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MANIFESTO PULVERIZADO DA ARTEPHYSIS COMO JARDINAGEM

a humanidade entranhou-se poéticamente no planeta (e a poética desentranha-se planetáriamente para a meta-humanidade) com as suas idéias a ecologizar a revolução e a revolucionar as ecologias Devemos fazer algo diferente da arte de forma a ajardinar a vida — uma espécie de arte que se pareça menos com os double bins do seu sistema e mais com a pura emergência da vida Solidões que acabam plantadas no Jardim artistico, A Solidão é o nosso crescimento que transforma o medo em glória. A sustentabilidade da artephysis depende quer da sua autonomia (do que não depende dos outros), quer da sua interdepenfdente expansão regar as hierarquias para abrir portas às metamorfoses É a Natureza-Filosofia que compõe a artephysis — não podemos dissociar a arte do pensamento e da physis — numa ecologia que comporta intenções, não-intenções, autorganização, degradações, patchworks, readymades a serem remisturados regrada ou aleatóriamente — a espontaneidade e a selecção “natural” separam nesse processo o trigo do joio O fosso entre os homens e as àrvores tem redundado em desinteligência. O jardim é uma ecologia finita, braçal, para o qual é necessária uma poética

sexualizada oposta às sublimações e hipocrisias minimalistas. as plantas alertam-nos para a necessidade de mais metamorfoses A Ecolocação: a arte como sobrevivência do vivo no animal e no vegetal O jardim como seu oposto, como contendo a sua dialética feroz, e uma revolução clandestina a escala é a musicalidade — sugerindo idéias adubadas por idéias a ecologia é o que há de mais copulativo e missegenador a ordem/desordem do Poema é a pulverização dos seus desejos seminais Os actuais jardins são ataques ao processo de glocalização jardinante da humanidade. um economista (regra geral) é alguém que quer fintar a natureza com a estupidez a auto-desorganização também pode ser uma forma de semear trabalhamos a inquietação como uma planta que precisa de constantes afectos a multiplicidade do sujeito (a heteronomia) é apenas a estilização da sua espontaneidade — a propensão para a sua bio-diversidade

o olhar a meter-se com a verdade o pensamento amadurece com os daimones a jardinagem necessita dos seus deuses locais para melhorar embaraças sensações a aprimorar o finito? a arte forma-se de destruições que acompanham as estações a agir sobre a terra e que regressam depois como criações estonteantes e germinações inesperadas a humanidade anda omnivorizada na sua auto-destruição a natureza-Filosofia implica o crescimentos dos desejos, com a sensorial energia do que é superficial — jardinagem que envia sinais eróticos o que morre amotina-se em novos rebentos o que um jardim significa é o que transborda na sua contemplação — a vontade de passeá-lo mais, os desejos que propaga, as acalmias a que induz um retiro exemplar, como laboratório de desejos, labuta diferindo a astúcia com uma honesta astúcia natureza-Filosofia significa-se nas suas deambulantes ambições Um amontoado de detritos filosóficos a servir de composto para uma horta poética

a estética tem dificuldade em desembaraçar-se da sua artificialidade — enquanto não participar plenamente na eclosão da beleza como parte e motor desta a estética será apenas o voyeur a sublimar a sua falta de tesão

o Estado prefera a arquitectura imponente à jardinagem privada — ainda não entendeu que as casas se vão tornar cada vez mais microjardins alimentares jardinar é antes de mais o seu prazer — não se trata de agricultura, de produtividade, de subsistência, de negócio, mas de aprimorar o ócio — desde Epicuro que o prazer e o jardim são indissociáveis o jardim propicia a libertinagem, a liberalidade propicia a jardinagem

manifesto semi-diasporista com incursões hebraico-tibetanas

1. nos diversos processos artísticos sobramo-nos como equivocação autobiográfica e como vacuídade ambulatória 2. o buda é a nossa pintura e deus é a farsa da nossa consciência a achar um centro para as actividades poéticas 3. falamos de semi-diasporismo como de ilusões comunitárias e afinidades tribais — o semi-diasporismo não é tanto a (re)construção de uma identidade cultural mas sim a resistência ao desaparecimento e à descaracterização das especificidades misturado com a mais desvairada ansiedade de novidade e complexidade 4. a torre de babel é o face a face com a budeídade de cada um — um apetite pelas linguagens comuns e privacidades e as suas piadas associadas 5. um processo interminável e espontâneo, entre ginásticas espirituais e profanações 6. não só nos sentimos diferentes, como nos sentimos diferentes dos que se afirmam diferentes — não somos movidos por uma identidade especifica, mas sim por um sentimento de inadequação e de vontade de recriar — não viemos para destruír vanguardisticamente mas para avançar misturadamente 7. claramente sensíveis a sermos outros relativamente aos outros, porque o nosso hibridismo se consuma na clandestinidade 8. não nos revemos na noção estereotipada de judaísmo, mas sentimos que há um modo de entendimento diasporista que aguça a percepção e é inerente à tradição hebraica desde sempre — essa

sensação é mimética e mistura dois tipos de mimetismo, o de camuflagem com o travestismo 9. um estado de dissimulação que se auto-parodia 10. deus é um auto-provocador da auto-libertação 11. a doxa, ou a glória de deus, é identica à grande vacuídade 12. estar sensível aos momentos disfrutados, ou estar absorto neles — a concretização das actividades poéticas é, na sua egoídade transbordante, mais auto-hetero-libertadora do que a prática do narcisismo meditativo 13. a arte é uma oferenda permanente do tempo tomado para si — o tempo vem condensado 14. submergir-se totalmente nas obras de arte é descompactar a autolibertação — quem não sabe dessa auto-libertação não deu conta de nada 15. o estranhamento é apenas uma imensa alegria e exuberância intima que colide com as patologias agressivas das sociedades 16. a “verdade”, a sinceridade, a simpatia, são experiências emotivas e eróticas, acompanhadas frequentemente de algo sorridente e lacrimejante — a antipatia, a insinceridade e a “mentira” deserotizam e levam a sensações tanáticas, dissolutivas, frias 17. na religião organizada e hierarquizada é o anti-erótico que triunfa 18. a natureza é uma parte que é mais e menos do que a nossa fractalidade 19. a natureza é um exílio que possibilita uma comunidade de exilados naturais 20. é a diáspora que nos é dada à nascensa e não a tirania de uma pátria à qual nos somos forçados a identificar

21. há que desmitologizar a negatividade da diáspora — será possível exaltar Sião em Sião? — a babelização de sião e a sionização de babel são já o paradisíaco 22. a vacuídade é o ser no exílio — o próprio deus entrou em estado de diáspora, de espairecimento, de pulverização — não se trata de uma mera contração da divindade, mas de uma descontração do divino 23. o povo hebraico tinha livros sagrados — os tibetanos também consideram os livros divinos — e há ainda os textos que esperam oportunidades especiais para se revelarem, os “terma”, interpretáveis por “tertons” — há uma “escolástica” tibetana afim à da textualidade rabínica 24. os livros desentranham-se dos livros, ou aguardam-se neles para eclodirem naturalmente — a textos da cabala são um enorme desvio aos ritmos e à imanência do bíblico — no entanto cumprem a experiência do texto como magia e erotismo — é da diáspora a retornar-se sobre o texto que a prática de leitura revela o seu fundo empático e sexuado 25. toda a interpretação diasporista é uma ressexualização de um “texto” — nisto Freud tinha toda a razão — e esse texto abre-se cada vez mais, ambiguando-se, tornando-se polimórfico e polifónico 26. as interpretações que tentam fechar o sentido traíem a propensão dos textos e a sobreimpressão de múltiplos filões 27.

METAMANIFESTOS SOBRE OS MANIFESTOS DE FRANCISCO LIMA (olhando para o Herberto de soslaio)

primeiro metamanifesto — discurso sobre odiscurso do artista

1. o discurso do artista surge nos dedos na boca nas páginas nos ecrãs com uma espécie de voz a fazer-se ao prestigio a ser caçado por outros antropófagos 2. discurso chamuscado pelas obras de artes, a instalar-se nas suas mortais imediações 3. discurso rápido logocêntrico a descentrar-se na sua brutalidade na sua delicadeza, na baba encaracolada do logos 4. as palavras dos artistas são o seu monumento acidental com pombos a cagarem por cima 5. os artistas fazem-se vestidos de “operadores estéticos”, de filósofos súbitos a branquear práticas na sua distraída mortalidade 6. os discursos filosófico dos artistas aparecem como cabeças que se autocontemplam nas suas burlas pessoais 7. a paisagem dos discursos dos artistas é posterior às paisagens que entram na vida dos artistas como uma inflamação alta 8. os discursos dos artistas dão ardentes pancadas uns nos outros 9. os discursos dos artistas são peixes a disfarçar o não haver discursos de artistas ou a disfarçar o disfarce de disfarçar com moribundos alfabetos os altos discursos dos artistas nos seus belos aquários

10. os artistas desaldrabam-se no seu bluff poético, redondamente, a quererem entrar na literatura como fábula a imprimir 11. o artista desmonta-se e monta-se para ser cavalgado por alfabetos ressurrectos 12. o artista esconde-se no seu silêncio arcaico esmagado por catedrais 13. o artista inventa a sua estupidez como apatia sonora enquanto as palavras se evaporam para seduzirem indeterminadamente 14. os artistas põem as suas escorregadias teorias em sítios muito obscuros porque têm medo de que as suas teorias sejam uma arca de imbecilidades 15. há artistas que julgam que pensam com o alfabeto, com a pompa de maduras teorias ou com a brejeira brutalidade de quem as recusa ter 16. os artistas pastam o seu medo de todas as maneiras e sobem por uma corda muito frágil à infância a confundir-se com a fama a confundir-se com a posteridade e em tudo isso floresce angustia 17. as contradições dos artistas são uma bela insensatez que atravessa como uma cabeça de cão as fileiras do pensamento 18. os artistas têm uma morosa ânsia de serem excitadamente tagarelas e querem fazer sobrar a sua insensatez ao seu corpo que não se salva na infância e que se amarga em impotências 19. os artistas andam eriçados e irritados a verem se convencem as pessoas com as suas desarrumadas teorias que entram nas suas obras para tentar espalhar o terror 20. a impotência dos artistas em submergirem os outros com as suas inanidades teóricas dá belos fracassos que se multiplicam anfractuosos nas suas manhosas posteridades 21. os parasitas dos artistas rondam os discursos dos artistas como hienas a amarelecerem em complicações a folhearem dicionários a

multiplicar a insensatez como algo que deveria dilatar uma fragilidade sem pernas 22. os artistas falam com uma malicia súbita que se tenta aproximar dos ramos das cores ou das formas altas ou das palavras com muito sumo e deveras obscuras 23. o artista irradia discursos adjectiváveis e adverbiáveis que são como belos animais a pronúnciar uma àspera insensatez 24. vai-se a ver e não se sabe muito bem o que se pode fazer com esses discursos mas dá para passeá-los como um cão por belos jardins teóricos 25. as coisas importantes fazem-se importantes às vezes outras vezes ficam quietinhas à espera que a importância dessa importância seja importante para alguém 26. o discurso dos artistas tem quatro patas e o discurso sobre os discursos dos artístas parece que é bipede para andar mais depressa 27. o discurso sobre os discursos dos artistas enrabam frequentemente os discursos dos artistas com a inclinação de quem quer alargar muitos rosados cús e enrabar erráticamente — os artistas dos discursos dos artistas gostam 28. em certos artistas o melhor é o seu discurso na tarefa de estranfular outros discursos ou de serem plantados como eucaliptos, intensos, agressivos e bem-cheirosos 29. certos discursos de artistas não são crimes mas gostavam de ser fortes como crimes com a violencia e a raiva e a maravilhosa frustração a despejar a jorrar como uma descarga electromagnética um orgasmo a entrar pela paisagem dentro com a inexperiência poética de quem tem muito para dar e clichês de sobra para mudar o mundo para não sei quê e essa é a sua bitola e a sua parábola

30. espantam-se os artistas com os seus discursos que encontram o ritmo burocrático dos comentadores dos artistas e confundem-se com ele no onanismo das teses universitárias ou na imitação das inanidades curatoriais a portarem-se muito bem como quem se porta muito mal na circunspecção de quem diz banalidades a passar por coisas fortes a espantar e fascinar candidatos a grandes artistas 31. os discursos artisticos andam na arte como parábolas que desaprendem a arte que não sabem sequer se a arte existe ou se está na cova ou se é apenas um ardente vocábulo a inflamar consciências (e isto é um clichê também) 32. o criticismo entra pelos jornais adentro porque os críticos escrevem cada um para si assim como os artistam também escrevem intersticiais e esperam que todos acusem uma suave recepção com sublimes folhas tenebrosas 33. o artista mija lugares para os outros cheirarem e aquilo é feito para os sentidos mesmo que os que cheiram se sentem em teorias ou apenas passrm e sintam um odor nauseabundo ou se agachem e cheirem aquilo com muito agrado 34. o artista autobiografia-se no seu pseudo-crime esplêndido e é o instigador da sua história, o obscuro teórico, o proto-crítico de arte, o entesoado filósofo no boudoir da arte, o comerciante manhoso que diz que não tem jeito para isso. 35. os papeis dos que andam no meio da arte são confusos e todos querem ser um pouco mais do que aquilo que são a fazer malamanhadamente os trabalhos alheios com discursos que se espelham na altura baça 36. o discurso do artista é a sua ginástica de manutenção a aprimorar servidões a preterir liberdades por outras liberdades

37. vai-se a ver e os discursos entranham-se nas obras tais como as cabeleiras postiças se tornaram inseparáveis, no comércio atento de imagens, das figuras do século XVII e XVIII, e depois já não deslargam o sangue do artista, mesmo que parasitários ou irrelevantes 38. a prática artística é a arte de bater com a cabeça nas paredes até aquilo sangrar e voltar a repetir com vozes atrás e pessoas a aplaudir inocentemente ou hipocritamente enquanto as coisas estremecem e os prestígios resvalam e o artísta se julga importante ou livre nas suas preparadas explosões, no que se dá a explicar como mais uma piada, ou no absurdo de um programa anódino 39. o que parece que é importante entre estas audácias e imposturas é nada ser mais importante ou relevante nos lugares da arte, quer a teoria com os seus corcéis feitos linguagem e divulgação, quer o artista com o seu frágil ego a prometer uma vida atordoada ou exemplar, quer a prática como uma espécie de vício a querer surtir efeitos

segundo metamanifesto — espaços a apetecerem

a arte chegou pelo lado em que os outros andavam distraídos e os artistas entraram nela e pediram um espaço que os distraísse e onde pudessem menear as ancas perantes os enigmas que se propunham era o atelier, ao contrário dos poetas que podiam escrever em toda a parte, nos cafés e nas retretes por exemplo, os artistas estavam dispostos a pagar em cash por um espaço maternal, por vezes confortável, mas normalmente inóspito, onde podiam dar largas quer à desordem mais extrema quer à ordem mais asséptica pode-se fazer amor no atelier? pode-se pintar nús ou masturbar junto a telas e esculturas? houve um momento, curto, em que os artistas iam para o campo a ver se a paisagem os contaminava, se lhes entranhava — a população fazia-lhes mal e as gentes são ignóbeis a moverem-se com a sus obstrusa curiosidade — porque as cidades se meteram para dentro e os espaços públicos são estados de guerra — onde se pode passear, mas pouco mais no atelier podia-se a cegueira e a abjecção e a frivolidade — não era um espaço moral ou amoral, mas a habitação de uma espera num experimentar-se — o antónimo das encenações frias das galerias o jornais já não existem, a televisão é irrelevante e a vida do artista tornouse anónima — a arte faz-se com um mas sabe melhor com alguns (contra outros?) — num atelier partilhado mergulha-se mais no feérico fogo caligráfico — a tipografia fica a reinventar a sua ferocidade

o artista propunha para si virtudes superlativas e demoníacas e tinha ganas sexuais, fosse varão ou varoa — demiurgo (naturalmente) ou antidemiurgo, empresário ou mau negociante, exuberante ou bicho-do-mato lá se dava conta dos dois polos aos quais se podia encostar: o êxtase e a carreira — poderiam coincidir? ou nem por isso? anacorese lucrativa? este manifesto transmuda silêncios em silêncios, transmuda os manifestos que ficaram por escrever em metamanifestos que enlouquecem na sua clandestinidade

terceiro metamanifesto — coisas a arfar muito no inquilinato

I. paixão arfando muito é a arte II. o atelier é o lugar sem astros dos mamíferos horóscopos III. a fotografia é a existência de um orifício com cornos e lentes IV. fulgura a criação artística — no atelier nas paisagens no ready-made mexeruco V. Deus encurva-se na máscara e triangula o tigre contra a côncavidade artística. VI. não há objecto de arte, só inquilinato VII. o artista deseja a pele abismadamente alumiada e todos jardins de génio da esfera artistica VIII. o atelier é o lugar do lirismo a encolher-se no tempo IX. passos, contextos, claridade — a sublinhar X. trabalham os artistas para teoremas livres

XI. o artista é privilegiado: aceita a amoralidade dos jardins, do génio e da morte XII. a assimetria alumiada do artista brilha no orifício da sua existência, no pertencer a um meio deliciosamente pretencioso XIII. o artista é o grande centrípeto a centrifugar o mundo XIV. uma seda furiosa abra a louça que enlouquece a explodir em arte XV. Deus encurva-se no artista, numa especie de inquilinato XVI. o centrifugo é o tecedeiro do centrípeto XVII. a gramática é um negro animal que cozinha esplendidas teorias artisticas XVIII. lá vem a abismada esfera a trazer o pavor da arte total XIX. trabalham os textos claros vestidos de escafandristas XX. e ainda há o artísticial! XXI. aceita-se o objecto de arte sem liberdades? XXII. o lirismo deseja ser objecto do artista? XXIII. a rosa abre a doença onde fulgura a criação artística sem o atelier

XXIV. noites expansivas sobre cactos no atelier XXV. o artista é Deus encurvado na flecha XXVI. o artista traz o sujeito, do seu paço de arrebatados jardins, com cabeças às costas XXVII. ele era ofuscante contra a artística claridade e a brandura XXVIII. ai o pavor de se vir a tornar mais uma coisa artística XXIX. Deus encurvado na máscara triangula o modus operandi da arte XXX. relâmpagos contemplam os objectos do artista XXXI. o atelier é a luz abarracada em arte XXXII. através dos artistas (todo mundo, a arte, coisas interlocutoras, fantasias antigas) despedimo-nos uns dos outros XXXIII. os artistas procuram-se como interlocutores na indisciplina XXXIV. todo o processo criativo é um sentimento de disciplina adiada XXXV. os artistas mimetizam-se uns aos outros travestindo-se XXXVI. o atelier é o lugar do fogo XXXVII. fria caveira da arte com cabeças indisciplinadas

XXXVIII. o atelier transforma os outros sexos em interlocutores do êxtase XXXIX. a nossa indisciplina derrapa em toda a luz do mundo XL. os artistas rapam a poética a todo o amador XLI. legitima-se a arte com pancada a abarrotar XLII. o atelier é uma ferida XLIII. a arte é um extra no eu que preencharca o exercício dos artistas XLIV. há discurso, há artistas a fundamentar o que não é deles com tristeza e ferocidade XLV. a fonte é a voz do êxtase afundadamente XLVI. para o artista a revolução é foder melhor XLVII. a prática da arte é revolucionária na exuberância da língua a rumorejar XLVIII. os artistas que julgam que têm medo disfarçam-se no discurso XLIX. os artistas antiquados retocam o tempo L. um espaço revolucionário ah pela menstruação da onça e seus amigos

LI. há algo artistico entre o cú teórico/crítico LII. há que disfarçar o que os artistas dizem no louvor abismal LIII. o ruído do artistas quer relações para mostrar outros artistas de joelhos LIV. os artistas que falam muita acabam sós LV. na vocalidade descomeça a razão LVI. espaço para a arte é a vocalidade LVII. discurso do arte foge à delicadeza orvalhada. LVIII. os artistas passam junto aos curadores com a sua ambição biodegradável, a exercitar a sua legitimação, a tentarem ser elefantes mortos ou altos enforcados LIX. ser feio é uma prerrogativa para a legitimação LX. vindo para a rosa no museu, a galeria cumpre o passo escatológico LXI. artista cai na sagrada noite tal como outros caíem no artístico LXII. a arte é desflagrada pelo mal, mesmo quando desmiolada LXIII. tens que forrar a esfera Artística com folha de ouro

LXIV. a primeira vírgula do artista é artística LXV. a ferocidade amadora do crítico não é a do curador LXVI. galerista não é um curador porque está ao volante da sua galeria a competir com outros galeristas que guiam muito depressa LXVII. artista é um elefante da lubricidade, um amador, com o galerista a pedalar por cima dele, profissionalmente LXVIII. lá vai o artista, a pedalar no amor, no crítico, no comissário, no teórico, no curador, a pedalar na compreensão da arte LXIX. artista quer ser amador de desertos — a arte é, em última instância, uma súbtil anacorese LXX. na prática tudo é narrativa, sobretudo quando se foge dela LXXI. no discurso do artista o que importa é a cadela da glória LXXII. há artistas rotos e outros remendados LXXIII. motor da sua obra, para certos artistas, é serem mal-amados LXXIV. objecto artístico é um cão em branco: aleijado ruído de loira LXXV. Deus em seus êmbolos vê-se no cú da arte

LXXVI. artista quer ser feliz, mas existem narrativas a que tem que pertencer que o levam a correr em direcção contrária LXXVII. a espiritualidade é um cão que passeia desonestos artistas LXXVIII. o artista quer ser o herói com coleira LXXIX. o artista ri da graça, embora acabe por ganhar dinheiro LXXX. certas obras de arte lambem as cidades LXXXI. o artista olha a espiritualidade do exterior a aprimorar as Metanarrativas da arte ascéticamente

Quarto metamanifesto — o atelier é um cruel paraíso

O atelier é feito à imagem do paraíso — as mãos encaminham assim o escultor, por esse Domingo adentro (pelo Dia das grandezas). o atelier encaminha o artista para onde artista não o saiba os artistas são atingidos pela casa do artístico que os habita — no coração dessa casa monstrua-se a realidade os artistas querem subverter tudo mas apenas vão sendo habitados pelo atelier a fora lá vai o nosso crítico a inventar e a destruir possibilidades pela colinas de uma boa metralhada mediática assim o inocente animal artístico diz: a natureza quer o fora, os falsos, os múltiplos, as neves extremendo a morte entre falésias, quer couraças, pulmões, o que faz o de repente, essa coisa conceptual, entre desonestidades e aprofundamentos há uma vegetação artista? o artista julga-se um Deus obscuro, duvidoso, vaidoso — constrói-se no deserto, caminhando, a polir o céu

o atelier é o lugar sem pistas, é o espaço amoniacal por onde deambulam as pequenas de grandezas o atelier atrai não-territórios, múltiplos, individualizados e indefinidos num espelhar-se eminente e insubstituível

o contexto é o lugar da crime, sub-alugado por curto tempo, e a ser leiloado no futuro o trabalho de liberdade de criação artista é o nocturno a criação monstrua-se no selvagem, com brechas corrosivas o artista trata da sua plateia, pormenorizadamente, na sombra O artista é a sê-lo. Esculpindo o espírito na materialidade. Caíem-lhe os consensos. O artista faz-se ao contrário. Cria-se numa retorcida fragilidade através das coisas que fabrica. O artístico é o que, partindo de um objecto do artista, cria a sua negra selva de conceitos, a sua abominável negatividade. O artístico também é a sê-lo. O artista tem o desejo do medo que incorpora e dá ritmo à sua aparência. o círculo vertiginoso do objecto artista contamina o seu dia-a-dia, danifica tangível, apanha espiritualidades, aprende a ajudar-se a si mesmo contra si mesmo, no refinamento dos avessos

a natureza descentra os conhecimentos solitários do artista e silenciona-se com o mundo O artista mete-se em actividades. Porque procura? As actividades entranham-se no artista. Os objectos do artista querem reformar o mundo. Mas adentram-se e danificam-se. O artista cozinha num pequeno manual a sua inabilidade. O pequeno manual é o espelho da sua impotência potênciando a voluptuosidade noutros artistas. Depois chegam os espelhos e os espelhos replicam essa voluptuosidade, criam outra vez o mundo. O artista trata de espalhar mais desejo no tempo. o objecto do artista feito parábola ajudará de novo os que possuem um desconhecimente das suas aparências o objecto artístico fica na varanda a inventar quedas que o possam estilhaçar o artista é pouco concreto — espanta muito ao formar-nos — é solitário — cria-se com o mundo — pequena maravilha de si próprio — trata-se com a sua vontade — inseguros, austero a obra, no que tem de obscuro, responde radicalmente ao político, mas não é política o que as formas possuem não é a nossa maneira de descrição, mas que nelas fica a re-pensar

o artista ao ser apanhado pelas luzes, diz: a Arte é o Nada na Verdade O artista em nada é solidário, só solitário. Cria-se nas suas trevas. Vem das suas existências, de condimentar as amarguras da suas existências (todas). O artista trata do seu natural avesso, a desaprender-se, à procura da sua morte vagarosa.

Quinto metamanifesto — a inorigem do objecto de arte

Ninguém se maravilha. Ingénuo, o artista anda às apalpadelas tenro, a fazer ranger em minetes no duche em gongórica soledad — ó maravilha. Ingénuo, o artista coça a eternidade nos tomates, na cona numa soledad de soberbas que o mundo se instalou e as coisas coincidem no canibalismo do vazio na soror juana na complicidade, a arrepiar, a arrepiar. Desfaz-se a coisa em tragédia, grega ou boche, a maravilhar, a trocar-se sem códigos, sem fatalidades — vigiadas pessoas e coisas começam a vagar pela noite. E há o tempo e as pessoas, e as pessoas e as pessoas e as coisas em suas complicações — feliz manápula assim às apalpadelas pelo tempo que começou na noite na tenra a tragédia.

Saciado, o artista encosta-se à obra, a tal com a soberania de bravas autobiografias deitadas no tempo em saltitantes diversos sem intenção — as vigiadas pessoas e as coisas coincidem no canibalismo no exuberante sorver nos minetes no duche no saltitante — ocultam anónimas ressurreições com pontuação terrestre na íngreme servidão dançante a desbundar em fatalidade. Antes, não havia tempo e começou a inorigem das multiplicações — a unidade, e os todos apareciam com pontuações — as vigiadas pessoas e as complicações fizeram-se arrepiada fábula, e saciado, o artista, ingénuo, continuou às apalpadelas na tenra continuação da arte.

sexto metamanifesto — a arte como boutade minotaurica

A arte é uma boutade devorando advinhas numa ferida. A criação de obras de arte tem confiança nos cornos do Minotauro — atira-se à Tora para as comodidades do desessencial atira-te à Tora onde está o molho da natureza da arte — boutade devorando adivinhas atira-te ao prazo indesejável da musa, a resfolegar contra o anão. O artista não julga. O trabalho de Picasso diz que o fundamental na criação artística é chispalhada em dissonância e que há uma sintaxe metamoral, não-ética que é a liberdade, ou as ganas. A arte é fundamental para o prazo indesejável da musa, a resfolegar contra o artista privilegiado. N'ayez les comodités de la déviance diria François Villon.

A cena artística é anamorfose a ungir palavras àcidas, as da revolução. Actéon pinta no escuro o sexo de Diana. É não-ético? E a liberdade, é uma doença? A arte é escura, é negra com espargos lá dentro a misturar a morte com mais possibilidades — que a rude harpa imporá ciganos ao Minotauro.

OS DITOS HOMEOSTÉTICOS DE JESUS

1. bombardeados sereis vós, mas de forma proveitosa 2. Se fordes ao Reino dos Céus pela parte traseira ele ficará irascível 3. Saberemos ser cegos para aprender a viver como côxos? 4. Ficai de fora a demolhar a fita pois quem dá um ananás tem figos de reserva 5. renunciasteis às penas do campo para vos precepitardes em risos nas cidades? 6. é digno de infernal morada por chicotear a dama escarlata? 7. Pelos arrendatários morreredes — não vos deixeis arrendatar 8. se for um idiota, depressa parto as pernas a esse discípulo 9. disse: se tiver que ser será [pai] de carrasco ou freira para emprestar ao céu. 10. batei nos que crêem sem se interrogar 11. predilectos dramas para desdita de serviço não vos aumentam o sexo 12. de perfumadas salsichas já são menos alguns no céu 13. A fritura dos donos permanecerá abundância de fazenda 14. contra eles tornar-se-á tinto o ananás obscuro 15. disse: pescoço de tubarão é semelhante a lume de homem escondendo risos no umbigo 16. saldos de fêmea, incomodidades de meninas 17. antes rasgão de imagem que renunciar ao bife divino 18. Com pontualidade cantam a quem se faz de samaritano servo. 19. O passado é o Reino das vossas pobres memórias, 20. transforma os gritos das profundezas em mais um mais cadáver espiritual

21. Esta Madame Jesus é verdade? 22. Doutorar contra samaraitanos cubistas e marinar caracois para circuncisão mental dos vanguardistas. 23. devem os vermes partilhar a ceia do Senhor? 24. na oratória dos deuses parte-se o cântaro do mundo? 25. na fogueira irascível do culto disseram-lhe: agosto a trigo é a semelhança que torna tudo parecido com tudo — a canina guitarra do [pai] é o que assemelha, e o assemelhar é o semear para seu Reino. 26. um Jesus de esquerda aguardando está a instalação debulhadora e os saldos com o Pai no meio - é impossível não comer este corpopão. 27. Bem-aventurados os que esperam a iluminação na carnoca 28. Entre caviares do ritz encontrareis deus bebendo champanhe com o diabo. 29. Não desbarates o mangalho em figos 30. Entre gurus encontrareis os que dão às porcas viuvas verbas chorudas. 31. Buscando a maior merda nos comeram. 32. A discórdia peluda colocará o medo entre lábios famintos. 33. Quem não se faz a si próprio carne é um eunuco de merda. 34. Em campo de tomilho a pomba colhe o mel do apocalipse. 35. és filho da porneia — poderias ser de alguma outra coisa? 36. fazem de bébés frutos e de cães pássaros, e chamam-lhes parábolas. 37. À questão do Reino aplicam-se receitas de sarapatel? 38. Hesitará em dar canja aos pobres e procurará em vão limpar o vazio. 39. Disse: sonhai com o tampo e apanhareis o que não se consegue esconder.

40. Comichosas esmolas são piores que pecados. 41. viesteis de burro e ireis inalterados 42. Quem preocupareis, se estamos embriagados do Senhor? 43. No verdejante e na pintura surjem os discípulos. 44. Bem-aventurado o que sobrepõe o silêncio à gaita-de-foles. 45. A circuncisão do converso é a janela do justo. 46. evita os ovos que vampirisam 47. forcado velhaco tem mansarda francêsa 48. para enigmas pegajosos não há nada como chinatown 49. disse: se são dos meus encobrimos, se não, que renuncie! disseramlhe: circuncisão fora de horas não acolhe o canto do galo 50. se tendes por noivo Jesus, que o seu fogo não vos queime 51. o que pode fazer um cordeiro na tourada? 52. preparai-vos para o entrudo com as tintas do nonsense, pois só os que penetraram nos mistérios do carnaval poderão beneficiar dos ritos pascais 53. consome, pai, este mundo, porque é escondendo-se que se torna digno 54. povos burros penteiam o céu. 55. Bem-aventurados os que se livram dos podres das palavras 56. presuntos com faneca não elevam os céus da montanha 57. porque um profeta é como um ruído vivo, mas vós tendes que aprender a ser senhores da vossa sonoridade 58. aceito a telepatia da tartaruga em manhã da coelho 59. se batem palmas é porque cheira a litigios 60. se tendes mordaça como podereis disfrutar de odres e paellas? 61. Mostra-nos a ferida para sermos a claque 62. renuncia a esperar o desvelado, pois não podemos esperar o que anda por cá

63. para o cego o Reino é um caranguejo a tentar esquecer 64. alusões que bebem parênteses antes de vomitar profecias 65. curai-vos pelo corpo pois os vazios seguem-vos como demónios feitos de palavras douradas 66. Eles lhe perguntaram: as argúcias do céu chegam aos prazeres da mesa? 67. disse Jesus: o Pai não é um bordel, porque é contas os cêntimos? 68. não faças das viuvas prostitutas, nem faças de obras-primas readymades 69. um carneiro que vai a jantares não costuma ficar vivo 70. há que saber beber com arte em tempo de espelhos 71. vómitos na dentadura não agradam ao Pai 72. saibam os anjos como montar os burros 73. os fariseus saciam-se com as descargas do vento 74. disse: forçai os perseguidores a tornarem-se perseguidos 75. o enguiço kitsch não assenta bem a discípulos de Jesus 76. um rabo à noite é um peditório que pede acompanhamento de acordeão 77. não se afasta o ruído do mundo com um pente 78. Se os corvos são desejos não lhes oferecereis cadáveres 79. disseram-lhe: eis que o vira interior nos fez dançar 80. disse-lhes: um artista na frigideira não consola velhos 81. um Reino magro não vale o esmero 82. notícias de conquilhas fazem-se passar pelo espiritual, e atraiem fãs. 83. disse: a açorda basta 84. a sombra fabrica o noivado 85. ai dos lírios do campo em mãos de feiticeiras 86. o tesouro és tu, grande filho vermelho de actos vergonhosos 87. disseram-lhe: deixamos-te para aprofundar o Reino?

88. Jesus disse: pelas pedras o espírito vem caminhando escondido 89. encontras o Pai nos litigios e os litigios em toda a parte, o Pai é o que pacifica pelo litígio 90. disse-lhes: jejuai para triunfar no mundo 91. beldade careca é fatal em novembro 92. deduções de precepício são desditas que formam porcos. 93. Malha-se nos homens pelo que não falaram ou escreveram 94. espada de caracol pica a blasfemar sambas 95. o Pai respondeu: até a morte transforma César num servo saudável 96. a maravilha salta a partir da raiva saindo de mim 97. ...é sebo dó vivo em rosados futuros de verdades... 98. serpentes que se entrançam no umbigo orando a Jesus 99. Escolherei a pedra como parlamento do mundo? 100. 101. 102. 103. 104. 105. 106. 107. 108. 109. barbeiros vampiros em carnaval de conceitos infernais se arrancas de ti o Filho o discípulo morrerá mergulha o bordado que lambe no convincente alfabeto quem no amor regurgita seus ais a dobrar é como a criança imitai a ementa de luz fortificados visteis para receber o besouro do silêncio transformam-se as familias em guerras, e os sábios em piratas, tereis farra e regabofe em vez de dieta, e voltareis para o Reino não se pode deixar de partilhar — as escadas de o mel dos ângulos rectos ficou a marinar, enquanto as cabeças

que insulta o filósofo com a sabedoria

reproduzisteis a vossa vacuídade enquanto o reino não for vislumbrado num espelho implorar escassez sementee estãoem vós de luz nos comeram

Curtíssimo manifesto

a vida é um fecundo "misresding": “o mal-entendido é o pai de um lindo bébé”

ALGUNS MANIFESTOS PARA GABRIELA (INTRINCANDO-SE UNS NOS OUTROS)

I - DA PAISAGEM

A paisagem cresce-nos no corpo, desentranha-se do Logos que nunca deixou de ser a natura — o Logos vegetaliza-se, e essa vegetalização é o príncipio da voracidade, do querer mais luz, mais ar, mais janelas abertas para figuras, mais amanhãs trazendo algo desconhecido no regaço.

As paisagens fingem ignorar a história para surgirem como algo que se eriça nela — vejam-se os templos de Angkor e similares — é aí que percebemos que a natureza não é indiferente à história, mas procura completá-la através da desfocagem do sublime ou do sossego pastoral (e algumas frases adjacentes).

O futurante transforma a paisagem — mas a paisagem é o que desfuturiza porque se retorna acompanhada de passados mutantes. No fundo das amnéses, mesmo antes das cavernas e da morna treva uterina havia uma visão esplendorosa que não se via, porque não havia bichos que a vissem. Ela destilava uma luz imensa, romanesca — a paisagem antecede as criaturas, a paisagem procura quem as habite, as veja, as restaure — é a glória precedente que já escreve antes de haver gritos pânicos de bichos, antes da formação dos afectos, do terror, dos medos, da vulnerabilidade, do extase — e é a paisagem que se confunde com algo maternal e amoroso quando procuramos as casas amantes, aquelas às quais gostariamos de regressar como defesa das inclemências, como apaziguadoras das ângustias, como desespero amatório

a paisagem é o que nos desdefende, nos expõe a uma luz terrível e à nocturnidade ainda mais tenebrosa das noites antiquíssimas (deusas que vibram nos ventos, que se entrançam com morte, as criaturas monstruosas, híbridas, que Hesíodo enumera) Os afectos retornam na paisagem, e tornam-se fatais graças à paisagem — é um mero retorno do afectante que se faz confundível com o retorno do "tempo" ou a sensação de eternidade A qualidade da paisagem contamina a qualidade do corpo — não poderás intensificar o teu corpo e o seu pensamento se o pensamento não participar paisagisticamente na paisagem — “ir com” a paisagem intensifica a qualidade do pensar — jardinar e passear são os dois modos de ir participando e aprendendo a pensar com a paisagem o jardim é uma estilística — é como uma pintura ou a escrita — inscrevese em aparente contramão na ordem ou na desordem circundante — o jardim é idealmente o lugar onde podemos estar nús com toda a sabedoria possível — praticar o romanesco é ampliar os jardins, é entender o passeio como jardinagem selvagem — o sublime abre-se como uma noz — dir-seia que entre o belo e o sublime não há gradações — mas o belo grada-se, o sublime não — gradus ad parnasum — mesmo que o parnaso não se confunda com o sublime, é a musa que infunde a alta fremência, a possessão que descasca o sublime — o sublime do aedo homérico ou da retórica de Longino não é ainda paisagistico — mas para ser paisagístico teve que ser aprendido e encenado pelos olhos dos jardineiros e dos pintores — doce dissolução no horror do desmedido — os gregos tinham

outros nomes para o sublime: “kolossos”, “hybris” — a pintura grecoromana já é paisagistica e figura o “sublime” ao lado do trágico encenado — a ruína é já um sintoma, pelo menos em Propércio — a ruína diz (e Poussin, Lorrain e Turner corrobam-no): “o sublime passou por aqui”. establecer um ponto de ebulição em que o belo chega ao sublime é o mesmo que determinar uma quantidade de cabelos para distinguir o cabeludo do careca — porém sabemos-lhe a diferença porque o sublime é dilaceração, vertigem, transporte em que a pulsão da paisagem se descarrega e nos atravessa como uma tempestade — nos gregos a katharsis tinha sobretudo implicações políticas e prometia apaziguar pelo terror— o sublime emancipa-se ou rejeita essas implicações e deixa-se transportar como algo erótico e aniquilante que parece conduzir ao inorganico — mas os cumes do belo roçam o sublime — são a preparação ou o adiamento das dilacerações do sublime a paisagem também é política? o sublime entrou na modernidade dissimulando-se do maquinico, do ruídoso, da angst urbana, da prostituição, da provocação, mas continua a ser algo que arrasta paisagens — paisagens nómadas ou clandestinas— vistas do galinheiro urbano ou do precepício

a apetência pela paisagem é algo tardio, mas não é algo exclusivamente europeu — é a China que tem um culto obcessivo pelo jardim e pela paisagem — a escrita e a “naturalidade” paisagistica são a mesma coisa — o ideograma, o movimento do pincel, os ventos e o vazio fazem a escrita: a tinta que ensopa, o papel que absorve constituem-se como paisagem —

não imitam nem reproduzem mas fazem-se espontaneamente — a paisagem será o espontaneo, o que não se premedita nem medita — trata-se de desmeditações porque a paisagem dos chineses não nos é dada como algo anterior mas pressupõe o retorno ao que antecede a origem nem Lao Tseu nem Tchouang Tseu edulcoram a paisagem mas aceitam a aparente desordem da natureza na sua auto-organização como imagem do pensamento — em Lao Tseu a paisagem é vista como modelo politico impiedoso, desafectado — em Tchouang Tseu a despolitização é paisagistica, mas não se consegue despolitizar totalmente porque há demasiados reinos em guerra e há sempre um rei que precisa de conselhos e cavalos que levam à morte — a paisagem pode ser vista como uma contra-paródia da arquitectura, como se o arquitectural estivesse grávido do paisagístico — a arquitectura é o que desintegra da paisagem e o que a paisagem tenta afogar através de sucessivas erosões é impensável conceber a paisagem como puro vegetal porque a vegetação é co-habitada por multiplas animalidades, por inumeros daimones

II — MANIFESTO DA MULTIPLICIDADE QUE SE SOBREIMPRIME E TE QUERO COM FREVOR NO HORTO GABRIELA

Nascemos polifónicas, sem data, como se um estilo nos parisse, à capella. Rodeavam-nos instrumentos. Dançavam-se paródias de danças de salão — improvisadas. Havia ritmos dessincronizados que se confundiam e geravam ritmos súbitos que desapareciam. Doce barulheira onde apetecia passear. Barulheira a que nos dedicamos cada vez mais passeáveis. Porque é ao longo das paisagens que sentimos que a terra é um grande instrumento de percursão e que os nossos passos completam a música.

As sombras aprimoram um enegrecimento vindouro que se adia como o desfecho de um romance sem fim — a tenebra é o que nos antecede: a casa onde julgamos não querer voltar.

Somos incoincidentes nos preparos de nos coincidirmos — a nossa biografia é a reinvenção de outras autobiografias que permanecerão inconclusas — cabanas inacabantes para os daimones fabricarem o seu ethos

Os cadernos soltam a divinização dos seus autores que se voltam a fazer carne nas sensações de quem os testemunha e perpétua, mesmo no equívoco FREVO:

Fremente — como indisciplinada coisa — e amorosamente pastável Lágrimas/preceitos/desvarios — humor às pitadas — desconversas pois é — apanhadas como um pitéu — o langor das referências A imprudência a cavalgar — julgavas que te safavas — de abanão em abanão Dá cabo dos desencantos — uma silva de músicas a fazer fremer Dá papinha às incertezas — ai ardo ardo — a beleza também inibe A alegria a agregar delicadezas — a tristeza a bater com o pé Os equívocos a armarem-se em espirituosos — a paixão como distração sonora Entre crueldades florescem diálogos — imaginava uma ciência mais afectuosa — e a ligeireza das origens? Inocência ovípara do amatório — apesar das instruções em sentido contrário Distraídos deuses que se possuem em nós — no intervalo de badaladas desgraças

NO HORTO DE GABRIELA (hildegarda resgatada) Há muito barulho a querer visionar-se (visões que fazem cócegas danadas) Uma santa assim?/que vai ser de mim? — ò suavíssima fonte de frondoso terror — tenho um humor apocaliptico nas veias Porque vós tendes o divino entalado na garganta — sumo mistério a jacto — ele há coisas piores — cuidado com os bicos! — ó anacorese florescente! Rejubila, ó grande maluca, com o doce molho com que temperas os atributos dos arcanjos — palpitam as tentações no coração do livro — não te ponhas a cantar o fado em latim! Prepara as sopas para a Rosa Perigosa — incorruptível cinematografia da santidade Levadas sejam as melodias — mundo apascentando a sua glória e peras — a prosa perpétua embriaga-nos de iguarias do caneco Os escrupulos do abismo não são sinceros — os marmelos do pecado arrebitam o Satanás — deliciosa desconversa Ó candido lírio regado de vinhaça — embrulham-se os amadores em suas revelalções — esverdecem os indomados bebedores nas falinhas mansas

O medo fax brilhar os caninos cantores que se manifestam e bebem no cume das caninas cabeças — e mais não direi Ardentes olhos com uma penca doida — andam aí bichos assim — comicha-te na luz dourada! As santas rupturas temperam-se com o gengibre das escrituras — encaracolada ciência — infusa graça com molho à espanhola Grande aroma da iluminação — faz soar a trombeta escarlata — e os dedos de Elohim acariciaram os cavalos do apocalipse

DA FIGURA (POR EXCESSO)

Trata-se de atribuir um nome como num baptismo — um nome para vidas a advir. Mesmo que seja uma parecença, uma semelhança desavinda com outras figuras. A figura que se avança em nodulações entre intuições e cegueiras, faz-se avançada como uma Koré para além do nosso acolhimento/identificação. Avança ao contrário, a partir da sua morte para se desenredar dela, para uma não-morte que não é nenhuma eternidade, mas recicladas intermitências. Uma figura é o que se liberta das contigências dos enredos para ser presença em diversas pinturas. Não se trata apenas de depositar nelas o que auto-liberta, mas também de reconhecer o reconhecimento que liberta. Porque preferimos as figuras ao nada, embora seja o nada que fulgura. A intensidade do que fulgura é perigosa — egoísmo de maximizar mutualidades — permanência de poses de dádiva, retroflexas. A figura funciona no posturar como um sábio excesso. 1. Os cadernos entram uns nos outros — por vezes em grupo 2. Os lugares encavalitam-se nos textos (ora ora) 3. A simultaneidade aluga vários devires (de borla!) 4. A figura não sabe lá muito bem o que ela é (pois...) 5. Hierarquias exiladas tricotam rupturas para se consolarem 6. Um lugar (e mais outro) que nos quer passear muito 7. O publico é um multiplicante que aplaude em privado 8. A Verdade mascara-se de Busca para tagarelar na escrita 9. O nosso Sudoeste (parece incrível) foi parar ao Brasil e arredores 10. Anda um falcão aos pulos em punhos polifónicos

11. As lendas das beguinas transformam-se em lendas peregrinas 12. Andas a inventar ritmos para os sonhos caberem sem ficarem apertados 13. Desfaço-me das meditações para me inteirar 14. Livros a metade deles mesmos a andarem para a frente e para trás 15. Um lugar que se alivia com muito primor 16. Uma existência estaferma a cozinhar santidades 17. O texto deita-se ao nosso lado e lambe-nos todas 18. Certa exactidão nómada acumulou muitios vistos nas cadernetas 19. Esta é a intermitência que abre os jardins 20. Vista a partir da pobreza a estética é coisa mui aperaltada 21. Há que fazer coincidir a floração com o mergulho 22. O copismo que descopia flutua armado em transeunte 23. Capitulos para meter antigos crepusculos com cuspos 24. A presença desfragmenta-se e os bichos gostam 25. Deixei a saudade na casa de banho e fiquei na aventura 26. Plantin é uma planta gordurosa e escura onde cresce a imortalidade 27. Um texto com voz de falsete deve livrar-se do karaoke 28. O amar é alegrias em crescendo pelas companhias 29. Metido na toca da meditação não paria nem um rato 30. Andas a descalçar apócrfos e a polinizar autores

IV — DA HISTÓRIA

A História acumula anamnéses itinerantes. Algo procura fazer-se carne e sobrar a sucessivos regressos ao corpo. Legitimidades e narrativas não reintegram nem domesticam os fantasmas. A função da história é desdomesticar e tornar imprudentes quaisqueres ilações. A história é carnavalesca ao inverter o carnavalesco. O trágico é contruido com a paródia, é uma acumulação de sátiras que falharam a reconciliação do riso com a tranquilidade. Sobram demasiados fantasmas à catarse. Édipo e Hamlet continuam a contaminar com suas sombras fantasmáticas. Mesmo que ambos sejam risíveis. O riso inverte o riso. A perícia hamletiana na arte de desconversar é filha das técnicas de Górgias que combatia a seriedade com o riso e o riso com a seriedade. Construir a história é fiar desconversas e não legitimar tiranos. A história construia-se com o fito de exaltar? De tiranizar? Ou não é a história a constatação exemplar da arte de naufragar para aprender a sobreviver a naufrágios vindouros. Os actores da história julgam-se aglutinados & destacados da paisagem regidos por axiomas da lógica do poder ou slogans sociológicos. Mas uma leitura atenta da história mostrará que a paisagem é um agente determinante nas vitórias e nas derrotas. Os invulgares invernos que derrotaram Napoleão e Hitler ou os maus anos agricolas que levaram às revoluções são acidentes que se tornam os actores principais de grandes ciclos. Escarnecem da visão tacanha das ambições pessoais.

A possibilidade de ler o passado ou de antecipar o futuro é a ficção — difere dos factos na exacta proporção em que os aprofunda. A restauração da dignidade dos derrotados é construída com o “pseudos” do romanesco, do “mito”, da “pintura”. A Íliada restaura Troia. A Odisseia restaura ao multiplicar as errâncias pelo mito o “ambo” llansoliano, o “devir da reciprocidade amorosa” em aparente contracorrente com a história. Mas a história só faz sentido se for para o “ambo”, para florescer o devir amoroso. As profecias e os manifestos provocam a história onde não se realizam plenamente, mas soltam criaturas possuintes. A profecia é a forma de nos empurrar, com a terrível legião de anjos ou daimones, para que a visão se faça carne. O Logos é a figuração que se anticipa. Não que haja figuras acabadas, mas há um figurar que é pensamento, um fervilhar de pensamentos a partir de imagens fortes. Não se trata de arquétipos porque não se trata de os reproduzir em simulacros, mas de acompanhar figurações e de inventar novas figuras. Essa figuração é o metamórfico, e nunca se essencializa. “Se não vos fizerdes humilhados não entrareis no reino dos céus” — Cristo institui a nobreza através do humus, do que era um atributo dos pobres, dos escravos, e mais tarde dos proletários — Eckart é o que mais pensa com clareza a nobreza dos humildes — o humus é o nada — a história húmida, empapada de lágrimas e sangue, é o antídoto da história seca dos titulos e feitos régios — o humano cozinha-se neste caldeirão — húmido humano — não sei se se define assim, mas sente-se assim — o humano é o que humidifica — o que se torna sublime dessublimando-se — humidificar é tanto tornar humilde quanto molhado, sexuado, lubrificado.

Foi na Europa que a história se humedeceu e se entranhou no romanesco — se bem que a China e o Japão, em momentos conturbados tenham feito algo parecido. O romanesco floresceu muito frequentemente em viscosos climas sexuados – das mil e uma noites ao Jing Ping Mei. O Ocidente continua a fingir que ignora o seu passado mais remoto, a Suméria. O Ocidente continua a alhear-se da vertiginosa riquesa cultural do que não é “ocidental”. A sua história ainda é uma história apocaliptica enamorada do seu fim. Ou uma história post-apocaliptica que se celebra como defunta. Consciencia a aprofundar-se em sermões de finados. Como a história converge para autobiografias hoje será imprudente não absorvermos nas nossas biografias essa próximidade planetária do que antes era apenas exótico e antigo. Reler o passado mas de um modo mais barroco, mais agreste, mais entrançado, com o fausto dos impasses, com a riqueza da multiplicidade de causas, com os fantasmas que tornam ressurrectos certos corpos nos nossos corpos, com certos vazios que polvilham a plenitude. Os pobres desentranham a sua luz a destilando sombras às sombras — não se trata de uma negatividade mas de se desfazerem da fatalidade da pobreza e da culpa. A história atravessa-nos como algo que aparece a autobiografar-nos e na qual devemos constituir uma nova biografia — é um terreno dado para desbravar e esgravatar até encontrar os herois perdidos com os quais entrançamos diálogos sem fim. Por vezes a história é-nos dada como algo contemporaneo, que se faz ao lado, que se adivinha na admiração. São exaltantes desencontros, porque há aí possibilidades de

haver mais história humedecente. Mas não acontecem para que a ficção se solte mais. Nem literalismo nem simbolismo — um remete para as partes e o outro para o todo — só podemos constituir a história como entreacto de entreactores que desliteralizam simbolizando e dessimbolizam literalizando — trata-se de dar espaço às possibilidades metamórficas latentes na história para que esta possa prosseguir sem ficar fechada nos documentos e factos ou no espartilho de uma consciência que se julga absoluta, quando a consciência só é absoluta no modo como se teatraliza. Mas quando a consciência coincide teatralmente com o absoluto, a história parece irrelevante, embora retorne como fantasma e duplo desse absoluto, dessa consciência, e dessa teatralização.

V — MANIFESTO DO ROMANESCO

Não há diferença entre o romance que se enamora da dissolução e o romance que renasce das trevas — a morte do romance ou da arte faz parte da sua vida porque a cada momento se processam mutações — breve estação tanática numa devorante erótica que não pode deixar de se assemelhar a uma sobreabundante e festiva estética Escrevemos para descontinuarmos e perpétuarmos — mudamos paisagens que nos mudam, e mudamos mais de pele do que de roupa quando nos entregamos à escrita. Não há nenhuma Forma, custe o que costar, mas formações e deformações. As paisagens literárias formam-se na rivalidade metamórfica com o que nos surge do cá fora, rivalidade que não desdenha esse exterior mas o sente mais epidérmicamente do que o escrutina nas suas minucias — não entendemos a persistência do modelo de fidelidade fotográfica — ou antes, entendêmo-la como uma etapa histórica cujo centro irradia sobretudo de Flaubert mas que continha em si a sua erosão, a sua fragmentação e o desejo, também burguês, de um êxtase para o qual a fotografia é incapaz. Os romances e a poesia, são manifestos, viciosas restaurações de uma luz que apetece banquetear. Não há diferença, nem sequer ritmica, entre o romanesco e o poético, no sentido de haverem duas tradições distintas. A narratividade é a passagem de uma imagem a outra, é um movimento de camara, ou dois planos distintos que pressupõem algo ter acontecido no meio. Há algo elástico porque as histórias são sempre contadas mesmo que abismadas em coisas que não se dizem. As coisas não param de contar outras coisas, mesmo quando nós não as contamos. No romanesco é a

harmonia oculta que mostra a obscenidade do que oculta, enquanto a poesia trabalha no refinamento e na precisão que supõe a elisão do monstruosidade subjacente. É claro que há algo terrível e destrutivo e uma impressão de adiamento — e uma certa espera de inadiáveis renovações. Nós escrevermos para reavivar o filão de imagens, para nos sentirmos mais limpas, para cozinharmos na nossa escrita a escrita dos outros. Nós escrevemos para sermos mais amorosas, para amarmos melhor e de mais maneiras, para afiarmos a consciência como um lápiz que está sempre a ser usado. Nos estados amorosos a empatia oscila entre a “bela companhia” e estados de pré-canibalismo. o princípio essêncial do romanesco é a passagem pelas inclemências do paisagistico, onde a acumulação de memórias e identidades é ameaçada por violências inauditas, pela crueldade da physis, pela máscara hedionda e carnavalesca de uma natura montada nos corceis da pluralidade — trata-se de tornar a paisagem passeável, isto é, trata-se de ampliar o horto da consciência, para que o paradísiaco se infiltre no inóspito As errâncias malignas são o que nos é dado — o sentimento de uma crise que se avoluma cada vez mais. O Romance é um manifesto porque solta a urgência de resolver crises através de ficções que se estendam ao mundo. São as imagens romanescas ou proféticas que desenlaçam os nós do maligno. E o maligno é o repetitivo, o que vai pesando cada vez mais, o que adensa. Há algo tentacular em tudo isto. O trabalho de Penélope é o romanesco: feita e desfeita noctivaga — entrançamento de sonhos acordados, vigília de uma espera que acumula

tempos perdidos — e a suspeita de que certos estados excepcionais são dignos de ser vividos — o trabalho de magia, de acção das coisas vivas, confunde-se com anamnése — e o que se recorda é o sobretudo o mito, a dificuldade de retornar sobre si mesmo, porque o retorno é o fim da hamartia, isto é, das errâncias. Mas se o retorno nos faz mais divinas a narratividade tem por fundo o inacabado, o que nunca finda a arte de contar, o querer continuar a contar e a escutar — por isso o romanesco não se fecha num livro nem acaba onde os livros dizem acabar, mas opera avanços e retornos depois do livro A China inaugura o romanesco sem o saber com o livro de Tchoung Tseu — este livro lê-se melhor depois de se lêr Llansol — e inaugura-o como manifesto onde conflui tudo — o mais baixo, o mais disforme, o inconformado, o a meio-caminho — Confúcio surge como um heroi que é um personagem que não é univoco e se desmultiplica — o tema do livro do mestre Tchouang é o êxtase, mas não só — o caos desenrola-se como uma possibilidade pertinente do autor, ou dos autores, o habitarem — e as fábulas desconstroem os personagens e arrastam os arredores O modelo do romance antigo foi a ekphrasis, o pitoresco, a descrição de imagens que se sucedem. A psicologia acrescentou-se como uma intensificação do pathos. Se a pintura era poesia muda, o romance construia-se a partir de pinturas que se sucediam. Emancipada a pintura do puramente descritivo, esta reinvindicou a musica como condição emancipante. O romance imita a pintura que imita a música? A textualidade enreda-se arrastando um subsolo imagético e musical em que a psicologia se deslaça entre a apatia e o extase.

Pensamos em Álvaro Lapa, e de como as suas pinturas de cadernos poderiam ser estranhas peças musicais. As suas pinturas, e em especial os cadernos, propõe-se não só como uma teoria do pictórico, como do romanesco. Lapa afirmou-se como pintor falhado, mas onde se falhou foi como romancista. O seu falhar-se como romancista infiltrou-se nas suas pinturas como o melhor falhanço do pior artesão. Il peggior fabro. É uma anti-artesania que é proposta. Deste supostamente inábil pintor tentaremos extraír estes aspectos do romanesco afins de M.G.L.: 1. O caderno é o lugar do romance — ethos anti-clássico — são os estados de gestação e emergência que destilam o que importa no romance, sem se ter que ser surrealista de segunda ou mero beat pulsional — espontaneidade, vacilação, mas sem comédia — trabalho de vacilação, de rasura, de apuramento pela progressiva imaturação 2. Reinventar os cadernos dos outros gera estados possessivos — trabalho-homenagem que ressuscita ou reincarna — [a sobreposição Llansoliana é um interseccionismo de cadernos (ou cadernetas)] 3. Romancear é passear-se — paisagens que nos passeiam passeandose, intensificando cada vez mais a consciência e diluindo as fronteiras entre o dentro-fora 4. Os fluxos emotivos, como na teoria hindu dos rasas, são o que importa. Os estados da vida teorética acompanham esses fluxos. 5. Há que se desembaraçar da técnica e de tudo o que constrange a fazer de uma certa maneira 6. O romance só faz sentido como auto-libertação, sem gurú, seja de quem se auto-liberta como escrevente, seja de quem se auto-liberta como legente

Em Pessoa, a polifonia de que fala Bakhtine inverte a menipeia, mas não se liberta delas. As vozes múltiplas dos personagens dos romances tornam-se autores que complicam o autor. Caeiro é uma paródia boomerang de Whitman que se introduz como uma prega reinventando Pessoa e possibilitando as restantes heteronomoias e pseudo-heteronomias — aqueles que criamos parodiam-nos e recriam-nos — o estilo é possessão, jogo, clima, fremência corpórea — ele implica-se naturalmente como “teoria”, como modo de vida — faz-se situável em campos onde os afectos se encadeiam e acabam por inferir “visões do mundo”. O processo romanesco que tornou Pessoa uma múltipla subjectivação em devir expande-se para além dele e complexifica-nos as vidas. Tal como a lírica e a tragédia grega, a interiorização cristã, a leitura muda, a revolução tipográfica e a revolução digital. A assimilação destas e doutras heranças faz com que o romance não seja apenas um género. Ele pode ser chamado a ocupar o lugar que se tornou impossível quer para os filósofos quer para os místicos, porque é um processo inacabante que não consegue deixar estanques conceitos ou deuses, mas que abre os conceitos para a predação metafórica, e nos diviniza para além dos idolos ou das veneradas abstracções.

Escrever é ser vislumbrado. Escrever para que os vislumbres possam emergir. Sabe-se que o dom profético precisa de se soltar como imagem do que se faça a vir, e não como exactidão do que virá. O profético não se projecta sobre um futuro, mas torna futurável através de imagens que abrem para mais visão e consciência. A mutação dá-se a cada passo como retorno do Corpo. Retorno do Corpo às suas logologias, ao laçar e deslaçar do Logos. O mutante, julgo que dizia Llansol, é o que mutúa — arrasta a tradição no que renova. “o mutante é o fora-de-série que traz a série consigo” . O que irrompe condensa o serial no que lhe sobra. A razão é a disponibilidade técnica para a angústia, para a exclusão. A razão é o escrutínio do crítico-industrial a cruzar-se com o poético, mas apenas se cruza. A primeira mutação é dita “o que suporta o Vazio vislumbrado” — força de se fazer ver no avanço de se fazer visão no que ainda não é coisa. A segunda é “o toque de uma fronteira chamada Paisagem” — é a interface entre a Paisagem e o Corpo — mimetismo que se faz carne A terceira é “o grande êxodo a deslaçar o gregarismo” — o grande êxodo da liberdade de explorar a consciência é escrever, pintar, viver poéticamente. O que se escreve é escorreito. O êxodo começa no passeio, no abandono. A comunidade move-se nas singularidades de cada. Comunidade de anti-gregários. Os anti-gregáriosutuam-se com os outros na intensidade de se meterem consigo, no seu egoísmo poético avesso às garras do gregarismo. Os grandos exodos proporcionam a diferença em Livro — o Livro testemunha a passagem pelo Vazio. Só depois é possível a

assimilação da Paisagem. Porque o liberto é o que se despossessou — livrou-se dos deuses, de deus, do ateísmo, e do nada: poliateizou-se. O eu explende na desistência do Poder, em perca, perca que é pujança, reapropriação da pujança — é necessário que o mutante fique sózinho nos labores poéticos e que se desembarasse do gregário substituindo-se à sua história. Sabe o gregarismo a rapina, sabe a crença a razão, porque é o seu bastião tecnológico e político. A história que temos é o frontão dessa rapina, e chega, hegelianamente, à consciência da rapina absoluta, ao Logos expropriante. Sabedoria uber alles. Queriamos que a história fosse apenas a conquista do consigo.

É uterina a sabedoria — precedente como jardinagem da terrível nocturnidade do corpo — paisagem que infunde luz. Mais que amantes havia bichos multiplicidades monstruosas que destilavam escreventes antes das ângustias híbridas, híbridas, quando o belo roçava o sublime — e era aí, nas altas fremências que achavas mais ar, mais jardinagem — mesmo antes.

A que infunde o encenado do terror a que pensamentensifica — a que deixou a morna treva uterina a pinturantecedente na paisagem com a paisagem. Ela é a desdefesa das ângustias, ser a aprender o príncipio que intende, mutante destilística.

A sabedoria da paisagem é a procura do sublime: “kolossos”, “hybris” — a paisagística quer ser a natura do “sublime”, ao lado do pensamento que intensifica — paisagística do terror, Logos antes do histórico. No greco-romanesco é a musa que nunca deixa do trágico a terrível história precedente.

A ruína é já escrita — inscreve-se como contransformação no desmedido — a ruína diz algo desespera regressar como uma luz terrível como fatal jardinm que infunde e contamina a sabedoria precedente à história.

Pelos olhos o belo gera gradações — é a glória. Ao ignorar a história a paisagem intensifica figuras monstruosas. Pois o belo agrada-se — enquanto o sublime procura o sublime ao lado do trágico encenado. Doce dissolução de retorno do Parnaso — o Logos. Na aparente nocturnidade o sossego dos passados é o mutante na paisagem.

É a glória precedente de Hesíodo que se grada em Propércio: a paisagem eriça-se nela — a ruína é já um sintoma — ou um mero regaço A ruína desentranha desfuturos.

Ela era de bichos — voracidade de mais anamnéses. No jardim procura a qualidade da paisagem que se entrança na amantecedente morte. O jardim é o que se infunde como complexidade desdefendendoroso e afectante.

São as paisagens que fingem — antes de qualquer sinceridade inaugural. O Logos vem nos ventos para nos mostrar nús e completar a paisagem através da voracidade e da vulnerabilidade. Torna-se confundível para mostrar melhor. …a romanescasca….

O sublime é o pensamento das deusas amnésicas, antiquíssimas antes de Mnemosine. Nos cumes do pincel testemunhas e perpétuas a politização. Cabanas para desmeditar a Europa.

Os desfechos dançavam-nos. Movimentos de ebulição de provocação dos preparos de percursão aniquilante constituem-se noutras autobiografias.

As sombras aprimoram um estilo no como se adia algo erótico. Os cadernos vão passear — barulheira urbana de paisagistinguir o carecepício. As sombras aceitam — é a ideografia.

Os passos que conduzem ao belo roçam e adiam as implicações do politico e a origem. As paisagens nómadas testemunham as implicações do pincel na fulguração.

Ao completar a diferença sabemos-lhe a tenebra. …porque a tenebra é um estilo… …desfecho que ensopa paródias…

A pulsão da paisagem também é vista como terror — ou sublime, ou revolução — partes do mesmo no equívoco. Rodeavam ritmos a revoltar para que a pulsão nos parisse. Nascemos conselhos em guerra. Habitamos o não no equívoco. …paisagens nas inacabanas… …no auto-organico prostituem-se espontaneamente…

A ideografia é um enegrecimento que completa a dilaceração do pincel. Algo antecede a apetência pela paisagem mas precisamos de um ponto vindouro para escoar os desvios do politico. Implicações do pincel: preparação do ruídoso desmeditações e o retorno ao despolitico.

A paisagem é uma história só — faz-se de anjos ou de agricolas arquétipos. Intensidades a contrário, da Suméria onde funcionaliza a nobreza atenta. O trágico é contracorrente entre técnicas e cegueiras.

Um sábio exemplar floresceu onde sobra a história. É a figura a alhear-se — húmida, a empurrar excessos. O romanesco floresce ilações no acidente para contruir o sábio que fervilha na contigência húmida, empapada — a história mostrará que se auto-liberta. A perícia é construida com desavenças.

A história é contruida com o “pseudos” do “mito”. A história continua o riso dos invernos: quer aprender a maximizar? Aprender a naufragar para inverter a partir da história. A história acumula anamnéses no grandes humus para que haja a figuração que auto-liberta. A história torna apocalipticos os factos no exaltar?

O que é o pensamento carnavalesco? — uma nodulação de dádivas, retroflexas. Porque ao maximizar mutualidades fulgura o que é humano… …mas uma paisagem é também uma leitura… …depositar novas figuração risíveis…

Escarnecem a leiturar a partir dos viscosos climas da catarse. Escrevemos para que surja o banquetear — para que possas dispor de fantasmas de camera ou do antigo.

…uma Koré a parir desconversas e sangue — eternemitências da pinturas. …ambições pelo mito — permanência pela húmidade anjos ou pelas leituras. Inverter o riso ou contaminar com o riso?

Avança pelas poses da história para que se faça carnavalesca apesar de tantas mortes. … a paisagem é uma intermitência em processo de eternização — contendo plenitudes a advir. Porque a China e o riso e hamletiano embarcaram para o naufrágico.

Para que as figuras sejam riso invulgam-se no ambo — sexuado, sexuado, sexuado, sexuado. Supõe-se a obscenidade das metamorfoses latentes — as desdenhadas coisas renascem como Formações. A história humedecente absoluta as inovações.

O romance supõe um aprofundar-se na rivalidade. Lubrificar os modos e as categorias. Apetece a elidir para constituir sábios silêncios na história. Diferenças que entranham a plenitude. …reavivar o fausto dos impassados de que a história é incapaz…

O trabalho do romanesco anula a hamartia no saboreá-la. O manifesto através da crueldade amplia o co-habitar. A psicologia é acumulação de magia inerte. O profético procura inacabar — é uma propensão sobre o tempo muito para lá do circunstancial. É o caos no livro que constroi o romanesco. …uma anti-clássicologia…

Acumula teorias para aproveitar as crises. …o princípio das essências da imaturação… Reinvindica a música como coisa carnavalesca em torno da pintura. Porque a China já nos inaugurou para a espontaneidade.

A narratividade é a suspeita noctivaga onde conflui tudo — emergência onde o pictórico bate com a cabeça. O sentimento desenrola-se como um heroi.

…uma teoria que se solta pelo lado musical… ...dentroduz complexificando a lírica e escrinventando a vida… …pois tornou impios os deuses para expandir-se como autor…

…possibilitando-se, intensificando-se na interiorização metafórica e diluindo a vida técnica sem gurú — chamado a ocupar o lugar dos místicos para inferir outras “visões do mundo”. Há que abrir os filósofos para lá dos conceitos ou das veneradas abstracções como uma lata de sardinhas.

O processo é uma predação legente do inacabado. A vida teorética desfaz-se do acabado Retoma o inacabado que nos complexifica e diviniza para além dos filósofos pois retornam às paisagens as emoções estéticas.

ANTROPOMORFOSES

Elásticos daimones inquietos — massa que abre a cidade entre o modo de certos astros: os que nos exibem como vegetalização e os que nos esperam minarelisar. As perspectivas (o que urbanisa e sedentarisa) são multiplicações dos enquadramentos do medo. Nós pensamos metidos nos jardins urbanos que não deixam o sexo nem o ânus quietos. Os daimones são o sensorial, a energia de tanto habitar no polimorfismo — servem diferindo-a à TERRA. Procuram. As nossas cidades destransformam os desejos. E quão astutos são os aspectos dos pequenos eus. Espelhos atrelados ao corpo — é sempre a possibilidade omnivorizada e anfíbia das formas em sensações e da astúcia que perpétua e da gravidês das sombras em desagregação.

Trabalhamos atrelados com os pés nas faces da natureza. Trabalhamos com os pés aos inquietos os fragmentos que fecundam. A possibilidade de fazer emergir outros eus habita desde sempre o homem que se inclina para a plenitude, omnívoro, exaltando todas as indistinções sexuais que ele perpétua, com um apetite por tudo o que multiplica as suas diversas faces e pelo que floresce entre o Céu e os seus eus. Espelhos do DIVERSO miraculosamente fecundam e desentranham a flora como artephysis. Homens na inclinação do desenraízamento? Não lhes bastava vulcânicamente acompanhar uma prática — essa coisa que há no mundo entre movimentos. O vegetal é o que é mais em si, Metido na sua quietudo não totalmente fechada. O vegetal é o que é mais secreto das catástrofes – é uma catástrofe metida para dentro, em pequena escala A dizer-se que um dia tudo vai tremer. O ESTILO transforma os céus

e a cópula do homem. O ornamento é o elemento inquieto. Terra é tímida, mas nas catástrofes há palavras exibicionistas: há uma certa unidade natural nos fragmentos dispersos na paisagem - a artificialidade dessa condição pressupõe uma certa invisibilidade. Os fragmentos são um engodo porque nunca se deslaçam do resto. Os Manifestos mostram os dejectos fragmentários como marcos escaldantes do afecto terrestre. A emancipação pelo desenraizamento é a fome, a ascese que leva ao Totalitarisno. Procurem as geometrias o ornamento para que seja o co-habitar, cujas origens são desenraízadas, pois são a irradicação da naturalia! A Casa é o Antro, o covil — simplificação e fossilização e a força obscura do que é promisssor da Terra e que sobrenaturaliza. Ao sobrenaturalizar finge opor-se ao naturamento geral, às metamorfoses e às Antropomorfoses — diversas formas de o humano se fazer mais humano.

As sombras em suas formas fazem emergir outros eus mais sombrios e anfíbios — astutas deambulações no interior, na inquietude, na vida submarina, nos lençois de àgua da psicologia. O corpo é sempre a possibilidade de desagregação, causa omnívora, exaltando o apetite por tudo o apetite por uma harmonia verde e erótica irrequietude como os daimones a Culturar polvilhando relações e agonias. O olhos, como algo canso protesto como a nada, são os e que o homem, os do assustada de seus dominado partem de que nosso elemento do inclina, mortal. Se convidas o homem, convidas os animais e as plantas e as vidas sem perspectivas, sem fotografias vistas a partir de um olhar obsoleto e tormentoso mas também encantado, barulhado, ridente, nú de enquadramentos e sem outra fossilização que a da foda. O imenso poder das geometrias ainda não desviou as criaturas para o que se parece sobreimprimir na natureza como seu exterior. É o que parece ser uma higiene de protesto, atarantada em geometrias, dimensões e demónios — é a cidade que canaliza as àguas das origens para a sua higiene — excessiva limpesa

que inclina mais para a morte. Cada veneração do predador à polis é mais algo por exilar. Construir é um desenraízamente que forma a distância, a medida, o ethos canónico, e por arrastamento a desmesura. Os animais assustam-se com as relações internas da Casa e retrocedem ao plural desabitado embora rondem. A Casa é uma paródia da Morte, uma multiplicidade para sentir os hálitos das nómadas geometrias e dos viajantes com os seus desejos de copularem com os hóspedes. A cidade mete-nos um excesso de desejos e promete medos. A distância é sempre uma fome de proximidade. Vegetalizas na paródia do recuo e integras a condição da Morte como uma elasticidade da Vida Terrestre. O asceta sabota o ouro na sua alquimia mental. A Terra é o pensamento que é extensão. As plantas necessitam-na e recorrem às narrativas — as narrativas são o que extende na extensão. A Terra cultiva a invisibilidade

e mostra que a emancipação é às apalpadelas. O Estilo? — é o pensamento que nos acampa e acompanha para triunfo — parece uma prática mas é sobrevivência devorante. Exaltas o Nomadismo Vegetaliano? O homem e o animal não querem recuar a nenhuma fixidez mas querem situar a planta num plano mais móvel e notável. É no pensamento do homem que a planta se pode mover melhor como acompanhante inextricável. Liberta-se também a Terra através de desordens narrativas mascaradas de Vida Silenciosa e de Musas — luz entenebrecida que parodia a tenebra para ser mais luz — pensamento nomadico e vegetalizante.

A RABELEZA

A linguagem é ingerida para que surja como algo contaminador— o seu desconcerto inverte todas as coisas, quer as paródias, quer as paródias de paródias, porque a linguagem não sabe estar quieta, e os seus usadores e abusadores são tentados a aproveitar todas as suas possibilidades — a seu tempo. O crime da linguagem é o politico, e este é manejado (diz ele!) para suposta melhora — repete-se na justificação obsoleta do indizível como determinação em dizer de uma maneira muito fechada. Regista-se como algo do piorio. Os objectos vivem (pois) à custa de algo que se defeca em Rabeleza. Quem ama apaixonadamente o pensamento inverte-se. Serve-se das suas gargalhadas ao contrário: o pensamento contra-ataca porque há actos que sobrevivem pela paródia da sua mãe, desse principio feminino que os gerou. Mesmo um tirano justificado parodia a sublimação porque a sublimação é o que adia a luz — a luz torna tudo mais sexuado. A sublimação é o adiamento e o mal-estar quanto às empatias puras. Quem quer o Inferno pede sangue e pureza. Quem quer o Paraíso quer cuspo e impureza.

A paródia apoia-se na sua vulnerabilidade. Pela boca prova a sua própria fome. Saboreia o seu desejo de mais desejar e saborear. O suposto fim é um interlúdio na história da fome. É uma justificação narrativa e a vontade de desenlace. Marca apenas mais um capítulo de um work in progress. A arte tem sobrevivido graças à caricatura da sua auto-aniquilação. Namora a sua morte apaixonadamente. É como a abundância goleada. A arte sobrevive porque transborda nessa postura caricatural. A beleza pode-se em bicos. Estamos num modo divino. Um modo que se soergue. Os que sobrevivem na ilusão arrancam palavras com amor critico: manejam uma ironia complicante. No entanto a paródia diz-se também pela boca de Deus. É a sombra projectada pela luz, e a luz desfrutada a partir do fresco da sombra. Os objectos tentam proteger-se da história e da paródia mas acabam por se acomodar nelas. Essa comodidade é o arquivo e o museu. Para alguns a paródia é a comoção do mundo, ou o amor com suas vulnerabilidades. O amor é sobretudo a sua vulnerabilidade. Quando a forma se entrega à dissimulação quer o Paraíso. A paródia agarra-se ao inacabar porque a possibilidade de justiça passa por aí. Justo é o que não se acaba.

O Mundo é a novidade defecada em que crescemos pela boca e pelo desconcerto. A ética supõe a ironia central de que há transformação. O cérebro em principio funciona comendo luz. A sua vulnerabilidade resiste e aproveita o inevitável acidente ou qualquer apocalipse. O amoroso critico é feroz e voraz. No entanto pratica um imposticismo ortodoxo. O cristicismo acaba por vestir a pele de várias tradições, e tem, por isso, um apropriado guarda-fato. O Mundo faz-se como luz contra o indizível. A própria luz que se faz pela boca de Elohim é a prova genésica do anti-indizível. Há também um talento de inacabar com frequentíssimos acidentes. A beleza não finda nem um pouco. O rabelesiano ânus é como uma especiaria da sua mãe. Serve-se de actos adiados em bicos dos pés. Sabe que a história não tem fim. Combate a retória do indizível. Um olhar basta para que a transformação se propague com essa ilusão das tragédias. Para acabar de desenlaçar o complicado e libertar Deus do servilismo a causas. A dissimulação é o movimento amoroso.

A história quer o Paraíso para possível. Com cautelosa crueldade defeca-se a Rabeleza ou não.

RICO RIMBAUD (para o Eduardo)

andavam como quem rola na neve os cadernos tinham fome e esperneavam — havia um vento ao longe o amor reinventava-se a si mesmo para as paisagens se reinventarem melhor viam o verão passar e atiravam pedras havia danças nas partes altas das curvas o por-do-sol não era lá muito moderno havia um buraco feito para certas melodias lá caírem o rio não o ensinava a ser sério e andava pela praia com uma casa às costas à volta dos cumes afinam-se os profetas aprender a deslizar noutros caminhos é bem bom acordar na praia sem nenhum barco era um prazer de passagem três budas fingiam pedir esmola

para ser chinesa a paisagem tem que ser comprida acreditar é infernizar? talvez... os barcos não se viam da cabana leu: o poeta desfaz-se do vidente e come uma bola de berlim (através de uma meticolosa reorganização dos sentidos) ter uma cabana para temperar a beleza não se deve ser pós-pós-moderno nunca se é sério nem se deixa de ser sério, apesar dos anos acreditar é infernizar — quando me acredito infernizo-me para fingir existir se algo nos pensa devemos saber o quê ou quem nos pensa — com ou sem bicicleta é da natureza da natureza o enganar-se — é sábio o que segue as mascaradas naturais é da polirritmia que nasce a poesia — ah! a vida floresce ao lado das profissões os festins antigos a reentrar nas vidas é que é

paisagens que caminham debaixo da paisagem — ora ora e os cadernos injuriaram-se em beleza

I MANIFESTOS QUE CANIBALIZAM OUTROS MANIFESTOS rítmicos abismos demagógicos publicitam terríveis manifestos a canibalizarem outros manifestos — já não é um combate a que nos atiramos — estamos dentro de uma prática luminosa que se desvia de si mesmo e se rememora diferidamente — trata-se de dizer bem alto (ao som de harpas, cornetas e adufes) o que se está realmente a passar, se bem que não se saiba o que é ao certo (ó intuições a raciocinar!) Delirantes repousam as géneses nas mulheres imediatas — géneses que se misturam e anti-parodiam outras géneses, sem o prestigio do arcaísmo, ou piolhosos primitivismos Ah, a transformação, essa, com ou sem manuais de advinhação a acampanhar — o fogo debaixo dos pluriversos, e o sono, como algo trepidante, a induzir esquisitas interpretações — o sonho como algo que refuta o sonho, a desprobabilizar oh! e há Demiurgos que desenrolam o mundo dentro da sua cândida morte, Demiurgos que encenam a mortalidade como parte da sua tenebrosa maneira de fazer emergir mundos, Demiurgos que morrem ao parir, abandonando a artephysis a si mesma, sem louvações ou hinos

Enquando passa a flecha radiosa do amor o artista dorme a sua sesta sobre uma estátua em brasa que ele incendiou com o seu fogo interno — atenta flor inclinando-se sobre as àrduas artes com seus manhosos teoremas. e dizem-lhes os admiradores: acordas com a complexidade, com incómodos do dinheiro e o apetite sexuado que te dão os pluriversos — e sentes que a arte é uma fornicação nos arredores das trevas que é a Natureza e que se mistura com ela com uma selva de adjectivos inconvenientes em redor A arte é amplamente o desacordo das suas pseudo-ironias, o patchwork de certos encenados excessos. Uma coisa que vale a pena (e se vale!...) apesar do seu passado mais recente ou de certos passos em falso na passado. E subimos com ela as escadas da Doxa através do génio? Ou é o génio que nos sobe? Quando durmo, diz o feiticeiro de serviço, o Passado é Já Hoje, com um pinóquio caloteiro ajoelhado a aprimorar os mitos e a liberdade de os modificar A arte é um porquinho a vestir-se de seda? e esse porco é capitalista ou mealheiro? Vais enlouquecer nas tristes pancadas das trevas? ou nas grandes levezas do silêncio? E lá aparece o demiurgo democrata com a sua violência franciscana e as suas angeologias cibernéticas. Dá festas apoteoticas nos bares. Há gajos que escutam o gajo como se a pele abrisse toda numa arrebatadora foda — é um cancro carnavalesco que cresce no galinheiro da próxima bienal em Acapulco ou Xangai

Os meses respiram os rítmicos orgasmos na atenção das novas gerações cada vez mais caninas a farejarem a fama. Fornicam pois pois. A Força é violentamente embriagada e primaveril. Faltam-nos os anos e a graça intertextual. Escrevemos como Messias encalhados na sua missão de opereta. Os Messias levedam-se no silêncio? É um mês de camélias onde os conceitos são sexuais, onde a sobreabundância das palavras é larvar e primaveril. É a complexidade das trevas que cresce nos magalas a esfregarem os colhões. E as camélias repousam na prostituta de seda com o Messias agora à perna a morder outras pernas. Aguardas o apocalipse como uma terna jardinagem e nenhum final siderador. A arte vem em brasa, por tocar, a reclamar-se da artephysis ⎯ essa arte é imediata., como corolário de uma longa crise a eternisar-se no mal-estar e nos danos co-laterais e nas dívidas imensas que os outros têm por pagar, com juros de má consciência e ganas de mandar tudo à merda. Na grande noite dessa crise há uma atravessante prostituta de seda num pluriversão de bairros-da-lata. E os sub-produtos da arte boiam com a sua razão de ser a pedir direitos suplementares na esfera da legitimidade artistica — mais pão, mais prestígio e mais paixão O Demiurgo, que o artista tenta interpretar mascarado de Orson Wells, é um fruto cosmológico activamente a morrer devagar com direitos de autor ensopados e com pagamentos em atraso

…migalhas de atenção outra vez na flor devida das angeologias cibernéticas — diz o interessado especialista em arte figital E reparas, devidamente encartado pela tua vasta experiência de canibalizações: olha, é o Rimbaud a tentar metamorfosear-se num hibisco através do cu do Cocteau. Que a saudade apascente sensações involuntárias nestes tempos violentamente pacifistas com o acordeão (bem classificado!) às ordens e o frigorifico vazio — vai chatear o Camões, meu coração! Despropósitos de despropaganda, esquece! Sim, a fruta adoça-se e os mortos amadurecem nos quadrados negros de Malevitch junto ao mausoléu de Lenine. Enamoram-se os dois de um trompe-l'oeil reaccionário. Lavam-se nas teorias obsoletas do Ad Reinhardt . E dão conta da tal complexidade, essa boa velha ordinária de que vimos falando. Involuntária e atentamente eles detergenteiam o sono dos vocabulários enpinados na memória. Docementeiam o sangue com prosas extensas e os recuerdos do Comité Central entretido a expulsar mais um camarada sobresselente. bons velhos tempos de estar embriagado pelas coisas dos antigos com viagens pela peninsula itálica, a sentires latejar o Renascimento e o Barroco ao lado daquela coisa de Pompeia com os futuristas e seus manifestos em chacota insensata

Querias o mistério (primitivista ou chiriquiano?) numa ilha Natural ao partir para outras Musas e outros Museus. A melancolia à Nietszche ou à Conrad? sim a Vida é uma ida à artephysis, a essa mescla renovada de mixórdia artística e fremência eclosiva e vai mais um copo de cerveja! E agarrado ao teu antigo modo de considerar o que se passa é na mais firme lógica uma coisa VERDE e FRIQUE, com o hortelão erótico a exibir as suas orquídeas nómadas ao duende intelectual. mas por favor, não é só de estátuas de intenções que as coisas nascem Grandes e as flores pacifistas! ou é um caso sub-estrutural dando voltinhas (outra vez) pelo Comité Central a braços com uma fuga interna, bebendo nos parapeitos de uma ponte bebidas fortes compradas no hipermercado eslavo. Sou a ilha do Cegueta onde os Marretas se arrependem! — exclama o tipo da edição crítica destes metamanifestos Acordo mais uma vez no sanitário todo mijado pelos comissários artisticos! Venham os meus pés implorar outra exposiçãozita! Com a leveza da sua dinamica mordendo o sono ocultamente sublime de mais um caso prometedor. À Arte é permitido o silêncio e a dissuasão. Mas com espargos cozidinhos. É como se os meses caíssem publicitados dos grandes Demiurgos caloteiros e se estatelassem na eternidade passada

É pela graça que enlouquecemos abrindo portas a artes poéticas? À Arte também é permitido um sono oculto e um amanhã caloroso para se decepcionar, sózinha, ou com muitas cumplicidades. Para além do sono em que nos mergulham, os Messias respiram fortemente na sua ambição de nos convecerem plenamente de que nunca foram Messias e que toda a espera é um equívoco romanesco! As filhas repousam no seu dom de virem a ser as terríveis musas a chicotear para génio — musas òbviamente preversas. Os dias caem de uma flecha radiosa. O amor matematiza através do silêncio. Então é que me lembro, pá, de como o esquecimento dissipa. E de como essas dissipações desmemoriadas arrefecem e contaminam o ambiente com uma tilitante informação. Alguém vem aí para nos vender o peixe. Os peixes escutam a lota e as camélias entram em apoteose imediata. Para saber vender bem o peixe não é preciso ter estudado a Retórica de Aristóteles. No branco acustico dorme um fruto que a voz lembra. O demiurgo relembra que é precisamente a pele que adora fornicar, embora isso não interesse aos coleccionadores de arte imediatamente.

Mulheres a mastigar na noite — a linha de fuga das imagens enreda-se em anéis de parábolas caóticas, vai-se reconciliando (com acordeão) numa ilha subsquente: a Natureza não é virgem, nem mero fluir de hiperligações. Os animais da firme lógica queriam que batessemos mais uma ao Ad Reinhardt a partir das imagens obscenas e lhe explicássemos que a porné não é excepção, e que a primeira imagem contamina a última pintura, e que, mesmo no fundo ascético dos tenebrosos quadrados, fulmina a grande prostituta. O mistério sem o alto nem o baixo a serem um como o outro, no seu pêlo em pelota, na sua transformação acossada pelo sol e pela lua. Morrer é assim: sepultado na animalidade própria, na firme lógica da variedade das coisas — esbraceja o activista às ordens da cegueira. despropaganda — estátuas de intenções caóticas abrindo o amor adiante, plenamente pacifista, às ordens do celeste: involuntário e rudimentar negócio, procura acéfala de um cantor pimba os vocabulários são na estética (e na literatura) mais importantes que a sintaxe — esta surge como um mal menor que formaliza os nexos eróticos que lhes vêm colados. E as teorias ficam a despoletar — as que precisavam de chegar apocalipticamente enredadas em poemas. Sim, é como uma fruta admirável, uma feijoada que carregam aos ombros — nascem as coisas fora da estratégia dissuasiva, na banal auto-organização — urrai hinos primitivistas para dar largas a essas pornoecologias

Morrem de arte com burriés no acordeão e ecologistas a pelarem dos escaldões. Ardem as paredes pela pintura numa banal auto-organização, no surgirem como impuro impeto, combinatória mal-amanhada pela suposta subjectividade. A Vida é só estrutural nos aviários do cliché. Mulheres a parir a Polinésia e a noite e o primitivismo e os imitadores da beat generation, e os remixs disso tudo o que é o artefictício? uma jardinagem imensa a mudar as elipses romanescas para a curiosidade (a ampliar) do leitor. Havia uma physis que o bébé snifava na chaminé — o recém-nascido taoísta com o punho fechado a agarrar as forças múltiplas que agilizam o natural — fulminante flexibilidade combinada com inabilidade e essa coisa das frescas cuecas abrindo a luz como uma cortina colossal que exibe a terrível e macia beleza de uma nádega que se interroga sobre a Hipercomplexidade. Abrem-se as portas do artefictício assim? As crianças mudam devagar a sua velhíssima hipercomplexidade — fazem fluir ligações primitivas. Andam a branquear a inocência com a cumplicidade de poetas senis. De preferência sufis. Os animais intimamente pictóricos, chegam de todos os lados das colinas, para altivarem os pintores.

2 A ÉTICA, MESMO À PERNA, E A PESAR DAS CHATICES a ética, na doçura interior, mas também terrível, a entrar com a crueldade pelos outros adentro, a interferir inocentemente, a gerar mal-estar, malentendidos, não-intenções que se prolongam em barbarismos, em férreas leis ou em climas indeterminados — e a ética punha-se metida com o seu sujeito, e com os que lhe são mais próximos, e com a vontade de um abraço mais vasto, uma comunhão com os não conhecidos, uma radiante simpatia, quiçá ardilosa, que aproxima não só a humanidade, como a bicharada, a paisagem e a sinistra máquina cósmica — e ainda sobravam paixonetas (e no meio disto, uma certa desconfiança e retraímento) caminhava a magnólia a empreender parábolas na colorida multiplicadeza da pêra a embeber-se no vinho, caminhava a mgnólia no ter éticas redes e no desperdiçar vozes que absorviam a força das machas vanguardas a serem substituídas por uma arte de manutenção feminista e tal, por sua vez retemperada com a insolência filial — os filhos são o vortex que desorganiza catastróficamente e criativamente as boas intenções paternais — neste sentido a paternidade-maternidade anseia e teme a sua transformação artística pelo que é desafiante e imprevisível nos filhos pelas estrelas do louvor, ouve-se e atravessa-se a doçura inteiro de repente — selvagem estátua a antecipar a ruína e o fragmentário — a deambular e a encontrar interpretantes que a interrogam como à esfinge — ah, a estatuificação do pensamento natural, ambulatório, saíndo da sua casca, desaninhando-se no meio de tantas perturbações

quentes paninhos trombudos tapam os erros crassos, ou esfregam-se na cara dando a ver as diversas camadas de efeitos dos actos, o inevitável efeito boomerang acompanhado com esboços de auto-crítica piedosa, de dançantes ângustias, de incertezas a canibalizar certezas a criança assassina apanhava frases nos esgotos — era a beleza! – canonizada pelos surrealistas loguinho, e doutorada em maldições! A beleza como quem diz: o que excita, o que atrai e entesoa, o que faz buscar para lá dos longos cabelos pré rafaelitas e da fatalidade wagneriana uma impureza primordial que se mascara de pureza, resistência, limpeza, odor forte, atração fatal, intolerância, destino, mas que se arrazoa nos seus atalhos, na maximização da delicadeza, na moleza, no que arrefece esse fogo irracionalmente desejável Eu vou sabendo que a força de andar sobre o mundo é perigosa. E que uma boa passeata faz pensar demais, ou que nos faz pensados pelas paisagens, nos torna paisagísticos e co-autores progressivos do mundo em todas as escalas — e soltam-se as obras de arte e inocentes palavras dessas caminhadas Ah, sim! Lá vai o artistoíde nojento misturando-se com a Natureza numa arrebentada eternidade irada, mentira percorrida por Speedy Gonzalez a aproximar-se de uma verdade zen condimentada com as roldanas perversas de todos os paradoxos a desembaraçarem-se dos constrangimentos e a desempoeirarem-se na fragilidade e no espontaneo sem voz - difundia uma caosmogénese? — a sobreposição de desordens sucessivas, de inacabáveis obscurecimentos e arruídos — o equivoco da

origem assolapada, revisto e suprimido numa tradição de espelhos — assim como as sucessivas harmonizações falhadas, intensas, dulcérrimas marmelada de interacções a desnaturar a sobrenatura — paixão assolapada pelos múltiplos meandros e os distintos modos de ver e de actuar — dificuldade em encaixar as solicitações e em desatar os cordelinhos — risco de tentar resolver as situações, despestilentando, agindo, com ou sem filosofias de ponta

3 CONTRA A AUTOFAGIA Isso é coincidente na porra do infinito. Ah! A mistura, a fazer emergir descuidadamente — sem estar metido com o seu bombástico excesso de eu a alimentar-se da sua pseudo-autonomia, da sua vontade de hiper-autodeterminação a fulminar os outros com o seu exebicionismo de pseudoser-para-só-a-si a neo-demografia ciberna-se na carnívora escala na certeza de que o amanhã será mais populoso — e a visibilidade dessa população assusta mais que as hordas bárbaras — o aumento populacional exponencia a mediania, a mediocridade, confrange as excepções, uniformiza a comunicação para que seja mais partilhável, desglocaliza os saberes substituindo-os por stand-ups comedies que se tornam irónicas perante a estranheza da diversidade cultural o compincha budista fala de impermanência como uma tampa que destapa a panela e que serve todas as derrotas — mas ficamos com o gene homeostético no interruptor a desconfiar — a impermanência é apenas um condimento que desculpa a cedência, a inacção, e uma visão derrotista das acessibilidades do vazio que esfriam as escaramuças do mundo — impermanência que também veio enunciada em Heraclito como guerreamento — o excesso de tolerância também produz conflitos — e o asceta na sua autofágica meditação não se livra de ser cumplice dos males alheios, de parasitar nas suas margens ou de ser uma sua vítima

sistemas biológicos instalam-se nos mapas, nas canções, no exílio exótico — nenhuma criatura é plenamente fechada — a autofagia é um mito — nenhuma autofagia sobreviveria ao comer-se — as autofagias do espirito em nada são distintas, mesmo no seu desvio hegeliano, no seu autorreconhecimento tardio de sábio escancarado numa sabedoria desgrenhada coisa silenciosa, estudada, no silencio de um chip a pedalar na estética, coisa de tia a querer aprender com o sobrinho nerd — as linguagens entram com as pessoas que as fizeram, mesmo que fantasmáticas, e agitam-se nessa pandemia que produz quer caca mimética quer rubatos de desmimetização e microemergências Será que o amor é uma flor a comer na Merda? No horror à vacuídade, os peixes amadurecem para os rapazes no interior da cerimónia ritual — ciber-sexo em grupo com adolescentes senis? — ou a possibilidade do cibernético devolver ao objecto a sua pertinência e singularidade — ou então a percepção de que tudo é metamórfico — catástrofes que contêm o seu reverso — transições que deslargam e capturam — nexos que se formam, relações que adornam A entropofagia é o amor sinistro? – e o que é a entropofagia? é as coisas adentrando-se nas outras coisas, famintas, banquete dos impermanentes, morfologia das transições, categorização dos mecanismos mutantes neo-demografia a entrar pela insularidade. E mexe-remexe. Focalizador das trevas de grandes pétalas a drogarem-se em mitos hindús — já não há ilhas, nem litorais com litanias obscuras e

identidades rebarbativas, nem comentários fora do texto — os textos engendram-se na explosão demográfica-tipográfica, e as ilhas continentalizaram-se tornando improváveis os tribalismos exóticos e os queixumes de incomunicação a autofagia é o começo de uma série de reencarnações no Mesmo que se tornará a mais pura neurose — eterno retorno da treta e da desmutualização o fantasma de Deus instala-se no biocomunismo, na pseudo-ciencia elitista, com remeniscencias da internet, em suas imagens e orações, etc. poligamia, o slogan: Autofagia é para os rapazes da inacção fria, devoradores de cismos abarbatados à vacuídade, ou à vida silênciosa, estupidificada, simplificada, digerível (acinzentada) — e a poliandria, pois, também, igual… a Autofagia é para gente barroca que se alimenta do seu próprio mijo e merda, e que engorda na proporção exacta do ego que insufla — calor de analidade capitalista, de sublimação escatológica a contentar-se com o evarest insuflável das suas flácidas demiurgias e a macacada colina-se na luz e inclina-se para a vacuídade quando há tantas coisas a manifestar-se — movediços orquidolos que desabismam

METAMANIFESTO NO DESERTO (a M. Vieira)

andas a engravidar blasfémias mui perfeitas? fartaste-te de dizer não não e não? enamoraste-te da ecologia selvagem? és uma paisagem a misturar-se com a multidão anónima em polifonia pagã num Éden de pluralidades? este é o tempo dos deslizes ciêntificos e dos paradigmas enevoados! — diz o soi-disant profeta e à minha roda as crises disfarçam-se de modas e as modas disfarçam-se da última radicalidade com alusões subliminares ao nirvana há para aí simbolos de deuses mergulhados na febre sadomasoquista imparáveis nas resoluções estéticas: paraíso fulgurando incandescente ou insondável catedral tipográfica — perplexos extases dançam na sarcástica senilidade a engravidar transcendencias os artistas andam a enlouquecer de prenhes

e provam a imagem-própria nesse Éden plural, e hoje centenas de doutos dizem-lhe em coro não esqueças o amor à táctica: saiam daí , dessas amareladas figuras deuses berbéres caminhando pelo deserto e reorganizai as matemáticas que atapetam as infames estratégias do sucesso andamos pois às Utopias: paisagens freudianas de um lado terminologia de Adorno no outro e à volta a aragem fresca da cabala enrola o nihilismo no sublime e parte para Meca, meu! e a imagem? senta-se nos prantos das mães e dá-lhes pontapés, monta-as, manipula-as eroticamente — a imagem é sexo, droga, fé, fúria extra-terrerrestre — porque é que haveria de ser desconsolo? o artista embebeda-se nas encruzilhadas — tudo vem à sua cabeça! e sente-se um pedaço de carne

que quer ser afagado — rodeia-o uma aragem festiva de respostas e uma paisagem fanática com o seu perfume alquímico em segunda-mão que regressa ao lado! ah, e bradamos sem mexer uma palha e maximizamo-nos: queremos coincidir com cada época e com o environment existencial — tudo à flor da inexperiência com o estimado e mutante interlecutor que poderia ser ideal narcisos a chicotear espelhos raposas perfeitas de uma fábula obsoleta édipos a andar ás cegas nas motoretas e há Utopias a serem tangidas a despontar tenebrosas nas cordas do alaúde retorces o bigode num movimento elitista e queres as promoções da alegria tudo é caminhos, com mulheres a cavalgar o caos, exibicionisticamente, leão canónico a abismar a paisagem própria camaleão a eriçar o sublime

METAMANIFESTO DE MARGE D. NIRO

a minha crença é que a arte ainda não existe as tentativas de arte recente têm sido de auto-flagelação apenas onde há hipercomplexidade activa e força aventurosa pode surgir a arte o nosso pseudo-anarquismo resulta da introspecção e não de um òdio ao estado as nossas ideias transbordam certezas e incertezas aprender a cromatizar as redes societatais

A MUSICA INDEPENDENTEMENTE DO RESTO

Sem erros a prática da música seria insuportável. A música existe para misturar o sublime com o dia-a-dia de uma forma extravagante. A música é a melhor forma de manipular emocionalmente. A música não é nenhuma suposta revelação, filosofia ou sabedoria, mas tem a vantagem sobre estas de não aldrabar ninguém. A musica ajuda a mascarar certos caracteres. Há na música uma grande propensão para a surdez e a loucura. Usa-se demasiado o termo alma para valorizar a música. A música é um artifício entre o ruído e o silêncio. A música renunciou à harmonia porque se aborrecia com a monotonia do paraíso. Se a música é curativa devia ser mais usada pela medecina. É bem possível que se toque Stockhausen no inferno. Não há incompatibilidade entre musica e palavras.

É mais fácil as artes imitarem a música do que a música imitar as restantes artes. A música substitui com vantagens a burla chamada Jesus. A música é mais uma prova de que não há diferença entre o "espiritual" e o sensual. A espontaneidade da música só costuma surgir depois de uma extrema e sofrida disciplina.

ATITUDES CONFLITURAIS (after PCR)

Actividade cognitiva da actividade? Ou talvez o desejo do riso, sem litoral caótico, num real que inabsorve. Lá dentro os restos, a perigos — o provável "apesar" a imaginar a organização da sua denegação. … espaços discursivos de restos, como zona de denegação em decurso... Aqui a nostalgia se enreda: os termos adaptam-se à natureza da linguagem e a pintura ao seu poder submerso. A linguagem está obscursiva na fronteira — um nada tangencial — essa fronteira que máscara o desejo, por nos terem ensinado que se enreda — habitá-la configura-se em naufrágios, e incontinua a suscitar o tampão da causalidade. ...espaços de nostalgia onde se fabrica a protolinguagem, que depois cai na génese desinteressada que condena... Ou talvez relativa à sedução da espaço categorial do solo, pois dele se separa o paradoxo, o ritmo demiurgico da pintura, uma teia absorvível apesar das incursões ferozes na linguística (que designação asséptica!). Teremos por estética o desejo? podemos habitá-la como naufragos, no ritmo decorrente da protolinguagem provável, escândalo que procede a linguagem, habitável apesar de uma glória bastante?

A necessidade, apenas domina, inibe, é monopológica, e é também o gesto da critica da margem, e dele se apaga. Adiando, deixa o litoral. O que se conhece, não se pensa. O não-dizivel substitui os que se adaptaram ao naufrágio, ao dito, ao ritmo das regressões. Abismo sem fala, é certo. Depois das definições e do poder do objecto e da margem, ver é sintoma de interessar — sob o conflito subtil da critica e do Outro demiurgico, desloca-se. Dentro da fronteira das permanentes regressões dir-se-ia que fabrica o dito, a lei, o corpo, ou deixa apenas a pintura em que se enreda, território em que o riso alastra. Neste núcleo ora "desordenado" ora "ordenado" é melhor deixar vagar a fera metonimica. O que pela via da empatia, a nossa produção, na sua condição metonimica, desenha uma arte de sugerir, de expôr o litoral quase sempre pict6rico. Tais desígnios situam e habitam as discursivas traições pela subtileza da distância — motor fulgurante para enumerar em prolixas visões, ou para optimizar o seu lugar de desvio. Há que vestir as discursivas transformações. E assumir atitudes menos próprias de compreensão impiedosa. Em nenhum caso a arte, ela mesmo, é um "não" pictórico — pois vem da margem intensa das profundidades atenuada pelas contemporaneadades litorais.

Somos os ocultadores de declarações na escolha de outro impiedoso conflito? Atitudes oceânicativas. Atitudes que se evidentificam na coexistência. Que intervêm directamente para plasmar a esboçada submissão à semiótica. Reconhecida modalidade do mutismo disponivel. Fazer outro, irónico. Para lá do comunicativo. Atitudes limites de imanência como lixo de exercer funções. Atitudes de coexistência com o desvio — o não do fazer — a discursividade de um devir de aventura viva. Organizar o lugar acabalístico como conflito, metáfora que nos marginalisa e nos arreda das atitudes do compreensão.

Acções autofágicas (pomposamente e a propósito de PCR) — ironia de ironias

Acercamo-nos da acção autofágica como quem perde rivais no mover-se — quando já tudo foi canibalizado, ou quando o nosso corpo coincide com universo: demiurgo que não se destingue das criaturas que devora. Para que haja montagem algo de imponderavél e catastrófico tem de acontecer, já que do pictórico falamos, despindo sem demora a arte de qualquer discurso conceptual possível. O poema segue no cortejo da contemporaneadade, mas como vai como mover-se? Cerquei-me de categorias de compreensão audaciosa, de vocabulário incontrolado, sem telhado, que assiste no desmembramento à morte no poema, que escreve o conflito da espécie, o seu onde, o seu ou, o seu talvez. A criação ideológica, ignora as imagens turbilhonate, os quartos onde nos afinamos num tempo inesgotável. Depois da pontuação começa a arte, até então relegada ao desembaraçar da agonia. A montagem inicia o des-silenciamento, aligeira as sobrecargas do impossível.

A pintura espalha linhas, faixas, enquanto as pérolas esperam a parábola ou a fábula - com a doçura dos substantivos, das intermitentes coisas, insubstituíveis pelos nomes - há que deitar fora as modalidades inertes da linguística. Oceano por demais inquiridor, simplesmente vibrante. Há que fazer a permanência no expôr discursivo, como Dante que quiz dizer o óbvio arterialmente, a partir de uma falsa morte. O latente conflito faz a arte : é o arrancar-se, tomar as metáforas da glória com a ilusão de um vocabulário sumptuoso. Sempre a ressurreição através do cíclico da negação. Fabricar a matéria subentende a prosa autofágica de autodestruir mundos. Falas como se recolhesses do lixo a matéria mais inaugural. Recolho os vestígios todos - o conflito, circuito dum irrefutável incêndio onde a noite não se sabe extinguir. Escrevo as ideia sob a forma de montagem. As próprias ideias e processos são montagens pormenorizadamente comunicativas e operativas, mas raramente discursivas. Montagem do inóspito que revigora no rigor do sexo, na inclemencia do absurdo, para que o que se possa falar seja litoral de algo por assinalar. O rumor do oceano é a única real estética. A pintura, e artes adjacentes, como misto de blagues não me toca.

Dizemos ao situar-nos. É uma vontade de enumerar o desenunciante. Quando reinventas os objectos eles são propulsionados por algo misterioso. Transcrevo assim miragens em motores cinematográficos. A ressurreição são substantivos substantivando o vazio. Ecos afogando metáforas. A ironia é mortífera quando o fluir do discursivo é sabotado pela montagem - é um pouco a inversão do Fedro: praticar a eficácia na desordem. Esquece qualquer perspectiva antropológica, porque na arte o espaço é necessáriamente bicho. A fulgurante travessia de uma exposição é a coexistência de conflitos nas atitudes de compreensão, nas velocidades, nos precipícios, numa vida erótica a fluir sem lei. Os deuses adaptam-se à luz, a luz adapta-se a mim. Só tenho a coerência da margem, a memória psicótica de um poema que exclui a superstição da compreensão. Morre-se de regressões, a acrescentar ao leitor renovadas descontinuidades. Deixa que o riso se sobreponha à teorização das esferográficas.

A valorização faz-se através de linhas de conjunturas, quer nos recessos do espaço quer nas zonas cálidas do tempo. O pensamento é a mistura circunstancial do inesgotável. O território mascara objectos com declarações de energia. Faço leituras como quem apura o rumor dentro de um conflito cinematográfico. Em atenuadas guerras a metáfora é a interposição que separa o lixo e a vida revelando o mais vivo lixo e a mais lixada vida. O meio é já complexidade multiplicada: basta transcrever essa grandiloquência, porque esse estado misto de degradação e erupção é já máscara ininterrupta. A percepção assimila a acção na identificação do vibrante espaço. Abismo de incursões no pictórico para que vejamos devoradoramente. Tome-se a empatia da montagem com inevitável ferocidade. Afino os termos de uma guerra protolinguística. Não sou insensível ao pressentimento tecido pelo leitor.

A tarefa dos artistas é serem desocultadores da eficácia ao tocarem numa zona de violações vindoura. O destino é o entrever conflitos em ambíguidades mitigadas. O milagre permanente dos tempos inabsorvíveis. Percebe-se a ferocidade do novo nas acelerações dos espaços subtis. Ritual dos limites, memória em desmembramento inelutável. Habitáveis fogos para a narrativa mover-se? Acrescentar sempre ao pressentimento o Enigmático. Quando revelada, a fábula fica abstracta. Abismo, conflito integral que desencadeia a intencionalidade, que desenha o Impossível, critica trágica da plasticidade do mundo, entendimento da ilusão com ganas mortíferas. O do sempre. A luminosa morte expandindo as trevas. O tempo do inquebrantável à caça do poema nos confins da interrogação. É usando delicadeza que revelas o vácuo categorial. O é do pictórico é a cor. És atingido ou tomado pela pintura que se abre na fluidez a partir de uma suposta perca. A pintura possui literalmente quem a vê, e extingue qualquer esforço de interpretação. As interpretações só estupidificam o que é o suco na arte.

É a delicadeza que torna possível a profundidade: a brutalidade só o dissimula. Excedo-me a Deus venenosamente. Desocultadores de objectos na obscuridade do estúdio. A alegoria morre quando nos limitamos ao seu código: há nas imagens alegóricas uma cauda expansiva que as arrasta muito para lá do conceito a ilustrar ou da vizinhança com o simbólico. Avança nos vestigios do século como uma máquina que especula. Homero funciona como um não-dizivel porque dá a ver o mundo a partir de uma hipnótica cegueira. As referências são membranas no fluxo aventuroso. Tropos: os mutismos que o acaso troca, as metáfora de eficácia própria, as modalidades de guerra desta justificação... A história, qual jogo, expande-se , ao fazer propostas de lugares sem visão, com suas partes que o poder fonético mascara. A interrogação do artista está acima de todos os lucros. O corpo tornou-se cinematográfico, mais do que pictórico. Olhar alguém é já invocar multiplas memórias de cinema e modos de montar. A maneira

como nos dados a ver também é, desde há muito, cinéfila. O submerso vitaliza o corpo, as suas linhas morfológicas. Destina-lhe metáforas que é como quem diz motes. O rumor dos escritos de Shakespeare, como um espírito exuberante, entra-nos na percepção, como espuma de um vocabulário desinvolto e agradado da sua autonomia. O próprio eu se desenvolve com os seus tiques na fragmentação a que chamamos autonomia. O eu é uma certa linguagem que tenta acertar com um incerto corpo e que tenta tornar ressurrecta uma memória apropriada. E no entanto a subjectividade, com a hipnótica certeza de si e a mitificação autobiográfica, é apenas mais um destroço de um enorme conflito que múltiplica as frentes de batalha. Porem continua ser supremamente interessante o que se sabe e o que se tenta fazer saber no sensível. É a ofegação do estético: mitíco, mimético, prenhe de atitudes.

DUCHE

A arte pode ser descrita como o movimento dos actores do art world devorando-se uns aos outros. Só me interessam nas ideias o seu lado pitoresco, a maneira como proliferam como uma doença, e como contaminam visualmente. O que é comercilizado nas obras de arte é a ignorância. Uma ignorância útil que serve para alimentar artistas. Eu tento contradizer as minhas contradições para apurar a diversidade dos meus gostos. O mais provável é que uma grande biografia coincida com uma vida desperdiçada. Os artistas que se repetem andam a recordar uma exuberância que já perderam mas que talvez voltem a reencontrar. A arte é uma ficção fascinante e viva, mesmo que como conceito seja uma burla. A estética é uma maçada, mesmo antes de ser hipocrisia. Os artistas procuram demasiadas intenções quando deviam valorizar a ambiguidade e outras coisas dúbias. Conformam-se assim, de antemão, a serem clichês a legitimar.

O prazer é um perigo a que é difícil ser esquivo. Tudo no mundo da arte é um vício que nos aliena das obrigações atrasadas mentais a que nos obriga o curso normal da vida. A vida do artista é terrivelmente socegada na sua solidão creativa. Por isso os artistas são exuberantes socialmente. Quando vejo artistas a gerirem as suas carreiras e ocupados em negócios, costumo confundi-los com empresários. Os espectadores limitam-se a projectar variadamente as suas fantasias na arte. O seu contributo é como a espuma do champanhe. As etimologias de palavras como arte, não provam nada a seu favor. O gosto de uma época condensa-se em objectos de arte e ressuscita nelas muito depois de mortas, como um perfume que evoca mil e uma emoções. Um titulo é uma dissimulação - é aí que as obras se teatralizam na direcção da comédia ou da tragédia, embora não encontrem nenhum fim. Os conceitos, ao contrário do que se julga, não fazem as pessoas ou a arte mais intiligente. A simpatia ou o amor são preludiops da antropofagia. A exuberância sexual dos artistas resulta de um grande apetite.

Podemos fazer obras ditas de arte que apenas sejam parecidas com arte embora não sendo arte? O ready-made começou por ser uma blague para se vir a transformar num glorioso e fecundo equívoco. Há demasiados criadores a assinar o silêncio e o vazio e a lucrar com ele. A hostilidade da crítica é um ornamento na obra.

O NÃO COMO PROFISSÃO

A prudência da consciência (quanto à arte) é comum - mas a exuberância da vaidade excita para generalidades nos modos de a pensar. Equívoco? Algo contraproducente? Ou uma exuberância suplementar? O debate sobre que é o pintar, ou não (e ao seu valor), mostra o festim da Experiência como eclosão e balbuciamento. Pode haver justificação, numa pintura? Tudo na pintura recusa a ubiquidade òbvia. No entanto a acção da pintura não se circunscreve ao objecto, mas é pandémica como uma micro-revolução permanente. A pintura não é teoria mas é teórica nos seus aspectos climatéricos. Procura a teoria como um falso alter-ego nos festins mascarados da Natureza, sem nenhuma generalidade, isto é, opõe a vantagem de escolher formas e representações perante a sua sem-distância (o seu carácter afectivo). A pintura sendo origináriamente do dominio do não-verbal, dota-se de um perímetro de inominável que é colmatado pela múltiplicidade de opiniões rápidas do "respeitável público". As emoções pela Natura também são opinião: internamentos da complexidade e do fausto do eclodir?

A «solução» de heteronomizar é a possibilidade de outros recomeços. É como caçar com outros cães. A autoria desdobra-se em técnicas de predação. Porque é que é que gostamos "em arte" das emoções da provocação? O não-ser contribui em alguma medida para a sensação de impaciência perante a construção. A arte procura presentificar-se (a si mesma) pela abundância, enquanto no seu cerne o não-ser encena a carência - o que antigamente se chamava grau zero. Possa a teoria «desfazer» por inteiro para que a pintura refaça na sua insuficiência gloriosa. Sou contra tudo o que é inteireza ou acabamento. Contra Ricardo Reis - não sejas inteiro, fabrica-te no excesso e na exclusão contra uma possível identidade. Põe o que poderás ser ou não ser em tudo o que farás. Uma técnica existentes confunde-se com os propósitos. Por isso exibi-los é redundante. A teoria não como generalidade mas como generabilidade. Emocionam-me as ocasiões que propiciam. As regras do ânimo. A curiosidade da opinião mascarando-se na multiplicidade.

É fácil justificar o perímetro do inominável com a ubiquidade, mas isso é sempre uma burla. O debate da pintura deve ser tragédia? Heterodidactamente a elite gere o contraditório no possível. O autos é o concretizar. A complexidade das regras no limiar de um festim? A celebração de uma teoria tanto pode ser teórica como não. O não como «profissão». A consciência possível é narcisismo mesmo quando invoca o inominável comum. A curiosidade dos pintores constitui os propósitos. Divinos engodos.

e desfolhada canta-me as sílabas, a carne unanime-inante — expira-me batalhas com o ubiquo baah, expira-me as especulações e os tédios temerários — é como se há volta alguém olhasse logo sobre o céu nú as pirâmides ao sol as elípticas conjecturas peras nas cuspides tipográficas frenética parecença e a orbita em pedaços e os conselhos do Egipto acumulados no sangue fresco ordenados plo simbolo terreno SEXO E TUDO inusual poder medíocramente ambíguo a desfolhar os urubus esferas do difícil, ordenado no futuro a acumular grandeza inimaginável ou livremente a criar galinhas primavera nacional dentro das àrvores contra freneticos horizontes

SEXO E TUDO sobre o cru raciocinio dos mergulhos o velho emprestado plo simbolo temporada que ofega o grão saber e os verdes quiasmos cálido medo, reforçado, por hipótese por tédio — esferas asceses louras E MAIS IMANÊNCIA A fuga-fuga para as àrvores poderes orvalhados subtraídos à noite fulminante galo entre rosas — a fuga para… — a velha, e o estrelaxado enfim: e irás massacrar o galo entre azáleas, verdes e altas, de tumescente medo, decisivas, nossas magnificas lentas num acumulado esquecer

ambíguas de olhar inimaginável baah, expira-me os astros o vento das absissas, e logo logo OLEEMOS AS METRALHADORAS E O SEXO e recordemos velhas doutrinas ambíguas, estórias pânicas E UM SINCRETISMO MAIOR ORIGINÁRIO matizes de um fresco a desfalecer acumulados caças baah, experimenta a conjugada expressão dos campos espremidos onde tu fixavas o licor do atlanticos horizontes os urubus dessas magnificas partes taxativas, esfolhadelas, semelhanças de medos, reforçado Odisseus, solitário de inutil desejo que desdobra ao azul os dourados — caoticos ímpetos na fauce com risíveis aquisições

e voltaste rolante e lembras-te de mim e de ti e desconsideras a perenidade e opões guerrilhas e dizes: a Penélope é boa no campo e consideras a aquisição de sentidos estúpidos e o gosto pelo conhecimento o bom gosto copula com o «dis-»? na realidade, é a benção à melancolia que persigo para libertá-la e libertá-la — não, relaxa! peço-te — queres os anos 60 e os 70 arruinados? academiza pela benção — considerarás os espelhos das tenebras arrodeando arrodeando e abandonarás tudo na cama! Mmmmm... a àgua-de-colónia mostra o desejo transtornando-o risochorando máquinas & suas patroas — nascimentos de tanto! mostra só o flatu erecto onde acaba a polivalência e evoca certas certas

erupções de barbas a emergir para fora dos espelhos num cú múltiplo — possíveis fulminantes vanguardas do catano

MANIFESTO DA HIPERCOMPLEXIDADE IN PROGRESS (fragmento)

fala-se de complexidade como de um clichê, mas pratica-se pouco, e não nos damos conta do que estamos a atravessar, nem a tomar consciência dos seus multiplos filões, para além daqueles que a tecnologia introduziu nas nossas vidas — há, é certo, livros sobre isso — sobretudo a admirável série do Edgar Morin — mas este filão é antigo, e penso em dois admiráveis pensadores antigos, Heraclito e Tchouang Tseu, e em três grandes escritores modernos (ó clichês), Joyce, Pessoa e Borges, como “autores” dos quais podemos extraír modelos de complexidade muito para além da literatura o que vou tentar fazer aqui é ir coleccionando “citações” e contracitações, um pouco como o fizeram Benjamin, Norman O. Brown ou Kitaj — este é um manifesto que é também um metamanifesto, ou um romance — não podemos escapar do turbilhão das multiplicidades inacabantes em permanente revisão auto-hetero-crítica — não há maneira de agarrar o tema senão por tentativas — e nesse sentido há algo que se autobiografa e se mascára no fazer-se ao bife penso na ideia de cadernos de Álvaro Lapa e nas sobreimpressões da Maria Gabriela Llansol como portas de abertura — e em tantos outros cadernos impublicados: os de Wittgenstein ou de Nietszche como confluências de redomas que não fecham — não cessam de devir e abrir e sobrepor multiplicidades de visões

a ideia da complexidade feita carne, ou personagem, surge no sec. XIX com a noção de super-homem — no fundo trata-se de levar mais longe coisas como as vidas de Plutarco ou as hagiografias — o grande homem, o sábio, o santo, para o domínio do pensamento — Pessoa, no Ultimatum Futurista do seu heterónimo Álvaro Campos põe o dedo na ferida dizendo que o super-homem será o mais harmónico, o mais completo e o mais complexo, em contraposição às ideias de força, dureza e liberdade Si certaines nuances apparaissent selon les sources, on peut retenir que "complexe" (et plus fréquemment complexion) est emprunté au XIVème siècle au latin complexus, dérivé de cum et de plecti, plexi, plectere, plexum signifiant tourner ou rouler ses cheveux, friser, entrelacer, tresser, puis enlacer, embrasser, contenir (et non plier, comme l'écrit de façon erronée le Littré) (Ardoino, 2000). Le mot est repris au XVIème siècle comme adjectif pour qualifier tout ce qui est composé de divers éléments hétérogènes. (Rey, 2000). En tant qu'adjectif, le terme renvoie ainsi à un "composé d'éléments qui entretiennent des rapports nombreux, diversifiés, difficiles à saisir par l'esprit, et présentant souvent des aspects différents". (MICHEL ALHADEFF-JONES) há que opor a liberalidade à ideia abstracta de liberdade ou ao cliché de liberalismo — a liberalidade é uma prática tolerante e só se entende à luz dos dois outros termos, a disponibilidade e a complexidade — a liberalidade é uma ideia sobreabundante, alegre, uma capacidade de dádiva que não é motivada pelo dever ou pela culpa — enquanto a liberdade é um ideal ou uma meta, a liberalidade é uma prática que se compraz nela mesmo, que retira um prazer da sua aparente redução de recursos

há que opor a complexidade à igualdade — a igualdade é redutora e produz uniformização, mediania, neurose, in-diferenciação — a complexidade é criativa, diferenciadora, elástica, destrutura e restrutura hierarquias, promove a hibridez, acelera as mutações há que opor a disponibilidade (ou a mutualidade) à fraternidade — a fraternidade é fechada, é um sistema que se erige e cria solidariedades contra uma autoridade, mas que contem em si o seu fantasme e o desejo de reencarnar na figura autoritária — a disponibilidade é o que abre as relações e dissolve as forças da negatividade (o ser contra) presentes na fraternidade e no autoritarismo — é o “eterno retornoo do mutúo”, como diria Llansol

METAMANIFESTO RELACHADO (after Picabia)

Sem maquilhagem, perfeita boca, às oito horas, a compor, a dançar, — na aparência do riso o entusiasmo aterra. E olha-vos, quer-vos para fora, na vaidade da amante a semear Relache aterroriza, com o brilho dos dissimilares, sem pálpebras, na regressão, espontânea, no imprevisto brejeiro que ronda. E salta — é a violência da escola das convenções e gosta dezassete vezes das jóias baratuchas. Relache é o Nada de passagem com intenções brilhantes dispersando o fragmentável — é tudo prazer não trabalhado: a vida no fundo dos arquitectos pulverizada tão boa quanto o Deus da múltiplicidade com champanhe, e um copo de àgua e o sexo, redondo riso, espontâneo assumida descola da arte nada a realizar com factos em si afirmação de pluralidade que desce no fundo às renuncias, publicidade de pernas coração em afirmação e que gosta do que foi feito: Relache — uma rosa que se passeia nos nossos propósitos de seduzi-la

pluralidade por si mesma totalidade diversificando a artephysis a cada instante, tal como Deus criou a vida depois da sesta montanhas negras, húmidas, comestíveis, luz, trevas, bichos, coisas verdes, grande jardim do mundo e os vastos deserdos para olhar o céu (todos o dizem!) Porque quer mais e mais fausto — a artephysis — a artephysis onde transparecem as mulheres, sem angustias burguesas ou filosofais, ou dureza brechtiana, inclinando-se com flexibilidade e complexidade Relache é algo formando-se — ininterminável aprofundando o concreto Relache é a advinhação do acaso, espontânea, para si mesma, totalidade do operar, espécie de prazer avacalhado mas hipersensível Relache é a voluptuosidade das costas, as coexistências, as aparências, as unhas pintadas, as ligas, um sítio para partir depois, o lare hipócrita mas aconchegador, a caneca de leite da avó Relache é o entusiasmo despido da moral, da farsa religiosa, da escola, da profundidade, do jogo, do amanhã, da perna a cortar, das falsas jóias Relache passeia-se a si mesma ao lado da totalidade, acolhimento que quer mais beleza — ao transformar o fragmentável, inocenta, dispersando o que brilha

Relache é a melhor comédia em frente à órbita da rosa por onde sobem dois homens nãqo se sabe para quê Relache é um poema rotativo, a publicidade que a àgua transforma em vinho — coroada convenção, na autoria dos descontroles, que desce no rosto visível, na convenção violenta que vislumbra o diamente místico entre as pálpebras Relache é o sexo intenso, o lamento violento, ou a confluência do profundo, o que espanta a felicidade e desencalha, e a musicas — a vida a ser do prazer a mudar de cadeiras, questões de loucos, anti-expressão, escrevinhar, meditar-se, divergir no desenhar — ai ai ai o amanha - folha folha - tantas águas para percorrer e ficar ensopado Relache são várias mulheres a libertarem-se pelos adereços, a tornarem-se budas por atrapalhação, sem trabalho Relache é o que se auto-imita no se auto-imitar, etc. — heteronomia e movimento, a confundir amantes — afirmação da excelência, gozo da divergência Relache gosta para alem do que agrada: a vida à mão, o rosto ali, as derrotas, os sonhos, o arrastar pelo atelier dentro — a propensão para o desimpedimento — percorrer arrebatado, os mortos fenómenos dos corpos em ressurreição, o rescrever incerto como quem diz a clareza, o semelhante sem prioridade, os falhanços lá mais para o meio — a explosão de séries múltiplas, sumptuárias.

Dizem que a treva toráxica irá polir a cabeça diamantica — cara da botânica. Branca. Branca florestação — Relache!

METAMANIFESTO UM POUCO INDETERMINADO (não há real, só romanesco)

na história também entram as sequências a fazerem do príncipio meio — vai-se e volta-se — basta alinhares na indeterminação e todo o desimpedimente é espaço há aqui planetas que se re-escrevem em certos hábitos — em filmes, músicas, etc. tudo relacionante, clássico, ou estilo manga, com exagerada expressividade condensar expansões giratórias pode-se ver certos filões assomarem na onda do dia — pelas influências multideterminação — provemo-nos nos books — movemo-nos como cobras sem destino — tentamos pôr ordem nas estações e narrar com metáforas — dizem que dá em nada — as janelas interagem por aí apetência aventurosa do saber que erra em expansões giratórias — Nothing — a dança arrebanha obras que a treva toráxica anda a polir a brancura no antropófago: um clima de propensão para interagir pela pele apetência por propensões, paliativo que ronda o desconhecido — lunações de experimentações

acolher o tempo e a desorganização multideterminação do zero chispas de corpos a bater no visível indeterminação e desorganização a meter as tetas no que quero dizer o romanesco reformata o que era a realidade — não há real, só romanesco putas de séries múltiplas sob as lunações movemo-nos nos books dispostos a luzir — vamos para a cama com nãototalidades opostos que aparecem massacrados — dizem que é da interpenetração (antropofágica?) acolher o ciclo da natureza na activação da indeterminação — casas hipnóticas informes, primitivos, sonhos, com o pavão zero a luzir em cima dos books — navios cegos dos solenes estilos e das retroflexas influências o processo como excesso (pavão zero a pronto pagamento) pluralizando o relacionante

cria-lhes filões abdutivos "arte" de ressaltados fluxos — vamos lá! ventos de tudo, que se resolvem pela trans-menipeia — depois vem a possibilidade do multi-inclusivo, com suplementos minimalistas tanto oportuno por aí eco-sistema a saír das cavernas linguagem=descriminalista generatividade bem-temperada pensamentos inócuos pelas noites, sustentáveis — pensamentos à mesa do entusiasmo a pensabilidade da arte opera sobre o meio ambiente os pés são a intermitência do pensamento fazer políticamento na cara — acolher os humanos humanamente criando materno com o dia a programar e descriminalisar aprendizagem=discriminação das diversas artérias — ou estar lá muito

trans-menipeia a reprogramar depois de tudo ter sido repensar as regras com entusiasmo está tudo aterrado em tudo! complementos abdutivos do elementar seres em lugares de consumo a itenerar possibilidades revelando a mãe dos cepticismos ambientalidade da arte com extremos que poderam transformar ambienta sobre os braços — resolve-se dando-lhes — questiona a empatia na meta — é a mãe certa da memória a adaptar com a sustentabilidade a pairar produção florestal de refutações — terra nossa de sustentos para acolher humanos, muito iniciáticos diversificar ocasionalmenteme — ele faz pouco das suas visões vento e talheres humanos, manuais, que põe a poça na pata — perguntas a esbracejar o implacável feedback das espectativas diamantes de ideias na fenda de noite, violentos, em constelação

saber = ocio (sabias?) os incêndios irrompem no rosto — é o imprevisível feedback de uma continua casa de púrpura a devanear-se em devoção (o que palpita em cima da dança, em arco, nas linhas, no sopro de quem vê) o nove em cima — obra como disponibilidade para dar substituir os trágicos por espontaneos (líricos) quanto mais vivos mais coisas a acolher fluência periclitando no acaso para futuros fronteiras=simbolos — outras flechas — paisagem temível deixar espaçar para o olhar — teatralmente transmissor das abertas vivas — é como respirar entre os rostos toda estrela, fundo vibra dizendo, mesmo um floresta a produzir — maximalista o pensamento — a receber multiplicidade a refutar a religiosidade

inventabilidade partindo do não-espelho, caminhando no inapropriável por conta própria tornar-se uma "arte de preocupar com” — é a meta da governabilidade multi-inclusiva metáforas que amparam falhanços — planetas de ideias melhores é nos pequenos sítios contemplados que se cria a importância dos mortos porque eles gostariam de retornar-se ralaxa em generosos juízos de filões pelos quais se poderá transformar sem espelhos artephysis — multiplicidade com ressacas a receber lugares da coerencia da intermitência — o que separa também relaxa jardins onde se engolfam caras — a felicidade nas estrelas multirritmar como no ciclo da natureza botânica acolher os falhanços cegos no antro, a desorganização amansa comer o seu abismo, com a fundura dos astros propensos ao pensamento

constelação que engolfa os grandes frutos da ordem tentáculos retorcedondo o transitório começa a antiguidade onde a boca clareia, a comunicar no frontespício o feedback das artes — o que interage arrasta à educação sopro surgindo que nos surpreenda em dança com estruturas transitórias toda essa antiguidade de dar o pensamente arrasta a aluada noite das artes movimento para os lados estremecendo a sobreposição a interiorização dá no nada-clarão metáforas, sonhos, a boca — prenhes de desconhecido a arte de novo enlouquece — a entrar, a expandir, a condensar o intermitentes participação do paradísico — talvezes como melhor resposta à educação obscuros irrompem nas rosas comodas com propósitos a transbordar dividiram as perplexidades e voltaram a associá-las