3.

5 SABER AMBIENTAL PARA A SUSTENTABILIDADE:* ENRIQUE LEFF _________________________________________ - * Este trecho foi extraído da obra: “Conhecimento,   meio   ambiente   e   globalização”  – AUTOR: Dimas Floriani _________________________________________ “Os princípios e objetivos do ambientalismo expressaram uma falta constitutiva das ciências. Esta falta de conhecimento é uma falta no conhecimento (...). O saber ambiental é o ponto de não conhecimento que impulsiona a produção do saber”  (LEFF, 2001b, p. 155). 3.5.1 Abordaremos alguns elementos fundamentais da concepção teórica de Leff, partindo de três de seus textos 53. Não se trata aqui de apresentar o conjunto de sua obra que, além de vasta, é diferenciada e incursiona por diversas áreas do conhecimento ambiental. À medida que sua produção teórica se expande, ao longo do tempo, delineia-se com maior nitidez sua visão sobre os processos de produção teórica, assim como os conceitos que dão suporte à problemática ambiental, ganhando assim contornos mais definidos. Mantendo-nos fiéis ao espírito deste nosso trabalho, buscaremos tratar sobretudo os temas vinculados aos aspectos epistemológicos e conceituais do autor, como fizemos com relação aos que o precederam. De todos os autores aqui referidos, Leff é quem mais buscou encaminhar sua produção intelectual para o campo do socioambientalismo. Autores como Morin, e um pouco menos a dupla Maturana e Varela e Bateson, poderiam perfilar-se como autores com ricas fertilizações e incursões epistêmicas, claramente orientados para um novo paradigma ambiental emergente. Contudo, se neles se percebem nitidamente proposições de conhecimento alternativas e, em conseqüência, novas integrações entre natureza e sociedade, em nenhum desses casos as conseqüências metodológicas são tão nítidas como em Leff. A proposta de Leff está diretamente voltada para a análise dos processos socioambientais que necessitam de um projeto teórico, com base em estratégias conceituais. A trajetória bem como a gênese dessas estratégias constituirão o principal objetivo da presente exposição. ____

se considerarmos uma observação de Pierre Bourdieu sobre a emergência das teorias científicas que nascem em oposição uma às outras. conceitos e autores daquele período. acreditamos que se deve justamente a uma atitude intelectual que expressa uma forma de construir uma teoria aberta. técnicas de investigação) e objeto teórico (categorias de análise. Ao contrário. Heidegger. O curioso. Sociología y Ambiente: Formación Socioeconómica. Isto não é bom nem ruim em si mesmo.5. Neste sentido. extraídas de uma breve reflexão (FLORIANI. assumem uma importânci a  razoável  no  “segundo   momento”   de   sua   formulação   teórica   (Nietzsche.   Foucault. As marcas daquela visão de origem estão presentes na sua exposição sobre a produção social do discurso científico. trataremos de fazer uma apresentação mais sistemática e ordenada sobre a lógica conceitual de sua teoria. racionalidad ambiental y transformaciones del conocimiento (1994). inacabada e complexa.2 Em sua Epistemologia Ambiental (LEFF. Na seqüência. não se trata de emitir um juízo de valor sobre o diálogo que Leff mantém com os citados autores. aparece traduzido em palavras. 2001a ). Levinas e outros).   Derrida. Saber Ambiental: Sustentabilidade. e ao mesmo tempo inusitado. teoria). 2001a) identificam-se alguns vínculos com a teoria do materialismo histórico. Conhecimento. objeto de trabalho (noções. Dessa maneira. É nítida a influência da escola marxista francesa quando se remete à filosofia da ciência e à teoria do conhecimento. enfim. Nosso entendimento sobre este processo constitutivo do conhecimento é justamente de reconhecer que a riqueza de uma teoria consiste em sua capacidade de se opor e se complementar criativamente com outras que disputam entre si espaços de ressignificações do mundo (disputas simbólicas).53 Trata-se de Epistemología Ambiental (2001a). sem adesão política ou intelectual com aqueles que marcaram a origem da formação teórica de Leff. conceitos. o ambiente intelectual dos anos 60 que formou uma geração de intelectuais críticos. Complexidade. arquitetada basicamente em torno de duas categorias de análise centrais em sua reflexão:  ‘racionalidade  ambiental’  e  ‘saber  ambiental’. Esse território é mapeado por um processo de construção teórica de diversos e diferentes objetos: objeto real (empírico). Leff buscará superar progressivamente o estruturalismo presente nesta influência. Racionalidade. Meio Ambiente & Globalização 116 ____ Iniciamos nossa exposição com algumas pontuações gerais. Poder (2001b). Fiel aqui ao . coerente com as proposições de um paradigma da complexidade. 2002) sobre sua Epistemologia Ambiental (LEFF.   3. é a presença de autores que ganharão destaque ao longo deste livro que estamos comentando: alguns autores.   Baudrillard.

 27). Leff aponta limitações da teoria althusseriana por não definir as determinações e as especificidades distintivas do social e do natural. Meio Ambiente & Globalização 117 pensamento e o real. o que impederia de perceber as lógicas particulares e diferenciadas desses dois campos. .  p. É necessária uma superação deste tipo de matriz pois. ou ainda do estruturalismo e da filosofia analítica. Diferentemente das Teorias (com maiúscula) como foi o caso de um certo marxismo partidário dos processos sociais sem sujeito. ao citar Adorno.  2001a. O debate acerca dessa relação no campo ambiental é também matéria de complexa controvérsia e inclusive de intensa  polêmica  na  própria  proposição  de  Leff. não poderia engajar-se com a teoria da complexidade. que a totalidade é a nãoverdade) que tentam monopolizar a pretensão de explicar o mundo por uma teoria unificada do mesmo. Leff indica que o conhecimento científico é um processo resultante de uma prática teórica ou de uma relação entre o Conhecimento. do contrário. Com isto. tenta evitar as renomadas teorias gerais ou totalizantes (Morin insiste várias vezes.   A relação existente entre produção social da ideologia e da ciência e suas mútuas influências não é um caminho tão nitidamente demarcável como pretendia a exegese althusseriana. por um lado. pois trata-se de inaugurar um campo de saber e de conhecimento com articulações intra (disciplinares) e extracientíficas (culturais). isto é. Se. com um paradigma que é abertamente partidário da incerteza e da incompletude – epistemológica. ou do sistemismo de Luhmann.  O  ‘diálogo  de  saberes’  e  a   ‘racionalidade   ambiental’   seriam   produções   discursivas   e   práticas   sociais   que não teriam preocupações maiores com qualquer tipo de ruptura epistemológica ou com qualquer tipo de pureza científica. por outro   indica   que   “a produção de conhecimentos científicos nunca é um campo neutro onde entram em jogo as possíveis combinações de idéias e noções ou a interseção de teorias para apreender diferentes relações da realidade”  (LEFF. não podendo ser confundido com a realidade mesma.cânone althusseriano de que a ciência não se confunde com a realidade. diga-se de passagem – o que não tem nada a ver com as indefinições e provisoriedades políticas e teóricas. o autor constata que a discursividade científica constitui um continente teórico diferente de outras discursividades (ideologia). uma teoria da racionalidade ambiental requer outra estratégia epistemológica e a fortiori de sujeitos que lhe dão suporte.

Leff busca orientar sua discussão sobre as bases de uma teoria da ciência que seja capaz de distinguir níveis diferenciados de articulações teóricas e de relações reais entre sujeitos históricos.  ser  entendida  como  um  “efeito  de   conhecimento”   de   seus   conceitos   com   uma   série   de   conflitos   com   outras   ciências e com a produção social do conhecimento. cuja expressão é visível através da atual racionalidade econômica e tecnológica dominantes. como expressão de pensamento único ou de fusão dos objetos teóricos das ciências. são objetos autônomos não constituindo uma hierarquia fundadora de sua gênese histórica. são duas categorias genéricas. e de explorar teoricamente a relação sociedade-natureza. Só por meio do concurso e da integração de campos muito diversos do conhecimento (intertransdisciplinares) e de saberes (culturas) se pode fazer emergir teoricamente uma problemática ambiental. A estratégia de Leff é de abrir a possibilidade para boas fusões entre os diversos conhecimentos científicos. o autor as associa com a crise civilizatória.  mais  do  que   conceitos ou objetos científicos. Para Leff. segundo Leff) e transversais aos múltiplos conceitos científicos. Daí a necessidade de elaborar estratégias conceituais para viabilizar outra concepção de racionalidade ambiental. Mas logo em seguida constata que os objetos científicos tanto da física como da biologia.  sim. da lingüística. Meio Ambiente & Globalização 118 de ordem técnica. uma vez que esses objetos teóricos são intransferíveis de uma ciência para outra. não é um problema Conhecimento. O eixo central de sua preocupação é de mostrar que a articulação entre pretensos conhecimentos unificadores da ciência (seja a Teoria Geral de Sistemas.A intenção de Leff. uma vez que o concreto só é analisável a partir da especificidade de cada uma das ciências legitimamente constituídas – e aqui Leff não discute o que seria uma ciência legitimamente constituída –. da psicanálise.  deve. o problema da articulação das ciências não permite por si só unificar toda a realidade num único conhecimento.  Daí  que  “natureza”  e  “sociedade”. seja a Interdisciplinaridade ou ainda a Ecologia ou o Materialismo Histórico). . da história etc. Se uma possível – e até necessária. suas práticas sociais e suas visões  de  mundo. Ao diagnosticar as bases históricas da evolução das sociedades. desde o início de seu texto não é de explicitar a exegese althusseriana. diríamos – articulação científica não pode ser pensada como uma fusão de objetos  teóricos  das  ciências. apropriáveis de diversas maneiras (absorvíveis.

crítica que Leff endossa mesmo que considere legítima a evolução operada nas especializações científicas. pois não basta apropriar-se de noções e conceitos comuns a diversos saberes. ou ainda com as disputas por ressignificações do mundo e dos territórios de saberes e de poderes. novos saberes e resistências frente à racionalidade instrumental da sociedade de mercado. A   categoria   de   ‘racionalidade   ambiental’   é   fortemente   normativa. portanto. Meio Ambiente & Globalização 119 sociologia. vazia de conteúdos reais. e também com outros saberes. Uma nova problemática ambiental não deve situar-se apenas no domínio do social. sua estratégia explicativa parte de duas esferas complementares: por um lado. ecologia. ligados à tradição dos saberes sociais (adeus à arrogância da divisão elitista da ciência contra as ideologias e as ilusões do saber popular!): . Uma nova racionalidade ambiental dependerá do concurso ou do consórcio de distintas estratégias. São legítimas. demografia.   no   interior   das   ciências   e   das   articulações entre diversos campos científicos. Assim. geologia. A   crítica   social   e   o   “transbordamento”   de   problemáticas   teórico metodológicas de fronteira (geografia. tanto a emergência de novos saberes/fazeres científicos. para fragilizar a racionalidade instrumental dominante. ao contrário. tais como meio e ambiente. deverá observar que ambos sistemas estão dialeticamente imbricados e que possuem autonomias e interdependências simultâneas. da crítica social e política dos sujeitos coletivos que produzem novas discursividades. Devemos lembrar de que uma das principais críticas que se faz ao paradigma positivista de ciência é a fragmentação do conhecimento em domínios estanques. estará alerta aos reducionismos do sistemismo e do funcionalismo sistêmico. relacionados com as dinâmicas de produção e reprodução material das sociedades. com as ações e as (ir)racionalidades humanas. nem na formulação de uma teoria geral formal. Conhecimento.   embora   sirva para explicar processos conflitivos.Ciente das dificuldades de se fundar uma nova problemática teórica. nem do natural. e. biologia etc. que dialogam entre si.) forçam o aparecimento de novos campos do saber e a possibilidade de construção de objetos interdisciplinares de conhecimento. antropologia. economia. por outro lado. derivada   do   ‘efeito   de   conhecimento’.

A racionalidade ambiental necessita da constelação de diversidades arraigadas na cultura e na   identidade. além de desconhecerem os outros saberes. Através de uma rede conceitual flexível. noções e categorias de análise.   Isto  porque   “os conflitos ecológicos e a crise ambiental não podem ser resolvidos mediante uma administração científica da natureza ”   (LEFF.o saber ambiental ultrapassa o campo da racionalidade científica e da objetividade do conhecimento. O saber ambiental busca o que as ciências ignoram. apresentaremos um conjunto de conceitos elaborados nas duas outras obras de referência de Leff (1994. assim. 3. 2001. nem mercado para reintegrar o conhecimento sobre natureza e sociedade. sobre a fertilização de conhecimentos na interdisciplinaridade e na transdisciplinaridade. Meio Ambiente & Globalização 120 conhecer. sobre o diálogo de saberes. de acordo com os preceitos contidos na obra anteriormente comentada (LEFF. p.5. 179). Para tanto. Leff busca aplicar à realidade socioambiental uma série de análises por meio das quais reconstrói teoricamente a realidade. Tentamos localizar o núcleo dos enunciados para podermos estabelecer nexos lógicos entre conceitos. Este saber está se conformando dentro de uma nova racionalidade teórica. da dedução mecânica e formal e da simplificação. 2001a ). entre o formal e o substantivo. o confronto entre o racional e o moral. p. coerente assim com o pensamento complexo54. A análise que nos propõe Leff se baseia na rejeição ao princípio da hierarquia. 168). Com a complexidade ambiental. Isso propõe a revalorização de um conjunto de saberes sem pretensão de cientificidade (LEFF. comprometerse com a eqüidade social e com outros valores capazes de selarem um novo contrato solidário entre os humanos e a natureza. a subjetividade. 2001b) onde constrói uma  série  de  “jogos”  lógicos  e  cuja  dialética  serve  para  evidenciar  um  pano   de fundo complexo sobre uma realidade em transição. reflete sobre a natureza do ser. Leff ultrapassa as fronteiras da racionalidade ditada pela ciência e passa a negociar entre superfícies discursivas mutuamente contraditórias. Nem método sistêmico. nem método interdisciplinar. . pois.3 Na seqüência. 2001a. subjugam-nos. Mas a complexidade ambiental não é apenas um exercício especulativo sobre o mundo: necessita de uma pedagogia do ambiente e de um ambiente da pedagogia para engajar-se com a vida e. de onde emergem novas estratégias conceituais. do saber e do Conhecimento.

apresentanos uma problemática ambiental. com base em saberes e interesses historicamente constituídos. tais como as de ‘racionalidade ambiental’  e  de  ‘saber ambiental ’.   2001. a ciência da complexidade vê por todas partes instabilidade.4 Iniciamos a apresentação desse jogo estratégico. não é assim porque os humanos se relacionem com a natureza em base às descrições das ciências clássicas. E o fato de o futuro não estar determinado é uma fonte de esperança básica. o que implica utilizar uma estratégia epistemológica. Processo real (relação sociedade-natureza) e processo lógico (a problematização do conhecimento sobre o real mas que supõe um jogo teórico) estabelecem um intercâmbio permanente por meio de estratégias de conhecimento. uma racionalidade que vai mais além da racionalidade do determinismo e portanto. não há objeto possível de conhecimento.”   (WALLERSTEIN.. Através de um recurso heurístico.5. mas apropriáveis de forma desigual pelos sujeitos.Se não houver um problema teórico. Portanto.   ____ 54 “ A ciência está em transição para uma nova forma de racionalidade baseada na complexidade. Leff. Prigogine define isto como a passagem de um universo geométrico para um universo narrativo. 3. . exigindo do autor uma estratégia de busca e fustigamento constantes dos saberes e conhecimentos constituídos. envolvidos pela trama dos saberes e das culturas em presença (racionalidade social). não apenas no cenário social mas também nos processos mais fundamentais da natureza.  dentre  as  centrais. evolução e flutuações. mas precisamente pela razão inversa. No lugar da onipresença da repetição. de disputas por ressignificações do mundo. tensionando-os e induzindo à criação de novas metodologias de abordagem do real (construção de novos objetos teóricos). essas categorias perpassam diversos planos da realidade. Por sua vez. que não exige a prova da verdade formalmente deduzida.. de um futuro que já está decidido. a estabilidade e o equilíbrio. Meio Ambiente & Globalização 121 ____ Porém. munido de um paradigma da complexidade. caótica e difusa de sentidos e significados.   188). como já apontamos anteriormente. Conhecimento. buscando ordenar essa coleção de categorias de análise.   p. a fim de extrair de sua trama complexa os sentidos implícitos que as mesmas possibilitam extrair. no entanto. Isto. que era a visão da ciência clássica. essas categorias de análise não são princípios hierarquizadores da realidade. essa estratégia de conhecimento supõe e necessita da construção de categorias de análise. a natureza e os seres humanos não estão separados e muito menos são estranhos entre si. onde o problema central é o tempo. ou seja que a natureza funciona em termos das descrições que utilizamos normalmente para os humanos. sobre uma realidade aparentemente surda.

pois supera o âmbito dos saberes e dos sistemas de conhecimento constituídos. traz implícitas racionalidades emergentes. p. convergentes e divergentes. Leff alerta para a necessidade de uma sociologia ambiental. restringiu-se a internalizar normas ecológicas e tecnológicas. forçando a transformação de um conjunto de paradigmas do conhecimento teórico e dos saberes práticos. o aumento da pobreza e da Conhecimento. Meio Ambiente & Globalização 122 degradação da qualidade e das condições de vida das maiorias. um pensamento social nunca é apenas a expressão de um sentido lógico unívoco. Como essa problemática ultrapassa as formas limitadas de compreensão e de explicação do real. deixando de lado a análise do conflito social. interesses e movimentos sociais que atravessam a questão ambiental e que afetam as formas de percepção. bem como o da dimensão política que perpassa o campo ambiental. organizações. A emergência da questão ambiental coloca uma profunda mudança de referenciais ideológicos e culturais. práticas. capaz de abordar as relações de poder nas instituições. abrindo um novo campo para a sociologia do conhecimento que aparece também sob dois outros nomes: sociologia do saber ambiental e sociologia ambiental do conhecimento. denuncia os efeitos da destruição dos recursos naturais. isto é. a questão ambiental se insere numa nova perspectiva para a sociologia. A problemática ambiental tem induzido a um amplo processo de transformação do saber. uso dos recursos naturais. Neste sentido. Ao questionar as racionalidades econômicas e sociais dominantes. Diante dessa insuficiente abordagem do ambiental. conceitos e métodos de pesquisa próprios. emerge uma ecosofia. A problemática ambiental é de natureza social. exige-se um pensamento complexo e uma metodologia de pesquisa alternativa. em escala planetária. 18). assim como a qualidade de vida e os estilos de desenvolvimento das populações (LEFF. entendida como uma disciplina com um campo temático. . Passo a passo. ao não apreender as conexões entre o social e o natural. com a emergência do pensamento da complexidade. acesso. uma filosofia da natureza e uma ética ambiental. 1994. .. Dessa maneira.. O caráter limitado e parcial do conhecimento disciplinar.Uma problemática ambiental coloca a necessidade de internalizar um saber ambiental.

5. visando a um desenvolvimento alternativo (LEFF. 23). 60). devendo ser entendidos como elementos de um processo social. para o autor.   Os sistemas de pensamento (saberes) e de conhecimento (ciências) têm produzido idéias. disciplinas e saberes.   buscando   . 2001b. estudar a transformação que sofrem as ciências e os saberes práticos. o real e o virtual são funções contidas nos processos históricos. 49). ambiente já aparece como um objeto complexo. a serem definidos mais adiante como saber ambiental e racionalidade ambiental . a construção do conceito de ambiente faz parte de um pensamento complexo. além de  serem  construtos  teóricos  da  sociologia  “ambiental”. não se trata   aqui   de   “destilar”   ou   filtrar   os   elementos   “ambientais”   que   aparecem   dissolvidos nos estudos sociológicos. p.Como para Leff a emergência de saberes sociais e de sistemas de conhecimento não é isolável da racionalidade social que os gera e os contém. Para buscar um novo campo teórico explicativo. Conhecimento. A emergência do saber ambiental aparece como efeito dos processos de mudança social. tecnológicos e culturais. mas de demarcar campos da sociologia que se abram para a constitução de um saber e de uma política ambientais (LEFF. p. É necessário também mudar o ângulo de visibilidade das relações sociedade-natureza. queremos reafirmar o caráter integrado da análise em Leff. é necessário. onde é possível observar as formações discursivas do saber ambiental como efeito do poder no conhecimento (LEFF. Meio Ambiente & Globalização 123 3. 1994. onde caiba essa nova dimensão ambiental. Esta mesma posição é válida para as outras disciplinas. 1994. Para Leff. noções e conceitos sobre o ambiente. existe a possibilidade de construir uma racionalidade social que permita transitar na direção de uma economia global sustentável e de construir formações econômicas fundadas nos princípios das potencialidades ambientais. que devem ser entendidos sob a ótica foucaultiana do saber e do conhecimento. Além de ser um desafio para a idéia de sustentabilidade. servindo de nexo entre teoria e praxis social. para o qual se requer aproximações metodológicas e se exige uma articulação entre diferentes ciências. subtrair das “ciências   exatas”   o   monopólio   que   detêm   sobre   a   natureza. segundo o qual.5 Ao passo que meio é uma noção não pertencente a nenhum objeto científico nem articuladora de processos materiais específicos. Trata-se de dispor os conhecimentos parciais sobre a natureza e a sociedade para que criem as bases para um diálogo de saberes que extrapolem os próprios limites disciplinares. Com isto. chamado a integrar os processos ecológicos. p.

56). políticas e ideológicas. a racionalidade ambiental deve contar com conteúdos teóricos e substantivos. Expressão de legitimação ou deslegitimação das ações. Daí. 1994. Conhecimento. Uma sociologia ambiental do conhecimento só conseguirá superar as barreiras teóricas de cada disciplina e a rigidez institucional das esferas onde funcionam os saberes legitimados. p. 2001b. A construção de uma racionalidade ambiental constitui um processo político e social. sem transformar os sistemas de conhecimentos. espaço cultural onde aqueles critérios científicos são gerados e como são aplicados e legitimados os conhecimentos: As categorias de racionalidade ambiental e de saber ambiental aparecem como  construtos  teóricos  desta  sociologia  “ambiental”  do  conhecimento. novas técnicas e novas orientações na formação profissional (LEFF. se souber integrar um saber ambiental e construir uma racionalidade ambiental (LEFF.  ao   articularem   um   conjunto   de   processos   “superestruturais”   (formações   ideológicas e discursivas. 80) como o sistema de regras de pensamento e comportamento dos atores sociais. 157).5. de valores e de comportamentos gerados pela atual racionalidade social. legitimação e institucionalização do saber) com a racionalidade interna das ciências e com a aplicação de novos conhecimentos e técnicas para o controle e o desenvolvimento das forças produtivas da sociedade (LEFF. situados no interior de estruturas econômicas. . crenças e comportamentos sociais. 1994. por meio de métodos integradores de processos de ordem natural e social. 3. que incluam valores oriundos da diversidade étnica e cultural. nem reverter suas causas. 71). aquele sistema emerge das diversas estratégias de sociabilidade dos atores sociais. Se a racionalidade capitalista está dominada por mecanismos formais e instrumentais. Para tanto. p. para Leff. Meio Ambiente & Globalização 124 Não será possível responder aos complexos problemas ambientais. p. p.também descolonizar a ecologia. Uma sociologia do saber ambiental deve aproximar e correlacionar critérios epistemológicos internos das ciências com o contexto histórico-social.6 A racionalidade ambiental e o saber ambiental são expressões em conflito da racionalidade social . Esta é definida por Leff (1994. é necessário passar da consciência social dos problemas ambientais para a produção de novos conhecimentos. essas categorias funcionarem como estratégias conceituais mais do que princípios epistemológicos para a reunificação do saber ou para a integração interdisciplinar das ciências.

que é a verdade. relações de causalidade e interpretações Conhecimento. assim. isto é. (. dos conhecimentos práticos e dos saberes tradicionais (LEFF. (.) O saber ambiental é movido pela pulsão de conhecimento. sentidos existenciais e significados culturais de sujeitos históricos. A ação científica é portanto.. valores.. A investigação científica é. Meio Ambiente & Globalização 125 ____ compreensivas que sejam universalmente válidas.. p. 192-194). Essa racionalidade é conformada pelos processos sociais que transbordam suas atuais estruturas. Mas este objetivo é determinado por um juízo de valor. O saber ambiental é um saber enraizado na organização ecossistêmica da natureza.) A natureza como objeto de apropriação social é sempre uma natureza significada. um exemplo importante de ação racional com relação a um objetivo. p.. enquanto que a segunda estaria mais vinculada ao sistema de conhecimento científico e à sua operacionalização técnica. interesses.) O saber ambiental implica colocar em jogo a subjetividade na produção de conhecimentos e traz consigo uma apropriação subjetiva do saber para ser aplicado em diferentes práticas e estratégias sociais. como construções sociais das quais eles mesmos fazem parte55.. 2001b. Se pudéssemos separar saber ambiental e racionalidade ambiental. por um julgamento sobre o valor da verdade demonstrada pelos fatos ou por argumentos universalmente válidos. a racionalidade ambiental não é nem a expressão de uma lógica de mercado ou da natureza.. definido por interesses.. 145). ____ 55 “ A ação do cientista é racional com referência a um objetivo. (LEFF. embora aqui sejamos obrigados a admitir com Morin que não há ciências puras e que os pontos cegos que acompanham os sistemas de verdade nas ciências derivam dos sistemas de valores que habitam as mentes de seus formuladores. poderíamos alinhar o primeiro com o conjunto de saberes e valores de ordem cultural. 2001b. mas está sempre incorporado à subjetividade e à ordem da cultura. uma combinação da ação racional em relação a um objetivo e da . mas surge como um saber personalizado. para abrir-se ao terreno dos valores éticos. Isto se deve ao fato de que essa racionalidade ambiental é constituída e constituinte do saber ambiental que se estende para além do campo de articulação das ciências. significações e ações..Resultante de um conjunto de normas. O cientista se propõe a enunciar proposições fatuais. nem de uma lei do valor e do equilíbrio ecológico. (.

Quanto ao primeiro dos pontos (transformações do conhecimento ambiental). não apenas disciplinar das ciências. Vivemos em um mundo imperfeito. induzidas pelo saber ambiental.) Tal como Weber a entende. Por último.  1987. Meio Ambiente & Globalização 126 .  (ARON. mas na emergência   de   novas   disciplinas   “ambientais”. Ambos os temas bem que mereceriam um maior aprofundamento.  p. onde a natureza é definida como externalidade e aparece confinada a uma posição domesticada pela racionalidade instrumental dominante. ao adotarem/recusarem certas escolhas. a noção de sustentabilidade na obra de Leff nos remete à sua posição crítica que não faz concessões aos reducionismos impostos àquela noção.   bem   como   sobre   o   debate   em torno das novas metodologias multi-inter-transdisciplinares. contudo. a criatividade cósmica e com isso. Da eleição de um tal paradigma. para um futuro aprofundamento. estamos longe de nos sentirmos Conhecimento. como das expectativas e dos posicionamentos dos sujeitos (individuais e coletivos) diante do mundo. (. tanto do ponto de vista das estratégias interpretativas adotadas pelos observadores. temos de considerar que se trata de um dos principais itens da agenda para aprofundamento teórico. e a discussão em torno da noção de sustentabilidade. Conseqüências. a ciência é um aspecto do processo de racionalização característico das sociedades ocidentais modernas ”. ainda. que sempre será imperfeito e por conseqüência conterá a injustiça.. seus métodos e técnicas de pesquisa em aliança inter-transdisciplinar. desde já. mereceriam menção. por outro. é necessário levar em conta as conseqüências que podem advir de um modelo que aposta epistemologicamente num pensamento complexo. dois aspectos fundamentais ligados às transformações do conhecimento. podemos observar o depoimento de alguém que também aposta na construção de outras alternativas de conhecimento: Vivemos em um cosmos de incertezas cujo principal mérito importante é a permanência da incerteza. pois tem a ver com a competência de uma possível sociologia ambiental do conhecimento e com o acompanhamento que esta poderá fazer sobre o campo das transformações operadas no domínio.  466)   Como nosso objetivo não é apresentar o conjunto da obra de Leff. por um lado. que é a verdade. Porém. Por sua vez. porque é esta incerteza que permite a criatividade. a criatividade humana..ação racional em relação a um valor.

Podemos fazer este mundo menos injusto.indefesos diante disto. podemos fazê-lo mais belo. podemos aumentar nosso conhecimento sobre ele. bastando apenas tentar (WALLERSTEIN. . 2001. p. Só necessitamos construí-lo e para construí-lo necessitamos dialogar uns com os outros e lutar para obter de todos o conhecimento especial que cada um de nós tem conseguido. Podemos lavrar as vinhas e produzir frutos. 294-295).