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EDUCAÇÃO DO CARÁCTER: UM CONCEITO, MÚLTIPLAS QUESTÕES Ramiro Marques O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da

Academia das Ciências de Lisboa define carácter da seguinte maneira: sinal traçado, gravado, pintado numa superfície e a que se atribui um significado especial. E, ainda, traço característico, distintivo de um ser. O mesmo Dicionário refere, também, que a palavra quer dizer coerência e firmeza nos actos e nos ditos, honestidade e sentido ético dos deveres e direitos a respeitar. Podemos afirmar que o carácter de um indivíduo é a sua constituição moral e o seu padrão de comportamento. Podemos ter um bom carácter ou um mau carácter. Embora o carácter de uma pessoa seja, em parte, produto da herança genética, a educação e o ambiente exercem um papel fundamental na sua construção. Quando se vive e se é educado em comunidades virtuosas, o processo de construção de um bom carácter é facilitado. Quando se vive e se é educado em comunidades hostis e destituídas de virtudes, torna-se extremamente difícil a construção de um bom carácter. A sabedoria prática constitui uma virtude essencial à formação do bom carácter. Com ela, o indivíduo aprende a analisar uma situação ou problema, a deliberar com racionalidade e prudência, a escolher a coisa certa a fazer e a agir adequadamente. É esse processo que, continuadamente repetido, se torna um verdadeiro hábito, colando-se ao indivíduo como uma segunda natureza. Mas, para deliberar bem e agir adequadamente, não basta o conhecimento do bem. Importa, também, a posse de bons sentimentos e emoções, bem como um

genuíno gosto por fazer o bem e a capacidade de sentir empatia pelos outros. O indivíduo de bom carácter está melhor preparado para fazer o bem do que o que possui um carácter fraco ou deficiente, porque, para além de conhecer e de amar o bem, possui uma vontade forte para fazer o bem. Quer isto dizer que não basta o conhecimento ou os sentimentos. A força de vontade é uma qualidade necessária para que o indivíduo passe à acção e faça o que tem de ser feito. A definição do bom carácter levanta, contudo, alguns problemas. Um deles é o da definição de “bem”. O que é o bem e o que é mal? Diferentes culturas dão definições diversas de bem, embora seja possível encontrar alguns pontos comuns em todas elas. Por exemplo, todas as culturas censuram a mentira e valoram positivamente a verdade. Todas elas valoram positivamente a coragem. Todas as grandes civilizações conhecidas, desde a civilização grega até aos nossos dias, acentuam a importância de um conjunto de virtudes a que podemos chamar de cardinais: sabedoria, justiça. autodomínio e coragem. Outras virtudes como a prudência, a temperança e a generosidade surgem, também, em grande plano em todas as grandes civilizações. Parece haver algum consenso em torno deste conjunto de virtudes, visto que os antropólogos, sociólogos e historiadores as têm encontrado nas práticas culturais e nas criações artísticas de todas as grandes culturas. Contudo, passar daí para a defesa da existência de valores básicos comuns, vai um passo demasiado arriscado. Há culturas que valoram, positivamente, a crueldade. Veja-se o caso da cultura asteca e de outras culturas pré-colombianas. Ryan e Bohlin (1999) afirmam que o bom carácter não é mais do que conhecer o bem, amar o bem e fazer o bem. Essa afirmação estaria isenta de contestação se fosse possível uma definição transcultural do bem e do mal. Ora, os ensinamentos da História e da Antropologia parecem querer dizer-nos o contrário. É extremamente

difícil, senão impossível, estabelecer um consenso transcultural em torno de valores éticos. Veja-se o caso de Esparta, no século V a.C., onde o infanticídio de crianças deficientes era uma prática legítima. Ou a aceitação pública da pederastia, na Atenas do século V a.C. Em conclusão, podemos afirmar que o carácter é a soma dos nossos hábitos intelectuais e morais e uma disposição natural para agir de uma determinada maneira. Podemos, ainda, afirmar que há algumas regras de ouro que são comuns a todas as culturas, como, por exemplo, “não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”, mas a existência de valores éticos comuns não vai muito além disso.

Referência Ryan, K. e Bohlin, K. (1999). Building Character in Schools. S. Francisco: Jossey-Bass