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Considerações acerca do livro “Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade” Alisson da Cunha Almeida Nesse brilhante trabalho, Celso Antônio

Bandeira de Mello abordou o tema do conteúdo jurídico do princípio da igualdade com a simplicidade peculiar dos grandes gênios, não obstante o uso, em toda obra, de um vocabulário rigorosamente técnico. O que causa espanto e ao mesmo tempo paixão às suas conjecturas é a precisão quase “matemática” dada a um tema que acreditávamos, erroneamente, ser intuitivo. Além disto, o autor nos remete a conclusões que, por mais contraditório que pareça, de tão obvias, fogem a nossa percepção, como é o caso da afirmação de que a função precípua da lei é, precisamente, dispensar tratamentos desiguais. O preceito da igualdade é cláusula pétrea e, como tal, deve ser respeitado tanto na produção quanto na aplicação da lei. Envolve, destarte, tanto o legislador quanto o aplicador do direito. Entretanto, para se estabelecer um perfeito entendimento do significado da igualdade jurídica não basta o preceito aristotélico, segundo o qual a igualdade consiste em tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais. É mister investigar “que espécie de igualdade veda e que tipo de desigualdade faculta a discriminação de situações e de pessoas, sem quebra e agressão aos objetivos transfundidos no princípio constitucional da isonomia”. Em nada contribui a Constituição Federal ao estabelecer certos parâmetros proibitivos isolados que supostamente feririam o princípio da isonomia, como o sexo, raça e credo religioso. A concepção que colide com a igualdade jurídica é muito mais ampla e complexa pois apresenta-se de modo circunstancial e, por que não, temporal, uma vez que as concepções de cada povo evoluem (ou retrocedem!) de acordo com o momento histórico em que se encontram. Então, para não ferir o preceito igualitário, é mister que haja um vínculo de correlação lógica (justificação racional) entre as discriminações impostas e a desigualdade de tratamento pela mesma conferida, além, é claro, do respeito desta correlação aos interesses previstos na Carta Magna.

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ou seja. o que se considera são os acontecimentos ocorridos dentro de um determinado lapso ou antes ou posteriores a determinado momento. a discriminação imposta na leis não se presume. os valores sociais que legitimam a discriminação não são perenes ou absolutos. seja baseada em diferenças reais e inerentes dos sujeitos envolvidos. como já foi visto. Enfim. Além disso. em verdade. a depender da época da sua edição. nas palavras do autor. que muitas vezes aparece aos olhos dos mais desatentos como fator de discriminação. poderá ferir ou não os preceitos isonômicos. em tese. A norma verdadeiramente condizente com a isonomia jurídica deve propiciar garantia individual. não poderá a lei singularizar “agora e para sempre o destinatário”.A correlação lógica é destarte o cerne da igualdade jurídica. O tempo. ela deve apresentar-se de forma clara ao ponto de ser perceptível numa simples interpretação literal. constante para todos os indivíduos e. Quando isto ocorre. uma vez que. é fator neutro. Ela se constitui em uma elo entre o discrimen e a disparidade estabelecida nos tratamentos juridicamente dispensados. evitando perseguições e favoritismo. em síntese. Destarte. haverá. a inviolabilidade lógica (singulariza a situação atual irreproduzível por força da própria abrangência racional) ou a inviolabilidade material (particulariza atual e absolutamente o destinatário). Aliás. uma vez que na grande maioria das vezes se apresentam como produto da visão de mundo de um povo numa determinada época. Então. por fim. justamente por encontrar-se petrificada na Constituição Federal. obedeça abstratamente correlação lógica entre a peculiaridade e o discrimen imposto e. ditame legal que proclama o discrímem jamais poderá recair em fatores externos ao indivíduo. O mesmo ocorre em relação ao espaço. pode-se afirmar que para uma lei respeitará a isonomia jurídica quando: não atinja de modo atual e absoluto um só indivíduo. Entretanto. a função de cada lei é proteger o bem público. cumpre salientar 2 . que esta correlação não fira os interesses constitucionais. É por isso que uma mesma lei.

3 . porque o texto da Constituição assim a impõe”.que “a presunção genérica e absoluta é da igualdade.