AS RAÍZES PROFANAS DE SÃO JOÃO Autor: Marcelo Affini

“A fogueira de São João nasceu antes de São João. Quando o Vaticano instituiu, no século VI, o dia 24 de junho para a comemoração do nascimento daquele que batizou Cristo, os povos europeus já celebravam com grandes fogueiras, a chegada do sol e do calor. Em 58 a.C., quando o imperador romano César conquistou a Gália (França), os bárbaros já comemoravam o solstício do verão, no dia 22 ou 23 de junho – o momento em que o Sol pára de afastar-se (solstício vem do latim e significa “sol estático”) e volta a incidir em cheio sobre o hemisfério norte. “Os cultos pagãos eram rituais de abundância e fertilidade”, diz a professora Maria Lúcia Montes, antropóloga da Universidade de São Paulo. “Havia sacrifícios de animais e oferendas de cereais para afastar os demônios da esterilidade, das pestes agrícolas e da estiagem”. O cristianismo, na verdade, apenas “converteu” uma tradição pagã em festa católica. Até hoje, as tradições pagãs e cristãs convivem. A seita Uika, inspirada nos antigos celtas (povo que dominou o oeste da Europa no primeiro milênio antes de Cristo) acende grandes fogueiras ao redor do mundo, no solstício do verão europeu. No Brasil, a Uika promove comemorações místicas, com mais de 500 pessoas, no dia de São João, em São Tomé das Letras (MG) e Mauá (RJ). Na Espanha, as Hogueras de San Ruan são uma das tradições mais cultivadas, especialmente na Catalunha. Em Portugal, as comemorações foram ampliadas no século XIII, incluindo o dia de Santo Antônio de Pádua (que nasceu em Portugal, mas morreu na Itália, no dia 13 de junho) e o da morte de São Pedro, em 29 de junho. Transportadas para o Brasil colonial, as festas “pegaram” entre índios e escravos. Descrevendo as celebrações católicas “assimiladas” pelos indígenas, o jesuíta Fernão Cardim escreveu em 1583, em seu Tratado da Terra e da Gente do Brasil: “A mais alegre é a das fogueiras de São João, porque suas aldeias ardem em fogo e, para saltarem as fogueiras, não os estorva a roupa, ainda que algumas vezes chamusquem o couro”. Com a chegada da família real portuguesa, que se transferiu para o Brasil, fugindo de Napoleão, na Europa, as festas juninas tomaram novo rumo.Junto com os 15.000 aristocratas que desembarcaram no Rio, em 1808, veio a contradança (originada nos country-dances, bailes camponeses da Normandia e da Inglaterra) que animava as festas da realeza. Era uma dança de casais que trocavam de pares. Não demorou muito, as contradanças saíram dos salões nobres para as festas populares. Casamentos, batizados, festas juninas, festas de padroeira e muitas outras passaram a ser comemoradas com a dança francesa. No final do século XIX, surgiram formas mais modernas e urbanas de dançar, como a polca, o maxixe e o lundu, e as quadrilhas foram desbancadas.

conta Lima. A fogueira virou bom presságio. ANO 9. imitam os trajes das contradanças francesas do século XVIII e aproveitam as quadras de escolas de samba para ensaios”. São João foi degolado por ter denunciado o adultério de Herodes com a cunhada Salomé. da Funarte (Fundação Nacional da Arte). “São grupos de encenação que vestem roupas caríssimas. da USP.Entretanto. teria anunciado o nascimento do filho à irmã. Segundo o antropólogo Renato da Silva Queiroz. a vida rural foi revalorizada. no Rio de Janeiro. teremos a tecno-quadrilha. Maria. segundo a lenda. Nº 6 – JUNHO 1995. quando o nacionalismo de Vargas estimulou a busca de uma identidade cultural brasileira. cada vez mais. a evolução segue a direção do espetáculo. 26 e 27. pp. permaneceram na zona rural. A partir de 1930. O catolicismo associou sua tradição à festa pagã da fogueira. Isabel. a mãe de São João. primo de Cristo e precursor do Messias. onde a população é mais conservadora. . há mais de 700 “quadrilhas monumentais” no estado. acendendo uma fogueira em cima de um morro. temas como enredos de carnaval.” FONTE: Revista SUPER INTERESSANTE.” São João Batista “Nasceu em 24 de junho. As novas quadrilhas usam. mãe de Jesus. Segundo o antropólogo Ricardo Lima. “junto com a temática do homem do campo surgiu a dança caipira que nada mais é do que a quadrilha de origem aristocrática com adaptações”. adotam alegorias e dançam ao som de música sertaneja e música funk Dentro em pouco. Assim. Hoje.