João Costa Neto Professor Substituto da Universidade de Brasília, pela qual é Doutorando e Mestre em Direito, Estado e Constituição.

Recentemente, Virgílio Afonso da Silva publicou artigo 1 em que critica a decisão liminar que suspendeu a tramitação do projeto de lei de n. 14/2013, cuja casa iniciadora é a Câmara dos Deputados e que se encontra atualmente no Senado Federal. O projeto prevê que “(...) a migração partidária que ocorrer durante a legislatura não importará na transferência dos recursos do fundo partidário e do horário de propaganda eleitoral no rádio e na televisão.” A decisão foi proferida monocraticamente pelo Ministro Gilmar Ferreira Mendes no mandado de segurança de n. 32.033. Afonso da Silva, que é Professor Titular de Direito Constitucional na Universidade de São Paulo (USP), afirma que, na decisão proferida, não se conseguiu “(...) apontar absolutamente nenhum problema procedimental, nenhum desrespeito ao processo legislativo por parte do Senado.” Não acredito que esse seja o caso. A regra em uma democracia é que a maioria decida, por meio de lei, todo tipo de problema que surgir. Quais as regras de trânsito? O que deve ser crime no país? Quais as regras jurídicas que devem ser observadas na celebração de um contrato de compra e venda? Todas essas perguntas são respondidas por meio de lei, ou seja, por meio de ato normativo infraconstitucional. Isso significa que a maioria sempre tem uma ampla margem de apreciação e um vasto poder de escolha e disposição sobre essas questões. Constituições são feitas, ao menos em tese, para tratar de questões essenciais, isto é, de questões consideradas tão cruciais que não devem ser alteradas por uma simples maioria. Nem tudo está à disposição das maiorias transitórias. Na verdade, a motivação por trás disso é bastante intuitiva.

1

AFONSO 2013.

DA

SILVA, Virgílio. A emenda e o Supremo. Valor Econômico, São Paulo, p. A18, 03 maio

Áustria. 20. Berlin u. Estados 2 HESSE. sim. 69 3 KELSEN. 4. No que concerne às cláusulas pétreas. Leipzig: Walter de Gruyter. independentemente do tipo de minoria de que se trate. As minorias perderiam a chance de tornar-se maioria 2 e o fair play democrático chegaria ao fim. o caso brasileiro é muito peculiar. nota de rodapé n. Carolene Products Company. Wesen und Entwicklung der Staatsgerichtsbarkeit (VVDStL. Nesse contexto. Presumidamente. Quando a Constituição exige uma maioria mais elevada para a alteração de seu texto. eternal clauses). Müller. por exemplo. 5). se tudo fosse alterável por meio de lei ordinária.Auf. o devido processo legislativo. Um partido majoritário poderia. 304 U. esse fato implica que certas questões fundamentais apenas podem ser resolvidas com a participação da minoria. 4 United States v. o partido poderia alterar várias leis nacionais. . 80ss.S. insulares ou excessivamente apartadas e circunscritas4. essa é uma razão que levou várias Constituições a adotar cláusulas de eternidade ou cláusulas pétreas (Ewigkeitsklauseln.F. München: C. as quais não podem ser abolidas por mais numerosa que seja a maioria. p. de modo a acabar com os direitos e garantias fundamentais e instituir uma ditadura partidária. 1999. uma maioria simples ou qualificada não tem . Konrad. como já foi observado por autores internacionais. 144 (1938). pp.ao menos em algumas matérias . 1929.o direito de impor sua vontade às minorias. extinguir todos os demais partidos ou acabar com liberdade de expressão e com o direito ao voto. por conseguinte. A partir daí.Suponha-se que um partido obtenha a maior parte dos votos em uma eleição e torne-se majoritário. 5 Ele difere completamente de países como Alemanha. porquanto se a minoria for muito pequena ela não conseguirá impedir a aprovação de uma emenda. Grundzüge des Verfassungsrechts der Bundesrepublik Deutschland. exorbitar da competência legislativa do Congresso Nacional e macular. Hans (1929). parece-me que medidas eleitorais casuísticas podem.3 Isso não se aplica a minorias diminutas. Em outras palavras.

60 da Constituição Federal diz que sequer será “objeto de deliberação” o projeto de emenda à Constituição (PEC) tendente a abolir uma das cláusulas pétreas.593/DF. 2013. DJ de 15. Celso de Mello. Aldir Passarinho. pp. MS 24.2003). dentre outros.8. DJ de 18. Min. Rel. 276ss. 321-341 6 cf. FERREIRA FILHO. porque o parágrafo 4º do art. Irlanda. Direito Constitucional Esquematizado. São Paulo: Método. pp. que um projeto de lei pode ser aprovado em caráter . que o processo legislativo da lei ordinária é muito simplificado. Rosa Maria de Andrade. “Unconstitutional Constitutional Amendments.452/DF. 235. BARAK. sobretudo pela vantagem da casa iniciadora. MS 24. o próprio texto constitucional corrobora solidamente a existência de tal controle prévio. André.2003.645/DF. Se é assim no caso de proposta de emenda à Constituição .642/DF. Rel. Rel. Porém. Min. Paulo G.9. 2012. 4ªed. que já é antiga e consolidada a orientação do STF no sentido de que qualquer parlamentar pode impetrar mandado de segurança contra PEC que viole cláusula pétrea (cf. MS 21. NERY JR. 2012. Min. Carlos Velloso. que pode aprová-lo do seu jeito. pp. DJ de 12.6. 65. São Paulo: Saraiva. Vários manuais jurídicos6 consignam expressamente a possibilidade de haver controle prévio de constitucionalidade nessa hipótese. Rel. Como visto. 38ªed. 2013. pp. Rel. Índia. Rel. RDA. pp. Lembre-se. Dentre outros motivos. inclusive. SARLET. 116 (1)/47. vol. São Paulo: Saraiva.Unidos. MITIDIERO. 191/200. RTJ. Curso de Direito Constitucional.9. Aharon.2003. Marcelo. 2013. DJ de 12. entretanto. pp. Nelson. 8ªed.576/DF. Min.. Gilmar. Afonso da Silva diz que “[o]s precedentes do STF e as obras de autores brasileiros e estrangeiros que o ministro cita não têm relação com o que ele de fato decidiu. Luiz Guilherme. Rel. Direito Constitucional.9. 17ªed. DJ de 8. São Paulo: Revista dos Tribunais. Min. FERREIRA MENDES. 2013. 13ªed. igualmente. 328-9. Min. Israel e Turquia. São Paulo: Saraiva. p. Min. MS 24. G.2003.. Manoel Gonçalves.2004. 62 7 Perceba-se. São Paulo: Saraiva. Curso de Direito Constitucional. RAMOS TAVARES. São Paulo: Revista dos Tribunais. MARINONI. por que não seria também com um projeto de lei ordinária? 7 Essa é a única novidade da decisão 5 cf. MS 24. Daniel.” Israel Law Review. 2ªed. 7ªed. 550ss.. Curso de Direito Constitucional. BRANCO. Ingo Wolfgang. MS 20. 852ss. 1125ss..642. sem a inteira concordância da outra casa legislativa (art.356/ DF. Curso de Direito Constitucional.” Esclareça-se. NERY. Carlos Velloso. NOVELINO. 44 (3). p. LENZA. Constituição Federal Comentada. Celso de Mello. Ellen Gracie. MS 24. Pedro. CF). 2013.que se tornará ato normativo com legitimidade democrática muito maior do que a de uma lei ordinária -. Maurício Corrêa.

Insista-se: Qual o sentido. ou não. já que o quorum de instauração da sessão deliberativa é a própria maioria absoluta. não apenas foge da devida abrangência deste texto.033 pode até ser questionável e discutível. todavia. . Essa indagação. Em outras palavras. dentro do ordenamento jurídico brasileiro. portanto. resume-se a aferir. que corresponde ao menor quorum possível de aprovação de uma lei por maioria relativa. 32. a abolir cláusula pétrea. se o projeto cuja tramitação foi suspensa tende. de admitir que se obste a tramitação de uma emenda e não a de uma lei ordinária? Toda a questão. mas não pelos motivos apontados pelo professor paulista. terminativo e em plenário com a anuência de meros 21 senadores e 79 deputados.proferida. como sequer foi suscitada por Afonso da Silva. a decisão proferida liminarmente no mandado de segurança de n.

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