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RESENHA – SEMINÁRIO VIII

DEPOIS DA NAÇÃO-ESTADO, O QUÊ? ALUNA: Talita Silva Pinto MATRÍCULA: 0908545-9

O autor Zygmunt Bauman ao escrever o livro ―Globalização: As conseqüências humanas‖ teve como objetivo principal levantar questões sobre raízes e efeitos sociais do fenômeno tão conhecido que é a Globalização. Na Introdução o autor diz que para alguns, a globalização é o que deve ser feito para que sejamos felizes, enquanto que para outros, causa infelicidade; mesmo que seja este o destino do mundo, considerado como um processo irreversível, ela afeta a todos na mesma medida e maneira. A expressão ―A globalização tanto divide como une; divide enquanto une – e as causas da divisão são idênticas às que promovem a uniformidade do globo.‖ contida no texto tem o poder de sintetizar superficialmente qual seria o fado da globalização: dois processos intimamente relacionados diferenciam, de forma clara, condições existências de populações inteiras e de vários segmentos de cada população. Para alguns a globalização e sinal de liberdade, para outros (a grande maioria) é um destino indesejado e cruel, onde a liberdade torna-se o principal fator estratificador dos tempos modernos. Esta resenha tem como objetivo principal a análise do terceiro capítulo do livro em questão, que de forma geral, trata das perspectivas da soberania política, em particular os efeitos demolidores da globalização sobre a capacidade decisória dos governos estatais. No início do capítulo o autor escreve que a economia, ou capital, movese rápido, rápido o bastante para se manter permanentemente à frente de qualquer Estado (fronteiras territoriais) que possa tentar contê-lo ou redirecioná-lo. O aumento da velocidade da informação aniquila qualquer restrição espacial, ou seja, ―o que quer que se mova a uma velocidade aproximada à do sinal eletrônico é praticamente livre de restrições relacionadas ao território de onde partiu, ao qual se dirige ou que atravessa.

que inicialmente transmitia a esperança. a intenção e a determinação de se produzir a ordem. dizendo que é dessa suposição que mais se sente falta. e afirma ainda que a globalização é a ―nova desordem mundial‖ com outro nome. tal como formulado no discurso atual‖. indicava uma nova ordem universal. e completa ―a imagem da desordem global reflete. Surge aí a questão em relação ao papel do Estado. Sugere que a globalização tenha substituído a idéia de universalização. Com o definhamento das nações-estados há uma sensação de incômodo com relação à falta de controle é citada pelo autor quando menciona o título do livro de Kenneth Jowitt – A nova desordem mundial. a nova consciência (facilitada mas não necessariamente causada pela morte súbita da política de blocos) da natureza essencialmente elementar e contingente das coisas que anteriormente pareciam tão firmemente controladas ou pelo menos ―tecnicamente controláveis‖. sim. um campo de forças dispersas e díspares.”. painel de controle. agora ―o mundo o mundo não parece mais uma totalidade e. onde todos os conceitos remetiam à vontade de tornar o mundo diferente e melhor. tudo tinha um significado (que emanava de um centro dividido. que se estende para além do alcance da capacidade de desígnio e ação de quem quer que seja em particular. que ilustra a questão da destruição de postos de trabalho maior que a criação deles. tornando iguais suas oportunidades de vida. Atualmente as ações podem produzir efeitos globais. questão que será levantada mais tarde no texto. A globalização refere-se às forças anônimas que operam na vasta terra de ninguém. e compara a idéia de ordem e ―estar no controle‖. E completa: ―Nada disso restou no significado de globalização. porém não é possível planejar e executar estas ações globalmente. que se reúnem em pontos difíceis de prever e ganham impulso sem que ninguém saiba realmente como pará-las. que . comissão diretora ou gabinete administrativo. indisciplinado e de autopropulsão dos assuntos mundiais sem que haja um centro. mas único). O mundo constituía numa totalidade que prezava a ordem das coisas. Em poucas palavras: ninguém parece estar no controle agora. além de não estar claro o que seria ter o controle. declarando a intenção de tornar semelhante as condições de vida de todos.No parágrafo seguinte o autor cita um comentário de Martin Woollacott. antes. O autor segue o texto se referindo à globalização como uma nova e desconfortável percepção da falta de controle ou do caráter indeterminado.

A imagem da ―ordem global‖ reduzia-se. antes e acima de tudo. Atualmente o .experimenta. O autor sugere que deveríamos reservar o nome ―Estado‖ para os casos em que ele é instituído na forma de Aparelho de Estado. é capaz de reunir. em diversas épocas. econômica e cultural do Estado deixou de ser uma perspectiva viável. concentrar e usar. O ―cenário global‖ era visto cada vez mais como o teatro da coexistência e da competição entre grupos de Estados e não entre os próprios Estados. Posteriormente o autor afirma que a função abandonada pelo Estado foi a manutenção do ―equilíbrio dinâmico‖ no que diz respeito à igualdade no ritmo de crescimento de consumo e produtividade. traçar e preservar fronteiras que separava e encerravam o território de soberania legislativa e executiva de cada Estado. O autor retoma a iniciativa tomada na conferência de Bandung de criar o ―bloco dos sem bloco‖. no domínio estatal dos recursos outrora utilizados pelos focos difusos de poder social. transferir e condensar o poder social. sensação de impotência em relação ao controle e estabelecimento de regras e normas que ditavam o rumo dos negócios num certo território. o que foi o início da morte de sua soberania e que tornou tão popular a idéia da condição estatal. Ordenar um setor do mundo passou a significar: estabelecer um Estado dotado de soberania para fazer exatamente isso. A tarefa de produzir a ordem requer imensos e contínuos esforços para depurar. o que levou os Estados. Por necessidade. o que implica numa organização hierárquica com área de competência limitada. a impor barreiras de importação e exportação. mas todos agora necessários para sustentar a instituição e a manutenção da ordem administrada pelo Estado. Desta forma. onde a auto-suficiência militar. A política interestatal visava. o que por sua vez exige recursos consideráveis que somente o Estado. cada uma eficientemente mantida e policiada por um e apenas um Estado territorial. os Estados tiveram que buscar alianças e entregar voluntariamente pedaços cada vez maiores de sua soberania. a soberania legislativa e executiva do Estado moderno apoiou-se no ―tripé‖ das soberanias militar. ao total das ordens locais. para preservar sua capacidade de policiar a lei e a ordem. A mudança afetou o papel do Estado e o tripé da soberania foi quebrado sem esperança de conserto. cada vez mais. em suma. iniciativa esta prejudicada pelos dois superblocos. em outras palavras. na forma de um aparelho burocrático hierárquico. econômica e cultural.

e o que restou da política deve ser tratado pelo Estado. comércio e indústria de informação globais dependem da fragmentação política do cenário mundial. O autor ainda faz uma afirmação ousada ―No cabaré da globalização. indicando que a nação-estado torna-se um mero serviço de segurança para as mega-empresas e os novos senhores do mundo não têm necessidade de governar diretamente. ―policiando e controlando as pressões locais por intervenções estatais mais vigorosas na direção dos negócios e em defesa da população face às conseqüências mais sinistras da anarquia de mercado‖. ressalta através da comparação entre a soma de quantia das transações puramente especulativas e a soma das reservas de todos os bancos centrais do mundo. A perna mais afetada do tripé citado anteriormente foi a econômica e agora os mercados financeiros globais impõem suas leis e preceitos ao planeta. Pela independência de movimento e liberdade das finanças.controle deste equilíbrio está além do alcance da maioria dos Estados. e qualquer tentativa de intervir seria punida pelos mercados mundiais. Não há contradição entre a nova extraterritorialidade do capital (absoluta no caso das finanças. Através do livre movimento do capital e das finanças a economia é isentada do controle político.É possível dizer que todos tem interesses em Estados fracos. o Estado passa por um strip-tease e no final do espetáculo é deixado apenas com as necessidades básicas: seu poder de repressão. mas que continuam sendo Estados. pela simples razão de que alguns minutos bastam para que empresas e até Estados entrem em colapso. com a condição de que este não deve tocar em qualquer coisa relacionada à vida econômica.‖. O autor. e a distinção entre seu interior e exterior se limita ao sentido de policiamento do território e da população. completa. citando Passat. Esses interEstados exercem pressão sobre Estados membros a fim de destruir tudo o que possa deter ou limitar o livre movimento . Com a globalização os Estados não têm recursos suficientes nem liberdade de manobra pra suportar a pressão. quase total no caso do comércio e bem avançada no da produção industrial) e a nova propagação de Estados soberanos frágeis e impotentes. que nenhum Estado pode resistir por mais de alguns dias às pressões especulativas dos mercados. Assim a única tarefa que cabe ao Estado é a de garantir um orçamento equilibrado.

menos poder será retido nas mãos do agente que o promove. se abate sobre outros (no caso a grande maioria) como destino cruel. No cenário atual observa-se um must pela globalização. Nessa altura do capítulo o autor introduz o novo conceito de ―Glocalização‖. criado por Roland Robertson.de capitais e restringir a liberdade de mercado. Bauman lança mão de dados estatísticos para exemplificar o quanto o capital está concentrado nas mão de poucos. agora é a conduta do mercado que gera surpresa e incerteza. e também de concentração da liberdade de se mover e agir. de forma mais precisa. ―A integração e a divisão. elas constituem duas faces do mesmo processo. das finanças e todos os outros recursos de escolha e ação efetiva. O autor cita Michael Cozier para iniciar a última parte do capítulo ao conceituas dominação como ―deixar a máxima liberdade de manobra ao dominante e impor ao mesmo tempo as restrições mais estritas possíveis à liberdade de decisão do dominado‖. são processos mutuamente complementares‖. e o que é opção livre pra alguns. de liberdade e restrição. Abandonar qualquer idéia de política econômica autônoma é condição para que os bancos mundiais e fundos monetários internacionais concedam assistência econômica. Estes Estados fracos são o que a Nova Ordem Mundial precisa para sustentar-se e reproduzir-se. O autor completa a afirmação com a declaração de que testemunhamos uma nova reestratificação mundial. O padrão dominante pode ser visto como o afrouxamento de freios. de riqueza e pobreza. porém. que quanto mais consistente. ―A separação entre economia e política e a proteção da primeira contra a intervenção regulatória da segunda‖. de recursos e impotência. a globalização e a territorialização. Segundo a descoberta feita no . e podem ser reduzidos ao papel de distritos policiais locais que garantem o nível médio de ordem necessário para a realização de negócios. e o mais importante: não precisam ser temidos como freios efetivos à liberdade das empresas globais. resulta na perda de poder da política como agente efetivo. Assim a fragmentação política e a globalização econômica são aliados íntimos e conspiradores afinados. Por causa dessas duas tendências opostas que os processos globalizantes resultam na redistribuição de privilégios e carências. de poder e ausência de poder. definido como processo de concentração de capitais. e menos ele poderá evitar aplicá-lo.

Jamais se suspeitaria que o rápido enriquecimento e o rápido empobrecimento brotam da mesma raiz. além de especular com eficiência cada vez maior. ao invés de facilitarem. 85% da população mundial recebiam apenas 15 por cento da renda global. E os porcos voariam. impedem este efeito de gotejamento de riquezas. que livres das amarras do Estado.último Informe da ONU sobre o Desenvolvimento de que a riqueza total dos 358 maiores ―bilionários globais‖ eqüivale à renda somada dos 2.‖ Acredita-se. já que a globalização deu mais oportunidade aos extremamente ricos de ganhar dinheiro mais rápido. só 22% da riqueza global pertencem aos chamados ―países em desenvolvimento‖. a tecnologia não causa impacto nas vidas dos pobres do mundo.4%. uma vez que a parcela da renda global que cabe atualmente aos pobres é ainda menor: em 1991. Os antigos ricos precisavam dos pobres para fazê-los e mantê-los ricos. onde os meios de comunicação (em geral). E esse não é de forma alguma o limite a que deve chegar a atual polarização. que a ―imobilidade‖ dos miseráveis é um resultado tão legítimo das pressões ―glocalizantes‖ quanto as novas liberdades dos bem-sucedidos para os quais o céu é o limite.3% da riqueza mundial possuídos por 20% dos países mais pobres trinta anos atrás caíram agora ainda mais no abismo: para 1. os quais utilizam a mais recente tecnologia para movimentar largas somas de dinheiro com alta rapidez. erroneamente. mas deixa de fora ou marginaliza dois terços da população mundial. já os novos-ricos não precisam mais dos pobres e finalmente a liberdade total está próxima. O autor faz uma análise da criação da riqueza.‖ Assim chega-se a idéia de que o mais ricos ficam cada vez mais ricos. com a produção de coisas. com o capital nômade. Keegan conclui: ―Se (como observou um crítico americano) os 358 decidissem ficar cada um com US$ 5 milhões para se manter e distribuir o resto. a globalização é um paradoxo: é muito benéfica para muito poucos. Segundo o cronista Ryszard Kapuscinski o . Kavanagh completa: ―Infelizmente.3 bilhões mais pobres (45 por cento da população mundial). praticamente dobrariam a renda anual de quase metade da população da Terra. cada vez mais perto de emancipar-se de suas conexões. De fato. a criação de empregos e a direção das pessoas. Com efeito. Não admira que os esquálidos 2. haverá mais para todos. que respondem por cerca de 80% da população mundial. o processamento de materiais. a riqueza cresceria mais rápido e uma vez multiplicada.

doença. Tecnologias que efetivamente se livram do tempo e do espaço precisam de pouco tempo para despir e empobrecer o espaço. O autor cita que Kapuscinski lembra que perambulou por vilas e aldeias africanas. Essa equação esconde aspectos complexos da pobreza. família destruídas. fazendo supor que o sofrimento dos famintos é opção deles próprios. analfabetismo. As viagens globais dos recursos financeiros são talvez tão imateriais quanto a rede eletrônica que percorrem. fazem com que todos aqueles que não podem acompanhar nem deter os novos hábitos nômades do capital observem impotentes a degradação e desaparecimento do seu meio de subsistência e se indaguem de onde surgiu a praga. e o sofrimento de pessoas. não importando que representem 1% da população asiática. ―Como se não houvesse ligação entre o vazio do encorajamento para que se ―levantem e façam alguma coisa‖. além de degradar e negar a condição humana plena. Elas tornam o capital verdadeiramente global. chocolate ou brinquedos. E segundo lugar o noticiário reduz a pobreza à fome estrategicamente. sem instrumentos de trabalho. e a tarefa se torna arranjar comida para os famintos. e escondendo aspectos como horríveis condições de vida e moradia. pelo menos não nas terras onde as pessoas mostradas pela TV morrem de fome. pelo menos não no cenário dos alimentados e dos que alimentam. dirigidas aos pobres num mundo que não precisa mais da força de trabalho. Acrescenta ainda que a associação das imagens de fome com a destruição do trabalho são evitadas e as pessoas são mostradas com sua fome. terra produtiva. O acobertamento é feito primeiramente pelas notícias sobre uma epidemia de fome no mesmo continente no qual os tigres asiáticos estão. As riquezas são globais. enfraquecimento dos laços sociais. pois iam à escola e não tinham com que escrever as lições‖. agressão. estes últimos tidos como exemplo de riqueza e desenvolvimento. encontrando crianças ―que imploravam não pão. ausência de futuro e produtividade.acobertamento destas questões ocorre por meio de três expedientes através dos meios de comunicação. ou cabeça de gado. mas os . Poderiam então agir como os tigres. mas uma esferográfica. que elaboraram estratégias arrojadas para atrair capital estrangeiro. pois 800 milhões passam fome e 4 bilhões vivem na pobreza. aflições estas não curadas apenas por comida. a miséria é local — mas não há ligação causal entre elas. que não adotam solução alternativa para seus problemas. água.

O desafio é realmente espantoso: negar aos outros o mesmíssimo direito à liberdade de movimento que se elogia como a máxima realização do mundo globalizante e a garantia de sua crescente prosperidade. O autor conclui o capítulo como o sentido de moral da humanidade: ―O desejo dos famintos de ir para onde a comida é abundante é o que naturalmente se esperaria de seres humanos racionais. . É por sua inegável racionalidade e correção ética que o mundo racional e eticamente consciente se sente tão desanimado ante a perspectiva da migração em massa dos pobres e famintos. e que continuem assim. Imagens de lugares hostis são criados na cabeça destas pessoas que pensam que as tentativas de salvar este mundo de sua própria brutalidade só podem produzir efeitos momentâneos e fracassarão a longo prazo. ajudando os habitantes locais a permanecerem locais. e é virtualmente impossível propor argumentos racionais convincentes provando que a migração seria para eles uma decisão irracional. deixar que ajam de acordo com esse desejo é também o que parece correto e moral à consciência. acabando por agradecer a Deus por fazer destes habitantes locais distantes. sem se sentir culpado. o direito de ir onde há abundância de comida. muito menos de que todas essas armas foram fornecidas por suas indústrias bélicas orgulhosas de sua produtividade e competitividade. ao mesmo tempo que permitem aos globais viajar com a consciência limpa.vestígios locais de sua jornada são dolorosamente palpáveis e reais: o ―despovoamento qualitativo‖. a exclusão de milhões impossíveis de serem absorvidos pela nova economia global.‖ E completa com a afirmação de que as imagens de desumanidade reforçam a determinação que não dispõe de argumentos éticos e racionais a apoiá-la. a destruição das economias locais outrora capazes de sustentar seus habitantes. Em terceiro lugar toda a informação que vem de fora fala de desastres. é tão difícil negar aos pobres e famintos. sem falar das armas mortíferas causadoras destes desastres.