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Análise crítica de livro didático.

Este trabalho consiste em analisar criticamente um livro didático do ensino fundamental ou médio, de Língua Portuguesa, sob alguns aspectos que julgamos serem relevantes para despertar o interesse do aluno a respeito do conteúdo ali apresentado e assim contribuir para seu crescimento intelectual de forma natural e eficaz. O obra aqui escolhida é o livro "Português: Literatura, Gramática e Produção textual" da editora Moderna, cujos autores são Leila Lauar Sarmento e Douglas Tufano. A capa da obra traz a foto de um quadro chamado "Banhistas em Asnières" (1884) de Georges Seurat (informação contida no próprio livro). O quadro, como diz sua denominação, nada mais é do que banhistas a beira de um lago em um momento tranquilo, pacífico, aparentemente sem desconforto algum. Desta forma, fica implícito pelo design da capa do livro que tal foto representa um pouco do que esperam que a obra traga ao aluno na hora de usá-lo: um sentimento de prazer que crie um clima confortável de leitura e produção. Sobre a foto mencionada, ainda há o selo da FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) com seu código e o seguinte aviso: "venda proibida". Trata-se de um livro não-consumível - o que vem escrito na capa além do título, suas subdivisões, os nomes dos autores e da editora. Na folha de rosto temos a mesma foto (em tamanho reduzido), o título, as subdivisões, os nomes dos autores com seus títulos (Leila Lauar Sarmento é licenciada e pós-graduada em Língua Portuguesa pela Universidade Federal de Minas Gerais e professora e coordenadora de Língua Portuguesa em escolas particulares de Belo Horizonte. Douglas Tufano é licenciado em Letras e Pedagogia pela Universidade de São Paulo) assim como o nome dos ilustradores (Rogério Borges, Luiz Fernando Rubino, Ivan Coutinho, Carlos Avalone e Osnei), da editora (Moderna), a edição da obra (primeira), o lugar (São Paulo), o ano (2004) e o carimbo da ABDR (Associação Brasileira de Direitos Reprográficos) alertando sobre o crime que é copiar material não autorizado. Ainda há toda uma parte dirigida ao aluno pedindo para que cuide bem do livro, pois ele será útil para outro aluno no próximo ano letivo. Tanto a capa quanto a folha de rosto focam a necessidade do aluno em conservar o livro didático, de não comercializálo nem copiá-lo sem autorização e de devolvê-lo ao final do ano à professora por ser um livro destinado a colégios públicos. Na apresentação da obra escrita pelos autores, eles afirmam que o intuito do livro é fazer você, aluno (sim, eles utilizam a técnica de se voltar para seu leitor como se aquilo tivesse sido escrito só pra ele, criando uma espécie de aproximação entre ambos), um produtor e leitor de textos críticos, no exercício

de acordo com a apresentação. os conteúdos são apresentados assim como o número da página onde podem ser encontrados. é até interessante abordar o contexto histórico dos movimentos literários. Primeiro é contrastada a Gramática e as variantes da língua. Além deste fator. No estudo gramatical. No campo da Literatura. No âmbito literário. ou seja. Há também dicas de filmes e livros sobre os assuntos abordados. No estudo literário. a Gramática e a Produção Textual são divididas em capítulos e. Isso prejudica o aluno na compreensão daquilo que está sendo lido. os exercícios não trazem reflexão. lugares. apenas pedaços são trabalhados. a tal "fixação de conteúdos"). ela sendo ensinada separadamente do texto numa linguagem mais informal . Já no estudo da Gramática. na Produção de Texto. Não há questões para serem discutidas e sim o famoso questionário sobre o "texto acima". oferecendo-o um livro instigante. Neste momento. Porém.diríamos que isto "não cheira bem". Em relação ao estudo da Gramática. Os exercícios . ilustrações de boa qualidade estão sempre de acordo com o tema relacionado.da cidadania. A Gramática acontece dentro do texto. Por fim. dentro dos capítulos. com a oralidade. sem colocar a importância da Literatura em datas. Algumas considerações a respeito da apresentação detalhada no parágrafo acima serão feitos agora. Que os contextos históricos sejam passados brevemente. nossa análise parte para outra fase: eis a hora de verificar se no decorrer do livro didático. as variantes linguísticas e a interpretação de imagens. os alunos trabalharão com os movimentos literários dentro dos seus contextos históricos. cheio de atividades variadas para que as aulas fiquem mais dinâmicas (assim como a realização de debates sobre temais atuais). alguns textos e/ou poemas não são usados na sua plenitude. o livro apresenta tudo aquilo que foi previamente mencionado pelos autores na apresentação. a Literatura aqui deve ser prazerosa. Em seguida. etc. deve despertar o interesse do aluno em ler. e não ser apenas mais uma disciplina para decorar informações. focando na Literatura Portuguesa como berço da Literatura Brasileira. deveria vir somente na Produção Textual). Entretanto. tem início a tal "fixação de conteúdos". são abordadas as variantes linguísticas (o que seria perfeito para fazer um contraste com a rigidez gramatical . Por que separá-los? Na área da Produção Textual. textos verbais e não verbais os ajudarão na fixação dos conteúdos e na sua adequada aplicação. A Literatura. por exemplo. A seguir. percebe-se que o primeiro item a ser lecionado é a questão das variantes linguísticas (o que. os alunos lidarão com o estudo dos gêneros do cotidiano. temos o sumário. Tudo começa a ser transmitido como a mais absoluta verdade sem ouvir o que eles têm a dizer sobre o tema e nem deixá-los chegar a conclusão por eles mesmos.

que variam de acordo com as necessidades e experiências da vida em sociedade" (P. por exemplo). Sobre o ensino da Gramática. esta artimanha é intensificada no ensino da Gramática. Já na Produção de Texto. Nota-se que os autores da obra oferecem um espaço maior para a opinião do aluno na área de Produção de Texto. no trabalho e em outros contextos relevantes para a sua vida" (P. Imagens são trabalhadas como texto. o livro muitas vezes deixa a desejar no sentido de não seguir aquilo que está na sua apresentação. A parte final desta análise crítica visa conferir a adequação do livro didático aqui comentado com os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais). em sistemas arbitários de representação. notamos a presença de exercícios que pedem troca de idéias. A preocupação com os vários tipos de linguagem leva em consideração sua importância dentro do meio social descrita pelo PCN: "A linguagem é considerada aqui como a capacidade humana de articular significados coletivos e compatilhá-los. Todavia. Ainda lembramos as dicas de filmes e livros dentro do ensino literário e voltamos ao PCN e a aplicação das "tecnologias da comunicação e da informação na escola.6). Um ponto que deve ser ressaltado: há muito mais interpretação de texto do que produção (e na apresentação os autores deixam bem claro que uma das intenções do livro é fazer do aluno um leitor e PRODUTOR de textos críticos).12). argumentações (situações que os alunos encontrarão no mercado de trabalho futuramente). é outro ponto que pode ser facilmente identificado na nossa sociedade (placas e sinais de trânsito. debates. Percebemos que no plano pedagógico.5). por exemplo) e que é ressaltado pelo PCN: "As condições e formas de comunicação refletem a realização social em símbolos que ultrapassam as particularidades do sujeito.gramaticais também trabalham com exemplos já preparados para tal.o que acontece mais na Produção de Texto). Seus exercícios são 90% repetição/fixação e abordam os conteúdos como verdades absolutas e a Gramática não é trabalhada com textos e sim exemplos prontos para tal. há a utilização das linguagens verbais e não-vernais. charges e histórias em quadrinhos também são explorados. A utilização de imagens como textos. que passa a ser visto em interação com o outro" (P. É uma obra que se divide entre o tradicional (em sua maioria) e o alternativo (quando os alunos são permitidos a emitir seus pontos de vista . O aluno não vê a gramática atuando dentro de um texto não preparado para o exercício (em uma conversa na própria sala de aula. o PCN tece um comentário que serve como reflexão não somente a respeito da forma como este livro didático trabalha . o que muitas vezes confunde os alunos. Daí nasce a indagação: Por que aprender Gramática? Pra que serve? E se na Literatura alguns textos e/ou poemas já eram trabalhados em partes.

Quatro questões estão presentes na pergunta. avaliadores e críticos que manipulam os livros didáticos nem sempre se dão conta de que eles são o resultado da longa história da escola e do ensino".. sem a participação dos alunos na criação de conceitos e na descoberta da arte como fenômeno transformador. Vamos ver o que está escrito no PCN sobre o ensino da Literatura? "Aula de expressão em que os alunos não podem se expressar [. o livro didático continua sendo um importante instrumento de trabalho. recordamos que o livro traz exercícios nada reflexivos. rebatendo enfaticamente as críticas que fazem ao seu uso. defende o livro didático na sala de aula. a pergunta revela o reconhecimento da permanência do livro didático ao longo do tempo. escrita e alfabetização. O que não é aconselhável é usá-lo como uma imposição. etc. questões fundamentais em uma reflexão sobre livro didático: primeiro. Esta análise chega ao fim percebendo o quanto este livro didático é falho no que diz respeito a sua adequação ao PCN e na falta de reflexão em áreas como as da Literatura e da Gramática MAGDA Magda Soares. mas como este conteúdo é abordado na escola de uma forma geral: "Será que a Gramática que se ensina faz sentido para aqueles que sabem Gramática porque são falantes nativos? A confusão entre norma e gramaticidade é o grande problema da Gramática ensinada na escola" (P. temos declarações surpreendentes sobre o que é e o que não é literário. uma prescrição que deva ser seguida passo a passo. Por quê? Magda Soares .. refletir sobre o assunto e procurar seu próprio caminho dentro do mundo da Literatura. mas se deixar dirigir. estuda há anos a importância do livro didático no dia-a-dia do magistério. é renunciar à liberdade que o professor tem. a pergunta caracteriza bem o livro didático. Afirma que trata-se de um erro histórico. O conceito de literário é discutido" (P. Com mais de 24 obras publicadas sobre letramento. sobre o que é considerado literário só porque um grupo de intelectuais decidiu. afirma em entrevista à Nós da Escola.16). doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A respeito da Literatura. pode e deve ter".]. Ou seja. "O livro didático é necessário e eficaz.o ensino gramatical. sempre presente em todas as situações formais de ensino: "Professores e alunos. quando ao aluno lhe é permitido falar. chamando-o de "instrumento de trabalho". . por ele. exclusivamente.16). Assim a aula se torna um grande debate que fará o aluno. leitura. ao usar o verbo "continuar". segundo. Embora receba várias críticas. já que o livro persistiu ao longo dos séculos. ao final. linguagem.

atividades apropriadas.Platão aconselhava o uso de livros de leitura que apresentassem uma seleção do que havia de melhor na cultura grega. críticas que é necessário discutir e rebater. como instrumento para garantir a aquisição dos saberes escolares. na verdade.com mais tempo. Essa autonomia e liberdade estão garantidas quando o professor usa o livro didático apenas como um instrumento de trabalho. ações e tarefas são ordenadas e hierarquizadas. a pergunta menciona as "varias críticas" que o livro didático recebe. fosse ele livro "utilizado" para ensinar e aprender. hierarquização e seqüenciação. reflexão. coisas para as quais o professor dificilmente teria tempo ou condições. o livro didático persistiu ao longo dos séculos. habilidades e competências. práticas sociais. outros exemplos são os livros religiosos. Um erro histórico. daqueles saberes e competências considerados indispensáveis para a inserção das novas gerações na sociedade.Uma das crítica feitas ao livro didático . ele fornece ao professor textos e propostas de atividades que viabilizam a sua ação docente. a pergunta qualifica esse instrumento de trabalho que é o livro didático como "importante". avaliadores e críticos que. Acho que seria interessante comentar essas questões.selecionou textos adequados. abecedários. as condições de trabalho que são dadas ao professor no Brasil.é que ele tira a autonomia e liberdade do professor para buscar ou criar.Apesar das grandes mudanças que a escola tem experimentado ao longo do tempo. criado para oprimir e submeter os professores e enriquecer autores e editores.terceiro. a turma. Quais são então as críticas feitas aos livros didáticos? Magda Soares . são ensinados e aprendidos conhecimentos. selecionados no amplo campo da cultura. circulou desde então e por mais de vinte séculos como manual escolar. como se ele fosse um material didático recém-inventado. lançando mão dos textos e das atividades que o livro propõe como uma facilitação de seu trabalho: alguém o autor ou os autores do livro didático . O professor que se deixa dirigir exclusivamente pelo livro didático está renunciando autonomia e à liberdade que tem. Um dos pontos falhos dessa crítica é que ela não considera. da longa história da escola e do ensino.As críticas que atualmente são feitas ao livro didático chegam a defender sua rejeição. hierarquizados e seqüenciados. programas. sempre presente em todas as sociedades e em todas as situações formais de ensino. a série. isto é. ou de ter uma outra atividade. porque o livro didático surgiu já na Grécia Antiga . escrito em 300 a. manipulam tão tranqüilamente os livros didáticos nem sempre se dão conta de que eles são o resultado de uma longa história. fosse livro propositadamente "feito" para ensinar e aprender. o ensino sempre se vinculou indissociavelmente a um livro "escolar". Este vínculo do ensino com o livro didático limita o trabalho do professor? Magda Soares . que pode ter e que deve ter. oferece a ele suporte para a realização de sua tarefa . o material e as atividades com os quais desenvolve o processo de ensino e de aprendizagem. Outro ponto falho é que não é propriamente o livro didático que tira a autonomia e liberdade do professor. informações necessárias. o trabalho obedece a determinadas regras e rituais e é avaliado. ele mesmo. Um exemplo: "Os Elementos de Geometria".e aqui continuo a rebater essas críticas . de Euclides. característica que é a sua própria essência: na escola. o que exige busca. para sobreviver. gramáticas. Professores e alunos. hoje. aqueles saberes que não é permitido a ninguém ignorar. no Brasil. Qual o motivo da permanência do livro didático na escola? Magda Soares . Nesse sentido. Ao longo da história.C. por causa das condições atuais de trabalho dos professores que. hoje. mais vagar e quase sempre mais experiência. o livro didático foi criado. e isso aconteceu antes mesmo de serem estabelecidos programas e currículos mínimos. materiais didáticos representam estratégias sociais e educacionais para concretizar e operacionalizar essa seleção. caracterização com que concordo plenamente. sua eliminação das salas de aula. livros de leitura que povoaram as escolas por meio dos séculos. pesquisa. . Currículos. o que é particularmente importante hoje. alunos são distribuídos em grupos organizados por determinados critérios .. o tempo é dividido e controlado. uma característica ela nunca perdeu.o ciclo. Além disso. de existência ainda indefinida e perigosa. a partir daí. finalmente. têm ou de se ocupar com aulas em dois e às vezes até três turnos. na escola. paralela à do magistério. eu até diria "não respeita". sobretudo.

Considero de grande importância para a educação e o ensino a ação que o MEC vem exercendo na área do livro didático: ao constituir comissões de especialistas para fixar critérios de qualidade do livro didático e para avaliar os livros oferecidos por autores e editores. No passado. . diminuiu muito o número de livros que as editoras submetem apreciação e também o número de livros que as comissões rejeitam como "não recomendados". não deve ser um ato individual. o MEC vem desenvolvendo ações que visam à melhoria da qualidade do livro didático. O que explica a permanência de alguns títulos no mercado. quanto à escola privada. seja adequado ás características de seus alunos e ao projeto político-pedagógico da escola. os critérios variam de disciplina a disciplina. no mercado. Quais os critérios para a escolha de um livro didático? Magda Soares . não pode veicular preconceitos de classe. dominou. Como esses critérios se fundamentam em aspectos que são ou devem ser comuns aos professores de uma mesma escola. dos 511 livros para as primeiras séries do Ensino Fundamental apresentados pelas editoras. o ensino de Português. portanto. foram recomendados apenas 66. mas deve ser assumida pelo grupo de professores. deve ser um ato coletivo. Se a escolha for feita entre os livros avaliados e recomendados. de Fausto Barreto e Carlos de Laet. a 43ª. ou comuns aos professores de uma mesma disciplina. seu tempo de vida nas salas de aula e. etnia. em 1969. garantindo a qualidade dos livros entre os quais os professores podem escolher e que os alunos podem receber. tanto da escola pública quanto da escola privada. Nas últimas décadas. o número de edições de um mesmo livro didático é bem menor.Os Guias publicados pelo MEC apresentam os critérios utilizados para a avaliação dos livros didáticos. com as resenhas críticas dos livros assinalados. ora dos professores de uma determinada disciplina. cor gênero. houve livros didáticos com numerosas e sucessivas edições utilizados por 40. seis anos. a escolha do livro didático não pode ser responsabilidade de cada professor. um exemplo é a "Antologia Nacional". porque cada uma tem suas especificidades. aqueles que constam do Guia. o que indica que não só as próprias editoras vêm sendo mais criteriosas na seleção dos livros que publicam. cinco.em 1997.Desde 1995. ao longo das décadas. por meio do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD). os números comprovam que a qualidade dos livros vem melhorando significativamente: nas primeiras avaliações. para orientar suas escolhas. com sua última edição. constatamos que esse tempo vai se tornando cada vez mais curto. o MEC presta um grande serviço tanto à escola pública. é que o livro seja coerente com a concepção que o professor tem da natureza do conteúdo que ensina e dos objetivos do ensino desse conteúdo. ora da escola como um todo. como também autores têm reformulado seus livros ou construído novos livros atentos aos critérios de qualidade. esses mesmos critérios podem orientar a escolha de livros por uma escola ou professor. com uma avaliação externa dos livros oferecidos no mercado. já foram excluídos os livros que ferem critérios que não podem deixar de ser considerados: um livro didático não pode apresentar conceitos ou informações incorretas. Se tomamos uma perspectiva histórica. etc. que conta. Ao longo dos anos e das avaliações. por exemplo.É realmente um fenômeno interessante a questão do tempo durante o qual um determinado livro didático permanece no mercado. Para além desses critérios que valem para todo e qualquer livro. no caso das característica dos alunos e do projeto político pedagógico. no caso da concepção da natureza e dos objetivos da disciplina. por mais de 70 anos. Os Guias de Livros Didáticos publicados pelo MEC após cada avaliação. geralmente. uma grande percentagem dos livros encaminhados ao MEC eram excluídos ou não recomendados . 50 anos nas salas de aula. não ultrapassa. publicada em 1895. porém. durante décadas? Magda Soares . Um critério fundamental de escolha. nas últimas avaliações. constituem uma orientação preciosa para professores. A qualidade dos livros melhorou? Magda Soares .

Quanto á segunda parte da pergunta . Por que o Brasil comemora o Dia Nacional do Livro Didático? Magda Soares . para que não se limitem ao livro didático. os editores e. novas metodologias. um fundamental instrumento de trabalho para o ensino e a aprendizagem escolar.Livro didático e paradidático são diferentes quanto a seus objetivos e suas funções. o livro didático tem objetivos e funções indissoluvelmente ligados à própria essência e natureza da escola e do ensino. Uma delas é que. as obras . entre as muitas e várias outras de que eles dispõem. não poderia deixar de existir um Dia Nacional do Livro Didático. uma outra diferença é que. enriquecê-lo e ampliá-lo. a partir dessa década como conseqüência da grande expansão do número de escolas e.eu diria que não. Sua função. os livros didáticos. como já foi dito. o paradidático é concebido para uma leitura individual e freqüentemente facultativa.Por quê? Magda Soares . é que o avanço e a mudança dos conhecimentos e habilidades no mundo contemporâneo são tão rápidos que quase se pode afirmar que o que se está ensinando hoje estará provavelmente ultrapassado no ano que vem. do número de alunos e professores. como comentei anteriormente. Outra razão. como o livro didático. obrigatório.Há várias razões para isso.a escolha se dispersa entre várias obras. de certa forma. organizado segundo uma progressão claramente definida e apresentado sob forma didática adequada aos processos cognitivos próprios a esse conteúdo e ainda própria à etapa de desenvolvimento e de aprendizagem em que se encontre o aluno. MENTES PERIGOSAS (filme) . cresce o número de consumidores do livro didático e. um importante coadjuvante da formação das novas gerações. O objetivo do livro didático é apresentar uma proposta pedagógica de um conteúdo selecionado no vasto campo de conhecimento em que se insere a disciplina a que se destina. enquanto o livro didático é concebido para um uso sobretudo coletivo e. que se multiplicaram nas últimas nas últimas décadas. sua função não é a de dar suporte ao ensino e à aprendizagem. multiplicam-se os autores. um instrumento de trabalho para o professor e aluno. é servir de suporte para o ensino. esta talvez mais importante. exerçam sua autonomia e liberdade para ir além dele. vêm oferecer aos professores uma valiosa alternativa. portanto. uma contribuição significativa ao trabalho do professor.Em um país que tem um pouco a mania dos "dias nacionais" para comemorar as mais diferentes coisas. como forma de reconhecer e valorizar esse tipo de livro que vem sendo. não pode ser substituído por um material que tem objetivos e funções diferentes. novos recursos. no futuro? Magda Soares . Sendo assim. como defendi ao longo dessa entrevista. mas não tem condições de substituí-lo. uma obra é logo substituída por outra. costumam ficar em pouco tempo ultrapassados e saem do mercado ou são substituídos por nova versão que atualize a anterior. Já o livro paradidático tem por objetivo aprofundar ou ampliar um determinado tópico ou tema do conteúdo de uma ou mais disciplinas. o paradidático certamente contribui na busca dos objetivos e no desempenho das funções que tem o livro didático.se há tendência de o paradidático substituir o didático . enquanto até a década de 60 eram poucos os livros didáticos oferecidos no mercado. Mas convém lembrar que os paradidáticos. mas é a de auxiliar o ensino e a aprendizagem. por causa desse novo e promissor mercado. Qual a diferença entre o livro didático e o paradidático? Há alguma tendência de um vir a substituir o outro. que não podem conter conceitos ou informações que se tornaram errados ou inadequados. que devem incorporar novas concepções de aprendizagem. portanto.

mas com “Mentes brilhantes”. O uso restrito do caderno e do compêndio didático. Os currículos e programas são desvinculados da realidade quotidiana dos alunos. Com isso mostra para os alunos: para que haja ensino e aprendizagem. que tirou os filhos da escola porque estavam aprendendo poesia. rebeldes. Esse . No entanto. criticidade e compreensão de mundo. que não têm interesse com a formação holística do ser. Vendo o interesse dos alunos. representação. posso aqui resenhar o filme “Dangerous Minds” (Mentes Perigosas). Analisando as ações no decorrer do filme. ou temos uma escolha?” – O que vocês preferem?. é a política da Escola Tradicional. retratada no filme. a poesia e a música despertam reflexão. prescinde da mútua confiança e da empatia que deve existir. Assim. não são considerados pela docência da Instituição. Conseqüentemente. vive num mundo fechado. e pergunta: -alguém aqui sabe lutar caratê? Os alunos perguntam: . é ele que tem a autoridade e a norma do que deve ou não ser ensinado e do que é considerado certo ou errado. donde se explica a não renovação nem das idéias. prêmios e até o uso de sedução e de incentivos como meios educativos (típico da Educação Behaviorista). ignoram os fatos econômicos. Partindo desse pressuposto. essa escola conduzia a um espírito conformista. Vai para casa e consulta vários livros sobre educação. Nesta visão educacional o educando é entendido como criatura a ser formada. Isso é percebido quando a professora é chamada pela direção da instituição por ter usado como dinâmica o caratê. Então. ou seja. como muitas de hoje. nem da prática didática do professor. instituições e pais tradicionalistas. Confiando-se sobremaneira na oralidade e na repetição. por isso deve submeter-se as imposições de certos professores que não tem compromisso com a educação. sociais e culturais da sociedade. norteando assim todo o processo educativo. tanto a leitura. o professor é o guia. a professora consegue a disciplina. atenção e aprendizagem dos alunos. E propõe a turma se eles quiserem tirar conceito “A” só depende deles. pois tem natureza má que deve ser corrigida. Por isso.A formação escolar deve propiciar o desenvolvimento de capacidades. No dia seguinte vai à escola e escreve no quadro “Sou a Marinha Americana”. usando recursos como recompensas. e também a mãe dos alunos. escreve no quadro “Nós queremos morrer. assim como possibilitar aos alunos usufruir as manifestações culturais nacionais e universais. e se vê diante de uma turma de alunos revoltados. sem se interessar pela realidade e interesses dos alunos. percebe-se que a política educacional praticada na escola Parkmont. é muito considerado pela professora Louanne Johnson. Pois.Você sabe lutar caratê? – Ela diz que sim -. compreensão e crítica. e a intervenção dos fenômenos sociais e culturais. que vai à escola a procura de um estágio. há necessidade do interesse tanto do professor quanto dos alunos. impedia a veiculação das idéias novas. A escola do filme. aliado a inexistência de material didático e a falta do uso da biblioteca. representados pela mediação. ele as impõe com o objetivo de dar a instrução prescrita. qualquer iniciativa pessoal fora das normas estabelecidas era considerada subversão à ordem. ela usa isso como dinâmica para conseguir a atenção deles. e a aluna grávida que não poderia freqüentar a escola. – Sabe-se que. Nessa concepção educacional. A relação professor/aluno que deve pautar-se pelo discernimento e reciprocidade. Ela não consegue ficar na turma.

ou seja. os professores. do alcance. apresentado como gratificação. Quantas vezes nossos alunos tem apelos como estes e nós não lhes damos oportunidade de faze –lo. facilitar a aprendizagem. tendência à liderança. para uma educação libertadora. de um modo adequado e em momento oportuno. E ela conseguiu isso. – Você é a nossa luz. Tambourin” (traficante). num aparente gesto de cortesia. devemos sempre nos questionar sobre nossa prática educativa. do captar e do compreender. por causa da morte de um aluno (Emílio) . levando a modificação no comportamento e nas atitudes de acordo com a necessidade da descoberta. o professor para ser educador tem que ter compromisso com a educação. com a comunidade. Pois. buscar o aluno que tem problema. – Todos os poemas que você nos ensinou dizem que ninguém pode se entregar. como ser rico.Portanto. Porém. Por isso. cabe ao professor faze-lo naturalmente. amizade e o carinho da turma: com muito amor carinho e determinação. nenhum professor tinha feito. Pois seu ensino implica em orientar o educando para sua própria experiência para que dessa forma.tipo de educação empregado numa atividade educacional é discutível por inúmeras razões. para não correr o risco de estar estimulando inadvertidamente a ambição e o orgulho. Mas os alunos fizeram-na refletir que não era por isso que iria desistir. empregando técnicas variadas de ensino. mostrar e relacionar o por quê do aluno aprender determinado conteúdo. A professora Louanne aplicou na sua prática pedagógica um uma didática de Abordagem Humanista. Porém.Se você nos ama. se esta está realmente formando nossos alunos de forma integral. que o educando necessita de estímulos apropriados à sua faixa etária. bonito. faça como a professora Louanne. tem que buscar parcerias com a família. levando-os a refletir sobre suas realidades. a escola. No decorrer do filme o mais importante para mim. tem que ser um mediador e facilitador do ensino para que os alunos aprendam. motivou seus alunos através do estudo de poesias. Reconhece-se no entanto. – Foi na casa de detenção visitar os alunos que tinham brigado. Do mesmo modo que deve tomar todo cuidado para não estimular os alunos a valorizar “coisas” extra-escolares. etc. chamar a família para trabalhar em parceria. Percebeu-se essa prática quando a professora. se você é um verdadeiro educador . relacionar sempre a teoria com a prática. Não pode desistir. . sendo a mais evidente a dificuldade que o educando poderia ter em compreender o grau de comprometimento possível. pode-se dizer que o êxito do procedimento didático só será eficaz se a ação pedagógica intervir na realidade dos educandos. Em nosso fazer pedagógico. Nosso fazer pedagógico deve formar cidadãos para o mundo. onde os alunos estão incluídos no processo ensino-aprendizagem. Nunca desista. O que até então. possa estruturar-se e agir. O professor tem que ter proximidade com seus alunos para poder diagnosticar suas dificuldades. graças ao interesse que demonstrou pelos alunos em conhecer suas realidades. Sua aprendizagem é significativa e penetrante. . pois outros alunos precisavam dela. e não apenas informando-os. por que quer ir embora? – Você não pode desistir! – Você é o nosso “Sr. visitou suas famílias e conversou na sala da aula sobre os problemas de cada um. foi como a professora conseguiu a atenção. a professora se sente impotente diante do sistema. – Nós não vamos desistir de você. maior vivacidade.