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Henri Poincaré: ÚLTIMOS PENSAMENTOS

CAPITULO UM A EVOLUÇÃO DAS LEIS Nos seus trabalhos relativos à contingencia das leis da natureza, o Sr.Boutroux perguntou se as leis naturais não são suscetíveis de mudar, se enquanto continuamente envolve, as próprias leis, isto é, as regras segundo as quais é feita essa evolução, serão as únicas isentas de uma variação qualquer. Semelhante concepção não tem probabilidade alguma de ser adotadapelos sábios; no sentido em que entenderiam eles não poderiam aderir a isso sem negar a legitimidade e a própria possibilidade da ciência. Mas o filósofo conserva o direito de formular a si mesmo a interrogação, de considerar as diversas soluções que ele comporta, de examinar as suas conseqüências e procurar conciliá-las com as legitimas exigências dos sábios. Eu desejaria apreciar alguns dos aspectos que o problema pode revestir. Serei assim levado não a conclusões propriamente ditas, mas a diversas reflexões que não serão, talvez, destituídas de interesse. Se, no correr da discussão, eu me referir um pouco longamente a certas questões conexas, espero ser desculpado. 1 Coloquemo-nos, primeiramente, no ponto de vista do matemático. Admitimos por um instante que as leis físicas tenham sofrido variações no decurso das idades, e perguntamos a nós mesmos se teríamos um meio de percebermos essa mudança. Não nos esqueçamos, antes de tudo, de que os poucos séculos durante os quais a humanidade tem vivido e pensado, foram precedidos de períodos incomparavelmente mais longos, nos quais o homem ainda não vivia; eles serão, sem duvida, seguidos de outros períodos, em que a nossa espécie terá desaparecido. Se se quer acreditar numa evolução das leis, ela somente poderá ser muito lenta, de modo que, durante os poucos anos que se pensou, as leis da natureza puderam sofrer apenas insignificantes modificações. Se elas envolveram no passado, cumpre compreender que se trata do passado geológico. Eram as leis de outrora as de hoje? Serão elas as mesmas de amanhã? Quando se formula semelhante interrogação, que sentido cumpre atribuir às palavras outrora, hoje e amanhã? Hoje – são os tempos cuja lembrança a historia conservou; outrora – são os milhões de anos que precederam a historia em que os ichthyosauros viviam tranquilamente, sem filosofar; amanhã – são os milhões de anos que virão em seguida, e em que a Terra terá esfriado e o homem já não terá olhos para ver nem cérebro para pensar. Estabelecido isso, pergunta-se, o que é uma lei. É um elo constante entre o antecedente e o conseqüente, entre o estado atual do mundo e o seu estado imediatamente posterior. Conhecendo o estado atual de cada parte do universo, o sábio ideal que conhece todas as leis

os seus valores no instante t=0 (aquele que. conhecido o de terça. a solução se acha inteiramente determinada. isto é. só podemos precisamente aplicar supondo que as leis não mudaram. a historia dos tempos em que as leis teriam podido outrora variar? Esse passado não pôde ser diretamente observado e só o conhecemos pelos vestígios que deixou no presente. jamais poderá achar que a lei de Newton será falsa dentro de alguns milhares de anos.da natureza. e assim por diante. só o conhecemos pelo presente. Diremos então que o conjunto das leis equivale a um sistema de equações diferenciais . O processo é essencialmente reversível. como se sabe. de modo que podemos calcular os valores de todos os elementos numa época qualquer. O que importa lembrar é a maneira de concluir do presente para o passado. mudando simplesmente o sinal do tempo nas suas formulas. convém dar a essa concepção toda a precisão que ela comporta. calcular o . uma infinidade de soluções. o qual nos permitiria igualmente deduzir o futuro. chamamos o presente). então. e as regras que ligam o estado de domingo ao da segunda-feira. Um Leverrier. deduzir-se-á o de terça-feira. é a impossibilidade de saber o que passou no sábado. Semelhante sistema comporta. o de quarta. Ma não é tudo. mas se fizermos intervir os valores iniciais de todos os elementos. por exemplo. o que corresponde ao futuro. Concebe-se que esse processo possa ser prosseguido indefinidamente. analogamente. dele de deduzirá. deduzir-se-á identicamente o de domingo. possuiria regras fixas delas para deduzir o estado que essas mesmas partes apresentarão no dia seguinte. isto é. se há um elo constante entre o estado de segunda-feira e o de terça. na linguagem ordinária. ser-nos-á preciso admitir que as mesmas regras mediante as quais remontamos de segunda-feira à domingo. o que corresponde ao passado. conhecer o estado do domingo. Do estado do mundo na segunda-feira. mas se quisermos ir mais longe a daí deduzir o estado de sábado. a qual não difere do modo de concluir do presente para o futuro. como se pode descer. conhecendo-se o estado de terça-feira. é esse o processo capaz de revelar-nos alguma mudança nas leis? Evidentemente não. Sem isso. Pode-se remontar o curso do tempo. e somente podemos deduzi-lo pelo processo que acabamos de descrever. Com o presente e as leis. adivinhar o passado. Ora. poder-se-á conhecer o de segunda-feira. Teria podido. mesmo que para isso se devesse empregar a linguagem matemática. a imutabilidade das leis figurar nas premissas de todos os nossos raciocínios.eram ainda valáveis entre domingo e sábado. quer suponhamos t>0. conhecendo as órbitas atuais dos planetas. a aplicação dessas regras nos fará. conhecemos unicamente o estado de segunda-feira. o que se terão tornado essas órbitas daqui dez mil anos. do estado de segunda-feira. a única conclusão que nos seria permitida. De que meios então dispomos para conhecer o passado geológico. mas é possível praticar o inverso. mas é possível. pelos mesmos processos. calcula. Se. e assim por diante. quer suponhamos t<0. poder-se á deduzir o segundo do o segundo do primeiro. não será possível que não a achemos nas nossas conclusões. Já que nos colocamos aqui no ponto de vista do matemático. que ligam as velocidades de variações dos diversos elementos do universo aos valores atuais desses elementos. pode-se adivinhar o futuro. De qualquer modo que dirija os seus cálculos. utilizando-se da lei de Newton. então. isto é.

o estado D. foi porque se observaram os dois estados A e B. por exemplo. seria outro. a questão é insolúvel. por exemplo. é que todos esses estados são fisicamente possíveis. Se uma das nossas formulas disso não estivesse isenta. Que isso significa? Tinha-se observado que a temperatura passava em um dia de . mais ou menos. depois do estado C ao estado D. o calculo nos mostrar que nessa data uma das quantidades que nos cumpre considerar.279° a 280°? Não. e parece que há casos nos que poderíamos afirmar que antes de tal data. sem duvida. por exemplo. etc. a questão relativa à evolução das leis não se apresenta. e entre elas sempre se pode escolher uma que exclua os estados fisicamente impossíveis. se deve tornar infinita ou adquirir um valor fisicamente impossível. que as nossas equações diferenciais não admitissem nenhuma solução. porquanto essas duas temperaturas não são observáveis. jamais se teria podido fazer uma experiência para provar que o estado C origina. Suponhamos. por exemplo. fisicamente impossível. em outros termos.que eram orbitas há dez mil anos. mas está previamente certo de não achar a lei de Newton não tem sido sempre verdadeira. ela será. Já que a hipótese da imutabilidade das leis. . não seria mais o nosso mundo. concluir-se-á que dentro de 300 dias. se o admitirmos. a um estado fisicamente impossível. se não o admitirmos. passando de vez de um dia para o seguinte. conduziria a uma conseqüência absurda. Tinha-se visto. 2 Poder-se-á perguntar se não seria que a aplicação do precedente preocesso nos levasse a uma contradição ou. e isso será absurdo. Mas há uma infinidade de maneiras de extrapolar uma formula empírica. muito aproximadamente. depois do estado C. isto é. porquanto o zero absoluto é a – 273°. um mundo que já não tivesse as leis do nosso. se elas nos ensinam que o estado A do domingo acarreta o estado B de segunda-feira. isso quer dizer que nenhum desses dois estados são fisicamente impossível. entre 0° e 20°. do estado A para o B. de – 280°. em tal ou qual circunstancia. Perecer ou alterar as suas leis é. portanto. tinha-se feito uma extrapolação ilegítima. devia-se concluir que se havia ultrapassado a experiência ou que se tinha extrapolado.. a mesma coisa. Por mais longe que sejam levadas as deduções. É possível que o estudo do mundo atual e das suas leis nos conduza a formulas expostas a semelhantes contradições? As leis são obtidas pela experiência. o mundo deve perecer ou mudar suas leis. se essa temperatura for atualmente de 20 graus. e daí se havia abusivamente concluído que ela o devia ser ainda até -273° e mesmo além. assim como todas as que se relacionam com o passado. não o fosse. por exemplo. ao cabo de um dia. teríamos demonstrado per absurdum que elas evolveram. uma contradição. na razão de um grau por dia. se. que se tenha observado abaixamento da temperatura de um corpo. jamais se atingirá. embora jamais possamos saber em que sentido. Sendo reversível o nosso processo. que a lei era verdadeira. Se prosseguirmos o processo e concluirmos. pois se o estado D. oque acabamos de dizer se aplica ao futuro. formulada no início de todos os nossos raciocínios. nada podemos saber do passado senão a condição de admitir que as leis não mudaram. Em resumo.

a experiência não faz mais do que limitar a nossa escolha. e entre todas as leis que elas nos permite escolher. aliás. quer se trate. sempre se acharão algumas que não nos exponham a uma contradição do gênero daqueles a que acabamos de nos referir. de demonstrar que as leis mudarão ou que elas mudaram. que nos poderiam obrigar a concluir contra a imutabilidade. Esse meio de demonstrar semelhante evolução ainda nos escapa.Só imperfeitamente conhecemos a lei. .