferentes daqueles do rendimento e do lucro: tais imperativos da ecologia mental nos convocam uma mobilização apropriada do conjunto dos indivíduos e dos segmentos sociais.. alterando seu convívio tanto no nível social. desfigurá-la. mas para isso seria necessário um estudo de caso mais específico. pois quanto mais analisarmos uma sociedade. por uma questão de identificação com os ensinamentos. pois na filosofia existe um método de seguir a sucessão discipular. . Sua representação pode apenas mascarar a existência ordinária. 42) Isto nos permite ver a ecologia mental. onde quer que ela se perfile – da cultura. na vida cotidiana.” (p. mas sem se esquecer do universo na qual ele está inserido. “Seja na vida individual ou na vida coletiva. deixando de lado conceitos românticos de estudiosos da cultura. que seria os discípulos.66 construtibilidade teórica e prática” (p. principalmente seguir a filosofia que foi ensinada. 40).41). chegaremos ao estudo comportamental de um indivíduo. independente. no esporte etc . e apontar para qual caminho comportamental os indivíduos que vivem ali tem como meta. pois de acordo com que foi visto aqui. passa a aceitar as ordens dele. seja nacional ou internacional. Fazer face à lógica da ambivalência desejante. fazê-la transitar por mitos e relatos de referência – aquilo que chamo de uma meta-modelização.” (p. que seria. Realizar esse tipo de análise pode tornar nosso estudo sobre a cultura mais preciso. pois ele não segue uma cultura individual. travesti-la. mas ela faz-se como modelo em qualquer via de relacionamento. Por isso optei em fazer a seguinte análise: pegar o ponto de comportamento referencial desta comunidade. que após aceito tal pessoa como seu mestre espiritual. Neste caso. suas referências culturais são clara e evidentes: fazem parte desta filosofia aqui estudada. que é o Mestre Espiritual. no trabalho. podemos analisar o comportamento de cada indivíduo na comunidade. o impacto de uma ecologia mental não pressupõe uma importação de conceitos e de práticas a partir de um domínio “psi” especializado.

67 .

Goura Vrindávana foi aberto com esse propósito. em larga escala. A permacultura tem grau de importância no surgimento de novas alternativas. não só criticando as bases de relações sociais e com o meio ambiente. e o que se constatou que quanto a reformulação de um novo comportamento. tecnologia e afins –. pois é onde a filosofia irá . tendo sido considerada uma ecovila. aproveitado e potencializado. atraindo pessoas que já não mais concordam com as práticas vividas pelo sistema capitalista. utilizando conceitos da permacultura.68 Considerações Finais O conceito de sustentabilidade aqui afirmado vem com a pretensão de apresentar a rasa relação que o capitalismo se propõe a tratar. onde o conceito de permacultura pode ser aplicado. afirmo novamente. focada em sustentabilidade. foi visto como a filosofia vaishnava guia um comportamento sustentável. seu significado está intrinsecamente ligado a questão cíclica da cultura. Assim a cultura de massa nos domina. energia direcionada a atividades desempenhadas para qualquer função útil e quaisquer outras coisas que envolvam cultura humana. embalados em plásticos coloridos e insossos. também deixou marcas insustentáveis. Hoje. mas essenciais para a sobrevivência dos moradores. Não só o capitalismo. suas bases sustentáveis foram esvaídas e hoje permanece apenas pequenos polos de atividades. de se ter uma vida natural. proporcionando-nos desejos produzidos em série. por corresponder as expectativas de uma ambiente auto-sustentável. Durante a pesquisa. mas dando-lhe novos funções. ainda utilizando o corpo do capitalismo – digo pesquisas científicas. As ecovilas surgem nessa necessidade de ter um local ou um nome de um ambiente natural. o que vivenciamos do pouco do socialismo. não deixando seus praticantes a margem da sociedade. a mentalidade é o principal atributo para iniciar mudanças efetivas. relações pessoais. mas na plataforma inconsciente do consumo da cultura na vida moderna. economicamente e ambientalmente. com a saída de muitos membros. Produto de um conceito que visa a “permanência da cultura”. nos causou tamanha frivolidade. seja ela relacionada a agricultura. repetitivos. durante a guerra fria.

indivíduo x mente. indivíduo x sociedade. Não há como analisar o meio ambiente. Estas análises só foram possíveis após compreender a relação entre as três ecologias – indivíduo x meio ambiente. sem antes pensar como os indivíduos se comportam culturalmente e como a sua mente está direcionando-o para formação de conjuntos e como todo este meio o influência na sua identidade e personalidade.69 permear primeiramente no indivíduo. . na qual é uma tarefa ousada se julgar a parte de todas as influências.

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