\estre em

psicologia pelo
lrograma de
\estrado em
lsicologia lstudos
lsicanaliticos
(lanch/Ul\G),
correspondente da
lscola lrasileira
de lsicanalise, em
\inas Gerais.
0B0Nl0A DE üM FlM ANüN0lAD0:
0 DEßATE ENTBE FBEüD E !üNS
80ßBE A TE0BlA DA LlßlD0
1
Kátìa Marìás Pìntc
BE8üM0: lste artigo enfoca o historico da parceria de lreud e ¦ung
no tralalho com psicoticos, e as divergëncias anunciadas desde
as primeiras correspondëncias trocadas por eles solre o papel da
sexualidade na vida psiquica do individuo. O delate com lliess
solre a sexualidade se constitui como o pano de fundo para todo
o desenvolvimento da parceria com ¦ung. A hipotese central deste
artigo e a de que o conceito de lilido foi, certamente, um ponto
crucial que denniu os rumos da psicanalise em relaçao a sua con-
cepçao do mecanismo causal das psicoses.
Palavras-chave: lreud e ¦ung, teoria da lilido, psicose.
Aß8TBA0T: Chronicle of an announced end the delate letveen
lreud and ¦ung on the theory of the lilido. 1his article focuses on
the historical partnership letveen lreud and ¦ung in their vork
vith psychotics, and the outlined differences from their very nrst
mail exchanged alout the role of sexuality in individual`s psychic
life. 1he delate vith lliess alout sexuality is the lackground for
the vhole development of the partnership vith ¦ung. 1he main
hypothesis of this article is that the concept of lilido vas, dennitely,
a crucial point that had denned the vay of psychoanalysis tovards
its conception of the casual mechanism of psychosis.
Keywcrds: lreud and ¦ung, lilido theory, psychosis.
Ágcra ¦Rìc de Ianeìrc} v. Z n. 1 |an/|un 2007 75-88
1
O titulo deste artigo faz alusao ao romance Cråai:s 1. ams mar|. saaa:is1s,
de Galriel Garcia \arquez, em que o escritor monta um quelra-ca-
leça cujas peças vao se encaixando pouco a pouco, revelando, assim,
o motivo da morte de ·antiago :asar, anunciada ja nas primeiras
linhas da narrativa. De modo analogo, esse texto percorre o caminho
teorico que levou ao rompimento entre lreud e ¦ung, anunciado desde
as primeiras correspondëncias devido a incompatililidade conceitual
ja entao evidente.
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0 EN00NTB0 ENTBE FBEüD E !üNS: 0 FlM ANüN0lAD0
A interlocuçao entre ·igmund lreud e Carl Gustav ¦ung iniciou-se em 1906,
quando ¦ung enviou a lreud seus ls|a1as sa|r. sssa:isça.s, como resultado de suas
experiëncias com associações verlais. O envio desse livro a lreud marcou o
inicio de uma estreita colaloraçao, levando-os a manterem uma correspondëncia
e um tralalho intensos por aproximadamente sete anos.
Ao receler o estudo ísi:a|a¿is 1s 1.m.a:is ¡r.:a:., de ¦ung, lreud revela, numa
carta, estar inteiramente de acordo ou apenas aceita sem discussao suas expli-
cações, uma vez que sua experiëncia com a psicose e pequena. Olserva ainda
a inclinaçao do suiço em recorrer as toxinas, omitindo o fator sexual presente
nas afecções. lreud, ao contrario, se serve da sexualidade, emlora ate aquele
momento nao tenha chegado a uma conclusao.
lercele-se, desde as primeiras cartas, uma incompatililidade teorica que nca
cada vez mais evidente no decurso do tralalho empreendido por eles. Contudo,
e importante ressaltar que lreud interessou-se pela experiëncia dos psiquiatras
suiços
2
vendo nessa associaçao uma oportunidade de ampliar os limites das
psicoses, alem de ¨cortar o cordao umlilical judaico da psicanalise e torna-la
aceitavel aos nao-judeus¨ (zlzll, 2002, p.14-1¹), uma vez que lleuler e ¦ung
nao eram judeus. lreud preocupava-se com o fato de que a psicanalise pudesse
ser identincada como uma ¨ciëncia judaica¨. ·ua pretensao era de que ela fosse
reconhecida como uma ciëncia com a dimensao universal que estava presente
em qualquer discurso cientinco. lra crucial para lreud a alertura do movimento
psicanalitico para outros territorios, para desviar a psicanalise dos intensos pre-
conceitos anti-semitas entao existentes. A possililidade de aplicar a psicanalise
a clinica das psicoses deixou lreud entusiasmado com tal parceria.
:esse momento inicial das correspondëncias, as diferenças em suas con-
cepções do papel desempenhado pela sexualidade na vida psiquica do sujeito ja
estao delimitadas. :o åmago da prollematica da sexualidade, esta a teorizaçao
da lilido, que, como o proprio lreud aponta em sua ¨listoria do movimento
psicanalitico¨ (lklUD, 1914a/1990), ¦ung nao levava em conta, mas tamlem
nao a excluia, porem, em 1912, a proposito da pullicaçao do seu livro ·im|a|as 1s
|rsaslarmsç1a. sas|is. 1as ¡r.|a1ias 1. ams .s¡ai:alr.ais (1911/1989), atriluiu demasiada
importåncia a este material.
2
Alem de ¦ung, laul lugen lleuler (18¹7-19.9) interessava muito a lreud. lleuler foi professor
de psiquiatria na Universidade de zurique, diretor do lospital lurgholzli de 1898 ate 1927
e um dos grandes pioneiros da psiquiatria. lle reviu todo o conceito de demëncia precoce,
passando a chama-la de .s¡ai:alr.ais. lleuler tentava proporcionar a psiquiatria uma lase
psicologica, nao se contentando com a simples descriçao dos sintomas das doenças mentais.
lle e seus colaloradores (entre os quais, ¦ung), faziam experiëncias de associaçao verlal,
que lhes permitiram descolrir que o disturlio comum as diversas formas da entao chamada
demëncia precoce e a dissociaçao psiquica, o que o levou a propor o termo .s¡ai:alr.ais.
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A hipotese central de nosso artigo e a de que o conceito de lilido foi, certa-
mente, um ponto crucial que denniu os rumos da psicanalise em relaçao a sua
concepçao do mecanismo causal das psicoses. lssa pesquisa luscou, no encontro
entre lreud e ¦ung ou, mais especincamente, na controversia estalelecida solre
a teoria da lilido, a nova etapa da psicanalise. A partir deste ponto, lreud pôde
reorientar sua primeira teoria do dualismo pulsional, referindo-se ao auto-ero-
tismo e introduzindo o eu como uma inståncia de investimento lilidinal e nao
mais apenas os oljetos da pulsao. licou evidente, portanto, que o delate solre a
lilido freudiana acarretou consequëncias cruciais para a concepçao psicanalitica
das psicoses, tanto que lreud reporta em ¨·olre o narcisismo uma introduçao¨,
que o conceito de narcisismo oferece uma alternativa a lilido nao sexual de
¦ung, presente nesses casos. :esse mesmo texto, encontra-se a critica de lreud
a concepçao monista da lilido presente em ¦ung, o que permitiu a lreud lançar
as lases para uma futura dualidade pulsional necessaria a sua concepçao de que
o connito e estruturante do funcionamento psiquico. :esse momento da olra
de lreud, a lipolaridade e explicada pela existëncia de duas lilidos ÷ lilido do
eu e lilido do oljeto ÷, cada uma implicando uma escolha de oljeto, segundo
o tipo narcisico ou o tipo de ligaçao. lssa reformulaçao da teoria psicanalitica
se deu imediatamente apos a ruptura com ¦ung. \ais tarde, estaleleceu outras
modincações que culminaram numa reelaloraçao total de sua concepçao dualista
das pulsões, em que solressai a pulsao de morte.
A parceria de lreud e ¦ung ja anunciava a discordåncia desde o seu inicio.
As cartas trocadas revelam que o interesse pela psicose estava colocado tanto
do lado de ¦ung quanto do lado de lreud, lem como a dinculdade do suiço em
captar a essëncia da noçao de s.xas|i1s1. proposta por lreud.
¦ung fez numerosas tentativas de neutralizar o papel da sexualidade, acre-
ditando que a comunidade cientinca nao seria capaz de alcançar a alrangëncia
dessa noçao. A noçao de sexualidade, na teoria freudiana, escapa a noçao restrita
de genitalidade e a posiçao de ¦ung permanecia divergente daquela de lreud no
essencial solre a lilido para ele a lilido nao poderia ser apenas a energia da
pulsao sexual. lle a eleva a uma proporçao tal que ela sofre muitas transforma-
ções, alcançando formas espirituais. lsse e, alias, o tema do seu livro V.|smarlas.
. sim|a|as 1s |i|i1a, solre o qual lreud decide-se por cortar dennitivamente as
relações com ¦ung, acusando-o de deturpar a teoria psicanalitica e de nao ter
entendido nada solre o inconsciente.
lm ¨Os trës ensaios solre a teoria da sexualidade¨ (lklUD, 190¹/1990),
lreud apresenta o que vem a ser o sexual em seus escritos. :esse tralalho, ele
parte do estudo das ¨perversões¨ para anrmar que todas as atividades que consti-
tuem a vida sexual dos perversos desempenham o mesmo papel que a satisfaçao
sexual normal desempenha em nossas vidas. lacan oferece uma chave para a
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leitura do texto freudiano existe na satisfaçao lilidinal um carater paradoxal.
lsse carater ja esta presente em suas elalorações nesse periodo, mas so vai ser
formalizada em 1920, com a pullicaçao de ¨Alem do principio do prazer¨.
l exatamente esse :srs|.r ¡srs1axs| da satisfaçao lilidinal que escapa a ¦ung. l
aqui, lacan nos ajuda a perceler que a perspectiva de ¦ung da lilido permanece
cativa do imaginario. lara ele, a lilido permanece num movimento innnito de
investir e desinvestir o eu e dos oljetos, transformando-se em nguras variadas,
proprias da mitologia. :a teoria junguiana, a lilido e essencialmente simlolica,
dai sua conclusao da existëncia de um inconsciente coletivo. Como essa lilido e
uma energia que se transmite as gerações, ela e o inconsciente arquetipico que
possui estruturas nxas transmitidas universalmente.
O prollema da sexualidade, na teoria freudiana, esta colocado inclusive nos
casos de psicose. lm ¨As neuropsicoses de defesa¨, um texto de 1894, lreud
anrma que ¨e precisamente a vida sexual que traz as oportunidades para o
surgimento de representações intoleraveis¨ (lklUD, 1894a/1990, p.¹9) e ¨o eu
rejeita a representaçao intoleravel atraves de uma fuga para a psicose¨ (lklUD,
1894a/1990, p.6.).
laveria para lreud, nesse momento, um tipo especinco de ¨recalque¨ que
ele chama de ¨projeçao¨ uma ideia originada no intimo e projetada para fora,
reaparecendo como se viesse do exterior, como uma realidade percelida. Dessa
maneira, o recalque manifesta-se em oposiçao a tal ideia. O afeto correspon-
dente e retido no eu, ocorrendo a inversao em desprazer. 1emos, nesse caso, a
paranoia, quando, na tentativa de reencontrar o oljeto, a lilido transforma as
representações em alucinações, com inversao do afeto em desprazer. A lilido
recalcada e, gradativamente, transformada em convicçao, em crença, dando ao
delirio toda a sua força.
FBEüD E FLlE88: üM BET0BN0 A0 PB0ßLEMA DA T0XlNA
A interlocuçao entre lreud e lliess desperta uma hipotese quanto a toleråncia
de lreud as ideias de ¦ung, solretudo a tendëncia deste ultimo em recorrer as
toxinas, excluindo a sexualidade. ¦ung justinca o recurso as ¨toxinas¨ por temer
mal-entendidos provenientes da ¨notoria indole oltusa do respeitavel pullico¨
÷ leia-se comunidade cientinca. lara ele, a ideia de que uma secreçao endo-
crina ¨interna¨ possa ser a causa de perturlações psiquicas e de que talvez a
produçao das toxinas deva-se as glåndulas sexuais e perfeitamente compativel.
\as, devido a falta de provas, alandonou essa hipotese, aplicando-a, mais tarde,
a epilepsia, na qual, segundo lë, o complexo sexual-religioso ocupa um lugar
central (\cGUlkl, 199., p.¹8).
.

Carta 12 ¦, 8 de janeiro de 1907, p.¹8.
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lm seu intercåmlio teorico com lliess,
4
lreud confrontou-se com a tendën-
cia do medico alemao a orientar-se de forma pretensamente cientinca. Amlos
tinham em comum um grande interesse pela sexualidade e esse interesse leva-os
a constataçao de que a causa das molestias que tratavam estava ai tinham como
origem a sexualidade. lliess procurava descrever os fenômenos da nsiologia
medica apoiando-se nas descolertas da fisica, da quimica e da matematica. ·eu
interesse era o de descolrir as lases cientincas, solretudo orgånicas, de uma nova
sindrome, que ele chamava de a.aras. asss| r.1.xs (·A:1lAGO, 2001, p.79-80).
lliess pretendia demonstrar a origem nasal da dismenorreia e, com isso, a
tendëncia a periodicidade de todas as atividades vitais. Com essa teoria, ele cons-
troi uma verdadeira lei universal da natureza, ou seja, ele atinge uma concepçao
grandiosa de um universo regulado pela menstruaçao ¨tudo o que e periodico
e menstrual¨ (A:Dkl, 1987, p..¹).
¨O oljeto dessa lei universal, para lliess, e a toxina sexual, sulståncia e principio
unico, tanto da vida quanto da morte. lle constroi uma teoria da angustia, tomando-
a como o resultado do acumulo de toxina sexual nao lilerada pela vida normal.¨
(A:Dkl, 1987, p..6)
lreud, por sua vez, tenta estalelecer a teoria da neurose de angustia, que con-
siste em uma acumulaçao fisica de excitaçao, de tensao sexual fisica. lara ele, a
neurose de angustia e uma neurose de represamento ela surge por transformaçao,
a partir da tensao sexual acumulada. O que interessa a lreud e a excitaçao endo-
gena, cuja fonte situa-se dentro do corpo do individuo, a saler, a fome, a sede,
a pulsao sexual. l apenas quando essa tensao endogena ultrapassa determinado
limiar que passa a ter signincaçao psiquica. Ou seja ¨acima de certo nivel, essa
tensao sexual fisica desperta a lilido psiquica que induz ao coito. Quando a reaçao
especinca deixa de se realizar, a tensao fisico-psiquica (afeto sexual) aumenta
desmedidamente¨ (lklUD, 1894l/1990, p.27.). 7erinca-se que o termo |i|i1a
e usado aqui pela primeira vez por lreud, o que permite concluir que o que ele
chama de ¨tensao sexual acumulada¨ e uma outra maneira de nomear a lilido.
lode-se perceler que, na origem da psicanalise, a teoria toxica da lilido ocupa
um lugar essencial e e exatamente a hipotese sulstancialista da lilido um dos
pontos de contato entre a teoria de lreud e a de lliess, que e tamlem, como se
acalou de ver, a concepçao de ¦ung.

Wilhelm lliess era otorrinolaringologista em lerlim. loi a 7iena no outono de 1887 para
estudar e assistiu a algumas conferëncias de lreud solre neurologia. A partir de entao, os
dois iniciam uma correspondëncia que se estende ate 1904. lliess fez pesquisas solre as
relações entre o nariz e os orgaos.
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O relacionamento de lreud e lliess e fortemente alalado apos o dramatico
episodio com lrma (lklUD, 1900/1990).
¹
lreud, entao, recua diante de toda
assimilaçao da sexualidade ao principio unico e universal da toxina, e passa a
nao acreditar mais no principio unico dessa toxina. lara lreud, a lilido apresenta
um impulso constante manifesto na pulsao sexual e essa concepçao da lilido e
radicalmente incompativel com o carater periodico da descarga da toxina sexual
em lliess. Ao contrario de lreud, a lilido para lliess comporta, necessariamen-
te, o nuxo periodico da sulståncia sexual, que, no corpo, viaja entre o nariz
e o sexo, passando por varios orgaos e, alternadamente, fazendo-os inchar e
murchar. lreud concele a lilido como uma constante energetica, como energia
suscetivel de transformações e trocas. lle esta apoiado no ideal do reducionismo
cientincista ao recusar tudo o que esta alem dessa termodinåmica
6
energetica,
pois ¨todo saler previsivel solre o real da lilido corre o risco de cair no delirio
paranoico¨ (·A:1lAGO, 2001, p.8¹).
Ao considerar a toxina sexual um elemento da teoria analitica, lreud acre-
ditava que o progresso da ciëncia poderia, no futuro, elucida-lo. lle mantem-se
convencido da necessidade de procurar nas manifestações da lilido o traço
material do principio da toxina sexual unica. 7erinca-se a crença de lreud no
sulstrato toxico da lilido num momento importante de reformulaçao da sua
teoria, a proposito das considerações solre o narcisismo. Ao mesmo tempo
que esta respondendo as criticas de ¦ung, lreud adverte-nos de que as ideias
provisorias em psicologia um dia se lasearao numa sulestrutura orgånica. lsso
sugere que os responsaveis pela realizaçao das operações da sexualidade sejam
as sulståncias e os processos quimicos. lle propõe que essa prolalilidade seja
levada em conta ao sulstituir as sulståncias quimicas especiais por forças psi-
quicas especiais (lklUD, 1914l/1990). l evidente, nessa passagem, a esperança
de lreud de encontrar uma lase explicativa para os fenômenos psiquicos nas
ciëncias da natureza.
lortanto, devido ao fato de que lliess tamlem tomava a toxina sexual como
sulståncia e principio unico da vida e da morte e que e possivel entender a
toleråncia de lreud para com as ideias de ¦ung. lodemos aventar que ¦ung, ao
propor a origem toxina das afecções, encontra em lreud um interlocutor avido
pelos avanços que a ciëncia poderia realizar em relaçao a origem da lilido.

7er tamlem os comentarios de ·antiago (2001, p.8¹-90) solre esse episodio.

A termodinåmica e uma parte da fisica que investiga os processos de transformaçao de
energia e o comportamento dos sistemas nesses processos.
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0 80RBEßEB DE FBEüD
O fato de ¦ung ter insistido em que lreud lesse a autoliograna do presidente
·chreler e outro capitulo importante desse relacionamento. :a ísi:a|a¿is 1s 1.-
m.a:is ¡rs.:ax, ¦ung ja se referia ao livro de ·chreler, pullicado em 190., e que,
no meio psiquiatrico, vinha sendo muito comentado. lntretanto, lreud so se
interessou de fato pela leitura e analise dessa autoliograna lem mais tarde
(lklUD, 1911/1990). lsse interesse tardio pelo livro de ·chreler provavelmente
se deve ao fato de que ele ainda nao tinha uma elaloraçao consistente solre a
psicose e o tralalho com o circulo de psiquiatras suiços possililitou a investiga-
çao psicanalitica das psicoses. O que ele fez com as V.mariss (·Clklllk, 199¹)
de ·chreler tornou-se tao relevante que e impossivel nao associarmos ·chreler
a lreud. :ao se pode deixar de assinalar tamlem que o autor, a partir de seus
comentarios solre o texto longo e delirante de ·chreler, acala por introduzi-lo,
olrigatoriamente, no percurso de todo psicanalista.
·ua analise conclui que ha, na paranoia, uma defesa contra o desejo homos-
sexual, e e exatamente a tentativa fracassada de dominar o homossexualismo a
causa da molestia. lara lreud, o que constitui o cerne do connito paranoico e a
fantasia de desejo homossexual. lssa connrmaçao e deduzida gramaticalmente a
partir da gënese das principais formas de delirios paranoicos, que constituiriam
uma defesa contra as pulsões homossexuais e produziriam, exaustivamente,
maneiras de negar a proposiçao la (um homem) a sma (um homem) (lklUD,
1911/1990, p.8¹).
A partir de ·chreler, ele descreve o mecanismo de recalque na paranoia, no
qual a lilido se desliga silenciosamente das pessoas e coisas antes amadas. O
que e ruidoso e o processo de cura, que desfaz o tralalho do recalque e traz a
lilido de volta as pessoas que ela havia alandonado. ketinca, por conseguinte, o
mecanismo da projeçao, anrmando que ¨o que foi alolido internamente retorna
desde fora¨ (idem, p.9¹).
A megalomania aparece aqui como uma caracteristica comum a maioria dos
casos de paranoia, pois se constitui num efeito do desligamento da lilido oljetal
e, ao mesmo tempo numa maneira de tratar a paranoia, a medida que investe
no proprio eu, supervalorizando-o.
A conclusao de lreud, em sua analise das V.mariss, e que os fenômenos paranoicos
e esquizofrënicos podem comlinar-se em varias proporções, o que o leva a propor
o diagnostico de demëncia paranoide, para ·chreler. lsse diagnostico e realizado a
partir do fato de que, ¨na produçao de fantasias e de alucinações, ·chreler apresenta
traços parafrënicos, enquanto que, na causa ativadora, no emprego do mecanismo
da projeçao e no desfecho, exile um carater paranoide¨ (idem, p.10.).
Adicionalmente, enuncia as duas teses que seriam as principais, no sentido
de que o estalelecimento da teoria da lilido das neuroses e das psicoses estaria
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avançando, ou seja, as neuroses surgem, solretudo, de um connito entre o eu
e a pulsao sexual, e as formas que elas assumem guardam a marca do curso do
desenvolvimento seguido pela lilido ÷ e pelo eu (idem). lica explicito que as
formas assumidas pelas neuroses e psicoses sao distintas e que essa diferença
se deve nao apenas aos disturlios do desenvolvimento da lilido, mas tamlem
aos disturlios do desenvolvimento do proprio eu. lssa anrmaçao de lreud ja
anuncia que o connito entre a pulsao do eu e a pulsao sexual nao explicara mais
a etiologia das psiconeuroses.
!üNS E A8 METAM0BF08E8 DA LlßlD0
lm ·im|a|as 1s |rsaslarmsç1a. sas|is. 1as ¡r.|a1ias 1. ams .s¡ai:alr.ais (1911/1989), ¦ung
se propõe a analisar as suscetililidades as innuëncias sugestivas de uma jovem
esquizofrënica. lle investiga o lugar de Deus e da religiao na vida psiquica do
homem. laz uma analise extensiva dos simlolos nos quais a lilido e passivel de
se transformar e propõe aquilo que põe nm, dennitivamente, ao seu relaciona-
mento com lreud a dessexualizaçao da lilido. lançamos mao, mais uma vez, da
terminologia lacaniana para dizer que a teoria junguiana da lilido e fundamen-
talmente imaginaria e prevalece o carater analogico da lilido. lssa constataçao
refere-se ao fato de que sua lilido, tomada como uma energia neutra, e deslocada,
sucessivamente, para formas espirituais, a ponto de transformar-se em Deus. l
exatamente por nao acompanhar a noçao freudiana solre o carater paradoxal
da pulsao sexual que ele provoca essa extensao da lilido e, consequentemente,
e levado a dessexualiza-la.
1ais considerações nos levaram a concluir que, nao havendo um ponto que
interrompa as sucessivas metamorfoses da lilido, nao ha na teoria junguiana
o mecanismo do recalque, essencial para introduzir o sujeito no universo da
cultura. lle recusa a interdiçao do incesto, ele recusa a funçao simlolica do pai.
lsso explica sua insistëncia no movimento regressivo da lilido. A medida que,
para ele, o pai nao possui a funçao de interditar a mae e recalca-la, o sujeito
permanece alsolutamente sulmetido ao incessante jogo da (sua) lilido, que nao
conhece limite. ¦ung recusa tamlem a noçao de conståncia lilidinal, proposta
por lreud num momento lem inicial da teoria psicanalitica.
Uma outra vertente para se pensar a proposta de ¦ung em dessexualizar a
lilido pode ser luscada na noçao freudiana de sa||imsç1a. O conceito de sulli-
maçao foi introduzido por lreud para indicar que, se nao ha atividade sexual,
tampouco ha recalque. A sullimaçao freudiana coloca o paradoxo de que e
possivel uma satisfaçao das pulsões sem atividade sexual e sem recalque. lsso
leva ¦ung a pensar que, se a lilido pode satisfazer-se sullimatoriamente, nao
deve ser sexual. lor isso, ele coloca o acento nas m.|smarlas.s da lilido, em suas
transformações. l como essa lilido e capaz de transformar-se de maneira tal que
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se satisfaz sem sexualidade, ela e, portanto, um elemento nao sexual no homem
(\llllk, 1998, p..21).
0 B0MPlMENT0
Ao voltar de uma serie de conferëncias que realizou nos lstados Unidos, ¦ung
escreve a lreud entusiasmado com as modincações que fez na teoria psicanali-
tica, particularmente em relaçao a teoria da lilido. lle acreditava que a sua nova
versao da psicanalise havia conquistado a simpatia de muitas pessoas que ate
entao estavam confusas com o prollema da sexualidade na neurose (\cGUlkl,
199., p. ¹21).
7
lreud agradece, cordialmente, as noticias solre a situaçao da psicanalise nos
lstados Unidos, mas indica que ¨a latalha nao seria decidida la¨ e critica a atitude
de ¦ung em reduzir as resistëncias com suas modincações teoricas, sendo taxativo
ao dizer que ele nao deveria vangloriar-se disso. lreud nao hesita tamlem em
adverti-lo de que, ¨quanto mais se afasta do que e novo em psicanalise, mais
certeza se tem do aplauso e menos resistëncia se encontra¨ (idem, p.¹2.).
8
A primeira carta de lreud a ¦ung, do ano de 191., contem a proposta de que
alandonassem, por completo, suas relações pessoais. lreud diz, nessa carta, que
¨um homem deve sulordinar os seus sentimentos pessoais aos interesses gerais
do seu ramo de empreendimentos¨ (idem, p.¹4¹-¹46).
As cartas revelam que lreud, apesar de varias tentativas, nao conseguiu
convencer ¦ung do equivoco de sua teoria. l visivel tamlem o esforço de lreud
em separar a teoria da amizade, elogiando por diversas vezes o livro de ¦ung.
lortanto, essa radical tomada de posiçao de lreud distingue a psicanalise, den-
nitivamente, da teoria mistica de ¦ung.
l verdade que eles, ainda assim, continuam se correspondendo, porem nenhu-
ma referëncia mais, no sentido da vida pessoal de cada um, e citada. Discutem,
lasicamente, questões institucionais, pullicações e os preparativos para o Con-
gresso de \unique, que seria realizado nos dias 7 e 8 de setemlro de 191..
¦ung visitou a lnglaterra no principio de agosto, com o oljetivo de apresentar
tralalhos na ·ociedade lsicomedica de londres e no 17¯ Congresso lnternacional
de \edicina. Apresentou suas divergëncias com a teoria freudiana da neurose,
propondo que a teoria freudiana fosse lilertada do ponto de vista puramente
sexual e, em seu lugar, fosse levado em conta o ¨ponto de vista energetico¨
(idem, p.¹¹8).
Os desdolramentos da ¨Quarta keuniao larticular¨ ÷ o Congresso de \uni-
que ÷ foram a reeleiçao de ¦ung a presidëncia da llA, emlora dois quintos dos

Carta .2. ¦, 11 de novemlro de 1912, p.¹21.

Carta .24 l, 14 de novemlro de 1912, p.¹2..
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presentes lhe tivessem negado apoio, e a renuncia deste como editor do (s|r|a:|
lar ¡s,:|asas|,|is:|. aa1 ¡s,:|a¡s||a|a¿is:|. íars:|aa¿.a (Anuario de lesquisas lsicana-
liticas e lsicopatologicas). Com a saida de ¦ung, a editoraçao passa as maos de
larl Alraham. O proximo volume aparecera em meados de 1914 e continuara
a ser pullicado por mais um ano, mas com outro titulo (s|r|a:| 1.r ís,:|asas|,s.
(Anuario da lsicanalise). Uma consequëncia importante a ser destacada desse
periodo e, sem duvida, os dois tralalhos de lreud pullicados logo no primeiro
volume solre as diferenças entre os seus pontos de vista e os de ¦ung e Adler.
·uas considerações encontram-se muito lem descritas em ¨A historia do mo-
vimento psicanalitico¨ (lklUD, 1914a/1990) e em ¨·olre o narcisismo uma
introduçao¨ (lklUD, 1914l/1990).
A LlßlD0 E A P8l008E: A BEALlDADE EM ÇüE8TÃ0
O tema da realidade ja e anunciado nas primeiras correspondëncias de lreud e
¦ung. Apesar de nao ncar claro como ¦ung denne e constroi sua noçao de realidade,
lreud deixa explicito que a condiçao para que a realidade seja constituida e a de
que algo seja sultraido ao sujeito, funcionando como indice de uma realidade
externa. l esse vazio suljetivo que organiza e corrige o mundo interno.
lm 189¹, lreud elalora um projeto, conhecido como ¨lrojeto para uma
psicologia cientinca¨ (lklUD, 189¹/1990), no qual sua amliçao e apresentar
uma psicopatologia nos moldes de uma Ns|ar.iss.as:|sl|, ou seja, ele constroi um
modelo de aparelho psiquico que funciona segundo o modelo do arco renexo e
e constituido por sistemas de neurônios que recelem a quantidade de excitaçao
e a descarregam, tornando-se de novo vazios. :esse tralalho, lreud demonstra
a funçao primaria do aparelho psiquico, que e a tendëncia a descarregar toda a
excitaçao que o perturla, negando, dessa forma, o seu proprio funcionamento.
\as, como o aparelho deve manter-se funcionando, faz-se necessaria a introduçao
de uma funçao secundaria, expressa no principio de conståncia.
lreud apresenta as duas experiëncias fundamentais capazes de desencadear
a constituiçao da realidade para o sujeito as experiëncias de satisfaçao e de dor.
Amlas as experiëncias sao necessidades do organismo e exigem que se realize no
meio externo uma ¨açao especinca¨ para eliminar a excitaçao. lssa açao so pode
ser realizada por um outro que venha a funcionar como força auxiliar do sujeito.
l, portanto, a eliminaçao da tensao decorrente dos estimulos internos que da
lugar a vivëncia de satisfaçao. 1oda vez que o estado de excitaçao e a percepçao
do desprazer reaparecem, a lemlrança do oljeto de satisfaçao sera reativada em
lusca da descarga, produzindo, assim, a alucinaçao. :o funcionamento primario,
o aparelho nao distingue entre o que e percelido e o que e lemlrado.
lssas duas experiëncias fundamentais ÷ a de satisfaçao e a de dor ÷ deixam
um residuo, que e o afeto, no caso da dor, e o desejo, no caso da satisfaçao.
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1ratando-se de desejo, ha uma atraçao primaria pelo oljeto, ja quanto ao afeto,
ha uma repulsa, uma aversao a investir a imagem do oljeto hostil, constituindo
a defesa primaria (recalque). O processo primario do funcionamento psiquico
e caracterizado, portanto, pela atraçao e pela defesa primarias, mecanismos das
experiëncias de satisfaçao e de dor, respectivamente. Alem disso, esse processo
primario visa a identidade de percepçao tanto o oljeto temido quanto o oljeto
desejado sao apresentados como percelidos e nao como lemlrados, ou seja,
eles sao alucinados. lreud supõe a iniliçao desse processo para que a realidade
possa ser representada psiquicamente. lle impõe, portanto, um outro tipo de
funcionamento, luscando nao mais a identidade de percepçao, mas a distinçao
entre o que e percelido e o que e apenas lemlrado (lklUD, 189¹/1990).
Como o principio de prazer nao e capaz de distinguir o oljeto real do oljeto
alucinado, e necessario um principio de correçao que connra ao aparelho psiquico
uma enciëncia minima, que sera dada pelo principio de realidade.
O principio de realidade nao diz respeito ao mundo exterior enquanto tal, mas
aos signos que o indicam. lle atua no nivel do processo secundario, regulando
o que lreud denominou a.:.ssi1s1. ·i|s|. lara lreud, e necessario que haja uma
suspensao da açao, ou seja, uma iniliçao da descarga por parte do eu para que
possa haver uma diferenciaçao entre percepçao e lemlrança e, assim, o processo
de pensar se instale. ·e a iniliçao nao ocorresse, a intensidade do investimento
seria semelhante a produzida pelo oljeto externo e a distinçao entre percepçao
e lemlrança seria impossivel.
lreud atrilui um elemento comum a percepçao e ao desejo, denominan-
do-o 1ss lia¿. lssa estrutura constante nao pertence, contudo, propriamente a
nenhum dos dois, mas e em torno dela que as representações se organizam.
lxterior e estranho, 1ss lia¿ nca fora daquilo que e regulado pelo principio de
prazer. Apesar de permanecer como um indice exterior irrepresentavel, pode-
mos ¨representar¨ 1ss lia¿ como um vazio ou um furo, indice da :aiss. lla faz
presença emlora esteja ausente. l um vazio que nao pode ser preenchido por
oljeto algum. A açao especinca trata justamente de reencontrar 1ss lia¿, o oljeto
que esta no centro da experiëncia de satisfaçao. O que foi guardado na memoria
como traço, como informaçao a respeito de 1ss lia¿, sera representaçao, regulada
pelo principio de prazer.
:o processo primario, trata-se de fazer coincidir a imagem do oljeto com
sua representaçao. A realidade esta ai justamente para vialilizar a procura do
oljeto, nao mais tentando uma identidade perceptiva e sim uma identidade
mental por meio do processo secundario. lacan ajuda o leitor a captar melhor
essa construçao de lreud, ao anrmar que a caracteristica fundamental do apa-
relho psiquico e que ele esta feito nao para satisfazer a necessidade, mas para
alucina-la. O principio de realidade, como principio de correçao, nao corrige
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o mundo interno em relaçao ao mundo externo, mas corrige o mundo interno
em relaçao a ele proprio (lACA:, 19¹9-60/1997).
:esse ponto reside outro alismo que separa eternamente lreud de ¦ung en-
quanto a originalidade de lreud diz respeito ao reencontro externo traumatico
com a Coisa, ¦ung reinscreve o topico do inconsciente na prollematica da jornada
espiritual de autodescolerta interior. ¦ung vai luscar no nucleo mais profundo
da personalidade do sujeito o seu verdadeiro s.|l e, em lreud, nao e isso que e
encontrado, mas sim a ¨proton-pseudos¨ ÷ a mentira primordial.
9

As elalorações de lreud solre 1ss lia¿ apresentadas no ¨lrojeto¨ tornam-se
mais claras quando lidas com o auxilio de um outro texto, curto, mas de igual
densidade, ¨A denegaçao¨ (lklUD, 192¹/1990), pullicado trinta anos depois
do ¨lrojeto¨. :esse tralalho, lreud apresenta as operações primordiais que de-
nnem a constituiçao do sujeito e, consequentemente, seu campo de realidade.
lle mantem a hipotese de que ¨algo¨ deve ser expulso, deve estar fora, deve ser
perdido, para que esta perda seja incluida, seja aceita pelo sujeito e possa ser,
ennm, negada. O esforço a ser feito para assimilar essa operaçao deve dar-se
num tempo logico, mitico e nao cronologico.
lsse texto adverte-nos que a antitese entre suljetivo e oljetivo nao existe
desde o inicio. lssa antitese surge do fato de que o pensamento e capaz de tra-
zer a mente algo que ja tinha sido percelido antes, reproduzindo-o sem que o
oljeto externo esteja presente. O principal oljetivo do teste de realidade nao e,
portanto, encontrar na percepçao real um oljeto que corresponda ao represen-
tado, mas sim reencontra-lo. Assim, uma precondiçao para o estalelecimento do
teste de realidade consiste em que os oljetos que outrora traziam satisfaçao real
tenham sido perdidos (lklUD, 189¹/1990). A condiçao da prova de realidade
e o oljeto perdido ela exige e força a representaçao a veicular uma falta ÷ a
perda do oljeto corresponde a alertura do sistema fechado (exclusivamente
econômico) e a ascensao ao mundo da signincaçao e o processo de nascimento
do sujeito e da sua realidade. 1rata-se de pôr a prova o exterior pelo interior,
da constituiçao da realidade do sujeito na redescolerta do oljeto. O oljeto e
reencontrado numa lusca, uma vez que nao se encontra jamais o mesmo oljeto
(lACA:, 19¹¹-¹6/1992).
O texto ¨A denegaçao¨ (lklUD, 192¹/1990) e um orientador nas elalora-
ções de lreud solre o processo segundo o qual se constitui o dentro e o fora
do sujeito, ou melhor, como se constitui o campo em que o sujeito se insere,
quais as consequëncias, para o sujeito, do movimento da lilido. A operaçao que
vialiliza a estruturaçao desse campo da realidade e o par, chamado por lreud de

A ¡ra|aa ¡s.a1as e uma representaçao enganadora que esconde uma verdade inconsciente cujo
sentido so se torna acessivel s ¡as|.riari. 7er lreud, ¨lrojeto para uma psicologia cientinca¨,
p.479-482.
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Aass|assaa¿-8.¸s|aa¿, a saler, expulsao-anrmaçao. A consequëncia psiquica dessa
operaçao e a v.ra.iaaa¿, o mecanismo da denegaçao, que comporta o simlolo da
negaçao e permite ao sujeito tomar conhecimento de algo que foi recalcado. l
pela via do ¨nao¨ que se pode dizer o ¨sim¨, e o certincado de origem. Ao Vs1.
ia 6.rmsa, de lreud, propomos o Vs1. ia ísi a inclusao dessa operaçao no sujeito
e o certincado de que houve a transmissao de um lai.
A psicose se da exatamente no nivel dessa operaçao, ou seja, a operaçao ex-
pulsao-anrmaçao nao se efetua e o resultado nao e a v.ra.iaaa¿, mas a v.r..rlaa¿,
traduzida por lacan como lars:|as1a. Como a necessaria operaçao que da inicio
ao processo de simlolizaçao e que insere o sujeito na vida, enquanto vivo nao
ocorre, o sujeito se encontra fora do universo simlolico, largado e a deriva, sem
possililidades de ancorar-se no enquadre que a realidade proporciona.
00N0Lü8Ã0
:a origem da psicanalise, acompanhamos a trajetoria de lreud, em sua interlocu-
çao com lliess, propondo a produçao da lilido a partir das excitações somaticas,
numa tentativa de explicar a neurose de angustia como uma intoxicaçao. O in-
tercåmlio entre eles prosseguiu, apoiando-se no interesse comum em produzir
um saler solre a sexualidade. A lilido e um dos pontos de contato dos estudos
de amlos. lm lliess, a teoria da lilido comporta o nuxo periodico da sulståncia
sexual, que se desloca por toda uma serie de orgaos no corpo. lara explicar a
neurose, lreud acrescenta a tese niessiana da periodicidade menstrual da descarga
sexual, a dimensao do estado toxico como paradigma da angustia.
Acreditamos que a toleråncia inicial de lreud as ideias de ¦ung se deva exata-
mente ao seu historico com lliess. O suiço se introduz nesta fresta, capturando
o ideal de lreud em relaçao ao progresso da ciëncia, a saler, a elucidaçao dos
aspectos toxicos da origem da lilido. ¦ung era um pesquisador, disposto a apli-
car a tecnica psicanalitica em seus pacientes psicoticos e a divulga-la no meio
cientinco de zurique. A teoria junguiana da lilido, como vimos, sofre trans-
formações que alcançam a esfera do transcendente visando o renascimento a
lilido e essencialmente simlolica.
As consequëncias imediatas do delate entre lreud e ¦ung levaram o primeiro
a retomar uma discussao ainda mais antiga, anterior a discussao com o psiquiatra
suiço a propria constituiçao da realidade. lle e levado a dar maior consistëncia
ao que vinha desenvolvendo a partir do ¨lrojeto¨ solre o fato de a realidade
se conngurar em funçao de pontos de contato com o oljeto perdido. A realidade se
organiza a medida que o sujeito se depara com sinais da primeira experiëncia de
satisfaçao. O que o sujeito lusca e o reencontro com o oljeto outrora perdido,
ou seja, com o oljeto que lhe foi extraido, com a lilido (sexual) que lhe foi
sultraida. \as esse oljeto so e reencontrado, no maximo, como saudade.
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kecelido em 2./¹/2006. Aprovado em 1¹/8/2006.
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