OS LOUCOS SOMOS NÓS: REFLEXÕES ACERCA DA CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA SOCIAL NUM LOCAL DE APAGAMENTO.

Uriel Massalves de Souza do Nascimento 1; Diana de Souza Pinto2 Introdução Partindo de uma realidade, nós já sempre estamos por ela influenciada. Essa frase, aparentemente óbvia, guarda, para nós, membros da equipe de pes ... um sentido duplo na medida em que construímos a Memória do Hospital de Custódia e Tratamento Heitor Carrilho3. A realidade por nós encontrada, nesse Hospital, uma instituição que visa prender para tratar, nos mostra como é a nossa realidade externa ao presídio, que é a realidade esta que abriga a verdadeira loucura. No momento em que pensamos em “tratamento” deveria estar implicado aí o exercíci o da liberdade individual para a obtenção deste. No entanto, num em um dado momento histórico, nos foi possível conceber uma instituição que tivesse no tratamento a figura máxima de punição. É aqui que penso que o duplo sentido acima mencionado se explicita: antes de conhecermos a realidade do hospital, adentramos já ali já pensando naquela realidade como exótica, no entanto, norma,l ou, pelo menos, parte de uma realidade maior chamada Brasil. Ao sairmos, notamos que não só aquela realidade não se encaixa em nenhum todo, como notamos que mesmo o “todo chamado Brasil”, mesmo num texto, só funciona assim: suspenso, quer por aspas, quer por pequenas localidades que não se encaixam. Para nós, observadores/autores advindos dos campos da Filosofia e Línguística respectivamente e tendo ambos feito incursões no campo da Saúde Mental (quer teórica quer empiricamente) essa noção de que o tratamento pode ser uma forma de punição guarda problemas inúmeros. Isto se torna particularmente claro no momento atual no qual o Hospital, por força de decreto, (>>>) se vê forçado a fechar as portas às pressas, num movimento muito corridotransforma-se em uma outra instituição, O Instituto de Pericia Heitor Carrilho. Isso se dá porque a correria, para nós, explicita o reconhecimento da problemática por parte dos poderes políticos. Algo que confirma isso é a Lei 10216/2001 que marca uma data para o abandono do uso das formas manicomiais e asilares de tratamento. Seguindo nesta linha, temos as resoluções n° 5 (2004) e n° 4 (2010) do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária que expandem esta norma aos manicômios judiciários (Pinto e Nascimento, 2012) Objetivo Nosso trabalho visa discutir o impacto e o significado ontológico do fechamento dessa instituição que visava o apagamento da Memória Social dos internos. Por ontologia estamos entendendo aqui os estudos dos modos de ser (aqui, equivalente a existir) no mundo, ou seja, a definição clássica de estudo do ser enquanto ser. Faremos isso de um ponto de vista teórico-prático. A Memória social Social será tomada aqui, então, como uma das formas de ser-no-mundo (Heidegger, ano). Metodologia Quando falamos em “apagamento” da Memória Social não estamos necessariamente falando aí de “apagamento” do Sujeito? É a essa q uestão que buscaremos responder a partir da afirmativa embasada na psicanálise de que a verdade é o tropeço, o não intencional (Lacan, ano). Desde já deixemos claro que usaremos essa noção de verdade de modo que ela fique implícita ao longo do texto, sendo nosso processo hermenêutico – ou seja, de interpretação - fruto dos “fragmentos de verdade ” por nós recolhidos. Discussão De uma perspectiva ontológica, a saber, aquela que busca dizer o ser enquanto ser, é sempre correto afirmar que modos de ser estão sempre implícitos nas formas de conceber relações, quer seja entre humanos, quer seja no diálogo silente do sujeito consigo mesmo. De uma perspectiva da Memória Social, afirmar que uma vez que buscamos apreender e determinar uma forma de conceber a Memória Social, o fazemos já sempre na condição de sujeitos interessados, é algo corriqueiro (Gondar e Dodebei, ano). Por fim, considerando a realidade encontrada por nós, pesquisadores de um Manicômio Judiciário localizado no Centro da cidade do Rio de Janeiro, não seria nenhum exagero afirmar que tentamos apreender essas relações humanas para daí compor Memória. Nossa perspectiva não poderia se enquadrar em outra que não a entre a Memória Social e a Ontologia, imbricamento necessário para que possamos compreender o que significa ser, num Manicômio Judiciário, local que
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faz com que a loucura. Era então o contexto do individualismo cartesiano no qual o eu era não só a única certeza.julgamos ter por objetivo o apagamento das Memórias. Meditações Metafísicas). o binômio loucura/normalidade. já presente na obra de Heidegger (Heidegger. em última análise. etc. Jaspers(1987). Ano. com uma divisão absolutamente clara entre um e outro. o de Deus (Descartes. A normalidade psíquica foi tornada uma espécie de mito (Freud. por exemplo. Formatted: Highlight .A partir dos trabalhos de diversos médicos (Freud (1900.). mas também a condição fundamental de outros conhecimentos. psicopatologia geral). foi possível pensarmos em um “louco em si”. inexista. Até o início do século XX. Tantos as perspectivas psicanalíticas freudianas e pós freudianas. quantas as psiquiátricas fenomenológicas da linha jasperiana reconhecem que é impossível detectarmos o normal do homem qua homem porque o homem qua homem inexiste. que a perspectiva adotada até então para definir a loucura é falha e. Em suma. ibid) ou uma forma de redução que a nada chega (Jaspers. como uma bola hermética e individual. loucuranormalidade. Ser aqui ganha uma conotação de ação. ou seja. em si mesma. sem qualquer consideração das alteridades que o cercam. ser-nomundo é necessariamente agir nesse mundo. 1987. O fechamento do Heitor Carrilho nos indica. Ser e tempo vol1). a concepção de loucura passou a contemplar os contatos sociais. Somente é possível falarmos do ser-com.g. 1905). de carade inicio. e. foi tornada uma espécie de significante chistoso único.