PÚBLICO, QUI 20 JUN 2013 | DESTAQUE | 3

VANDERLEI ALMEIDA/AFP

Protestos em Fortaleza, junto ao estádio, poucas horas antes do jogo entre o México e o Brasil

O preço do progresso
natureza do “outro Brasil”, um Brasil furtivo a análises simplistas. Esse Brasil é feito de três narrativas e temporalidades. A primeira é a narrativa da exclusão social (um dos países mais desiguais do mundo), das oligarquias latifundiárias, do caciquismo violento, de elites políticas restritas e racistas, uma narrativa que remonta à colónia e se tem reproduzido sob formas sempre mutantes até hoje. A segunda narrativa é a da reivindicação da democracia participativa que remonta aos últimos 25 anos e teve os seus pontos mais altos no processo constituinte que conduziu à Constituição de 1988, nos orçamentos participativos sobre políticas urbanas em centenas de municípios, no impeachment do Presidente Collor de Mello em 1992, na criação de conselhos de cidadãos nas principais áreas de políticas públicas especialmente na saúde e educação aos diferentes níveis da ação estatal (municipal, estadual e federal). A terceira narrativa tem apenas dez anos de idade e diz respeito às vastas políticas de inclusão social adotadas pelo Presidente Lula da Silva a partir de 2003 e que levaram a uma significativa redução da pobreza, à criação de uma classe média com elevado pendor consumista, ao reconhecimento da discriminação racial contra a população afrodescendente e indígena. O que aconteceu desde que a Presidente Dilma assumiu funções foi a desaceleração ou mesmo estancamento das duas últimas narrativas. E como em política não há vazio, o espaço que elas foram deixando de baldio foi sendo aproveitado pela primeira e mais antiga narrativa que ganhou novo vigor sob as novas roupagens do desenvolvimento capitalista todo o custo, e as novas (e velhas) formas de corrupção. As formas de democracia participativa foram cooptadas, neutralizadas no domínio das grandes infraestruturas e megaprojetos e deixaram de motivar as gerações mais novas. As políticas de inclusão social esgotaram-se e deixaram de corresponder às expectativas de quem se sentia merecedor de mais e melhor. A qualidade de vida urbana piorou em nome dos eventos de prestígio internacional que absorveram os investimentos que deviam melhorar transportes, educação e serviços públicos em geral. O racismo mostrou a sua persistência no tecido social e nas forças policiais. Aumentou o assassinato de líderes indígenas e camponeses, demonizados pelo poder político como “obstáculos ao desenvolvimento”. A Presidente Dilma foi o termómetro desta mudança insidiosa. Assumiu uma atitude de indisfarçável hostilidade aos movimentos sociais e aos povos indígenas, uma mudança drástica em relação ao seu antecessor. Lutou contra a corrupção, mas deixou para os parceiros políticos mais conservadores as agendas que considerou menos importantes. Foi assim que a Comissão de Direitos Humanos, historicamente comprometida com os direitos das minorias, foi entregue a um pastor evangélico homofóbico e promove uma proposta legislativa conhecida como “cura gay”. As manifestações revelam que, longe de ter sido o país que acordou, foi a Presidente quem acordou. Com os olhos postos na experiência internacional e também nas eleições presidenciais de 2014, a Presidente Dilma tornou claro que as respostas repressivas só agudizam os conflitos e isolam os governos. No mesmo sentido, os presidentes de câmara de nove cidades capitais já decidiram baixar o preço dos transportes. É apenas um começo. Para ele ser consistente é necessário que as duas narrativas (democracia participativa e inclusão social intercultural) retomem o dinamismo que já tiveram. Se assim for, o Brasil estará a mostrar ao mundo que só merece a pena pagar o preço do progresso, aprofundando a democracia, redistribuindo a riqueza criada e reconhecendo a diferença cultural e política daqueles para quem progresso sem dignidade é retrocesso. Director do Centro de Estudos Sociais. Este artigo foi escrito ao abrigo do acordo ortográfico

Opinião Boaventura de Sousa Santos
om a eleição da Presidente Dilma Roussef, o Brasil quis acelerar o passo para se tornar uma potência global. Muitas das iniciativas nesse sentido vinham de trás mas tiveram um novo impulso: Conferência da ONU sobre o Meio Ambiente, Rio +20, em 2012, Campeonato do Mundo de Futebol em 2014, Jogos Olímpicos em 2016, luta por lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, papel ativo no crescente protagonismo das “economias emergentes”, os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), nomeação de José Graziano da Silva para diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), em 2012, e de Roberto Azevedo para diretor-geral da Organização Mundial de Comércio, a partir de 2013, uma política agressiva de exploração dos recursos naturais, tanto no Brasil como em África, nomeadamente em Moçambique, favorecimento da grande agricultura industrial sobretudo para a produção de soja, agro-combustíveis e a criação de gado. Beneficiando de uma boa imagem pública internacional granjeada pelo Presidente Lula e as suas políticas de inclusão social, este Brasil desenvolvimentista impôs-se ao mundo como uma potência de tipo novo, benévola e inclusiva. Não podia, pois, ser maior a surpresa internacional perante as manifestações que na última semana levaram para a rua centenas de milhares de pessoas nas principais cidades do país. Enquanto perante as recentes manifestações na Turquia foi imediata a leitura sobre as “duas Turquias”, no caso do Brasil foi mais difícil reconhecer a existência de “dois Brasis”. Mas ela aí está aos olhos de todos. A dificuldade em reconhecê-la reside na própria

C

Nas análises sobre as causas da agitação social há, no entanto, uma atenção crescente ao agravamento do cenário económico. Depois de oito anos a crescer a uma taxa anual de 4%, a economia abrandou para 2,7% em 2011 e no ano passado ficou nuns modestos 0,9%. Os programas de estímulo do Governo, centrados em programas sociais, e as orientações dadas aos bancos públicos para que facilitem o financiamento aos privados não estão a dar resultados. A confiança dos consumidores e o investimento estão em queda, o valor dos salários estabilizou e a inflação subiu para os 6,5%.

Dilma, a principal vítima
Para os brasileiros, o longo ciclo de desenvolvimento iniciado em 1993 com o Plano Real está numa encruzilhada. E, apesar dos progressos feitos, o Brasil está na 85ª posição do ranking do desenvolvimento humano da ONU (Portugal ocupa o 43ª lugar), atrás de países como o Peru e a Venezuela. E o seu rendimento per capita (9300 euros) está longe

do dos países desenvolvidos (em Portugal 16.800 euros). A principal vítima da degradação da situação económica e da instabilidade social é Dilma Rousseff. Uma sondagem ontem divulgada pelo CNI-Ibope indica que a popularidade do seu Governo recuou oito pontos desde Março, mas 55% dos brasileiros ainda aprovam a sua acção. Como os inquéritos foram feitos antes das manifestações, não se sabe que efeitos terão os protestos no seu futuro político. Ainda que, de momento, ninguém ponha em causa o seu favoritismo para as presidenciais de 2014, o impacte das manifestações pode abalar a ampla coligação que suporta o Governo e favorecer a dinâmica dos seus adversários. Para já, sabese que Dilma terá de enfrentar a eterna promessa do PSDB (partido de Fernando Henrique Cardoso), o mineiro Aécio Neves. A grande incógnita, porém, é saber se Eduardo Campos, governador de Pernambuco e estrela emergente da política brasileira, vai entrar na corrida.