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34º Encontro Anual da Anpocs

ST 03 - Cidades: dimensões, escalas e composições

Urbanização de favelas: inserção na cidade?
Luciana Teixeira de Andrade

Caxambu, outubro de 2010

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Urbanização de favelas: inserção na cidade?1 Luciana Teixeira de Andrade2

Entre os vários mitos sobre as favelas, um que mereceria maior investigação é o que sustenta ser a favela uma “invenção carioca”. Apesar do uso do termo favela ter origem no Rio, a forma de morar que ele denomina, como já mostrou Lícia Valladares (2005), é anterior até mesmo ao famoso Morro da Favella, que data de 1897. Ou seja, o Morro da Providência, ou o Morro da Favella, não teria sido a primeira favela do Rio. Durante a última década do século XIX, já existiam registros na cidade de outros lugares muito semelhantes em relação ao tipo de moradia. No final do século XIX surge em Belo Horizonte formas de habitação extremamente precárias e situadas no interior da zona urbana da cidade planejada. Foram chamadas de aglomerações de cafuas e barracos (Guimarães, 1991), e, posteriormente, passaram a adotar o nome de favelas. Quando exatamente ocorreu essa mudança de nome é um bom tema de pesquisa.3 As duas primeiras favelas de que se tem registro em Belo Horizonte surgiram durante o período da construção da cidade, entre 1893 e 1897, e ficaram conhecidas como Córrego do Leitão e Alto da Estação. Apesar da falta de registros sobre a origem de seus habitantes, o mais provável é que tenham sido atraídos em função dos empregos proporcionados pela construção da nova capital. Durante esse período a Comissão Construtora precisou atrair mão de obra externa, uma vez que a existente no antigo arraial era insuficiente para a construção de uma cidade. Parte dessa mão de obra foi composta por imigrantes, principalmente italianos. Para se ter uma idéia da intensidade da migração, a população do arraial que em 1890 contava com 600 habitantes, saltou para 2.615 em 1893 e 12.000 em 1897 (Guimarães, 1991). Tudo isso poderia levar a crer
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Este artigo é fruto de uma pesquisa financiada pelo CNPq e ainda em andamento. A pesquisa de campo contou com a participação dos bolsistas de IC Leonardo Souza Silveira e Simone Marques de Moura. Claudinéia Coura, mestre em Ciências Sociais, participou na sua fase inicial e agora participa também o bolsista de IC Matheus Coelho Torres Macedo. Como se trata da primeira tentativa de sistematização de dados de uma pesquisa que recentemente terminou a sua fase de campo, este artigo é ainda bastante descritivo e exploratório. 2 Professora do Programa de pós-graduação em Ciências Sociais e pesquisadora do Observatório das Metrópoles INCT/CNPq. 3 Não é fácil conceituar favela. Dizer que é a denominação para uma forma peculiar de moradia, é com certeza uma simplificação. Os aspectos físicos são sabidamente insuficientes para descrevê-la. Mas para efeitos do que se está procurando mostrar com essa introdução do texto, vou me valer desse sentido simplificador. No final essa discussão será retomada.

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em 1902. segundo alguns autores. e não de antítese. como ocorreu com as hospedarias de imigrantes. a da Barroca. mas de uma concepção de cidade que não pensou nos pobres enquanto seus habitantes. E não se trata de um simples acaso. os trabalhadores não tiveram a mesma sorte. aos outros restaram as regiões menos disputadas da cidade como os morros e as áreas próximas dos córregos. uma na sua fronteira com a zona suburbana. Aqueles que possuíam maiores recursos foram habitar a zona suburbana da cidade. Enquanto os funcionários públicos foram contemplados com um bairro só para eles. o Córrego do Leitão. A hipótese da necessidade e dependência se fortalece na medida em que as favelas sobrevivem a vários períodos da história da cidade. dando origem às primeiras favelas. Mas não foi exatamente o que aconteceu. o Alta da Estação. e outra na parte mais baixa da área central. que veio a ser conhecida como favela. enquanto a cidade do Rio de Janeiro desencadeava uma guerra contra os cortiços. mas nesse mesmo ano a cidade já contava como outra favela. evidenciam uma relação de íntima dependência entre a cidade planejada ou formal e a favela. mas apenas como os seus construtores. As políticas de remoção parecem seguir a lógica da 3 . fez com que sua população começasse a ocupar os morros da cidade.que o surgimento das favelas nesse período era um fato provisório. o que. 2009). surge simultaneamente em pelo menos duas cidades brasileiras. 1991 e Filgueiras. O fato de Belo Horizonte ser uma cidade planejada derruba o mito de que as favelas são produtos da “falta de planejamento”. A reforma de Pereira Passos daria continuidade a essas iniciativas reformando o centro do Rio de Janeiro e promovendo mais expulsão da população pobre para os morros da cidade. Cinco anos após a inauguração da cidade. ela reaparecerá em outros lugares da cidade. mas mantendo o mesmo nome (Guimarães. Em Belo Horizonte a favela não é resultado da expulsão. as duas primeiras favelas surgem no interior da zona urbana. Essas ações simultâneas. que logo depois se extinguiria. até porque não se planejou nenhum espaço ou moradia para essa população de mais baixa renda. O interessante é que apesar dos controles dos planejadores. o Bairro dos Funcionários. O que se pretende com essas primeiras colocações é mostrar como essa forma de morar. A história dessa favela é interessante. No final do século XIX começava a se construir em Minas Gerais a nova capital do Estado segundo os preceitos de um urbanismo higienista e segregacionista. o planejamento da capital e o surgimento das favelas. pois apesar de suas várias remoções. próximas do centro da cidade. essas duas favelas foram removidas.

2009).O cálculo da população favelada em todo o Brasil é um problema complexo. . 95. Para se ter uma referência comparativa. cuja fonte é a Urbel.valorização imobiliária. mas de vilas. 2. distribuídos em 97. 5 .642 habitantes. Segundo esse trabalho existiriam no município em 2004.5 Se tomarmos a população estimada pelo IBGE para a cidade em 2008.566 habitantes. como no Rio. muitas delas justificadas pelas necessidades de realização de obras públicas. 2010). organizados pela Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte. somam à população favelada aqueles residentes em conjuntos habitacionais precarizados. Urbel. Essas denominações. de aglomerados. que no caso de Belo Horizonte é a região que concentra os grupos de renda alta e média. próximos de 500 mil habitantes. cuja fonte também é a Urbel.434. a população favelada do Rio de Janeiro corresponde a 18. assim como em Belo Horizonte.Há favelas em várias outras cidades brasileiras. ou seja. com São Paulo. um conjunto de vilas situado na zona sul da cidade. Justifica-se também em função do maior número de estudos sobre as favelas do Rio de Janeiro. 2008. 4 A partir da década de 1990 a maior ênfase será dada aos programas de urbanização. visam atenuar os estigmas que sempre rondaram as favelas.857 habitantes. Segundo dados de 2008. ainda que as remoções permaneçam até os dias atuais. por exemplo.7% da população do município segundo os dados do Censo de 2000. A pesquisa que será apresentada neste texto foi realizada no maior aglomerado de favelas da cidade. Belo Horizonte e suas favelas Em Belo Horizonte as favelas não são chamadas de comunidades.4% da população da cidade. que apresentam dados mais altos. Já os conjuntos de favelas. como foi o caso da recente construção da Linha Verde ligando o centro da capital mineira ao novo Centro Administrativo do Estado e ao aeroporto (Lopes. 4 4 . o Aglomerado da Serra. utilizadas tanto pelo poder público quanto pelos movimentos populares. a população que vive em favelas corresponde a 14. tomar o Rio de Janeiro como referência justifica-se em função do fato de que nessa cidade.835 domicílios em favelas com 369.012 domicílios (Filgueiras. as políticas de remoção não foram suficientes para conter o aparecimento de novas favelas e o adensamento daquelas já consolidadas. onde os cortiços se mantiveram por mais tempo. a cidade contava nesse ano com aproximadamente 174 favelas e 350. ocupando o lugar das favelas. enquanto isso não ocorria as favelas foram toleradas. o que não parece ter acontecido. é próximo do que foi apresentado em Caldas. O dado apresentado. Mendonça e Carmo. Mas em Belo Horizonte. Outras fontes. No zoneamento da cidade estes seriam as ZEIS-3 e as favelas ZEIS-1. as favelas surgem num mesmo período.

Vila Marçola.6 A ocupação do aglomerado começou na década de 1920 por esta última vila. como abertura de ruas e urbanização de becos. 2007). Vila Nossa Senhora de Fátima. seja porque as novas unidades construídas. Entre os casos mais estudados e divulgados estão o Favela-bairro do Rio de Janeiro e o Santo André Mais Igual. Vila Nossa Senhora Aparecida e Vila Nossa Senhora da Conceição. Atualmente ele conta com 46. 6 5 . não é incomum que esses programas levem também à remoção de algumas famílias das favelas. o que ele deixa de fazer. seja porque algumas preferem a indenização e com ela adquirem moradias em outras partes da cidade. em geral apartamentos. se esse debate tem início nos final dos anos 1960 (Machado da Silva. E. Mas é na década de 1990 que se consolidam os principais projetos de urbanização de favelas no país. Vila Santana do Cafezal. a urbanização representa o reconhecimento do lugar da favela na cidade.086 habitantes. Internamente o aglomerado divide-se em sete vilas: Vila Fazendinha. não foi contemplada pelas obras do Vila Viva por já possuir o processo de regularização fundiária concluído por obras anteriores.Esse aglomerado partilha o nome Serra com o bairro da Serra. o início na década de 1970 registra as primeiras ações de urbanização que se intensificam nos anos 1980. um antigo bairro da cidade ocupado pelos estratos médios e altos. Cardoso e Araujo. a Mata da Baleia e o Parque das Mangabeiras. Faz fronteira também com duas áreas de preservação. As políticas de urbanização de favela As experiências de urbanização serão precedidas por muitas remoções e debates em torno do destino das favelas. Mangabeiras e Serra. Uma das maiores virtudes desses programas é a sua contraposição à política de remoção. A localização das favelas em áreas íngremes e/ou de A Vila Fazendinha. apesar de fazer parte do Aglomerado. Simbolicamente. apud. São Lucas. Aliás. A construção se justifica em função da remoção de moradias que se encontravam em áreas de risco ou porque as obras de urbanização. não são suficientes para todos os moradores que perderam suas casas. Os outros bairros com os quais faz fronteira são: Santa Efigênia. Mas isso não o caracteriza como uma política de provisão de novas unidades para novos moradores. assim exigiram. Efetivamente a urbanização atua sobre a infraestrutura da favela e em alguns casos pode envolver a reforma ou a construção de novas moradias. Vila Novo São Lucas. ou seja. 1981. Paraíso.

As motivações dessas críticas são diversas. E. o programa de urbanização de favelas. Em virtude da concentração das ações no plano físico-urbanístico. são mais difusas uma vez que visam aspectos particulares dos programas tais como a natureza da participação popular. No caso de Belo Horizonte. não está imune às críticas. a mudança das casas para os apartamentos. o modelo de urbanização. em grande parte aos seus resultados mais visíveis e também estéticos. ainda que relevantes. esse objetivo de natureza socioeconômica e também cultural não chega a ser alcançado. emblema da administração do prefeito Fernando Pimentel e da sua campanha para senador. Ou seja. Assim como os programas tornam-se emblemas de algumas administrações e/ou de alguns políticos. Outra crítica refere-se ao objetivo principal e último desses programas: a integração da favela à cidade. Apesar desses limites. se eles se inserem entre as principais reivindicações dos movimentos populares por moradia. entre outros. seja do 6 . seja do ponto de vista da produção artístico-cultural e da arquitetura vernacular. motivou um manifesto de alguns setores dos movimentos populares cujo título é Vila Viva ou Vila Morta??? As transformações na arquitetura. até porque as avaliações desses programas não se circunscrevem aos relatórios técnicos e à produção acadêmica (o que não significa que toda essa produção esteja necessariamente imune à essas interferências valorativas). o baixo valor das indenizações. a de um lugar criativo. As políticas sociais e de inclusão que acompanham esses programas ou são vistas como paliativas ou não são consideradas como muito efetivas. o Vila Viva. 2006). conseguindo grande apoio dos meios de comunicação. nem sempre favorecem a urbanização sem remoção para lugares fora da favela. A primeira delas refere-se ao fato deles não atacarem um dos principais problemas da moradia. As outras críticas. a valorização imobiliária que pode implicar na futura expulsão dos atuais moradores. os programas de urbanização são conhecidos mais pelas suas virtudes. o déficit habitacional. juntamente com a regularização fundiária e a produção de novas moradias (Cardoso.risco e o seu estado atual de adensamento. os custos e as taxas provenientes da legalidade. na forma urbanística da favela e nas suas moradias também reativam um outro imaginário sobre a favela. devido. uma politização do debate. naturalmente. há. a urbanização de favelas passa a ocupar a atenção da sociedade em detrimento da produção de novas moradias.

Libânio. dessa abordagem podem ser verificados em Jacques. reestruturação do sistema viário.7 Para aqueles que compartilham dessa concepção.ponto de vista das estratégias de sobrevivência amparadas num modo de vida próprio. dos quais 113 milhões financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social 7 Exemplos. Seu slogan é: "Vila Viva: o programa que transforma favelas em bairros". No Aglomerado da Serra as obras iniciaram-se em 2005 e suas principais intervenções foram: obras de saneamento. um pouco aleatórios. 2008. seu projetopiloto foi iniciado no Aglomerado da Serra no ano de 2005. seu objetivo principal é a integração das favelas à cidade formal. Antes da intervenção. Este plano precede toda intervenção em favelas e contempla os seguintes aspectos: diagnóstico físico. ambiental. O Vila Viva de Belo Horizonte Várias favelas de Belo Horizonte já foram beneficiadas com algum tipo de política de urbanização. Sua execução está a cargo da Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte (Urbel) e como os demais programas de urbanização. O objetivo dessas breves considerações foi mostrar que a urbanização de favelas constitui hoje um campo de disputas de significados. urbanização de becos e implantação de parques e equipamentos para a prática de esportes e lazer. Ainda que seja um programa para a cidade. Uma vez feito o diagnóstico e definidas as prioridades de intervenção. Sua elaboração deve contar com a participação da população e na sua parte final são hierarquizadas as propostas de urbanização (PGE. mas nada que se compare ao escopo do atual programa batizado de Vila Viva. 2003. construção de novas unidades habitacionais. erradicação de áreas de risco. 2000). socioeconômico e organizativo do território e dos seus moradores.2 milhões. os programas de urbanização estariam impondo um modo de vida e um padrão de moradia e de urbanização contrários as essas forças sociais criativas e necessárias à sobrevivência da população favelada. 7 . 2004 e Abramo. atravessado por questões de natureza diversas. cabe à Urbel a implementação do Vila Viva. jurídico-legal. Os recursos assegurados são da ordem de R$171. a prefeitura realiza um estudo denominado Plano Global Específico (PGE).

Destes. Material que nos foi fornecido quando da visita ao aglomerado.2 milhões pelo governo federal através do Programa Saneamento para Todos. 2. A pesquisa teve início com um primeiro contato com os técnicos da Urbel que nos apresentaram o programa por meio de uma palestra e de uma visita guiada ao aglomerado. A pesquisa que será apresentada neste artigo foi realizada com os moradores desses apartamentos.8 Segundo dados da Urbel (s/d.8%) foram atingidos pelas obras. setembro de 2010. os que tiveram suas casas demolidas aguardaram a finalização das obras em uma casa de aluguel custeada pelo programa Bolsa-moradia. estudante de jornalismo e residente no aglomerado. os que optaram pelos apartamentos foram aqueles cujos valores da indenização eram inferiores aos valores de um outro imóvel. Essas 8 Projetos do Programa Vila Viva em outras favelas da cidade contarão agora com recursos do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). Em geral. mas em relação a esses não poderíamos saber se a urbanização modificou suas relações com a vizinhança e com a cidade. Os prédios diferenciam-se segundo os tipos de apartamentos.462 domicílios. foram entregues 684 apartamentos. de dois e três quartos. Estes que optaram pelos apartamentos somam 816 famílias. Nesses casos a troca por mais de um apartamento revelouse mais vantajosa do que a indenização. Essa escolha pautou-se pela avaliação de que foram eles os mais atingidos pela urbanização. Outros que também poderíamos considerar como tendo sido muito atingidos foram aqueles que saíram da favela. S/d. Cada prédio conta com quatro andares e oito apartamentos. Uma vez que os apartamentos ainda não estavam prontos. 8 .10 36% de todos os que perderam suas antigas moradias. Posteriormente demos início à realização das entrevistas com a intermediação de uma bolsista. Começamos tentando fazer as entrevistas marcando-as antecipadamente por telefone com algumas pessoas que essa bolsista conhecia e que residiam nos apartamentos. 10 Até este momento.)9 o aglomerado conta com 13. seja porque um mesmo imóvel abrigava mais de uma família. 9 Power Point.266 (16.(BNDES) com contrapartida de 25% da prefeitura e R$58. a mudança para outra casa no próprio aglomerado ou a mudança para os apartamentos que seriam construídos dentro do aglomerado. Para esses moradores existiam três opções: a indenização. Estes se dividem em imóveis localizados em áreas de risco e outros que precisaram ser demolidos em função das obras. Vila Viva – Aglomerado da Serra. uma vez que a mudança para os apartamentos é um fato bastante novo para eles. seja porque residiam em áreas de risco e em habitações precárias.

a do aglomerado. Mas. até porque o foco era a percepção deles sobre as suas próprias rotinas.tentativas rapidamente revelaram-se pouco produtivas. porque queríamos ouvir o morador comum. ninguém recusou ter sua fala gravada. portanto. maximizar a chance de que opiniões dissonantes pudessem surgir. Uma segunda estratégia buscando diversificar o perfil dos entrevistados foi procurar homens e jovens. uma vez iniciado o contato. foi comum abaixarem a voz e falarem de forma cifrada. Algumas foram realizadas nas imediações dos prédios. E foi assim até completarmos as 21 entrevistas. Ao fazer isso procuramos. Com a mudança nos horários e dias da semana conseguimos perfis diferentes de entrevistados. A questão da segurança não foi um tema central da nossa entrevista. ainda que entre esses que abordamos aleatoriamente alguns desempenhassem o papel de lideranças. como sugere Becker (2007). Conscientemente evitamos as lideranças oficiais e dos movimentos populares. não acreditamos que isso fosse suficiente para a eliminação de um receio que não saberíamos identificar muito claramente. mas depois desistiam. não era incomum que ele aparecesse. O fato de concentramos a realização das entrevistas durante as tardes dos dias de semana. levou a uma predominância de mulheres. As entrevistas foram gravadas e transcritas. 9 . Logo percebemos que os moradores mais dispostos a dar as entrevistas eram também aqueles que tinham uma posição mais favorável ao programa. a entrevista fluía como uma conversação. daí o nosso cuidado e insistência com aqueles que ao primeiro convite mostravam-se resistentes. que por sua vez apresentaram avaliações e expectativas distintas. A presença do gravador não foi um empecilho. outras foram realizadas no interior dos mesmos. como não pertencentes aos quadros da prefeitura e da Urbel. Diante disso mudamos a estratégia e passamos a abordar as pessoas nas imediações dos prédios ou nos próprios apartamentos. O roteiro das entrevistas contava com uma parte inicial sobre o perfil dos moradores e do seu grupo familiar. mas como o tema atravessa outras dimensões da vida social. As pessoas marcavam a entrevista. nas relações com a vizinhança mais próxima. ou seja. e. principalmente quando os entrevistados abordavam o problema da segurança. Em alguns momentos. nas formas de associativismo e nos impactos da urbanização sobre distintos aspectos de suas vidas. Apesar de nos identificarmos como professores ou estudantes universitários. sem que pudéssemos conhecer os apartamentos. e a dos bairros vizinhos. Já as perguntaras focavam na percepção deles sobre a antiga moradia e a nova. ela aparece no roteiro apenas no final e relacionada à urbanização. nas percepções sobre o aglomerado.

Uma mudança que ocorreu com a transferência para os apartamentos foi o desmembramento de famílias que residiam em um mesmo terreno uma vez que cada família teve direito a um apartamento. O que se observa nesse grupo é uma vivência tipicamente urbana. depois as do apartamento e do prédio e. mas urbana. dezoito moravam no Aglomerado há mais de 10 anos. A percepção da mudança Nesta parte abordaremos a percepção da mudança da casa para o apartamento contemplando. seja em Belo Horizonte. Dos 21 entrevistados. seja no aglomerado. pois em alguns fóruns argumenta-se contra a mudança para os apartamentos em função da origem rural desses moradores. as relações com os vizinhos e a percepção sobre a segurança. 10 nasceram em Belo Horizonte. 10 entre 1 e dois anos e 7 entre dois e três anos. integrar a favela à cidade. primeiro. em favelas consolidadas e de ocupação mais antiga como o Aglomerado da Serra. nove no interior e dois em outros estados. Neste artigo vamos focar em dois pontos: a percepção da mudança e seu significado para a integração social. o origem dos seus moradores não é mais rural. não há nenhuma pretensão de falar sobre o universo dos que foram transferidos para os apartamentos. nenhum tinha nível superior. 4 moravam a menos de 11 meses. Ainda que esses dados não possam ser estendidos para todo o universo. 10 eram mulheres e 11 homens.desde as formas de sobrevivência a possíveis mudanças nas suas relações com outras partes da cidade. Pelas entrevistas ficamos sabendo que a maioria dos entrevistados vivia em área de risco ou em lugares muito precários. um tempo que nos pareceu razoável para que eles já pudessem ter uma avaliação dessa mudança. Ainda que tivéssemos perguntado apenas como 10 . Quanto à origem. por fim. as condições da antiga casa. Das 21 pessoas entrevistadas. Esse dado é importante. Ou seja. o objetivo foi apenas o de tentar qualificar os impactos dessa mudança e a natureza dos conflitos que ela promoveu na perspectiva do cumprimento do objetivo desse programa. ou inserção na cidade. Quanto ao tempo de moradia nos prédios. O nível educacional mais alto encontrado foi o ensino médio. A primeira pergunta abordava a percepção desses moradores em relação à casa antiga. Sendo uma pesquisa de natureza qualitativa. O padrão familiar mais comum era o de famílias com filhos.

” (Entrevista 6). acesso difícil. que já mora ha um ano no prédio. aí o povo da prefeitura aceitou. e a laje também andou. muitas famílias juntas. aí não dava pra dormir direito. A casa ficava na beirada do beco. Nesses casos elas também mencionam a presença de ratos e de mofo. Eu 11 Vamos nos referir aqui ora às “pessoas entrevistadas”. não gostava muito não.era a casa anterior. ora aos entrevistados. uma vez que durante o processo de realização das entrevistas explicamos não era nosso objetivo identificar individualmente as pessoas. mas também com locais de difícil acesso e. Há uma coincidência entre as moradias em situação de risco. um banheiro e uma cozinha. mas sente saudades do lugar e dos amigos: “Não lembro muito não. Eram três cômodos. Aí ela [a mãe] falou o seguinte: ‘me dá dois apartamentos de dois quartos’. proximidade com o esgoto.. a casa possuía apenas um ou dois cômodos. Nenhuma pessoa será identificada nominalmente. a gente morava perto de esgoto.” (Entrevista 7). O povo da prefeitura ofereceu um apartamento de três quartos. com 10 pessoas. Era rebocada por fora e por dentro.). que foi como organizamos esse material. mas as descrições mencionavam um estado de grande precariedade. no banheiro não podia ir nem tomar banho porque senão corria risco de morrer. Ele não lembra bem da casa antiga. residia numa casa com apenas três cômodos: “Era pequena. A gente passou a usar o banheiro do vizinho por conta de que o chão do banheiro andou tudo. esses meninos vagabundos ficavam lá gritando. moravam umas dez pessoas. A gente fazia a sala de quarto (. Aí minha mãe deu um pra mim. várias pessoas as identificaram como moradias em áreas de risco. uma parte era construída com madeira. a sua localização nos becos e a proximidade com o esgoto. Apenas duas pessoas se referiram positivamente em relação à casa antiga. ponto de encontro daqueles que os entrevistados denominam como vagabundos: “Ah. Aí depois foi o chão da cozinha que andou todinho.. daí a expressão no feminino. banheiro do lado de fora. Quando uma fala aparecer entre as aspas será identificada apenas com o numero da entrevista. Era um quarto. tais como. descia água pela parede do quarto. Uma entrevistada relatou a instabilidade de sua casa: “Quando chovia. falta de área. Lá tinha cinco cômodos com o banheiro e um corredor. Outras não falaram se a casa estava ou não em área de risco. 11 . As que falaram do risco se referiam especialmente às chuvas e à proximidade com encostas e becos. Começava as paredes todas a abrir. entre outros.” (Entrevista 15)11 Outra família. a enxurrada passava dentro da minha cozinha. Uma delas foi um garoto de 12 anos. portanto. aí tinha muito barulho.

mora num predinho deste e ficou rico. ela o marido e a menininha e em cima o meu rapaz.gostava de morar nela. tá muito caro. E os outros foram todos dentro de casa com a gente. a construção de um cômodo para fazer salgados. Eu jogava bola lá no campo e numa praça que fica lá perto.” (Entrevista 16). aquele negócio e por fora ela não era terminada. Duas entrevistadas mencionaram a presença do quintal onde podiam plantar. Tem pessoa que eu conheci aqui que morava num quartinho de madeira (.. Outra entrevistada falou de uma possibilidade que alimentava em relação à sua antiga casa. aquele negócio. econômicas. sendo que no apartamento ela acha que isso é impossível. ganhou no Toto Bola.. sabe? Era uma casa assim. só rebocada por dentro. Sempre mantendo o cuidado de não generalizar. Não é assim que a banda toca não.. cozinha. então. a minha. e eu deixei. Então acha que mora numa mansão agora. assim. por diversas razões. tem essa avaliação em virtude das suas atuais relações com os vizinhos nos apartamentos: “A casa tinha três cômodos. já no apartamento precisam comprar tudo. não usufruíam de aluguel ou de outra forma de uso que lhes pudesse retornar como renda. Não era acabada. ‘Ah mãe. tinha um banheiro do lado de fora e uma copazinha bem pequena. não a exploram. Só tinha que reclamar que eles me tiraram de lá pra me jogar num buraco.. O banheiro era do lado de fora. algum ativo.” Em outra parte do seu depoimento ela diz da sua insatisfação com os vizinhos: “Elas acham que saem do quartinho de madeira. o que essas entrevistas mostram é que nem toda moradia de favela tem um potencial econômico. mas era murada tinham três. Todas as outras tinham a casa apenas como moradia. só meu. Pra mim era normal. seja porque seus moradores. a repartição da casa.. aí a outra arranjou marido também. tranquilo. com dois cômodos de laje. me deixaeu fazer em cima da sua laje aí e tal. aí nós fomos dividindo. que mora no prédio aí da frente também. cada uma foi contemplada com um apartamento: 12 .” (Entrevista 9). tranquilo. vocacionais etc. ‘’ah mãe. vivia muito bem. ou seja. Já conhecia todo mundo lá.. Vivia tudo tranquilo não tinha nada a reclamar.quatro quartos embaixo. Nós criamos todos ali e não queríamos separar. como mostra a fala a seguir: “Na minha casa antiga moravam três famílias. A outra entrevistada que prefere a casa anterior. sala. Vizinho e tudo. não vou pagar aluguel não..” (Entrevista 5) Em função de o lote abrigar três famílias.). seja porque esse potencial já havia sido explorado em seu limite. da minha filha que é mãe desse menininho.. Outra questão abordada foi se a antiga casa oferecia alguma fonte de renda. um menino.

principalmente daqueles que viviam em áreas de risco. o que vale é o querer da pessoa. uma mudança no quadro de saúde dos filhos. mas isso é normal. em primeiro lugar. Então eles me falaram que eu tinha direito de escolher. (Entrevista 5.. barulhos etc. como mostraremos a seguir. um pro Pedro. tivemos um pouco de dificuldade sim. A partir dessa experiência elas se diziam que de alguma forma já eram conhecedoras dessa forma de morar. com raras exceções. Uma referência mencionada em algumas entrevistas como facilitadora da adaptação foi o fato de algumas mulheres terem a experiência de trabalho como domésticas em apartamentos. Em um dos casos a mãe resistiu ir para o apartamento.“Mas quando eles marcaram. que na época estava com uma moça. insuficiente para guardar material de limpeza. Uma hipótese que pode explicar a predominância de avaliações positivas. Aí que deu.” (Entrevista 17). mas foi convencida pelas filhas que acham o apartamento muito melhor e mais bonito e se adaptaram mais fácil do que ela. pra eu acostumar. toda hora eu estava na janela. eram bem piores que as do apartamento. Os aspectos positivos mais mencionados foram os quartos separados para as crianças (meninos e meninas). lixo. Nomes fictícios). Alguns revelaram dificuldades de adaptação no início: “É.. que tinha saída independente. a localização melhor para aqueles que moravam nas partes mais íngremes. Para mim está a mesma coisa. pode ser as condições da moradia anterior. Como as entrevistas foram feitas em prédios diferentes as avaliações quanto a bagunças. as reclamações centram-se. Mas depois que acostuma. que podia ter direitos a três apartamentos. o aspecto estético do apartamento que em geral eles consideram muito mais bonito do que as suas antigas casas. Os que dizem que não se adaptaram são os que tiveram problemas com os vizinhos. Só estranhei nos primeiros dias no mudar. Outra já revela uma adaptação mais rápida: “Não. morando com dois meninos e eles deram pra ele e me deram o meu. que. Em relação aos aspectos físicos do prédio e dos apartamentos. eles marcaram três casas. é só nos primeiros dias. um pra Patrícia mais o Luiz. era igual um leão na jaula. parecem não ser apenas 13 . a minha com saída independente e a do meu filho que ele entrava pelo meu portão e subia as escadas dele.” (Entrevista 18). está normal. Pra eu acostumar foi difícil. A dela que era nos fundos. e ainda secar roupas. no valor das contas de água e luz que aumentaram consideravelmente e no tamanho da área de serviço.

da convivência.” Quando pedimos para que ela explicasse 14 . normal. com várias pessoas misturadas. Dos vizinhos nós não temos nada que reclamar não.” (Entrevista 16). Tem gente de tudo quanto é jeito. Sobre a relação com os vizinhos a maioria diz ter uma relação boa e tranqüila. né? Era tudo muito bonito. de prédios que não conseguiram eleger um síndico. prédios em que o síndico não tem autoridade e ainda prédios em que há presença de drogas e armas. Alguns desses conflitos são muito parecidos com os que ocorrem em prédios de outras partes da cidade. 12). Tem um quarto pra minha filha. mas relações de vizinhança e administração dos prédios distintas. é arma o dia todo. de como cada vizinho é. sabe? Eu fiquei muito empolgada. que os conflitos ganham maior dimensão. Muita zoeira. presença de drogas e falta de cooperação no cuidado com o prédio. falta de educação no trato pessoal. muita bagunça. tudo arrumadinho. Algumas mantiveram os mesmos vizinhos e as relações em geral são avaliadas como positivas. quase o mesmo que na casa. de princípio.” (Entrevista. como está cortada. O pessoal reclama é da gente. Uma teve o azar de ter como vizinha uma pessoa com a qual já não se dava bem. então eu passei por muitas dificuldades mesmo. como mostra o depoimento dessa moradora: “Olha. A outra entrevistada reclama em primeiro lugar do valor das contas e. Estou detestando aqui. Outra diz que são eles os que fazem a bagunça: “Ah. 20). separado. primeiro porque as contas estão muito altas. mas apareceu na fala de uma entrevistada referindo-se a um outro prédio: “Não adianta falar que tem que colocar os predinhos pra mudar a malandragem. porque às vezes nós passamos do limite. Que malandragem tem em todo lugar. mas é nesse aspecto. mas é normal. entre quatro paredes é muito bom. É muita confusão e eu estou detestando mesmo.” Depois fala da bagunça: Então é uma bagunça danada.percepções diferenciadas. Esse último relato não se refere aos prédios nos quais essa pesquisa foi realizada. As razões dos conflitos são descritas como presença de barulho. Já aqui dentro. Então eu passei por muitas dificuldades pra ficar aqui. sabe? Os meninos pulando aqui e ali. né?” (Entrevista. Outros depoimentos revelam situações mais complexas. todo canto que você pensa. É. Igual tem um predinho aqui em cima que só mora malandro. é uma mistura danada. Era muita bagunça. em seguida. A bagunça quem faz é até nós mesmos. Eu vim grávida pra cá. quando a gente veio olhar. Mas aí veio realmente a realidade. A gente fica sem condições e chega no limite até de cortar. dos conflitos: “Eu não estou gostando daqui. A não ser aqueles que pegam muito no pé da gente. e não na parte física.

15 . a altura que permite dormir com a janela aberta e o acesso mais fácil dos carros da polícia e do resgate. tipo de influência com ninguém. eu me sinto segura. Porque quem faz o lugar é o morador. Tanto lá em cima quanto lá em baixo.)” (Entrevista 20). 14). mesmo quando eu morei em um lugar sem segurança eu me senti.. dentre eles alguns tenderam a relativizar a violência. Dentro dessa mesma concepção outra declarou: “Bom. como imaginamos ao fazer essa pergunta. ou então que é coisa do destino: “Ah. é falta de respeito.) (Entrevista 21)... outra se referiu à presença das drogas. eu não sou medrosa” (Entrevista16). as pessoas sabem que tem que ficar tranquilo. Mas talvez o mais importante seja um entendimento bastante abrangente desse termo. mas teceram comentários em relação ao aglomerado como um todo. “Eu nunca me senti sem segurança não. tem o meu netinho. Em relação à segurança os entrevistados referem-se a alguns aspectos dos prédios e do entorno que para eles passam uma sensação maior de segurança como a presença do portão. Em outras fala os entrevistados tendem a considerar a insegurança como algo sobre o qual o indivíduo deve ter controle.” Em relação ao espaço ela também diz que não está suficiente pois a família cresceu “Fica muito embolado. mas também à falta de respeito. esse que acabou de nascer” (Entrevista 8). é palavrão. ao dizer que lá não era diferente de outros lugares. é bebida demais. me sinto e não me sinto ao mesmo tempo. não será atingido. às brigas e aos palavrões. Uma entrevistada mostrou as trincas no apartamento. Para eles segurança não diz respeito apenas ao crime.o tipo de bagunça ela diz: “É briga. Por essas razões ela disse que pretende vender e voltar para a vila do aglomerado de onde veio. sempre pode acontecer um tiroteio e você estar passando na hora e tomar uma bala perdida. é por esse lado. assim.” E concluiu: “Se cada um está no seu lugar. Na fala de uma entrevistada a insegurança não a afetava: “Eu nunca tive problema com ninguém. e aquela pessoa é de mal você não se mistura com aquela pessoa. porque se você é de bem. se tiver. Poucos se referiram apenas ao prédio.” (Entrevista. Essa é uma tentativa de separação daqueles que eles consideram como os agentes da violência. é drogas. E segurança é o seguinte.. era bem tranqüilo. tem oito meses que ela está aqui. porque minha irmã veio do interior pra morar. Você pode estar passando na rua e sempre tem um camarada que não vai com a sua cara. quem faz é Deus (. a localização em uma rua e não em um beco. ninguém aqui respeita ninguém. você não vai ser atingido (.

eles socaram a porta de todo mundo. a abertura das ruas. Mas. procurando um rapaz uma vez. Por um lado o pessoal está trazendo a gente aqui. Ao contrário da tese da conivência com o crime. Como foi dito esse não era um tema central da pesquisa. Eu atravesso um porrete desse tamanho atrás da porta. eles não entram. os prestadores de serviços agora entram com mais facilidade e menos temor. Antes não. eles também tentam. 12). os moradores da favela não se identificam com os criminosos. o endereço com nome de rua e número de apartamento facilitaram a vida dos moradores uma vez que implicou um maior reconhecimento social: segundo eles. A seguir um outro depoimento também envolvendo taxistas e a maior credibilidade do endereço para a obtenção de crédito: “Melhorou bastante para a gente porque quando você fala 16 . é lá na Vila.” (Entrevista 11). cuja dimensão é física e social. uma vez que o estigma da favela como território do crime. Ele me perguntou: ‘é lá dentro da favela?’ Aí eu falei: ‘não. antes era muito difícil um taxista entrar aqui dentro. as outras insistiam no fato de que a urbanização facilitava o acesso da polícia. que eu precisei. não vou levantar não’. Eu falei: ‘olha nega.’ Sabe? Porque se for. O depoimento de uma moradora que precisou pegar um taxi em frente ao supermercado é revelador: “Igual quando eu fui pegar um táxi em frente ao Epa. na verdade é uma ação de uma minoria. muito mais do qualquer outro grupo. não vou nem acender a luz. Em contraste com o Rio de Janeiro. o que para eles significava mais segurança. eles não aceitam entrar.Um entrevistado falou da insegurança provocada pela polícia e como fazia para se defender: “Eles até tiveram aqui. a polícia não é representada da mesma maneira. Nossa. Nesse aspecto eles se aproximam das conclusões de uma pesquisa realizada no Rio de Janeiro e cujos resultados estão em Vida sob Cerco (Machado da Silva. por um lado está sendo bom pra gente. A fala acima foi a única que mencionou uma ação arbitrária da polícia. agora você vê direto taxistas aqui” (Entrevista. de diversas maneiras mostrar que não é um fato geral. as visitas também chegam com mais facilmente às casas e sentem-se mais seguras. mas é interessante registrar que se os entrevistados falam com uma certa frequencia da presença do crime na favela. então pra pessoa entrar ela tem que dobrar a porta no meio. atinge a todos. 2008). os favelados precisam. provar constantemente que não são criminosos. O que mudou? Com relação à inserção da favela na cidade.

então eu acho assim.” (Entrevista 11). é porque eu já acostumei em dizer que eu moro na favela. pra eles já é mais organizado. a impressão que eles me passam é essa. Eu não vejo assim. O único que diz que mora na favela. Antigamente você fazia a compra. ele falava não (. então você mora no Cafezal.” (Entrevista 11). Hoje eles até entregam pizza aqui. A primeira mostra como a denominação vila é pouco esclarecedora: “Olha. Porque a gente tem que falar que mora na vila e depois no bairro Serra. por exemplo. você fala onde você mora. Primeiro. 17 . Quase todos dizem vila. Cafezal é favela.. É o interesse de quem abriu o comércio. da Serra mesmo. Quando esses moradores precisam dizer onde moram. Até fazer um cartão da loja agora ficou mais fácil. Do Santa Efigênia. mas mesmo assim a tensão permanece. tem que explicar que morar na favela não é o mesmo que ser favelado: “Quando uma pessoa pergunta onde eu moro.” (Entrevista 15). Porque eles tinham medo de entrar e não tinham também condições de entrar porque não tinha rua. eu moro na favela” (Entrevista 20). eu sou favelado. que eu moro em um apartamento do Vila Viva. Outras entrevistas falam de visitas de pessoas de grupos sociais diferentes do seu e reforçam o fato da urbanização ter atuado sobre o medo que elas tinham de entrar no aglomerado.” (Entrevista 5). como se pode ver nessa sequência de falas. não no sentido assim. ‘ah. tinha que por o saco de arroz nas costas e levar. trata-se de uma denominação que apenas adia a compreensão. Outros prestadores de serviços também estão entrando mais no aglomerado: “Se você precisar de um gás você ligar lá. Pra eles. Tipo assim. as falas revelam situações marcadas por muitas tensões e ambiguidades. ou seja. entendeu? Somente isso. se eu disser assim. que é mais organizado. né? Porque senão eles vão procurar lá na vila em outro lugar. que é vila. Essa outra fala situa a vila entre a favela e o bairro: “Só chamo aqui de vila. eles evitam falar favela.assim para o taxista: eu moro no beco ou moro lá dentro da favela.’ Então eu digo direto..). era num beco. Belo Horizonte não tem bairros que são também chamados de vilas. até porque vila diz pouca coisa. dos bairros vizinhos aqui. coisa que não faziam antes. algumas falas reforçam uma maior aceitação social: “Mas quando eu falo no meu serviço. eles te entregam aqui. aqui a gente é considerado como vila né? Houve uma mudança de favela para vila. por causa que bairro é pra gente rico” (Entrevista 9). Hoje eles já te entregam. do que um barracão mostrando os tijolos. o que leva à sua “tradução” por favela. Além dos serviços. pro supermercado. eu moro no bairro Serra. eu falo favela. né? Pra atingir um outro público. aí fica melhor para a gente.

Moro no Santa Efigênia. o interlocutor é levado a decidir. bairros que abrigam estratos mais baixos da classe média: “Eu falo que moro lá no Santa Efigênia. Outra entrevistada revela um processo de revelação do lugar onde ela mora por partes: “Porque se você fala que mora na Serra. ou de outras partes da cidade. Dava o endereço da casa da minha patroa. Aglomerado da Serra e bairro da Serra. quando eles se referem às suas relações com pessoas de fora da favela.” (Entrevista 9). Até o pessoal entende o final da Mem de Sá como Santa Efigênia. mostra como para eles a questão da fronteira é importante. pois ainda que ambos compartilhem esse nome. Desta rua para cima eles já não consideram como Santa Efigênia. Então. porque eles conhecem aqui como Canão. sendo um bairro de classe média alta. Mas se você mora no morro. ao se referir aos moradores de Santa Efigênia.” (Entrevista 17). Diante da resposta Serra. eles consideram como favela. Não. Eles vão achar que é na favela mesmo. Uma alternativa é dizer que mora em Santa Efigênia ou Paraíso.Nos apartamentos do Vila Viva. Se você for lá pro lado da Rua do Ouro. nem endereço ela dava do meu barraco. em que se evita essa ambigüidade na interpretação do lugar mentindo sobre o endereço: “Minha menina mesmo fala: ‘eu não gosto da favela’. sejam os vizinhos dos bairros ao redor. Há alguns casos. inclusive na tentativa de expurgar o conteúdo negativo que essa 18 . Em todas as falas. você nasceu em uma casa pobre. Eu acho que eles vêem aqui como lugar que mora só pobre e pessoas que mexem com drogas. se se trata do bairro Serra ou do Aglomerado da Serra. Esse termo eu uso pra qualquer pessoa. o tema da favela reaparece. fazendo outra pergunta ou interpretando. tem aquele negócio. Aonde? . no final da Mem de Sá. não adianta dizer que mora. para com isso! Ela não tem muita amizade não. tem que parecer que mora.Os que dizem que moram na Serra sabem da sua ambigüidade. Deixa eu falar pra você. como na descrição do comportamento da filha pela mãe. são poucas amizades.” (Entrevista 11). não dava não. nesse caso eles precisam se distinguir da favela: “Eles falam que aqui acima já é favela. Pra meus professores eu falo que moro no Santa Efigênia e em alguns momentos pra outras pessoas também. ou ele é rico ou ele é pobre. porque a imagem que eles tem da favela não é boa não. você é pobre mesmo. eles sabem que. e isso depende da posse de certos atributos que muitas vezes eles não tem.” (Entrevista 13) Outra entrevistada. Pra mim esta reação é ruim. Ah! Aqueles que tem perto do Canão. ‘Onde você mora? . com o nome Canão. Caso contrário a resposta pouco informará. quem mora ali tem uma condição melhor.

empregada doméstica. mas há tensões que rondam e ameaçam essas conquistas. vendedora. as possíveis mudanças nas representações e no lugar social da favela. A maioria trabalha nos bairros vizinhos e se desloca a pé para o trabalho.a favela como um direito à cidade -. armador. não se deve desconsiderar a natureza subalterna do gozo desse direito e da inserção na sociedade. como se procurou mostrar. o endereço tornou-se mais confiável. serviços gerais. Conclusão O objetivo mais geral desta pesquisa foi investigar. eles também são consumidores. carpinteiro. até porque. E. até porque há uma boa oferta de escolas dentro do aglomerado e nos bairros vizinhos. porteiro mecânico. em diversos outros contextos. há conquistas que não devem ser desconsideradas. Ela envolve um processo complexo de negociação de significados toda vez que eles 19 . faxineira. Essa proximidade com os locais de estudo e trabalho é um ativo desses bairros que a urbanização conserva ao procurar manter no próprio bairro aqueles que perderam suas antigas casas. Como relatado acima. isso sem contar os desempregados. zeladora. jardineira. Os que trabalham mais longe. em especial nas relações de natureza econômica. O mesmo se observa em relação aos que estudam. ao analisamos os locais de trabalho e as ocupações dos entrevistados da pesquisa fica evidente como o lugar onde residem é fundamental para a manutenção das suas relações de trabalho. e para isso dependem de um deslocamento de aproximadamente vinte minutos de ônibus. garçonete. a partir de um projeto de urbanização. Mas. por conseqüência mostra também como é limitado o alcance da urbanização para a integração social. diarista e auxiliar de expedição. as tentativas de integração envolvem um esforço de desvinculação do lugar social da favela. todas são profissões de baixa qualificação. reciclagem. ajudante de pedreiro. trabalham no Centro. É nesse momento que a definição de favela como um tipo de moradia mostra-se limitada e. pintor. comerciante.denominação carrega. Sobre o primeiro aspecto . essa não é uma operação simples que a urbanização possa pretender resolver. status e remuneração. Se a permanência na favela é uma garantia de um direito à cidade. Mas quando analisamos as profissões o que se observa é uma inserção subalterna. tais como bordadeira. a maioria não depende de ônibus. como mostrou um morador.

Tudo isso reforça a importância dos territórios na cidade. principalmente pelas noticias veiculadas na mídia sobre o crime. mesmo quando as barreiras físicas são eliminadas pela urbanização. negociação que leva em conta o que estes conhecem sobre a cidade e os significados de determinadas palavras. o que se observa é uma sociabilidade bastante tensionada pela distância social e pelo estigma. em favela. E pelo que foi observado nas falas e nas atitudes desses moradores. Trata-se de um processo complexo de construção de identidade: seus relatos sobre quem são não são corroborados pelos outros. E o que os estudos sociológicos e antropológicos mostram é que efeito de ambos tem sido sempre o fortalecimento das fronteiras sociais. ou então dizer que mora no Cafezal. até porque lhes exige uma constante negociação com os seus interlocutores. quando se referem aos “de fora” sabem do receio que cultivam em relação ao aglomerado. Alguns entrevistados revelam as tensões dentro até da própria casa. Se internamente eles relativizam a violência e dizem que lá é tranqüilo. Como forma de se livrarem desse estigma eles tentam de todas as formas que a palavra favela seja mencionada e também que seus interlocutores não traduzam por favela as outras denominações que eles lançam mão. 20 . sem se dar conta que lá vila não se traduz.precisam dizer onde moram. que nada acontece com eles. Outros já sabem que alguns nomes são reveladores de lugares da favela. Das vilas do aglomerado essa é a mais conhecida. Se a proximidade da favela com os bairros de classes média e alta pode ser considerada um efeito vizinhança positivo no que toca as oportunidades de trabalho. como aqui. Uma entrevistada diz que na Bahia ela fala tranquilamente que mora numa vila. Não se trata de uma operação fácil. como é o caso de dizer que mora perto do Canão. do ponto de vista da integração social. as fronteiras sociais permanecem. assim como a compreensão das suas fronteiras.

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