UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO DISCIPLINA: FILOSOFIA POLITICA DA EDUCAÇÃO PROFESSOR:HEITOR ALUNOS:ANDRE CORREIA, PEDRO HUGBER

O PAPEL DA DISCIPLINA NA FORMAÇÃO DO CIDADÃO AUTÔNOMO

(kant. pois legisla sobre sua vida. Além disso. a visão kantiana vê a liberdade por uma perspectiva do direito à propriedade. Hegeliano e Marxiano. A principal critica no que se refere a esta visão kantiana ocorre no sentido de que nem todos podem ser legisladores. Este empreendimento se justifica plenamente em virtude de o conceito de liberdade perpassar tanto a noção de disciplina como igualmente o de cidadão e o de autonomia. deve-se antes resumidamente colocar em relevo o conceito de liberdade a partir dos pontos de vista Kantiano. o político e o filosófico. como vai ser observado. não pode apenas ser entendido por um viés histórico. por conseguinte. kant associa a idéia de ser livre com a condição jurídica ou legal de ter uma propriedade na nascente sociedade moderna do século XVIII. Com isso. 1) A liberdade de cada membro da sociedade. para o filósofo. Sendo assim. no qual terão relação intrínseca com os pensadores supracitados e. Por isso. poder-se expor melhor as duas visões sobre disciplina. colocar finalmente a nossa doxa no presente trabalho. para ele a liberdade passa de um conteúdo subjetivo para um objetivo e no qual não pode ser realizado nem na . a idéia de disciplina. aqueles que são proprietários são livres. No entanto. sobretudo sobre seus direitos e propriedades. mas se faz mister também abordar por alguns pormenores políticofilosóficos para melhor compreensão conceptual. bem como ocorreu com a noção de liberdade. Por seu lado. depois de feito esta relação entre disciplina e liberdade. como se podia falar num homem livre co-legislador. funda-se a priori nos seguintes princípios. 2) A igualdade deste com qualquer outro.Para se entender o papel da disciplina na formação do cidadão autônomo na época hodierna. a liberdade para o filosofo alemão adquire uma dimensão diferenciada. especialmente numa sociedade originariamente desigual e onde a maioria da população não era alcançada pelo Direito. em outras palavras. enquanto homem. o econômico. numa sociedade injusta e no qual Marx explicitará mais adiante as suas mazelas e contradições magistralmente por inúmeros viéses: o histórico. enquanto súdito. isto é. 3) A independência de cada membro de uma comunidade enquanto cidadão. ou nas palavras do próprio Kant “Portanto. Hegel percebe igualmente a liberdade sob o mesmo prisma da propriedade. o estado civil considerado simplesmente como estado jurídico.1993:27) Deste modo. o homem livre é aquele que exerce uma função de “co-legislador”.

Marx concebe o valor liberdade por um referencial totalmente negativo. tornase predicado. segundo ele são institutos irracionais.1797:nota 57)” na realidade no Estado. Essa é uma primeira critica relevante levantada por Marx da inversão no qual fica obscura na sociedade capitalista. nem muito menos na sociedade. Vale destacar ainda que o trabalho em Hegel também vai ser relevante para obtenção e consecução da liberdade no qual vai ser também uma forma de objetivação da liberdade humana. E. vale lembrar que para Marx o trabalho é o verdadeiro gerador de riqueza da sociedade e. Marx em seus escritos nunca realizou nenhum estudo especifico sobre o conceito de liberdade na sociedade capitalista. o predicado – a mercadoria produzida e vendida – . portanto. o Estado racional é a perfeição máxima da sociedade moderna. ou seja. logo nada mais justo do que todos os indivíduos recuarem de suas liberdades individuais em prol de uma liberdade maior no Estado. para piorar. se deixe de conceber como um puro deve-ser isto de o homem em si e para si não estar destinado à escravatura. Nesta acepção. uma vez que são instituições imperfeitas. Neste sentido. é preciso reconhecer se que a idéia da liberdade só existe verdadeiramente (Hegel. Marx se aprofunda e ensina que ocorre também uma inversão na relação sujeito-predicado no modo de produção capitalista. contraditórias e. pelo menos no discurso. o trabalhador que antes era sujeito em outros modos de produção. o processo de alienação sofrido pelo trabalhador em virtude da venda de força de trabalho por um salário – neste caso já não possui os meios de produção – já marca igualmente um processo de submissão do trabalhador ao capital. o sujeito hegeliano deve depositar sua liberdade no Estado – a entidade que Hegel elege como ente racional e justo para a realização da liberdade. no Capitalismo. porém. Para Marx. Por sua vez. Assim para o filósofo prussiano. no entanto se utilizarmos algumas de suas determinações como alienação e trabalho e aplicarmos ao conceito de liberdade. poderemos ver a intima relação que se estabelece entre ambas. para que.família. por conseguinte. há uma inversão da real situação das condições humanas. em outros dizeres. realisticamente ao se verificar os meios que utiliza nunca vai alcançar tal objetivo. o conteúdo do direito deixem de ser concebidos através das correspondentes noções subjetivas. Deste modo. o formalismo jurídico e a propriedade privada dos meios de produção alteram o que de fato acontece com o trabalhador no sistema capitalista. Além disso. a sociedade capitalista conseguiu criar um sistema jurídico que possui como meta alcançar todos de forma igual. Segundo o filosofo alemão. Em suas próprias palavras “ Mas para que o espírito objetivo.

o que vai ser chamado pelos marxistas de fetiche da mercadoria.). De acordo com Chervel. pode-se agora discutir a questão da disciplina tanto pelo olhar do sociólogo Emile Durkheim como pela visão do pensador Edgar Morin. vale ressaltar que ainda hoje volta a baila a expressão em salas de aula como “disciplinar o espirito” no sentido atribuído de um exercício ou ginastica intelectual e também a disciplina no sentido militar para enquadrar os alunos. . e por isso enquanto apropriação efetiva da essência humana pelo e para o homem. a propriedade privada ao invés de assegurar a liberdade muito pelo contrário somente limita o acesso do trabalhador. a ginastica do espirito. Por isso. enquanto estranhamento de si humano. nem muito menos no Estado.. a burguesia e isto fere tanto a premissa kantiana como também a hegeliana. Portanto.”(Marx. retorno do homem para si enquanto homem social. isto é. a expressão disciplina perde este caráter de exercício mental e passa a significar matérias de ensino na designação atual do termo. tornado consciente e interior a toda riqueza de desenvolvimento até aqui realizado. com a finalidade de uma definição mais acurada. . cabe antes apenas realizar uma breve recuperação histórica do termo disciplina e a expressão disciplina escolar baseado no artigo de André Chervel. Ainda Chervel essa nova acepção somente vai começar a surgir trazida de uma corrente do pensamento pedagógico do seculo XIX no qual buscava uma renovação no ensino secundário e primário. no segundo caso. como já foi dito anteriormente.. História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. trata-se do retorno pleno. Entretanto. ou seja. Neste período histórico. Somente logo após I Guerra Mundial. Com isso.. o termo disciplina adquire esta nova significação. feito estas considerações acerca do conceito de liberdade. o termo disciplina ainda não tinha a idéia de “conteúdos do ensino”. ate o fim do seculo XIX o temo disciplina designa basicamente vigilância dos estabelecimentos. No primeiro caso. para Marx a liberdade não pode se realizar nem na propriedade. o Estado seria dominado pela classe dominante. Mas. e. humano(. Logo. principalmente buscando desenvolver habilidades nos alunos através de uma “ginastica intelectual”.transmuta*-se em sujeito. 2004: 105) Assim. na visão de Marx uma das formas de libertação seria através de “o comunismo na condição da supra-sunção positiva da propriedade privada. bem como repressão das condutas prejudiciais à ordem e também aquela parte da educação dos alunos que contribui para isso.

Sendo assim. 2) outro papel importante do fazer educativo seria de conter os impulsos de uma sociedade anômica. “a educação é ação exercida.”(Durkheim.3)transmissão do saber . vê-se uma mesma similaridade. Desta maneira. ao contrário de. assim.DURKHEIM. EDUCAÇÃO E A DISCIPLINA Antes de expor a posição de Emile Durkheim sobre o tema da disciplina é relevante justificar que a escolha pelo sociólogo ocorre em virtude de alguns paralelos com os três filósofos discutidos anteriormente. Isto é. Com efeito. a educação teria o dever de organizar o “ser social”. kant que vê a Educação como uma forma de desenvolvimento individual para atingir a perfeição(Durkheim. alinhando-se a visão da época de “boa ordem” ou respeitar as regras impostas aos indivíduos para inibir os impulsos e o esforço. no papel que a Educação possui de aplainador das diferenças segundo o sociólogo francês. Durkheim. certo número de estados físicos e morais reclamados pela sociedade política e pelo meio especial a que a criança. sobretudo. como um fato social. com isso. em Marx. Durkheim concebe a Educação como uma coisa e. para Durkheim a educação possui algumas funcionalidades relevantes: 1)para o sociólogo em cada ser existem dois indivíduos diferentes um material e um imaterial que juntos e constituídos formam o “ser social”. Durkheim legou um manuscrito redigido acerca da Educação Moral no primário. no caso de Kant observa-se igualmente a questão moral na Educação. a educação sendo um fato social pode também ser estudada como um fenômeno da Sociologia e não apenas da Pedagogia ou Psicologia do ensino.4)tornar através da educação as diferenças sociais mais igualitárias. particularmente. deve-se olhar como a sociólogo francês aborda a temática da Educação em sua obra Educação e Sociologia. para se entender a questão da disciplina no interior do pensamento de Durkheim. pelas gerações adultas. tem por objeto social suscitar e desenvolver na criança. pois para Durkheim o Estado deve participar da Educação pelo seu fundamento social. Conseqüentemente. concebe na educação como a primeira forma de socialização da criança na sociedade. se destine. onde coloca os três elementos fundamentais da Moral: espirito da disciplina. o franco pensador concebe o seu espirito da disciplina sob a ótica do seculo XIX. já em Hegel a relevância do Estado. 25). Nesta acepção. o espirito da abnegação e o espirito da autonomia.33) Por isso. ou aplainar as desigualdades. isto é. conseqüentemente. e. . sobre as gerações que não se encontrem ainda preparadas para a vbserva-seida social. ou seja.

e neste sentido.2004:105) No entanto. Como um pensador contemporâneo da Educação vê-se que seu ponto de vista sobre disciplina se alinha a visão atual Chervel como um ramo do saber. a visão de disciplina para Durkheim possui fundamentos estritamente moralizantes para a criança no ambiente escolar. então. pois permite este contato com os valores morais e adequação a estes sistematicamente EDGAR MORIN PARA ALEM DA DISCIPLINA Por seu lado. No primeiro caso.”(Morin. isto é. E mais: só serão plenamente justiçáveis se não ocultarem realidades globais. uma invasão e uma migração constante de saberes. Desta forma. Deve haver. para Morin a disciplina ultrapassa e muito aquela dimensão proposta por Durkheim e já não pode ser vista igualmente como uma forma apenas de ginástica mental. segundo ele. a disciplina “é uma categoria organizadora dentro do conhecimento científico. Morin deseja um novo tempo não somente para a disciplina como também para a própria Ciência. Edgar Morin em seu texto. no entanto sem desmanchar o que as disciplinas criaram. deve-se ultrapassar ou superar o termo disciplina. em outras palavras. uma Ciência menos fragmentada. as disciplinas são plenamente justificáveis. é uma maneira de inculcar na criança os valores morais da sociedade. Alem disso.Portanto. menos concorrente entre si e mais cooperativa e solidária e isto fica explicito neste dizer: “Intelectualmente. ela institui a divisão e a especialização do trabalho e responde à diversidade das áreas que as ciências abrangem. desde que preservem um campo de visão que reconheça e conceba a existência das ligações e das solidariedades. especialmente buscando as disciplinas se comunicarem entre si. pois um conteúdo de uma área pode interessar a outro ramo do saber. para o pensador francês a disciplina deve assumir outras funcionalidades na fase hodierna. percebe a disciplina de uma forma totalmente diversa e bem original de seu conterrâneo anterior. a disciplina exerce um papel extremamente relevante. Morin vislumbra a idéia de uma metadisciplina e uma ecodisciplina. A cabeça bem-feita: repensar a reforma. de acordo com Morin. reformar o pensamento.” . Já no segundo caso. ecologizar significa contextualizar os problemas e dilemas e assim atuar sobre os mesmos Na verdade.

neste caso. conseqüentemente. mediatas e imediatas. o ultrapassado. entretanto em consonância com o pensamento de Pascal é ainda imprescindível conhecer os saberes parciais. ou seja.POR UMA DISCIPLINA CIDADÃ E AUTÔNOMA “Uma vez que todas as coisas são causadas e causadoras. Enfim. considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo. . o espirito da disciplina pode trazer algum benefício para a criança. sem estes não hã como se pensar em disciplinas globais. em nosso ver a disciplina também contém um fundamento da Moral de Durkheim. como foi visto no caso de Edgar Morin. depois de todo este trajeto acerca da disciplina. A nosso ver. tanto quanto conhecer o todo sem conhecer. através da disciplina pode-se iinculcar uma cidadania mais solidária e fraternal. podemos levantar um último aspecto relevante da temática. Por isso. pois o argumento da moral se bem colocado pelo mestre pode convencer até os espíritos mais hedonistas. compromete o projeto de autonomia e. No entanto. as partes. o professor e sua disciplina representam o antigo. ajudadas e ajudantes. Por isso. e no qual consridere o meio ambiente mais seriamente. devese pela parte tentar corrigir o todo. mas ainda precisa-se de profissional especializado. um verdadeiro desafio disciplinar.” Blaise Pascal Na atualidade. que liga as mais distantes e as mais diferentes. a escola como um ente coletivo não empreende o seu papel fundamental que é elevar no estudante os melhores sentimentos e qualidades éticos e intelectuais. particularmente. Finalmente. concordando com Pascal. especialmente quando vemos na geração atual de jovens um grande desapego pela tradição e. especialmente se for adaptada a pedagogia contemporâneo. desqualifica o programa libertário que qualquer coletividade possa vir a ter. Obviamente um conhecimento policompetente se faz necessário na época atual. e todas estão presas por um elo natural e imperceptível. tem-se buscado no campo estritamente cientifico. Neste caso. uma Metadisciplina ou uma Transdisciplina que abarque vários saberes. leve também em consideração os povos tradicionais. ser cidadão e autônomo numa sociedade capitalista no qual valoriza as relações de consumo acima da pratica cidadã.

9ªed. D. A cabeça bem-feita: repensar a reforma. Filosofia Politica Moderna : De Hobbes a Marx. 1984. 5ªed -Universidade do Brasil: editora melhoramentos. 2004. Buenos Aires: Universidade de São Paulo. Atilio A.Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. reformar o pensamento . Emile. 2006. Educação e Sociologia.Edgar..REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS B. M. .