O porte de “Arma Branca” no Brasil.

12 de agosto de 2011 / admin / 11 comments Existe alguma controvérsia no meio jurídico e muito desconhecimento e arbitrariedade no meio policial, mas o artigo do Dr. Marcelo Pereira esclarece o tema.

O porte da arma branca O uso de arma branca Dr. Marcelo Pereira * A palavra “arma” juridicamente pode ser definida como todo instrumento utilizado pelo ser humano para o ataque e a defesa. Ainda juridicamente tem dois significados, ou seja, existem armas próprias assim consideradas e armas impróprias. As primeiras são as destinadas especificamente à finalidade ofensiva, tais como os revólveres, as pistolas, os rifles, etc. As segundas são objetos que eventualmente podem ser utilizados agressivamente, embora sua utilização normal não seja esta, tais como os martelos, os machados, etc., ou mesmo quaisquer objetos, incluídas evidentemente as lâminas de modo geral. Essas são denominadas de “armas brancas” e se classificam em quatro espécies: as cortantes; as pérfuro-cortantes; as perfurantes; e as corto-contundentes. As armas brancas cortantes são os instrumentos que se caracterizam por uma borda delgada, denominada gume ou corte, afiada o bastante para seccionar tecidos por meio de uma pressão deslizante, que provocará maior talho à medida que a lâmina se desloca. O exemplo clássico é a navalha de barbeiro. As pérfuro-cortantes são os objetos constituídos por uma lâmina que apresenta uma ponta e um ou mais gumes. São utilizadas para perfurar e cortar. Os melhores exemplos são a faca e a adaga. As perfurantes são os instrumentos terminados em ponta aguda, de secção circular ou poligonal. Servem para perfurar, não produzindo corte. O florete é o melhor exemplo. Finalmente, as corto-contundentes são as peças que atuam cortando mas que, por conta também de sua massa, acabam igualmente exercendo um efeito contundente ou esmagador sobre os tecidos atingidos. O machado e a foice são bons exemplos para ilustrar a definição.

Nada mais estabelece. ou decorre de uma autorização outorgada pela autoridade competente. que são as lâminas em sentido amplo.º. constituindo abuso de autoridade qualquer medida policial coercitiva contra o porte de lâminas. Porte de arma branca. no qual vigora o princípio da liberdade (artigo 3.º.º 9437/97 (revogada pelo estatuto do desarmamento). estando revogado tacitamente o artigo 19 da Lei das Contravenções Penais desde a Lei Federal n. A legislação no Brasil proíbe o porte ilegal de arma de fogo. disciplinando inclusive as condições legais para o exercício do porte licitamente. o uso de armas de fogo. o qual aliás se referia apenas a estas. em julgamento de 13 de janeiro de 2000.No Brasil. a não ser em virtude da lei (artigo 5. inciso I). por não se tratar de instrumento cujo porte esteja condicionado à autorização de autoridade competente. pois no Brasil é crime portar arma de fogo sem condição legal para tanto (artigo 14 da Lei Federal n. exclusivamente. Nada mais juridicamente válido existe sobre o assunto. Tal condição ou decorre de uma específica situação funcional do indivíduo. Punibilidade. já que nunca houve autorização para porte de armas brancas. como sucede com o porte de arma dado ao civil honesto pela autoridade policial (que na prática não existe mais). a única restrição sobre a posse e o uso de armas brancas diz respeito a espadas e espadins das Forças Armadas e Auxiliares.º 9437/ 97. salvo a exceção acima mencionada.826/2003 – estatuto do desarmamento). inciso II). proferido pela 7. consideradas privativas destas segundo o regulamento de produtos controlados do Exército(R-105). A Constituição Federal estabelece que ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer algo. Ressalte-se que recente jurisprudência do Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo. Consequentemente e segundo a regra constitucional.º 10. podendo qualquer indivíduo mentalmente sadio portar sua faca para defesa ou trabalho. sendo certo que viola o princípio da reserva legal a tentativa de incluir as armas brancas na categoria daquelas cujo porte é dis- . independentemente de qualquer autorização para tanto. Confira-se a ementa 110400: “ Lei de armas. Inocorrência: – O portar arma branca não tem nenhuma significação em termos de punibilidade. conforme a Lei n. como é o caso por exemplo do policial. que previa como infração penal o porte ilegal de armas de fogo (artigo 21 da Lei Federal n. que disciplina. no Brasil o porte de faca ou qualquer tipo de lâmina não é proibido pela legislação. É a regra do Estado de Direito. É a regra do Estado de Direito.º 9437/97).ª Câmara ao apreciar uma apelação ( processo 1175279/8 ). decidiu que não configura infração penal o porte de arma branca.

já que não há porte para ela. 19 da LCP. o artigo 19 da lei das contravenções penais foi. revogado pelo artigo 10. Porém.ciplinado normativamente. da Lei 9437/97. A nova lei anti-armamento. consideradas privativas destas segundo o regulamento de produtos controlados do Exército. revogou a lei 9437/97. A única restrição sobre a posse e o uso de armas brancas diz respeito a espadas e espadins das Forças Armadas e Auxiliares. por isso o surgimento da expressão “Lâmina de 4 dedos”. de 11 de dezembro de 1936 proíbe que um civil porte uma lâmina com mais de 10 centímetros. em seu artigo 36 e também não contemplou a hipótese do porte/posse de arma branca. mais recentemente. Conclusão: A apreensão de objeto e ou detenção de portadores de arma branca só é admissível no território nacional quando constituir objeto ou instrumento de crime. Lei nº 3. a Lei das Contravenções Penais (Dec.246. . não há necessidade de autorização. ou supor para essa hipótese a manutenção do art. por sua vez. Em seguida. com suporte em decreto estadual de patente inconstitucionalidade. em seu artigo 71. Logo não existe nenhuma lei que proíba uma pessoa de sair com qualquer arma branca na rua.688/1941) revogou essa lei. tacitamente.” * Marcelo Pereira é Mestre e Doutor em Direito do Estado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo RESUMO O Decreto nº 1.