A formulação do conceito de pessoa na teologia patrística: base para o reconhecimento dos direitos humanos Prof. Dr.

Lino Rampazzo

Sumário: Introdução. 1. O horizonte histórico em que surgiu a questão do homem como pessoa. 2. A Patrística. 3. Significados do termo “pessoa”. 3.1 Na Antigüidade. 3.2 No cristianismo primitivo. 3.3 “Prosopon”, “Persona” e “Hypóstasis” . 4. O Concílio de Nicéia (325). 5. A contribuição dos Capadócios. 6. A questão cristológica. 7. Agostinho: o homem é pessoa. 8. A dignidade da pessoa humana expressa na Bioética e no Biodireito. Conclusão. Referências.

Resumo: Este trabalho tem por objetivo mostrar as circunstâncias histórico-filosóficas em que nasceu o conceito de pessoa humana, cuja dignidade é considerada, na Constituição de 1988, como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. Por isso, analisa-se o significado do termo “pessoa” na Antiguidade e no cristianismo primitivo, seja na língua grega, como latina; e sua sucessiva reformulação na época da Patrística, quando o termo foi utilizado para resolver as questões teológicas relativas à Trindade e à Cristologia. A partir de Agostinho, o termo “pessoa” começa a ser aplicado ao homem e indica, assim, até de maneira quase exclusiva, o ser humano e sua incomparável dignidade. Esta vai ser a base para a sucessiva valorização do ser humano, particularmente na atual época de desenvolvimento tecnológico que ameaça a existência não só da espécie humana, como do mesmo planeta e, por isso, estimula a reflexão da Bioética e do Biodireito. Palavras-chave: Pessoa - Patrística - Bioética – Biodireito.

Introdução Pergunta-se: Quando e como foi formulado o conceito de “pessoa”? Quando e como este conceito foi e é aplicado ao ser humano? 1. O horizonte histórico em que surgiu a questão do homem como pessoa Na filosofia grega o homem aparece como indivíduo representante de uma espécie; e a vida terrestre é considerada como uma decadência ou a passagem para a existência pura do espírito. Acrescente-se a isso a convicção grega da importância absoluta insuperável da ordem política e da cidade, em que o indivíduo era “situado” e visto em sua relação com o Estado, com o coletivo. O valor absoluto do indivíduo é um dado da revelação judaico-cristã, onde aparece a parceria divino-humana, na qual Deus chama livremente o homem a participar da sua vida. A revelação cristã, pois, não está voltada ao gênero humano de modo abstrato, não diz respeito ao universal, mas é dirigida a todos os homens tomados ndividualmente, enquanto cada um deles é filho de Deus, chamado à plena comunhão com Ele. 2. A Patrística.

3 “Prosopon”. diferentes papéis sociais ou “jurídicos”. mas.). ao mesmo tempo homem e Deus (PL 2. o plano. Mais tarde apareceu no sentido de “pessoa jurídica”. os “Padres da Igreja apresentaram o Evangelho às novas culturas. fundamento etc. pois. a formulação exata do conceito de pessoa: quer dizer. especialmente grega e latina: puseram as bases da dogmática cristã e do edifício organizacional da Igreja.1 Na Antigüidade A palavra persona (de per-sonare. 3. Gn 1. C. por extensão. Filho e Espírito Santo). assim. ou também o da realidade em oposição à sombra e à imagem. Pouco depois começa o uso de hypóstasis. No século III a. eles viram nisso uma maneira para indicar verdadeiras distinções. de forma decisiva. que resulta na construção etc. De fato. enquanto fonte de direito. Na Grécia o termo prosopon significa “rosto”.22). para unir em Cristo o divino e o humano. no lugar de interpretá-las como ficções literárias.2 No cristianismo primitivo Os primeiros teólogos cristãos. é o da realidade que jaz sob as manifestações (a coragem. No século I antes da nossa era. Do ponto de vista etimológico. o termo latino persona recebia todo o seu peso. na Escritura muitas passagens onde Deus dialoga consigo mesmo (por exemplo. “falar através”). por exemplo Justino (II século).: o sentido. o que está debaixo: apoio. A ocasião de tal reflexão ocorreu principalmente a partir das disputas teológicas acerca dos grandes mistérios da Trindade e da Encarnação. o termo “patrologia” indica o estudo dos padres. A personalidade era algo mutável e não algo essencial. no Oriente. e. que se exterioriza no vigor. a cuja solução contribuiu. em geral. o termo foi utilizado para indicar as pessoas gramaticais. o mesmo homem podia ter diferentes personae. 3. . para dar um nome a estas distinções dentro do mesmo Deus uno. para os Romanos. 3. no período patrístico. A sua obra chegou até nós por meio dos escritos que eles nos deixaram.O impulso imediato para esse processo.191): dessa maneira. designava o papel que eles interpretavam. Assim. e também este termo foi utilizado para indicar a máscara de teatro. Tertuliano (início do III século) falou de “uma substância” e de “três pessoas” (PL 2. exigiu tempo. 167-168). ou doutrina dos Padres. quer dizer. o termo deriva do verbo hyphístamai que significa sub-jazer. quer dizer.26. e. Significa. individuaram. porém. sedimento. falou de uma só pessoa. e “patrística” é adjetivo e se refere à teologia. 3. Do ponto de vista terminológico. indicava a máscara utilizada habitualmente pelos atores. Significados do termo “pessoa” 3. “Persona” e “Hypóstasis” Desde o início do século III as palavras prósopon e persona tentam designar aquilo que distingue os Três (Pai. pela primeira vez.

na mesma linha de interpretação. Vê-se. Desenvolve o tema da homoousia (= da mesma substância) somente do Filho de Deus: “gerado”. chegando a aplicar a noção de “consubstancialidade” à terceira hypóstasis divina (o Espírito Santo) contra os assim-chamados “pneumatômacos” (etimologicamente “inimigos do espírito”). os arianos que negavam a divindade do Espírito Santo. situada na atual Turquia) e atuaram. Acrescentando à ousia estes caracteres. diz que não se exclui que “o Pai e o Filho sejam duas hypostáseis”. podemos ler o seguinte texto: “Não há três deuses. O Concílio de Constantinopla de 381. 25. Basílio define ousia como “o que é comum a todos os indivíduos da mesma espécie”. Gregório de Nissa e S. O Concílio de Nicéia (325) 5. “não criado”. Caráter próprio do Pai é a agennesia (não geração). As intenções do Concílio de Nicéia foram. assim. o termo não tinha adquirido o significado técnico da teologia e doutrina posteriores. que a empregavam como sinônimo de ousia: o ser primitivo. S. temse a hypóstasis. as Pessoas da Trindade foram chamadas pela primeira vez de hypostáseis. para existir realmente. expressas de forma melhor. apesar de que cada uma das Pessoas se chame subsistente e Deus”. precisa possuir os caracteres individuantes (idiotetes) que a determinam. retomar e aperfeiçoar o símbolo de Nicéia. o indivíduo determinado existente a parte (to kath’exaston). Na sua obra Contra Celso (8. que a palavra hypóstasis vem tomada como sinônimo de ousia. Após afirmar a unidade de Deus. Basílio e Gregório Nazianzeno preferem evitar o termo prosopon pelo seu significado habitual de “máscara”. até essa época. então. na área da teologia. “da mesma substância” do Pai. Gregório Nazianzeno é o primeiro a designar as diferenças entre as três Pessoas Divinas com esta terminologia (Orat. nós lemos. no século IV: e correspondem aos nomes de S. assim. Gregório Nazianzeno. Além disso. 4. Basílio. 5. professa clara e formalmente a divindade do Espírito Quanto a Gregório Nisseno (335-394). 6. “aspecto externo”. do Filho a gennesia (a geração) e do Espírito Santo a expouresis (procissão) ou expempsis (envio. A contribuição dos Capadócios Aos Padres Capadócios coube realizar a elaboração filosófica e doutrinária desses conceitos. Deus é um só e o mesmo porque a substância é única e mesma. Como termo filosófico.3. A questão cristológica . emissão). Chamam-se “Capadócios” pela região onde eles nasceram (a “Capadócia”. Mas esta ousia. a saber.16).Por exemplo.12). fixando as estruturas fundamentais do dogma trinitário de maneira substancialmente definitiva. a essência enquanto emerge e se manifesta nas coisas. podia. Com efeito. O primeiro ensaio de diferenciação entre ousia e hypóstasis se deve. a palavra entra na filosofia por meio dos estóicos. “Ele (o Filho) é o resplendor de sua glória e a expressão do seu ser (hypostáseos)”. com a definição da divindade do Espírito Santo. a Orígenes (metade do III século). em Hebreus 1.

Agostinho mostra que os termos “essência” e “substancia” não têm essa dupla virtude. no Concílio de Calcedônia foi proclamado o dogma cristológico.reconhecemos um só e o mesmo Cristo. Agostinho. nem na comunidade familiar. com a palavra physis. (MONDIN. De fato. inteipsum redi: in interiore homine habitat veritas). pois. intelligentia et amor”. os termos prosopon e hypóstasis foram usados para designar o princípio pelo qual as duas naturezas existem na pessoa do Logos divino. ainda que imperfeita. indivisível. Ele via. Agostinho reflete sobre a verdade não fora. Senhor. a tríade “memória. mas dentro. imutável. Quanto à técnica conceitual. Em outros termos. sem dissolver a sua individualidade. ele enriqueceu para sempre a doutrina sobre a Trindade na base de seus esclarecimentos psicológicos. Segundo Agostinho. Seu princípio inspirador é. pertence ao termo grego hypóstasis e ao seu correlativo latino persona (pessoa). agora. XV. unigênito em duas naturezas. o Concílio. para S. necessariamente consciente de si. 7. o seguinte: “Não saias de ti. 11). a questão “trinitária”. Podemos perguntar qual é o lugar do homem onde se encontra essa imagem de Deus. Deus Verbo. mas um só e o mesmo Filho unigênito. mas na natureza espiritual (secundum rationalem mentem). Em outros termos. sem se suprimir jamais a diferença das naturezas por causa da união. mas algo de singular e de individual (De Trinitate VII. era necessário responder como se associavam em Cristo a humanidade e a divindade. de outra parte. como se se tratasse de coisa estranha. a verdade habita no homem interior” ( Noli foras ire. designa a dualidade e não a unidade. 2003b). apresenta uma estrutura trinitária essencial. . Ali se acha a verdadeira. na medida em que o espírito humano. diversas analogias da existência trinitária de Deus: por exemplo. Como tinha acontecido em Nicéia com relação ao dogma da Trindade. O texto do Concílio assim se expressa: . inconfundível. os atos intradivinos da geração (o Pai gera o Filho) e da espiração (o Pai e o Filho estão na origem do Espírito) devem ser entendidos como ações espirituais de entender e de amar. Ao invés. em Constantinopla (381). a questão cristológica. Senhor Jesus Cristo. imagem. Filho. o que dá originalidade ao pensamento de Agostinho é a perspectiva essencialmente interior. antes conservando cada natureza sua propriedade e concorrendo numa só pessoa (prosopon) e numa só hypóstasis. o risco de fazer deles três deuses e. volta-se para ti mesmo. Essa imagem não está nem no “homem exterior”.Resolvida. examinando a própria alma. ao Filho e ao Espírito Santo sem correr. o qual “não significa uma espécie.11). inteligencia e amor” (memória. na vida do espírito humano. Agostinho: o homem é pessoa Com a intenção de encontrar um termo que se possa aplicar distintamente ao Pai. 7. Além disso. Analogamente este termo aplica-se também ao homem: “Cada homem individualmente é uma pessoa” (singulus quisque homo una persona est) (De Trinitate. Além disso. 6. Ela. aparecia. inseparável. não partida ou dividida em suas pessoas. de uma parte. pelo contrário.

1343). A existência humana é. pois. o termo pessoa passa a indicar a irredutível identidade e unicidade de um indivíduo. experimentação clínica. As ciências da vida e da saúde enfrentam hoje estes grandes problemas: saúde pública. em diferentes situações. considerar o sinônimo de pessoa: “subsistência”. neste sentido. seja na língua grega. entre indivíduos e grupos. “Pessoa”. a esse respeito. resguardar. Se compararmos a evolução do significado do termo “pessoa”. pois aquele centro único de atribuição ao qual fazem referência todas as ações do indivíduo que as unifica em sentido sincrônico. de maneira mais clara. Por fim. utilizando uma variedade de metodologias éticas num contexto interdisciplinar. esse ad). na sua interdisciplinaridade. a respeito. chega a articular-se com o Direito na medida em que esse trata de disciplinar na vida social os procedimentos biomédicos. ao seu transcurso ou ao seu término. e encontram contínuas. no vocabulário cristão. pois não permite pensar o ser-em-outro que é próprio da natureza humana de Cristo. A Legislação Internacional e Nacional já começaram a lembrar princípios e estabelecer normas de comportamento. A descoberta da interioridade leva o pensamento cristão à certeza de que o eupessoa é o centro de decisões livres. nos termos de “substância individual de natureza racional” (naturae rationalis individua substantia. novas e inesperadas aplicações. eutanásia. pois “o que está debaixo”. conforme o papel que precisa desenvolver nestas situações. a Bioética. Os problemas emergentes neste início de século e de milênio exigem. no “substrato” delas.Em suma. significa. quando essas relações estiverem vinculadas ao início da vida. particularmente a ética e o direito. que. “Bioética” é aquele neologismo que diz respeito ao estudo sistemático da conduta humana no âmbito das ciências da vida e da saúde. transferir. e entre esses com o com o Estado. doação e transplante de órgãos. permanecendo diacronicamente “na base”. a contribuição de Agostinho é decisiva em dois pontos de vista: a descoberta da interioridade e a passagem analógica do conceito de pessoa em Deus à idéia de pessoa aplicada ao homem. PL 64. O Biodireito desponta como um novo direito de formação muito recente no âmbito da ciência jurídica cujo objeto de análise são princípios e normas jurídicas que tem por fim imediato criar. que existe em si e para si. È interessante. e é ainda mais verdade que a racionalidade é essencial ao homem. A dignidade da pessoa humana expressa na Bioética e no Biodireito As conseqüências destas afirmações atingem outras áreas. podemos concluir que se encontra um conteúdo exatamente oposto. fertilidade. modificar ou extinguir direitos decorrentes de relações entre indivíduos. Antes “pessoa’ indicava as várias identidades que podiam ser aplicadas a um ser humano. Isso aparece. Mas esta definição não pode ser aplicada na teologia trinitária porque ela coloca em primeiro plano o ser em si (aseidade) e não a interrelação (o ser para. como na latina. indica. meio ambiente etc. com seus . Mas. uma atenção especial diante do desenvolvimento da tecnologia. ao pé da letra. engenharia genética. 8. uma existência substancial. é aquela que se encontra no âmbito de duas áreas do saber bem atuais: a bioética e o biodireito. também por parte dos cultores da ciência jurídica. aborto. com a clássica definição que Boécio fornecerá. nem pode ser utilizada na cristologia. Uma significativa aplicação.

questionamentos no campo da Ética. Para a solução destes problemas. da Bioética e do Biodireito. não se pode esquecer . porém.