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Fundação Oswaldo Cruz Instituto Fernandes Figueira Pós-Graduação em Saúde da Criança e da Mulher

O PROCESSO DE TRABALHO DA UTI NEONATAL E A PRODUÇÃO DE CUIDADOS HUMANIZADOS: LIMITES E POTENCIALIDADES

Kátia Maria Oliveira de Souza

Rio de Janeiro Setembro de 2006

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Fundação Oswaldo Cruz Instituto Fernandes Figueira Pós-Graduação em Saúde da Criança e da Mulher

O PROCESSO DE TRABALHO DA UTI NEONATAL E A PRODUÇÃO DE CUIDADOS HUMANIZADOS: LIMITES E POTENCIALIDADES

Kátia Maria Oliveira de Souza

Dissertação apresentada à Pósgraduação em Saúde Materno Infantil, para obtenção do Título de Mestre.

Orientador: Suely Ferreira Deslandes

Rio de Janeiro Setembro de 2006

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FICHA CATALOGRÁFICA NA FONTE CENTRO DE INFORMAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA BIBLIOTECA DO INSTITUTO FERNANDES FIGUEIRA

Souza, Kátia Maria Oliveira O processo de trabalho da UTI Neonatal e a produção de cuidados humanizados: limites e potencialidades. 2006. 121 f. Dissertação (Mestrado em Saúde Materno Infantil) - Instituto Fernandes Figueira, Rio de Janeiro, 2006. Orientadora: Suely Ferreira Deslandes Bibliografia: f. 112-117 1.Humanização da Assistência 2. Equipe de Cuidados de Saúde 3. UTI Neonatal.

Põe Quanto és no mínimo que fazes.iv Para ser grande. (Fernando Pessoa) . Assim em cada lago a lua Toda Brilha porque alta vive. sê inteiro: Nada teu exagera ou exclui Sê todo em cada coisa.

v Para João Victor O motivo de todo meu esforço. .

como todos entrevistados que colaboraram para este estudo. Assim. Sinto-me orgulhosa em usar a primeira pessoa do plural. que nunca me negaram auxilio. Ao meu querido filho João Victor. pessoa a qual antes tinha respeito pelo saber e hoje tenho enorme carinho e admiração. Agora posso entender a sua vocação para o estudo do tema humanização. conseguiu colaborar. e por isso não deixaria de lhe agradecer. . que mesmo sem muito compreender. Agradeço especialmente a meus pais. mesmo como o meu parcial distanciamento. que nunca mediram esforços para minha educação e sempre me mostraram o caminho bom da vida. agradeço minha orientadora Drª Suely Deslandes. mesmo nas horas de intenso trabalho. o porquê de este trabalho ter roubado parte da dedicação que lhe pertencia. Profissionais da UTI. no decorrer do nosso trabalho.vi AGRADECIMENTOS De forma muito especial. Aos companheiros de trabalho do Serviço de Psicologia Médica-COJ. que fizeram com que eu me sentisse bem próxima. Agradecimentos calorosos para Ednéia e Sandra. Uma lembrança especial a Ana Benjó: _Você acreditou em mim.

para que possam então. O método utilizado situase no âmbito da pesquisa qualitativa de natureza exploratória. mesmo frente aos obstáculos encontrados. a limitação de espaço físico Institucional e falta de infra-estrutura. a proposta de atenção humanizada e os obstáculos identificados por eles. melhor oferecer assistência humanizada aos usuários. ações de observação de campo foram empreendidas. . estão na falta de recursos humanos influenciando a sobrecarga de trabalho. além disso. Foi entrevistado um grupo de 12 trabalhadores que fazem parte da equipe multiprofissional da UTI Neonatal. A pesquisa demonstrou que os mais importantes pontos de impedimentos para a oferta da assistência humanizada. tanto para os trabalhadores. sob a ótica dos profissionais de saúde. como para conduzir às iniciativas de humanização como o Alojamento de Nutrizes. equipe de cuidados de saúde. Palavras-chave: humanização da assistência. Este estudo revelou ainda que. UTI Neonatal. tomando-se como contexto o processo de trabalho na Unidade de Terapia Intensiva (UTI Neonatal). os profissionais valorizam tal questão e criam ações de humanização que atendem ao preconizado nos programas de humanização do Ministério da Saúde.vii RESUMO O presente estudo tem como objetivo principal analisar. para a oferta desta forma de assistência. Diante dos esforços dos profissionais a pesquisa observou que estes trabalhadores necessitam de um olhar atento dos gestores quanto às suas necessidades.

the professionals value such subject and they create humanization actions that assist to the extolled in the programs of humanization of Ministry of Health. the proposal of humanized attention and the identified obstacles for them.viii ABSTRACT The present study has as main objective to analyze. are in the lack of human resources influencing the work overload. besides. This study revealed although. the limitation of Institutional physical space and infrastructure lack. 2. even front to the found obstacles. The research demonstrated that the most important points of impediments for the offer of the humanized attendance. The used method locates in the extent of the qualitative research of exploratory nature. UTI Neonatal. humanized care. for the offer this way of attendance. 3. under the professionals of health optics. being taken as context the work process in the Unit of Intensive Therapy (UTI Neonatal). actions of field observation were undertaken. Key Words: 1. as to drive to the humanization initiatives as the Lodging of nourishment. care health team. so much for the workers. so that they can then. They was interviewed a group of 12 workers that they are part of UTI Neonatal's team. best to offer attendance humanized the users. . Due to the professionals efforts the research observed that these workers need an attentive glance of the managers as for their needs.

.3 ................................ 19 1.......................1 ....................... 33 3.................................... 33 3..........2 . 26 3 – SENTIDOS DA HUMANIZAÇÃO NA VISÃO DOS PROFISSIONAIS DA UTI NEONATAL. 9 1......................Desenvolvimento de Projetos Assistenciais.................................................Ações de Humanização como atitude cotidiana ...........5 .................................... 6 1..................................................... 1 1 – QUADRO TEÓRICO ............................................... 53 4.................................................. 40 3..........................................................................................................................................................................................Processo de Trabalho em Saúde (PTS) ..........................................................3 ...4 ........ 16 1...........................................................6 . 44 3..................... 56 4...................Cuidado Ampliado ...............................1 ........................................................... 52 4................................................... 60 4..........1 – Humanização ................................Promoção de Conforto ........... 13 1...... 37 3................Humanização em UTI Neonatal.. 54 4...... 70 5 – PROCESSO DE TRABALHO DA UTI NEONATAL...........Rotina e Negociações ...................................................... 20 2 – METODOLOGIA............................Negação do termo Humanização.................5 ............Condições de Trabalho......Respeito às particularidade do usuário ............................................................................................................. 64 4..............3 ............ 75 ...................................................6 ........Informação como expressão de Acolhimento ...... 48 4 – AÇÕES DE HUMANIZAÇÃO DESCRITAS PELOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DA UTI NEONATAL ..4 ............................................Aproximações entre ações e sentidos descritos pelos profissionais da UTI Neonatal .........................................................................vii INTRODUÇÃO ........Cuidado Integral............................................................................7 ...............................................................................Informação ......ix SUMÁRIO RESUMO.............................................2 ..........................................................5 ................... 6 1.....................Organização do Processo de Trabalho em Saúde........................................................................................ 58 4..............................................4 ...................................................2 .......................vii ABSTRACT .......................Tarefa Prescrita e Atividade Real..............Integração entre Instituição & Familiares .........

............2 ......... 112 ANEXO A.................Óbitos .................1............... 83 6............................... 88 6..3 ..............Alta hospitalar como fator gratificante do trabalho ........... 90 6........................Aspectos e situações desgastantes.................Conflitos de relacionamento .........................3 ....Desgastes físicos e emocionais .............Recursos humanos.............................103 7.............................O retorno dos pais para o follow-up .............. 106 7.. 87 6.............................................................. 126 .................................................3 ....1 ................................................... 99 7...........................................1..........................................................................................................................................................................Pontos Gratificantes ......................... 83 6..........................................................Inadequação de Infra-estrutura. 88 6........................................1 ... 123 ANEXO B ........4 .........................................................2 ..................................................... 82 6................x 6 – PONTOS CONSIDERADOS GRATIFICANTES E DESGASTANTES NO PROCESSO DE TRABALHO DA UTI NEONATAL...........Pesquisa aplicada à clínica ....................... 93 7 – FATORES QUE CONSTITUEM OBSTÁCULOS À ASSISTÊNCIA HUMANIZADA NA UTI NEONATAL NA VISÃO DOS PROFISSIONAIS.............. 107 CONSIDERAÇÕES FINAIS...............................................................................1 ............................................................. 124 ANEXO C.......... 84 6.....2 ................................Espaço físico.1 ...................................2..............Falta de recursos materiais ..........2 ......................................................... 109 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .2.................................................................................1... 100 7................2....................................................

xi LISTA DE SIGLAS CNS ECA OMS OPT PADI PAFD PIBIC PT PTS UI UNICEF UTI SBP Conselho Nacional de Saúde Estatuto da Criança e do Adolescente Organização Mundial de Saúde Organização do Processo de Trabalho Programa de Atendimento Domiciliar Interdisciplinar Programa de Atendimento Fora do Domicílio Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Cientifica Processo de Trabalho Processo de Trabalho em Saúde Unidade Intermediária Fundo das Nações Unidas para a Infância Unidade de Terapia Intensiva Sociedade Brasileira de Pediatria .

. o método contribui para a redução do tempo de internação. como os hospitais. visando minimizar os danos da hospitalização neonatal. as iniciativas de humanização da assistência têm trazido ao debate a importância de se articular à qualidade técnica da atenção dispensada com as tecnologias de acolhimento e suporte aos pacientes. Vários autores apontam a importância de se ampliar as bases comunicacionais entre profissionais de saúde e pacientes. Estas iniciativas têm se apresentado em diversos campos de atendimento. (Lamy. promovendo um melhor desenvolvimento da criança. bem como as dificuldades de se obter tais resultados num contexto fortemente hierarquizado. destacando-se a atenção ao parto e aquelas vinculadas as Unidades de Terapia Intensiva UTI’s neonatal. Trata-se de uma estratégia de qualificação do cuidado pautado na atitude dos profissionais de saúde diante do bebê e de sua família a partir do conceito de assistência que não se imita ao conhecimento técnico específico. a posição canguru que implica em colocar precocemente o bebê de baixo peso em contato pele a pele com a mãe. Os procedimentos realizados no método canguru são baseados em critérios de elegibilidade clínicos e emocionais tanto do Recém-nascido quanto da mãe e da família. Desde 2000 já se expandia nacionalmente um programa de humanização em Unidade Neonatal denominado Atenção Humanizada ao Recém-Nascido de Baixo Peso – Método Canguru. o que promove estabilidade térmica. substituindo a utilização prolongada da incubadora. O Método Canguru introduz como medida técnica do cuidado neonatal. Além deste benefício. 2004). para a diminuição da taxa de infecção hospitalar e se apresenta como um incentivo ao aleitamento materno.1 INTRODUÇÃO Nos últimos dez anos. (Lamy e cols 2005).

Dentro de uma proposta de atenção humanizada espera-se .2 Em termo da assistência hospitalar e em saúde em geral. do trabalho em equipe e da participação em processos de educação permanente que qualifiquem a ação e a inserção dos trabalhadores na rede SUS.PNH (2004) se apresenta como eixo norteador das práticas de atenção e gestão em todas as instâncias do Sistema Único de Saúde . prioridades e estratégias de ação. Contudo. algumas diretrizes. Entre as diretrizes propostas.SUS. Espera-se que os profissionais sejam capazes de prestar um atendimento que leva em consideração a valorização da vida humana e a ética. Torna-se claro. enfim. favorecendo a qualidade da assistência. o investimento de ampliar o diálogo entre os profissionais. que as ações desta política somente serão implementadas se houver adesão do profissional e investimento dos gestores. Para alcançar os objetivos citados foram traçadas dentro da PNH. E como última diretriz referente aos profissionais. entre os profissionais a população. que os profissionais sejam capazes de atender o usuário dentro de uma escuta singular no ato assistencial. a Política Nacional de Humanização . além da existência de uma política clara de investimento na qualificação e valorização do profissional. temos a promoção de incentivo e valorização da jornada integral ao SUS. o requisito prévio mais básico seria estar disponível ao cuidador as condições de trabalho adequadas e suficientes. . destacamos aquelas que se revelam diretamente relacionadas aos profissionais de saúde. entre os profissionais e a administração. Tem o objetivo de propor e subsidiar novas iniciativas relacionadas à gestão e organização dos serviços que beneficiem os usuários e os profissionais de saúde no atendimento de seus direitos e necessidades. parece também evidente que para isto acontecer. proporcionando uma melhor relação. promovendo uma gestão de caráter participativo. Consta nas diretrizes do PNH.

destacamos o segundo eixo como importante para o trabalhador: No eixo da gestão do trabalho. A sua organização. eixo da educação permanente.3 Percebemos que as diretrizes da PNH apontam para um modelo de assistência onde a qualificação do profissional é uma preocupação constante. eixo da gestão do trabalho. A respeito da estratégia acima citada. fortalecendo e valorizando seu compromisso com o processo de produção de saúde e seu crescimento. Em função do nosso objeto de estudo. aumentam as suas possibilidades de uma participação mais efetiva nas tomadas de decisões dentro do seu campo de trabalho. pág. entendemos que quando o profissional compreende o processo de trabalho no qual está inserido. definições de papéis e outras características que definem o lugar do profissional. sua importância. eixo da atenção. 2004). sobre gestão do trabalho. Por esta razão. esta Política torna visível uma prioridade que se refere à garantia de gestão participativa aos trabalhadores e usuários. Neste sentido. Eixo da gestão da PNH. entendemos que as ações que incentivam a participação dos trabalhadores nos processos de discussão e tomada de decisão devem estar baseadas em análises do processo de trabalho em saúde. O processo de trabalho em saúde nos dá dimensão de como é elaborada a produção de cuidados. e seu compromisso no processo como um todo. eixo do financiamento. Como estratégias gerais a PNH definiu ainda sete eixos de atuação: eixo das instituições do SUS. a divisão de tarefas. eixo da informação/comunicação. . 11). assim como educação permanente aos trabalhadores (Ministério da Saúde. (Ministério da Saúde. propõe-se a promoção de ações que assegurem a participação dos trabalhadores nos processos de discussão e decisão. 2004. reconhecendo.

propomos como objeto de estudo. Trazem situações que expressam urgência e surpresas. A partir destas considerações. mas uma história de vida com toda subjetividade e demanda de acolhimento. a análise da ótica dos profissionais de saúde sobre a proposta de atenção humanizada e os obstáculos identificados por eles para a oferta desta forma de assistência. 3.4 No processo de produção de cuidados. Descrever as ações de humanização da assistência realizadas na UTI Neonatal que são relatadas pelos profissionais. 2. 4 Levantar os aspectos do processo de trabalho que na visão dos profissionais constituem obstáculos para a assistência humanizada. não só um corpo adoecido. Estes eventos proporcionam nos profissionais reações que estão diretamente relacionadas a sua atuação no mundo do trabalho. pelos profissionais. o paciente ao procurar o hospital traz como objeto de trabalho para o cuidador. as defesas e estratégias para minimizá-los. Analisar qual o sentido dado pelos profissionais de saúde às iniciativas da humanização da assistência. tomando-se como contexto destas representações o processo de trabalho na Unidade de Terapia Intensiva (UTI Neonatal). Discutir os pontos considerados. são formas de desgastes e sofrimento. assim como. como críticos dentro do Processo de trabalho na UTI Neonatal. No primeiro capítulo desse trabalho foi feita uma revisão de bibliográfica disponível sobre Humanização da Assistência e as questões relacionadas ao Processo de . Alguns objetivos específicos foram traçados: 1. o que envolve uma série de ameaças e limitações à sua vida.

6) Aspectos considerados gratificantes e desgastantes no processo de trabalho da UTI Neonatal. . os procedimentos de construção dos dados. que auxilia a compreender melhor a abordagem empregada no campo da pesquisa. 5) Processo de Trabalho na UTI Neonatal. Tentamos desta forma identificar. 4) Ações de Humanização descritas pelos profissionais de saúde da UTI Neonatal. que configuram obstáculos na promoção da assistência humanizada e agregar conhecimentos às iniciativas de humanização nas Unidades de Terapia Intensiva Neonatais que reconhecem a importância do trabalhador nesta função.5 Trabalho em Saúde. 7) Fatores que constituem obstáculos à assistência humanizada na UTI Neonatal. No segundo capítulo é descrita a metodologia. que são reflexões realizadas com base nos dados colhidos e no diálogo com a literatura sobre Humanização e Processo de Trabalho em Saúde. algumas das implicações no processo de produção de cuidados. São os capítulos intitulados: 3) Sentidos da Humanização na visão dos profissionais de saúde da UTI Neonatal. Do terceiro ao sétimo capítulos é feita a exposição dos resultados do estudo. incluindo condições de trabalho e o tema da Tarefa Prescrita e Atividade Real. e por último. os critérios de seleção dos sujeitos da pesquisa e os pressupostos teóricos da análise.

6 1 .Processo de Trabalho em Saúde (PTS). Encontramos no marco político teórico do documento oficial da Política Nacional de Humanização (Ministério da Saúde. descontextualizada e dispersiva. Entre as tentativas de definir uma leitura sobre humanização. organizamos nosso marco teórico a partir das referências teóricas sobre: 1Humanização. Martins-Nogueira (2003) em seu artigo apresenta uma diferenciação entre humanização enquanto um plano e humanização enquanto um projeto. 2004. por meio de ações pautadas em índices a serem cumpridos e em metas a serem alcançadas independentemente de sua resolutividade e qualidade. 4-Condições de Trabalho. 2004) uma discussão entre programa e política. 1. (Ministério da Saúde. o que significa uma abordagem burocrática. É defendido pelo documento que a humanização não deve ser entendida como apenas um “programa” por ser uma das dimensões fundamentais da construção de uma política de qualificação do Sistema Único de Saúde (SUS). 5-Tarefa Prescrita e Atividade Real. p.1 – Humanização Uma primeira consideração a respeito da humanização é sobre as possíveis leituras em torno da abordagem que pode ser dada ao termo humanização. a partir do contexto de seu processo de trabalho na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTI Neonatal). 3-Organização do Processo de Trabalho (OPT). O cuidado estaria no risco da “humanização” se tornar mais um programa que aprofunda relações verticais em que são estabelecidas normativas que “devem ser aplicadas e operacionalizadas”. A autora esclarece que o projeto é da alçada do . 2.6).QUADRO TEÓRICO Para estudar sobre a visão do trabalhador acerca da assistência humanizada.

é primeiro necessário haver um projeto. 2004. Descreve o plano como uma figura provisória. Encontramos diferentes abordagens sobre humanização no contexto da assistência. um programa ou uma política. A Política Nacional de Humanização vem sendo amplamente disseminada em todo território nacional. (Martins-Nogueira. de aplicação técnica. associado ao reconhecimento dos direitos do paciente. conformando-se mais como uma diretriz de trabalho. Complementa afirmando que a noção de “humanização” é empregada para a forma de assistência que valoriza a qualidade do cuidado do ponto de vista técnico. é que haverá a transformação do tecido institucional. Diz ainda. Sua meta é a de atravessar todas as instâncias do SUS. de sua subjetividade e referências culturais. do que um aporte teórico-prático. consenso e conflito em torno deste mapa de objetivos e idéias. Esta variação pode estar relacionada à dificuldade em se definir o conceito de humanização. Deslandes (2004) afirma que o conceito de “humanização da assistência” ainda carece de uma definição mais clara. Conclui com a idéia que somente com a implicação de todas as pessoas que trabalham na assistência direta.7 subjetivo: que se refere às pessoas que participam do processo com envolvimento. que para passar a um plano. (de todos os níveis de escolaridade). transformando-se em uma maquiagem superficial. como uma política transversal é necessário que sejam ultrapassadas as . seja sob a moldura de um plano.2005). com o objetivo de atuar na descentralização da gestão da rede de serviço e integrar os processos de trabalho e as relações entre os diferentes profissionais. um movimento de parcela dos profissionais e gestores. Conforme cita o documento do Humaniza SUS. um projeto. implicando ainda na valorização do profissional (Deslandes. A autora continua expondo sobre o risco das propostas de Humanização que não se pautam em um projeto institucional e ficam restritas a um plano. 2003).

e sim estendida ao profissional através de ações que envolvam seu processo de trabalho. que são expressos e “interferem” também dentro do seu campo de atuação profissional. a valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde. reconhecer que o trabalho assistencial pode gerar danos à saúde. o trabalhador como protagonista. Ao citar a Atenção Humanizada ao Recém-nascido de Baixo Peso – Método Canguru. Por fim. define por humanização. a responsabilidade entre eles. Como valores que norteiam esta política estão: a autonomia e o protagonismo dos sujeitos. traz consigo as suas necessidades. (Ministério da Saúde. desejos e subjetividades. a participação coletiva no processo de gestão e a indissociabilidade entre atenção e gestão. assim como. 2000) A Cartilha Gestão e Formação do Processo de Trabalho. mesmo que rígidas. apontando que os profissionais de saúde por se submeterem em sua atividade. a tensões provenientes de várias fontes. (Ministérios da Saúde. Esta é uma das razões pelas qual a proposta de humanização busca problematizar as condições de produção de atenção. Lamy e cols (2005) sinalizam o fato da humanização não ser apontada como responsabilidade exclusiva do profissional dirigida ao usuário. como uma estratégia de superação à clássica fragmentação entre ações de humanização e ações assistenciais. precisam também receber cuidados . Dentro desta perspectiva.8 fronteiras. . dos diferentes núcleos de saber/poder que se ocupam da produção de saúde. 2004b). desenvolvida pelo Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização do Ministério da Saúde. citamos Martins-Nogueira (2003). o estabelecimento de vínculos solidários. O que pode significar estar atento aos impasses e necessidades expressa pelos trabalhadores para a realização do seu trabalho.cuidar de quem cuida é condição sine qua non para o desenvolvimento de projetos e ações em prol da humanização da assistência.

9 1. à garantia de tecnologia que permita a segurança do recémnato e o acolhimento ao bebê e sua família. Em todos os hospitais premiados. representa um conjunto de iniciativas que tem como objetivo à produção de cuidados em saúde resultante da conciliação da melhor tecnologia disponível com promoção de acolhimento e respeito ético e cultural ao paciente. Exemplo disto é o Prêmio Nacional Professor Fernando Figueira que é aferido por reconhecimento de experiências bem-sucedidas de humanização no atendimento pediátrico e na terapia intensiva neonatal de alguns hospitais da rede pública (Ministério da Saúde. O alvo destas ações é o respeito às individualidades. O Método Canguru é uma Norma de Atenção . Além do suporte tecnológico necessário à assistência dos recém-nascidos das UTIs Neonatais. de espaços de trabalhos favoráveis ao bom exercício técnico e à satisfação dos profissionais de saúde e usuários. o Método Canguru se destaca como um projeto de humanização no atendimento ao neonatal. a humanização preconiza várias ações propostas pelo Ministério da Saúde. No Brasil várias maternidades possuem ações voltadas para a humanização à Assistência do recém-nascido. No que se refere. ao cuidado neonatal. as ações referentes à humanização também são indispensáveis para a qualidade da produção de cuidados. (Lamego e cols. 2004). 2003). 2005 apud SBP. no sentido mais amplo. baseando-se nas adaptações brasileiras ao Método Canguru para recém-nascido de baixo peso. mais especificamente. buscando facilitar o vínculo mãe-bebê durante a sua permanência no hospital e após a alta.2 – Humanização em UTI Neonatal Lamego e cols (2005) apontam que a humanização. com ênfase no cuidado voltado para o desenvolvimento e psiquismo.

como boa oxigenação. O Ministério da Saúde (2000) destaca que somente os sistemas que permitam o contado precoce. por livre escolha da família. em decúbito prono. O Método Canguru é mais abrangente e ultrapassa a Posição Canguru. como explica Lamy (2003. p. aquela que consiste em manter o recém-nascido de baixo peso. ligeiramente vestido. não havendo qualquer impedimento para que o bebê seja colocado na posição canguru. alguns critérios em relação à estabilidade clínica devem ser obedecidos.10 Humanizada ao Recém-nascido de Baixo Peso lançado pelo Ministério da Saúde por meio de uma Portaria. Este Método foi pensado inicialmente para bebês prematuros. boa freqüência cardíaca e respiração regular durante o manuseio (Lamy. 664) O Ministério da Saúde (2000) define como a posição canguru. o objetivo é atingir todos os bebês com peso de nascimento abaixo de 2. no Brasil. respeito às individualidades. contra peito do adulto.151). realizado de maneira orientada. de forma . promoção do contato pele a pele o mais cedo possível e envolvimento da mãe nos cuidados com o bebê. Muitas vezes o bebê ainda não tem estabilidade clínica para poder ser colocado em posição canguru. (Lamy. Atualmente. na posição vertical. e cols 2005 p. Na prática do Método Canguru se caracteriza a mudança na forma do cuidado neonatal. É o momento no qual o bebê sai da incubadora e é colocado entre os seios da mãe ou contra o peito do pai. 2003 p. Para que a criança seja colocada na posição canguru. embasada em quatro fundamentos básicos: acolhimento do bebê e sua família. 142/150) que faz um alerta para a diferenciação entre o Método e a Posição Canguru. mas as ações que envolvem o método já foram iniciadas através do acolhimento à família.500 gramas. da construção de rede social e da atenção individualizada ao bebê.

algumas das experiências de humanização bem sucedidas em diversos hospitais do Brasil que também receberam o Prêmio Nacional Professor Fernando Figueira. no Hospital Universidade Júlio Muller em Cuiabá. menos agressiva que a flora hospitalar e a segunda também ligada a presença maciça da mãe que através da amamentação transmite anticorpos específicos que o bebê não poderia produzir sozinho (Lamy. comunitária. Entre as muitas vantagens da adoção do método está a diminuição de infecção hospitalar por duas hipóteses empíricas. o bebê entra em contato com a flora bacteriana materna. Na Região Centro-Oeste. a comunicação entre família e equipe. diz respeito à redução do tempo de hospitalização. colchões “casca de ovo” para evitar feridas na pele e a redução ao máximo . Para Lamy o método é o conjunto da assistência humanizada oferecida ao recémnascido.p. o contato pele a pele precoce e crescente.11 crescente e segura e acompanhado de suporte assistencial por uma equipe de saúde adequadamente treinada serão considerados como Método Canguru. A primeira defende que no contato pele a pele. para reduzir a dor do bebê. Exemplificamos aqui. Outras vantagens que podemos citar. 2003.150). a equipe da UTI Neonatal é treinada para decifrar o choro dos recém-nascidos. além da preocupação em oferecer aos pais a oportunidade de escolher o tempo de permanência com o bebê na posição canguru. o ganho de peso com diminuição de complicações orgânicas e o incentivo ao aleitamento materno. é colocado um esparadrapo que contém anestésico antes de fazer uma punção venosa. O cuidado com os registros do prontuário. considerando que esse período deve ser prazeroso e capaz de possibilitar intimidade à dupla mãe-bebê ou pai-bebê. aos pais e aos outros membros da família. Preocupados com o tratamento humanizado.

O Hospital Universitário de São Luís do Maranhão. medida que resulta em taxas menores de hospitalização. o que evita interromper o descanso da criança. tudo para reduzir o barulho. entre outras. que se destacou pela iniciativa do projeto Família Integrada. é uma maternidade de referência para atendimento à gestante de alto risco. redução do abandono e da negligência doméstica. Neste projeto. se considerada de risco. as mães têm acesso livre garantido pelo Programa Mãe Coruja.24). A família após a alta do bebê. com o objetivo de envolver os familiares no cuidado com a criança e estimular a formação e uma “matriz de apoio”. p. p. o uso de telefone é proibido. 20). a Santa Casa da Misericórdia em Belém do Pará também recebeu o prêmio Nacional Professor Fernando Figueira. Na Região Norte.16). pela Unicef/OMS/MS (Ministério da Saúde 2004. ainda na gravidez. entre outras ações de humanização (Ministério da Saúde 2004.12 possível da luminosidade e ruídos são detalhes voltados para a Assistência humanizada no local (Ministérios da Saúde 2004. Na UTI Neonatal deste hospital.Região Sudeste. recebe visitas domiciliares da equipe. p. Dentro da UTI Neonatal. está no vínculo com a comunidade. as lixeiras e portas de armários possuem borrachas. O Hospital de São Luis do Maranhão é Centro de referência nacional para assistência humanizada ao recém-nascido de baixo peso e recebeu o título de Hospital Amigo da Criança. todas as famílias de recém-nascidos recebem visitas domiciliares de assistentes sociais e psicólogos. O cantinho do peito e oficinas de trabalhos manuais são oferecidos por esta Instituição. Existe um pequeno hotel para as mães que moram distantes. os procedimentos são agrupados no mesmo horário. A premiação também foi dada ao Hospital Municipal Universitário de São Bernardo do Campo . Para evitar ao máximo o sofrimento do bebê. no Nordeste. . A marca da assistência humanizada.

com quinze vagas na UTI Neonatal. ouvidoria estão entre as ações que fizeram com que na Região Sul. o processo de trabalho em saúde congrega profissionais. tecnologias e infra-estrutura diversificadas. p. o Hospital de Clínicas de Porto Alegre.28). mais especificamente na questão do quantitativo de recursos humanos. Para estes autores. parece ter um quadro ideal de profissionais. o que representa humanização para o usuário e para o profissional que não acumula carga de trabalho e pode se dedicar mais atenciosamente a um paciente.3 – O Processo de Trabalho em Saúde (PTS) De acordo com a descrição de Pinho. . criam condições sejam de natureza material. também fosse contemplado com o prêmio Nacional Professor Fernando Figueira. tais como as aqui citadas. Imaginamos que para os profissionais de saúde lotados em UTI Neonatal. pois foi observada a relação de um profissional para cada leito (Ministério da Saúde 2004. sustentada por diferentes modelos de ação profissional e saberes. A preparação para o aleitamento. saberes. 1. projeto biblioteca viva. o Hospital Municipal Universitário São Bernardo do Campo. Apontam que o funcionamento hospitalar é rico em processos produtivos altamente integrados. oficinas de trabalhos manuais. a configuração técnica e social do PTS é caracterizada por uma divisão de trabalho definida. tecnológica e emocional para driblar os obstáculos encontrados no Processo de Trabalho da UTI Neonatal. Abrahão e Ferreira (2003). que se caracterizam por processos decisórios cujos níveis de complexidade variam e pela necessidade de uma articulação eficiente e rápida de diferentes profissionais para garantir a qualidade dos serviços prestados. sala de leitura.13 Ao pensar no processo de trabalho em saúde. oferecer assistência humanizada.

Pinho. por seu cuidador e sua comunidade.14 Dentro deste conjunto de descrições feitas por estes autores. o ato de produção do produto e seu consumo ocorrem ao mesmo tempo”. Entretanto. como também constitui um fator importante do processo de trabalho em saúde. representado neste cenário pelo profissional de saúde e o paciente. 2002). . Por esta razão. comunicação constitui um elemento essencial na relação profissional de saúde e paciente. as histórias contadas pelos pais dos bebês possuem uma grande carga de afeto e uma grande expectativa que passa a ser compartilhada pelos profissionais de saúde. em um trabalho de serviço. Recuperar a saúde dos bebês deixa de ser uma simples história e passa ser um “projeto” da família e dos profissionais. e na aplicação de uma assistência que se espera conjugar a competência técnica e relacional. que se produz o cuidado. A comunicação mal estabelecida entre os profissionais e entre equipe de saúde e paciente pode ser um dos fatores a comprometer a humanização da assistência. (Merhy. existem características comuns a todos os processos de trabalho. a produção de cuidados se diferencia dos demais processos produtivos porque é no ato do encontro entre o trabalhador e o consumidor. uma atenção especial deve ser direcionada aos ruídos comunicacionais que podem trazer conseqüências irreversíveis à qualidade do atendimento. Abrahão e Ferreira (2003) colocam que a produção de cuidados está intimamente relacionada a uma rede de relações sociais onde circulam informações via comunicação oral e escrita. Assim. ao passo que. Isto implica na aproximação entre profissional de saúde e paciente. Como reflete Merhy: “Um trabalho fabril típico relaciona-se com o consumidor por intermédio do produto que este usa. A produção de cuidados em saúde se desenvolve a partir das narrativas que revelam a doença e os significados atribuídos pelo sujeito doente. Nas UTIs Neonatais.

práticas de acolhimento. Aos saberes bem estruturados que operam no processo de trabalho. São vistas como ferramentas de gestão. A noção de tecnologia utilizada por Merhy tem uma definição ampla. O trabalho vivo é colocado como o ato em si. leve-duras e leves.45).49). As tecnologias classificadas como Leves são referentes às relações do tipo produções de vínculo.15 Merhy (2002) coloca que a tecnologia sempre implica a temática do trabalho como ação intencional na produção de bens/produtos. O autor atribui uma classificação para as tecnologias no campo da produção de cuidados. entre outras. A partir desta intencionalidade é retomada a idéia de trabalho vivo e trabalho morto para produção dos bens. uma forma de governar processos e relações de trabalho. ou seja. Como exemplo de tecnologia leve. como o da clínica médica. conforme relata Lamy. que podem ser bens materiais ou produtos simbólicos. na assistência humanizada nas UTIs Neonatais. Inclui como tecnologias certos saberes que são constituídos para a criação de produtos singulares. .142). Assim. as máquinas-ferramenta e os saberes são expressos como tecnologias e são classificadas como duras. 2002 p. 2003 p. O trabalho morto é dado como os diversos instrumentos modificados por um trabalho vivo anterior. clínica psicanalítica e epidemiologia recebem a classificação de leve-duras e as tecnologias duras são as correlacionadas aos equipamentos tecnológicos do tipo máquinas e normas (Merhy. e mesmo para organização das ações humanas nos processos produtivos (Merhy. 2002 p. pela Portaria n° 693. temos um acervo de estratégias que estão presentes no Método Canguru que foi implementado através da Política Nacional de Saúde. uma ação intencional. por não ser restrita ao que está especificamente ligada a equipamentos e máquinas. (Lamy.

técnicos e auxiliares comungam da mesma prática dentro de uma seqüência hierarquizada. serviços e setores... onde há aqueles que planejam e os que auxiliam na execução.16 1. A UTI Neonatal. 2004b. Os médicos.) Os trabalhadores costumam adotar um determinado tipo de organização do trabalho: uma forma específica de agir e de se relacionar com os colegas e o estabelecimento de regras específicas na divisão de tarefas (. a sua autoridade sobrepõe-se à autoridade administrativa. enfermeiros. compõem o quadro da organização do trabalho em uma Unidade. a centralidade da autoridade do médico e a carga horária.4 – Organização do Processo de Trabalho em Saúde (. sendo em torno das decisões planejadas pela equipe médica que o processo de trabalho é conduzido. Pelo fato de o médico ter controle da principal atividade hospitalar. abordando as questões ligadas à hierarquização profissional. Pitta (1991) confirma vários estudos indicando a existência de uma complexa hierarquização dos profissionais. que impõem uma questão de gênero marcante na organização da . Pitta (1991) descreve algumas das características desta organização.). fundamentada pela herança histórica das práticas de enfermagem. (Ministério da Saúde. estruturação de cada equipe. Em seu estudo. participação dos profissionais. As condições de trabalho e sua divisão. Sabemos que algumas normas e regras determinam como se executa o trabalho na produção de cuidados em saúde. também apresenta particularidades na sua organização. como toda unidade. inclusive o setor burocrático. carga horária da jornada e outros fatores. combinados entre si. presença da força de trabalho feminina.6) O processo de trabalho em saúde é resultado de uma série de micro processos que se estabelecem dentro dos departamentos.. foi percebido que a força de trabalho feminina é uma forte característica do PTS. p. Ainda segundo o estudo realizado por Pitta..

enfrenta o problema do número insuficiente de trabalhadores. O expediente ininterrupto também marca de forma especial o modo de funcionar o hospital. é o regime de plantão sob o qual são distribuídos os trabalhadores. 1991). estagiários. uma vez que. Este fato reflete no aumento da carga de trabalho e na rotatividade de terceirizados. Outra questão importante para se entender como se organiza a produção de cuidados em saúde. fato também comprovado nas UTIs Neonatais (Lamy Filho. Os processos de trabalho em saúde no âmbito público e as questões orçamentárias também limitam as condições de trabalho quanto à carência de materiais e equipamentos. fazendo dos hospitais de ensino um campo onde profissionais são preparados para atuarem para o mercado privado. em cada entrada ou saída de um profissional é reiniciado o processo de aprendizado. A fragmentação do processo de trabalho na produção de cuidados se apresenta como uma característica importante por influenciar diretamente na qualidade da assistência. psicólogos. diz respeito ao efetivo desta força de trabalho. gerando dificuldades na produtividade dos trabalhadores e travando toda organização dentro do processo de trabalho. . assim como. assistentes sociais. e da escassez de concursos. nutricionistas. conseqüência disto. O quadro de funcionários das instituições públicas. 2003). A escala é uma das formas encontradas para controlar e organizar a presença do profissional no hospital. tanto sob o ponto de vista do usuário como do trabalhador. por conta do atual cenário político. a passagem de plantão está a serviço de garantir a continuidade do processo de trabalho. bolsistas e outros egressos.17 produção de cuidados. enfermeiros. representando uma constante ameaça à qualidade do corpo clínico como um todo. e profissionais sem formação universitária (Pitta. A presença das mulheres é visível entre os médicos.

faz com que o profissional de saúde se aliene do próprio objeto de trabalho.18 A produção de cuidados diante de sua complexidade tem sido fragmentada em parcelas cada vez menores. não haverá compromisso com o resultado do seu trabalho. Deslandes (2002) lembra que o paciente quando submetido a este trabalho fragmentado acaba por não saber para que serve cada ato parcial e sofre também os efeitos da alienação do trabalhado parcializado. As conseqüências deste parcelamento também recaem sob os trabalhadores que atuam em determinada etapa da ação clínica. mesmo que tenha dele participado pontualmente. a organização parcelada do processo de saúde. Pensando deste modo. a fragmentação do trabalho pode levar o trabalhador a uma condição de “descompromisso” com o produto de seu trabalho. A superespecialização. o conhecimento e a prática dos profissionais que produzem a assistência também são parcelados. o trabalho fracionado. 2003) Pelo que indica Campos. pode estar contribuindo para que a assistência seja pouco humanizada. ficam os trabalhadores sem interação com o produto final de sua atividade laboral. O risco parece ser a interferência na formação de vínculos e na produção de ruídos comunicacionais que venham prejudicar a qualidade da produção de cuidados. como não há interação. tornando-os alienados quanto ao seu objeto de trabalho e sem a interação com o produto final. refletindo o quadro em que muitos profissionais das diversas especialidades atendem a um paciente. A organização parcelar do trabalho fixa os trabalhadores em uma determinada etapa do projeto terapêutico. Assim. Campos (2003) confirma que a fragmentação está intrinsecamente relacionada à organização do trabalho. (Campos. . sem que nenhum estabeleça com ele uma relação mais estreita. Desta forma.

5 – Condições de Trabalho A humanização da assistência envolve também. remuneração digna. dificuldade de conciliação da vida familiar e profissional. enquanto condições para desenvolver um trabalho qualificado. jornada dupla ou tripla. podem gerar uma série de conseqüências nocivas para o próprio trabalhador por ser fonte geradora de estresse. estas situações.19 1. mas também a falta de recursos humanos implica na qualidade das condições de trabalho. Colocam a necessidade e o desafio para as instituições oferecerem um ambiente adequado. ocasionando sobrecarga de atividades e cansaço e o contato constante com pessoas sob tensão. para que estes possam exercer as suas funções de uma forma mais humanizada. Não somente a falta de recursos materiais. Casate e Corrêa (2005) em revisão bibliográfica. os aspectos ligados às condições de trabalho. Mesmo que os profissionais façam o melhor que possam. Sobre as condições de trabalho em saúde. A falta de recursos materiais interfere na atuação dos profissionais de saúde e na qualidade da assistência prestada. De certo. gerando ambiente de trabalho desfavorável. diante de condições precárias para o trabalho. recursos humanos e materiais quantitativos e qualitativos suficientes. aumenta-se a carga de trabalho. principalmente quando o profissional participa na gestão do processo de trabalho e tem a possibilidade de identificar suas necessidades. como conseqüência do déficit de profissionais. na medida em que. motivação para o trabalho e oportunidade para os profissionais se aperfeiçoarem em sua área de atuação. . 2005). o risco de comprometer a qualidade do cuidar é uma constante (Leite e Vila. reuniram textos que mostram alguns indicativos de condições inadequadas de trabalho como baixos salários.

pode significar. Pitta (1991) acrescenta que outros fatores como a pressão sobre a produtividade. A autora também pontua que o desgaste é entendido como perda da capacidade física e emocional.20 Em estudo realizado sobre os aspectos da qualidade da assistência perinatal no Rio de Janeiro. 2004 p. ao citar o objetivo de contribuir na qualificação dos trabalhadores. a exigência de bons resultados. Assim como uma chefia pouco presente pode significar por outro lado. sobrecarga para o profissional. no que se refere à efetivação de uma gestão mais participativa. pode-se entre outros fatores destacar: “A qualidade do cuidado pode estar ameaçada em função da redução na relação profissional/leito neonatal. pela incapacidade gerencial de prover o quantitativo adequado ou por sua superlotação na Unidade Neonatal” (Gomes. no início da década de 90. enfermidades profissionais. fadiga física e mental e transtornos gerais de morbidade provocados pela jornada de trabalho. 1. originada pelas transformações negativas decorrentes dos processos de trabalho. marcada pela figura da chefia. O estado de fadiga física e mental revela o nível de desgaste vivido pelo trabalhador. Savoldi (2004) falando acerca das condições laborais inadequadas.6 – Tarefa Prescrita e Atividade Real A Cartilha Gestão e Formação de Processo de Trabalho desenvolvido pelo Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização do Ministério da Saúde (Brasília: MS. um abandono.32) Como vimos a falta de condições de trabalho pode gerar sobrecarga para o profissional. conclui que estas podem se transformar em acidentes de trabalho. 2004b). configurando uma falta de suporte técnico e administrativo para que os profissionais respondam às suas responsabilidades. destaca dois princípios norteadores .

p.). A noção de tarefa está vinculada com a idéia de prescrição. a atividade pode ser compreendida em duas relações: primeiramente. a tarefa (prescrita) indica o que é para fazer.. Como segunda relação do termo. interpretações. segundo Ferreira (2000) apud Lê Bonniec & Montmollin (l995. (Ministério da Saúde. Em síntese bem simplifica. Pontuam os autores da Cartilha que para consolidação destes princípios algumas “marcas” precisam ser afirmadas. como um processo que se desenrola no tempo. por oposição à tarefa. nos reportamos aos estudos de Dejours (2004) e a Análise Ergonômica. visto como prescrição de objetivos e de procedimentos. Em ergonomia. ações (. A noção de atividade representa o que é utilizado pelo sujeito para executar estas prescrições. Na cartilha está descrito que o trabalho é tudo que efetivamente se realiza. comunicações.18). p. 1997). tendo o objetivo de sua análise os encadeamentos de tomadas de informações. 2) responsabilidade conjunta desses sujeitos nos processos de gestão e atenção. Para eles estas marcas estão ligadas aos conceitos de tarefa prescrita e o trabalho real.. de obrigação. . e o esforço que se despende nas atividades do dia-a-dia profissional para o trabalhador dar conta do que acordou com o gestor da área em que está alocado e com os demais companheiros de trabalho.05). atividade (real) o que se faz. senão. 2004b. a qual favorece uma compreensão sobre o tema trabalho e relaciona todos os elementos existentes no momento de sua realização. para cumprir estas obrigações (Barcelos apud Leplat. a atividade é compreendida como realização.21 da PNH. Para descrevermos sobre a tarefa prescrita e atividade real. 1) construção de autonomia e capacidade de realização de liderança dos sujeitos e coletivos implicados na rede do SUS.

identificar as mudanças e o que leva o trabalhador a tomar micro-decisões para solucionar os pequenos problemas de rotina (Assunção.S. as situações cotidianas. Lembramos que quando o treinamento do trabalhador é baseado somente na tarefa prescrita algumas conseqüências podem surgir. o trabalhador cria seu modelo singular de atuação. características do meio ambiente e condições sociais do trabalho (Barcelos. a inventar o melhor modo de trabalhar. Sua elaboração deve levar em conta os meios colocados à disposição do trabalhador. Assim. Da lacuna existente entre a tarefa prescrita e a atividade real. a melhor forma de aprender como eles trabalham é observando o profissional no ato da sua atividade. no seu local de trabalho. os trabalhadores são convocados a criar. As ações para compensar os desconfortos presentes no processo de trabalho em saúde fazem com que os profissionais criem alguns atalhos para superar as dificuldades. chamada variabilidade.. é preciso analisá-lo em situações reais. Para dar conta da realidade complexa do trabalho. 2004b) Para se entender como se dá concretamente o trabalho.22 A idéia de tarefa (prescrita) é de algo estabelecido pela organização através de normas e procedimentos. Segundo a Cartilha (2004b. conflitos e insatisfações.6): As prescrições são as regras que definem como o trabalho deve ser realizado. a construir o curso de suas ações. No entanto. . 1997). p. a maneira mais adequada de realizar o trabalho de forma a atender os diversos contextos específicos. (M. ocasionando baixa produtividade. Para Abrahão (2000) a diferença entre a prescrição e a realidade surge em decorrência de uma série de variáveis. 2003). nem sempre são definidos pelas prescrições. elaborando mecanismos que transgridem a prescrição das tarefas definidas dentro da organização. a improvisar ações. sendo seus objetivos ligados à produção e à qualidade. os imprevistos.

Ferreira (2000) descreve que para a ergonomia. Frente às variáveis existentes. ou seja. mas também frente à variabilidade do sujeito e da situação. Campos (2005) ao debater o artigo de Benevides e Passos (2005). tal como o SUS (Sistema Único de Saúde) apresenta diretrizes e princípios os quais são importantes para indicar novos rumos e objetivos para as políticas. O que é também reflexo da interação do trabalhador e seu trabalho. a organização. seu afeto. quanto da situação. destacam que a Política Nacional de Humanização. a elaboração de uma política tal como a Atenção Humanizada. marcando a interseção entre a história singular do sujeito e as relações sociais estabelecidas com os outros. levando o a uma (re) interpretação acerca das normas que deveria a priori ser seguida. e o contexto sócio-econômico no qual se inscreve uma determinada atividade. e os objetivos propostos são modificados na medida em que as interferências se fazem necessárias. complementam apontando a necessidade de interferir na prática realmente existente nos sistemas de saúde. o trabalho está inscrito num contexto de variáveis tanto do sujeito. a prática se sobrepõe a qualquer diretriz. . as condições. e no que concerne à Atenção Humanizada ao Recém-nascido de Baixo Peso – Método Canguru implica em reconhecer que as normas e diretrizes precisam ser concebidas. não exclusivamente mediante as necessidades do usuário. Em relação a variável sujeito. sua inteligência. lança uma perspectiva de atividade interativa e transformadora que envolve e engaja o sujeito em sua totalidade. A variável situação compreende o ambiente. Nesta perspectiva. as relações sociais. e na porosidade presente no exercício da atividade. no entanto.23 A variabilidade implica também na diversidade das características do grupo de trabalhadores. o corpo biológico.

Muito frequentemente. Este processo de transformação é o que faz emergir mais claramente. Benevides e Passos (2005) colocam que sua efetivação depende da sintonia entre “o que fazer” com o “como fazer”.. habilidade. o objetivo da tarefa. facilitando etapas de reestruturação e mudanças durante a operacionalização do projeto. Segundo Ferreira (2000) o objetivo da tarefa ganha sentido conforme a interação entre o sujeito. sofre transformações durante o desenvolvimento da atividade em conseqüência da variabilidade. o conhecimento com a transformação da realidade. A estratégia de considerar as diversidades parece se apresentar como uma tentativa de minimizar as distorções entre as prescrições e o que realmente é feito pelo trabalhador. Ao considerar as diversidades relativas ao trabalhador como nível de formação. nas diferentes etapas de um projeto de trabalho desde a sua concepção. o que é planejado pela organização do trabalho. possibilita-se a introdução de elementos flexíveis e a valorização do saber do trabalhador constituído ao longo de sua experiência. gera a transformação de sua ação em função dos efeitos e resultados obtidos. tornar-se possível refletir acerca da implementação de suportes que favorecem o desenvolvimento de competências. conhecimento acumulado. o ambiente de trabalho e a releitura do trabalhador sobre o que foi prescrito pela organização do trabalho. posto que ela é guiada por objetivos que o sujeito estabelece vis a vis de seu objeto de ação. Abrahão (2000) nos alerta que ao reconhecer a variabilidade inter e intraindividual. Em relação à Política de Humanização.24 Sobre a interação Ferreira (2000) revela que o trabalhador ao agir diretamente ou indiretamente sobre o meio através de sua atividade. o conceito com a prática. idade e etc. . através do fazer. destacando que esta interação não acontece a esmo.

.). citada no início deste item teórico. imaterializados do seu processo de produção. no sentido de oferecer condições para real aplicação de uma política de humanização nas UTIs.25 Para Deslandes (2005) conforme pesquisa referente à ótica dos gestores sobre a humanização na assistência das maternidades do Rio de Janeiro. talvez seja possível oferecer aos trabalhadores uma gestão mais participativa como preconiza a Cartilha Gestão e Formação de Processo de Trabalho desenvolvido pelo Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização do Ministério da Saúde (Brasília: MS. 624) Por fim. revelando um foco deslocado do processo de trabalho que. onde apenas dependeria da vontade e consciência a aderir a projetos humanizadores. 2005 p. propriamente em uma Unidade de Terapia Intensiva. Desta forma. podemos entender que estas passam por transformações na medida em que são postas na prática e por isso torna-se necessário entender como se comporta o trabalhador diante do seu processo de trabalho. Ao mover ações dirigidas para a assistência humanizada. se tomarmos os eixos norteadores e as diretrizes como prescrições inscritas na política como a PNH. enganosamente. ser interpretados por uma dimensão unicamente interacional. (.. parece evidente haver outros obstáculos para sua efetivação. na prática. Uma vez abstraídos. Leva-nos ainda a pensar a postura dos gestores e a escolha de processos gerenciais que podem apenas adotar o modelo de humanização da assistência de forma burocrática e passageira (.) as concepções dos gestores e macrogestores pouco deram relevo aos produtores do cuidado e às peculiaridades de seu labor. os cuidados de saúde podem. tornar-se imprescindível considerar a variabilidade e a interpretação dos trabalhadores acerca da proposta inscrita. é por onde se consolidariam ‘cuidados humanizados’.. com o propósito de evitar que incorra a uma sucessão de obstáculos que a torne impossível de ser plenamente exercida como uma práxis. (Deslandes. como o pouco de investimento no campo da gestão direcionado ao trabalhador e ao processo de trabalho o qual está envolvido. 2004b)...

21) pontua que a pesquisa qualitativa é aquela que trabalha com o universo de significados. Por ser um tema sobre o qual buscamos explorar a dimensão intersubjetiva. p. a abordagem qualitativa se apresentou como a mais adequada.87). possibilitando que a partir de uma hipótese aprofunde seu estudo nos limites de uma realidade específica. crenças. ministra ensino técnico e de pós-graduação na área de Saúde da Mulher. da Criança e do Adolescente. valores e atitudes. Quanto à natureza do estudo – exploratória – segundo Trivinos (1987. Minayo (1996 p. o que corresponde a um espaço mais profundo das relações dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. motivos. aspirações. Trata-se de um hospital que fundado em 1924 que presta atenção terciária. Procura-se entender a forma como as pessoas interpretam e conferem sentido as suas experiências e ao mundo em que vivem.26 2 – METODOLOGIA Trata-se de um estudo de natureza exploratória. a fim de torná-lo mais explícito ou a construir hipóteses. realiza investigações científicas. . aprimorando as idéias. Campo da Pesquisa A realidade focada neste estudo foi uma Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTI-Neonatal) de um hospital público Materno-Infantil da Cidade do Rio de Janeiro. p. permitem ao pesquisador maior experiência em torno de determinado problema. Idéia semelhante de Gil (1996.45) defende ainda que estas pesquisas tenham como objetivos proporcionar maior familiaridade com o problema.

é reconhecido como referência no tratamento de prematuros de baixo peso. O quadro de pessoal na UTI Neonatal é composto por médicos. Esta Unidade é dividida em Unidade Intermediária (UI) com oito leitos para internação e a UTI com dezesseis leitos. que. de um ponto de vista exterior poderiam permanecer obscurecidas (Gomes.. MÉTODOS Observação Participante A observação participante é descrita por Martins (1996). atitudes.27 A Unidade de Terapia Intensiva Neonatal do nosso Campo de Pesquisa está diretamente ligada ao Departamento de Neonatologia. etc. Admite-se que a experiência direta do observador com a vida cotidiana do outro. enfermeiros. de revelar na sua significação mais profunda. episódios. ações. 2005). seja ele indivíduo ou grupo é capaz. Um dos pressupostos da observação participante é o de que a convivência do investigador com a pessoa ou grupo estudado cria condições privilegiadas para que o processo de observação seja conduzido e dê acesso a uma compreensão que de outro modo não seria alcançável. técnicos e suporte administrativo. como uma metodologia elaborada principalmente no contexto da pesquisa antropológica.. A Unidade como um todo tem capacidade de receber 24 bebês. Trata-se de estabelecer uma adequada participação dos pesquisadores dentro dos grupos observados de modo a reduzir a estranheza recíproca. .

(Deslandes. Foi abordado no roteiro a ótica do profissional de saúde sobre: Os sentidos atribuídos para assistência humanizada. A elaboração do roteiro de entrevista (na modalidade semi-estruturada) levou em consideração os temas importantes relacionados ao objeto do estudo. Para manter o foco da observação foi elaborado um Roteiro de Observação Participante. onde se construiu um material sobre versões. descrições peculiares.28 Embora a observação participante tenha acontecido de forma inteiramente livre foi necessário. um olhar centrado nas questões de interesse do estudo. Possuiu o caráter de um guia para o desenvolvimento do diálogo entre o investigador e o entrevistado. . No nosso estudo a observação participante investigou: Processo de trabalho na UTI – NEONATAL Expressões de desgaste e gratificação no trabalho Ações definidas como de humanização na assistência Entrevista Como instrumento deste estudo o roteiro de entrevista objetivou apreender os sentidos atribuídos pelos profissionais de saúde sobre assistência humanizada e o processo de Trabalho da UTI Neonatal. permitindo a coleta de dados que supostamente são seriam oferecidos dentro de um ¨setting¨ mais formal.p. opiniões. A interação que se deu com os profissionais foi fundamental para que a entrevista fosse fonte de informações inéditas. 2002. O objetivo foi manter um clima amistoso e favorecer a captação de novas questões pertinentes ao tema central do estudo. Tratou-se de uma conversa direcionada a determinados objetivos da pesquisa. o pesquisador e o entrevistado. criadas na interação de dois interlocutores. que serviu como guia. 136).

técnicos de . Um Diário de Campo foi utilizado para os registros documental da observação participante. foi prestada assistência humanizada. Análise dos profissionais sobre os principais obstáculos encontrados no processo de trabalho para um atendimento humanizado. Relato de situações onde. Nas entrevistas foi utilizado o recurso do gravador. Sujeitos da Pesquisa Os sujeitos da pesquisa são os membros da equipe multiprofissional que atuam diretamente com o paciente na UTI Neonatal nos diferentes turnos de trabalho. enfermeiros. não foi possível prestar assistência humanizada. Relato onde embora houvesse o desejo. sobre o ponto de vista do trabalhador. Profissionais presentes na rotina do serviço como Médicos. visando obter o registro das informações obtidas através da entrevista. e que concordaram em participar do estudo mediante termo de consentimento livre e esclarecido. Visão do profissional sob as condições geradas pela instituição para viabilizar assistência humanizada. diante do consentimento prévio dos entrevistados.29 A análise dos profissionais sobre o seu processo de trabalho na UTI.

entrevistados. Assim como confirmar ou não as hipóteses. ANÁLISE DOS DADOS Conforme considerações de Bardin (1977). O nosso estudo foram realizadas doze entrevistas. permitindo a inferência de conhecimentos relativos ao estudo. Gomes (1996) pontua duas funções que podem ser destacadas na aplicação da técnica de análise de conteúdo. de tal forma que permita a reincidência das informações. sem que outras informações singulares relevantes sejam desprezadas. A segunda diz respeito à descoberta do que está por trás dos conteúdos manifestos (Gomes. 1996 p.74). A primeira refere-se à verificação de hipóteses e/ou questões formuladas. psiquiatra e assistente social foram O número de sujeitos escolhidos para serem entrevistados não foi estabelecido previamente. Gomes (2005) lembra que uma norma prática das abordagens qualitativas é considerar que o material construído no campo está suficiente quando se percebe que as idéias acerca das questões da pesquisa começam a se repetir. fisioterapeuta. nutricionista. posto que na pesquisa qualitativa o número de participantes é avaliado na medida em que os dados são coletados. a análise de conteúdo é um conjunto de técnicas de análise das comunicações que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens. A amostra ideal é aquela na qual os sujeitos sociais que detém os atributos que se pretende investigar são considerados em número suficiente.30 enfermagem. .

. ou mesmo na fragmentação da mensagem. nas mensagens contidas nas entrelinhas das informações colhidas (Bardin 1977. e a segunda mais relevante.31 O interesse do pesquisador não deve estar nos significados imediatos das mensagens. são elementos obtidos através da decomposição do conjunto das mensagens. As unidades de registro são palavras. unidade de contexto. Após a escolha das unidades de registro das unidades de contexto foi iniciada a elaboração de categorias.41). fazendo as descrições e inferências interpretativas.75) assinala que cronologicamente a análise de conteúdo pode abranger as fases de pré-análise. As categorias se referiram aos aspectos com características comuns ou que se relacionaram entre si. tratamento dos resultados obtidos e interpretação. As unidades de contexto. estar atento as outras significações. o autor recomenda que o material a ser analisado seja organizado. estando ligadas à idéia de classe ou série. p. As unidades sejam de registro ou de contexto. empregada para se estabelecer classificações. Momento em que foi necessária uma leitura flutuante do material no sentido de manter contato com sua estrutura e registro. Na segunda etapa o momento foi de aplicar as definições da etapa anterior. na repetição. Em relação à primeira fase. como o próprio nome revela. pois a importância da informação pode estar na inclusão. pontuam o contexto do qual faz parte a mensagem. exploração do material. na exclusão. frases ou orações que foram destacadas das mensagens por sua relevância conforme com a proposta do estudo. trechos significativos e categorias. Gomes (1966. p. Por esta razão ao analista coube uma dupla função. A primeira foi compreender o sentido da comunicação.

que trata de pesquisas envolvendo seres humanos. Os entrevistados assinaram “o termo de consentimento” relativo à sua participação voluntária e a pesquisadora assinou um “termo de responsabilidade”. . Quanto às transcrições foram feitas na íntegra. Foram prestados esclarecimentos aos profissionais de saúde a respeito das questões éticas norteadas pelo disposto na resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. Para efeito de exposição pequenas correções foram feitas. ocorreram a partir do princípio de um tratamento quantitativo. QUESTÕES ÉTICAS Este estudo foi submetido e aprovado no Comitê de Ética e Pesquisa do hospital onde o estudo foi realizado. para garantia do anonimato.32 A terceira e última fase. com o objetivo de tornar mais claras as idéias dos depoentes. Alguns cuidados a cerca do material foram mantidos. Foi o momento de estabelecer articulações entre os dados e os referenciais teóricos. respondendo às questões da pesquisa com base em seus objetivos. foi conferido um código. A cada sujeito entrevistado.

cujo cuidado está relacionado a um tipo de atendimento que envolve um .33 3 – SENTIDOS DA HUMANIZAÇÃO NA VISÃO DOS PROFISSIONAIS DA UTI NEONATAL Nas entrevistas realizadas. Os trabalhadores da UTI Neonatal descreveram noções relacionadas a acolhimento. E por último. Foi comum observar as narrativas que falam da humanização do cuidado em saúde de duas formas distintas e complementares. Ressaltamos que os sentidos aqui expostos atribuídos pelos profissionais para assistência humanizada. e ao modelo de “cuidado ampliado”. registramos depoimentos que revelam o sentido de uma oposição ao termo assistência humanizada. Foi também identificado um grupo de depoimentos que apontam o sentido de assistência humanizada ligado à promoção de conforto relacionado ao quesito ambiência para o recém nascido. 3.1 – Cuidado Integral A humanização é vista para boa parte dos entrevistados como uma forma de assistência. não esgotam todas as concepções do grupo de profissões de uma unidade de saúde e nem são excludentes entre si. para representar mais um dos sentidos para assistência humanizada. o conceito de humanização associado a um modelo de “cuidado integral” . os profissionais da UTI Neonatal atribuíram diferentes sentidos ao que perceberam como assistência humanizada. para o sentido de assistência humanizada. ou seja. Iniciamos com o que foi identificado de forma mais constante. entre os profissionais de saúde.

Esta abordagem pode envolver outros profissionais de clínicas distintas..“Assistência humanizada. “Assistência humanizada é toda aquela assistência voltada para o paciente como um todo. que preconiza um modelo de prestação de serviço em saúde baseado na horizontalização.34 processo assistencial. não limitado a um órgão doente. daquele cuidado que privilegia a pessoa doente e conseqüentemente. a integralidade apresenta-se como um marco no modo de organização do processo de trabalho. o sentido empregado para cuidado integral pode apresentar variações em relação a outras definições encontradas na literatura.. envolve várias categorias profissionais na produção do cuidado em saúde. o autor aponta que a integralidade para se realizar pode necessitar do envolvimento e redefinições radicais da equipe de saúde e de seus processos de trabalho. e ser beneficiado nas diversas clínicas. não como um órgão doente. O terceiro.. que articula assistência e prevenção na medida em que o médico preocupa-se com o sintoma manifesto e com os riscos que por trás dele se escondem. Assim. relacionados às políticas denominadas especiais como a Política Nacional de Humanização.. O segundo. é ver o paciente como um todo... Neste sentido. O primeiro. mas na parte corpo-mente. mas enxergar a pessoa individual. Por tratar aqui de um trabalho empírico baseado. na análise do discurso dos profissionais. Não só na parte saúde. estaria ligado à organização dos serviços e as práticas de saúde.. tudo” (E7). acho que é integração entre pacientes e profissionais.” (E5). “Assistência humanizada é você tratar o paciente como um todo. Enxergar não só a doença.. está relacionado ao aspecto biomédico. Mattos (2004) enumera três sentidos para Integralidade. Trata-se assim. A vantagem deste modelo está em favorecer o usuário que pode buscar o atendimento em um único ponto do sistema de saúde. Neste sentido o ..” (E11). diz respeito ao atendimento de grupos específicos.

porque neste horário da dieta... na prática.” (E11) “. criando relações tensas e conflituosas entre as diversas equipes. Os critérios de atendimento utilizados por cada clínica podem interferir negativamente para esta assistência. acontece dentro de uma relação comunicacional entre microespaços individuais e coletivos.. Se por um lado.. Entendemos que o cuidado integral demanda um gerenciamento institucional que deveria ser facilitador da integração entre as diversas áreas de saberes que objetivam um único alvo: assistência ao paciente. “. para não dar a dieta... temos que intercalar entre as dietas.. ..como se não tivesse importância né ? !” (E12)... partindo dos serviços de apoio que interagem no Departamento de Neonatologia para a produção de cuidados.. em relação à assistência e à prevenção. A rotina nos mostra que a integralidade da assistência.. Como Mattos (2004) aponta.bem. implicitamente se expõe a questão da difícil articulação das diversas práticas profissionais. para não fazer o procedimento e acabam fazendo o procedimento e dando a dieta. para os profissionais da UTI Neonatal o sentido de assistência humanizada significa ter uma visão de “cuidado integral”. Ás vezes a gente consegue se programar entre um intervalo e outro de uma dieta. Cecílio e Merhy (2003) ao refletirem sobre a integralidade do cuidado no hospital. por outro. afirmam que o paciente é visto como um somatório de diversos e parciais cuidados. Eu sinto uma dificuldade de aceitar a nossa vez.. revelando uma trama de atos que configuram o fluxo.35 Governo é “chamado” a responder aos problemas de saúde pública. para gente conseguir fazer. seria um profissional da enfermagem que estaria mexendo com a criança. diversas vezes eu tentei atender e a enfermagem acaba boicotando. a rotina e o processo de trabalho dentro do hospital. os saberes. A gente pede para esperar um pouco. Então neste momento a gente não faz junto. muitas vezes é necessário .

. uma conversa relativamente simples. Não conhecia ninguém. este tipo de entrada dificulta a interação entre os profissionais. percebemos haver desconfortos para os profissionais das áreas especializadas que circulam na Unidade de Terapia Intensiva. sem uma apresentação ou exposição da função a ser desempenhada. “A minha entrada além de uma entrevista feita por uma chefe de serviço. estava chegando no hospital e fiquei muito constrangida. se não podia. por mais que conhecesse há algum tempo. eu entrei na UTI por conta própria sem ter nenhum tipo de referência. Pelo que percebemos. (E4) Parece que embora os profissionais da UTI Neonatal percebam o cuidado integral como uma expressão de assistência humanizada. Eu não tive um esclarecimento.. O ingresso dos especialistas acontece informalmente. Então. Mas como rotina. ainda enfrentam dificuldades em lidar com a integração da diversidade de saberes necessários na aplicação deste modelo de cuidado. e ia chegando ao paciente por contra própria. não formalizando a chegada do novo profissional.... Isto me traria uma certa vantagem no ambiente médico. uma pessoa que chegasse e dissesse: olha! a UTI é. feita naquele momento... não sabia se eu podia abordar uma pessoa.. existem especificidades de cada serviço que eu acho que poderiam ser escutadas. gerando resistências para o modelo de cuidado integral referido pelos entrevistados. Eu já sei mais ou menos para que serve a UTI Neonatal.36 uma redefinição mais radical da equipe de saúde e seus processos de trabalho para que haja uma integralidade efetiva na produção de cuidados. os profissionais mais antigos parecem pouco cooperar com os recém chegados na Unidade. Nas observações de campo e entrevistas. Como forma de resistência. . mais não muito. uma entrevista rápida. Assim. não tinha um tipo de funcionário a quem eu pudesse recorrer e eu me senti caindo de páraquedas ali e inicialmente eu fiquei muito constrangida porque eu era uma médica que não trabalhava naquela especialidade.

onde a comunicação se dá através de uma linguagem constituída de termos especificamente profissionais. a equipe de profissionais e os familiares passaram a compartilhar o ambiente hospitalar em função do paciente internado. estes buscam integrar de forma participativa. 550) A ocasião do nascimento de um bebê de muito baixo peso insere a família em uma nova realidade. com a equipe a família. também reflete o fato de nos últimos anos. no Capítulo I. Art. 12 que garante a permanência em tempo integral de um dos pais ou responsável. Comumente é uma situação que ocorre pela primeira vez na família. nos casos de internação de criança ou adolescente (1990). Esta interpretação. A partir desta lei. (p. O propósito desta integração é dar condições aos familiares para junto da equipe favorecer o tratamento e a recuperação pós-alta. os familiares que cooperam com os cuidados. que desconhece um modelo para cuidar de um bebê que nasceu de forma diferente. No hospital a família convive dentro de um ambiente de muitos recursos tecnológicos. as famílias dos pacientes estarem cada vez mais presente no hospital. O cuidado ampliado. está relacionado à preocupação da equipe de profissionais de saúde.2 – Cuidado Ampliado Outra perspectiva acerca do sentido de assistência humanizada narrado pelos entrevistados é o que chamamos aqui de modelo de “cuidado ampliado”. que o paciente recebe na internação. aprende novas referências de cuidado.37 3. apoiadas na legislação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). posto que. Braga e Morsch (2004) reconhecem a importância da integração entre o paciente e a família. Nesta experiência os pais dos bebês ao se integrarem com a . ao qual nos referimos. e apontam que o cuidado recebido pelo bebê no ambiente intensivo servirá de modelo de atenção o qual ele poderá receber posteriormente junto à família.

pelo fato de que o paciente ao ter alta dependerá de sua família para dar continuidade ao tratamento de forma domiciliar. uma vez que a equipe da Unidade de Terapia Intensiva. deixou de ser uma mera opção e agora faz parte de uma estratégia de cuidado em saúde. . na UTI Neonatal isto (o cuidado).. hoje existem projetos assistenciais que não só “autorizam”. Não é só a clínica. se estende às mães. “No caso do recém-nascido você inclui a família também. até para que melhore as condições clínicas dele. Como eu sou neonatologista.e aqui. Se antes. avós e irmãos tinham a entrada nas enfermarias limitada. Em conseqüência disto. não é só a doença. a equipe acumula como ganho a experiência de lidar com a subjetividade com que cada família encara o fato de ter uma criança internada em uma UTI.. Visa. a presença permanente da mãe.38 equipe de profissionais aprendem a lidar com essa criança. que não é o doente em si. que proporciona a redução do tempo de internação. a construção do vínculo afetivo da mãe com o bebê e a alimentação através do aleitamento materno.“O humanizado é olhar para o outro lado. mas está ali junto” (E10). Quer dizer. a cada novo paciente. Mas o bem estar deste indivíduo. a maior permanência dos familiares estreita o laço de confiança na relação profissional de saúde – paciente. ver este outro lado. mas incentivam a presença destes. entre muitos benefícios. Além de auxiliar para minimizar o estranhamento frente ao ambiente hospitalar. o que é extremamente importante. eu já me reporto à assistência que se presta ao casal e ao bebê” (E3). O que não podemos deixar de reconhecer é que este “aprendizado” se dá mutuamente. integra-se a uma nova família que apresenta seu modo particular de vivenciar a hospitalização. Principalmente quando falamos de recém-nascidos.

o plantonista autorizava.. nós tínhamos uma demanda grande de avós que vinham e ficavam no hall esperando.... Assim como a preocupação.. Aspectos como o apoio financeiro. ou mesmo amigos. então pensamos em um dia específico para os avós” (E 9). ficava aquela coisa de quebra-galho. que possam acompanhar e apoiar a gestação e os cuidados iniciais que um bebê necessita. Braga e Morsch (2003) lembram que atualmente algumas mulheres chegam na maternidade sem um companheiro.. faz parte do apoio instrumental. as autoras apontam para as situações em que alguém da própria equipe acompanha mais de perto o bebê e a mãe.81-82) Dessen e Braz (2001) colocam que a família pode proporcionar o apoio instrumental e emocional ao doente. Além dos familiares. dedicação e demonstrações de afeto. uma rede de apoio também tem que ser considerada.39 “O projeto dos avós também entra nesta linha de humanização enquanto rede de apoio.. não dá para você ver o seu paciente fragmentado. mesmo com o provável afastamento que se dá após a alta hospitalar. o médico autorizava. Ainda na impossibilidade de recrutar um agente da rede social da mãe. outras pessoas como amigos. Frente a esta situação. podem fazer parte da rede social de apoio. “Eu vejo na assistência humanizada. companheirismo. Eu vejo a assistência humanizada como uma coisa geral. né?! A gente trabalha com um recém-nascido de risco com uma família de risco . Vinha uma avó aí. o serviço social autorizava. pontuam a possibilidade da mãe contactar familiares (como irmãos ou avós). não só a questão do doente. Estes suportes sociais são ... não só . companheiros. Nestes casos cabe a mãe selecionar pessoas do seu convívio nas quais confia e que são capazes de acompanhar nas situações que podem surgir. divisão de responsabilidades e registro das informações. a enfermagem autorizava. vizinhos e profissionais.” (E9).. (p. são atitudes que apóia emocionalmente aquele que se encontra adoecido. Então. dependendo do caso...

como o nascimento de um bebê prematuro (Dessen e Braz. “Eu entendo assistência humanizada. tem como atores os integrantes da rede de apoio social. Concluímos que os modelos de cuidados aqui expostos. Enquanto o cuidado ampliado.” (E8). complementares. como também os seus familiares.. nestas circunstâncias. sobretudo para o enfrentamento de situações estressantes. na prática assistencial. enxergar a pessoa dentro da comunidade e da família” (E5). não somente a parte física. 3. embora se apresentem distintos por definição são. então. “.. O cuidado integral representa uma rede de clínicas da qual fazem parte os profissionais de saúde das diversas especialidades. podemos concluir que estas duas redes. como você cuidar do paciente.. No entanto..3 – Promoção de Conforto O terceiro sentido identificado pelos profissionais de saúde da UTI Neonatal como norteador de assistência humanizada inclui a questão da promoção de conforto. visam o único objetivo final de promover a saúde do bebê que se encontra internado na UTI Neonatal. querendo ou não é um paciente que envolve a família.40 percebidos como fundamentais para a manutenção da saúde mental. logo confirma um processo ampliado de produção de cuidados. (cuidado integral e cuidado ampliado). O paciente tem uma vida. precisa ter uma infra-estrutura em todas as questões que vão fazer conexões com este paciente” (E1). mas enxergar a pessoa individual. 2001). Foi revelada uma prioridade em oferecer condições para que o recém nascido internado sintase confortável. “Assistência humanizada é você tratar o paciente como um todo. .Enxergar não só a doença.

Em função disto. 497) O ambiente da UTI Neonatal é de intensa movimentação. mas também para suas famílias. dar maior atenção ao posicionamento do bebê. (p. “Os equipamentos.” (E12) Percebemos que neste contexto. . evitando aberturas prolongadas de incubadoras e exposições repetidas do bebê ao frio. Moreira e Bomfim (2004) concordam ao relatarem que o ambiente físico de uma Unidade de Tratamento Intensiva Neonatal é estressante. o conforto faz referência à minimização de ruídos e luminosidade. preservar a temperatura em um ambiente termo-neutro. 497). Também nesta parte do dia. cuidados com os procedimentos invasivos e outras fontes de estresse para o recém-nascido. utilizar tratamentos menos estressantes (preferir equipamento que exijam menos manuseio). principalmente no horário da manhã. Então ter um ambiente que proporcione maior conforto. round e outras atividades dentro da Unidade. não somente para os bebês.41 “É uma forma de ajudar o paciente. verificação dos sinais vitais e os procedimentos programados pela equipe médica. circulam um número significativo de profissionais que participam de visitas. usar a política dos toques mínimos. As autoras recomendam que algumas modificações que devem ser feitas no ambiente físico. no caso o recémnascido. reduzir o número de vezes em que o bebê é incomodado. uma estrutura. as luzes piscando costumam gerar muita ansiedade na família e até mesmo nos profissionais que ali trabalham” (p. os bebês são manipulados para a higiene. quando há troca de plantão e são realizados os cuidados de rotina com os pacientes. São elas: diminuir o nível de ruído e som: reduzir a quantidade de luz. um ambiente mais favorável ao seu acolhimento durante a internação. os sons dos alarmes. a ter um melhor conforto.

o profissional parece não lembrar que pequenas trepidações ocasionam impacto para aquele que permanece no interior da incubadora. Vozes humanas são somadas ao barulho de monitores e de outros equipamentos.. 101-137). quando está no momento tenso ou no momento relaxado. levando-o à fadiga.. Você percebe pela mão. não apoiando objetos em cima dela. em tudo você percebe se aquela criança está confortável” (E 10). irritabilidade e choro. Segundo recomendação do Manual Técnico do Método Mãe-Canguru o nível de som pode ser reduzido se as pessoas falarem mais baixo. Na UTI Neonatal do nosso campo de pesquisa.. as luzes artificiais permanecem acessas durante todo o dia. Apenas o recurso da colocação de um lençol . você percebe pelo rosto.. assim como interferir em seu sono e repouso. por exemplo. embora existam bancadas próximas. uma variação de barulhos intensos e repetitivos está constantemente presente neste ambiente. trazendo possíveis conseqüências de ordem física e emocional. agitação. (p.. falam desapercebidamente com empolgação e em alto tom entre as incubadoras. Foi percebido que não há possibilidade de redução da luminosidade em determinadas fases do dia. “Olhando você percebe. mamando no peito. Nesta atitude “automática”. Como pode ser observado no campo. Algumas vezes profissionais imbuídos do calor de uma discussão técnica ou mesmo de eventos acontecidos em um final de semana..90) Rápidas anotações são feitas sobre as incubadoras. e estarem cuidadosas ao fecharem as portas e portinholas da incubadora. (p.42 O efeito deste ritmo intenso da UTI é visível para os profissionais que se preocupam com a questão do conforto dos bebês hospitalizados... até pela feição. Rolim e Cardoso (2006) ressaltam que os níveis de barulho podem atingir o frágil sistema auditivo do bebê.

. é utilizada. Isso significa que eles começam gastar mais tempo durante cada período do sono profundo. este reconhecimento seja motivação para que se preocupem em oferecer redução dos incômodos ambientais aos bebês hospitalizados e suas famílias. Ter mais silêncio. conhecido como “tetinho”. isto é difícil observar na UTI. Sendo assim. não é o que encontramos no nosso campo de pesquisa. Momentos em que houve uma preocupação em relação a isto. 499). e menos tempo no sono leve em comparação aos bebês que ficam sob iluminação constante (p. p. traz benefícios para a saúde do recém-nascido. geram alguns efeitos indesejados. a situação do barulho. mais tranqüilo. podendo ter como resultado alteração no ciclo do sono. considera-se que a alternância de períodos de claridade com períodos de penumbra. e oportunamente promove a adequação gradativa do bebê no ambiente externo ao útero materno. quando luzes são diminuídas por algumas horas e o bebê não é perturbado. como estímulos nocivos para o bebê recém nascido. Certamente. avançam mais rapidamente no seu ciclo de sono-vigília. Favorecendo um melhor repouso dos recémnascidos. um ambiente mais calmo. a menos que algum procedimento seja realmente necessário” Moreira e Bomfim (2004. principalmente na UTI de alto risco” (E12). Talvez. estes eventos são fontes de estresse para os pequenos pacientes. “Em muitas UTI Neonatais. provenientes de suas práticas. “Já presenciei algumas vezes. principalmente na UTI. Pelo que parece. Mas. Segundo Moreira e Bomfim (2004) os prematuros que estão em UTI que diminuem a luminosidade à noite. Apesar do conhecimento teórico do que pode ser benéfico ao recém-nascido. os profissionais reconhecem que estas ações.499). ter um ambiente com luz baixa.43 sobre a incubadora. Sabemos que o excesso de luz é extremamente agressivo ao bebê. ‘um tempo de silêncio’ é garantido durante o dia.

estabelecer vínculo/responsabilização das equipes com os usuários e aumentar a capacidade de escuta às demandas apresentadas.4 – Informação com expressão de Acolhimento Um outro tópico que descreve o sentido de assistência humanizada para os profissionais de saúde da UTI Neonatal é o acolhimento. a valorização das queixas. envolvendo a escuta. Colocam a importância de a equipe informar aos pacientes tudo em relação à rotina. que busca alterar as relações entre trabalhadores e usuários com o objetivo de humanizar a atenção. L. 3. Ao descrever sobre o que pensam ser assistência humanizada os profissionais entrevistados relatam a importância de manter o paciente e a família informados de tudo que lhe ocorre. e deve ser a atenção dispensada na relação. Pereira (2004) recorre a Deborah Malta (1996) e Fracolli. Tentar fazer com que a assistência hospitalar seja menos estressante possível” (E2). O autor descreve que o acolhimento é um instrumento de trabalho que incorpora as relações humanas. .44 “Assistência humanizada é aquela que você consegue prever mais conforto para a família. é uma estratégia de mudança do processo de trabalho em saúde. os procedimentos e as possíveis intercorrências. Aponta o autor que o acolhimento.A. a identificação de necessidades.(2001) para definir acolhimento. menos estresse de estar dentro de um hospital. Os trabalhadores parecem descrever a noção de acolhimento como uma referência ao conteúdo de informações que é oferecido pela equipe de profissionais de saúde aos usuários da Unidade de Terapia Intensiva Neonatal. assim como a integralidade (grifo nosso). enquanto durar a hospitalização.

acolher. interpretamos que os profissionais ao enfatizar a oferta de informação aos usuários. tendem a ser minimizada. entendemos que é possível acolher sem informar. Entretanto. as informações que são transmitidas pela equipe de saúde precisam ser claras e significativas para o universo de referência de quem ouve. Acho que isto tudo é acolhimento. os ruídos comunicacionais ocasionados pelas mensagens de duplo sentido podem ser evitados. entre outras. . Contudo. Quando os usuários são comunicados sobre as regras da rotina as quais são submetidos. “De repente sobre o tratamento ele pode ter uma dúvida quanto ao tratamento. Ou seja. estão referindo-se a uma forma possível de acolhimento. É uma parte da humanização” (E7). Entendemos que assim. as suas angústias. como horários de visitas e refeições. perguntar sobre o exame. Lembramos que. Um exemplo é a prática de conhecer o local onde o recém nascido permanecerá hospitalizado. Reconhecemos que a estratégia da oferta de informação minimiza alguns dos conflitos que acontecem entre os familiares de pacientes e a equipe de saúde. podem potencialmente colaborar de forma mais adequada dentro do esquema operacional da Instituição. ele pode ir ao médico assistente e pedir alguma informação. da mesma forma que informar não é. informar sem acolher ou conjugar ambas as ações: acolher incluindo nesta troca dialógica a provisão de informação. Se for fazer um determinado exame. necessariamente. Percebemos que quando o paciente é suficientemente informado. nos cabe ressaltar que o acolhimento não está exclusivamente condicionado à oferta de informação. ocasião quando os medos e preocupações podem ser exteriorizados.45 Tomando como base estes eixos de sentidos para acolhimento. os profissionais de saúde entrevistados entendem a oferta de informação como uma manifestação de acolhimento.

se faz necessário uma aproximação entre equipe e usuários.592). corresponde aquele componente das conversas que se dão nos serviços em que identificamos elaboramos e negociamos as necessidades que podem vir a ser satisfeitas. ter acesso às informações. o acolhimento reflete uma rede de conversações dentro da integralidade do cuidado. Portanto. o acolhimento-diálogo. Nas palavras do autor: Brevemente. Pereira (2004) diz que acolher não significa a resolução completa dos problemas referidos pelos usuários. afinal...46 “A gente tem um diferencial na assistência ao perfil de casais que a gente tem aqui. Para o autor a importância do acolhimento está na sua característica dialógica. Do tipo de abordagem que começa desde o pré-natal. já explica . Enfatizamos que é necessário um cuidado para que a noção de acolhimento não fique restrita a questão do acesso às informações. organiza um pouco mais as emoções daquela família” (E3). onde o foco está na tentativa em suprir as necessidades dos usuários. Para atender as necessidades destes usuários.. Já conversamos com este casal. mas a atenção dispensada na relação. com o objetivo final de reduzir o estresse provocado pela situação de hospitalização. o que acontece através da comunicação entre as partes. Ainda sobre acolhimento. Este entendimento nos parece um tanto reducionista.. O . não é suficiente para atestar que as mesmas foram processadas e elaboradas por quem as recebem. Já mostra a UTI. o próprio Departamento de Neonatologia já conversa com eles. Para esclarecer os termos que vão sendo muito difíceis para a gente estar compreendendo. Nesta perspectiva. (p. Para Teixeira (2005) o trabalho em saúde possui uma natureza eminentemente conversacional por esta razão passou a tratar as redes de serviços de saúde como grandes redes de conversações. no sentido mais amplo possível. nem sempre receber informações significa garantir um diálogo configurando a troca comunicacional.

47 que só é possível quando a comunicação entre profissionais e usuários realmente acontece através do diálogo. Finalizamos esta seção com Santos e Assis (2006). clínica.. dando respostas adequadas a cada demanda. A gente precisa de uma equipe qualificada na portaria para estar orientando os nossos usuários.. retorno. registrou ser este o sentido mais reiterado por todos entrevistados. A presente pesquisa coincide com a realizada recentemente por Deslandes (2005) que ao entrevistar a ótica de gestores sobre a humanização da assistência nas maternidades municipais do Rio de Janeiro. atos de descrever e ouvir a população que procura os serviços de saúde. 621). atento às necessidades psíquicas ou sociais da gestante ou da mãe e da família do bebê (p. referindo acolhimento como um cuidado. que indicam o acolhimento como um tipo de tecnologia relacional. (pág. mas eu vejo a assistência humanizada. mediante qualquer situação. que pode ser apreendido com ações comunicacionais. seja em qual momento for. em todos os percursos da busca (recepção. remarcação e alta). na questão do acesso né?!” (E9). Também é necessário diluir a idéia de acolhimento enquanto atividade executada exclusivamente pelo profissional da recepção ou portaria e conceber como uma técnica de conversação que pode ser aplicada por qualquer componente dos serviços de Saúde. “Assistência Humanizada é um conjunto né? A gente está falando de UTI Neonatal. encaminhamento externo. 54) . ela começa na porta de entrada da Instituição. O Acolhimento nos parece um tema bastante presente no coletivo dos atores envolvidos na produção de cuidados.

o qual considerou que a assistência é por definição essencialmente humanizada. justificando ser esta uma expressão redundante. associada ao reconhecimento dos direitos do paciente. e que mais tarde transformaram-se em propostas que visam modificar as práticas assistências (Vaitsman e Andrade.5 – Negação ao termo Humanização Por último citamos o sentido menos evocado quando se trata da denominação da assistência humanizada. o número de denúncias de . que a idéia de humanização passou a fazer parte do vocabulário da saúde. ao contrário serve para atribuir qualificação.623). 2005) . seu significado está associado ao conjunto de iniciativas que valoriza a qualidade técnica do cuidado. Algumas vezes. Porém.48 3. Foi possível registrar a condição de “negação” em relação ao uso do termo – assistência humanizada. A resistência ao uso do termo humanização também é citada na literatura por Deslandes (2005) que registrou depoimentos onde gestores enfatizam que a assistência é humanizada porque advém da medicina que atende ao ser humano (p. assim como o reconhecimento do profissional Deslandes (2004). lembramos que um dos objetivos foi melhorar a qualidade da assistência. posto que. Este tema foi narrado por apenas um dos sujeitos entrevistados. Ao resgatar a história da Política Nacional de Humanização. Foi a partir da década de noventa. O termo humanização por ser polissêmico tem sido explorado no campo da produção de cuidados de formas variadas. inicialmente como um conjunto que apontava o caráter impessoal e desumanizado da assistência à saúde. de sua subjetividade e cultural. entendemos que a expressão não traz o propósito de banalizar a assistência. Considera um equívoco o uso do termo assistência humanizada.

652). equânime e integral a todos os cidadãos brasileiros (p. de outro. Estas ações podem ser consideradas desumanizantes.562). “Havia escolhas. E quando se trata de gravidez de alto risco? É garantida assistência ao recémnascido de baixo peso em todo território nacional. O diagnóstico ratificava a complexidade da tarefa de se construir de modo eficaz um sistema público que garantisse acesso universal. que mostra a existência de sérios problemas de gestão e no atendimento ao usuário. . Sendo assim. O debate ia se montando em torno das condições precarizadas de trabalho. 2000) Em 2003 Benevides e Passos (2005) enfrentaram um debate no Ministério da Saúde em função das diversas concepções geradas a partir do termo humanização e a tensão em função das divergências. das dificuldades de pactuação das diferentes esferas do SUS. Frente a estas diferenças. por exemplo. de um lado. De qual assistência por excelência humanizada nos referimos se na prática sabemos. ou ficamos restritos a algumas capitais brasileiras? Sabemos que iatrogênias e procedimentos desnecessários ainda fazem parte da realidade na produção de cuidados. que visavam aos ‘focos e resultados dos programas’ e. que problematizavam os processos de produção de saúde e de sujeitos no plano mais amplo da alteração de modelos de atenção e de gestão” (p. do descuido e da falta de compromisso na assistência ao usuário dos serviços de saúde.49 maus tratos nos hospitais passou a ser uma das preocupações do Ministério da Saúde. da peregrinação das mulheres nos hospitais da rede pública a procura de vaga para parir. foi percebida uma urgência de reavaliar conceitos e práticas nomeadas e humanizadas. (Ministério da Saúde. nos deparamos com a realidade dos serviços de saúde do nosso país. ao concordarmos que assistência deve ser por excelência humanizada.

Diniz (2005) coloca que o termo Humanização é estratégico. muitos com uma missão de política pública. poderiam representar para os profissionais desta UTI Neonatal.563) ao citar que a humanização é parte de uma estratégia de interferência no processo de produção de saúde ligada à política pública e Ayres (2005. Por isso. Portanto. No entanto não podemos nos negar a atual realidade que aponta para a necessidade de um novo modelo assistencial. estão influenciados pelo discurso circulante na produção de saúde. acreditamos que outros sentidos.635). colocar um ponto. sobretudo na Política Nacional de Humanização. como ilustra (Benevides e Passos p. o que eles entendem como assistência humanizada.“. não estamos falando de modelos assistências engessados. Da mesma forma que o uso do termo humanização pode ser tornar mais apropriado na medida em que ganhar maior consistência na sua interpretação no campo da produção de saúde. Seria possível pensar que os sujeitos deste estudo. Pela polissemia do termo.” (E3) Entendemos que ainda é necessário manter um esforço contínuo de redefinir. para dialogar com os profissionais de saúde sobre a violência institucional (p.. Visto sob esta perspectiva. reavaliar e criticar os diversos sentidos que estão implícitos no termo assistência humanizada pautado no atual cenário de produção de cuidados.. pensamos que diante da adesão destas políticas. a assistência pode constituir um espaço em modificação. p. concluímos este capítulo com algumas reflexões acerca das escolhas realizadas pelos trabalhadores do nosso campo de estudo. Atualmente a humanização mais que um termo em uso comum. está explicitamente vinculada aos programas. acho que assistência é assistência e ponto. não finaliza a questão. diferentes dos aqui descritos.552). menos acusatório.50 Neste sentido. onde o . Se reconhecermos a existência destas estratégias de modificação do atual modelo assistencial. propostas e projetos que propõem mudanças da prática assistencial.

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tema central está na qualificação da assistência, que considera o protagonismo do usuário, a subjetividade que o cerca e a proposta de atendê-los em suas necessidades? Ou, as escolhas estiveram pautadas no conhecimento que os profissionais possuem sobre a aplicação do Método Canguru em outras UTI’s do Sistema Único de Saúde? Os sentidos descritos pelos entrevistados, estariam sob a influência do que é ministrado nos cursos de capacitação, promovidos pelo SUS e pelos gestores, dentro desta temática? Ou estes são sentidos que representam a marca desta UTI Neonatal, e suas ações prioritárias dentro da sua prática?

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4 – AÇÕES DE HUMANIZAÇÃO DESCRITAS PELOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DA UTI NEONATAL

O propósito deste capítulo é confrontar o que os profissionais descrevem como sentidos de assistência humanizada e as ações por eles descritas como humanizadora dentro da assistência. Lembramos que as representações sempre contêm ambigüidades e idealizações e não são necessariamente coerentes com as práticas. No entanto, acreditamos que este confronto como um exercício analítico vem enriquecer a compreensão dialética dos significados e ações. A maior parte das ações de humanização descritas pelos profissionais de saúde da UTI Neonatal, apesar de apresentar algumas ambigüidades estão de certa forma ligadas ao que anteriormente relacionamos ao cuidado ampliado. Os entrevistados citaram ações que estão vinculadas à presença das mães e dos familiares. Por esta razão, a integração entre Instituição e familiares se apresentou com uma das temáticas presentes. Alguns relatos asseguram as ações de humanização enquanto uma atitude cotidiana. As negociações entre equipe de saúde e acompanhantes frequentemente feitas na rotina da UTI Neonatal , também são descritas como ações de humanização. Também foram analisadas ações de humanização citadas pelos profissionais da UTI que preconizam o respeito frente às particularidades de cada paciente internado. Outro importante tema relacionado ás ações de humanizações descritas pelos profissionais de saúde da UTI Neonatal diz respeito à oferta de informação.

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O desenvolvimento de projetos assistenciais foi lembrado como fonte de recursos sociais que auxiliam na garantia da produção do cuidado dentro da instituição, durante a internação, como também na ocasião da alta hospitalar.

4.1 – Integração Entre Familiares & Instituição

Percebemos nos depoimentos dos profissionais que existe uma preocupação em facilitar a interação entre os familiares e a Instituição. Esta preocupação parece ser uma maneira de garantir a participação e a permanência dos acompanhantes junto ao paciente hospitalizado.
“Eu procuro quando vou atender uma criança... vou procurar os pais.. estar participando aos pais né?!... o que estou fazendo , o que a criança tem. e coloco à disposição. Procuro me integrar à família e ela ao atendimento” (E11).

Esta interação parece ocorrer na medida em que o tempo de internação dos pacientes se torna longo e o contato das mães com a equipe mais freqüente. Quanto mais longa a hospitalização, maior o número de situações onde a equipe e os responsáveis estão em diálogo.
“As mães ficam mais em contato, elas vão amamentar seus filhos e tem maior contato conosco. Conforme vão ficando na assistência ... com o tempo, elas ficam mais ligadas conosco e demonstram isto em forma de confiança” (E1)

Sobre a confiança, reportamos a Teixeira (2005) que descreve a respeito das potencialidades relacionais entre os usuários e os profissionais de saúde. O autor pontua que a qualidade dos encontros empresta maior ou menor potência à relação. Quando há uma simetria construtiva do encontro, indica a existência da chamada zona de

. no entanto faz necessário lembrar que se trata de uma condição legitimada através do Direito da Criança e do Adolescente Hospitalizado (Ministério da Justiça. recebendo informações sobre os procedimentos a que será submetido. A longevidade dos encontros pode levar a certificação da zona de comunidade e transformar o que inicialmente foi construído com base na empatia em uma relação de confiança. podemos destacar um depoimento onde o profissional relatou como ação de humanização.. Ainda pensando na interação entre os usuários e equipe de saúde. 4. é difícil né?!? Não sei. conceder a permissão para os pais acompanhar o filho enfermo nos procedimentos.. Colocam que as suas ações de humanização fazem parte de uma atitude cotidiana e permanente. 595). (Resolução de número 41 de 17 de outubro de 1995).. relataram em seus depoimentos que suas ações não configuram uma atitude isolada frente a uma situação ou a um paciente.. agora não vou lembrar. levar a criança na sala de parto. Sabemos que esta é uma atitude que pode ser traduzida como uma ação de humanização. “Ah. os quais são submetidos. Direito a que seus pais ou responsáveis participem ativamente do seu diagnóstico.. tratamento e prognóstico. 1995).2 – Ação de Humanização como Atitude Cotidiana Alguns dos profissionais de saúde quando solicitados a descrever situações em que julgaram ter sido prestada assistência humanizada. . onde uma das partes busca satisfação de necessidades e a outra presume poder satisfazê-la (p.54 comunidade... estas coisas... deixar a mãe acompanhar um exame junto com a criança” (E2)..

sejam capazes de agir de forma humanizada de forma cotidiana como práxis de trabalho.55 “Eu julgo que geralmente eu consigo. Ela (ação de humanização) está presente em tudo. Este depoimento. além de apontar a dificuldade para a definição do que seja humanização. Portanto. uma política transversal com o objetivo de ultrapassar as fronteiras dos diferentes núcleos de saber e poder. Pensar nas ações de Humanização como uma atitude cotidiana. para a construção de propostas e projetos de humanização. a exemplo do SUS. percebemos que os entrevistados também procuram encontrar uma definição de humanização que melhor se enquadre no contexto de suas ações. . um fato. A humanização não é uma técnica. parece estar próxima a meta da Política Nacional de Humanização que se apresenta como. um tipo de abordagem. em todas as esferas envolvidas na produção de cuidados. No entanto. é uma atitude global diante do paciente. Então todos os momentos você tem este olhar” (E 10). Acho que a humanização tem que ser desde o momento em que você chega na enfermaria e dá o bom dia até o até logo” (E 4). integrando os processos de trabalhos e as relações entre os trabalhadores. entendemos que a proposta da Política é que os profissionais. “A humanização não é uma técnica. Semelhante a idéia existente em relação aos macros-processos de produção de cuidados capazes de formar redes. 2000a). quais são as ações relacionadas à assistência humanizada por eles realizadas. prestar uma assistência humanizada de uma forma geral né?! Eu acho que é isto que eu estava falando. se limita em citar o que não é humanização. quando a produção de cuidados possui um processo de trabalho facilitador em todas as etapas. (Ministério da Saúde. Os profissionais definem a partir do conceito de humanização. “Não dá para isoladamente citar um caso. Entendemos que as ações humanizadas estão presentes no cotidiano. um fato ou um tipo de abordagem”.

8). uma situação ... sobretudo. todas as demais políticas deverão se articular por meio deste eixo. Percebemos que as regras. Por exemplo. Este tipo de relato mostra que algumas situações ímpares dentro da UTI Neonatal demandam um tratamento diferencial. p.... os profissionais invocaram algumas questões relacionadas à rotina da Unidade e os ajustes necessários para atender as situações específicas que fugiam às normas gerais. Por se tratar de uma população bastante diversificada. os usuários da UTI Neonatal. embora necessárias para manter o ritmo e a organização dos serviços na UTI Neonatal. para isso. “Deixa eu pensar. de destacar os aspectos subjetivos e sociais presentes em qualquer prática de saúde” (Ministério da Saúde 2004.56 “(. que a gente teve que fazer um ajuste na nossa rotina diária de trabalho” (E5).. são elaboradas ações específicas como projetos assistenciais e respeito às particularidades do usuário conforme descrevemos no decorrer deste estudo. No dia a dia existem várias situações assim.. 4. .3 – Rotina e Negociações Ao relatar ações de humanização.. Trata-se. e. não engessam a percepção dos profissionais de saúde e não impedem de serem flexíveis na avaliação dos casos e na concessão de alterações. trazem consigo peculiaridades e problemas da mais variada natureza...Depende. teve uma pessoa aqui que a gente teve que fazer.) o SUS deve ser contagiado por esta atitude humanizadora. como todos aqueles que buscam atendimento nos hospitais. Na análise das ações descritas pelos profissionais reconhecemos que aos aspectos subjetivos e sociais.

na tentativa de tornar a assistência mais humanizada. aumentar a adesão ao tratamento e outras razões. os imprevistos. Uma pessoa que não tem mãe. os profissionais alteram a rotina. tem muita coisa de ajuste que depende do momento” (E5). Assim. a maneira mais adequada de realizar o trabalho de forma a atender os diversos contextos específicos. “A gente vai abrindo um procedente aqui.57 Algumas vezes é necessário quebrar normas como horários de visitas. É esclarecido no documento que as situações cotidianas. Irmãos não fazem parte da rotina. um procedente ali. mas a gente abre este precedente. A gente abre este precedente. mas tem um vizinho que ela goste muito. para dar conta da realidade complexa do trabalho. Esta idéia converge ao que se define como prescrições a Cartilha Gestão e Formação de Processo de Trabalho desenvolvido pelo Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização do Ministério da Saúde (Ministério da Saúde. a construir o curso de suas ações. a inventar o melhor modo de trabalhar. fortalecer o vínculo entre a mãe e o bebê. e etc. os trabalhadores são convocados a criar. se estabelece a diferença entre o que é para ser feito (tarefa prescrita) e o que se faz (atividade real). para tentar humanizar mais” (E5). apesar de não estar na nossa rotina é essa pessoa que vai visitar. Diante do exposto. . Então. a improvisar. 2004) A Cartilha diz que as prescrições são as regras que definem como o trabalho deve ser realizado. nem sempre são definidos pelas prescrições. mãe e avós ponto. Á título de agregar as famílias. não tem pai. as normas que regem o funcionamento da Unidade são flexibilizadas. “Uma coisa que está escrito na rotina da visita em UTI é: visita para pai. As alterações são feitas na medida em que os profissionais percebem as necessidades que surgem frente às situações do dia a dia. Assim. como já foi abordado no marco teórico. de refeições.

tem aquela criança crônica. que leve em consideração o que cada paciente tem de particular. a personalidade. E a criança chora. No entanto. Mas na prática é diferente. tratar o paciente pelo nome. eles (os médicos) puxam nossa orelha. chamam atenção.. age inconscientemente sem perceber a variação entre a tarefa prescrita e a atividade real.. Em outras situações. “Chupeta não pode. é muito diferente. Mas. as situações colocadas o leva a conduzir sua tarefa dentro da realidade apresentada no contexto. o quadro dela não se altera.4 – Respeito às particularidades dos usuários Ao descrever as ações de humanização. este mecanismo pode ocorrer frente qualquer atividade do processo de produção. são em geral.58 Algumas vezes. de cada paciente. Pega-se uma luva. respeitando a particularidade de cada caso.. Às vezes se improvisa uma chupeta. dá um nozinho e oferece. não é certo. mas não pode né? Às vezes não tem como esconder. Sendo assim. Você vai fazer o que? Você não tem tempo de ficar com a criança no colo. os profissionais lembram a importância de produzir uma assistência. o profissional ao buscar novas maneiras de fazer o seu trabalho.) A abordagem que o especialista vai fazer. e não se toma nenhuma condução em relação aquela criança. e a mãe não está aqui. Para os entrevistados as ações que preconizam as singularidades dos usuários. Resolve. coloca um algodãozinho. chora. outra é a prática” (E7). 4. o trabalhador parece consciente que esta variação pode representar uma transgressão das normas estabelecidas. Não é certo. . acho que tudo isso tem que ser muito bem misturado com este respeito” (E4). desde que o profissional tenha que responder a um problema decorrente do seu trabalho. uma coisa é a teoria. aquelas baseadas no respeito ao paciente. “(.. respeitar o limite. Mas como você vai fazer uma criança acalmar? Você dá isto e ela fica bem calminha. o momento melhor ou não para aquela abordagem’.

a equipe parece estar atenta em agrupar os procedimentos mais invasivos.. podem influenciar significativamente o enfrentamento de cada família diante da internação de um recém-nascido na UTI. “Acho que aqui dentro. você tem que deixar ela se acalmar um pouco. religiosas e financeiras.. Além deste aspecto. deixar ela na incubadora um pouquinho. nem sempre segue o estabelecido pela rotina. deixar um pouquinho pra você poder continuar a tarefa. Em relação à produção de cuidados junto aos bebês. . mas na maioria. concordamos que o reconhecimento e respeito às particularidades dos pacientes é um dos critérios para o profissional de saúde identificar a melhor forma de suprir as necessidades do usuário. estando algumas vezes. O que talvez se justifique pela existência das “tarefas técnicas” prioritárias em função do estado clínico dos pacientes e do tempo disponível que os profissionais dispensam a cada bebê. a fim de manipular minimamente o paciente. embora os profissionais reconheçam o respeito às particularidades do paciente como uma ação humanizada. a criança ás vezes precisa. o momento de cuidar do bebê internado na UTI Neonatal. a gente sempre faz isto. Acho que quase em todos os procedimentos. Portanto. A questão do tempo pode estar apontando para o fato de que. as referências culturais do paciente e sua família são aspectos importantes..59 Percebemos que respeito aqui referido tem como sentido oferecer um atendimento mais personalizado ao usuário. As diferenças sociais. Enrolar. claro que muitas vezes você não tem tempo. Assim.. né?! Em um banho. dá para você fazer uma assistência humanizada sim” (E6).. o ritmo da rotina não permite que ações como estas sejam sistematicamente aplicadas na Unidade. Neste propósito. assim como os recursos emocionais por eles utilizados para enfrentar a situação de estresse. ás vezes a criança está chorando muito. de instruções. relacionado também às condições físicas e emocionais do paciente.

Sabemos que as especialidades que atuam na UTI Neonatal são diversas. daquele setor que ele está sendo internado. onde o paciente é atendido por várias especialidades clínicas. conseqüência da superlotação de pacientes e do número reduzido de recursos humanos que representa sobrecarga de trabalho para o profissional. como é a recepção.60 Pensamos que a questão da falta do tempo expressa. outros fatores desfavoráveis para a execução das ações de humanização.5 – Informação Na análise dos depoimentos percebemos uma reincidência do tema informação. Apesar da falta de tempo.. de forma latente. uma das práticas valorizadas pelos profissionais nesta Unidade. . Provavelmente. como é o serviço do hospital que ele esta sendo. é visível que os profissionais buscam dentro das suas tarefas diárias. E o que ele não pode fazer. Eu acho que isto é uma das partes da humanização” (E7). E o que ele pode fazer.. Manter o paciente informado acerca de todo o processo da produção de cuidados vem sendo cada vez mais. explicar para ele (usuário) o que vai ser feito. saídas para manter como prioridade o que eles entendem como respeito ao paciente e produzir uma assistência mais humanizada. 4. ou qualquer outro impedimento. A informação é uma estratégia de grande importância diante do modelo assistencial fragmentado. Por esta razão manter o usuário informado pode levá-lo a perceber a articulação existente entre as diferentes áreas de cuidados. “É preciso chegar. nos apresentar. O que vai ser feito.

né?! Quando você fala que uma pessoa está sofrendo é porque ela está triste. visando que a permanência destes na Unidade não cause transtornos para a equipe ou venha interferir de forma negativa no tratamento do paciente. os termos que a gente usa tecnicamente são muito curiosos. os termos no universo da medicina. a equipe busca fazer um trabalho para tornar a linguagem médica menos enigmática para os usuários deste serviço. A oferta de informação. Em função do vocabulário próprio da profissão. p. Outros nomes são totalmente estranhos aos ouvidos dos pais como gastrosquise. muitas vezes têm sentidos diferentes para aqueles que acompanham os bebês hospitalizados. é uma coisa que reflete na emoção. Mas mesmo assim.16). As mães que permanecem junto a estes bebês recebem e dão informações acerca de seus filhos. assim como. Quando a gente fala que o bebê está em sofrimento. Existe uma intensa circulação de profissionais que examinam. manipulam os bebês. então. Porque os termos médicos. Hoje em dia. é porque em geral está faltando oxigênio para ele. .61 Em contrapartida.. No nosso dia a dia. com a finalidade do cuidado. mielomeningocele e aloimunização RH (Moreira et cols 2003. também pode estar alinhada ao propósito de facilitar a comunicação entre os familiares e a equipe. informação também tem a função de orientar o comportamento dos familiares.. Isto porque. Portanto. era uma paciente que estava muito confusa. a comunicação pode se tornar ambígua. “Eu acabei de fazer isto com uma paciente agora. promover a participação ativa destes em relação ao seu bebê doente. elas são um importante agente neste processo. E a gente usa este termo de forma muito indiscriminada” (E3). eles têm um significado completamente diferente. onfalocele. elas já vêm para a consulta com uma compreensão bem melhor do que alguns anos atrás. Para que a troca de informação aconteça de forma menos ruidosa. ela está com dor. indagam.

tocando e cuidando do seu bebê até o momento em que possam acolher de forma mais íntima. que assim os pais ficam mais próximos. ganham um lugar mais ativo dentro do processo de produção de cuidados em saúde. ele pode ir ao médico assistente e pedir algum esclarecimento. Pensam as autoras.. os pais após serem informados sobre os . vemos a importância das trocas de informações entre os familiares e a equipe. ele (usuário) pode ter uma dúvida quanto ao tratamento. de ter um bebê prematuro hospitalizado. ou seja. representado através da sua participação nas tomadas de decisões.62 No caso do usuário da UTI Neonatal. percebendo no olhar uma palavra contida pela angústia do desconhecido. foi percebido que diante de um protocolo terapêutico. acho que isto tudo é uma parte da humanização”(E7). proporciona um nível de angústia que pode ser minimizado quando os pais são informados de cada procedimento realizado pela equipe. Rolim e Cardoso (2006) afirmam que a enfermagem pode proporcionar uma acolhida carinhosa que se mostra em um diálogo vivo. “De repente. perguntar sobre o exame. Percebemos a equipe tentar auxiliar os familiares na medida em que encorajam os pais a fazerem perguntas que julguem esclarecedoras. Contudo. a oferta de informações não garante ao usuário numa participação em algumas medidas diretamente ligado ao tratamento. neste sentido como um dos recursos para a redução das angústias geradas nos pais.. como a utilização do copinho. Poderíamos concordar com a idéia de que os usuários com o conhecimento adquirido através da equipe. Se ele for fazer um determinado exame. Nas observações participantes. sobre o tratamento. A informação aplica-se. podendo inclusive assumir certo protagonismo. O estranhamento da situação.

. percebemos que a equipe poderia proporcionar uma troca mais intensa com os pais.. tornam-se mais funcional. a ser colocada sobre este depoimento. conforme foi pontuado anteriormente. que os profissionais estão lidando com mães provavelmente fragilizadas. principalmente para os pais que deixam seus bebês sob os cuidados de outros familiares.. Por fim. um fator . este é para ver a quantidade de oxigênio que está no corpinho da criança. No entanto. Entretanto..63 benefícios desta medida acatam a recomendação. Porque ele está com aquele aparelho? _ Olha este aparelho aqui é para ver os batimentos cardíacos. A alegação é de que as outras formas culturalmente assimiladas. muitas das vezes é uma prática utilizada por eles somente no momento da hospitalização. Uma ressalva importante. apesar do visível esforço dos profissionais.. Isto significa estar atento para não exigir destas mães o domínio técnico das funções peculiares à enfermagem. é necessário. Pensamos que há de se ponderar um equilíbrio quanto aos conhecimentos técnicos que são repassados para as mães.. Muita coisa ela não vai entender. tanto que tem mãe que sai daqui quase uma profissional. Outra contribuição da oferta de informação está no fato da mãe acompanhante poder contribuir nos cuidados de enfermagem. O mesmo se aplica à restrição da utilização da chupeta.. “A gente passa tudo para ela. As narrativas dos profissionais apontam que a opção de alguns responsáveis é de descontinuidade desta prática no momento da alta hospitalar.. como o uso da mamadeira. Quando cai um pouquinho os batimentos ela já vê que tem algo que não está bem com a criança” (E7). em detrimento da volta ao trabalho. Ao considerar. respeitar as particularidades dos usuários da UTI Neonatal.. é em relação ao papel das mães. a gente vai explicando. principalmente reconhecendo alguns dos parâmetros sinalizados pelos equipamentos.

. “O paciente é leigo? É.. né!? (. Os usuários da UTI Neonatal contam com alguns recursos que são disponibilizados através de projetos que atendem de forma exclusiva à UTI neonatal e outros projetos que atuam de forma ampliada em toda a Instituição. 4. Os profissionais queixam-se por não dispor de tempo suficiente para prestar todos os esclarecimentos necessários para os pais sobre o tratamento de seus filhos. “A gente encaminha para o Refazer. Através do projeto que eu e a Drª. assim como de outras localidades. neste sentido. algumas implicações se estabelecem. avalia o caso e através do Projeto Tijolo reconstroem outra casa para a família reerguer. O Refazer faz a visita. os encaminhamentos dos pacientes para alguns dos projetos assistências foram citados. tem uma série de projetos e inclui esta família ao que eles chamam de Projeto Tijolo. e transforma isto em dinheiro. a Instituição recebe usuários que são encaminhados de toda região da cidade do Rio de Janeiro. “As visitas estão liberadas todos os dias. X coordenamos.. para começar de novo” (E9). para que estas mães fiquem com os seus bebês.6 – Desenvolvimento de Projetos Assistenciais Entre as ações descritas pela equipe de saúde.64 desfavorável por mais uma vez se apresenta. Por ser um Centro de Referência no atendimento ao recém-nascido de baixo peso.) Eu acho que a partir daí a gente começou a ter uma assistência humanizada. a gente vende os cartuchos usados. Diante deste cenário. mas a gente não tem um espaço físico. O Refazer é uma associação que dá suporte ao hospital. mas é um leigo que tem que saber o que está sendo feito com ele” (E7). dando suporte para a mãe visitar este filho” (E9).

as quais leva em consideração a realidade social apresentada pelos usuários. A Secretaria Municipal de Saúde atende os usuários da rede SUS. existe uma limitação que consiste em privilegiar somente os pacientes que residem na distância a partir de 50 (cinqüenta) km da Unidade de Saúde de destino. que para atender as necessidades dos pacientes. Um exemplo desta problemática é o fato da UTI Neonatal em questão está exatamente a 49. cujo dinheiro arrecadado é convertido em verba utilizada para as passagens dos pais. No entanto. a situação dos pais que precisam fortalecer o vínculo afetivo com seus bebês.5 (quarenta e nove e meio) km do Município de Duque de Caxias.65 Começamos a citar. O Projeto Cartucho é uma estratégia de vendas de cartuchos usados. encaminham pacientes para o nosso serviço. oferecendo translado para os pacientes que fazem tratamento fora do domicílio. que tem provido recursos financeiros para garantir a presença dos usuários no hospital. e as mães que necessitam amamentar. Pensando nesta implicação a equipe da UTI Neonatal. Este Município por não contar com Unidades de Terapia Intensiva suficiente para dar cobertura a sua população. mas que sofrem com a falta de recurso para o transporte das inúmeras visitas ao hospital. O projeto Cartucho nasceu da necessidade de oferecer uma cobertura a pacientes que não são contemplados com o Programa de Atendimento Fora do Domicílio (PAFD) da Secretaria Municipal de Saúde e atualmente estende sua cobertura a todos os casos da Unidade. . articulou o Projeto Cartuchos. A criação deste projeto indica a criatividade e o protagonismo dos trabalhadores. elaboram estratégias facilitadoras da atuação de suas práticas.

Dependendo do caso.5 km e não cinqüenta.. Os pacientes beneficiados no programa seguem os seguintes critérios: devem residir na área de atuação do projeto (municípios do Rio de Janeiro e da baixada fluminense). estas famílias não são contempladas pelo PTFD (Programa de Tratamento Fora de Domicílio). Para atender esta demanda existe um Programa de Atendimento Domiciliar Interdisciplinar (PADI). porém. diminuir o risco de infecções. “A gente tem o Município de Duque de Caxias. O programa de assistência domiciliar teve seu embrião em 1999. por isto não são contemplados. adotar medidas de prevenção de modo a evitar internações. a gente tem quarenta e nove kilómetros e meio. “Paramos para pensar. permanece dependente de tecnologia. De um lado da Washington Luís. Você liga para lá e eles falam tem 49. a criança ao sair do hospital. para que os país com dificuldades financeiras não deixem de acompanharem seus bebês quando internados. somente a partir de abril de 2001 tornou se oficial. Isto é extremamente complicado e nós temos um nível de absenteísmo muito grande dos nossos país. E a gente começou a vender cartucho usado” (E9)... Parece-nos que o esforço dos profissionais da UTI Neonatal estar em manter ativado o Projeto Cartuchos.66 Entretanto. ter condição de receber a criança (inclusive as condições elétricas e do ambiente onde a criança irá . Os seus objetivos foram traçados em: humanizar a assistência. prestar atenção integral à criança e diminuir os custos do tratamento. Visto a complexidade dos casos. o que nós vamos fazer ?! Surgiu a situação do cartucho. muitos pacientes necessitam de uma série de cuidados que fazem parte de um planejamento pós-alta. que tem um problema sério. os pacientes que não são favorecidos pelo Programa de Tratamento Fora do Domicílio (PTFD) ficam impossibilitados de comparecer nas visitas e nas consultas agendadas. quando o período de internação era muito prolongado para estes bebês” (E9).

BNDS. saúde mental e de enfermagem. quando faz procedimentos fisioterápicos (respiratório e motor) . Funciona com o apoio da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social . sem filiação partidária ou religiosa. aparelhos ortopédicos e respiratórios. que permita o acompanhamento periódico (COFFITO. ocasião em que desenvolvem atividades sócio-educativas para o fortalecimento da cidadania. . medicamentos. uma instituição beneficente que presta assistência aos pacientes no momento da hospitalização ou na alta. procedimentos) e estar em fase estável da doença. a família é beneficiada em sua casa.67 permanecer). por ser um projeto que auxilia os usuários com o fornecimento de cestas básicas. com a instalação de equipamentos fundamentais para sobrevivência da criança. fonoaudiólogos. de assistência social. o paciente tem maior interação com sua família e a possibilidade de dar continuidade de suas atividades escolares. alimentação. 2003). medicamentos. o Refazer é uma ONG de utilidade pública. O Programa de Atendimento Domiciliar Interdisciplinar (PADI) conta com uma equipe multiprofissional que realiza visitas nas residências dos pacientes. da auto-estima e a promoção de melhoria na qualidade de vida das famílias.médicos. cadeiras de rodas e outras necessidades associadas a continuidade da assistência. Com o tratamento feito no lar. ter pelo menos um cuidador capacitado a suprir as necessidades assistenciais básicas (higiene. O Refazer também foi citado. A efetivação do programa contou com o apoio do gestor da Instituição e com a parceria da ONG Refazer que proporcionou a aquisição dos aparatos tecnológicos necessários para assistir o paciente em seu domicílio. A equipe do REFAZER realiza visitas domiciliares. O Refazer foi Fundado em 1995. Este apoio assistencial está ligado ao Refazer. Através deste Programa.

cuidam de seus pais” (p. pela necessidade de oficializar a visita dos avós que ocorria de forma paralela à visita dos pais. da mesma forma que os pais do neonato. . Como uma expansão de projetos aos familiares. havia uma série de pedidos de autorização para a visita dos avós. Avalia o caso e através do projeto tijolo eles construíram outra casa para a família reerguer para começar de novo” (E9).83). conseqüentemente eles têm a possibilidade de oferecer maior apoio. Por isso. existente em algumas Unidades de Terapia Intensiva. O Refazer vai faz a visita. os avós são contemplados com um dia para visita. resgatando sonhos e projetos “abandonados” pelas ameaças de perda e culpas provocadas pelo nascimento prematuro ou de risco do bebê. “O Refazer tem uma série de projetos e incluiu esta família ao que eles chamam de projeto tijolo.68 Também são feitas através do Refazer reformas nas residências dos pacientes com finalidade de garantir um ambiente salubre e com condições para que a família tenha uma vida digna. Pelo fato da visitação na UTI Neonatal. para Braga e Morsch (2003) os avós: “ao cuidarem de seus filhos também estão cuidando de seus netos e ao cuidarem destes. articulou a sistematização da visita dos avós. junto ao Serviço Social. o Departamento de Neonatologia. Um aspecto considerado importante pelas autoras é o fato dos avós não terem passado pela transformação física e psíquica presente na gravidez. Os avós são figuras importantes em situações de crise como a chegada de um bebê prematuro na família. Este projeto foi criado na UTI Neonatal do nosso campo de pesquisa em 1998. ser restrita as figuras maternas. Trata-se aqui do Projeto Visita dos Avós . Assim. Eles participam da história da criança e possuem lugar privilegiado pelas ligações estreitas tanto com seus filhos quanto com seus netos.

Entretanto. . Os avós paternos. onde o rapport entre o usuário e o profissional de saúde é fundamental.69 Freqüentemente são os avós que oferecem apoio para os pais dos bebês que se encontram internados na UTI Neonatal. a enfermagem. na perspectiva da assistência humanizada. Então ficava aquela coisa de quebrar galho. substituir o projeto maior o qual se ocupa a proposta de humanização da assistência. então vamos pensar em uma coisa. e avós “postiços” (parceiros das avós separados) têm às quartas-feiras à tarde o direito da visita na UTI Neonatal. um profissional se coloca disponível para estar orientar. Então tinha a avó materna e o avô emprestado materno. o plantonista autorizava. o médico autorizava. Nas observações participantes foi percebido que a institucionalização de um dia para a visita dos avós vem estimulando a presença maciça dos avós. Por isto.. são eles que entram em contato com a equipe médica. que também entra nesta linha de humanização enquanto rede de apoio” (E9). O avô materno e a avó emprestada materna. o desenvolvimento de projetos assistenciais dentro da produção de cuidados apresenta-se como uma promoção de recursos de toda natureza para as famílias cujo filho encontra-se internado na UTI Neonatal. destacamos que a oferta destes projetos não pode. Enfim. Diante dos depoimentos dos profissionais percebemos que. em um dia específico para os avós” (E9). “Na semana retrasada um que vieram os avós paternos eram separados e os avós maternos também. A equipe da UTI Neonatal pesquisada estabeleceu um dia específico para o dia da visita dos avós e também das bisavós. “Assim como o projeto dos avós. estão sempre presentes no hospital e muitas vezes. “Nós tínhamos uma demanda grande de avós que vinham e ficavam no hall esperando. informar sobre o quadro clínico e esclarecer dúvidas... lembramos que se incluir o reconhecimento das subjetividades de cada caso. o serviço social autorizava. Assim. Neste sentido. neste dia.. Vinha uma avó aí dependendo do caso. maternos. sob qualquer hipótese. a criança tinha oito pares” (E9).

sentindo-se aceito e compreendido em sua singularidade. outros projetos vêm reforçar o sentido da proposta de humanização. Entendemos que a partir destes pontos. e identificar aproximações entre o que emprestam como o sentido de assistência humanizada e o que é aplicado em sua prática. Conforme citamos na introdução desta seção. vindo a expor as suas necessidades. por isso as ações não estão presas a um único sentido. Respeito. Ao correlacionarmos os itens apontados como categorias de sentidos (cuidado ampliado. acolhimento. cuidado integral. Rotinas e Negociações. 4. e oposição ao termo assistência humanizada) e as categorias relacionadas às ações de humanização (integração entre Familiares e Instituição. . temos aqui o nosso objetivo de analisar os depoimentos dos profissionais da UTI Neonatal em relação às ações por eles consideradas como de humanização. promoção de conforto. O resultado da análise nos confirma a existência de aproximações. Decerto. Informação e Projetos Assistenciais) percebemos algumas correlações conforme apresentamos na figura 1. as correlações na prática assistencial acontecem de forma dinâmica. a aceitação positiva e a compreensão empática para que o cliente perceba o ambiente como seguro e acolhedor. Atitude Humanizada cotidiana.7 – Aproximações entre as ações descritas e o sentido atribuído pelos profissionais para Humanização. posto que as ações estão correlacionadas aos sentidos anteriormente descritos.70 Segundo Rogers (1983) estão entre as condições básicas para que se crie um ambiente facilitador.

quando pensamos na integração dos avós no projeto a eles destinado. como uma estratégia inequívoca (. Aproximações entre sentidos atribuídos pelos profissionais e ações realizadas. viabilizando e promovendo uma qualidade de vida melhor aos pacientes e ao cuidado ampliado. Sentidos Ações Sentidos Cuidado Ampliado Integração Família & Instituição Cuidado Integral Projetos Assistenciais Promoção de Conforto Respeito Atitude de Ação Humanizada Cotidiana Informação Acolhimento Rotinas e negociações Em caráter didático. visto que eles são verdadeiras redes que sustentam a proposta de cuidar do paciente como um todo. atenção integral” (p.71 Figura 1. dessa forma.9). Esta correlação nos pareceu próxima. correlacionamos as ações nomeadas de Integração entre a Instituição e Família ao sentido de humanização cuidado ampliado. ou seja. . Neste sentido... tais representações e ações parecem convergir ao que postula a Política Nacional de Humanização: “Humanizar a atenção e a gestão em saúde no SUS se coloca. uma vez que apontamos anteriormente o cuidado ampliado relacionado à presença e participação da família no ambiente da UTI Neonatal.) contribuindo efetivamente para a qualificação da atenção e da gestão. Os projetos Assistenciais estão correlacionados ao cuidado Integrado.

Os sentidos referentes à Promoção de Conforto e Acolhimento. visando a alternativas às práticas hospitalares. estão em conformidade com as normas do Ministério da Saúde que descreve as diretrizes de atenção Humanizada ao Recém-nascido de Baixo-Peso – Método Canguru (2000). verificamos que as ações da categoria referente ao respeito às particularidades dos usuários. como as de cuidados domiciliares. foram correlacionados com as seguintes ações informações. o acompanhamento de pessoas de sua rede social (de livre escolha) e os direitos do código dos usuários do SUS” (p. O que nos foi evidenciado através das ações do PADI. respeito às particularidades e rotinas e negociações. respeitando a privacidade e promovendo uma ambiência acolhedora e confortável” (p.72 Dentro das ações correlacionadas ao cuidado integral. 10). 13) Quanto às trocas de informações entre profissionais e usuários o Humaniza-Sus enumera como uma das prioridades para a implementação da Política Nacional de Humanização. Devido à forte dinâmica existente entre estes temas. que atende aos pacientes da UTI Neonatal pesquisada. Sendo assim coloca: “As unidades de saúde garantirão as informações ao usuário. . Ao considerarmos a análise das narrativas dos entrevistados. “Adequar os serviços ao ambiente e à cultura local. o mesmo documento cita como um dos parâmetros na atenção hospitalar a existência de mecanismos de desospitalização. A questão da promoção de conforto é citada no Humaniza – Sus dentro das diretrizes gerais. foram correlacionados como convergentes ao mesmo conjunto.

estando presente em todas as ações dentro da produção de cuidados (p. apresentam aproximações aos sentidos anteriormente descritos. portanto.8). Entretanto. sujeito de história de muitas vidas. mas também de olhá-lo como sujeito de um coletivo. “Podemos dizer que a Rede de Humanização em Saúde é uma rede de construção permanente e solidária de laços de cidadania. que reforça a garantia de visita aberta por meio da presença do acompanhante e de sua rede social. Trata-se. estão as Rotinas e Negociações. dando ênfase ao respeito das características e individualidades destes usuários (p. Trata-se dos aspectos discutidos anteriormente. a qual deve ser totalmente contaminada em seus segmentos. através da Política Nacional de Humanização (2004). destacamos um dos parâmetros da PNH.16) . concluímos que as ações entendidas como de humanização pelos profissionais da UTI Neonatal. de olhar cada sujeito em suas especificidades. Assim. no texto que descreve a Humanização como Eixo Norteador das Práticas de Atenção em todas as Instâncias do SUS (2004). os quais demonstraram demandar ajustes e flexibilidades das prescrições de rotina hospitalar. Ligadas aos sentidos de acolhimento e promoção de conforto.15) . ressaltamos que durante as observações participantes percebemos .” Quanto à atitude de ação humanizada cotidiana detectamos na pesquisa a presença desta temática em todos os sentidos de assistência humanizada.73 O documento aponta para a visão de um novo paradigma da atenção humanizada à criança e à família. respeitando a dinâmica de cada unidade hospitalar e as peculiaridades das necessidades do acompanhante (p. Da mesma forma que o Humaniza – Sus trata a questão da atitude humanizadora dentro de uma perspectiva de rede. Referente a esta categoria. sua história de vida. Este aspecto é reforçado pelo Humaniza SUS.

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que algumas ações de humanização as quais não foram descritas pelos sujeitos entrevistados, vêm também sendo executadas na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal, tais como os cuidados com a identificação e acomodação do paciente nas incubadoras, a estimulação do aleitamento materno através do uso do copinho, e a implantação da posição canguru. Foi observada uma dedicação da equipe na tarefa de acomodar os bebês nas incubadoras. Os nomes dos pacientes são visivelmente expostos, assim como a data de nascimento, o tipo de parto, o nome da mãe, o peso e a patologia. O que identifica a criança como uma pessoa, com uma identidade e uma história, não somente um paciente doente. Para melhor “aconchegar” os bebês dentro da incubadora são utilizados “rolinhos” e para reduzir a luminosidade do ambiente, lençóis que cobrem a parte superior da incubadora transformam se em “tetinhos”. Como estimulação ao aleitamento materno, a Unidade de Terapia Intensiva Neonatal conta com a prática da utilização do copinho para alimentação dos bebês “impedidos” de serem amamentados diretamente ao seio materno. Na equipe da UTI Neonatal, duas profissionais de enfermagem são responsáveis em auxiliar a implantação das etapas da Posição Canguru, estimulando e acompanhado as mães neste trabalho. Estas pessoas receberam capacitação para esta atividade, fazem visitação em outras Instituições onde a Posição Canguru é adotada. Embora facilmente visualizadas na observação participante, estas ações voltadas para assistência humanizadas, não foram descritas pelos profissionais entrevistados. Estaria este fato sinalizando que os profissionais de saúde da UTI Neonatal já têm estas ações incorporadas dentro da sua prática? Ou não citaram por desconhecerem que tais ações também atendem direta ou indiretamente às orientações da Política Nacional de Humanização?

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5 – PROCESSO DE TRABALHO DA UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA NEONATAL

Vila e Rossi (2002) relatam que as UTIs surgiram a partir da necessidade de aperfeiçoamento e concentração de recursos materiais e humanos para o atendimento a pacientes graves, em estado crítico, mas tido ainda como recuperáveis , e da necessidade de observação constante, assistência médica e de enfermagem contínua, centralizando os pacientes em um núcleo especializado. Trata-se de Unidades destinadas a receberem crianças que nascem prematuramente, com baixo peso, com complicações conseqüentes do nascimento, entre outros problemas de saúde relacionada à maturidade dos órgãos e sistemas, em razão da idade gestacional (Moreira e Rodrigues, 2003 p. 43). Bonfim e Moreira (2003, p.25) descrevem que as UTIs Neonatais são localizadas em maternidades com capacidade para atender gestações de risco. Estas maternidades, segundo as autoras, possuem uma estrutura física diferente das UTIs de crianças maiores e das de adultos, dispondo também de uma metodologia e filosofia de atendimentos diferenciados, justificados pelo tamanho e maturidade do recém-nascido que requer tecnologia especializada. Graças a introdução de tecnologias de ponta no campo da saúde, é comum ver que bebês que antes não tinham chances de sobreviverem receberem nos dias atuais, cuidados que salvam suas vidas. França, Lansky e Leal (2002, p. 759-72) citam Hack & Fanaroff (2000), que em revisão da literatura, relataram que a sobrevivência de crianças com 23 semanas de gestação varia entre 2% e 35 %; com 24 semanas, entre 17% e 62% e entre 35% e 72% para crianças com 25 semanas. Contudo, crianças com 23-24 semanas ou até mesmo com 23 semanas (ou peso ao nascer menor que 500g) não raramente são

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encontradas nas UTIs Neonatais. No Brasil sabemos que os bebês que nascem com 26 a 28 semanas, pesam aproximadamente de 750 gramas a 1 quilo e necessitam de um longo tempo de tratamento. A sobrevivência destas crianças está associada à necessidade de cuidados especializados. Os profissionais que atuam na UTI Neonatal, são altamente qualificados, uma vez que o processo de trabalho existente nesta área além da sua especificidade tem um lugar relevante frente às políticas de saúde coletiva. Exemplo disto é o reconhecimento apontado por Gomes (2004) sobre a importância do atual desenvolvimento do trabalho em Neonatologia, que nas últimas décadas, tem sido responsável pela redução da taxa de mortalidade neonatal.
Até o final do século XIX, as elevadas taxas de mortalidade entre recém-nascidos de baixo peso eram cercadas pela aura da inevitabilidade e atribuídas a debilitas vitae, ou seja, à fraqueza da vida. Ao longo do século XX, principalmente na segunda metade, o desenvolvimento e a crescente disseminação de intervenções ligadas ao cuidados perinatal foram responsáveis por um decréscimo significativo na mortalidade neonatal, incluindo a redução da mortalidade entre prematuros (pág. 21).

Gaiva e Scochi (2004), na elaboração de um estudo sobre o processo de trabalho na UTI Neonatal, registraram que a produção de cuidados é feita por meio do trabalho coletivo, na qual as ações são realizadas isoladamente, por um a um dos profissionais, ou em cooperação entre agentes da mesma área, ou ainda, em complementaridade entre agentes dos diferentes saberes. O “trânsito” dos profissionais de diversas áreas como médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, fisioterapeutas, psicólogos, fonoaudiólogos, assistentes sociais, entre outros trabalhadores de apoio, como secretárias e profissionais da conservação, caracteriza um complexo processo de trabalho.

assim como apresentamos as respectivas jornadas de trabalho e as principais atividades prescritas. que foram entrevistadas neste estudo. Promover a Recuperação e prognóstico favorável aos bebês prematuros Enfermagem Trinta horas semanais Produzir os cuidados de rotina.77 Ilustramos no quadro 2. estimulações. por meio de ações que inclui postura. . Quadro 1 Descrição da jornada e atividades prescritas segundo categoria profissional Categoria Profissional Médicos Residentes Principais Tarefas Prescritas Jornada de Trabalho Vinte. Saúde Mental Quarenta horas semanais Promover o enfrentamento emocional frente à experiência de estar na UTI Neonatal Fisioterapia Fonoaudiólogos Quarenta horas semanais Manter satisfatória a saúde dos RN’s. Serviço Social Quarenta horas semanais Orientar as famílias e promover recursos junto a rede social. as categorias profissionais do processo de trabalho do nosso campo. quarenta ou sessenta horas semanais Diagnosticar. e outras.

pela anotação no prontuário de cada paciente. quantidade de diurese e evacuação. o médico é quem tem autonomia nas decisões e controle do processo de trabalho como um todo. 7hs às 13hs. de 13hs às 19hs. no período de quatro horas. de 8hs às 12hs e de 14hs às 18hs. Apesar da diversidade de profissionais de saúde ligados ao PT da UTI Neonatal. É o responsável pelos pacientes. é quem prescreve o tratamento e solicita avaliação das outras áreas. Esta organização parece estar a serviço de tornar a atividade mais leve para os médicos que lidam o tempo todo com questão de nascimento de bebês por vezes incompatíveis com a vida e com os cuidados de prematuros sob ameaças de morte. entre outros (Lamy Filho. geralmente trabalham em turnos de seis ou doze horas. p. . dar as medicações e alimentar o bebê. 2003). sendo os profissionais que permanecem mais tempo em contato com o paciente (Lamy Filho. Quase sempre a jornada de trabalho é iniciada às sete da manhã e às dezenove horas acontece a troca de plantão. ele tem que estar on call. 2003). de tudo o que é observado durante os cuidados de rotina. Outros médicos trabalham de. Em relação à organização dos plantões. Algumas das funções dos auxiliares são: dar banho ou fazer a higiene. Os auxiliares e técnicos de enfermagem. naquele período é extremamente cansativo. porque além de ele ter que estar presente todos os dias. trocar fraldas. disponível 24 horas por dia” (E 3). Se tiver muito bebê muito grave.78 Os auxiliares de enfermagem. 112) ao realizar uma pesquisa no nosso campo descreveu que os médicos diaristas trabalham. no período de seis horas ou ainda de 19hs às 7hs nos plantões de doze horas. os enfermeiros e os médicos são profissionais de categorias que representam a estrutura básica para o cuidado intensivo neonatal. os entrevistados de nossa pesquisa descrevem que um médico staff é escalado por mês para coordenar as visitas. Lamy Filho (2003. “É um mês de dedicação muito intensa. São responsáveis pela arrumação da incubadora e dos berços. verificam sinais vitais como temperatura.

que ocasiona a sobrecarga de trabalho frente a superlotação de pacientes. Como a Santa Casa da Misericórdia que realiza . do contrário o profissional designado para dobrar. deve haver no mínimo cinco profissionais da enfermagem presentes. orientar e supervisionar os auxiliares de enfermagem e outros funcionários. muitas vezes conforme relato do profissional do Serviço Social. seja durante a internação ou no momento da alta hospitalar. O que não pode é a enfermagem funcionar com menos de cinco pessoas. dentro da divisão técnica e social do trabalho não médico. a função do Assistente Social consiste em orientar os familiares. como também organizar o ambiente. está nas limitações existentes nas ofertas de auxílio dos órgãos públicos. às sete da manhã ou dezenove da noite. Neste sentido. Como vimos. Os depoimentos da enfermagem revelaram problemas relacionados a falta de recursos humanos. estabelecer ou fortalecer redes de apoio social que proporcione respostas às necessidades básicas relacionadas ao tratamento do paciente desta UTI Neonatal. E mesmo assim fica muito apertado. Para enfrentar tais dificuldades criaram uma estratégia de “dobras” para garantir a operacionalização do plantão.79 O enfermeiro tem como atribuição coordenar. A enfermagem em função de suas atividades é a categoria profissional que favorece a interação das diversas áreas clínicas. ela está liberada. Ela pode ir embora. os familiares recebem atendimentos que visam promover auxílio para que sejam capazes de dar continuidade ao tratamento de suas crianças. deve permanecer na Unidade durante o plantão. O entrave de garantir a assistência humanizada a estes familiares. porque são dois no berçário intermediário e três no alto risco” (E6). O grupo estabeleceu que na hora da passagem de plantão. “Se tiver pelo menos cinco.

O seu papel é promover junto aos responsáveis pela criança.80 sepultamento gratuito apenas em dias úteis. Assim. eu não me sentia à vontade. como fazem os fisioterapeutas... Por pertencer a uma área especializada. que atende aos pacientes diante de um pedido de parecer da equipe.. o enfretamento emocional na situação de ter um filho prematuro. ignoram e isso acaba prejudicando o atendimento.. Não me sentia assim. A gente escreve pede. Mas. Necessitam também de estímulos orais..) uma criança com refluxo porque seria muito arriscado eu atender e comprimir o estômago da criança. também agrega categorias de trabalhadores que tem o foco das atividades voltado para os pais.. eles necessitam de intervenções que atinjam especificamente a parte motora ou respiratória da criança. (.. e na restrição de quilometragem que beneficia os usuários no Programa de Atendimento fora do Domicílio. As pessoas eram sempre muito ocupadas e tinha a impressão que ia perturbá-las e isso me inibia” (E4).. sobre a dificuldade do profissional de saúde mental de sentir se integrado à equipe da UTI Neonatal. como é o caso do profissional de saúde mental. temos depoimentos. Bem. Lamy Filho (2003) descreve que além dos cuidados médicos oferecido aos bebês prematuros. esta aqui é uma residente. observamos constantes incompatibilidades de horários das ações dos profissionais da fisioterapia e dos fonoaudiólogos entre outros. a conjunção das diversas áreas dentro de um campo da produção de cuidados pode trazer o conflito de sobreposição de tarefas. “A gente fala com a enfermagem para esperar fazer a fisioterapia antes da dieta. “Eu me reportava a algumas pessoas que eu percebia. Entretanto. Outra clínica especializada que atua na Unidade. elas não atendem. eu observava o ambiente para saber quem era quem. O processo de trabalho da UTI... e revela a mesma dificuldade de integração é a fisioterapia. ou posturas mais adequadas que facilitem a capacidade de sucção do paciente. esta aqui é uma enfermeira. a criança .

como veremos a seguir. faz deste universo um campo onde os conflitos da prática.81 vomitar. Muitos são os ingredientes presentes no processo de trabalho hospitalar da UTI Neonatal. onde a relação vivida entre equipe e pacientes produz situações de sofrimentos também para os trabalhadores. Sob este processo pesa a natureza de um trabalho voltado a pequenos pacientes em eminência de morte. então eu prefiro esperar e atender mais tarde” (E11). . A especificidade deste grupo atuante no processo de trabalho da UTI Neonatal. revelam tanto fatores negativos como gratificantes deste trabalho. questões que compactuam com o perfil das crianças recebidas nestas unidades e que apontam para a necessidade de uma abordagem assistencial humanizada. tornando os trabalhadores conscientes e capazes de apontar os obstáculos que fazem da oferta assistência humanizada um desafio constante.

Em relação aos profissionais que realizam estudos na UTI Neonatal .82 6 – PONTOS CONSIDERADOS GRATIFICANTES E DESGASTANTES NO PROCESSO DE TRABALHO DA UTI NEONATAL Questionamos aos trabalhadores sobre os pontos gratificantes e os pontos desgastantes na produção de cuidados com a finalidade de conhecer os fatores negativos e positivos. Encontramos na análise das entrevistas uma incidência em relação a alta hospitalar como fator gratificante do trabalho e algo positivo para os profissionais. O retorno dos pais para o follow up na Instituição também foi vista como ponto positivo. sobretudo daqueles que prestam assistência direta ao paciente. Na segunda parte desta seção. foi verificado que os resultados das pesquisas aplicadas à clínica. expressando o reconhecimento do trabalho dos profissionais. . a respeito do seu processo de trabalho. Em oposição à alta hospitalar nos foi revelado os óbitos como uma vivência desgastante. estamos descrevendo os pontos considerados desgastantes sob o ponto de vista do trabalhador. na ótica dos profissionais da UTI Neonatal. Os desgastes físicos e emocionais fazem parte dos pontos descritos pelos profissionais como negativos dentro do processo de trabalho da UTI Neonatal E finalizamos citando os conflitos de relacionamento e seus efeitos negativos dentro da equipe de trabalho. traçando um contexto ao que pudesse interferir na oferta da assistência humanizada. como médicos e enfermeiros. é o que mais representa a gratificação.

Em algumas situações a alta não significa uma recuperação completa do paciente. O que significa uma dedicação exclusiva dos pais em tempo integral. Desde o nascimento. Ir para casa com a mãe” (E1). maior é o grau de satisfação dos profissionais. orientados e encorajados a tomar a condução do tratamento recomendado pela equipe.1 – Alta Hospitalar como fator gratificante do trabalho Entre os entrevistados das diversas categorias profissionais encontramos depoimentos que revelam a alta hospitalar como um ponto gratificante para os profissionais dentro do processo de trabalho da UTI Neonatal. mas a possibilidade de receber cuidados no ambiente familiar. mas você fica um pouco comovido com a mãe indo para casa com o filho. . Até que se concretize a alta. “Acho que são as mães. Podemos dizer que a hora do bebê deixar o hospital e finalmente ir para sua casa é um momento especial para os pais e para equipe médica. os pais dos bebês prematuros. em que o objetivo de manter o bebê vivo foi alcançado. Você acha que não. eles conseguiram o objetivo deles. Eu acho que é a melhor coisa.1 – Pontos Gratificantes 6. Muitas vezes os profissionais seguem um plano de alta. a equipe da UTI Neonatal prepara os pais para receberem a criança. para que estes pais sejam informados.1. A alta parece ser uma forma de tornar concreto o resultado de um trabalho que exigiu intenso esforço da equipe. Quando o paciente sai da hospitalização sem seqüelas físicas. Você vê que embora todo sacrifício e todo sofrimento. deficiências ou perdas funcionais ocasionadas pela patologia ou pelo próprio tratamento. criam expectativas em torno da alta. a alta hospitalar parece ser a expressão do trabalho bem sucedido. Sob o ponto de vista do profissional. no dia da alta.83 6.

6. “ Acho que positivo é tudo aquilo que a gente pode fazer de bom em prol do outro. todos os pacientes retornam para consultas de follow up. porém.. seja com a mãe” (E4). seja com a equipe.. que os sentimentos de compaixão e solidariedade não substituem a escuta e reconhecimento das necessidades do usuário no atendimento de qualidade. no caso das profissões de saúde. eu estou aqui para fazer o melhor para eles”(E5).84 “As crianças que sobrevivem e você consegue ajuda-las” (E2).2 – Retorno dos pais para o follow up Ao terem alta. você minimizou uma indisposição aqui. é positivo né?! Aí você vê que é muito importante o seu trabalho” (E7). um mal estar ali.(. à sua integridade moral e à sua dignidade como pessoa (p.) e quando você vê que é necessário. 6). Como aponta Vila e Rossi (2002): O Cuidado ativa um comportamento de compaixão.. Uma tônica que entendemos estar além cuidado técnico. tudo é gratificante. de ajuda. Encontramos dois depoimentos nos quais os profissionais referem como gratificante o ato de fazer o bem e sentir se útil. visando ao bem-estar do paciente. daqui a pouco a criança vai embora sem seqüela. quando você tem uma ação que é facilitadora. no sentido de promover o bem.1. E ver que você ajudou. “Então quando você vê uma criança que ficou e que a mãe está ali acompanhando.. Ressaltamos. “Gratificante é sempre o resultado... sem nada é muito gratificante.. de solidariedade. Estas consultas de acompanhamento ambulatorial se tornam uma oportunidade para que os pais ..

Trata-se dos casos em que os bebês voltam na idade adulta.. é gratificante”(E11).. indicando que os profissionais fizeram a orientação correta para os pais. O reconhecimento dos pais em relação aos profissionais é expresso na alegria deste encontro e na maneira orgulhosa como os pais exibem os seus bebês...... e estes por sua vez tiveram energia para seguir-las.. às vezes nem estou lembrando. “. Mais tarde quando tem alta. Os encontros “tardios” ficam restritos aos profissionais mais antigos. “Tem criança que já está assim. já consegue..” (E6).85 retornem ao hospital e muitas das vezes cruzem pelos corredores com profissionais que cuidaram da criança na internação... muitas mães trazerem aqui para mostrar. Então você vê que apesar de tudo você tem uma boa assistência. Comumente os bebês prematuros que permaneceram internados na UTI Neonatal.. Via de regra... é gratificante quando eu vejo o reconhecimento dos pais. Então você sabe que aquela mãe volta e ela que mostrar o seu bebê bem.. está andando. porque a gente tem o follow up. que valeu a pena. retornaram como homens na missão de pais ou mulheres pronta para parir seus próprios bebês. mãe adolescente que até hoje eu faço amizade. a criança volta com uma melhor aparência e ganho de peso. necessitam na pós-alta dos cuidados prestados pelas clínicas especializadas que ajudam e potencializam o desenvolvimento da criança. elas . porque mais fácil também de ter alta. e os pais reconhecem isto. “Acho que é o próprio cliente. Acho que isto é o lado gratificante. configurando uma sutil diferença sobre o trabalho bem sucedido mencionado anteriormente em relação a alta hospitalar.. quando vê que está bem.. Por isso. Então você vê que fez alguma coisa. bebês de outrora. O retorno destes pais ao hospital indica também uma maior adesão ao tratamento. eu continuo atendendo né?! É gratificante também quando esta criança está bem. Então você assim.. Este retorno algumas vezes ocorre muitos anos após a internação..

a ameaça de morte. vem conversar e eu olho a criança. a gente percebe que... isto é muito interessante. ficam com a sensação que os momentos difíceis da hospitalização mesmo permanecendo na memória dos pais. sendo certamente um diferencial da assistência humanizada. aquela criança não é mais aquela . é quando a mulher mesmo diante do óbito do seu bebê. Entendemos que esta “disposição” pode ser vista também como a expressão do vínculo de confiança que se estabelece entre usuários e a equipe. ansiedade e expectativa em relação ao futuro. volta ao Departamento de Neonatologia para buscar informações com os médicos à respeito das causas da morte de sua criança... a coisa que eu mais percebo é que os casais voltam. e orientação para uma próxima gravidez. não constituem um fator de impedimento nas suas vidas.. ou buscam aconselhamento para as futuras gravidezes. Outro tipo de retorno que pode ocorrer. conversar com a gente”(E3). “É muito positivo e muito gratificante o contato com as famílias.. . para falar.86 encontram comigo no corredor.. envolvendo a dor física. eles voltam com outro bebê. Há também relatos dos casos em que os pais retornam já com outro filho. porque as vezes eles tem bebês anencéfalos com a gente. o que seria uma experiência difícil para qualquer casal. Como percebemos. Mostram-se dispostos a ter outros filhos mesmo sob o risco de terem filhos prematuros. o retorno do paciente e da família ao hospital pode acontecer por razões variadas.. apesar de uma ou mais perdas. Os profissionais contam sobre o reencontro com os responsáveis e pacientes.. Certamente todos os pacientes que um dia retornam na Instituição. você só sabe quem é porque lembra da mãe” (E7). vivenciaram situações de muito estresse. elas chamam .

entendeu?!?!?! Nem impeditivo de crescimento daquela família” (E3)..3 – Pesquisa aplicada à clínica Os profissionais que atuam somente nas pesquisas realizadas no campo da UTI Neonatal. a gente consegue fazer a diferença para que este casal. um estudo científico com o título: Efeito do congelamento e descongelamento na perda energética do leite humano oferecido para os prematuros por gavagem e gartróclise. sendo premiado como um dos três melhores trabalhos apresentados no evento..na hora que a gente consegue prestar uma assistência integral. 6. O reconhecimento dos profissionais no campo científico. o fato dos resultados de seus estudos estarem influenciando na rotina.. Aquele episódio não fica como uma tragédia. “Então é gratificante.. apontam como fonte de gratificação no processo de trabalho. adquirido através dos estudos desenvolvidos certamente também é fonte de gratificação no trabalho. fruto do projeto: Indicadores de qualidade de cuidado na assistência perinatal: Avaliação do efeito de práticas nutricionais e tecnologias usadas no manuseio dos recém-nascidos de muito baixo peso ao nascer .1.87 “.foi apresentado na Jornada PIBIC (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação Científica) da Instituição em maio 2006... Consideram que as avaliações resultantes das pesquisas serem de evidências para o aprimoramento das práticas deste campo. mudam um pouco..... . Recentemente. tentam melhor de alguma forma” (E12). a gente está avaliando e está vendo que está realmente estão alterando a rotina... esta família vá se constituindo de uma forma diferenciada.

os óbitos são fontes de sofrimento e desgastes tanto para as famílias. muitos dos bebês não resistem. como o corpo de enfermagem e o grupo médico. as emoções que afloram em ocasião de um falecimento também são vividas intensamente pela equipe. Apesar dos esforços da equipe e dos recursos tecnológicos. Percebemos que este tema esteve presente nos depoimentos de profissionais que assistem de forma mais próxima os pacientes. testemunhar óbitos representa o avesso.88 6. óbitos podem representar uma espécie de fracasso profissional. A situação do cotidiano do trabalho na UTI Neonatal tem a morte constantemente presente. Considerado um fator negativo dentro do processo de trabalho. As famílias e a equipe se tornam mais próximos e algumas vezes íntimos. Abranches (1998) baseada em Cassorla . Alguns profissionais sentem-se colocando à prova sua competência e comumente a cada óbito revivem suas fraquezas pessoais.6. seja em função do nascimento de um bebê com prognóstico incompatível com a vida ou pelo falecimento de crianças.(1991) aponta que: . cujo esforço dos profissionais foi vencido pela morte.1 – Óbitos Entre os pontos considerados como negativo para os profissionais está a freqüência com que os óbitos ocorrem no ambiente da UTI Neonatal. Se por um lado a alta hospitalar é fonte de gratificação. como para os profissionais.6 – ASPECTOS E SITUAÇÕES DESGASTANTES 6. Sendo assim. acaba acontecendo uma integração entre Instituição e usuários. que faz emergir um sentimento de perda e algumas vezes de culpa. Devido à proximidade e ao longo tempo de internação dos pacientes. Para a equipe.

Em oposição ao trabalho bem sucedido que reflete na alta hospitalar.89 O profissional de saúde pode captar o sofrimento do paciente por identificação. “Ah.. Isto é estressante é desgastante” (E2). como observado nestas unidades.55). Maia (1999) aponta que no trabalho do profissional de saúde. o que às vezes não pode ser contornado.. uma coisa assim. Muita gente morre.. p. . frustração e tristeza. grave. e você não. para desta forma evitar serem envolvidos numa cadeia de reações que podem fazê-los perder o controle de si (Abranches 1998. devem também avisar aos familiares. Além disso. remorso.. para alguns profissionais o óbito pode gerar a sensação do trabalho inacabado. gerando um sentimento de incapacidade. no plantão noturno. grave. “A UTI Neonatal é um serviço desgastante. 55). impotência e desespero.o investimento que você faz e eles acabarem falecendo. (pág. muitas vezes.. Um trabalho interrompido pela morte. É lidar com crianças muito graves. Os profissionais de saúde defendem se para não compartilhar os sentimentos que advém da perda vivenciada pela família.. pela mobilização dos seus próprios conflitos. “Desgastante é você ver o paciente grave.. ter que lidar com aquilo que não vai ter jeito... que estão sempre no limite. podendo surgir sentimentos de culpa. é isto. ocasionalmente... todos os dias. além de prestar assistência a outro ser humano. e este profissional tem que elaborar tal acontecimento. que por sua vez afeta concomitantemente o projeto da equipe – salvar vidas. existe toda uma pressão no que tange à possibilidade da ocorrência de morte.. é uma frustração que a mãe fica. ter que lidar com a morte. Ter que lidar com o nascimento. estressante.. por um desconhecimento do que se passa com o paciente. tendo uma sensação de impotência. ter que lidar com a dor dos pais nè?!” (E8). acho que mais abala é o sofrimento que estas mães tem quando perdem o filho”(E1).

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Sobre as defesas, Pitta (1991) cita uma investigação realizada por dois sociólogos americanos, que enfatizaram a especial dificuldade que a equipe de técnicos tem para lidar e comunicar os doentes suas doenças e mortes e todas as estratégicas inconscientes ou não que laçam mão para oculta-las. Identificar uma “dying trajectory”, ou seja, uma trajetória defensiva dos profissionais de saúde, que embora já tenha clara, após a etapa diagnóstica, a “morte certa” do seu paciente, produz uma cultura da “morte incerta” ao tempo em que traça roteiro de atitudes a serem seguidas (p.30). Assim, acreditamos que os óbitos representam fonte de desgastes porque em boa parte dos casos, afeta a capacidade do profissional lidar com seus próprios temores da morte.

6.2.2 – Desgastes Emocionais e Físicos

Pelo fato das atividades na UTI Neonatal serem exercidas em um ambiente fechado, caracteriza se como uma prática mais desgastante em relação a outros tipos de trabalho. O ambiente da UTI Neonatal, conforme já relatado no decorrer deste estudo, é caracterizado por uma movimentação intensa, iluminação e ventilação artificial, desprovida de estímulos do meio exterior, o que prejudica a noção de tempo daqueles que permanecem no seu interior (Lemos e Rossi 2002). Estes fatores juntam-se a natureza das atividades realizadas na Unidade, as quais exigem um nível de concentração grande nas questões que envolvem o limite entre a vida e a morte. A integração entre os profissionais e o cotidiano com da Instituição é limitada, posto que a entrada de pessoas neste local é restrita e pela carga de trabalhos, muitos

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profissionais não se afastam do local para pausa ou almoço, o que torna mais desgastante a sua permanência. Nas situações cotidianas e nas situações de catástrofes como episódios de ameaça de bomba ou incêndio ocorrido na Unidade, o grupo da UTI sente se prejudicado, pois relatam ser o último a saber dos acontecimentos, retratando o isolamento proveniente do trabalho em ambientes fechados. E pelas condições dos pacientes ali atendidos não podem abandonar o posto, necessitando, sob qualquer condição, tentar manter a calma.
“Foi horrível... porque até esperar o horário. Disseram que até as quatro horas ia explodir uma bomba no hospital, mas não se sabia aonde... E isso foram nos avisar três e meia da tarde, o hospital todo já estava sabendo desde uma hora da tarde. Ainda tem isto né?! Quem trabalha na UTI é o último a saber. O último a sair, é o último a saber. Então quando acontece uma calamidade .... Porque a gente não sabe... isto é também um desgaste” (E6).

Em observação participante, foi presenciado pelo pesquisador, um incêndio nas instalações do hospital. Embora o fogo não tenha se iniciado no prédio da UTI, houve um pânico que se espalhou por todos os departamentos, serviços e setores. Por ser um final semana, os profissionais que se encontravam no hospital limitavam-se na sua maioria aos plantonistas. O pânico também atingiu os profissionais do berçário de alto risco, que ao contrário dos trabalhadores do berçário intermediário, não puderam sair do ambiente. Tiveram a tarefa de “ambuzar” (utilização de um balão inflável – ambur – para administração de oxigênio sobre pressão) na mão as crianças, uma vez que o fornecimento de energia foi interrompido. Felizmente a situação foi controlada por bombeiros e não houve vítimas neste incidente.
“Nós do berçário Intermediário descemos com as crianças, o berçário de Alto risco não. Na UTI a gente não desce. (E6).”

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Não nos restam dúvidas de que foi uma situação extremamente desgastante. Outro fator desgastante do trabalho em ambiente fechado, está no tempo de atuação do profissional. Considera-se que além do desgaste emocional, existe um “desgaste físico”. Apesar dos anos “trazer” a experiência da prática, “leva” a vitalidade do corpo, conforme demonstra a seguinte narrativa:
“Eu entrei aqui com 20 anos, então eu era bem novinha. Assim...dos 20 aos 30 anos eu tive uma produção. Dos 30 (eu estou com quase 40) eu já tive uma outra. Dos 40 aos 50 anos será diferente. Começam a aparecer os problemas, as doenças por desgastes físicos e emocionais (...) você começa a cansar, tem doenças que atrapalham o seu desenvolvimento, o seu rendimento” (E6).

Esta narrativa aponta para uma das freqüentes queixas dos profissionais. Muitos que atuam nos berçários possuem o desejo de mudar de setor, seja por desgastes emocionais ou físicos. No entanto, existem obstáculos para que a autorização seja concedida. Uma justificativa é o fato da equipe não contar com um número ideal de trabalhadores. Logo, dispensa de funcionário na equipe significa aumento de carga de trabalho para os que ficam. Além dos desgastes citados, encontramos situações em que o desejo de transferência se dá pelo fato do profissional se qualificar profissionalmente e visualizar a possibilidade de aplicar seu aprendizado em um novo campo, o que é impedido pelo plano de carreira profissional vigente no serviço público. Assim, colocado o decorrer dos anos, encontramos profissionais que ingressaram no Departamento como técnicos, concluíram o curso de nível superior e atualmente caminham para o curso de Mestrado. Entretanto, continuam exercendo funções de nível técnico.

propor aos gestores entre algumas ações a valorização e o crescimento profissional do trabalhador (Ministério da Saúde. 2004. A imprevisibilidade de promoções gera nos profissionais que optam por estudar. por outro não reconhecem que este tipo de incentivo cria no trabalhador a expectativa de ascensão profissional. pois se por um lado incentivam os profissionais a se tornarem mais qualificados. em outro local de sua jornada de trabalho. . Apesar da estratégia número dois da Política Nacional de Humanização referente ao eixo da gestão do trabalho.2. podendo produzir no trabalhador inúmeros sofrimentos físicos e mentais (pág. consideramos que estes são fatores que representam fontes de desgastes no trabalho da UTI neonatal. 11). um nível alto de frustração. Tais questões desestimulam a ação do profissional na sua prática conforme mostra Dejours (1992) ao apontar que quando há uma divergência entre a adequação das competências do trabalhador com a sua prática. p. pode resultar em falta de motivação e insatisfação no trabalho.3 – Conflitos de Relacionamentos Dejours (2004) descreve que existe um tipo de sofrimento resultante dos relacionamentos entre colegas que responde diretamente à organização do trabalho e que certamente dificulta a prática dos profissionais. De acordo com o que foi narrado nos depoimentos. no entanto nos reportamos que o incentivo à capacitação profissional é uma prática neste campo. 6. algumas vezes ocupam cargo de chefia. O que nos leva a questionar a implicação dos gestores nestes casos.93 Ainda encontramos casos onde os profissionais atuam como técnicos nesta UTI Neonatal e como nível superior.50).

segundo as autoras. as dificuldades de relacionamento também foram citadas como desgastantes.. “Mas acho que é preciso também estar dentro da equipe do hospital. a qualidade da assistência prestada aos usuários. e acaba por influenciar. para ter um clima de convívio. tais como: a dificuldade da aceitação da morte. senão como você vai ali tratar bem o paciente. Ou mesmo a escolha de um momento e local apropriado para diálogos mais acalorados.94 Neste estudo. também de ponta a ponta você tem que ter um relacionamento humanizado. Parece-nos necessária uma abordagem mais respeitosa entre as equipes para a garantia de um clima harmonioso. alguns dos dilemas éticos e profissionais que geram tensão entre os profissionais. e chegar lá esfaquear o colega né? Fica complicado né?!” (E4). . situações de hostilidades são consideradas um desgaste que pode influenciar diretamente no cuidado dispensado aos pacientes.. negativamente. na verdade permanecem na atmosfera do trabalho podendo resvalar na relação da equipe. Ainda que justificado pela tensão presente no ambiente. Leite e Vila (2005) descrevem que os profissionais que atuam em UTI convivem com diversos fatores desencadeadores de estresse. 1988). O que significa ter uma atitude humanizada no contexto geral da Instituição.. São atitudes de educação e regras de convivência. São. Existe a possibilidade dos trabalhadores dentro da equipe estarem inconscientemente utilizando mecanismos defensivos da profissão. a escassez de recursos materiais (leitos e equipamentos) e de recursos humanos e a tomada de decisões conflitantes relacionadas com a seleção dos pacientes que serão atendidos. As tensões vividas com os usuários. não somente com os usuários. Os profissionais revelam que nem sempre o trato dispensado aos usuários é o mesmo visto entre os colegas de trabalho. cordial que devem ser compartilhadas entre profissionais e usuários. Os mecanismos são recursos psíquicos que auxiliam os trabalhadores a lidar com sofrimentos provenientes do trabalho (Pitta.

você errou em deixar. Tinha outras mães ao redor. “(. Ela não me chamou em um canto e falou: olha só. É comum o corpo da enfermagem entrar em conflito com residentes.. Depois de um tempo de adaptação dos residentes na “casa” eles são colocados da linha.. e disse: olha só! Esta tia não podia entrar! Porque esta é uma criança que os pais tiveram que passar por psicólogos (. na expressão utilizada pela enfermagem.. uma médica veio para mim e me chamou. maiores são as chances de existirem conflitos.) aconteceu uma passagem que foi uma coisa brutal e eu acho que era um momento ruim da pessoa. como se chamasse o marido né?! .. mas acho que não é assim que se fala” (E4)..) e eu fui assim..95 “(. para todo mundo. Eu falei: pois. Como já citamos.. Acho que ela está certa..) Tinham mães por perto que viram isto.. ou o objetivo de sua .. e ela não teve um pingo de ética. ela falou isto em alto tom igual como estou aqui falando com você.. Pelos relatos nas observações percebemos que é necessário um tempo para que a relação seja afinada. a UTI Neonatal constitui um processo de trabalho que só pode ser realizado através da ação de várias categorias profissionais... foi desagradável para mim e para quem estava assistindo também. Na experiência deste estudo.. Sabemos que quanto maior o número de elementos que compõe um grupo.. – Olha o problema é comigo por tal motivo. praticamente humilhada pela médica.... Mas muito desagradável assim.. a pessoa não estava bem naquele dia. Por conta da alta rotatividade de residentes na UTI é freqüente haver choques de autoridades entre residentes e técnicos de enfermagem.. percebemos que não havia inicialmente nenhum tipo de aproximação da equipe para se informar sobre a identidade do pesquisador. Depois eu fui tentar explicar a situação para a chefe....” (E7). mal entendidos advém de choques de autoridades. depois eu não vi mais a pessoa ali dentro.. ou pouco visibilidade da definição de papéis dentro da equipe. Algumas vezes. que é uma médica. e quanto maior a complexidade da relação entre as várias categorias. não.

todo mundo que chega lá se sente intruso. já me senti muito mais. quanto mais próximo se está desse sujeito ‘invisível'. Interessante lembrar que enquanto sentido para humanização analisamos a categoria acolhimento e informação.. Costa (2002). pelo que foi observado esta prática é exclusivamente empregada em relação aos usuários. o resultado é que as pessoas passam a ser encaradas como coisas.. sem pedir. na casa de outra pessoa. . “Ah.96 permanência no local. Eu me sinto uma intrusa. A sensação de ser “um estranho no ninho”. Às vezes sinto má vontade de subir. Hoje em dia menos. Esta sensação veio a coincidir com outros depoimentos de profissionais de áreas especializadas que atuam na Unidade e revelam sentirem-se um tanto “transparentes” (aquele que não se vê) frente aos profissionais de maior permanência da UTI... às vezes. apesar de ser um estudo inicialmente voltado para classes de profissões menos prestigiadas na sociedade. e não pela própria pessoa. Percebemos que no caso dos profissionais de áreas especializadas que atuam na UTI Neonatal. chegando a ser imperceptível. no início. desgastante eu acho que é esta relação. O autor ressalta que "A invisibilidade pública opera em dois planos: consciente e inconsciente. pensando em . Já conversei. a invisibilidade pode acontecer por um tempo provisório. diluindo quando o trabalhador consegue sentir-se inserido no meio. As pessoas cruzavam. mais consciência dela se tem. mas não se dirigia para qualquer tipo de questionamento. como de garis.. a recíproca se mantinha verdadeira. O tema invisibilidade social. aponta para um fenômeno da divisão social do trabalho. Na qualidade de observação. No entanto. ao realizar um estudo sobre o assunto afirma que a invisibilidade faz com que as pessoas sejam enxergadas apenas por suas funções." Segundo o pesquisador.acho muito desgastante. Como se estivesse entrando na casa sem pedir.como vai estar lá em cima ? Como eu vou encontrar?? Qual vai ser o humor lá em cima?” (E11). nos remetem a idéia da insivibilidade.

A ansiedade e a culpa são minimizadas por mecanismos de defesa estruturados inconscientemente. nele. entendemos que exemplos e atitudes de humanização devem e podem partir dos próprios trabalhadores. como desgastantes e negativos. sentido e valor de se trabalhar numa organização de saúde. Assunção (1998) enfatiza o pressuposto de que o trabalho convoca o corpo inteiro e a inteligência para enfrentar o que não é oferecido pela organização. Segundo o autor: “não há humanização da assistência sem cuidar da realização pessoal e profissional dos que a fazem. se revalorize” Cembranelli. nos possibilitou a exposição de alguns pontos que constituem . espeto de pau”. mas também para os trabalhadores. A análise dos fatores considerados pelos profissionais da UTI Neonatal. Não há humanização sem um projeto coletivo em que toda a organização se reconheça e. os riscos ocupacionais e a desqualificação do trabalho e do trabalhador. a hierarquia rígida. Savoldi (2004) lembra da responsabilidade do processo de trabalho sob as fontes de desgastes como: jornadas de trabalho prolongadas. que estrategicamente ajustam o psiquismo com o propósito de garantir o mínimo de satisfação no trabalho. Cembranelli (2005) pontua que para o profissional dos hospitais as ações de humanização oportunizam o resgate do verdadeiro sentido de sua prática. afinal não se espera que um local que busca uma assistência humanizada caia no ditado popular: “casa de ferreiro.97 Apesar da UTI ser reconhecidamente um local de variadas tensões. Concluímos lembrando que o lidar com a saúde e a morte gera no trabalhador muitos sentimentos que revelam sofrimento. Os parâmetros para atenção hospitalar preconizados pela Política Nacional de Humanização sugerem a necessidade de mecanismos de escuta não só para a população. por isso a importante associação do adoecimento como conseqüência do processo de trabalho. (2005).

Podemos supor que. No próximo capítulo descrevemos os obstáculos apontados. . configuram impasses dentro do projeto de humanização. para a oferta de assistência humanizada.98 direta ou indiretamente obstáculos para a oferta de assistência humanizada. pelos profissionais. os próprios trabalhadores não percebem que os pontos críticos aqui descritos como. o desgaste e o sofrimento que advém do processo de trabalho. diretamente.

a realidade descrita pelos profissionais entrevistados. . A Política Nacional de Humanização propõe um debate sobre o modelo de atenção e gestão atualmente vigente na prática assistencial. por isto parecem distantes de uma ação direta dos profissionais que sentem se impotentes diante do cenário que se apresenta. nos aponta uma série de fatores que dificultam o alcance de alguns objetivos Institucionais. a exemplo das iniciativas do programa de humanização ao recém nascido de baixo peso. estão presentes como um obstáculo para a produção do cuidado em saúde tão específico quanto ao aqui estudado. Entendemos que ninguém melhor do que os trabalhadores de saúde para apontar as questões que se impõem como impeditivas dentro das atividades por eles exercidas. Alguns destes fatores dependem de recursos orçamentários. São fatores que nos despertam para um olhar cuidadoso em direção às condições de trabalho atualmente disponíveis para o alcance das metas instituídas pelo Ministério da Saúde.99 7 – FATORES QUE CONSTITUEM OBSTÁCULOS Á ASSISTÊNCIA HUMANIZADA NA UTI NEONATAL NA VISÃO DOS PROFISSIONAIS. Os profissionais reconhecem que a Instituição esforça-se para oferecer condições e recursos suficientes para a execução das atividades. Questões relacionadas ao número reduzido recursos humanos. No entanto. Por esta razão entendemos que se faz necessário apontar os entraves encontrados no processo de trabalho que venham obstruir a aplicabilidade desta política. O que acaba por resultar em carga de trabalho elevada para os profissionais da equipe atuante.

os profissionais entendem que a entrada de novos trabalhadores não solucionará o problema. considerou que: “o desempenho fundamental para equipe estar complexidade dos (p. funciona com um déficit de profissionais. ao realizar avaliação da carga de trabalho da equipe de enfermagem neonatal. sobretudo na enfermagem. A falta de recursos materiais também faz parte dos fatores que prejudicam a operacionalização dos mesmos projetos.1 – Recursos Humanos Pelo fato da área neonatal ter o atendimento voltado para pacientes de extrema vulnerabilidade. Entretanto. em geral dependente de tecnologia. é demandada uma equipe capacitada técnica e emocionalmente. 46). assim como acomodação para os profissionais. O espaço físico escasso acaba revelando a inadequação de infra–estrutura da UTI nas iniciativas da assistência humanizada. dos profissionais de enfermagem é atingir a meta de qualidade. Primeiramente pelo fato da contratação estar condicionada ao término do vínculo .100 O espaço físico apresenta-se como um entrave quanto à conformidade dos projetos que recomendam a permanência das mães que amamentam seus bebês. Temos clareza que esta equipe deva ter como propriedade uma qualificação que a torne diferenciada. por mais qualificada que seja a equipe de profissionais. caso o seu quantitativo não seja suficiente o resultado não expressará a qualidade desejada. O que interfere de forma direta na qualidade da produção de cuidados. devendo a quanti-qualitativamente adequada à cuidados exigidos pelos recém-nascidos” Apesar das recentes contratações realizadas através do último concurso público. 7. não podemos deixar de considerar que. Pontes (2004). Atualmente a UTI Neonatal.

“Hoje eu lembro. esporádico que aconteça por acaso. O que a gente acaba fazendo é cuidar das prioridades” (E5). Pontuam que os procedimentos realizados nos pacientes são em geral agressivos. discutimos a questão do número de paciente versus número de profissionais. o que não tem uma representação quantitativa. a chegada de novos profissionais requer um período de treinamento para a qualificação. pode gerar certo desconforto em alguns profissionais e nos familiares dos pacientes. entendem que quantitativamente o quadro permanecerá o mesmo e terão que passar por um período de sobrecarga durante a qualificação dos novos trabalhadores. . tomando também como variável a complexidade dos pacientes internados. No entanto. ser uma mera substituição de trabalhadores cooperativados por concursados. Isto acontece normalmente. apesar de ser prol da vida do paciente. percebemos que “esta aparente violência”. naturalmente imposta pelo trabalho na UTI. E isso é o nosso dia a dia. Na descrição anteriormente feita a enfermagem aponta que na prática cada profissional fica freqüentemente responsável por cuidar de 3 crianças em cada plantão. entendem os profissionais da UTI. rotineiramente. Posto isto. Assim. tem 7 profissionais e 28 crianças. E isto não é um momento isolado. Na descrição do processo de trabalho da enfermagem. para alguns dos entrevistados também representa um obstáculo para a assistência humanizada. A mais.101 empregatício de todos profissionais cooperativados que trabalham nesta unidade. a realidade mostrada se revela diferente. a relação profissional por recém nascido clinicamente estável é de um profissional para dois recém-nascidos. Esta complexidade em si. é a prova do que eu estou falando. Equivalência acatada pelos profissionais do nosso campo como ideal. Por isso. A sobrecarga conforme é entendida por Lamy (2001) representa a relação entre a disponibilidade de recursos humanos e o volume de trabalho. Enquanto Pontes (2004) coloca que diante de resultados obtidos em sua pesquisa.

sentar com calma. é o fato da capacidade de admissão de pacientes.. aquele pai. um número pequeno de profissionais. concluímos que neste aspecto. você tem que fazer correndo porque tem que atender aquelas outras crianças. Na UTI Neonatal estudada.... Para os profissionais entrevistados a superlotação também foi lembrada como um impeditivo para a assistência humanizada. a enfermagem limita-se na utilização do tempo para o cuidado dos pacientes. aquela mãe. você não pode quando quer dar uma orientação para uma mãe... a expectativa daqueles pais.” (E8). sobre o bebê.. aí você não pode dar aquela orientação.102 Uma das variáveis importantes neste cenário. Sabemos que o ideal está na equipe administrar o tempo de atividades de modo a executá-las de forma tranqüila. Lembramos que este é um momento quando as informações são fornecidas e oportuno para a promoção da integração da equipe da Unidade com a família.. Você não pode.. então acaba tendo de bloquear ou interromper aquela orientação. sobre a criança. o que caracteriza superlotação. tão assim. . encontrar-se além da oferta oficial (vinte e quatro leitos). e isto acaba por interferir no tempo para outras ações do cuidado ampliado.. “Falta de pessoal.. A superlotação exige um esforço na administração do tempo de atividades para o trabalhador.. como o tempo para as conversas com a família.. dois impeditivos se apresentam: o número aquém de profissionais e o número além de pacientes. a doença da criança.. Então.

visto que estes podem permanecer no período de até 24 horas no ambiente de trabalho. há de se prever espaço para descanso e refeições. no âmbito geral. Em relação aos pacientes. Foi imediatamente possível perceber que a Unidade carece de espaço físico. Sejam para higienização ou para reparos de manutenção. berços e todos os instrumentos necessários para sua funcionalidade. Espaço Físico é razão de muitos problemas dentro da Instituição pesquisada. Ressaltamos que como porta de entrada não sugere um aspecto dos mais agradáveis. Isto inclui o espaço físico para acomodação dos trabalhadores. O interior da enfermaria tem o que podemos considerar uma disposição inadequada do posto dos médicos. sobretudo quanto se trata do assunto humanização.103 7 . Na UTI Neonatal não é diferente. Podemos dizer que. fazendo com que os espaços existentes tornem se cada vez menores. as UTIs são estruturadas fisicamente para a adequação de equipamentos eletrônicos. Este corredor entulhado de equipamentos anuncia a inexistência de um depósito. Portanto. já possui toda área de edificação construída. A começar pela observação participante realizada. Sua instalação é ao final de cada berçário e as bancadas para . A limitação de espaços pode configurar como entrave para o profissional. A construção (subjetiva) de novos saberes e novas práticas acabam por demandar um espaço concreto de funcionamento. A entrada da UTI se faz por um corredor onde ficam “guardadas” as incubadoras não utilizadas pelos pacientes.2 – Espaço Físico Cada atividade de trabalho. o hospital além de estar no ranking do metro quadrado mais caros do Rio de Janeiro. sugere a utilização de um espaço físico específico.

visto que de costas não podiam perceber o que acontecia com aquela criança. torna se um incomodo entrar para tomar um cafezinho. . A disposição destas bancadas parece não facilitar a visualização dos berços e incubadoras. Pois. possui uma bancada onde fica uma cafeteira e no mesmo espaço existe um beliche para o descanso da enfermagem. fonte de muito desconforto. chorava na incubadora. Sentem-se constrangidos e expostos. A copa é utilizada para refeições rápidas e para o café. A utilização do espaço físico pelos profissionais também são críticas. onde trabalham os profissionais da segurança.104 anotação dos profissionais estão localizadas no prolongamento deste espaço. atrapalha a condução de alguns procedimentos. Assim. Outro ponto extremamente crítico é inexistência de um banheiro para os funcionários da UTI Neonatal nas instalações das enfermarias. com o barulho muitas vezes abafado pela incubadora parece ficar algumas vezes inaudível o choro do bebê. contorcendo se incomodada. Apesar da presença de profissionais nas bancadas. o que segundo os próprios profissionais. pois quando alguém está no local descansando. O que nos faz lembrar uma cena em que um bebê incomodado por uma tiara na cabeça. Os trabalhadores dividem o mesmo local de descanso com a copa. O banheiro utilizado pelos profissionais são banheiros de outros Departamentos como da Obstetrícia. Esta questão é para os profissionais. Todavia. nesta equipe o cafezinho pode ser fonte de conflito. Sabemos que a hora do cafezinho é utilizada para o alívio do estresse dos trabalhadores. Algumas incubadoras estão dispostas com menos de um metro de distância um do outro. foi necessário avisá-los sobre o fato. Utilizam o banheiro localizado em frente da recepção do andar. ao efetuar seus escritos os trabalhadores posicionam se de costas para os pacientes.

o nosso banheiro é horrível. A existência deste alojamento se deu em função do Título Amigo da Criança. Apesar de ter conhecimento sobre uma nova planta física para a UTI Neonatal. conforme relatam os profissionais.105 “Você vê o nosso banheiro ali na frente. percebemos ser inevitável atingir as relações com os profissionais e nos processos de produção do processo de trabalho em saúde. com melhoria dos ambientes de cuidados e das condições de trabalhos dos profissionais (Ministério da Saúde 2004. Em caráter provisório foi montado um alojamento de nutrizes. . está o fato de sentirem que a relação Instituição x Profissional. A acomodação não conta com cadeiras confortáveis e varal de roupas. Se a Política de Humanização propõe tornar mais humana a relação com o usuário. os profissionais sentem que a atual instalação em muito prejudica a produção de uma assistência humanizada. Entre os muitos motivos. pelo tempo que você fica lá dentro. No entanto. coloca-se pouco humanizada neste sentido. O pessoal que está ali na frente sabe se a gente vai fazer xixi ou coco. de acordo com o Humaniza SUS: Humanizar é. a Instituição prover um local de acomodação para que durante a internação as mães amamentassem seus filhos.6) Os entrevistados citaram de forma bastante enfática a implantação do Alojamento de Nutrizes. eu fico constrangida né?!”(E6). é acompanhada de sérios problemas de infra-estrutura que estaremos detalhando a diante. Foi considerado como alta relevância. então ofertar atendimento de qualidade articulando os avanços tecnológicos com acolhimento. para as peças íntimas das mulheres que ali permanecem. Atualmente este alojamento fica nas proximidades da UTI Neonatal tratando-se de um quarto com 5 leitos. na aquisição deste título concebido pela UNIFEC. fica super mal localizado. p. não existe pia nem um banheiro dentro do quarto. Uma vez que. A instalação improvisada.

(você não pode generalizar favela.. inconfundivelmente. pode ocorrer das mães . pelo incentivo ao aleitamento materno.. se a luz queima você tem que ficar pedindo várias vezes.). as nutrizes passaram a ter um lanche à noite.106 7. Enfrentam como os trabalhadores. faziam a última refeição por volta das 19: 00 h.. vai ver. as mulheres trazem de casa. 3 – Problemas de infra-estrutura Conforme colocamos a instalação do Alojamento de Nutrizes... fica assim um horror. Percebemos nos depoimentos que os trabalhadores sentem impotentes para produzir o cuidado humanizado dentro da proposta que atualmente a Instituição apresenta como Alojamento de Nutrizes. uma excelente iniciativa na questão da humanização ao recém nascido de baixo peso. mobilizando muito os profissionais da Unidade. ficar sem o almoço ou jantar. Este espaço improvisado.. não tem ventilador. e promoção do vínculo mãebebê. Já tem quanto tempo que o hospital recebeu o título? O espaço continua o mesmo” (E9)... vem até os dias atuais. Depois das solicitações da equipe. por estarem na enfermaria amamentando. Aquela coisa improvisada que fica eterno. é horrível. e encontram problemas com o horário da refeição que ao coincidir com o horário das mamadas. o problema da utilização de banheiros.. A alimentação não é especifica para nutrizes. pois anteriormente.. . elas colocam um monte de calcinhas. Apesar de representar. O fornecimento de lençóis também é escasso nesta área. A televisão que tem. assim como sua televisão. elas que trouxeram.. tem dia que eu entro lá e falo: gente por amor de Deus! Isto aqui está pior do que favela. Ainda carece de adequações para que seja considerado por todos os profissionais como um verdadeiro alojamento de nutrizes. “O alojamento de Nutrizes foi um espaço improvisado para o hospital receber o título.

107 “O hospital ganhou o título Amigo da Criança. Cadê? Jogaram as mães aqui dentro. também foi lembrada como um obstáculo para efetiva realização deste projeto. Embora os profissionais recomendem que as mães vistam roupas que facilitem a posição canguru.4 – Recursos Materiais Os recursos materiais também foram citados como obstáculos na produção da assistência humanizada. são desumanas. A dificuldade enfrentada por estas mães. Por trás do título você tem uma verba boa. Durante a observação participante não tivemos a oportunidade de presenciar nenhuma mãe fazendo a posição canguru. proporcionada pelo avental. que precisam passar por análises técnicas. em pagar transporte para comparecer ao hospital. Isto faz com que algumas vezes. por não atenderem as necessidades de utilização. algumas questões de infra-estrutura necessitam ser solucionadas. Ouvimos . tenham que recorrer a outros serviços para empréstimos. embora a enfermagem coloque que estão iniciando. Ganhou-se o título. Os profissionais lidam com falta de equipamentos como cabos elétricos essenciais para o funcionamento de respiradores. Problemas semelhantes são encontrados na proposta de implantação da posição canguru dentro desta UTI Neonatal. A inexistência de faixas para a posição canguru é um complicador. você se vira” (E6).. Enfrentam dificuldades com alguns materiais comprados em licitação. timidamente. dificultando a acomodação do bebe ao corpo da mãe.. este trabalho. isto não ocorre. e as condições que estas nutrizes são colocadas aqui dentro. Você fica assim. Os profissionais entendem que para a efetiva aplicação da posição canguru. faltam os encostos de cadeira que tem a função de tornar ainda mais confortável esta posição. 7. Além de uma acomodação confortável para a dupla mãe-bebê.

o fato da equipe se mostrar disponível para abraçar os diversos projetos de humanização dentro da produção de cuidados. Sem. eles acreditam que. onde rolinhos sejam uma espécie de instrumento de trabalho. As equipes de trabalhos especializados como a fisioterapia apontam que a falta de lençóis que impede o desenvolvimento de trabalhos específicos. contudo.108 depoimentos que descrevem a compra de luvas de qualidade inferior à recomendação técnica ou com tamanho superior ao solicitado. precisa dimensionar esta oferta a tornando melhor. embora a instituição ofereça condições. eximir se a uma avaliação crítica. Esta percepção parece ter como aspecto positivo. A escassez de lençóis também afeta a utilização dos “tetinhos”. que constituem obstáculos apontados pelos profissionais. . Apesar dos diversos fatores. literalmente incompatível com a mão de obra feminina. usados como black out nas incubadoras com a finalidade de reduzir a luminosidade do ambiente.

que assinala alguns conflitos de relacionamentos. apontam como dificuldades para por em prática as iniciativas existentes. Estas acomodações são improvisadas ou compartilhadas . como descanso. constituem obstáculos para a assistência humanizada. na análise observamos que os desgastes não obscurecem as satisfações que os trabalhadores desfrutam de suas atividades. sobre as quais estão apoiadas para a produção de cuidados. quando estas se apresentam em forma de reconhecimento do trabalho bem sucedido. cujo objetivo em linhas gerais é melhorar a qualidade da assistência e difundir uma nova cultura de humanização na rede hospitalar pública brasileira. o que existe de iniciativas voltadas para a assistência humanizada e o que os profissionais de saúde. Nossa pesquisa teve como um dos guias analíticos.109 CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente estudo teve como objetivo principal analisar. nos permitiu questionar a respeito das condições. Principalmente. que na visão deles. sob a ótica dos profissionais de saúde. Os trabalhadores deparam-se com questões relacionadas à limitação de espaço físico dentro da Instituição. a proposta de atenção humanizada e os obstáculos identificados por eles. as tensões deste trabalho parecem contribuir para o desgaste emocional da equipe. tomando-se como contexto o processo de trabalho na Unidade de Terapia Intensiva (UTI Neonatal). Oferecer a oportunidade do trabalhador descrever os fatores. a Política Nacional de Humanização. Os resultados nos possibilitaram conhecer. O processo de trabalho na UTI foi considerado como desgastante por sua própria natureza. A falta de espaço tira-lhes o direito de acomodações dignas. Entretanto. copa e banheiro. para a oferta desta forma de assistência.

os limitam para oferecer ao usuário o que eles esperariam receber do gestor. proporcione constantes desgastes e envolva fatores que constituem obstáculos para a oferta da assistência humanizada. Cabe também aos gestores. Em conseqüência da presença de poucos funcionários e muitos pacientes. os prejuízos que podem afetar a qualidade do seu trabalho.está distante do modelo de humanização. minimizando desta forma. fica prejudicada em função do pouco tempo disponível dos profissionais. Por esta razão. A questão dos recursos humanos é descrita como um fator que constitui um grande obstáculo. razão de muita insatisfação dos profissionais. Na UTI Neonatal pesquisada. percebemos que trabalhadores criam estratégias para atender às necessidades dos usuários. a fim de que estes possam sentir se . o local de acomodação para as mães .110 com outros serviços e setores do departamento. o qual os profissionais gostariam de proporcionar. e desenvolvem ações que facilitem suas práticas. Dentro da proposta dos programas de humanização temos diretrizes que incentivam o aleitamento materno. Esta questão foi apresentada pelos profissionais como uma causa urgente. uma reflexão crítica. Os trabalhadores entendem que a falta destas “condições humanizadas do trabalho”. potencializam os fatores positivos existentes no processo de trabalho. Ressaltamos que embora o processo de trabalho da UTI Neonatal. concluímos que os profissionais da UTI Neonatal. Este ponto nos pareceu crítico. Para tanto. faz-se necessário um local com infra-estrutura adequada e acomodações para as nutrizes.Alojamento de Nutrizes . a atenção demandada por familiares que acompanham a internação do bebê. no sentido de ocupar-se das necessidades dos profissionais de saúde. A permanência da mãe junto ao bebê hospitalizado é uma das estratégias para reforçar o vínculo afetivo da dupla e garantir a amamentação.

capazes de reproduzir esta ação na forma de assistência. portanto. podem comprometer a saúde dos trabalhadores e conseqüentemente a adesão ao projeto de humanização. entendemos que é preciso maior atenção por parte dos gestores em promover ações coletivas na área da saúde mental que possam zelar cuidadosamente da saúde emocional dos profissionais desta UTI Neonatal. . uma vez que percebemos que as subjetividades dos profissionais.111 humanizadamente tratados e. Como última sugestão. tão presente neste contexto.

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Relato de situações onde. Visão do profissional sob as condições geradas pela instituição para viabilizar assistência humanizada. não foi possível prestar assistência humanizada. Relatos onde embora houvesse o desejo. A análise dos profissionais sobre o seu processo de trabalho na UTI.118 ANEXO A Roteiro elaborado. . foi prestada assistência humanizada. a ótica do profissional de saúde sobre: Os sentidos atribuídos para assistência humanizada. sobre o ponto de vista do trabalhador. Análise dos profissionais sobre os principais obstáculos encontrados no processo de trabalho para um atendimento humanizado.

com vistas a maior divulgação dos resultados. estudadas. sem que isto lhe traga qualquer prejuízo. o processo de trabalho na UTI Neonatal e os fatores deste processo que constituem obstáculos à humanização da assistência neonatal. Este documento lhe dará informações e pedirá o seu consentimento para participar de uma pesquisa que está sendo desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-Graduação do Instituto Fernandes Figueira – FIOCRUZ. será realizada a transcrição das mesmas. não sendo possível identificar os indivíduos que dele participam. O estudo objetiva. analisar a partir da ótica dos trabalhadores. Você tem o direito de pedir outros esclarecimentos antes e durante o desenvolvimento da pesquisa e pode se recusar a participar ou interromper a sua participação nela a qualquer momento. Será garantido o sigilo que assegure a sua privacidade quanto aos dados confidenciais envolvidos na pesquisa. congressos. As pessoas. cujos resultados serão apresentado em conjunto. bem como para a produção de artigos técnicocientíficos e de trabalhos a serem apresentados em mesas redondas. e posteriormente. Os dados coletados na pesquisa servirão para a elaboração da dissertação de mestrado. As observações serão registradas em diário de campo. Ao apontar que as iniciativas de humanização da assistência nas UTI’s Neonatais tem como alvo alcançar a articulação da qualidade técnica com as tecnologias de acolhimentos. entre outros. reconhecemos a importância se considerar o processo de trabalho o qual o profissional de saúde está inserido e as condições existentes para a oferta deste modelo de assistência. por acaso.119 ANEXO B Ministério da Saúde FIOCRUZ Fundação Oswaldo Cruz Instituto Fernandes Figueira TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Pesquisa: O processo de trabalho da UTI Neonatal e a produção de cuidados humanizados: limites e potencialidades Prezado Profissional. A pesquisa será conduzida através de entrevistas sobre os sentidos atribuídos pelos profissionais de saúde sobre a assistência humanizada e o processo de trabalho da UTI Neonatal. com a autorização dos profissionais de saúde. As entrevistas serão gravadas. . referidas durante a entrevista também terão suas identidades mantidas em sigilo.

Tel. 25541730 . Declaro que li e entendi todas as informações referentes a este estudo e que todas as minhas perguntas foram adequadamente respondidas pela responsável da pesquisa.:2544-1794/ 88211585 Comitê de Ética em Pesquisa . ________________________ (Nome do entrevistado) ______________________ (assinatura) __________ (Data) ____________________________ (Nome do Pesquisador) Kátia Mª O S. Silva __________________________ (assinatura) __________ (Data) Responsável da Pesquisa: Kátia Maria Oliveira de Souza da Silva Tels.IFF/FIOCRUZ .120 Eu _____________________________________________abaixo assinada concordo em participar voluntariamente desta pesquisa.

4) Como é o processo de trabalho desta UTI? 5) O que é positivo e gratificante neste trabalho? 6) O que é desgastante e negativo? 7) Você acha que a Instituição oferece condições para que possa ser prestada assistência humanizada? Como se sente quando percebe que não consegue prestar assistência humanizada? 8) Em sua opinião dentro do processo de trabalho desta UTI. 3) Conte uma situação onde você julgue que embora desejasse não foi possível prestar uma assistência humanizada.121 ANEXO C Perguntas para entrevista seguindo o roteiro previamente elaborado. quais são os principais obstáculos encontrados para um atendimento humanizado? . 1) O que você entende por assistência humanizada? 2) Descreva uma situação onde você julgue ter sido prestado assistência humanizada.