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Por uma Contramemória Histórica numa Cidade Desmemoriada: Brasília

uma arqueologia política de léo pimentel – maio de 2013

Introito: Para fazer uma arqueologia política de Brasília é preciso a capacidade de se desprender da Brasília atual e adotar pontos de vistas distintos e distantes dela. Desprendimento, de alguma maneira estranha a seu tempo próximo como condição necessária desse tipo de arqueologia. Sendo assim, podemos nos desprender de Brasília e retroceder até o início do século XVIII, onde temos registro da primeira menção a uma possível capital brasileira no interior do país. Essa escavação política na história nos permitirá uma avaliação filosófica sobre a invenção desta cidade, considerada, ao mesmo tempo, tanto paraíso pós-histórico do desenvolvimento e de bem estar, quanto incubadora de descontentamento, e inferno de violência arcaica e repressiva. Este é um olhar para trás, pelo mirante da história, que acompanha uma visão adiante, até outro futuro social. Mas até lá, as demandas e os ocultamentos deste tempo, deste atual que pertence à Brasília, têm, como pano de fundo, os anseios de elites conservadoras que se apropriam de identidades, que não lhes são próprias, como por exemplo, a de protagonismo social, para destituí-las como representação política e, para encobrir as práticas de exclusão mais sutis e implacáveis de uma cidade idealizada, planejada e construída conforme os ideais políticos da invasão colonial militar-religiosa-industrial: cultura política profundamente excludente, monocultural, monolinguista e urbanocêntrica.

História – proto-memória-oficial:
Século XVIII: 1749: Francesco Tosi Colombina (engenheiro militar e cartógrafo genovês a serviço da Coroa Portuguesa, nascido em 1701) teria sido o pioneiro na ideia de interiorização da capital brasileira. Em sua “Carta de Goiás e Capitanias Próximas ”, Francesco sugere que a nova capital devia ser localizada na região do planalto central brasileiro. 1789: É entre os inconfidentes mineiros que as ideias para a mudança da capital brasileira para o interior do país têm sua maior expressão política. Tiradentes foi um dos seus maiores promotores. São João Del Rey, em Minas Gerais, era a cidade sugerida pelos inconfidentes para se tornar capital. Um dos mais expressivos argumentos para tal mudança era o da integração nacional.

Século XIX: 1807: Com a invasão francesa de Portugal inicia-se a transferência da Família Real e da Corte Portuguesa para o brasil. Desse modo o aparelho de Estado Português passa a operar desde o Brasil, que deixa de ser uma colônia e passa a ter funções de metrópole. 1808: Cria-se em Londres o primeiro jornal brasileiro, o Correio Brasiliense. Onde uma das campanhas preconizadas por tal era a mudança da capital para o interior do Brasil. 1822: José Bonifácio de Andrada e Silva (naturalista, estadista e poeta brasileiro, nascido em 1763) elabora um projeto para a interiorização da capital federal , “Brasília” já era o nome sugerido para tal, e Paracatu, em Minas Gerais, era a cidade sugerida. Motivado em celebrar a chegada do iluminismo no Brasil e em obter uma cidade mais segura das invasões napoleônicas e, livre das revoltas e insurreições populares que aconteciam constantemente no rio de janeiro. 1822: Se institui o Império do Brasil com sua independência de Portugal e o retorno da Corte Portuguesa. 1823: Preserva-se o estado atual das coisas: conserva-se e ampliam-se os privilégios políticos, econômicos e sociais das elites agroexportadoras; volta-se à exportação e ao modo

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monárquico de governo; minimizam-se as influências do ideário do Iluminismo (próprio da elite urbana letrada) mantendo o regime escravagista e o latifúndio. 1825: Início do endividamento externo do Brasil com o reconhecimento da Independência por Portugal e pela Grã-Bretanha. Já que o Brasil negociou com esta aceitando pagar 2 milhões de libras esterlinas a Portugal num acordo chamado Tratado de Amizade e Aliança entre Brasil e Portugal. 1852: Antônio Francisco de Paula de Holanda Cavalcanti de Albuquerque (Senador e Visconde de Albuquerque, nascido em 1797) apresenta um projeto de lei autorizando levantamento de um terreno a ser destinado à localização da futura capital. Terreno este que se localizaria entre os rios São Francisco, Maranhão e Tocantins, nas latitudes entre 10 e 15 graus. 1853: João Lustosa da Cunha Paranaguá (Senador e segundo Marquês de Paranaguá, nascido em 1821) apresenta um projeto de lei para transferir a capital do Rio de Janeiro para o interior da Bahia, em Monte Alto. 1883: Suporto sonho profético de Dom Bosco (santo italiano, nascido em 1815 e fundador da Ordem dos Salesianos) sobre um território entre os paralelos 15 e 20 graus, que futuramente, passará a ter uma versão oficial ligando-o à construção de Brasília. 1891: Em seu artigo 3º, a Constituinte brasileira estabelece a mudança da capital, passando para a União a propriedade de 14.400 m² no planalto central destinada a tal empreendimento. 1892: O Presidente Floriano Peixoto (1839-1895 – militar e político) cria a primeira comissão a explorar o planalto central, a Missão Cruls: comissão multidisciplinar chefiada pelo astrônomo belga Luiz Cruls (1848-1908) para explorar e demarcar os 14.4000 m² estabelecidos pelo artigo 3º da constituinte.

Século XX: 1922: Em comemoração ao centenário da Independência, o então presidente Epitácio Pessoa (1865-1942 – jurista e político) assenta a pedra fundamental da futura capital a 10 km de Planaltina, entre os paralelos 15 e 20 graus, oficializando o sonho de Dom Bosco como o mito fundador da futura Brasília.

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1930: “Revolução de 30”: revolução burguesa que afirma a liberdade do novo capitalista industrial; caracterizada como um movimento político para conter a luta de classes, suficiente para conduzir transformações além das propostas dos grupos oligárquicos. 1938: Getúlio Vargas (1882-1954 – advogado e político) reata a campanha dos construtores da nacionalidade retomando antigas tradições coloniais e valorizando, principalmente, a figura do bandeirante, considerando-o herói nacional por ser responsável pela conquista do território. O Centro-Oeste era visto como um vazio territorial. 1940: Na inauguração de Goiânia (cidade promessa de progresso varguista como um Brasil urbano, industrial, moderno e com alto padrão de vida), Getúlio Vargas lança a “Marcha para o Oeste”, uma política de povoamento, regulando o deslocamento populacional para o interior do Brasil. Ao mesmo tempo em que se cria a CANG, Colônia Agrícola Nacional de Goiás, que implementava assentamentos para imigrantes. 1955: Em 30 de abril, José Ludovico de Almeida ou Juca Ludovico (1906-1989 – farmacêutico e político), o então governador (interventor em 1945) de Goiás, assina o decreto de desapropriação de uma extensão de 23.000 hectares da Fazenda Bananal para a implantação do novo DF. 1956: Juscelino Kubitschek (1902-1976 – médico e político) antigo interventor de Belo-Horizonte (1940-1945) na Era Vargas, para desenvolver projetos para reformular a cidade, elaborar planos diretores e abrir grandes avenidas, assume o mandato de presidente da República. Momento este em que JK se apropria das metas já traçadas anos atrás por Getúlo Vargas para a construção de Brasília. Tal apropriação é consagrada pela “Mensagem de Anápolis” que cria a Novacap, Companhia Urbanizadora da Nova Capital Federal, que autoriza o Poder Executivo de realizar todos os atos necessários para a transferência da Capital. Oscar Niemeyer (1907-2012 – arquiteto modernista) é convidado por JK para projetar os prédios públicos da futura capital federal. 1957: É escolhido o Projeto Urbanístico para a Nova Capital projetado por Lúcio Costa (19021998 – arquiteto modernista e urbanista). 1959: No domingo de carnaval ocorre o Massacre dos Trabalhadores da Construtora Pacheco Fernandes Dantas: devido à incidentes de brigas, um caminhão cheio de soldados da Guarda Especial de Brasília (instituição policial com caráter paramilitar que vigiava os

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trabalhadores da construção) invade o acampamento dessa construtora batendo com cassetetes em quem via pela frente e atirando em quem corria. 1960: Inauguração de Brasília: promessa de integração nacional (idealizada, planejada e construída sob os ideais políticos da Revolução de 30), tanto em termos geográficos (abertura de estradas como instrumento de comunicação) como em termos de unificação estética entre povo e elite: o culto do novo (a imagem de um país dinâmico e contemporâneo) e a rejeição do passado (povos indígenas e vestígios e símbolos da dominação portuguesa). 1964: Golpe militar que transforma Brasília na capital brasileira do Terrorismo de Estado, onde uma de suas ações foi a promoção da primeira invasão policial na Universidade de Brasília em cumprimento do decreto que extinguia o mandato de todos os membros de seu conselho diretor. 1973: A Escola Nacional de Informações (Esni), criada em 1971 em pleno terrorismo de estado, envia um ofício à UnB solicitando que seu reitor, Amadeu Cury (1917-2008 – médico), fosse colocado a sua disposição. E assim, a colaboração entre UnB e o Esni se dá até 1976, fim do mandato do referido reitor, cedendo professores tanto para proferirem quanto para obterem cursos de tal escola. Caso Ana Lídia: Ana Lídia Braga, sete anos, raptada na porta do Colégio Madre Carmem Sales, na Avenida L-2 Norte. Estuprada, torturada e assassinada. O irmão da menina e alguns filhos de políticos e membros poderosos da sociedade brasiliense foram suspeitos. No entanto, não foram identificados os culpados. Tal caso é conhecido como símbolo da impunidade em Brasília. 1985: O Colégio Eleitoral reúne-se em Brasília para escolher entre Tancredo Neves (1910-1985 – advogado, empresário e político) e Paulo Maluf (empresário, engenheiro e político, nascido em 1931). Tancredo não consegue tomar posse da presidência morrendo em 21 de abril. Seu Vice-Presidente José Sarney (político e escritor, nascido em 1930), assume de forma plena a presidência até 1989. 1992: Movimento Caras-Pintadas que se extinguiu em si mesmo depois de, supostamente, ter atingido seu objetivo, a queda do presidente Fernando Collor (político, jornalista, economista, empresário e escritor brasileiro, nascido em 1946).

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Século XXI: 2007: Início do governo de José Roberto Arruda (engenheiro, servidor de carreira e político, nascido em 1954) que tem como pauta principal a construção do Setor Noroeste – bairro, pensado como o último setor habitacional a ser construído dentro da área tombada de Brasília. 2008: O jornal Correio Braziliense inicia sua agenda regular em noticiar mensalmente a possível construção do Setor Noroeste. 2011: Apoiadores e indígenas (Movimento O Santuário não se Move) resistem à invasão do território indígena Santuário Tapuya dos Pajés, contra tratores das empreiteiras que constroem o Setor Noroeste e destroem o último reduto nativo do cerrado em Brasília.

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Pós-História – uma cidade desmemoriada:

Em que termos podemos pensar Brasília de modo a inscrevê-la numa historicidade? Já que esta cidade desenvolveu estratégias para lançar-se a um futuro para além da história nacional. Em que termos podemos pensar Brasília de modo a inscrevê-la num horizonte cultural? Já que as estratégias pós-históricas, monótonas por falta de articulação histórica, torna-se um teto cultural, formal e legalista, que opera apenas para reunir uma população debaixo no qual, se oculta as inúmeras culturas que ali pulsam. Brasília seria um monumento à história? Um monumento à cultura? Há alguma ideia ou noção que teria força o suficiente que não derivasse apenas de seu poder explicativo ou de sua veracidade para articular uma brasiliensidade? Como responder tais questões fundamentais? Já que, enormes esforços são feitos para seu desenvolvimento econômico ao mesmo tempo em que se busca congelar a situação social e cultural da cidade, suprimindo qualquer campo inventivo e espontâneo. No entanto, esta cidade, mesmo querendo insurgir contra, atravessa uma história que lhe sustenta sua elaboração, construção e eleição em um lugar comum. Também que há todo um conjunto de instituições intelectuais, políticas, religiosas, militares, econômicas, etc., que lhe dão aval para assim lhe garantir uma pertinência existencial romântica dentro de um progresso – o/a turista vê a estrutura da arquitetura de Brasília; seu/sua habitante vê apenas seus vazios. Vejamos como Brasília é história articulada entre a tentativa de traduzir ideologias importadas da Europa e o mundo concreto e vivido do receptor que luta pela manutenção e garantia de seus privilégios endógenos.

Século XVIII – Iluminismo e Bandeirantismo: Por um lado, os filhos das classes altas da sociedade brasileira, que se concentrava no litoral, alienados do que acontecia no interior do país, iam estudar em universidades europeias. Em território europeu, tiveram contato com os pensamentos desenvolvidos por lá: liberdade, igualdade, fraternidade e liberalismo. Aos retornarem a seus centros urbanos, divulgavam as ideias que aprenderam. Realizavam-se enquanto elite vanguardista. O iluminismo (razão e ciência) tornava o grande articulador para as diversas expressões no Brasil com inspirações de independência. Por outro lado, as oligarquias regionais, realização existencial da elite, que se concentravam no interior do Brasil por questões agropecuaristas e pela busca de ouro. Proprietários de grandes extensões de terras que lhes foram dadas como prêmio pelo seu poder de crueldade sobre indígenas – cultura básica e

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autêntica da brasilidade. Tais oligarquias estendiam seu poder a todos os níveis da sociedade e se sentia proprietária do aparelho do estado. Extensão esta como forma de manutenção e reprodução de privilégios. No entanto, médicos, advogados, engenheiros, comerciantes, outros profissionais, militares e religiosos, que por origem social de classe média urbana litorânea, estavam ligadas ideologicamente às oligarquias do interior. Primeiro momento histórico brasileiro de conflito entre um litoral urbano (que pretendia o fim do colonialismo e do absolutismo, a garantia de liberdades, como a religiosa, a de pensamento e a de expressão, e ainda, substituir a monarquia pela República) desejoso por reocupar o país e um interior agropastoril e zona de mineração (bandeirantes e fazendeiros donos do aparelho do estado) desejoso por manter e reproduzir seus privilégios anexionistas de ocupação. No entanto, nenhum processo dialético. Apenas, mistura entrópica por uma tensão brasileira falsa e pseudo-histórica, feita por elites que brigam entre si pela hegemonia de um território, para o qual, pretendem despovoar de pessoas concretas e desprotagonizá-las (indígenas e africanos/as sequestrados/as) e repovoa-las por pessoas que não existe em parte alguma, o/a brasileiro/a ocidental, como protagonista virtual.

Século XIX – Positivismo e Coronelismo: A coordenada razão e ciência do iluminismo (das parcelas civis e liberais) dá espaço à razão e ciência do positivismo (das parcelas militares conservadoras). O poder do estado (mando e obediência), antes administrado pelos donatários da sesmaria, agora é administrado por seus herdeiros, os coronéis (mando e favor). O conflito pelos rumos brasileiros agora se dá entre a estrutura coronelista (posse da terra, de bens de fortuna, domínio parentelar e agregador das camadas mais pobres da população via um paternalismo, se possível, e coercitivo, se necessário) e a restruturação positivista (militares, juristas e a nova classe urbanoindustrial voltados a uma nova ordem pública valorizando a autoridade, a família e a pátria como leis imutáveis de um caminho harmonioso pré-determinado). Ambos desejosos por instituir um ser brasileiro, não como processo, mas como estado, tomados pela pretensão de realidade rumo ao engajamento de uma realidade unidimensional. Momento histórico que, por um lado se dá o exercício da jurisdição política urbana, o próprio poder central, por militares inconformados pela degradação da profissão imposta pela monarquia, por uma nova classe urbano-industrial-capitalista em ascensão, por um crescente número de intelectuais provenientes das classes mais abastadas, onde tanto a monarquia quanto a igreja se mostram frágeis diante à “modernidade”. E momento histórico que, por outro lado se dá no exercício da jurisdição política rural, onde o poder central aparece como longínquo e inoperante, por todo um sistema baseado em mecanismos de

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intermediações políticas de fundamento patrimonial por parte dos coronéis que contava com, tantos votos e tantas armas quanto homens, e em uma relação de proximidade entre poderosos e ricos e de apropriação de pobres por parte dos poderosos em prol dos ricos. No entanto, ambos os lados, reagiram violentamente contra a situação da absorção de elementos multidimensionais indígenas, afrodescendentes e populares. Já que tal absorção, rica, porém desprezada por tais donos do país, implicaria a modificação do pensamento nacional. Reação essa que, atordoada pelo progresso e pela manutenção de privilégios, conseguia militar e para-militarmente, suprimir qualquer expressão de outras maneiras de vida humana, digna, lúdica e criadora. Não houve resistência indígena, criação de quilombo, messianismo, revolta popular, banditismo social e organização camponesa ou proletária, que não tenha sido eliminada violentamente do mito de que o Brasil pertence ao mundo ocidental.

Século XX – Modernismo e Latifúndio: Dos processos da atuação dos conflitos das forças políticas anteriores, desdobra-se nova apropriação cultural e estética: o modernismo. Onde por um lado, intelectuais sobrevivem profissionalmente à sombra do estado, e por outro, sobrevivem por serem filhos e filhas da aristocracia fundiária. No entanto, ambos modernistas desejavam suas parcelas de estado. Tanto funcionários do governo quanto formuladores de políticas públicas almejavam uma harmonização entre diferentes estéticas gritantes e projetos políticos, distintos e conflitantes. O momento histórico era o de criar instituições geopolíticas integradoras para uma nova sociedade e, com isso, produzir um sentimento de nacionalidade. Modernizar era o discurso político e modernismo era seu discurso-irmão estético. Pelas mãos de Getúlio Vargas, o modernismo marcha para o oeste. Sua intensão é a de transformar a região do planalto central considerada arcaica, ocupada pelo latifúndio e por indígenas em condição de refúgio, em um espaço reprodutivo do capital. Modernismo que retoma antigas tradições coloniais, como a figura do bandeirante recolocado como herói brasileiro responsável pela conquista do território nacional construtor da nacionalidade. Transformação que, por meio de decreto e da coerção procurava acabar com o poder e o domínio dos coronéis do planalto central e com a política dos governadores que durante a República Velha (1889-1930) favoreceu a autonomia e a consolidação das oligarquias. O Estado quer ser visto como promotor do desenvolvimento; como garantidor de um nível melhor de vida para os trabalhadores; como fonte de inspiração para políticas nacionais de crescimento econômico; e, como interventor capaz de criar as condições materiais para a realização da consciência nacional. Depois de um período muito longo de gestação e experimentos, como as construções das cidades Volta Redonda (SP) e Goiânia (GO), eis que vai surgindo Brasília no horizonte material da cultura: ação e
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criação a partir de uma experiência social (Brasil urbano e industrial); integração civilizadora entre passado, presente e futuro (Brasil indígena e Brasil europeu); imperativos morais (sacrifício, martírio e redenção); pedagogia para o exercício liberal (governo, empresários, tecnocratas e opinião pública suprimindo qualquer legitimação popular); vida na modernidade (construir uma nação a partir de um projeto); prodígio através da ordem e da disciplina (nem apoio popular nem ideologia política, apenas fortalecer a própria autoridade); evolução social possível apenas de modo harmônico, sem revoluções (conformismo justificado pela visão naturalista da riqueza e da pobreza); vontade de nação (elite esclarecido como propulsora da “verdadeira” realidade nacional); negócios entre empreiteiras e estado (parcerias escusas entre o público e o privado); poderes centrais longe da maioria da população brasileira e da pressão das ruas (institucionalização da segregação urbana); e, corretivo capaz de criar condições materiais para a supremacia capitalista desejada (construção de uma extensa rede rodoviária como instrumento de comunicação e circulação de mercadoria, via a produção de automóveis, entre as regiões e as cidades).

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Extemporâneas para uma Contramemória Histórica e geopolítica brasiliense ou Extemporâneas para uma auto-arqueologia política:

1. Brasília... Fenômeno cultural brasileiro onde as mais diversas culturas se misturam dando origem a outra? Articulação de um sentimentalismo falsamente romântico que copia ideologias externas com o intuito de ser porta-voz de uma unidade? Força imaginária capaz de criar representações muito antes de se tornar realidade? Significado que uma elite decisiva impõe para que uma massa seja arrastada consigo significado adentro? Cidade protagonista social já que seus cidadãos e cidadãs se organizam cartorialmente sob um poder político estatal como sociedade civil e como identidade coletiva? Quem pode assumir como autoridade para determinar o quando e onde uma história pode ou não ir? Quem habita essa cidade de modo simbiótico (sociedade civil organizada) e quem a habita de modo simbólico (identidade cultural)? Brasília não é mais aquela esfinge que se pensou antes... muito do seu cotidiano não é inesperado, nem surpreendente e muito menos tem uma qualidade “sintética”.

2. Arquitetura enquanto ideologia: urbanização e monumentos construídos como solução imaginária para um impasse social efetivo, onde prédios, ruas e edifícios governamentais pouquíssimo tem a ver com a arquitetura e urbanismo, e muitíssimo a ver com a dinâmica de circulação ideológica de quem a planejou e construiu. Mausoléu de uma santíssima trindade, Juscelino Kubitscheck, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Ermida, consagração do delírio a posteriori de Dom Bosco. Esplanada, destino de fuga para o corpo político da nação. Plano Piloto, paraíso da vida arregimentada pela tecnocracia. Regiões Administrativas, aldeamento perfeito para pessoas tensas, ansiosas e inseguras. Eixo Monumental, recriação do arcaico pela urbanização moderna que visava supera-lo. Amplas avenidas ao lado das superquadras favorecedoras inevitáveis de “castas” e preconceitos. Automóveis como necessidade absoluta. Horticultura de miragens e de culpa. Indústria de tecnocratas senhores de baraço e cutelo. Setores Sudoeste e Noroeste, construções orgulhosamente alardeadas que não passam de espaços concebidos para interceptar, filtrar e rechaçar, aspirantes a usuários/as. Enfim, transfiguração do mesmo, bandeirante em sertanista e, por fim, em candango.

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3. Onde em Brasília posso ir para conhecer pessoas que posso ter afinidades? Quais os lugares que transitam artistas, a boemia, intelectuais e pessoas dispostas a uma boa conversa? É nos locais públicos brasilienses, que a vida urbana e tudo o que pode se distinguir de outros modos de convivência humana atingem sua mais completa expressão: mixofobia, medo de misturar-se. Alegrias, dores, esperanças, intuições, criações não lhes são característicos. Locais onde nada se descobre, nada se aprende, e, sobretudo, nada se pratica como modos de uma vida urbana satisfatória. Os locais públicos de Brasília são meras lacunas entre espaços privados, onde se despreza as minúsculas interações cotidianas.

4. Estar-em-Brasília é um estar-no-sempre-será-assim. Pois Brasília carrega um sentido de fatalismo que elimina a importância decisiva da relação entra a liberdade e a responsabilidade. É uma afirmação para se cancelar a historicidade das decisões e dos feitos negando qualquer condição anterior, mas cujo futuro pode ser determinado, a qualquer momento, pelos poderes que faz tal afirmação. Cada cargo público assumido é a renovação dessa promessa de repetição intemporal. Já que seus motivos são os da obediência – reduplicação e continuação do mesmo.

5. Contrapartida reativa ao imaginário daqueles trabalhadores que construíram a cidade. Contrapartida à política cultural da diferença como emancipação tornando-se política de identidade do dominante. Racismo que não postula a superioridade de certos grupos em relação a outros, já que precisam destes para que façam sua comida, lhes sirvam à mesa, limpem suas casas, tomem conta de seus filhos e filhas e cuidem de seu lixo, mas sim racismo que combate a abolição de fronteiras e postula a incompatibilidade entre estilos de vida – “só há uma única e exclusiva forma de levar a vida em Brasília”.

6. Adesão feliz ao personalismo por lei: ao mesmo tempo em que se critica uma chamada “ política pública inclusiva de massas” por tratar de massas despersonalizadas, adere-se à noção de poder que

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tem por finalidade o bem comum das pessoas, mas somente com o sacrifício dos interesses individuais e coletivos de grupos – criação de leis que digam o que pode e o que não pode fazer. Cidade personalista sustentada pela ação livre e responsável das pessoas apenas mediante legislação.

7. Quais os tipos de males sociais que há pelo asfalto e pelo concreto desta cidade? Alguém se habilita a apresenta-los e a discuti-los? Mas quanta gente apta a criticar as soluções depois que as decisões foram tomadas! Mesmo em certeza de que vivem para as decisões alheias. Quanto lamento por estas ruas sem esquinas! População apolítica, mas nada indiferente à política. Assim brasilienses se definem. Definição surgida da complexa articulação de forças, de vozes esquecidas ou silenciadas, de memórias sintéticas ou fragmentadas pela oficialidade e, de histórias contadas desde um só lado para suprimir outras memórias.

8. Na construção de Brasília, algo desapareceu: a classe trabalhadora. Que fim ela levou? Foi soterrada sob os monumentos? Fugiu para alguma antiga “cidade -satélite”? Foi relegada aos proto-museus candangos? Onde está essa população? No entanto, uma imensa nuvem de fumaça foi levantada: a classe média. Esta que faz de sua vida um cruzada perseguindo a população em situação de rua e o último espécime da classe trabalhadora. Classe média de aspiração à riqueza (acumulação enquanto aparência), mesmo sabendo que jamais será possuidora dos meios de produção. Classe media de aspiração à nobreza (auto-enobrecimento), uma estranha aristocracia feita de funcionários públicos que se gabam em trabalhar não para sobreviver, mas para ostentar poder e arrogância. Um reino de fraternidade mediado pelo status e pela soma de finitas certezas parciais da burocracia (o mito da coerência). Por aqui, sua mais-valia e a mais-valia da ostentação em um deixar-se condicionar por estereótipos ao mesmo tempo em que segundo os quais determinam seus comportamentos.

9. Novo papel intelectual: concurseiros e concurseiras. Intelectualidade provinda da memorização de apostilas de sínteses de conhecimentos, dados como certos e irrefutáveis, e da tutela de professores e professoras mestres de cerimônia de um incrível espetáculo de robotização. Por mais refinada que seja esta intelectualidade, o domínio de um conhecimento e das tiradas espirituosas dependem de técnicas
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invariáveis e consagradas ao serviço do ilusionismo social da oficialidade. Na vida intelectual brasiliense, os acontecimentos do dia a dia são uma espécie de colcha de retalhos de clichês: delinquência, violência, insegurança, impunidade, falta de planejamento, capital disto ou daquilo, cidadania, mérito profissional, etc.

10. Realização social seletiva (hierarquia dos espaços enquanto higienização da vida social); espaço residencial e público apenas como mercadoria (mercado do solo urbano); parceria público privado (subsídio às camadas mais ricas da população e ao tecido empresarial mais poderoso, e, garantia das funções e estratégias de controle); cidade revanchista (poder, dominação e fechamento dos espaços públicos); espaço-urbano-rede (não há continuidade, a cidade opera como saltos entre pontos); multipertença simultânea e defasada em tempo real (pluralidade de estilos de vida como pluralidade de mercadorias – vizinhança substituída pelas redes-sociais); ideal pós-urbano (morar em Brasília torna-se morar em um mundo “em voga”, “da moda”, cuja identidade é realizada como um b em de consumo e de demonstração de sucesso profissional); e, pensamento único (cultura apenas associada aos políticos, ao grande capital, aos produtores culturais, aos planejadores urbanos, paisagistas e aos empreendedores).

11. Iluminismo vrs. Bandeirantismo, Positivismo vrs. Coronelismo, Modernismo vrs. Latifúndio, e desenvolvimentismo atual, são as ideologias planejadoras, realizadoras e mantenedoras de Brasília e de sua população. Rastro ideológico onde jamais uma ideologia superou a outra. Mesmo que consigamos distingui-las umas das outras e ressaltar suas especificidades, elas têm algo em comum, coexistem e se articulam: ódio por tudo o que é nativo – fauna, flora e povos. Violência, por vezes sutis [Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT)], por vezes brutais (Campanha de Soldados de Mato e aldeamentos), da prática colonizadora: ocupar, dizimar e destruir. E assim, o cerrado do planalto central deve ser ocupado e recapeado com asfalto (ruas, estradas e estacionamentos) e concreto (monumentos e moradia), e o que restar, deve ser substituído por outra vegetação (jardins paisagísticos e árvores da Mata Atlântica e da Amazônia); com isso grande parte de sua fauna é destruída e, o que sobra, restringida a reservas e substituída por cães, gatos, pombos, pardais, etc.; assim como seus habitantes nativos, como os Paraguá, os Guaicuru, os Kayapó do Sul e os Tapuya, devem se tornar mão-de-obra barata, cristãos civilizados e erradicados do Plano Piloto. Da

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concentração de terras pelas oligarquias rurais de Goiás no século XVIII, passando pela criação da CANG (Colônia Agrícola Nacional de Goiás) no século XX para acelerar a ocupação da região, pela construção de Brasília à especulação imobiliária do último reduto de cerrado nativo (Setor Noroeste) no século XXI, indígenas representam um obstáculo. Capital da jamais levada em prática Política Indigenista Brasileira, a não ser, como sempre o foi na história brasileira, para propor declaradamente guerra aos indígenas.

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