Concerto para piano Nr 5 em mi bemol maior op.

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Nunca antes um concerto começou de modo tão enfático, com tão tremenda força de irradiação. A cadência lapidar em mi bemol maior, em plena ornamentação da orquestra, interrompida por ruidosas passagens virtuosísticas do piano, que em nenhum momento deixam pressentir a temática—de fato, uma entrada singular de um concerto para piano no ano de 1809, menos de duas décadas depois da morte de MOZART. Mas a intenção não foi apenas original ou provocadora, e tampouco pode ser explicada com o lugar-comum de 'Titã" de BEETHOVEN; ela mostra, como em espelho fugidio, a situação concertante do começo do século XIX. O diálogo sublime de dois parceiros com direitos iguais, solo e orquestra, como MOZART pratica de maneira incomparável, é substituído pela abrangente pretensão sinfônica. Já não se trata mais do agir espontâneo, por assim dizer, no palco imaginário, em torno de uma ação conjunta e oposta, discretamente pontilhada, não, aqui reina uma força de sucção que arrasta para seu curso piano e orquestra, na mesma medida. E ainda mais: os primeiros compassos do Concerto em mi bemol maior significam a submissão irreversível do rival antes crítico (o piano) sob o domínio todo-poderoso da orquestra. É verdade que o solista ainda pode preencher, de modo improvisado, a arquitetura do espaço orquestral, mas montar uma contra realidade musical já não é mais possível. A maneira imperturbavelmente consequente como BEETHOVEN impulsionou essa transformação estrutural fundamental no gênero "concerto", é demonstrada pela cadência do solo do movimento inicial, que originalmente já não é a mesma. Esse trecho que antes era pausa para descanso no contexto musical, dava ao solista a oportunidade para se apresentar sem rédeas na fantasia, para evidenciar sua independência perante o tutti e sobretudo refletir contextos temáticos essenciais a partir de sua visão. Na melhor das hipóteses, a cadência do solo poderia condensar-se em uma espécie de segunda execução. Nada disso se encontra no Concerto em mi bemol maior. A cadência está estruturalmente ancorada no todo da parte e não é mais permutável; um episódio curto que não possibilita nenhuma guinada para fora do contexto definido com clareza. O ad libitum tradicional do solista cede à unidade da

Portanto. mas já não mais como personalidade individual e independente. Bernhard Rzehulka .ideia sinfônica e. não cabe mais ao piano o papel rival. Os temas das frases angulares têm um estilo genuinamente orquestral. A conduta arrebatadora da parte de solo é sempre um signo da adaptação. não retorna mais ao concerto para piano. Apenas a plena manejabilidade da frase de piano (próximo ao finale) pode oferecer um equivalente. em essência. É verdade que o piano aproveita a substância temática. O imperativo sinfônico não tolera qualquer contradição. a partir de então. mas sim como parte de um todo poderoso. voltado para fora. Sua construção lapidar que se apoia. uma eufori a do convívio. Nunca antes ele realizou um virtuosismo tão brilhante. como seria lógico. ele precisa ajudar o som a ter um novo efeito é impulsionar o fluxo dinâmico. no trítono mi bemol maior fomenta o radiante som do tutti.