1 Considerações sobre os aspectos pedagógicos da Educação Estético do Homem de Friedrich Schiller

Intelecto: O doce é doce por convenção e o amargo por convenção, o quente por convenção, o frio por convenção, a cor por convenção; na verdade, não existe nada além dos átomos e do vazio. Sentidos: Pobre mente, de nós você tira a evidência pela qual você quer nos derrubar? Nossa derrubada é a sua própria queda. (DEMÓCRITO)

Sobre os vários matizes que o ensino de filosofia pode assumir enquanto possibilidades, elegemos nesta comunicação apresentar as contribuições do projeto políticopedagógico do filósofo, poeta e dramaturgo alemão Friedrich Schiller em sua obra A Educação Estética do Homem: numa série de cartas, 1795. Nosso objetivo é fazer algumas considerações sobre o alcance pedagógico da proposta de Schiller. Em primeiro lugar, convém salientar que Schiller não é um pensador da Educação ou da Pedagogia, stricto sensu. A pedra de toque de seus textos sobre Filosofia é o problema da Beleza. Entretanto, o momento da obra do autor e o contexto históricoespiritual no qual estava envolvido remontam suas preocupações frente à Revolução Francesa e sua crítica ao Iluminismo. Schiller foi profundamente abalado pelos resultados da Revolução Francesa. Entendia que o problema em questão era a possibilidade da verdadeira liberdade política. Para que a liberdade cumpra o seu dever ser seriam necessárias condições subjetivas ausentes na geração de seu tempo. Surge a necessidade, aos olhos de Schiller, do preparo dos homens, um processo de educação (Erziehung). O ponto central para Schiller é o caráter dos homens. Para transformações político-sociais seria necessário o enobrecimento dos homens. Trata-se de uma educação com fim a libertação da humanidade. Segundo Schiller, o caminho para a liberdade teria de começar pela estética. O período histórico em questão é o fim do século XVIII, o espírito da época é alimentado pelo ideal de esclarecimento, de iluminação do espírito, trata-se da Aufklärung. Uma idéia central se propagada entre os pensadores deste período: é a emancipação do homem. A palavra de ordem é a liberdade do espírito fruto do uso da razão. Schiller é alimentado, também, por este ideal, entretanto, a razão não é o fim, nem o meio de seu projeto, torna-se parte do processo.

p. 213). p.. nenhum em favor da prática. esta tem como sua decisiva etapa a realização moral e até como sua efectiva concretização a instituição de uma determinada forma de comunidade política. entretanto. Essa dimensão estética será mesmo reconhecida como o que propriamente constitui a humanidade e o que verdadeiramente pode tornar possível o completo e harmonioso desenvolvimento de todas as capacidades humanas (SANTOS. Na óptica de Schiller. pelo menos. a posição da dimensão estética é de mediadora entre as partes contrárias: completa o homem racional ao sensível. Esta posição é estabelecida em sua antropologia estética1: ao inquirir sobre a “anatomia” da natureza humana. jogo este que. Para Schiller o estético se liga a noção de harmonia da natureza humana. é possível estabelecer alguns núcleos. . Quer resgatar a dimensão sensível de uma posição de esquecimento.2 Schiller é crítico da Aufklärung. seja de caráter artístico como natural.. 207-208). p. ou uma forma sistêmica. que se apresente enquanto fenômeno. ou a noção do que Schiller registra como Educação Estética. ou antes. por conseguinte. O cerne de sua antropologia estética é o princípio do jogo: o jogo entre os impulsos ou forças fundamentais da natureza humana. 3 Segundo Schiller (1995. como por exemplo intervalo entre as Cartas XI até a XVII. Decerto que o termo assume uma vasta variação na obra. convém nos perguntarmos sobre o significado. o próprio sentimento da harmonia do espírito consegue mesmo quando as suas faculdades se relacionam entre si num “livre jogo”. o próprio termo Estética. 107) o estético pode “[.. o fim que a história persegue é a realização plena da destinação humana e. Antes de seguirmos para a sua antropologia estética. esclarece Schiller: 1 A Educação Estética do Homem: numa série de cartas não apresenta uma divisão lógica. questiona os muitos edifícios teóricos levantados. adensando para a sua Teoria dos Impulsos. uni forma e matéria.. A educação pela beleza apresenta a qualidade de fazer o homem de espírito (Civilização) reconciliar-se ao primeiro homem (Estado de Natureza). 1996. Mas o que se altera – ou. Sobre a Educação Estética.. entre as quais está apresentada a sua antropologia estética fundamentada na Teoria dos Impulsos. o ponto central é sua Teoria dos Impulsos.] em Schiller. O autor acreditava na necessidade de uma ligação entre a cultura intelectual com a prática. não estando s ujeito a leis determinadas de caráter lógico ou moral. o teórico ao prático. Entretanto. pode ser entendido como tudo que é próprio do domínio da dimensão sensível. secundarizada pela hegemonia da razão. não é todavia totalmente anárquico e sem lei (Ibid. Diante do belo as divisões da natureza se dissolvem. 3 “O estético é. a unilateralidade das dimensões polares é rompida. 2 A fundamentação de seu projeto pedagógico repousa no registro estético de sua antropologia. 2 [. o que se coloca agora em toda a evidência – é o decisivo papel mediador da dimensão estética em todo esse processo histórico-político de educação da humanidade.] referir-se ao todo de nossas diversas faculdades sem ser objeto determinado para nenhuma isolada dentre elas: esta é sua índole estética”. da mesma forma.

o estado. p. O homem é a unidade de si mesmo e suas determinações. A natureza mista possui o caráter pulsional.3 Existe. isto é. 64-65). a pessoa permanece. o movimento de reciprocidade dos impulsos naturais. A Educação Estética explora as potencialidades contrárias na natureza humana através do jogo. fortalecido também por falsos raciocínios segundo os quais o conceito do estético comporta o do arbítrio. embora livre. A pessoa é o que permanece.] as duas leis fundamentais da natureza sensível-racional” são os conceitos de pessoa (Person) e estado (Zustande). uma educação do pensamento. de qualquer coerção de modo algum age livre de leis (SCHILLER.. Segundo Schiller (1995. e livre no mais alto grau. Schiller se lança no esforço de fazer uma definição da natureza humana em termos antropo-filosóficos. enquanto se alternam os estados. Trata-se do que é permanente e o mutável no homem ( o si mesmo e suas determinações). constituída pelos pólos racional e sensível. uma educação para o gosto e a beleza. isto é. 65): “[. simultaneamente. na medida somente em que permanece imutável. Assim. Na medida somente em que se modifica. O impulso é uma força interna que opera fundamentalmente através de dois caracteres: racional-formal e . os estados são o mutável. o fato de ser mista. Estes impulsos ou forças são distinguidos como: impulso sensível. O princípio do belo é signo da Estética schilleriana. guiada segundo forças que impulsionam o homem. O homem. 107). representado em sua perfeição. uma educação para a moralidade. A natureza humana apresenta um aspecto peculiar. é o jogo.. é o duradouro (o si mesmo). 1995. ou então. o que se alterna no homem (suas determinações). ele existe. O esforço de Schiller será em descrever o movimento e estrutura do que denomina natureza sensível-racional. p. observo ainda uma vez (embora estas cartas sobre a educação estética de nada mais se ocupe além da refutação deste erro) que a mente no estado estético. a pessoa e seus estados. Para contrariar a corriqueira sedução de um falso gosto. seria a unidade duradoura que permanece eternamente a mesma nas marés da modificação (SCHILLER. pois. O símbolo do estético para Schiller é o jogo. em suma. 1995. Esta tem por fim desenvolver em máxima harmonia o todo de nossas faculdades sensíveis e espirituais. A definição da natureza inicia-se a partir da demonstração destes conceitos. impulso formal e impulso lúdico. uma educação para a saúde. p. se evita a unilateralidade no processo formativo. assim. ele existe. ele é idêntico e não idêntico a si.

Objeto do impulso formal expresso num conceito geral. embora. expresso num conceito geral. corresponde ao pólo sensível-material da natureza mista.. Representa a força que projeta o homem para estar em si. 71-72). 67) – “e submeter a realidade fora de nós a lei da necessidade”. Para Schiller: “[. o que lhe põe em contato com a experiência.4 sensível-material: distintas e antagônicas: a dinâmica de contraposição entre si dão origem a um terceiro impulso.. O impulso sensível (sinnliche Trieb). isto é. não se anulam. no domínio do estado. parte “[. p. Os impulsos formal e sensível são as duas forças opostas que possuem a tarefa de “[.... O impulso formal (formtrieb) parte “[.] vigiar e assegurar os limites de cada um dos impulsos é tarefa da „cultura‟” (Ibidem. Numa palavra. tanto em significado próprio com figurado. quanto se sente se está fora de si. p. Um impulso não pode ultrapassar os limites do outro.. 68). trata-se da dimensão sensível da natureza humana.. garante necessidade e universalidade à pessoa.] da existência absoluta do homem ou de sua natureza racional” (Ibid.. para além do domínio da consciência – estar em si (in sich gehen) – ou da pessoa.] dar realidade ao necessário em nós” – diz Schiller (1995. Este impulso impele à realidade e a manutenção da vida. Estes impulsos apresentam tendências opostas. corresponde ao pólo racional-formal da natureza mista. É o impulso para a liberdade impelido pela razão. p.] impulso que reclama a afirmação da personalidade” ( Ibid. este é o impulso que abre a porta do mundo para os homens. é a forma. com o sentido imediato da vida. Este se liga ao conceito de estado (Zustant).. chama vida em seu significado mais amplo. um conceito que significa todo ser material e toda presença imediata dos sentidos” ( Ibid. é o “[. 67) – “ou de sua natureza sensível” O impulso sensível condiciona o homem à limitação. Este impulso opera afirmando a pessoa (imutável) a despeito da mutabilidade do estado no espaço e no tempo. Esta impele à necessidade e a preservação da dignidade. impulsiona às determinações e ao movimento do sujeito dentro do espaço e do tempo.. p. Observa uma força que impele o homem a projetar-se para fora de si (ausser sich sein). antagônicas não possuem o mesmo objeto.] da existência física do homem” – diz Schiller (Ibid. um conceito que compreende todas as disposições formais dos objetos e todas as suas relações com as faculdades do pensamento (Ibid... p.. p. 68). para além de seu eu. p. “O objeto do impulso sensível. Este . 68). 81)...

um estado de equilíbrio. O impulso lúdico4 é o problema central da Carta XIV da Educação Estética do Homem. O princípio do jogo desenvolvido por Schiller foi influenciado pelo conceito de ação recíproca de Kant em sua Crítica da Faculdade do Juízo. 209). ao interior o belo. Dirá Kant do jogo entre as faculdades do espírito. é justamente porque divide entre dois. é a própria lógica da arte e da vivência estética. Schiller não se desprende totalmente de seu kantismo. diante do belo dispõe-se de modo emparelhado. p.5 Na óptica de Kant. o estado de ânimo nesta representação tem que ser o de um sentimento de jogo livre das faculdades de representação em uma representação dada para um conhecimento em geral [28]. Está idéia será fundamental para Schiller. experienciando o sentimento de prazer ou desprazer. segundo Kant. no caso do juízo estético (reflexivo). e. pois. a vivificação do estado de ânimo. O jogo entre as faculdades empreendem. ao passo que a imaginação atua livremente. suas faculdades do espírito: imaginação e entendimento são postas em jogo. sem que uma legisle sobre a outra. Portanto. a faculdade do entendimento não gera conceitos. Kant diz que o sujeito no ato de contemplação estética. 83).. ainda assim não constrange nem interior nem exteriormente. A filosofia elementar de Schiller propõe que evite-se pedagogicamente este transgressão. Para Schiller deve haver uma comunidade. ao apregoar o juízo sobre a beleza. 1996. p. 82): “[. não sendo subjetiva nem objetivamente contingente. que costuma chamar de jogo tudo aquilo que. estão com isto em um livre jogo. observa-se uma exigência do próprio conceito de humanidade formulado por Schiller (1995. Dirá Kant na Crítica da Faculdade do Juízo (1995. independente de conceitos. que através desta representação são postas em jogo.. Mas Schiller desenvolve essa idéia ao ponto de sobre ela construir toda a sua antropologia estética” (SANTOS.5 respeito é fundamental. um feliz meio-termo entre a lei e a necessidade. 62): As faculdades de conhecimento. sobretudo. 5 “O jogo. p. agem reciprocamente. um ponto zero. . furtando-se à coerção de um e de outro” (SCHILLER. do contrário haverá uma transgreção da natureza. Se o espírito encontra. 1790. porque nenhum conceito determinado limita-as a uma regra de conhecimento particular.] deve haver 4 “Este nome é plenamente justificado pela linguagem corrente. irá desenvolvê-la sobre o registro de uma antropológica estética. uma dinâmica entre os impulsos. p. porém. não referi-se a juízos determinantes. 1995. já Kant o mostrara. trata-se de uma exigência da própria razão por motivos transcendentais. para Schiller é a dinâmica de jogo entre os impulsos da natureza mista. Na terceira Crítica.

um conceito que serve para designar todas as qualidades estéticas dos fenômenos. O que está em causa não é formação do homem pleno.. os impulsos descarregam suas forças neste terceiro. vai contra uma formação específica. Desde belo ideal. Eis o ideal de formação de Schiller. A urgência do tempo.. Portanto. ou para uma profissão. . de passividade e liberdade. O jogo da natureza da origem à beleza. as diretrizes políticas estão inclinadas a oferecer uma educação que se desgarrou de seu sentido originário. O impulso lúdico. Assim. pois que apenas a unidade de realidade e forma. em especial as salas de aula de escolas públicas6. se sensível e formal legislasse um sobre o outro haveria uma anulação de partes. A Educação Estética apresenta uma função libertadora da humanidade. se se quer o homem pleno e uma humanidade plena. dirá Schiller: “[. Escolas se configuram como mecanismos de controle social. O impulso lúdico apresenta em seu fundamento o princípio dialético capaz de jogar com as condições da natureza mista e gerar um ponto zero. ou. um elemento gerador de equilíbrio.6 um impulso lúdico. isto é. Ao reunir o objeto dos dois impulsos. ainda esquecida pelos professores. voltando-nos para o campo de observação do ambiente escolar. uma vez que seu ponto de insurgência é este ponto zero. ao operar a mediação entre as forças formal e sensível recebe a um só tempo a pulsão dos dois. O impulso lúdico está ligado diretamente à representação do belo. pois. e. permite que um não anule o outro. completa o conceito de humanidade”. constatamos que a dimensão estética ainda se conserva numa posição secundarizada. o impulso lúdico se mostra como elemento indispensável. O espaço físico não 6 Estamos nos referindo às observações feitas em salas de aula de escolas públicas estaduais na cidade de Marília-SP como partes das atividades do Projeto de Iniciação à Docência PIBID – CAPES. para Schiller o homem deve se formar (auto-formação) como cidadão do mundo.] pode ser chamado de forma viva. tudo o que em resumo entendemos no sentido mais amplo por beleza”. O que está em causa é a conservação da particularidade de cada força. de contingência e necessidade. o que completa o conceito de humanidade é a união (harmônica) dos dois impulsos fundamentais da natureza humana. o que poderíamos atualizar de Schiller enquanto subsídios para a prática da Educação em nossos dias? Saindo do campo ermo dos conceitos da estética schilleriana. resultaria numa hierarquização das forças. Ora. Eis um projeto pedagógico com sentido político.

1995. A hipótese talvez seja sensibilizar os educandos. reformar a estrutura e o espírito das salas de aulas. Leonel Ribeiro dos. 1996. Jorge Anthonio e. os outros do mundo (P EDROSA. Fragmento e a síntese: a educação estética do homem. [Tradução de Valério Rohden e António Marques] Rio de Janeiro: Forense Universitária. diminuir a distância: então que não seja uma regra. Mário. In: Educação estética e utopia política.] Cria-se assim em cada um de nós um melhor aparelho de apreensão e recepção. p.7 suporta as atividades fora de sala. as bibliotecas não são visitadas e abastecidas. Forma e percepção estética: textos ecolhidos II. 1996. São Paulo: Iluminuras. mais precisos e controlados. seja pelo conteúdo. Deve haver um mediador entre educando e educador. Educação estética. transformar. Um jovem que aprende os segredos da modelagem ou descobre as seduções da talha ou do buril é um homem diferente do que era antes dessas experiências. São Paulo: Perspectiva. São Paulo: Ed. .. Otília Arantes (Org. 203-220. 1995. O subsídio schilleriano é jogo em sala de aula. a dimensão esquecida. p. SANTOS. Lisboa: Edições Colibri. Afinal de contas. PEDROSA. uma vez que não são estimulados. [. Frieddrich. SILVA. estimulá-los: não pela regra ou a ordem. Os conceitos de educação estética podem ser desenvolvidos no ambiente escolar. 2003.). USP. mas um sentimento. Crítica do Juízo. Os alunos são desatenciosos. Saímos todos enriquecidos dessas ocupações gratuitas. ou o método didático empregado. ambos. mas pela vontade. Immanuel. Referência Bibliográfica KANT.62). e transmissores. e que nos fazem entrar num contato mais detalhado e sutil com as coisas. SCHILLER. despertá-los pela dimensão estética.. A educação estética da humanidade: numa série de cartas. antenas sensoriais mais aguçadas. 1996. à nossa disposição. ou um imperativo. dentro do sistema público de educação são vítimas da política educacional dominante.