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A CRIMINALIDADE JUVENIL SOB A ÓTICA PSICOPEDAGÓGICA: A imprescindível postura política do Psicopedagogo1

Ivan Claudino Herrmann2 Rose Cristiani Franco Seco Liston3

RESUMO: O Brasil atualmente encontra-se em um estágio de desenvolvimento econômico sem precedentes, grande parte desse sucesso se deve a imensa população jovem e a todo o seu vigor permitido pela idade. Porém percebe-se um aumento significativo da criminalidade e em especial a juvenil, que é motivo de preocupação. Este artigo pretende apontar e discutir sob uma ótica Psicopedagógica os aspectos que podem induzir à criminalidade juvenil faz uma análise das legislações vigentes, as políticas públicas voltadas às crianças, adolescentes e jovens, a relevância da educação, cultura, esporte, lazer, mercado de trabalho e influência da mídia sobre a nossa sociedade. Para tal utilizou-se autores que tratam do assunto, abordando os fatores que influenciam direta ou indiretamente o jovem a ingressar no mundo do crime e a importância da postura política e crítica do Psicopedagogo neste processo. PALAVRAS-CHAVE: 1. Criminalidade juvenil. 2. Psicopedagogia. 3. Educação. 4. Protagonismo juvenil. 5. Políticas para juventude.
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INTRODUÇÃO

O Brasil passa atualmente pelo melhor período de seu desenvolvimento econômico, detém uma extensa área de terras produtivas, permitindo uma enorme produção agropastoril e também jazidas minerais e petróleo, mas, sobretudo, possui grande quantidade uma mão de obra, jovem e mais barata que os países desenvolvidos. Grande parte desse sucesso se deve aos mais de 50 milhões de jovens (idade compreendida de 15 a 29 anos), que corresponde a aproximadamente 27% da população

Trabalho de conclusão do curso de pós-graduação lato sensu à distância em Psicopedagogia UCDB. Campo Grande – MS, 2013. 2 Graduado em Educação Física pelas Faculdades Integradas de Fátima do Sul (FIFASUL). Servidor Público Federal. Pós-graduando em Psicopedagogia. E-mail: ivan_herrmann@hotmail.com. 3 Professora, especialista, mestranda em Educação - 2012 - Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). E-mail: roseliston224@gmail.com.

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brasileira de acordo com dados do IBGE4 (2010), que com todo o seu vigor permitido pela idade, contribuem significativamente para esse bom momento da nação. O jovem apresenta grande vontade de fazer estar sempre atrás de mudanças, porém, corriqueiramente está atrelada a temas bastante conturbados: drogas, violência (incluindo trânsito), maternidade/paternidade precoce, rebeldia e inquietação, entre outros, que constantemente são divulgados pelos meios de comunicação. É uma fase de transição da infância para vida adulta, onde a sede pelo desconhecido e principalmente pelo autodescobrimento é absolutamente normal, esperada e necessária. Fraga (2000) relata que é uma árdua tarefa encontrar relatos que não descrevam a adolescência como sendo uma fase da vida em que os sujeitos não apresentem atitudes consideradas inconsequentes e comportamentos conturbados. 5 Percebe-se isso nos noticiários, que diariamente nos trazem informações acerca da crescente onda de violência, principalmente a juvenil. Diversos fatores podem influenciar ao ingresso do sujeito no mundo do crime, e a educação é considerada por Carvalho e Gequelin (2007) um fator determinante, dizendo que existe uma estreita relação entre a criminalidade e o insucesso escolar. 6 Nesse sentido pode-se relacionar o Psicopedagogo nesse processo, profissional que segundo Bossa (1994) nasceu em virtude da existência de alguns problemas escolares que para serem evitados ou solucionados exigem um “olhar especial”. 7 Para tanto o tema criminalidade é analisado em âmbito global e nacional, as legislações que visam à garantia de direitos e, portanto a redução dessa problemática, a relação entre a educação, família e a mídia na perpetuação da violência, a relevância do protagonismo juvenil e importância do Psicopedagogo e sua imprescindível postura crítica e política acerca de todos esses fatores que podem ter grande influência no ingresso ou não do jovem no mundo do crime.

IBGE, 2010: Estatística da população jovem no Brasil. Banco de Dados. FRAGA, A.B. Corpo, identidade e bom-mocismo: cotidiano de uma adolescência bem-comportada. 1. ed. Belo Horizonte/MG: Autêntica, 2000. 168p. 6 CARVALHO, M.C.N; GEQUELIN, J. (2007). Escola e comportamento anti-social. Ciências e Cognição. v.11, pag.132-142. 7 BOSSA, N. A. Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1994.160p.
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1. GENERALIDADES SOBRE A CRIMINALIDADE 1.1. A CRIMINALIDADE COMO FENÔMENO GLOBAL

A criminalidade representa um fenômeno global que cresce de forma independente de países desenvolvidos ou em desenvolvimento não tendo também distinção entre cidades pequenas, médias ou grandes. Segundo Ando e Ando (2008), a violência ainda encontra-se distante de um significado preciso e único, é um fenômeno complexo, de diversas causas e visto em inúmeros lugares, causa mortes, lesões, traumas físicos e emocionais, afetando desta forma a saúde das pessoas, atingindo principalmente jovens do sexo masculino entre 15 e 29 anos.8 Na contabilidade da violência entram os atentados contra o patrimônio, administração pública, propriedade intelectual, organizações de trabalho, saúde e principalmente, e mais grave, contra a integridade física e psicológica das pessoas. A falta de confiança na punição, a constante insegurança e o medo dos criminosos se tornaram problemas que afligem a humanidade em âmbito global. A insegurança apresenta incontáveis e incalculáveis prejuízos: existe o prejuízo momentâneo que é reparar os danos, perder bens materiais e demais gastos devido à depredação, tanto de bens de particulares como de instituições públicas e privadas, e existem também, os prejuízos não calculados, a exemplo de seguros de bens (que se tornam mais caros em áreas mais inseguras), implantação de grades, câmeras, seguranças particulares, tratamentos hospitalares, horas de trabalho perdidas nas recuperações e o sentimento de constante insegurança.

1.2.

A DELINQUÊNCIA NO BRASIL E NO MUNDO

Diferente do mercado de trabalho, não é necessário ter uma idade especifica para entrar no mundo do crime e nem quaisquer tipo de especialização no assunto. Aliás, a maior parte da população carcerária tem um nível baixo de instrução e poder aquisitivo, teve

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ANDO, D.A.; ANDO, N.M. Crianças e adolescentes em situação de violência: traços inquietantes da contemporaneidade. Revista da ABPp. Disponível em: <http://www.abpp.com.br/artigos/92.htm>. Acesso em: 28 de abr. 2013.

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portanto a privação de algum direito, principalmente no que tange a educação, capacitação para a vida profissional e oportunidade no mercado de trabalho. A participação de jovens ou até seu protagonismo em ações criminosas é nítida, ao comentar da indisciplina, Cordeiro (2012, p. 7) diz: “[...] que ela pode ser atribuída à ausência de imposição de limites pelos pais, pela escola e pela sociedade. E ainda, a falta de valores e o enfraquecimento do vinculo afetivo entre pais e filhos e/ou alunos e professores”. 9 Essa fase conturbada por qual passa o adolescente, aonde tem anseios de se sentir participante do mundo, fazer parte de um grupo e nele ser respeitado, acaba por se distanciar do seio familiar e procura um grupo em que se identifique e auto-afirme. É uma fase natural e deve ser esperada, porém, em muitas vezes esse grupo não oferece atividades sadias, não são incomuns ações de vandalismo, depredações, brigas, furtos praticados por grupos de jovens. Os problemas passados pelos adolescentes muitas vezes não são vistos por nós adultos, e é na escola que geralmente são observadas as atitudes que podem elucidar que o jovem esta passado por conflitos, nesse sentido Cordeiro (2012, p. 8) enfatiza a importância do olhar apurado do Psicopedagogo: “[...] é preciso ter uma visão psicopedagógica, isto é, ver no sentido de observar os mínimos detalhes de cada situação. É ver nas entrelinhas e capturar o despercebido”. 10 Quem mais nos alarma acerca do assunto é a mídia, diariamente encontra-se ações da grande presença de jovens nos mais variados tipos de delitos, desde pequenos roubos até os mais repugnantes crimes hediondos. Por diversas vezes os delitos são a forma encontrada para a auto-afirmação ou então adquirir bens que a sociedade apresenta como indispensáveis e que o sujeito almeja adquirir para ser socialmente aceito. Os problemas de infrações cometidas por jovens não são problemas isolados de nosso país, tampouco de países em desenvolvimento, Assis e Constantino (2005) apresentam que existe igual preocupação com o envolvimento de jovens em infrações nos mais diversos

CORDEIRO, J.D. (In) Disciplina escolar x intervenção Psicopedagógica: Algumas reflexões. 2012. 15f. TCC. Curso de Pós-Graduação lato sensu em Psicopedagogia. Centro Universitário da Grande Dourados. Dourados-MS. p. 07. 10 Id. Ibdem. p. 08.

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países do mundo, com diferentes níveis de desigualdade econômica, porem, quanto maior a desigualdade social do país, maior a probabilidade do jovem ter participação. 11 O jovem ao mesmo tempo é responsável e vítima da violência, de acordo com Zaluar (2001) o problema social que mais aflige o brasileiro jovem, na faixa etária entre 15 e 24 anos, é a violência, com 55% das respostas, o país está em primeiro lugar em homicídios por arma de fogo entre 65 países e é terceiro colocado em homicídios em geral. Os causadores e vítimas desses homicídios são esmagadoramente jovens.12 Ainda de acordo com Zaluar (2001) não existe motivo único para justificar a violência, e sim a junção de fatores determinantes como a pobreza, deficiência educacional, uso comum de armas de fogo e influência do mercado de drogas. 13 Pode-se então afirmar que quanto mais fatores determinantes existirem, maior a possibilidade deste jovem participar de atos criminosos. Para Trindade (2002, p. 84) a postura da sociedade tem nítida responsabilidade pela criminalidade juvenil:
Essa fase de turbulências ainda é marcada por uma sociedade excludente, a qual trata crianças e adolescentes desprivilegiados como seres invisíveis, ou, pior, taxa inocentes como criminosos, como perigosos. A sociedade fabrica seus próprios delinqüentes, e depois cria instituições para tomar conta deles, num movimento maniqueísta que ressalta as diferenças entre os bons e os maus, entre os de fora e os 14 de dentro, entre os normais e os doentes.

Percebe-se que na sociedade existe a rotulação e o preconceito contra o jovem, principalmente no período da adolescência, o mais intrigante é que ela tenta se eximir de qualquer tipo de responsabilidade dos problemas que envolvem esse público. Para Ando e Ando (2008, p. 1), para ocorrer um combate eficaz da violência deve existir o comprometimento de governos e da sociedade:
O trabalho de combate a violência só acontecerá efetivamente através da garantia plena da cidadania, ao invés da ocupação da polícia com seu braço armado, forte e esmagador, onde a população civil é a maior vítima. Necessitamos de uma ocupação social, com projetos sociais, saneamento básico, condições políticas (presença de processos democráticos) e econômicas (distribuição igualitária de acesso a saúde e educação). Requer o fortalecimento dos vínculos familiares, o investimento em
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ASSIS, S. G.; CONSTANTINO, P. Perspectivas de prevenção da infração juvenil masculina. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 10, n. 1, p. 81-90, 2005. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/csc/v10n1/a08v10n1.pdf>. Acesso em: 13 de mar. 2013. 12 ZALUAR, A. ; LEAL, M.C., Violência Extra e Intramuros. Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 16, nº 45, 2001. 13 Idem. 14 TRINDADE, Jorge. Delinqüência juvenil: competência transdisciplinar. 3. ed. Porto Alegre: Editora Livraria do Advogado, 2002. 200p. p. 84.

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educação, em saúde, em cultura, na preparação para o mercado de trabalho e a geração de renda, na promoção de mecanismos de participação das crianças e dos 15 adolescentes.

Existe um consenso dos autores supracitados que a forma mais eficaz de combater a violência é estimular à cidadania, sendo necessários investimentos maciços no combate as mazelas sociais, sobretudo na educação, cultura e condições de acesso ao trabalho.

1.3.

A MÍDIA E SUAS CONTRIBUIÇÕES

A mídia com seu imenso poder de penetração nos mais variados tipos de lares, consegue induzir a toda uma sociedade, apresenta novos valores, manipula opiniões, prende a atenção com futilidade, e no jovem que é um ser em transição, consegue ter uma influência ainda mais devastadora. De acordo com Herrmann e Luz (2009) ela apresenta a ideia que para ser socialmente aceito, o sujeito precisa ter inúmeros itens “indispensáveis” como celulares de última geração, tênis e roupas de grife e que deve ter o padrão corporal “perfeito”, esses padrões estereotipados mais uma vez conseguem um exorbitante sucesso mercantil, salões de beleza lotados (afinal ter o cabelo liso é necessário), clínicas de lipoaspiração e cirurgia plástica (afinal ser magro(a) é outro requisito indispensável) e academias lotadas, mas não de pessoas que buscam saúde, mas que são capazes de fazerem barbáries para obter o resultado desejado.16 Após convencer as pessoas da necessidade de todos esses itens, manipulam a toda uma sociedade com posturas imparciais para achar culpados das mais variadas formas de violência. Segundo Colpani (2003, p. 3) a opinião pública é induzida pela mídia:
(...) a opinião pública é baseada nas informações passadas pela mídia, que com frequência alerta para o aumento da violência, tentando fazer crer que os adolescentes infratores são os responsáveis pelo aumento desses índices, bem como que nada acontece para os adolescentes que cometem ato infracional, formando uma 17 visão preconceituosa e reacionária contra o adolescente em confronto com a lei.

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ANDO, D.A.; ANDO, N.M. Op. cit.. p. 01. HERRMANN, I.C.; LUZ, J.B. A construção da imagem corporal: os aspectos fisiológicos, libidinais e sociológicos na perspectiva de Paul Schilder. 2009. 45f. (monografia). Curso de Educação Física, Faculdades Integradas de Fátima do Sul. Fátima do Sul-MS. 17 COLPANI, C.F. A responsabilização penal do adolescente infrator e a ilusão de impunidade. Jus Navigandi 2003. p. 03.

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Não raras às vezes encontra-se os problemas da forma como é conveniente ou então do modo como a mídia sensacionalista nos apresenta a informação, porém, Montano (2005, p. 53) nos lembra de observar a delinquência de outra forma: “Na verdade, facilmente esquecemo-nos que o jovem excluído e marginalizado, vítima de múltiplos e continuados processos de rejeição pode, por isso, passar facilmente de vítima a agressor”.18 Um exemplo prático e atual das colocações acima descritas é quanto a redução da maioridade penal no Brasil, defendida por grande parte da população, sobretudo por influência e manipulação da mídia, porem no calor da emoção, comumente não nos lembra-se da responsabilidade da sociedade e do estado sobre os crimes em eminência.

2. A IMPORTÂNCIA DAS POLÍTICAS PÚBLICAS 2.1. ANÁLISE DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE E DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL BRASILEIRA

Por um longo período histórico, crianças e adolescentes não eram considerados sujeitos de direito, mas meros objetos de intervenção do mundo adulto, só poderiam fazer valer seus direitos se representados ou assistidos pelos pais ou responsáveis legais. No final da década de 80, o Brasil passava por uma profunda mudança política e um reordenamento jurídico, fazia-se eminente a elaboração de uma nova Constituição Federal, a qual necessariamente deveria dar uma maior ênfase à participação popular na tomada dos rumos da nação, principalmente pelo país ter passado por uma longa ditadura militar, presente inclusive na maior parte dos países latino-americanos. Nesse cenário, em 1988 após intensos protestos da população, se fez concreta uma nova Constituição Federal, pelo fato de dar larga abertura à participação popular, ficou conhecida como Constituição Cidadã. A Constituição 1988 traz em seu escopo prerrogativas importantíssimas para garantia de direitos fundamentais ao ser humano. Em virtude de crianças e adolescentes serem pessoas ainda em formação, foram elaboradas garantias jurídicas para a proteção de seus direitos, visando o pleno desenvolvimento humano:
Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à
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MONTANO, T. Delinquencia e Criminalidade Juvenil? Qual a nossa responsabilidade? Revista Integrar, nº 23, Lisboa 2005. Disponível em: <http://www.iefp.pt/iefp/publicacoes/Integrar/Documents/ INTEGRAR_23.pdf#page=55>. Acesso em: 14 de mar. 2013. P. 53

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educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. (BRASIL. Constituição, 1988).19

Na mesma linha ideológica que se deu a Constituição Federal, posteriormente foi elaborado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)
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, Lei Federal nº 8069/90, surgiu

com a incumbência de substituir o antigo Código de Menores de 197921, veio alicerçado sobre os princípios de proteção integral garantidos na lei mor. Para Paula (2002, p. 31) a “Proteção Integral exprime finalidades básicas relacionadas às garantias do desenvolvimento saudável e da integridade, materializadas em normas subordinantes que propiciam a apropriação e manutenção dos bens da vida necessários para atingir destes objetivos”.
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Assim o novo ordenamento jurídico veio para

garantir as condições satisfatórias para o desenvolvimento integral das crianças e adolescentes.

2.2.

POLÍTICAS PÚBLICAS PARA JUVENTUDE, ENTRE A TEORIA E A REALIDADE

As políticas públicas são elaboradas com o intuito de assegurar direitos e garantir a sua consolidação, não se resume a apenas projetos ou leis, mas ações afirmativas do estado para garantir a promoção dos diversos setores da sociedade, e devem sobretudo ser elaboradas para quem mais delas necessita. Por se tratarem de pessoas ainda em formação, é perfeitamente justificável a criação de leis para assegurar e afirmar os direitos de crianças, adolescentes e jovens. Pode-se identificar que o respaldo jurídico ofereceria proteção ao público para qual foi elaborada, garantindo direitos múltiplos e essenciais para uma satisfatória transição da infância para vida adulta e permitindo desta forma a formação de verdadeiros cidadãos, no entanto o que os as estatísticas nos informam não é isso, os dados mostram que existe um constante crescimento nos delitos cometidos jovens em âmbito nacional.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069. Brasília, DF: Senado Federal, 1990. 21 BRASIL. Código de Menores. Lei nº 6.697. Brasília, DF: Senado Federal, 1979. 22 PAULA, P.A.G. Direito da criança e do adolescente e tutela jurisdicional diferenciada. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2002. Disponível em: <http://www.ambitojuridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=9619>. Acesso em: 14 de mar. 2013. p. 31.
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Em virtude de tais manchetes serem frequentes, fica a dúvida se as políticas públicas são adequadas à clientela para qual se destina e se a abrangência atende as necessidades, Matos (2006, p. 25) nos apresenta a clara relação entre a garantia de direitos e a criminalidade juvenil:
[...] jovens e famílias em contato com atividades alternativas de lazer, esportes ou acesso ao trabalho apresentam menor índice de envolvimento com a criminalidade. Essa constatação é compartilhada por diferentes pesquisas realizadas no país 23 referentes a crianças e adolescentes em situação de desvantagem socioeconômica.

Nesse intuito o Psicopedagogo tem uma responsabilidade em analisar os diversos fatores que interferem no desenvolvimento das crianças e adolescentes, como argumenta Cordeiro (2012, p. 9): “[...] devemos compreender que o foco da atuação do Psicopedagogo não deve ser apenas o aluno com dificuldades de aprendizagem, mas principalmente os mecanismos que interagem na constituição dessa ação”. 24 As mudanças significativas vistas nas sociedades sempre são provenientes de alguns fatores, principalmente econômicos, jurídicos e culturais. É possível afirmar que a criminalidade segue os passos da sociedade, sendo fruto da desigualdade social histórica, e a postura comportamental juvenil nada mais é que o reflexo de nós adultos: “Por muito que rejeitemos a ideia, a delinquência juvenil terá a ver mais conosco, os adultos, do que com os jovens, porque somos nós, os adultos, que criamos os meios em que eles crescem e se desenvolvem” (MONTANO, 2005, p. 53). 25 Para Leal (1983, p. 168-169) a importância de prevenir a criminalidade juvenil é inquestionável e não pode ser retardada:
Preveni-la, a delinqüência juvenil, é impedir um genocídio social que se permite esteja sendo praticado contra milhares de menores, espalhados nos quatro cantos deste país e que, produtos de um processo de socialização divergente, disfuncionados, convertem-se em infratores porquanto não se lhes oferecem outras opções, não se satisfazem, a tempo próprio, as suas necessidades básicas (suas carências, isoladas ou não, são múltiplas: econômicas, sociais, físicas e psíquicas) 26 nem se busca desenvolver as suas potencialidades positivas.

MATOS, R. N. Crime e castigo: reflexões sensíveis sobre adolescentes privados de liberdade em Uberlândia. 2006. 128 f. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2006. Disponível em: <http://pos.ugf.br/biblioteca/?page=40&word=%20 Arquivos%20privados>. Acesso em: 05 de abr. 2013. p. 25. 24 CORDEIRO, J.D. op. cit. p. 09. 25 MONTANO, T. op. cit. p. 53. 26 LEAL, C.B. A Delinquência Juvenil seus Fatores Exógenos e Prevenção. Rio de Janeiro: Aide Editora. 1983. p. 168-169.

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Apesar de existirem garantias claramente expressas na Constituição de 1988 e no Estatuto da Criança e do Adolescente, Faleiros (1998) diz que as políticas públicas são descomprometidas com os princípios de prioridade absoluta às crianças e adolescentes, sendo assim o Estado um dos principais responsáveis pela violência. 27 A falta de conexão entre as políticas públicas é um dos maiores problemas para o seu correto funcionamento, existem várias ações isoladas e desconexas oferecidas pelo estado e que não tem uma continuidade. Nesse sentido, Ando e Ando (2008, p. 1) enfatizam a importância da constituição de uma rede para a prevenção da violência:
Os alvos das medidas de prevenção e promoção dessa rede - a família, a escola, as comunidades, a mídia, o setor saúde, a justiça e segurança pública e o mercado de trabalho -, devem manter o foco nas diferentes percepções de prevenção da violência: prevenção primária (destina evitar que a violência surja), prevenção secundária (realizada quando a violência já ocorreu) e prevenção terciária (compondo-se de respostas mais em longo prazo, visando intervir, controlar e tratar os casos reconhecidos; buscando reduzir os efeitos, seqüelas e traumas, prevenir a instalação da violência crônica e promover a reintegração dos indivíduos). Os investimentos em prevenção são mais eficazes e permitem resultados mais sólidos 28 do que aqueles derivados da repressão e da persecução criminal.

Nessa articulação de serviços é necessário o trabalho de diversos profissionais, e o psicopedagogo, não pode ser visto mais apenas como o profissional que é chamado para resolver um problema isolado de aprendizagem, mas que passa a ter um olhar apurado sobre todo o processo do desenvolvimento humano, sobretudo das crianças e adolescentes, inclusive envolvido na construção de políticas públicas a esse público.

3. FATORES INFLUENCIANTES À CRIMINALIDADE JUVENIL 3.1. A INFLUÊNCIA DA FAMÍLIA

A família historicamente é reconhecida como a base para o desenvolvimento de qualquer sujeito, principalmente no que tange a formação do caráter. Para Gomide (2001, p.37) a família sofreu uma enorme chaga devido a inúmeros fatores presentes em nossa sociedade:
Há uma correlação estreita entre as características dos pais ou familiares e/ou dinâmica familiar e o posterior desenvolvimento de comportamentos desviantes. A família se enfraqueceu enormemente em nossa sociedade. Sua unidade interna foi minada pela pauperização, assolada pela arbitrariedade policial nos grandes bairros FALEIROS, V.P. Redes de exploração e abuso sexual e redes de proteção. In: Anais do 9º Congresso Nacional de Assistentes Sociais, Brasília, 1998. 28 ANDO, D.A.; ANDO, N.M. op. cit. p. 01.
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periféricos, pelo tráfico de drogas, pelo alcoolismo, pela violência, pela prostituição e pelo abandono dos filhos. Sem que os pais assumissem nenhuma responsabilidade sobre seus filhos, as mães repetiam casamentos similares várias vezes, perdendo-se os filhos dos primeiros matrimônios na rejeição e na violência das relações 29 familiares degradadas.

Essa avaria sofrida pela entidade familiar pode facilmente ser percebida pela grande presença de famílias monoparentais, principalmente a ausência do pai, e também avós ou outros parentes criando filhos alheios. Segundo Cordeiro (2012) a aprendizagem é produto de uma relação sadia entre família, escola e aluno, e o trabalho do psicopedagogo deve se preocupar com essas relações. Problemas nessas relações podem desencadear alem de problemas de aprendizagem, também problemas comportamentais e afetivos. 30 Nessa perspectiva, Gomide (2001, p. 39) diz que postura dos entes familiares, principalmente dos pais tem relevante peso na formação do caráter de uma criança, essa influência pode ser positiva ou negativa e depende primariamente das referências paternais:
Um pai que, chegando em casa raivoso, bate em seu filho, independentemente do que o filho esteja fazendo, poderá conseguir desencadear na criança um sentimento de rejeição e estará fazendo com que a punição perca o seu poder educativo, pois ficará associada à falta de afeto e amor. A ligação entre a carência e o crime é proporcionada pela assertiva de que a carência prejudica fortemente a capacidade para constituir relações afetivas com os outros, que podem, então, ser prejudicados sem remorsos. A vítima potencial é o indivíduo que representa o algoz do adolescente ou que, simplesmente, nada significa. Isto porque os vínculos afetivos, que, sequer foram desenvolvidos com os pais, não poderão, portanto, ser 31 generalizados para estranhos.

É possível assim dizer que a família exercer forte influência sobre o ingresso de um jovem no mundo do crime, podendo esta exercer influência positiva ou negativa.

3.2.

A RELEVÂNCIA DA EDUCAÇÃO, CULTURA, ESPORTE E LAZER

A educação aparece como direito fundamental na Constituição Federal, direito imprescindível para o satisfatório desenvolvimento do ser humano, sendo reafirmado no ECA e posteriormente na Lei de Diretrizes da Educação Brasileira:
Art. 2º. A educação é direito de todos e dever da família e do Estado, terá como bases os princípios de liberdade e os ideais de solidariedade humana e, como fim, a

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GOMIDE, P.I.C. Menor infrator: a caminho de um novo tempo. 2. ed. Curitiba: Juruá, 2001. 178p. p. 37. CORDEIRO, J.D. op. cit. 31 GOMIDE, P.I.C. op. cit. p. 39.
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formação integral da pessoa do educando, a sua preparação para o exercício da cidadania e a sua qualificação para o trabalho. 32

De acordo com o art. 54 do Estatuto da Criança e do Adolescente, o Estado buscará a efetivação do direito à educação, assegurando o ensino fundamental gratuito e universal a todos, garantindo ainda as devidas assistências necessárias para o ingresso e permanência dos alunos na escola: material didático, transporte, alimentação e auxilio saúde. A importância das crianças e adolescentes terem o direito assegurado à educação é inquestionável, alem claro, de toda assistência necessária para poderem trilhar sua trajetória acadêmica sem contratempos. De acordo com Carvalho e Gequelin (2007) existe uma estreita relação entre a criminalidade e o insucesso escolar, justificando que o abandono adolescente ao meio acadêmico é fator relevante para a entrada no mundo do crime. 33 Dados apresentados por Lima (2008) deixam isso mais claro, no período compreendido de (1993 a 1996), 51,5 % dos encarceramentos nas unidades reabilitadoras juvenis no município de São Paulo-SP foi de jovens com idade entre 16 e 17 anos e cujo nível de escolaridade concentra-se no nível fundamental (85,2%). 34 Nessa mesma vertente, Silva e Gueresi (2003) mostram que em 2002, 51% dos adolescentes cumprindo medida de internação no País estavam fora da escola no momento da apreensão e 6% eram analfabetos, quanto ao nível de escolarização, 89,6% dos adolescentes internados não concluíram o Ensino Fundamental mesmo tendo faixa etária de 16 a 18 anos, equivalente ao ensino médio. 35 Evidencia-se o insucesso de nosso modelo educacional e que ele é determinante a ingresso do jovem no mundo do crime. Existe uma ligação entre a escola, a família e a sociedade, para Cordeiro (2012, p. 8), o Psicopedagogo deve se atentar a todos os fatores que podem levar ao fracasso escolar, e as interferências que podem ocorrer:
A visão do Psicopedagogo precisa transpassar o tempo entre o sujeito, família e escola fazendo um diagnóstico da biografia desse sujeito para uma construção dos
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BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União, Brasília, DF: MEC, 23 dez. 1996. 33 CARVALHO, M.C.N. ; GEQUELIN, J. (2007). op. cit. 34 LIMA, R.S.P. Segurança pública e violência: O estado está cumprindo seu papel? São Paulo: Editora Contexto, 2008. 35 SILVA, E.; GUERESI, S. Adolescentes em conflito com a lei: situação do atendimento institucional no Brasil.Texto para discussão nº 979. Ipea, Brasília, 2003.

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fatos para apoiar a sua aprendizagem. Com certeza o Psicopedagogo utilizará um trabalho interdisciplinar para obter um bom resultado tanto na intervenção quanto na 36 precaução obtendo recursos de diversas áreas.

Fica nítida a necessidade do trabalho em equipe e a coerência nas ações realizadas pelos diferentes atores envolvidos na educação das crianças e adolescentes, pois ninguém nasce fadado à marginalidade ou então predisposto a causar mal a terceiros, o que existe é a junção de fatores que podem levar a pessoa a tomar atitudes que vão contra a harmoniosa convivência em comunidade. Para Neta (2007) é de suma importância a presença do psicopedagogo na equipe pedagógica da escola frente às dificuldades e necessidades da escola na atualidade:
A composição de uma equipe técnica pedagógica sólida e integrada que possa atuar junto aos agentes educacionais visando a uma melhor qualidade das atividades escolares no que se refere à aprendizagem se faz necessário. Neste contexto destacase a importância da inserção do psicopedagogo nesta equipe. Este profissional habilitado para lidar com questões relacionadas à aprendizagem, poderá contribuir para a qualificação da escola pública admitindo o trabalho sistêmico que pode ser desenvolvido na escola, do ponto de vista didático-metodológico, assim como em relação à ampliação ou reconstrução da verdadeira função da escola frente ao contexto social instituído. É conveniente considerar que o psicopedagogo institucional pode oportunizar que professores, diretores e coordenadores repensem o papel da escola frente às necessidades individuais de aprendizagem da criança ou, 37 da própria “ensinagem”.

A educação representa elemento primordial ao desenvolvimento do caráter e habilidades necessárias ao jovem, porem não pode ser um direito isolado, segurança, cultura, esporte e lazer devem necessariamente andar atreladas a educação, imprescindíveis à formação emocional, social, cultural e motora do sujeito. Elias (2005) ressalta a importância da cultura, do esporte e lazer no processo de formação dos indivíduos, sob o ponto de vista físico e mental, contribuindo significativamente para afastar crianças e adolescentes dos perigos das drogas e outros vícios que prejudicam o desenvolvimento de uma personalidade saudável, o que no futuro, poderá levá-los a uma vida sem qualidade e à criminalidade. 38 A incumbência por proporcionar essas condições, ou seja, pela construção de praças, complexos e ginásios esportivos, bem como instalação de teatros populares e promoção de shows abertos ao público, alem é claro, de centros educacionais e a valorização dos profissionais, segurança e saúde é do Estado, responsável por oferecer aos cidadãos às
36 37

CORDEIRO, J.D. op. cit.. p. 08. NETA, M.A.H.M. A Psicopedagogia Institucional no Brasil bom a ótica da mundialização da educação. Psicopedagogia, educação e saúde. São Paulo, 2007. Disponível em: <http://www.psicopedagogia.com.br/artigos/artigo.asp?entrID=939>. Acesso em: 30 de abr. 2013. p. 01. 38 ELIAS, N. Introdução à sociologia. Lisboa: Edições 70, 2005. 202p.

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condições adequadas ao seu desenvolvimento e bem estar, porem cada cidadão tem a responsabilidade de reivindicar, construir e zelar pelos seus direitos e deveres, exercendo assim sua cidadania.

3.3.

O JOVEM E O MERCADO DE TRABALHO

Outro grande problema que o jovem enfrenta e que está diretamente atrelado a educação é a falta de oportunidade de trabalho e os baixos proventos recebidos por seu labor. Grande parte desse problema poderia ser resolvido com sua correta profissionalização, que inclusive encontra-se descrita como direito, elencado no ECA (capítulo V, art. 60 a 69). No entanto a maior parte das escolas apenas prepara o jovem para o vestibular, obtendo um saber desconexo da realidade social.39 “O direito ao trabalho repousa basicamente na proteção do interesse individual de ter liberdade para exercer as potencialidades que todo trabalho humano comporta e na proteção o interesse individual de prover as próprias necessidades”.40 (MACHADO, 2003, p. 176). Deve-se tomar cuidado para não confundir o direito ao trabalho protegido (14 a 18 anos) com direito a profissionalização. De acordo com Machado (2003, p. 188):
[...] o direito à profissionalização objetiva proteger o interesse de crianças e adolescentes de se preparem adequadamente para o exercício do trabalho adulto, do trabalho no momento próprio; não visa o próprio sustento durante a juventude, que é necessidade individual concreta resultante das desigualdades sociais, que a 41 Constituição visa reduzir.

Ainda Machado (2003) expressa o fundamental papel da educação na qualificação profissional dos adolescentes, garantindo ao mínimo igualdade entre os cidadãos quanto a inserção no mercado de trabalho, sendo completamente diferente o trabalho precoce e profissionalização ao trabalho.42 Geralmente a iniciativa de estudar está diretamente relacionada à preocupação de ter um emprego, e portanto uma renda, porem as oportunidades de trabalho são mais restritas aos jovens do que aos adultos, mesmo contando com a mesma qualificação. A Pesquisa
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BRASIL. op. cit. MACHADO, M.T. A proteção constitucional de crianças e adolescentes e os direitos humanos. São Paulo: Manole, 2003. 426p. p 176. 41 Id.Ibdem. p. 188. 42 Id.Ibdem.

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Nacional de Amostra Domiciliar (IBGE 2009) elucida que o desemprego juvenil é quase três vezes maior que a taxa entre os adultos analisando inclusive a qualificação equivalente.43 Nessa perspectiva a Cartilha de Políticas Públicas de Juventude (Brasil, 2013) aponta que geralmente as oportunidades de trabalho oferecidas aos jovens são de curta duração, baixa remuneração e normalmente trabalhos informais, não possibilitando assim um desenvolvimento profissional. A situação ainda é mais critica com os jovens de baixa renda, baixa escolaridade, moradores de áreas metropolitanas, negros e mulheres, evidenciando a perpetuação do “ciclo da pobreza”.44

3.4.

A IMPORTÂNCIA DO PROTAGONISMO E DA CONSCIÊNCIA POLÍTICA

Protagonizar é tomar atuação de destaque, ser o principal ator, logo, um sujeito protagonista é uma pessoa que toma partido nos rumos de sua vida, luta por seus ideais, que faz o possível para alcançar seus objetivos e nesse sentido, contribui para toda uma sociedade. De forma cotidiana ouve-se na sociedade dizerem que a juventude é desinteressada, que não luta como as gerações anteriores e que está fadada ao insucesso, Spósito (1997) diz que é necessário reconhecer que histórico e socialmente, a juventude é encarada como fase da vida marcada por certa instabilidade associados a determinados problemas sociais, porem o modo de apreensão de tais problemas também muda.45 O cenário político nacional com constantes escândalos de corrupção, politicagens e contraversões, contribuiu para que o jovem se tornasse apolítico (no sentido institucionalizado), vale lembrar que não são os jovens que estão no poder e, portanto não são eles que corrompem. Portanto, não seria correto afirmar que o jovem não exerce seu protagonismo, porem não como ele é conhecido historicamente, quando sempre esteve atrelado a política partidária ou politicagens e sim de formas inovadoras, desenvolvendo novas tecnologias,

IBGE. Estatística de trabalho e rendimento. Banco de dados. Disponível em:<http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pnad2009/>. Acesso em: 30 de mar. 2013. 44 BRASIL. Cartilha de Políticas Públicas de Juventude. Imprensa Nacional. Brasília, DF: Secretaria Nacional de Juventude. 2013. 45 SPÓSITO, M. P. Estudos sobre a juventude em educação. Revista Brasileira de Educação, n. 5-6, Juventude e Contemporaneidade, São Paulo: Anped, maio-dez., 1997.

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novos conhecimentos, formas alternativas de expressar a opinião e dificilmente fazendo questão de se envolver com a política partidária que tanto abomina. As mudanças de comportamento observadas na sociedade, o individualismo, o culto ao poder econômico, o descrédito na política e uma cultura pautada sobre o consumismo podem ser levadas em conta para justificar a não atribuição de credito por parte dos jovens às organizações políticas. O problema é que nesse distanciamento da política, a elaboração de diretrizes (políticas) públicas fica comprometida, e geralmente elas acabam sendo elaboradas por pessoas de grupos sociais que tem interesses singulares aos necessários pela juventude, resultando em planos desconexos com a realidade vivencial desses jovens. Em 2011 aconteceu a 2ª Conferencia Nacional da Juventude em Brasília-DF, contou com representantes da juventude de toda a nação, jovens de diversas vertentes ideológicas, culturas, credos, cor, sexo e identidade de gênero estiveram presentes defendendo suas ideologias e necessidades, procurando construírem soluções para suas demandas, foi interessante observar in loco46 que muitas reivindicações são tratadas por gestores ou mesmo por telespectadores como desnecessárias, mesmo estes não conhecendo os grupos e suas particularidades e muito menos o objetivo a que essas reclamações se destinam, a presença de representantes tanto do executivo como do legislativo federal foi ínfima, não condizendo com a grandeza de uma conferência nacional que acontece a cada 3 anos e que trata de assuntos importantíssimos ao futuro na nação. Um dos temas centrais tratados na conferência foi o “Estatuto da Juventude”47, que acaba de ser aprovado pelo Senado Federal no dia 16/04/2013, que trata dentre outros assuntos da necessidade do acesso ao ensino superior, técnico e profissionalização do jovem brasileiro como indispensável para o seu protagonismo, alem do acesso imprescindível à cultura, esporte, saúde, entre ouros já elencados em outras leis como o ECA48. O projeto de Lei agora será retornado à Câmara dos Deputados e posteriormente sancionado pela Presidente da República. Portanto, mesmo existindo um histórico que desestimula o jovem de participar da política, esse é um papel que inevitavelmente deve ser ocupado por ele, praticamente

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Fui um dos conselheiros que representaram o estado do Mato Grosso do Sul na 2ª Conferencia Nacional da Juventude que aconteceu no ano de 2011 em Brasília-DF 47 BRASIL. Estatuto da Juventude. Projeto de Lei da Câmara, nº 98 de 2011. Brasília-DF. 48 BRASIL. op. cit.

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impossível uma política pública surtir o efeito esperado se ela não é elaborada de acordo com a opinião de quem dela necessite, nessa linha de raciocínio, o trabalho do Psicopedagogo deve ser mais ousado que descobrir as causas dos problemas de aprendizagem e saná-los, precisa exercer um papel de estimulador para o pleno desenvolvimento do aluno, desenvolvimento ético, cultural, psicomotor, e principalmente estimular o protagonismo e o senso ético que se faz tão ausente em nossa sociedade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao considerar a delinquência juvenil e também a crescente violência geral, é perceptível que esse fenômeno decorre de inúmeras causas, às influências negativas do insucesso escolar (causado principalmente pela falta de investimentos), privações de esporte, cultura e lazer, falta de oportunidade de trabalho, desmantelamento da instituição família, aliada ainda a constantes pressões da mídia dizendo direta ou indiretamente às pessoas o que fazer, o que devem ter e como se comportar, esses fatores exercem um efeito devastador sobre as pessoas e, sobretudo aos jovens que ainda são seres em formação. Uma nova geração nada mais é que o reflexo da antiga, portanto, o jovem e seu comportamento são lúcidos reflexos da cultura que foi perpetuada e ascendida pelas anteriores gerações. Se a sociedade chegou a um estágio que a insegurança e o medo se tornaram coisas banais, as falhas na educação, o desmantelamento das famílias, a certeza na impunidade, o culto à culturas que sobretudo preconizam o materialismo, o individualismo e o poder do dinheiro sobre os homens, fica fácil perceber que algo está errado. Portanto, é imprescindível uma mudança ideológica urgente, é necessário que surjam protagonistas, sobretudo jovens, pois estes inevitavelmente tomarão as rédeas da sociedade, investimentos maciços em educação, mas não uma educação bancária, e sim uma educação para formação integral, crítica, aonde exista o acesso a cultura, esporte e lazer, que seja uma educação ética e moral para a preparação de verdadeiros cidadãos. Nesse processo que o Psicopedagogo se torna um profissional indispensável, não pode ficar a margem do processo educacional, seu trabalho na prevenção e tratamento de problemas na aprendizagem é de suma importância, porem deve ir alem, pois ele tem possibilidade de fomentar o senso crítico, fazer o sujeito analisar sua realidade social e suas

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atitudes perante a sociedade e também envolver os pais e a comunidade no processo educativo. Como ficou evidente existe educação apolítica, na qual não pode existir uma prática educativa neutra, descomprometida, apolítica. Pode-se destacar que a diretividade da prática educativa que a faz transbordar sempre em si mesma e a perseguir um certo fim, um sonho, uma utopia, não permite a neutralidade. Portanto, se busca-se uma sociedade mais justa e igualitária, é imprescindível a formação de cidadãos e não apenas de habitantes da nação. Certamente em sociedade sem mazelas sociais, portanto mais justa e igualitária, a criminalidade tanto a juvenil quanto a adulta não será mais motivo para tanta fobia. Para finalizar deve-se indicar que o presente estudo não buscou ser determinante nos resultados, e também esgotar o tema em questão. Ao contrário, busca incentivar mais estudos acerca dos temas aqui discutidos.

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